Em Guerra que Cobra Fuma, Alagoano é Convocado- Sérgio Lima Conceição
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
Sérgio Lima Conceição
EM GUERRA QUE COBRA FUMA, ALAGOANO É CONVOCADO
Maceió – Alagoas
2015
SÉRGIO LIMA CONCEIÇÃO
EM GUERRA QUE COBRA FUMA, ALAGOANO É CONVOCADO
Dissertação de Mestrado apresentado ao
Programa de Pós-Graduação em
História
da Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para a obtenção do grau de
Mestre em História.
Orientadora: Prof.ª Dr.ª Ana Paula Palamartchuk.
Banca Avaliadora:
Prof. Dr. José Alberto Saldanha de Oliveira.
Prof.ª Dr.ª Michelle Reis de Macedo.
Maceió – Alagoas
2015
A COBRA FUMANDO
Eu vi a terra tremer,
Eu vi o mundo se acabando.
Eu vi a morte de perto,
Eu vi a cobra fumando.
Foram cinco contingentes
De soldados do Brasil,
Que somados todos juntos,
Mais de vinte cinco mil.
Muitos ficaram na Itália,
No cemitério de Pistóia,
Não voltando para casa
Para contar a história.
Foi uma guerra terrível,
Sem igual nem precedentes.
Morreram pra muito mais
De cem milhões de viventes.
Nossa tropa era bem moça,
Valente e de qualidade.
Muitos dela deram a vida
Em troca de nossa liberdade.
A lei da guerra é terrível, é coisa de estarrecer.
È uma lei desumana:
Matar para não morrer.
(...)
Eu vi cabeça sem corpo.
Também vi corpo sem braço.
Por todo lado se viam
Os companheiros aos pedaços.
Naqueles campos sinistros
Aconteceu muita desgraça.
Mas, ficou gravado para sempre
A epopéia de uma raça.
(ALBURQUEQUE, Macário L. de. Coletânea
Poética. Maceió: Print Shop, 2003, p.18-19).
AGRADECIMENTOS
Hoje entendo porque os agradecimentos devem ser feitos por último. Mais de dois
anos se passaram, desde o momento em que tive a felicidade de ver meu nome na lista dos
aprovados para o ingresso no mestrado de História da UFAL, e fico pensando sobre a
quantidade de pessoas que me ajudaram desde aquele momento inicial. O número é
verdadeiramente expressivo. Colegas, professores, amigos, minha família, ente outros que
tanto me entenderam e respeitaram este momento tão especial na minha vida.
Peço primeiramente que me desculpem por não ter sido mais atencioso e amigo nas
horas que me pediram auxílio. Mesmo não sendo omisso e nem indiferente, sei que poderia
ter participado e colaborado muito mais do que acabei fazendo. Esse talvez seja o maior de
todos os problemas enfrentados por mim nestes mais de dois anos. A conciliação entre o
profissional e o pessoal me desgastou muito, mas espero que tenha valido a pena.
Como tentativa de redenção e como exteriorização dos meus mais profundos
sentimentos de amor, afeto e carinho agradeço ao meu pai Osmar, meu eterno conselheiro e
exemplo maior de honestidade; à minha mãe Regina, poço de fé e de compreensão; às minhas
irmãs Karlene e Karleide, sempre as mais inteligentes; ao meu irmão Zifa, o mais sonhador,
por isso o mais verdadeiro; às minhas sobrinhas Maria Kamila e Vitória, lindas em todos os
sentidos; à Kalil, meu sobrinho querido e que tantas alegrias ainda há de nos dar.
Em nome de Sr. Geraldo e de D. Ivete, pais da minha esposa, agradeço por tudo.
Representam a minha segunda família, que me adotou e me ajudou não só no apoio moral
como também na construção desta dissertação, orientando-me nas viagens e nos lugares que
tive que visitar para poder assim colher as entrevistas e algumas imagens que estão dispostas
neste trabalho.
Não poderia deixar de registrar neste trabalho, da mesma forma, o auxílio de um
outro guia, o meu mais novo amigo Roberval. O seu interesse e a sua boa vontade em me
ajudar, levando-me com o maior prazer a pontos de Maceió que guardam alguma relação com
a participação de alagoanos na Segunda Guerra Mundial, é uma prova de que a amizade e a
solidariedade podem existir entre duas pessoas que se conhecem apenas há pouco tempo. Para
isso, basta que haja certa empatia entre elas.
Agradeço aos colegas de mestrado, meus amigos que sempre pude contar. Apesar de
termos ficado juntos, mais próximos, apenas por um ano, sinto que nossas amizades não se
dissiparão e não se tornarão estranhas com o tempo. Espero sinceramente que possamos num
futuro breve nos encontramos novamente e discutirmos como os velhos amigos fazem.
Dentre os meus colegas, queria agradecer de uma forma muito especial uma pessoa
extremamente solidária e companheira. Gustavo, cara novo, mas que tantos conselhos acabou
me dando, mostrando-me que nem tudo está perdido. A amizade de Gustavo foi uma das boas
coisas que me aconteceram durante esse tempo que estive no mestrado e que faço público o
meu carinho e o meu respeito pela sua pessoa. Acredito muito que as dificuldades possam ser
superadas ou entendidas de outra forma com a ajuda de amigos como Gustavo. Muito
obrigado.
Registro também os meus mais sinceros agradecimentos a Laura Curvelo, amiga de
curso e de luta, uma pessoa companheira e solidária que muito me incentivou a prosseguir e
me auxiliou em alguns momentos neste trabalho. Agradeço a você Laura, por tudo.
Da mesma forma registro os meus mais profundos agradecimentos à minha eterna
colega e amiga Fabiana, que tornou as minhas visitas no IHGAL mais objetivas e mais
proveitosas em todos os sentidos. Fica aqui minha querida amiga um abração desse baiano
que tanto te gosta.
Ao senhor Abel do Amor Divino e a todos os Ex-combatentes alagoanos, verdadeiros
colaboradores desta dissertação os meus mais sinceros agradecimentos. Espero que tenha
conseguido produzir algo à altura das suas contribuições. Sou e serei eternamente grato por
tudo que vocês fizeram por mim.
Aos professores e aos outros profissionais da UFAL também exteriorizo os meus
agradecimentos, por terem me auxiliado e me ajudado tão satisfatoriamente nesta minha
caminhada. Em seus nomes agradeço à minha orientadora Ana Paula Palamartchuk,
muitíssimo obrigado.
E por último agradeço à minha querida esposa Viviane. Vi, não tenho palavras para
descrever o quão importante você foi para mim nestes mais de dez anos. Não teria condições
de enfrentar muitos dos meus medos e receios sem o seu apoio. Aprendi com você que entre
um dia e outro existe sempre uma noite no meio, e é neste momento que a resposta se faz
presente. Você é minha selva: linda, forte e necessária. Espero que possamos continuar nossa
cumplicidade por muitos e muitos anos e que consiga pagar a você todo o meu débito, que
acabou crescendo recentemente com o maior de todos os presentes que alguém poderia ter me
dado: a nossa querida Alícia. Um sonho, sonhado junto e que acabou se tornando realidade.
Um beijo e um cheiro desse eterno devedor.
E não poderia deixar de agradecer, também, ao meu companheiro de noitadas em
frente ao computador, Max. Mesmo não sabendo falar, sempre me acompanhou e espero
acompanhá-lo para sempre. Um afago e um abraço meu amigo chocolate de quatro patas.
RESUMO
O trabalho aqui apresentado tem como objetivo investigar a trajetória de ex-combatentes
alagoanos que participaram direta e indiretamente da Segunda Guerra Mundial, como
convocados das Forças Armadas brasileiras entre os anos de 1944-45. A sua participação
deverá ser analisada com o intuito de confirmar não só o envio de 148 alagoanos para os
campos da Itália, mas, também, de verificar a convocação de outros alagoanos que
defenderam o litoral brasileiro e o seu posterior processo de reintegração social, por
intermédio da criação da Associação dos Ex-combatentes do Brasil Secção Alagoas (AECBAL). Estudar esse tema após quase setenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial, em um
estado que desenvolve pouco incentivo para o registro de sua memória ou da memória de seus
naturais, foi um dos fatores que dificultou sobremaneira a construção dessa dissertação. A
existência de um número reduzido de alagoanos convocados ainda vivos e com vontade de
expressar as suas experiências sobre o período em questão, soma-se ao quadro geral de
dificuldades encontradas durante esses mais de dois anos de pesquisa, mas que foram aos
poucos sendo superadas. Por não se ter registros suficientes de alagoanos convocados na
bibliografia oficial, teve-se que recorrer a depoimentos de alguns homens, com mais de
oitenta anos, que se propuseram a servir como colaboradores desta pesquisa, relatando as suas
experiências antes, durante e após a guerra.
Palavras Chaves: Segunda Guerra Mundial. Ex-combatentes alagoanos. História e Memória.
ABSTRACT
The work presented here, aims to investigate the participation of Alagoas ex-combatants who
participated directly and indirectly in the Second World War, as summoned of the Brazilian
Armed Forces between the years 1944-45. Their participation should be examined in order to
confirm not only sending 148 men from Alagoas to the fields of Italy, but also to check the
convening of others men who defended the Brazilian coast and its subsequent process of
social reintegration for through the creation of the Association of Ex-combatants in Brazil
Alagoas Section (AECB-AL). To study this issue after nearly seventy years since the end of
World War II, in a state that develops little incentive to register your memory or memory of
their natural, was one of the factors that greatly hindered the construction of this dissertation.
The existence of a few men still alive here in Alagoas and willing to express their experiences
on the period in question, adds to the overall picture of difficulties encountered during these
more than two years of research, but were gradually overcome . We did not have sufficient
records of men from Alagoas called in this official literature, it had to resort the statements by
some men, with more than eighty years, that proposed to serve as reviewers of this research,
reporting their experiences before, during and after war.
Key Words: World War II. Ex- Alagoas combatants. History and Memory.
LISTA DE ABREVIATURAS
AECB-AL – Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas.
ANL- Aliança nacional libertadora.
ANVFEB- Associação Nacional dos Veteranos da FEB.
CAN- Correio Aéreo Nacional.
CEBRAP- Centro Brasileiro de Análise e Planejamento.
CFCE- Conselho Federal de Comércio Exterior.
CONAB- Companhia Nacional de Abastecimento.
CPDOC- Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil.
DEIP- Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda.
FAB- Força Aérea Brasileira.
FEB- Força Expedicionária Brasileira.
IAA- Instituto do Açúcar e do Álcool.
IBGE- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
IHGAL- Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.
IUPERJ- Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro.
OFAG- Organização Feminina Auxiliar de Guerra.
PCB- Partido Comunista do Brasil.
SER- Serviço de Assistência Religiosa.
TO- Teatro de Operações.
1ª DIE- 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária.
20º BC- 20° Batalhão de Caçadores.
20º CSM- 20ª Circunscrição de Serviço Militar.
59º BIM- 59º Batalhão de Infantaria Motorizado.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
............................................................................................................
11
...........................................
19
1. BRASIL E ALAGOAS NO CENÁRIO DE GUERRA
1.1.
O Brasil na Década de Trinta: Crise Econômica Mundial e Início do Governo
Vargas
.......................................................................................................................
20
..............................................................
38
1.2.
A Política de Interesses do Estado Novo
1.3.
As Consequências dos Acordos de Guerra em Alagoas
.................................
46
2. SOLDADOS ALAGOANOS NO BRASIL E NA ITÁLIA
........................................
66
2.1.
O Soldado Brasileiro e a Modernização das Forças Armadas
...........................
68
2.2.
Do Processo de Convocação dos Brasileiros para a Guerra na Itália .................
75
2.3.
A Guerra no Front
...............................................................................................
85
..............................................................
97
3. MEMÓRIAS DE GUERRA EM ALAGOAS
3.1.
Memórias de Velhos Sobre os Dias de Guerra
....................................................
98
3.2.
A Memória de Ex-Combatentes Alagoanos Longe do Front ...............................
108
3.3.
A Associação de Ex-Combatentes Secção Alagoas: Um Espaço de Memória dos
...........................................................
121
..........................................................................................
143
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................
149
APÊNDICE A – Entrevista I: Rosalvo José de Souza (14/09/2013
160
Pracinhas Alagoanos da Segunda Guerra
CONSIDERAÇÕES FINAIS
................................
APÊNDICE B – Entrevista II: Ulisses Firmino de Oliveira (14/09/2013)
.................
168
APÊNDICE C – Entrevista III: Abel Silva do Amor Divino (21/02/2014)
.................
177
APÊNDICE D – Entrevista IV: Joaquim Balbino dos Santos (09/03/2014)
.................
185
APÊNDICE E – Entrevista V: Aurino Ribeiro da Silva (12/04/2014)
...........................
193
APÊNDICE F – Entrevista VI: Assis de Barros Costa (21/02/2014)
...........................
200
ANEXOS ..............................................................................................................................
206
11
INTRODUÇÃO
O trabalho aqui apresentado tem como objetivo investigar a trajetória de excombatentes alagoanos que participaram diretamente da Segunda Guerra Mundial, assim
como os convocados pelas Forças Armadas brasileiras entre os anos de 1944 - 1945. A sua
participação deverá ser analisada com o intuito de confirmar não só o envio de 148 alagoanos
para os campos da Itália, mas, também, de verificar a convocação de outros alagoanos que
defenderam o litoral brasileiro e o seu posterior processo de reintegração social, por
intermédio da criação da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas (AECBAL).
Estudar esse tema após quase setenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial, em
um estado que desenvolve pouco incentivo para o registro de sua memória ou da memória de
seus naturais, é um dos fatores que dificultaram sobremaneira a construção deste trabalho. A
existência de poucos alagoanos convocados ainda vivos, e com vontade de expressar as suas
experiências sobre o período em questão, soma-se ao quadro geral de dificuldades
encontradas durante esses mais de dois anos de pesquisa.
A maioria dos depoimentos colhidos de pracinhas alagoanos, que participaram da
Segunda Guerra, foi exclusivamente obtida para este trabalho. Existem poucos registros de
convocados alagoanos para a guerra, como exemplo, tem-se algumas menções em livros de
autores militares1, trabalhos catalogados pelo Exército2, alguns diários3 e reportagens
resumidas, divulgadas em jornais locais4.
As visitas feitas às instituições públicas, civis e militares foram de grande valia na
consecução desta dissertação, no que diz respeito à obtenção da documentação referente à
temática proposta. Mesmo que se tenha observado que o material encontrado em algumas
tenha sido mais substancial do que os obtidos em outras, toda parte documental encontrada foi
utilizada.
Instituições como o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), a
Associação dos Ex-Combatentes do Brasil-Secção Alagoas (AECB-AL), a 20ª CSM e a 59º
Batalhão de Infantaria Motorizado, todos localizados em Maceió, foram locais visitados e de
certa importância para que se pudesse concluir este estudo.
1
MORAES, J. B. Mascarenhas. A FEB Pelo Seu Comandante. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005.
HISTÓRIA Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora,
2001.
3
CANSANÇÃO, Elza. E Foi Assim que a Cobra Fumou, Rio de janeiro: Imago, 1987.
4
S/A, “Oficiais Brasileiros estagiarão nos Estados Unidos: Designados três capitães servindo em nossa capital”.
Jornal de alagoas; 04/05/44, p.02 (IHGAL).
2
12
Da mesma forma que existiram locais de razões sociais diversas, ora de cunho
militar, ora de natureza pública ou particular, a bibliografia aqui utilizada também teve esta
característica. Não se pôde basear esta pesquisa apenas nos estudos de um ou de outro
segmento, houve a necessidade de se estudar textos de autores ou de instituições militares
objetivando encontrar dados ou referências a respeito do tema.
Textos como do General Mascarenhas de Moraes (2005) ou de estudiosos do assunto
como o historiador Frank D. McCann (1982), serviram de base, em certa medida, para esta
dissertação. Essa bibliografia foi analisada juntamente com outros textos de autores que não
fazem parte de nenhuma instituição militar ou que detenham algum vínculo com tal
instituição.
Autores como Gerson Moura (2012), que criticam a bibliografia oficial do Exército,
serviram de contraponto na avaliação a respeito da participação do Brasil na guerra. Destacase o fato de se ter construído uma história pelos militares baseada, em grande parte, apenas
nas ações militares dos soldados no front, esquecendo-se de registrar os interesses do Governo
Vargas quando houve o envio de tropas brasileiras para a Europa.
No caso em questão, queria o governo brasileiro consolidar o seu papel junto às
nações vencedoras e adquirir um acento no órgão internacional de decisões de conflitos entre
os Estados membros, que já estava sendo imaginado antes mesmo do fim da guerra em 1945.
Houve, também, a pretensão do governo brasileiro de manter uma política de influência no
continente, sobre os países vizinhos da América do Sul5.
A ascensão de Vargas ao poder (1930-1945) e a sua consolidação com a implantação
do Estado Novo foram estudadas dentro de uma conjuntura que envolve fatores internos,
como a necessidade do governo em subtrair para si o controle e o apoio de parte da classe
trabalhadora e a adesão de parcela dos segmentos industrial e militar brasileiro, como também
de fatores internacionais com a sua política pendular, onde ora se posicionava em favor da
Alemanha nazista, ora em favor de países que compunham o bloco dos Aliados, em especial
os Estados Unidos.
Os trabalhos elaborados sobre esses três segmentos sociais, que foram cooptados para
apoiarem o Governo de Getúlio, desenvolveram-se ao longo dos anos com várias
interpretações diferentes. No caso da classe operária, especificadamente, optamos pelos
5
MOURA, Gerson. Relações Exteriores do Brasil: 1939-1945 : Mudanças na natureza das relações BrasilEstados Unidos Durante e após a Segunda Guerra Mundial / Gerson Moura; apresentação de Letícia Pinheiro;
prefácio à nova edição de Leslie Bethell.─ Brasília: FUNAG, 2012.
13
estudos de Alexandre Fortes, Fernando Teixeira da Silva e Hélio da Costa6, além de Angela
de Castro Gomes7.
A importância dada por esses autores ao movimento operário dos anos 40 vai de
encontro ao que se tinha produzido, sobre essa década, nos anos 60. Já a interpretação deles a
respeito do papel da classe operária durante a ditadura de Vargas distingue-se das suas
antecessoras, dado o fato de terem concebido os trabalhadores não apenas como agentes
passivos das políticas sociais promovida pelo Governo. Tais autores entendem que esses
agentes participaram e contribuíram de forma decisiva para a construção de uma legislação e
de um modelo de desenvolvimento em que o trabalhador pudesse ter alguns direitos e
algumas garantias confirmadas pelos dispositivos legais.
A preocupação do governo em ter os trabalhadores ao seu lado, garantindo os
direitos sociais, estava intimamente ligada com a sua postura política autoritária frente à crise
que havia assolado o mundo desde 1929 e que se arrastava por toda a década de 30. Esse
quadro internacional de instabilidade não poderia deixar de ser mencionado, visto que Vargas
assumiu o posto de Presidente da República do Brasil no momento em que o mundo vivia
uma de suas maiores crises econômica. A crise de 1929 foi um fator relevante para a ascensão
de ditadores ao poder pelo mundo. Tiveram, como exemplos, os casos da Alemanha com
Hitler, da Itália com Mussolini, da Espanha com Francisco Franco, de Salazar em Portugal e
Vargas no Brasil.
Embora os aspectos econômicos, políticos e sociais do Governo Vargas não tenham
sido o objeto principal desta pesquisa, fez-se necessário, também, estudá-los para que
houvesse um maior entendimento dos acontecimentos publicados nos jornais locais durante os
primeiros anos da década de 40. Foi na procura de referências de alagoanos convocados para
a guerra que se notou nos periódicos uma constante discussão a respeito da questão da
produção sucroalcolera e da borracha no estado8.
As enquetes encontradas nos jornais discutiam o futuro da economia alagoana, que se
via dentro de obrigações impostas pelo Governo federal, baseadas na necessidade de produzir
mais matéria-prima por conta do Esforço de Guerra aos Aliados. Havia uma preocupação por
parte de setores ligados aos produtores de álcool e de cana de açúcar, quanto à diminuição de
6
FORTES, Alexandre. et al. Na luta por direitos: leituras recentes em história social do trabalho. Campinas,
SP: Editora da Unicamp, 1999.
7
GOMES, Angela de Castro. A Invenção do Trabalhismo. Rio de Janeiro: FGV, 2005.
8
Jornais como o Jornal de Alagoas eram constantes as notícias que traziam as reivindicações dos usineiros e
banguezeiros criticando ou defendendo as medidas impostas pelo Governo federal, que eram reflexo direto da
assinatura dos tratados e dos acordos firmados com os países aliados, principalmente com os Estados Unidos.
14
lucro na venda de seus produtos, por conta da concorrência com outros estados de
infraestrutura mais modernizada do que as encontradas no Nordeste.
Essa e outras medidas impostas pelo governo se coadunavam com as questões
externas, advindas por conta da guerra, mas refletia, também, o aspecto autoritário e
dominador do governo brasileiro. A ideia de se ter governos fortes, de cunho intervencionista
e que conseguissem anular a influência da União Soviética sobre a massa de trabalhadores, foi
um dos fatores que levaram a adoção de uma política mais ditatorial, pelos países
supracitados. O Brasil, neste período, se caracterizará por uma postura de regime autoritário,
em que a figura do líder será a base de sustentação do poder e da possibilidade de criar um
caminho de saída para a crise econômica internacional.
Além dos aspectos econômicos que irão marcar o Governo de Vargas, o estudo da
história da política internacional, que compôs o seu Governo, também será lembrada neste
trabalho, alertando para o fato de que por muito tempo o seu estudo ter sido mantido em
segredo. Estudada por autores que conseguiram utilizar uma documentação mais substancial
apenas no final da repressão militar, com a abertura dos arquivos públicos, a política
internacional desse período passou por décadas de interpretações pouco ou quase nada
satisfatórias do ponto de vista historiográfico.
Francisco Teixeira (2010) ateve-se a essa questão e descreveu em um de seus
trabalhos o caminho que a historiografia brasileira passou para poder se chegar a uma análise
menos factual e despolitizada das conjunturas político econômicas do Brasil, principalmente
durante a ditadura Vargas (1930-45).
Foi através de trabalhos organizados por Teixeira (2010), que se verificou a
importância dos acordos firmados entre o Brasil e os países beligerantes na condução da sua
política pendular durante os anos quarenta. Delmo de O. Arguelhes (2010) destaca a
importância que teve as conferências dos chanceleres americanos para o Estado brasileiro
durante o período da Segunda Guerra Mundial9.
A III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas, realizada no
Rio de Janeiro, em 1942, teve como principais pontos a declaração de guerra do Brasil à
Alemanha, o fechamento de acordos comerciais envolvendo a produção de matérias-primas
para a guerra, especialmente a borracha, e algumas restrições que se fizeram sentir nos
estados brasileiros por consequência direta da sua assinatura. Esses acordos internacionais
9
ARGUELHES, D. de Oliveira. A Conferência dos Chanceleres Americanos de 1942 e o Envolvimento
Brasileiro na Segunda Guerra mundial. In: TEIXEIRA da SILVA, F. C. (Org.) et al. O Brasil e a Segunda
Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010.
15
acabaram envolvendo não só os estados mais ricos da federação, como, também, estados mais
pobres, a exemplo o de Alagoas.
A confirmação dessa postura governamental foi sentida na economia e na política do
país praticamente em todo o seu território. A convocação e o envio de soldados brasileiros,
que compuseram o que seria mais tarde denominada de Força Expedicionária Brasileira
(FEB), tornou-se o ato que consolidaria a opção de grande parte do governo de apoiar a causa
aliada. As mudanças ocorridas dentro da corporação militar por conta da guerra também
foram sentidas. Tanto foi assim, que a escola militar deixou de ter como base a linha francesa
e passou a se guiar pela escola de guerra norte-americana (SVARTMAN, 2009).
Muito militares brasileiros detinham certa inclinação à postura militar nazista. Góes
Monteiro e Gaspar Dutra eram alguns desses dirigentes germanófilos, sendo que ambos
ocupariam postos de destaque no governo durante a guerra. Do outro lado, existia um grupo
de governistas, liderado por Oswaldo Aranha, que defendiam uma aliança com os Estados
Unidos.
A posição pró-Estados Unidos saiu vencedora. Alguns setores militares, apesar de
não verem com bons olhos o apoio aos norte-americanos, tinham, como parte do setor
industrial, a ideia de conceber o Brasil como uma potência regional. Para tanto, acreditavam
que a industrialização do país seria uma saída lógica e necessária para a realização desse
projeto (CORSI, 2000).
A construção dessa relação Brasil - Estados Unidos foi feita com base em inúmeras
promessas. Tinha o Governo Roosevelt a pretensão de neutralizar a possível aproximação do
Brasil com a Alemanha. O fortalecimento do armamento militar brasileiro, o envio de recurso
financeiro para a aceleração do processo de modernização e industrialização do país, só se
concretizaram em parte. Havia muita desconfiança do Governo norte-americano para com o
Governo Vargas.
Tentando tornar as negociações mais atrativas para os Estados Unidos, o Brasil
concedeu ao seu vizinho do norte pontos estratégicos do seu território, localizados em grande
parte no nordeste brasileiro, como garantia para que os acordos fossem cumpridos. Já tendo
acesso às matérias-primas produzidas para a guerra e agora com acesso livre aos locais mais
estratégicos do país, os Estados Unidos prontamente aceitaram as novas condições (MOURA:
2012).
Mesmo assim, precisou-se que comandantes brasileiros fizessem várias visitas aos
Estados Unidos para que pudessem observar as táticas e os equipamentos do Exército norte-
16
americano. Essas visitas tinham também o objetivo de demonstrar o desejo brasileiro de
participar da guerra (MOURA, 2012).
O treinamento, o embarque e a efetiva entrada na guerra no Teatro de Operações na
Itália foram acontecimentos que também puderam ser estudados e que juntos fizerem parte da
construção de uma força expedicionária que representasse o Brasil na Segunda Guerra
Mundial. Autores como a Major Enfermeira Elza Cansanção (1987), o jornalista Joel Silveira
(1987), o soldado Carlos Scliar entre outros que puderam participar diretamente do conflito,
ajudaram no entendimento da guerra na Itália e da formação do contingente de soldados
brasileiros que dela participaram.
As discussões que envolveram a formação do soldado brasileiro naquele momento
específico são as mais variadas possíveis. As publicações dos periódicos da época, com o
depoimento de comandantes brasileiros, sobre o grau de formação dos seus soldados são
bastante questionadas. Alguns soldados que foram convocados e que participaram da guerra,
em depoimentos posteriores, confirmam a falta de condições físicas, psicológicas e materiais
do Exército brasileiro no conflito.
Esses depoimentos foram colhidos ao longo dos anos, em alguns registros de excombatentes que acabaram sendo feitos pouco tempo depois de a guerra ter terminado. Outros
continuam sendo elaborados, contudo, pelo fato da Segunda Guerra Mundial ter acabado em
1945 e de ter os ex-combatentes atualmente uma saúde frágil, consequência, na maioria das
vezes, das suas idades avançadas, tais depoimentos tornaram-se cada vez mais difíceis.
Ao todo foram seis alagoanos que conseguimos entrevistar. Os senhores Abel do
Amor Divino, Rosalvo José de Souza, Ulisses Firmino de Oliveira, Joaquim Balbino dos
Santos, Aurino Ribeiro da Silva e Assis de Barros Costa. Todos tiveram a espontaneidade de
relatar as suas impressões da guerra e tentaram estabelecer um nexo de relação entre a sua
vida durante e depois de terem sido convocados para defenderem o Brasil.
A nossa preocupação maior quanto às entrevistas era de tentar não alterar as
expressões e os sentidos empreendidos pelos ex-combatentes alagoanos sobre a Segunda
Guerra Mundial. Tiveram, acima de tudo, a boa vontade e o compromisso de nos relatarem
aquilo que viram e o que sentiram naqueles momentos tão cheios de dúvidas sobre o futuro do
mundo e deles mesmos.
Para estudarmos as lembranças desses velhos combatentes alagoanos utilizamos o
trabalho de Ecléa Bosi (1994) que analisa o papel do velho na sociedade contemporânea,
apontando o seu lugar como agente detentor da obrigação de lembrar, em uma sociedade cada
vez mais esquecida do seu passado.
17
A falta de memória de um país ou de um estado sobre determinados acontecimentos
pode ser vista também como a ação de instituições governamentais que se acham no direito de
criarem uma memória que seria considerada por elas como a única possível de ser estudada.
Contra essa posição, de se ter apenas uma memória oficial como base de estudos, foi de
grande valia para este trabalho os estudos de Pollak (1989), que descreve sobre as memórias
subterrâneas, entendemo-las como aquelas que foram por muito tempo soterradas pelos
discursos e pelas práticas de setores ligados a algumas instituições oficiais, no caso em
questão, setores militares e governamentais.
Algumas instituições privadas, diferentemente das ligadas diretamente aos governos,
tiveram sua cota de contribuição nesta dissertação. Foi caso das Associações de Excombatentes do Brasil (AECB), em especial, a Secção alagoana. Somada a alguns poucos
lugares que ainda detém um espaço reservado à memória dos ex-combatentes alagoanos da
Segunda Guerra, a Associação de Alagoas representa um local que apesar de ser necessário
para o estudo desses homens e mulheres, passa atualmente por grandes problemas financeiros
e de continuação na divulgação da memória de seus associados.
Os trabalhos de Francisco Ferraz (2012) e de Patrícia Ribeiro (2013) apontam para
necessidades imediatas de se ter no país políticas publicas de incentivo à sua memória de
guerra. O quadro de descaso para com os ex-combatentes e suas respectivas associações
torna-se, assim, reflexo de tantos outros descasos e atitudes contrárias à manutenção e ao
desenvolvimento de espaços de memórias, sabidos pelo poder público e que se mantém ainda
longe de serem solucionados.
Todas essas questões que foram dispostas nesta introdução serão desenvolvidas em
três capítulos. No primeiro, “Brasil e Alagoas no Cenário de Guerra”, será descrito,
preliminarmente, o início do Governo Vargas, abordando a sua política de cooptação dos
trabalhadores, o apoio de outros setores e a proposta de industrialização nacional. Será
discutida a política pendular do governo brasileiro, que ora se direcionava para os países do
Eixo, ora se declinava para os países do bloco dos Aliados, principalmente com relação aos
Estados Unidos.
O reflexo das medidas tomadas pelo governo, quando da assinatura dos acordos
firmados na III Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas, acontecida
no Rio de Janeiro, em 1942, também será analisada. O Estado de Alagoas, assim como outros
estados da federação, vão tentar se adaptar à nova realidade imposta pelo governo, por conta
da política do esforço de guerra. Uma dessas mudanças acontecerá na produção da borracha
no estado, que envolverá o seu setor sucroalcooleiro.
18
O II capítulo, “Soldados Alagoanos no Brasil e na Itália”, foi desenvolvido em torno
dos pracinhas de Alagoas e de outros ex-combatentes brasileiros. Para tanto, foi estudado as
suas convocações, passando pela preparação para o combate, até a efetiva viagem para a Itália
e a entrada definitiva ao lado dos Aliados contra o Eixo no Teatro de Operações italiano. As
dificuldades que passaram ao longo de sua preparação, a despedida sem certeza de volta, o
frio, a fome e o medo são alguns dos vários sentimentos que atormentaram o soldado
brasileiro durante seu convívio mais próximo com a morte durante a guerra.
Alguns relatos de alagoanos que participaram diretamente da guerra vão ser
transcritos nesta dissertação, sendo parte de bibliografias elaboradas com o intuito de
preservar a memória dos soldados brasileiros da FEB. Entrevistas feitas exclusivamente para
esta pesquisa, com soldados alagoanos, também elencarão o quadro de depoimentos que serão
utilizados nessa parte do trabalho.
No III capítulo, Memórias de Guerras, tentamos registrar as falas dos ex-combatentes
alagoanos, suas memórias da guerra e de vida, de uma forma mais destacada, dada a
importância desses depoimentos não só para a conclusão dessa dissertação, como também
para se somar aos outros trabalhos de registro da memória de outras pessoas que também
foram convocadas para a Segunda Guerra Mundial e só agora estão sendo ouvidas.
Ficará registrado, também no terceiro capítulo, o trabalho desenvolvido pela
Associação de Ex-combatentes do Brasil - Secção Alagoas (AECB-AL), quanto à preservação
dos espaços de memória, do patrimônio histórico de Alagoas referente à Segunda Guerra e o
auxílio aos soldados que dela participaram. O papel de lugar de memória desempenhado pela
associação alagoana de ex-combatentes será visto como um local em que o registro do
passado sobre essa guerra pode-se tornar uma das poucas referências para o seu futuro.
19
1. BRASIL E ALAGOAS NO CENÁRIO DE GUERRA
Antes da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, alguns acontecimentos irão
marcar a sua política interna e externa de adesão aos Aliados e o envio da Força
Expedicionária Brasileira (FEB) para a Itália. A quebra da bolsa de Nova York (1929), o
governo Vargas e os acordos firmados entre o Brasil e os países beligerantes, em especial com
os Estados Unidos, serão sentidos em quase todo o território nacional. Estados como o de
Alagoas que enviou 148 soldados para a guerra e que teve outros naturais convocados para
defender o litoral brasileiro, também sofreram as influências desses acordos e do cenário de
guerra.
Acontecimentos como a crise de 1929, a chegada de Vargas ao poder e a adesão de
segmentos da sociedade para a sua sustentação na criação do Estado Novo, os acordos de
1942 entre os norte-americanos e o governo brasileiro, sem se esquecer de mencionar as
mudanças ocorridas em Alagoas por conta desses contratos deverão ser vistos neste capítulo.
Assim, com a crise de 1929 muitos países se viram numa situação de extrema
dificuldade. Parte do mundo capitalista tentava de alguma forma sobreviver aos problemas
causados por conta da quebra da bolsa de Nova York. O centro do capitalismo vai ser
conduzido por políticas de cunho protecionistas, que variavam conforme o regime escolhido.
A Inglaterra, a França e os Estados Unidos, representando os países de democracia
liberal, vão escolher fortalecer seu comércio com as suas regiões de dominação através de
acordos internacionais. A Alemanha e a Itália, países de regime totalitário, por sua vez,
partiram em busca de novos mercados. Já os países menos industrializados, como os da
América Latina, tentarão, à sua maneira, reverter o quadro de caos econômico, criando
medidas que fortalecessem a sua incipiente indústria.
A crise de 1929 será um dos pontos que desencadeará a detonação da Segunda
Guerra Mundial e que possibilitará a subida ao poder de governos ditatoriais. A necessidade
de se fortalecer diante da crise e o medo da influência da União Soviética, único país que não
sofreu tragicamente a crise econômica, fez com que alguns Estados adotassem a ideia de
governos fortes, com postura política autoritária e intervencionista. O Brasil foi um deles.
O governo de Getúlio Vargas (1930-1945), que foi instaurado no momento da crise
econômica, é marcado por vários acontecimentos que se relacionavam de alguma forma com
o ambiente externo. A instauração de uma política econômica visando ao processo de
fortalecimento da industrialização brasileira, através de acordos firmados ora com a
Alemanha Nazista, ora com os Estados Unidos; a cooptação dos trabalhadores através de
20
medidas que davam a entender ser o governo o protetor dos operários; e o apoio a setores
militares ligados ao movimento de 1930, farão de Vargas o principal detentor do poder
político do país em 1937 com o surgimento do Estado Novo.
Durante o Estado Novo (1937-1945), o mundo esteve envolvido na Segunda Guerra
Mundial. As relações comerciais existentes entre as nações foram sendo mais direcionadas de
acordo com a escolha pelo bloco de países desejado. O Brasil, em 1942, corta suas relações
diplomáticas com a Alemanha, declara guerra a ela e inicia uma rodada de acordos com os
Estados Unidos.
Os vários acordos feitos entre os governos norte-americano e brasileiro terão como
objetivo estreitar as relações entre os dois, tanto no que diz respeito ao acesso às reservas
naturais, no caso as brasileiras, quanto a investimentos nos vários setores de desenvolvimento
econômico, partindo na sua maioria dos Estados Unidos para o Brasil. O principal acordo
firmado por eles foi assinado durante a III Reunião de Consulta dos Chanceles das Repúblicas
Americanas (1942). Este acordo repercutirá praticamente em todo o país. A dimensão
política-econômica dele será sentida em vários estados da federação, inclusive em Alagoas.
Estudar a influência dos acordos firmados na III Reunião de 1942 no estado de
Alagoas e suas repercussões no ambiente político-econômico local, juntamente com alguns
aspectos da política internacional de formação e sustentação do governo Vargas, será o
objetivo do primeiro capítulo desta dissertação.
1.1. O Brasil na Década de Trinta: Crise Econômica Mundial e Início do Governo Vargas
Os anos da década de trinta foram marcados por um aprofundamento da crise
estrutural do capital extremamente forte. Tanto os países capitalistas centrais, quanto os de
economia periférica sentiram violentamente o golpe ocorrido no sistema econômico
internacional no ano de 1929. Foi o chamado crack da bolsa de Nova York, que teve como
causas principais a política imperialista das grandes potências econômicas, desenvolvida mais
intensamente no século XIX, e a I Guerra Mundial (1914-1918), prelúdio não só da crise
econômica, como também da Segunda Guerra Mundial.
A ideia de um mundo de paz e fraternidade é diametralmente oposta ao pensamento
político-econômico do final do século XIX e início do século XX. Um novo tipo de
exploração capitalista foi se intensificando nesse período. A esse modelo, deu-se o nome de
imperialismo, que marcará um período da história, de 1875-1914, quando houve um número
21
máximo de governantes tidos como verdadeiros imperadores dos tempos modernos10. Na era
do imperialismo, diferentemente de tudo que se tinha visto até o momento, os elementos
políticos e econômicos já não eram claramente seperáveis (HOBSBAWM, 2010, p.93).
Não dava para separar os motivos econômicos para a aquisição de territórios
coloniais da ação política necessária para este fim. Pois, como afirma Hobsbawm (2010),
o protecionismo de qualquer tipo é a economia operando com a ajuda política”. Tanto
é assim que o autor, citando Lênin, assevera que “essa nova etapa específica do
capitalismo levava á divisão territorial do mundo entre as grandes potências
capitalistas, sendo que as rivalidades entre elas gerariam a Primeira Guerra Mundial.
(HOBSBAWM, 2010, p.104).
Essa corrida por novos mercados servirá, junto com outros fatores, para a eclosão das
duas grandes guerras mundiais, a de 1914-1918 e a de 1939-1945, ou da guerra de 31 anos,
como é definida por Hobsbawm que em um de seus estudos sobre as guerras ocorridas
durante o século XX11, esclarece sobre essa sua opinião alegando a existência de uma única
guerra mundial.
Para Hobsbawm (1995), as duas grandes guerras do século passado correspondem na
verdade a uma só guerra. Para ele a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi, juntamente
com alguns acontecimentos que marcaram o período das décadas de 20 e de 30, como a crise
econômica da bolsa de Nova York, o início da Segunda Guerra. O século XX, de acordo com
o autor britânico, não poderia ser compreendido sem o entendimento da Guerra Mundial de 31
anos12.
Assim, uma das causas da Segunda Guerra Mundial foi a Primeira Guerra, onde
todas as grandes potências europeias participaram - com exceção da Espanha, dos países
Baixos, dos três países da Escandinávia (Dinamarca, Suécia e a Noruega) e da Suíça. Países
de outras regiões - como o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, os Estados Unidos e a Índia
- também tiveram a sua cota de participação direta nesse conflito de estratégia militar, de
armamento bélico, tempo de duração e contingente humano nunca visto anteriormente na
história das guerras13.
10
HOBSBAWM, E. J. A era dos Impérios, 1875-1914. São Paulo: Paz e Terra, 2010,p.98
HOBSBAWM, Eric. J. Era dos Extremos: O Breve Século XX, de 1914-1991. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995.
12
Para Hobsbawm (1995, p.30), a guerra mundial começará no dia da declaração de guerra da Áustria à Sérvia,
em 28 de julho de 1914, até a rendição incondicional do Japão, que ocorreu em 14 de agosto de 1945.
13
Hobsbawm (1995) afirma que antes do início do século XX não existiram guerras mundiais. O campo de
batalha não havia se estendido muito além das fronteiras dos países beligerantes. Ele dá o exemplo das guerras
entre: Inglaterra e França, do século XVIII; Estados Unidos contra o México, em 1846-8, e a Espanha, 1898, e as
várias campanhas que objetivavam a ampliação dos impérios coloniais britânicos e franceses. Para o autor,
“esses conflitos exóticos eram material para livros de aventura ou reportagens dos correspondentes de guerra,
11
22
As consequências da Primeira Guerra Mundial estão, dessa forma, diretamente
ligadas às origens da Segunda Guerra. A assinatura do armistício de guerra entre as potências
vencedoras, celebrada no Tratado de Versalhes, lideradas pela Grã-Bretanha, França e
Estados Unidos, e os países derrotados, representados pela Alemanha e a Áustria-Hungria, vai
ser um dos pontos amplamente criticados pelos partidos ultraconservadores criados durante a
década de 1920.
Alguns Estados que no decorrer do conflito acharam mais conveniente optar pela
neutralidade ou passar para o lado dos países que formavam o bloco de oposição ao da
Tríplice Aliança, como no caso da Itália e do Japão, viram as suas promessas serem
esquecidas ao termino do conflito14. Para esses países a derrota se fez presente não só do lado
dos que efetivamente perderam a guerra, como a Alemanha e o Império Austro-Húngaro,
mas, também, para aqueles que foram impossibilitados de concretizar o que havia sido
acordado no Tratado de Versalhes.
Esse acordo de paz, imposto pelos países vencedores, baseava-se em cinco pontos: a
preocupação com a Revolução Russa (1917); o controle da Alemanha; a redivisão do mapa
europeu, com o objetivo de enfraquecer o Estado alemão e preencher os espaços deixados
pelo Império Russo, Habsburgo e Otomano na Europa e no Oriente Médio; tratava da política
de interesses dos países vitoriosos em relação aos atritos que existiam principalmente entre
Estados Unidos, Grã-Bretanha e França; e, por último, havia o desejo das potências
vencedoras de se ter um acordo de paz que impossibilitasse outra guerra das dimensões da que
havia ocorrido (HOBSBAWM, 1995, p. 39). Como se sabe, falharam.
Embora esses pontos tenham sido sublinhados e bastante observados pelos
acordantes, nenhum deles obteve êxito no transcurso de pouco tempo. A Revolução Russa não
conseguiu ser detida; a Alemanha não se manteve isolada e desmilitarizada; os países
vencedores não sanaram seus problemas de interesses internacionais, principalmente
econômicos; e a paz desejada durou apenas vinte anos, sendo que a guerra que acabou
deflagrada em 1939 tornar-se-ia maior e mais letal do que a de 1914, contrariando o que havia
mais que assuntos de relevância direta para a maioria dos habitantes dos Estados que os travavam e venciam”
(HOBSBAWM, 1995, p.31).
14
Mesmo tendo recebido por conta da sua entrada na guerra do lado dos vencedores, em 1915, alguns territórios
nos Alpes, o Estado italiano ficou insatisfeito. Esse sentimento foi bastante utilizado com o tempo pelo grupo de
militantes do fascismo, que reivindicava a possessão das terras prometidas através de uma política
ultraconservadora e imperialista (HOBSBAWM, 1995, p.44). No caso do Japão, por ser, já àquela época, uma
potencia regional militar e econômica em franco crescimento, a ideia de ter que depender da aprovação de países
como os Estados Unidos e da Inglaterra para a consecução de seus planos imperialistas na região, era algo
desprovido de sustentação, visto que era iminente para o seu crescimento, a obtenção de matérias-primas que
independiam da aceitação ou não das duas potencias ocidentais (HOBSBAWM, 1995, p.40).
23
sido assinado em Versalhes. Como descreve Hobsbawm (1995, p.41) “com exceção das
cláusulas territoriais, nada restava ao Tratado de Versalhes em meados da década de 1930”.
A Liga das Nações, que foi criada como parte do acordo de paz e que tinha o
objetivo de manter as diferenças e os conflitos internacionais sobre controle ente os países
membros, não obteve em boa parte o êxito pretendido. Tornou-se mais um acordo firmado
entre duas potências, no caso Inglaterra e França, do que uma organização internacional.
Estados Unidos, Alemanha e Rússia acabaram não fazendo parte desse pequeno grupo, sendo
que no caso da Alemanha e da Rússia, o preço cobrado pela repressão e proscrição,
respectivamente a esses países, seria o total aniquilamento da Liga (HOBSBAWM, 1995,
p.42).
Analisando as principais causas que tornaram possíveis a Segunda Guerra Mundial,
Hobsbawm alega que:
Apesar disso (dos problemas encontrados quando dos acordos de paz firmados no
final da Primeira Guerra), fosse qual fosse a instabilidade da paz pós-1918 e a
probabilidade de seu colapso, é bastante inegável que o que causou concretamente a
Segunda Guerra Mundial foi a agressão pelas três potências descontentes, ligadas
por vários tratados desde meados da década de 1930 (1995, p.44).
Mas, alerta o autor, como contraponto das ações incisivas da Alemanha, da Itália e
do Japão, houve atitudes omissas por parte da Inglaterra, da França e da URSS, quanto às
medidas tomadas pelos países causadores da guerra. Para Hobsbawm (1995, p.45), faltou uma
ação efetiva da Liga das Nações contra as atitudes imperialistas japonesa e italiana. No caso
da Grã-Bretanha e da França, na opinião do autor, deveriam ter denunciado e agido contra as
objeções declaradas da Alemanha ao Tratado de Versalhes. Da mesma forma, esses países não
poderiam ter deixado de intervir na guerra civil espanhola, assim como, também, não
deveriam ter recuado, da forma como fizeram, quanto às chantagens alemãs para a obtenção
de territórios. A União Soviética também teve a sua parcela de culpa, visto que assinou um
acordo de não agressão com a Alemanha nazista.
Hobsbawm (1995) entende que a Primeira Guerra e a Segunda Guerra mundiais são
uma única guerra, pelo fato de não se ter sanado os problemas e as dificuldades políticas,
econômicas e militares entre as potências mundiais, europeia ou asiática, desde o início de
1914. Esses problemas irão se exteriorizar mais substancialmente em 1939, chegando até
1945, com o fim da guerra, sendo que, mesmo com o seu término, atualmente existem
algumas questões ainda a serem resolvidas, principalmente no oriente como a criação de
Estados independentes naquela região.
24
Somam-se, assim, trinta e um anos de conflito (1914-1945), que na visão de
Hobsbawm (1995), não podem ser entendidos como dois momentos distintos. Mesmo que
tenham existido novos personagens e tenha havido o acréscimo de uma crise econômica não
vista desde a Segunda Revolução Industrial (séc. XIX), os motivos, contudo, que se pensavam
terem sido resolvidos na primeira década do século XX, foram, na verdade, mantidos vivos e
ativos por todo esse tempo.
Gonçalves (2003, p.168), analisando as causas que levaram a deflagração da
Segunda Guerra Mundial, estabelece que apesar delas serem as mais variáveis possíveis, o
fato de já se ter um política de expansão de domínios estabelecida antes mesmo da subida ao
poder dos principais governantes da época da guerra, como Roosevelt, Churchill, Stalin,
Hitler, entre outros, pode-se afirmar que a Segunda Guerra também poderá ser vista como um
acontecimento já desencadeado antes da invasão da Polônia pelo Exército alemão, em 1939.
Para o autor supracitado, apesar dessa ser mais uma de tantas constatações que
envolvem as causas da guerra do final da década de trinta, em um ponto Gonçalves (2003)
acredita que deva ser entendido como central desses estudos. No caso, a crise de 1929. Para
ele, “a guerra foi o resultado perverso de uma conjunção de fatores. Dentre esses fatores, a
devastadora crise de 1929 desempenhou papel central” (GONÇALVES, p.168).
A maioria dos trabalhos utilizados nesta dissertação apesar de não discordar que a
Primeira Guerra marcou o início da Segunda Guerra mundial, contudo, apresentam seus
estudos definido-as ou apenas nomeando-as como dois acontecimentos distintos. Como ponto
de esclarecimento, registramos que a nomenclatura aqui utilizada para definir o período da
participação do Brasil na guerra, será o seguido pela maioria dos autores apresentados nesta
dissertação.
Entendemos que pelo fato do Brasil ter participado ativamente do segundo momento
da guerra dos trinta e um anos e de ter sido este período estabelecido pela grande maioria dos
autores aqui representados, como o da Segunda Guerra Mundial, achamos mais coerente não
alterar essa definição para manter um melhor entendimento e uma melhor ligação com os
acontecimentos que foram por eles e pelos periódicos da época registrados.
O próprio Hobsbawm (1995, p.58), que se utiliza do termo Segunda Guerra para
nomear o último estágio da guerra dos trinta e um anos, esclarece que esta guerra é vista como
uma única era de guerra apenas dentro de uma perspectiva do historiador. Na visão dos que a
viveram, essa guerra se divide em duas, que apesar de se relacionarem, separam-se por um
período denominado de “entre-guerras”, com pouca hostilidade militar, mas que traz no seu
25
interior uma crise econômica de proporções mundiais, que acabou prejudicando grande parte
dos países inclusive o Estado brasileiro.
O envolvimento do Brasil, direto ou indiretamente, dentro desses conflitos é muito
mais abordado após a crise de 1929, do que na primeira década do século XX. Teremos,
assim, um maior número de trabalhos aqui utilizados falando também mais sobre os impactos
causados pela quebra da bolsa de Nova York na política, na economia e na sociedade
brasileira do que sobre as consequências dos quatro anos da Primeira Guerra, que abordem
esses mesmos pontos. Foi no período da crise econômica mundial de 1929 que teremos o
início do Governo Vargas e com ele a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial e a
posterior convocação de brasileiros para dela participarem.
Não é objetivo desta pesquisa analisar minuciosamente a crise de 1929. Fica
registrado, porém, a sua importância não só no panorama internacional, como também, dentro
da realidade brasileira, pois as consequências da queda da atividade econômica norteamericana, centro do capitalismo financeiro, vão repercutir em toda economia internacional.
Países como o Brasil, exportadores de produtos primários, verão a sua taxa de exportação
declinar vertiginosamente. Outros como a Inglaterra, a França e a Alemanha não ficaram
imunes aos reflexos da crise econômica, por conta do fato de terem tomado dos Estados
Unidos vultosas somas em dinheiro (CORSI, 2000, p.22-23).
Sempre os espectros de rompimento assombraram a realidade da estrutura social
dirigida pela classe dominante. No final da década de 1920, tal afirmação era mais plausível e
aceita por muitos, dadas às pressões sociais desencadeadas pelas várias manifestações por
melhoria das condições de trabalho ou mesmo de acesso ao emprego, tão escasso naquele
momento.
Da crise de 1929, surgem duas respostas: as ligadas ao nazifascismo e as ligadas à
experiência soviética. Ambas, neste sentido, se articulam contrárias ao programa econômico
liberal. O país mais rico naquela época eram os Estados Unidos. O seu fortalecimento
econômico pode ser diagnosticado por conta da crise que se abateu sobre a Europa destruída,
no final da Primeira Grande Guerra. Contudo, “o crescimento econômico dos Estados Unidos
propiciou enorme euforia social, dando a falsa imagem de uma prosperidade eterna, como se
o reino paradisíaco da riqueza para todos tivesse sido alcançado” (ARRUDA, 2008, p.13).
Com o crack da Bolsa de Nova York, a crise generalizou-se devido à dependência
dos países capitalistas para com a economia dos Estados Unidos. Muitos Estados deviam
verdadeiras fortunas aos norte-americanos, principalmente os europeus, por conta dos
26
empréstimos levantados com o intuito de reestruturar o continente saído da guerra
(ARRUDA, 2008, p.14).
Um dos países que pouco ou quase nada sentiu em relação aos reflexos do crack de
1929 foi a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A resposta soviética para a
crise foi a sua própria economia planificada, que blindava o seu sistema econômico contra
todo tipo de especulação financeira e de buscas por grandes lucros da iniciativa privada, a
qualquer custo (ARRUDA, 2008, p.23). Além da produção industrial soviética no período em
questão ter triplicado, o seu índice de desemprego era zero praticamente (CORSI, 2000, p.24).
Muitos outros elementos que compunham o quadro geral da crise nos países de
democracia liberal vão tomar formas difíceis de serem remediadas. Questões envolvendo o
desabamento do comércio internacional, do padrão-ouro, a falta de novos empréstimos a
longo prazo, os calotes dos países em grave crise financeira e cambial, sem contar com as
altas taxas de desemprego e da drástica redução da atividade econômica vão criar uma saída
totalmente desconectada com a ideia de integração econômica mundial (CORSI, 2000, p.27).
A base da resposta para saída da crise era o protecionismo e a volta ao mercado
interno, pois “cada país queria proteger-se da crise mundial exportando mais, importando
menos e expandindo seu mercado interno” (CORSI, 2000, p.28). Tal atitude vai acirrar a
concorrência entre as economias nacionais. O papel do Estado, na vida econômica, mudaria
consideravelmente. Parte do pensamento liberal seria aos poucos reformado por uma política
de intervencionismo direto do poder público. Foi assim com os Estados Unidos, a Inglaterra, a
França e com a Alemanha e a Itália.
Pelos Estados Unidos, no governo do presidente Roosevelt, foi criado um plano de
saída temporário para a crise. O New Deal foi um plano de ação econômica, influenciado
pelas ideias do economista inglês John M. Keynes, que se expressou em três direções
estratégicas: medidas financeiras, combate ao desemprego, política agrícola, industrial e de
comércio exterior (ARRUDA, 2008, p.31). Tais medidas surtiram efeito e proporcionou ao
presidente Roosevelt o prestígio entre seus correligionários.
A Inglaterra e a França, além de fortalecerem os seus mercados internos com o
incentivo ao consumo de massa, tiveram como auxílio as relações comerciais com as suas
colônias em outros países. Havia a necessidade, assim, de fortalecer os acordos bilaterais
entre o comércio inglês e o francês e suas respectivas zonas comerciais privilegiadas, como o
continente africano, por exemplo (CORSI, 2000).
No caso de alguns países europeus, utilizou-se de mecanismos políticos de natureza
autoritária para sair da crise. A Alemanha e a Itália são os dois maiores exemplos. Economias
27
frágeis, mas com governos dispostos a enfrentar os limites demarcados pelo imperialismo do
século XIX, como a falta de mercado externo por conta da sua tardia consolidação enquanto
Estado, os prejuízos obtidos por conta da Primeira Guerra Mundial, a onda de desemprego e
da queda econômica da pequena burguesia, somada à falta de perspectiva de amplos setores
sociais, acabaram solidificando a ideia de um governo forte, dirigido por um partido também
forte, como único remédio contra a crise e com condições de bloquear a influência socialista
soviética, pesadelo maior das democracias liberais.
Há que se entender que o intervencionismo estatal na vida dos indivíduos não era, de
forma alguma, uma característica nova do século XX. O que mudou, no entanto, foi o caráter
e a amplitude de sua intervenção. Agora, o Estado regulamentava, direcionava, planejava e
imprimia políticas que objetivavam à manutenção da atividade interna (CORSI, 2000, p.33).
Essa nova postura do Estado diante da crise foi também percebida na América
Latina. No entanto, essa percepção só foi deslumbrada alguns anos depois, quando se
verificou a queda de alguns governos por conta de golpes militares. Até o final da década de
30 e início dos anos 40, havia a crença de que seria possível remediar a crise e voltar ao
estado anteriormente encontrado. Embora não haja uma ligação exclusiva da queda de muitos
governos na América por golpes militares ente os anos de 1930 e 1931, com apenas a questão
econômica, o fato é que de doze governos que caíram nesse período, dez deles foram depostos
por golpes capitaneados pelos militares (CORSI, 2000, p.35).
A tomada de decisão governamental sobre o caos econômico ocorrida nos países
latino-americanos vai se diferenciar a depender da sua expressividade no mercado. Países com
um pequeno mercado interno e externo continuaram desenvolvendo uma política tradicional
de exportação. Já os países que tinham alcançado certo desenvolvimento industrial, tentaram
políticas alternativas15.
O Brasil foi um desses países que adotaram medidas alternativas para diversificar a
atividade econômica não dependendo apenas de um único produto ou de uma única receita de
lucro. Fica, contudo, o registro de que não foi apenas a questão externa que possibilitou o
desenvolvimento industrial de alguns países, inclusive o Brasil. Apesar de ter sido importante,
no entanto, o seu estágio de desenvolvimento industrial, a sua indústria de meio de produção
capaz de sustentar em parte a industrialização, o papel do Estado como condutor do processo
e a correspondente composição de classe que o sustentava, vão ser fatores extremamente
15
São exemplos desse tipo de atitude, o controle das importações, a ampliação da política intervencionista do
Estado na economia, com a compra de colheitas, através do estabelecimento de estoques que regulavam os
principais produtos de exportação, além da decretação de moratórias das dívidas externas e o incentivo à
indústria (CORSI, 2000, p.36).
28
relevantes, também, para o seu processo de industrialização. Isso tomará corpo, no caso do
Brasil, durante toda a década de 1930, no governo de Getúlio Vargas (CORSI, 2000, p.37).
O Brasil, na década de 1930, foi atingido fortemente pela crise de 1929. O preço do
café, principal produto de exportação brasileira, vai ter uma queda descomunal no mercado
internacional. Somado a isso houve a fuga de capitais por conta da tentativa do governo de
Washington Luís manter a política de estabilidade cambial. Tais acontecimentos acabaram
refletindo num desequilíbrio das contas externas, que será notado na economia como um todo
(CORS, 2000, p.37).
Quando Vargas assume o poder e instaura o Governo Provisório, em 1930, a sua
ideia básica não se diferenciava daquelas já pensadas a respeito da crise. Para ele a causa
principal da crise residia na superprodução, e no caso do Brasil isso se dava por conta da
grande quantidade de café existente no país. Mesmo defendendo o corte de gastos públicos e
uma economia mais austera, para o Governo salvar a produção cafeeira era salvar o conjunto
da economia como um todo. Foi assim que ele tomou a decisão de retirar do mercado uma
grande quantidade do produto, para que pudesse haver uma valorização da mercadoria,
consequentemente, impedindo o colapso do setor (CORSI, 2000, p.37-38).
Essa medida por si só não vai tirar o Brasil da crise. Mesmo não sendo objetivo deste
trabalho especificar todas as decisões tomadas pelo governo no campo econômico para
reverter o quadro de desconforto, ficam registradas algumas como o perdão por parte do
governo de metade das dívidas contraídas pelos proprietários rurais, a criação do Instituto do
Açúcar e do Álcool, medidas de incentivo à agricultura, como o estímulo a experiência com
novos produtos, e à indústria, que favoreceu o produto interno com reformas de cunho
protecionistas, melhores preços de matérias necessários a construção, entre outras (CORSI,
2000, p.40).
Basicamente, o Governo Vargas, durante os sete primeiros anos de administração,
vai instituir medidas econômicas que serão reflexo do seu quadro interno de condições. A
ideia do calote da dívida externa brasileira, no ano de 1934, vai ser um exemplo dessa
afirmação. O Brasil, naquele momento, se viu numa condição em que ou pagava o seu débito
externo ou investia no mercado interno. Vargas renegociou as suas contas com os credores e
estabeleceu mais crédito para o mercado interno. O governo gerenciava o país com acordos
cada vez mais pouco ortodoxos. Medidas alternativas, que eram a exceção, foram sendo
tomadas, agora, como regra (CORSI, 2000, p.42).
No período do Governo Provisório, Vargas ainda não apostava na industrialização
como uma possibilidade de desenvolvimento para o Brasil. Neste sentido, “parece que o
29
governo acreditava que a superação da crise e o futuro do país dependiam, sobretudo, da sorte
das exportações de produtos primários” (CORSI, 2000, p.44-45).
Tanto foi assim que os acordos bilaterais firmados com os Estados Unidos nesse
período vão desabonar os industriais brasileiros, dada as baixas tarifas anexadas aos produtos
vendidos do Brasil, como o manganês, cacau, o óleo de babaçu, entre outros, que voltariam a
ser comercializados no país, agora como mercadorias industrializadas pelos norte-americanos
e com preços mais em conta, ganhando, assim, a concorrência no mercado interno (CORSI,
2000, p.46).
Essa política mais voltada para os produtos básicos produzidos pela terra começou a
ser questionada, mais fortemente, durante meados da década de 1930. A criação do CFCE16
em 1934, com o objetivo de estudar e propor soluções para os problemas relacionados ao
intercâmbio externo será fruto da percepção da necessidade do país superar a monocultura.
Isso dava margem ao entendimento de que a presença do Estado na economia deveria ser
ampliada. A criação, também, do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio e do Instituto
do Açúcar e do Álcool (IAA) são exemplos dessa proposta de alargamento do poder do
Estado na economia nacional (CORSI, 2000, p.46-47)
Durante os sete primeiros anos, o governo brasileiro não conseguiu acabar por
completo com os reflexos da crise. A industrialização como saída foi se consolidando mais
fortemente no início do Estado Novo, dentro de uma conjuntura internacional de disputas
imperialistas, entre os países economicamente mais fortes da Europa, e as novas demandas
ocasionadas, por sua vez, pelas transformações econômicas e sociais ocorridas no Brasil,
agora mais visíveis, como, por exemplo, a massa operária e setores ligados aos militares.
O operariado brasileiro dos anos trinta será um segmento social bastante observado
pelo Governo de Getúlio. A lei de sindicalização instituída pelo Ministério do Trabalho já
esboçava como dispositivos centrais o estabelecimento da unicidade sindical e da
obrigatoriedade da oficialização dos sindicatos pelo governo17.
A nova estrutura industrial que o país estava tentando construir nos primeiros anos da
década de 30, juntamente com o setor financeiro, acabará influenciando no perfil do
trabalhador assalariado brasileiro. O aumento do seu número e das suas associações sindicais
vai refletir diretamente no seu novo papel escrito pelo Estado. De grupos de natureza privada
os sindicatos passaram a ser vistos como organismos oficialmente reconhecidos e organizados
pela tutela governamental, dentro de um modelo corporativista (JESUS, 1995, p.83).
16
17
Conselho Federal de Comércio Exterior
Decreto nº 19.770, de 19 de Março de 1931.
30
Em alguns trabalhos, produzidos sobre o tema, como os de Alexandre Fortes,
Fernando Teixeira da Silva e Hélio da Costa18, há uma intensificação maior pelos estudos
desenvolvidos durante os anos da década de 60, sobre o período getulista (1930-1945),
envolvendo o papel do trabalhador dentro da consecução das leis trabalhistas e da situação da
classe operária.
Temas como o corporativismo sindical, a teoria cupulista dos sindicatos e a
manipulação da classe operária, além das lutas dos trabalhadores e dos sindicatos à época do
primeiro Governo Vargas vão ser o objetivo dos estudos desses pesquisadores, que servirá
como base para o entendimento da participação dessa classe neste período.
Os autores supracitados demonstram que pesquisas anteriores, em grande parte,
referem-se ao movimento sindical e aos trabalhadores como grupos que se posicionam diante
das leis trabalhistas e das conquistas por direitos sociais apenas como parte passiva da relação
que envolvia não só o patronato como, também, o Estado.
Eles tentam demonstrar nos seus textos uma posição diferente dessa interpretação,
revelando um movimento sindical capaz de superar algumas limitações impostas pela
legislação criada pelo Governo de Vargas e de desempenhar o papel de representante da
classe operária. Para Fortes, Teixeira e Helio da Costa (1999), o sindicato tinha uma
representação legítima e possuía certa autonomia frente ao governo, diferentemente do que
propunha trabalhos elaborados anteriormente.
Fortes (1999, p.43), utilizando-se de estudos feitos durante as décadas de 70 e 80,
alerta para a possibilidade de ter havido durante o período Vargas o individualismo
corporativista, em contraposição ao sindicalismo burocrático de massas, que teria sido usado
pelo Estado para a execução da sua política de ordem e desenvolvimento19.
Para o autor, no que diz respeito ao sindicalismo corporativista e ao seu papel
durante o período do primeiro governo de Vargas (1930-1945), descrito nos estudos feitos nas
décadas de 70 e início de 80, “este deixava de ser entendido apenas como uma imposição do
Estado ao movimento operário, passando a ser também encarado como o resultado de
18
FORTES, Alexandre. et al. Na luta por direitos: leituras recentes em história social do trabalho. Campinas,
SP: Editora da Unicamp, 1999.
19
Fortes (1999; p.43) no trabalho ora referido, utiliza-se de autores como Maria Célia Paoli com Os
trabalhadores urbanos na fala dos outros: tempo, espaço e classe na História operária brasileira. in José Sérgio
Lei te Lopes (Org.). Cultura e identidade operária: aspectos da cultura da classe trabalhadora. Rio de Janeiro:
Universidade federal do Rio de Janeiro; Museu Nacional Marco Zero, 1988. Éder Sader em Quando novos
personagens entram em cena: Experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo, 1970-1980. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 198. Marco Aurélio Garcia, Os desafios da autonomia operária: São Bernardo, a (auto)
construção de um movimento operário, Desvios, nº1. São Paulo, 1982; Kazumi Munakata, A legislação
trabalhista no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982 e Amnéris Maroni em A estratégia da recusa. São Paulo:
Brasiliense, 1982.
31
contradições internas desse movimento” (FORTES, 1999, p.21). O papel do PCB dentro dessa
articulação de autonomia ou de dependência para com o Estado acabou sendo o mote de
interpretações sobre o papel da classe trabalhadora no Governo Vargas.
Fortes (1999, p.22) afirma que os estudos desenvolvidos nas décadas de setenta e
oitenta apontam para o rompimento com a ideia de passividade operária no pós-30. A
contradição, porém, sentida pelo autor a respeito desses estudos é que apesar das fábricas
serem o local escolhido para o desenvolvimento da autonomia operária, o espaço institucional
do sindicato oficial e da organização partidária, no entanto, eram resistentes a essa mesma
ação autônoma dos trabalhadores. O papel dessa mobilização seria, então, exercido pelo
partido político.
Estudando o movimento sindical ocorrido no Rio Grande do Sul e identificando
algumas áreas de atuação do sindicato em nível nacional20, Fortes (1999, p.23) entende que
tanto os comunistas influenciaram as políticas adotadas a respeito do trabalhador, como a sua
prática era em grande medida condicionada pelas dificuldades presentes encontradas pelo
conjunto do sindicalismo.
Durante o Governo Vargas, o sindicato tinha como papel institucional ser o
interlocutor dos trabalhadores junto ao Estado e ao patronato, nas negociações de melhores
condições e obtenções de direitos para a classe operária. Era preciso manter certa
continuidade das reuniões sindicais e uma organização para que as propostas pudessem ser
discutidas e defendidas pelo sindicato (FORTES, 1999, p.28).
Com a vigência do Estado Novo, a intervenção estatal e o controle sobre os
sindicatos se intensificaria21. Para o autor, o funcionamento do sindicato na capital gaúcha,
durante o Estado Novo, havia perdido o vínculo com as lutas dos trabalhadores. Nota-se tal
postura devido aos discursos proferidos nas assembléias, que no lugar de se pautar as
conquistas de direitos e melhorias para a classe trabalhadora, acabavam focando os seus
trabalhos em algumas palestras e na celebração de eventos em homenagem a Getúlio
(FORTES, 1999, p.37).
O modelo sindical brasileiro se tornou corporativista à medida que o Estado foi
consolidando seu poder centralizador. Esse modelo foi implantado sobre tensões que envolvia
20
Eram áreas de atuação que articuladas conjuntamente definiram o caráter institucional do sindicato das
décadas de 30 e 40. São elas: Reivindicação por direitos, beneficência do trabalhador em caso de não poder
trabalhar, a sua intervenção no mercado de trabalho e a identidade coletiva, que diz respeito a sua autodefinição
enquanto grupo social (FORTES, 1999, p.23).
21
Como exemplo, Fortes (1999, p.37) destaca a presença de representantes do Governo presidindo os trabalhos
realizados em algumas assembleias em Porto Alegre.
32
a prática sindical na busca de uma identidade de classe. A ação sindical tentava generalizar as
conquistas de categorias específicas e os direitos de organização dos trabalhadores,
objetivando a construção dessa identidade classista (FORTES, 1999, p.40-41).
A resposta do Estado a essa atitude sindical foi o aumento da repressão. Tentando
desarticular e desorganizar o movimento sindical, o governo vai radicalizar a sua política de
controle sobre os trabalhadores. O sindicalismo corporativo de massas, citado anteriormente,
tem como base, assim, a ideia de uma transformação das condições do trabalhador pela via
legal, ou seja, dentro de uma ordem jurídica imposta pelo Estado.
Uma das consequências dessa desorganização dos sindicatos foi o afastamento
progressivo de militantes e partidários que apesar de se ausentarem durante todo o período do
Estado Novo, retornaram à luta quando da eclosão das greves de 1945, demonstrando assim,
que apesar das tentativas de tornar o sindicato oficial um lugar sem história, a sua experiência
conseguiu mantê-lo como espaço de luta (FORTES, 1999, p.41)22.
Além do corporativismo sindical, outra questão que envolvia os trabalhadores, os
seus sindicatos, o patronato e o Estado durante o Governo Vargas foi a do cupulismo dentro
do movimento operário, que será estudado por Fernando Teixeira da Silva (1999). Neste
trabalho, o autor demonstra a dependência dos trabalhadores em relação à cúpula do
movimento operário, formada por indivíduos tidos como líderes do movimento de
reivindicações e de confirmação de direitos e de garantias trabalhistas.
Para compreender essa questão, Fernando Teixeira da Silva (1999, p.54) utiliza-se de
alguns autores que desenvolveram estudos a respeito do tema. Francisco Weffort é um deles.
A contribuição de Weffort está ligada ao fato dele ter tratado a classe operária como sujeito
capaz de ação própria, com possibilidades de fazer escolhas com relativa independência
política.
Há no autor, como destaca Teixeira (1999), uma crítica aos estudos feitos
anteriormente sobre a atuação dos trabalhadores a partir da análise da ação de sua cúpula de
diretores. Essa crítica ao cupulismo é baseada no entendimento de que “o desempenho dos
trabalhadores dependeria fundamentalmente das avaliações e opções políticas de suas
lideranças” (TEIXEIRA, 1999, p.54).
22
Como exemplo dessa permanência de luta dos sindicatos, tem-se o caso de Porto Alegre. Com o fim do Estado
Novo, em 1945, a atuação dos sindicatos da capital gaúcha havia retomado. Lideranças que foram impedidas de
participarem de reuniões sobre a liberdade sindical, foram sendo, aos poucos, reintegradas. De acordo com
Fortes (1999, p.38), “se o Estado Novo viabilizou o atrelamento sindical ao Estado, não acabou com o papel da
entidade como cenário da busca de reconstrução da autonomia operária em novas bases”.
33
Francisco Weffort, estudando os sindicatos de trabalhadores do Brasil e do
movimento operário em geral, terá como objetivo central compreender o fenômeno do
movimento sindical cupulista da segunda metade dos anos 50, no Governo JK. Para o autor, a
ideologia nacionalista, defendida mais fortemente pelo partido comunista e defensora de uma
política de desenvolvimento econômico nacional autônomo do capital estrangeiro, não
poderia ser firmada com parte dos grandes industriais ligados mais diretamente ao capital
internacional (TEIXEIRA, 1999, p.55).
Os defensores dessa ideologia passariam a tentar firmar uma aliança com o Estado,
que possuía a direção das empresas estatais e de serviços públicos. No momento em que o
parque industrial brasileiro começou a se desenvolver de forma mais consistente, o
sindicalismo nacionalista estava concentrado nos setores de produção mais atrasado
(TEIXEIRA, 1999, p.55).
Teixeira (1999) descreve que o resultado para Weffort dessa dicotomia setor
moderno/tradicional da economia teria ocasionado “o afastamento do movimento sindical
nacionalista das bases da classe operária, principalmente nas indústrias de ponta”
(TEIXEIRA, 1999, p.55). Por isso, segundo Weffort, o sindicalismo de cúpula politizaria o
movimento sindical e levaria os trabalhadores a discutirem temas que iriam além dos
problemas vividos nas empresas. Essa politização do sindicalismo de cúpula nacional terá seu
ápice na campanha do Governo de João Goulart, pelas reformas de base (TEIXEIRA, 1999,
p.56).
A partir dos estudos desenvolvidos sobre o impacto das greves de 1978-79, ocorridas
em São Paulo e no ABC paulista, houve uma atenção aos movimentos dos trabalhadores
durante a Primeira República, assim como os acontecimentos no final da década de 1970, que
recusariam a crença de um Estado e de uma legislação que se dizia protetora da classe
operária. Escreve o autor:
As experiências operárias nas primeiras décadas do século pareciam compor a
imagem da perdida autonomia originaria dos trabalhadores, guardando semelhanças
com os movimentos grevistas do final da década de 70 e, portanto, completamente
avessa àquela imagem de subordinação que teria marcado o movimento operário nos
pós-30 (TEIXEIRA, 1999, p.57).
Teixeira (1999, p.57-58), destaca que trabalhos recentes além de terem questionado
cada vez mais as teses da cooptação estatal e da manipulação cupulista das lideranças
34
sindicais sobre os operários, traziam novas questões a respeito do papel ativo dos
trabalhadores, tanto no pós-30, quanto no final da década de 7023.
Seguindo essa linha de crítica aos estudos sobre os trabalhadores brasileiros
acontecidos na década de 60, que traziam uma noção das classes operárias pós-30 como uma
classe sem condições e capacidade de lutar e de formular projetos fora do contexto legal, têmse os trabalhos de Hélio da Costa.
Para esse autor, o atrelamento do sindicato ao Estado, por conta da permanência da
legislação trabalhista e sindical, foi o principal ponto de sustentação das teses elaboradas
durante a década de 60. Assim, “os trabalhadores foram tidos como incapazes de se expressar
como classe, levando diversos estudiosos a avalizarem as motivações dessa suposta
fragilidade política” (COSTA, 1999, p.90).
Hélio da Costa (1999) tenta defender no seu trabalho “o progressivo processo de
‘enquadramento’ da memória dos trabalhadores no período anterior a 1964”. Para o autor,
apesar das análises sobre o papel do trabalhador durante os governos populistas, não se vê,
contudo, nesses trabalhos uma classe operária cooptada pelo Estado. Há uma intensificação
dos estudos quanto às atitudes, às opções políticas, às lutas em fábricas e bairros, ao
pensamento de suas lideranças, dos governantes e de seus patrões ainda pouco estudada.
Assim, afirma o autor:
Neste texto, pretende-se resgatar um pouco dessa experiência dos trabalhadores em
São Paulo, no período de 1943 a 1953, procurando dirigir o foco além dos
enunciados formais, ainda que estes não deixem de ser considerados, captando a
complexa realidade de luta dos operários paulistas com suas ambiguidades,
contradições, vitórias e derrotas que marcaram esse período (p.91).
Ele vai falar sobre a política de defesa da entrada dos trabalhadores nos sindicatos,
como se essa fosse uma atitude positiva para aqueles que quisessem efetivamente ter seus
direitos defendidos por uma instituição legalmente criada. Seria o que ficou conhecido como
desenvolvimento dentro da ordem. Ordem imposta pelo Governo, que apelava aos
trabalhadores para que se sindicalizassem (COSTA, 1999, p. 92-94).
Além dessas mudanças na legislação trabalhista, por conta da lei de esforço de
guerra, as reivindicações dos trabalhadores foram limitadas. A proibição de greve,
23
Estudando os trabalhadores do Porto de Santos, o autor tenta dialogar as teses de cooptação estatal e do
cupulismo sindical, reduzindo-as a um estudo de caso em que, como ele mesmo afirma além de servir de base
para outros estudos por conta da sua importância, enquanto exemplo de movimento operário que está ligado à
crise político-institucional, trata dos trabalhadores dos setores públicos estatais, que é uma categoria que se
encontra dentro das contradições sindicais antes de 1964 e que está presente nas teses do cupulismo (TEIXEIRA,
1999, p.58).
35
interpretada pelo governo como crime contra a segurança nacional, sendo os grevistas
passíveis de condenação à reclusão de dois a seis anos, será um desses exemplos. Mesmo
assim, houve a eclosão de algumas greves no país. O autor cita o caso da Lanifíciio Varan,
uma das indústrias brasileiras do ramo têxtil, e da Cia. Laminação de metais, que era
fabricante de armas automáticas, aonde os trabalhadores cruzaram os braços (COSTA, 1999,
p.94-95).
A maioria dos sindicatos se manteve do lado do governo, sendo contra a atitude dos
grevistas. A sua defesa baseava-se na contribuição dos trabalhadores para a produção de
riqueza, que, a seu ver, eram naquele momento indispensáveis para a política de esforço de
guerra do país. Diziam os sindicatos que os soldados da retaguarda, que eram os trabalhadores
do Brasil, tinham apenas o seu trabalho como forma de luta e que não podiam se negar a dar
sua contribuição aos soldados envolvidos diretamente no conflito (COSTA, 1999, p.96).
Houve um descontentamento por parte dos trabalhadores tanto em relação à difícil
situação que estavam passando, por conta do arrocho das leis impostas pelo governo, quanto
pela falta de desempenho a seu favor pelos sindicatos24. Essa atitude dos trabalhadores,
segundo Hélio da Costa (1999), ira contagiar a sociedade que já sentia a mudança do regime
ditatória de Vargas, para o processo de abertura democrática. O autor assim descreve a nova
posição dos trabalhadores em relação ao seu papel na condução das propostas junto ao
governo:
Apesar das iniciativas governamentais no sentido de atrair os trabalhadores para os
seus sindicatos, isto só aconteceu quando estes alteraram seus procedimentos
organizativos. Enquanto a prática burocrática e passiva se manteve, foram os
trabalhadores organizados nos seus locais de trabalho que deram o tom das grandes
manifestações operárias no período de democratização do país. O protagonismo
social e político dos sindicatos nesse período e nos anos subsequentes dependeu da
capacidade destes traduzirem para a ação sindical as múltiplas demandas nascidas no
espaço fabril (COSTA, 1999, p.98).
Dentro dessa nova postura do movimento operário pós-1930, é importante ressaltar
também o trabalho de Ângela de Castro Gomes (2005), que está centrado na construção da
ideologia trabalhista, levando-se em consideração a lógica simbólica estabelecida entre o
Estado e a classe trabalhadora. A autora chama atenção no seu trabalho de pesquisa para a
construção da classe trabalhadora como ator político central na política brasileira. Isto lhe
24
O autor cita, como exemplo, a greve dos ferroviários da Cia. Paulista de Estrada de Ferro, em Campinas, no
ano de 1945. Tentando elevar o prestígio do sindicato dos ferroviários paulistas, a sua direção aconselha aos
trabalhadores entregar o encaminhamento das suas reivindicações à sua entidade sindical. Tal proposta foi
negada pelos trabalhadores que queriam negociar com a companhia diretamente, sem intermédio do sindicato
(COSTA, 1999, p.97).
36
custou lidar com a questão da construção do conceito de cidadania e a sua extensão aos
setores populares (GOMES, 2005, p.23).
Para Gomes (2005) o acesso à cidadania pelos setores populares, em especial a classe
trabalhadora, na América Latina se diferenciará do modelo clássico liberal quanto à obtenção
de direitos sociais, políticos ou econômicos. Dessa forma:
Nestes casos, o acesso à cidadania está relacionado a todo um processo de
constituição da identidade da classe trabalhadora conduzido pelos próprios membros
desta classe através de suas numerosas lutas políticas. A extensão da cidadania ligase a trajetória de democratização dos regimes liberais (GOMES, 2005, p.23).
No caso da América Latina, e do Brasil, o acesso à cidadania combina-se com um
processo de formação de atores políticos, como a classe trabalhadora, tendo como grande
interventor o Estado no ambiente em que a extensão social da participação político-eleitoral,
ao menos aparentemente, não se faz presente na maioria das vezes (GOMES, 2005, p.23).
Essa concepção de cidadania será mais fortemente empregada no Brasil no começo
do Estado Novo, contudo a resignificação que o governo Vargas dará ao discurso das
lideranças da Primeira República, como provedor das necessidades dos grupos menos
favorecidos, começará desde a década de 1930. Daí o fato dessa década ter sido a base de
sustentação para a criação de uma lógica simbólica, em que os benefícios sociais eram vistos
como doações e o único agente que os possibilitaria seria o Estado (GOMES, 2005).
A quantidade de trabalhos produzidos sobre a relação que envolve Estado e a classe
operária durante o governo Vargas é muito vasta. Não existiria a possibilidade, nem a
necessidade aqui de explicitar todos os estudos já elaborados a respeito do tema. Os que
foram neste trabalho utilizados tiveram a intenção de explicitar o quanto os trabalhadores
foram importantes para o governo, no que diz respeito à sua sustentação enquanto agente
condutor e mediador das necessidades imediatas da classe operária. Crescendo essa relevância
à medida que se concretizava uma política estatal mais autoritária, mais industrialista e mais
ligada às questões internacionais como as disputas por mercados e a influência de alguns
países no Brasil, a exemplo da Alemanha e dos Estados Unidos.
Outro segmento da sociedade, além de parte do setor industrial e da classe operária
que será visto como um ponto importante para o Governo Vargas durante os anos 30, vai ser o
dos militares. Neste período, o setor militar que fazia parte da burocracia estatal se viu com
mais possibilidades de conquistar a parcela de poder que não conseguira durante a velha
República.
37
A consolidação do poder militar e do conteúdo da sua ação política não foi
conquistada facilmente, visto que o movimento de 30 não teve o apoio total das Forças
Armadas Brasileiras25 e a parcela de militares que a apoiaram seria composta, em grande
parte, de oficiais de baixa patente que teriam com a consolidação do movimento de 30
recebido patentes mais altas por seu apoio, contrariando dessa forma a hierarquia militar e
contribuindo para a inquietação das praças e sua transformação em foco de apoio a outros
movimentos de revolta e de rebelião (CARVALHO, 1983, p.110).
Esse problema interno das Forças Armadas era agravado pelos conflitos externos
entre os militares e civis que participaram do movimento de 30 e queriam a sua cota de
influência no governo. Apesar da rivalidade ter sido contida em parte durante a luta, com a
vitória da Aliança Liberal, setores do segmento civil que dela fizeram parte, representado
principalmente por Oswaldo Aranha, vão bater de frente com lideranças militares que faziam
parte do grupo militar que apoiou o movimento, como Góes Monteiro (CARVALHO, 1983,
p.111).
Os militares desejavam ampliar seu projeto hegemônico de influência na
administração do país por meio da sua reestruturação organizacional, passando pelo
alargamento de acesso ao governo, com a obtenção de postos do aparelho burocrático estatal,
chegando até às relações com a sociedade como um todo. Esse projeto hegemônico visava
repelir qualquer alternativa de administração do país que não fosse aquela proposta pelo
Exército. Tal política seria visualizada mais fortemente com a consolidação do Estado Novo
em 1937 (CARVALHO, 1983, p.111).
As Forças Armadas eram os atores políticos que Vargas poderia se apoiar para
continuar pondo em prática seu plano de centralização do poder. No entanto, elas, sobretudo
o Exército, deixavam a desejar quanto à questão da sua organização hierárquica. A ideia era
expurgar aqueles militares, de baixa ou alta patente, para assim consolidar uma base de apoio
25
De acordo com Murilo de Carvalho, a Marinha praticamente ignorou o movimento e “raríssimos foram os
seus elementos que conheceram o que se passava nos meios em que se preparava a revolução, reconheceria o
próprio ministro em 1932. Participaram apenas alguns oficiais remanescentes da revolta de 1924. Quanto ao
Exército, pode-se dizer que a maioria dos oficiais não aderiu ou, se o fez, foi quando não havia perspectiva da
resistência. No Rio Grande do Sul mais de 300 oficiais se entregaram presos e nenhuma guarnição aderiu em
bloco. Em Minas todas as guarnições resistiram no primeiro momento, salientando-se a luta do 12º RI na capital
do Estado, que resistiu até o dia 8. Até a iniciativa do Movimento Pacificador, a 1º, 2º e 6º Regiões Militares
(com sedes no Rio, em São Paulo e em Salvador) mantinham-se leais ao governo. A 24 de outubro, as forças de
ambos os lados ainda se equivaliam em termos militares. A adesão da guarnição do Rio, sob a liderança do
comando do Exército, foi antes fruto de uma falta de disposição geral para a resistência do que de derrota militar.
Ela se constituiria exatamente numa tentativa de evitar os possíveis exageros da facção minoritária do Exército
que vinha comandando as tropas rebeldes” (CARVALHO, 1983, p.110)
38
sólida ao governo de Vargas. O principal articulador dessa manobra foi Góes Monteiro
(CARVALHO, 1999, p.342).
Num curto período de tempo, o grupo de militares que apoiou Vargas em 1930 logo
se tornou dominante dentro das Forças Armadas. O Exército, agora unificado, passou a ser um
ator político fundamental para as aspirações nacionalizantes de Vargas. Ele representava, para
o Exército, a base da centralização do poder e da possibilidade de se manter consolidada a
estrutura militar, pois ainda havia certas rivalidades entre os generais quanto à possibilidade
de se eleger um militar para governar o país (CARVALHO, 1999, p.342).
Diante do exposto, estava pronta a base de sustentação do governo Vargas.
Industriais, trabalhadores e militares seriam os atores políticos principais da sua sustentação
governamental. A instauração do Estado Novo (1937), como uma saída para crise de 1929,
marca, por sua vez, o coroamento da tática de centralização do poder nas mãos de um
governante que irá, durante a década de 1940, articular junto ao capital internacional acordos
que ora incentivavam a produção industrial, ora passavam a imagem de algo que beneficiaria
o trabalhador, ora dando a entender que o objetivo era o fortalecimento do armamento militar
do país.
Com o início da Segunda Guerra Mundial (1939), o governo Vargas traçara sua
política internacional visando sempre a manutenção da organização administrativa. Havia
uma necessidade de se manter vivo dentro das principais negociações, envolvendo não só o
Brasil, mas o continente americano naquele período tão conturbado da história mundial.
Esse papel de negociador foi uma das formas que o Estado Novo desempenhou
durante a guerra. As várias conferências realizadas entre o Brasil e os Estados Unidos
merecem ser estudadas por conta das suas consequências em todo o território nacional. Assim,
o estudo da política internacional brasileira durante o Estado Novo por conta da Segunda
Guerra Mundial e dos interesses diretos dos Estados Unidos no maior país sul-americano,
deverão ser analisadas com o intuito de entender a entrada direta do Brasil na Segunda Guerra
e o envio de uma Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Europa.
1.2. A Política de Interesses do Estado Novo
Estudar e relatar a vida dos homens e mulheres que estiveram envolvidos na Segunda
Guerra Mundial foi o exercício de muitos historiadores. Pessoas que, de uma forma ou de
outra, participaram desse conflito e contribuíram para que se pudesse, anos mais tarde,
39
descrevê-los dentro de uma perspectiva histórica, em que as pessoas são os principais
protagonistas, foi o objetivo maior de muitos trabalhos sobre o tema.
O Brasil esteve envolvido na II Guerra Mundial. Foi o único país latino americano
que participou ativamente do conflito, mandando para o combate na Itália, soldados recémtreinados de todos os estados da federação. Contudo, a pesquisa sobre esse acontecimento e as
causas que irão influenciar, de alguma forma, essa participação ficaram por algum tempo
reduzidas, em sua maioria, aos autores militares.
Tais autores, forçosamente, tentavam descrever a ida do Brasil para guerra, levandose em consideração apenas a questão estratégico-militar, em que o envio de tropas brasileiras
deveria ser visto como algo importante para o mundo, pois fortalecia o bloco dos Aliados em
contraposição ao bloco dos países do Eixo e para o Brasil, que consolidava a sua tida natureza
democrática, além de demonstrar o quanto o país estava engajado na luta pelos ideais de
liberdade muito bem representados pelos militares e pelo seu governo.
Pesquisas mais recentes vão identificar, no entanto, outros pontos que levaram o
Brasil a participar da Segunda Guerra. A política externa brasileira que se deu durante o
período do Governo Vargas, mais especificadamente, durante o Estado Novo, vai descrever
um país governado por uma ditadura, como vimos a pouco, que tentava se sustentar com o
apoio de vários segmentos sociais. Ia desde o aval de parte do setor industrial, passando por
parte da sociedade civil e de uma grande parcela dos militares. Não se esquecendo de
considerar as barganhas feitas com a Alemanha, inicialmente, e com os Estados Unidos, em
troca dessa sustentação política, como uma das maneiras de angariar tal apoio.
A abertura de novos canais de investigação, com a ida de pesquisadores aos arquivos
de outros países como a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos e no próprio Brasil, além do
fim da Ditadura Militar, com a abertura de alguns documentos “da repressão” e a
promulgação da Constituição de 1988, que estabeleceram mecanismos de acesso a alguns
acervos dos órgãos públicos, possibilitou o aumento considerável de pesquisas sobre o
período em questão (TEIXEIRA DA SILVA, 2010, p.21).
No entanto, até se chegar a esse leque maior de materiais de pesquisa, e
consequentemente, um maior número de publicações sobre a década de 1930-1940, como se
vê atualmente, o debate historiográfico se limitava, durante o período do regime militar, nas
décadas de 1960 até inicio de 1980, a uma tradição, principalmente da história política, de
viés conservador (TEIXEIRA DA SILVA, 2010, p.21).
O debate sobre a história política do Brasil da década de 1930 girará em torno de
estudos ora influenciados por forte finalismo histórico, justificando a Independência do país,
40
como é o caso de Varnhagem, por exemplo, ora desfilando nomes e datas numa dita história
da República Velha, sem que se analisassem os movimentos de cunho popular, como a Guerra
de Canudos, que fizeram parte daquela época. É a tida primeira geração de historiadores
(TEIXEIRA DA SILVA, 2010, p.34).
Os cursos de história dos anos de 1960 e 1970, ao não debaterem temas mais
recentes, como as ditaduras ocorridas no Brasil, a de Vargas por excelência, tentavam criar
uma despolitização da história. A renovação dos estudos políticos no Brasil se dará com
trabalhos voltados para o sindicalismo, partidos e instituições, já na década de 1980,
elaborados por sociólogos e cientistas políticos, que se agrupavam no então IUPERJ26 e no
CEBRAP27.
Francisco Carlos Teixeira (2010; p.30), juntamente com outros autores, trabalha com
as mudanças ocorridas nas pesquisas da história política do Brasil, demonstrando em sua
pesquisa certa necessidade emergencial para com a renovação desse estudo. Três trabalhos
podem expressar bem esse processo de renovação, segundo Francisco Teixeira, sendo pontos
de partida para os debates que viriam a ocorrer posteriormente, sobre a natureza do Estado do
Brasil. São eles: Boris Fausto e Francisco Weffort, ambos tendo como temáticas o
funcionamento e as razões das crises das instituições políticas brasileiras, e Gerson Moura,
que dedicou seus estudos à relação entre o Governo Vargas e o fascismo (TEIXEIRA DA
SILVA, 2010, p. 35-36)28.
Outros autores, como Edgar De Decca e José Luiz Werneck da Silva, além de
algumas instituições de pesquisa, serão vinculados a essa produção, desenvolvida com o
propósito de discutir a história da política no Governo Vargas e a construção de uma história
política em vários centros educacionais do país29.
26
O Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), criado no ano de 1969, no auge do
autoritarismo da Ditadura Militar e constituiu-se em um refúgio para intelectuais comprometidos com a
democracia brasileira, não apenas no sentido de resistência aos arbítrios ditatoriais, mas também como espaço de
reflexão sobre como construir em nosso país uma democracia consolidada e substantiva. Disponível em:
http://www.iuperj.br/index.php/institucional/historico. Acesso em: 01/11/2013.
27
O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o CEBRAP, foi fundado em 1969 por um grupo de
professores que na sua maioria haviam sido afastados das universidades brasileiras pelo regime militar. Várias
foram as publicações, os seminários e as pesquisas desenvolvidas por esse centro, que defendiam a resistência
política e a produção de um conhecimento crítico e independente Disponível em:
http://beta.cebrap.org.br/v3/index.php?r=institucionais/index. Acesso em: 27-09-2014.
28
Gerson Moura será utilizado nesta dissertação quando da apresentação do capítulo referente ao envio de tropas
brasileiras para a Itália, no caso o II, como uma forma encontrada pelo governo brasileiro de consolidar seu
apoio ao bloco dos Aliados e adquirir assim vantagens pela sua decisão.
29
Edgar De Decca, com a sua obra O Silêncio dos Vencidos; José Luiz Werneck da Silva, com O Feixe e o
Prisma: Uma Revisão do Estado Novo. Juntamente com a criação do CPDOC (Centro de Pesquisa e
Documentação em História contemporânea do Brasil), na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de janeiro, que irá
proporcionar um marco decisivo para a renovação da história política do Brasil, e a UNICAMP, por sua vez,
41
É a partir desse momento, décadas de 1970 e 1980, que se pode dizer que uma
pesquisa de qualidade sobre o poder e seu exercício passa a existir não mais centralizada em
alguns núcleos de estudo, mas em vários centros de pesquisa, que passaram a produzir, por
sua vez, um grande número de pesquisadores profissionais, diversificando os estudos sobre o
Brasil e as suas intrincadas relações com o exercício do poder, principalmente na Era Vargas
(TEIXEIRA DA SILVA, 2010).
A Era Vargas foi palco de grandes acontecimentos que influenciaram em larga
medida o contexto geral do Brasil das décadas de 1930 e 1940. Período que, como já foi visto,
marcou profundamente o país e o mundo. Com a Segunda Grande Guerra, muitas relações
diplomáticas entre os diversos países sofreram mudanças significativas.
O governo de Getúlio Vargas pode ser caracterizado, dentre outras formas, pelo
desenvolvimento econômico, pelo seu nacionalismo, o controle sobre os trabalhadores e os
sindicatos, certo planejamento estatal, a legislação social, os investimentos públicos e o papel
do Estado como agente econômico (D’ARAUJO, 1999, p.07).
Do ponto de vista político, teve-se o entrave quanto à participação mais ampla da
população na política do país, além da repressão popular, causa principal desse entrave, e da
inclinação às formas autoritárias, populistas e populares que desenhavam o quadro político
internacional (D’ARAUJO, 1999, p.07).
As relações internacionais brasileiras que mais se configuraram nessa época foram
manobradas ora com o intuito de estreitar os acordos entre Brasil e Alemanha, ora baseadas
num desenho que facilitasse ou reforçasse, por imperativo norte-americano, a bilateralidade
entre o Estado brasileiro e os Estado Unidos.
Na década de 1930, a nova ordem política, econômica e militar que se impunha ao
mundo, principalmente pela Alemanha nazista, vai criar um clima de incertezas e de certa
insegurança em vários países. A América Latina, nesse contexto, passou a ser alvo de grande
disputa entre os Estados Unidos e a Alemanha. Por ser a maior potência econômica da época e
por ter laços regionais históricos com os países latinos, os Estados Unidos tinham, dessa
forma, uma influência maior que a Alemanha no continente americano (CORSI, 2000, p.51).
Uma das saídas encontradas pelos alemães para esse impasse foi a propaganda
ideológica na região e uma política comercial baseada em marcos de compensação30. Por sua
com a criação, em 1974, do Arquivo Edgar Leuenroth, também dará grande contribuição nos estudos da história
da política do Brasil nos anos de 1930 (TEIXEIRA DA SILVA, 2010, p.43).
30
Basicamente esse modelo comercial se dava da seguinte forma: “o país que exportava para a Alemanha não
recebia em moedas conversíveis, mas em marcos bloqueados em uma conta bancária. Esses recursos só
poderiam ser despendidos na compra de produtos alemães. Desta forma, importações e exportações se
42
vez, os Estado Unidos, preocupados com o avanço alemão na região, decidiriam adotar a
política da boa vizinhança, que procurava intensificar o relacionamento político, militar e
econômico com o objetivo de assegurar sua influência nos países latino-americanos (CORSI,
2000, p.52).
Dentro do conjunto das relações internacionais, a política exterior envolve aspectos
mais determinados. “Ela enfoca a orientação governamental de determinado Estado a
propósito de determinados governos e/ou Estados ou, ainda, regiões, situações e estruturas,
em conjunturas específicas” (VIZENTINI, 1999, p.134).
Na análise da política externa, deve-se levar em consideração tanto quem a formula,
quanto a forma que ela se articula à política interna. Os caminhos da política externa de um
país, dessa forma, são definidos mais pelos setores hegemônicos, dominantes, dos blocos
sociais de poder que apóiam o governo, do que pelo conjunto desses blocos. Os grupos de
interesse e os lobbies, formados basicamente por lideranças industriais e segmentos do
próprio governo, além de parte dos militares, vão conseguir influenciar fortemente
determinadas áreas da política externa brasileira (VIZENTINI, 1999, pp.134-135).
Contudo, o papel de Vargas, pessoalmente, e dos governos populistas dos anos 50
não deve ser desconsiderado, dado o fato de terem sido eles os principais vinculadores da
política externa brasileira, ou a sua estratégia de execução, às necessidades do processo de
desenvolvimento econômico do país (VIZENTINI, 1999, p.135). Como ponto de
confirmação, têm-se os vários tratados internacionais que foram construídos, neste período,
com o intuito de fortalecer o projeto de industrialização do Brasil31.
A ideia de um país como potência regional, aspirada por parte do governo, advogada
por Oswaldo Aranha, levava o Brasil a defender os interesses continentais norte-americanos,
em troca da supremacia brasileira na região Sul do continente, mesmo se para isso fosse
necessário articular junto com a Alemanha acordos comerciais.
A relação diplomática pendular do governo brasileiro entre o governo de Washington
e o de Berlim, ainda na preparação da Segunda Guerra Mundial, buscava, basicamente,
reativar a velha "aliança privilegiada" com os EUA, modificando-a com outras formas de
equilibravam. Além disso, existia um sistema de cotas, que determinava o volume das importações e subsidiava
as exportações. Por meio desse sistema, o estado alemão exercia rígido controle sobre o comércio exterior”
(SEITENFUS, apud CORSI, 2000, p.52).
31
Já em 1934, foi aprovado Reciprocal Trade Agreement Acto (Ato de Acordo de Comércio Recíproco),
estabelecendo uma redução de 50% nas tarifas dos acordos de comércio bilateral entre os dois países, desde que
existisse reciprocidade no tratamento das exportações norte-americanas. Dessa data até 1945, 29 tratados de
comércio entre os Estados Unidos e países da região foram assinados. (CORSI, F. L, Estado Novo: Política
Externa e Projeto Nacional. São Paulo: UNESP/FAPESP, 2000, p.53).
43
cooperação econômica entre os dois países. Assim, “Vargas ensaiava uma nova política
externa em uma situação ainda dominada por velhas estruturas, de alcance regional”
(VIZENTINI, 1999, p.142). Isso estará presente nas negociações Brasil-Estados Unidos de
1934 até 1945 (CORSI, 2000, p.53).
Concomitantemente ao entendimento da necessidade de se industrializar, e a pressão
exercida pelos Estados Unidos, surgia, também, para o governo Vargas, a ideia de exercitar
uma política externa mais independente, graças aos espaços abertos projetados pelas disputas
imperialistas e as incertezas nos acordos comerciais efetivadas pelos norte-americanos:
Durante todo esse período, que começou no primeiro governo Vargas e se estendeu
até o fim da década de 50, as relações exteriores do Brasil voltaram-se,
prioritariamente, para os EUA, em busca do status de aliado privilegiado. Na
medida, entretanto, em que essa relação se mostrava insuficiente como apoio ao
desenvolvimento industrial, incrementado desde os anos 30, a política externa
brasileira viu-se na contingência de alterar o seu perfil. A autonomia na dependência
(conceito formulado por Gerson Moura), que Vargas explorou às vésperas da
Segunda Guerra Mundial, e o nacionalismo dos governos populistas dos anos 50
representaram uma estratégia de barganha frente a Washington. Essa barganha
visava redefinir os laços de dependência face aos EUA, de forma a obter apoio ao
desenvolvimento industrial brasileiro. (VIZENTINI, 1999, p.135-136).
Vargas sabia que o Brasil, para o governo norte-americano, representava um ponto
estratégico, quanto ao seu plano de pan-americanismo ou influência continental. Percebendo
isso, Vargas, então, tenta se aproveitar dessa importância brasileira para os norte-americanos,
e põe em prática seu projeto de modernização nacional, já listando alguns pontos a serem
conquistados, como uma siderúrgica, para a fraca indústria brasileira, o aumento dos
investimentos estrangeiros e o reequipamento das forças armadas, através de subsídios
advindos do exterior (ARGUELHES, 2010, p.118).
Várias conferências foram realizadas pelos Estados Unidos junto aos países
americanos, com o intuito de diminuir a presença alemã no continente32. Porém, com a
invasão da Polônia, em 1939, e o início da Segunda Guerra Mundial, foram convocadas
reuniões entre as chancelarias que representavam os governos americanos, para resolver qual
seria a posição do continente diante do conflito europeu e que medidas deveriam tomar.
32
Tiveram-se como exemplos, a Conferencia Interamericana de Consolidação da Paz, realizada em Buenos
Aires, em 1936, onde foram aprovadas resoluções, visando a limitação de armamentos das nações americanas,
prevenindo a guerra entre os países do continente e a confirmação do protocolo da não-intervenção, onde fica
registrado a impossibilidade de um país americano intervir nos assuntos internos de outro. E a VII Conferência
Internacional Americana, realizada em Lima, em 1938, que reforçou os pontos aprovados em Buenos Aires, em
1936, e aprovou o não-reconhecimento de aquisições territoriais por meio da força das armas e previu a
existência de reuniões de consulta dos chanceleres dos países americanos, quando fosse preciso. (Brasil, MRE.
Relatório do Ministério das relações Exteriores de 1936. Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1938, pp.14-15,
disposta em: ARGUELHES, D. de Oliveira. A Conferência dos Chanceleres Americanos de 1942 e o
Envolvimento Brasileiro na Segunda Guerra Mundial. In: TEIXEIRA da SILVA, F. C. (Org.) et al. O Brasil e a
Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Multifoco, p.119)
44
A I Reunião de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas, na cidade do
Panamá, decidiu qual era a posição do continente diante da guerra. Nesta Conferência, optouse pela neutralidade33. No entanto, essa decisão não seria mantida por todos os membros da
conferência por muito tempo.
Argentina declarou-se contra o apoio aos Estados Unidos. Chile, Bolívia, Peru e o
Paraguai declararam-se neutros. O apoio do Brasil, diante desse quadro, era fundamental para
a política norte-americana. Tanto era que Vargas deixará claro que “a cooperação com os
Estados Unidos não seria devido a simpatias pessoais ou a compromissos do panamericanismo, seria sim feita se os norte-americanos concordassem em suprir as necessidades
nacionais” (ARGUELHES, 2010, p.124).
Essas necessidades diziam respeito à siderúrgica nacional e ao reequipamento das
Forças Armadas brasileiras, já prometidas ao Brasil pelos EUA, bem antes. Agora, Roosevelt,
além de reconfirmar o prometido, pedia em troca as bases brasileiras no Nordeste do país, que
eram pontos estratégicos relevantes para o governo norte-americano dado a sua ligação com o
continente Africano. (ARGUELHES, 2010, p.124).
Fez-se uma II Conferência de Chanceleres, agora na cidade de Havana, em 1942,
para discutir, primeiro, o destino das colônias francesas e holandesas em território americano,
depois que os dois países europeus foram conquistados pelo Exército alemão34 e, segundo
ponto, dentre as 21 resoluções que foram aprovadas, aprovou-se a que previa a agressão a um
país americano por outro país extracontinental, como uma agressão a todo o continente
(ARGUELHES, 2010, p.121). Essa resolução será lembrada não só pelo governo dos Estados
Unidos aos países americanos, quando do ataque à base naval de Pearl Harbor, mas também
por Vargas em carta endereçada ao presidente Roosevelt35.
Em 15 de janeiro de 1942, teve início no Rio de Janeiro, então capital, a III Reunião
de Consulta dos Chanceleres das Repúblicas Americanas. Os trabalhos ocorridos na III
33
A neutralidade era exercida através de regras, tais como; o país neutro não poderia entregar material bélico aos
países beligerantes; mesmo podendo receber em seu território unidades militares dos países em conflito,
contudo, é obrigado a vigiá-los. Uma zona de exclusão no oceano Atlântico, visando à proteção dos países
americanos, também foi estabelecida. Sendo que, essa proteção poderia ser vista como vigilância dos países
aliados contra o comércio entre o continente e a Alemanha, como foi o caso da Inglaterra, que aprisionou um
navio alemão, cheio de armas vendidas para o Brasil. O impasse foi mediado pelos Estados Unidos e o Brasil
acabou recebendo a carga de arma. ( Ibid., p.120).
34
A Conferência não reconheceu nenhuma passagem de soberania de territórios não-autônomos do continente de
países europeus para outras potências fora da América, no caso, a Alemanha. A Ata de Havana que foi assinada
dizia que cabia a uma comissão continental a administração dessas colônias. (Ibid.,p.121).
35
O telegrama de Vargas para Roosevelt, está disposto no Relatório do Ministério das Relações Exteriores de
1941 (ARGUELHES, D. de Oliveira. A Conferência dos Chanceleres Americanos de 1942 e o Envolvimento
Brasileiro na Segunda Guerra mundial. In: TEIXEIRA da SILVA, F. C. (Org.) et al. O Brasil e a Segunda
Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010, p. 123).
45
Reunião não discutiram apenas a relação do continente com a Europa. Certas desavenças
entre países americanos, como a do Peru e do Equador, pela demarcação de fronteiras, foram
discutidas. Era preciso, naquele momento, criar certo panorama de paz entre os países da
América.
Os Estados Unidos, com o intuito de fortalecer a sua liderança na região,
participavam ativamente de todas as possíveis decisões de conciliação, mesmo que de pouca
durabilidade (ARGUELHES, 2010, p.128). A Ata Final da reunião, assinada em 28 de janeiro
de 1941, dispunha de 41 resoluções, que tratavam de vários assuntos36.
O principal obstáculo dos Estados Unidos nessa reunião foi a Argentina. A
Alemanha e a Grã-Bretanha não queriam que a Argentina saísse de sua neutralidade, por
necessitarem de produtos comercializados pelo mercado argentino, tais como carnes, couros e
cereais. O alinhamento argentino com os Estados Unidos era, assim, visto pelos britânicos e
pelos alemães como algo prejudicial para seus interesses comerciais (ARGUELHES, 2010,
p.129).
Capitaneado pelos Estados Unidos, os países americanos declararam uma série de
retaliações à Argentina, como foi, por exemplo, o não reconhecimento do governo de Farrel,
que ascendeu ao poder através de um golpe de Estado em 1943. Até dois anos depois a
Argentina sofrerá pressões dos norte-americanos por conta das suas desconfianças com o
governo argentino. O país sul-americano declarara guerra à Alemanha só em 1945, sendo que
o rompimento das relações entre os dois países acontecerá em 1944. (ARGUELHES, 2010,
p.129).
O Brasil naquele momento expressava seu temor mais com a Argentina do que com a
própria Alemanha37. Porém, tal temor não pode ser interpretado apenas como uma questão
36
A recomendação de ruptura de relações com países do eixo; acordos de divisão da produção (entre matériasprimas e produtos manufaturados e industrializados), distribuição para o continente e orientação da produção
para o esforço de guerra; medidas policiais e jurídicas contra as atividades subversivas, promovidas por
nacionais do Eixo e simpatizantes; adesão á Carta do atlântico; tratamento de não beligerante às nações
americanas que se encontrarem em guerra com potências extracontinentais; criação da junta Interamericana de
defesa; manutenção e ampliação de rede de transportes e comunicações; e outras questões com saúde e
salubridade pública e humanização da guerra, entre outras. BRASIL, MRE. Relatório do Ministério das Relações
Exteriores de 1942, pp.131-65 (ARGUELHES, D. de Oliveira. A Conferência dos Chanceleres Americanos de
1942 e o Envolvimento Brasileiro na Segunda Guerra mundial. In: TEIXEIRA da SILVA, F. C. (Org.) et al. O
Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010, p. 131).
37
Em 1934, o Estado-Maior, agora sob o comando de Francisco ramos de Andrade Neves, preparou dois estudos
relacionados, propondo um plano de organização, e analisando a situação militar do país. Segundo o ponto de
vista do Estado- Maior o Brasil, estava então ‘militarmente... desorganizado’ e faltava-lhe ‘quase totalmente os
meios’ para conduzir a guerra ( dado retirado pelo autor do relatório sobre o reajustamento da organização do
Exército (Rio de Janeiro: Imprensa militar, Estado Maior do Exército, 1934, p19.Cópia do CDOCEX, Brasília.).
E tudo indicava que a guerra mais provável seria uma guerra continental, e na América do Sul ‘é a Argentina, o
adversário principal por seu valor militar, antecedentes históricos e diplomáticos, não obstante a tendência
pacífica que atualmente orienta a sua política externa’.(Ibid., p.20). o Paraguai seria seu aliado pois, ‘a influência
46
histórica de disputa pela região sul-americana entre os dois países latinos (MCCAN, 1982,
p.142). Existia, também, a política de desavenças entre Brasil e Argentina patrocinada pelos
Estados Unidos (ARGUELHES, 2010, p.129).
Após a III Reunião dos Chanceleres e a consequente declaração brasileira de
rompimento diplomático e comercial com as potências Eixistas, o Nordeste brasileiro e de
Fernando de Noronha, bases estratégicas para os Estados Unidos naquele momento,
começaram a ser utilizados de forma efetiva pelos norte-americanos. A questão da venda do
armamento para o Brasil, contudo, não foi efetuada como o acordo descrevia. Foi enviada
uma quantidade de armas menor do que o acordado (ARGUELHES, 2010, p.132).
As resoluções da III Reunião que procuravam viabilizar a cooperação econômica
entre o Brasil e os Estado Unidos, viraram acordos comerciais, denominados Acordos de
Washington38, que moldaram a economia continental de acordo com as necessidades norteamericanas e ajudaram a influenciar a entrada do Brasil na guerra39.
1.3. As Consequências dos Acordos de Guerra em Alagoas
As medidas tomadas pelo Governo Vargas durante os seus quinze anos de existência
sofreram influências internacionais e nacionais como já foi exposto. Internacionalmente elas
serão moldadas a partir de uma estrutura de relações de comércio e política entre países
envolvidos na guerra, como foi o caso dos Estados Unidos e da Alemanha. A base de
equilíbrio dessas relações se sustentava em acordos bilaterais firmados pelo Brasil e esses
países, com o intuito de alargar, ou dinamizar, o processo de industrialização brasileira ainda
naquela época muito tímido.
Internamente, o país foi modificado profundamente pela guerra. Estados da
federação com tradição na monocultura vão desenvolver seus projetos de industrialização,
como o caso de São Paulo, por exemplo, intensificando seu potencial industrial com o capital
militar argentina... é enorme’. A Argentina auxiliou aquele país a comprar a armas, e o adido-militar argentino
era um acessor íntimo do comando paraguaio. O Paraguai procura concretizar sua ‘velha aspiração’ de apossarse do Sul do Mato Grosso, assim como áreas fronteiriças de Santa Catarina e Paraná.
38
Os principais pontos desse acordo, referiam-se: As minas de ferro de Itabira, que seriam de propriedade da
Grã-Bretanha; o financiamento para o fornecimento de material estratégico para os norte-americanos; e a
absorção do excedente de borracha brasileira pelo mercado norte-americano. BRASIL, MRE. Relatório do
Ministério das Relações Exteriores de 1942, p.33 (Apud: ARGUELHES, D. de Oliveira. A Conferência dos
Chanceleres Americanos de 1942 e o Envolvimento Brasileiro na Segunda Guerra mundial. In: TEIXEIRA da
SILVA, F. C. (Org.) et al. O Brasil e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010, p. 132).
39
A participação direta do Brasil na guerra estendeu os ganhos materiais obtidos na III Reunião dos chanceleres
por mais tempo e também trouxe prestígio político para o país. Em troca, os Estados Unidos ganharam o direito
de utilizar as bases brasileiras em tempo de paz e influenciaram bastante o pensamento militar brasileiro.
(Ibid.,p. 144).
47
que até pouco tempo fora direcionado para a produção de café, transferindo-o, em parte, para
outros setores de mercado os investimentos destinados à empresa cafeeira. Isso era visto como
uma política de incentivo do governo contra a crise que assolou a venda desse produto. A
saída encontrada era desenvolver vários setores de investimento e produção de outros gêneros,
fazendo com que a economia brasileira não se sustentasse apenas num único produto.
Nem todos os estados da federação tiveram o mesmo caminho. Alguns ficaram
reféns do governo federal em detrimento da sua produção. Tiveram que discutir uma nova
proposta, pautada na agenda nacional que pretendia aumentar desde os recursos materiais para
guerra até outras manobras que visassem proteger ou incentivar a população para o conflito.
Foi assim com vários estados brasileiros, inclusive o de Alagoas.
Antes de apresentar a repercussão de algumas medidas de guerra em Alagoas,
abordaremos aspectos do quadro econômico do estado com o fim de fornecer uma visão geral
das discussões em torno de pontos relevantes que fizeram parte da administração local e que
de certa forma repercutiram nos principais meios de comunicação do estado alagoano durante
o período de guerra.
O desenvolvimento de um tópico em que aparecem algumas considerações sobre
aspectos específicos da economia ou de alguma discussão a respeito da viabilidade de
manifestações populares como o carnaval, advém do fato de serem esses temas
constantemente descritos nos jornais de maior circulação no estado à época, principalmente o
Jornal de Alagoas. Sem esquecer-se de mencionar que em alguns documentos oficiais, que
sintetizavam as realizações do governo do interventor Ismar de Góes Monteiro (1941-1946),
também traziam esses e outros assuntos relacionados ao esforço de guerra estabelecido pelo
governo federal.
Se isso já não fosse por si só um ponto relevante para se estudar essas questões, temse o fato dessa discussão envolver tanto parte da elite econômica alagoana, herdeira de longos
anos do poder político no estado e maior causadora do seu atraso social, quanto à produção da
cana-de-açúcar, maior produto vendido em Alagoas até os dias atuais e centro das discussões
à época40.
40
Até os dias atuais a cana representa uma fatia grande do PIB alagoano. A participação da indústria da cultura
canavieira na economia do estado atinge 45% do PIB alagoano, tendo influência no setor agropecuário, na
indústria e no setor de serviços. De acordo com dados da Secretaria da Fazenda do Estado de Alagoas, 60 % da
indústria e 30% do setor de serviços estão correlacionados ao setor canavieiro. O estado de Alagoas é o maior
produtor nordestino de cana-de-açúcar; em 2008-2009 ele ocupou o quinto lugar na produção nacional (Fonte:
IBGE/Conab 2009).
48
Os debates em torno da produção da borracha e dos caminhos que a economia
alagoana deveria seguir quanto à modernização do seu setor sucroalcooleiro, por conta da
guerra e suas consequências, e do interesse dos Estados Unidos na região, cogitavam a
confirmação de que no lugar de alguns jovens discutirem poesia, música ou algo que o valha
de uma forma mais romântica, estavam eles a discutir essas e outras questões econômicas
presentes não tão raramente em mesas de bar, tamanha era a divulgação nos meios de
comunicação, supervisionados pelo Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda
(DEIP), órgão governamental que tinha como uma de suas principais funções propagandear os
objetivos do estado e censurar a mídia da época.
Temas como a introdução da borracha na economia alagoana, durante o governo de
Ismar de Góes Monteiro, a briga entre os produtores de álcool e açúcar alagoanos contra os
produtores do sudeste, em especial os de São Paulo, a pressão exercida pelo Governo Federal
quanto à modernização das usinas frente aos banguês, a autorização ou não da realização do
carnaval durante o período de guerra e algumas transformações estruturais que o estado
alagoano sofreu por consequência do conflito mundial e dos acordos firmados, principalmente
os da III Conferência de Chanceleres, serão dessa forma vistos neste tópico da dissertação.
Não se pode esquecer também de mencionar sobre as verbas advindas dos acordos
estabelecidos entre os Estados Unidos e o Brasil que serviram para auxiliar os norteamericanos em manobras militares realizadas no país e que ainda hoje podem ser verificadas
em alguns locais de Alagoas, como por exemplo, no bairro do Vergel do Lago.
Assim, o período que vai de 1941 a 1946, correspondente à administração do
interventor Ismar de Góes Monteiro, foi o escolhido porque será nele que o Brasil declarará o
fim das relações diplomáticas com a Alemanha (1942), firmará acordos importantes com os
Estados Unidos e declarará seu apoio ao bloco dos Aliados. Foi também na administração de
Ismar que a FEB acabou sendo mandada para a guerra na Europa e com ela alguns alagoanos.
Quando se examinam as mudanças econômicas ocorridas durante a Segunda Guerra
em um estado brasileiro tão pequeno como é o de Alagoas, tanto do ponto de vista
econômico, quanto do ponto de vista geográfico em comparação aos outros estados da
federação, suscitam muitas dúvidas em relação a essas consequências e suas repercussões
nessa pequena parte do Brasil.
No entanto, se o estudo desse período, envolvendo Alagoas, não começar a ser feito,
dificilmente poderemos responder a essa pergunta. Existe às vezes um salto cronológico nos
trabalhos sobre o estado, que pouca coisa se refere à década de 40. Encontram-se muitos
49
textos sobre o período colonial, sobre a Primeira República, mas no que diz respeito à
Alagoas no período da Segunda Guerra os trabalhos são muito escassos.
Ficam, então, as dúvidas a serem tiradas em futuros estudos que se habilitem a
pormenorizar os aspectos sociais, econômicos e políticos que moldaram a realidade alagoana
dos anos de 1940. Não será assim objeto de estudo desta dissertação pormenorizar tais
aspectos, contudo questões que a pouco foram mencionadas deverão ser trabalhadas neste
momento.
Dessa forma, pretende-se com esse pequeno tópico tentar demonstrar que houve
algumas consequências em Alagoas por conta da participação do Brasil na Guerra, mesmo se
sabendo que já tenha sido sustentado e provado em alguns trabalhos a afirmação das
influências desse conflito em quase todo o território brasileiro de uma forma geral. No caso de
Alagoas, essas influências não são descritas detalhadamente, mas que agora, pelo menos,
algumas poderão ser relatadas.
Como já foi visto, com a crise de 1929 várias medidas foram tomadas pelos governos
de economia liberal, sendo uma delas o fortalecimento do mercado interno e uma mudança na
tendência de exportação para outros países. As tentativas de fortalecimento do mercado
interno com os investimentos voltados mais para o processo de expansão industrial vai se dar,
ao longo de toda década de 30, com uma maior intensidade no final desse período. No caso
brasileiro ele vai ser bastante fortalecido principalmente no período do Estado Novo, com os
grandes investimentos norte-americanos.
As regiões brasileiras terão sua cota de participação nesse processo de forma
diferenciada. Alagoas, por exemplo, por conta da sua dependência econômica na produção de
cana-de-açúcar de forma extensiva, praticada assim em grandes áreas com pouca
mecanização, nos faz sugerir que a tendência agroexportadora continuará sendo a regra da
produção estabelecida no estado durante o período de guerra.
Na III Reunião dos Chanceleres, já citada anteriormente, acontecida no Rio de
Janeiro, em 15 de janeiro de 1942, alguns acordos foram firmados entre os países americanos.
Dentre eles merece destacar o que foi estabelecido a respeito da borracha. Nele, o Brasil se
comprometia a vender toda a produção excedente de borracha e seus derivados
industrializados para os Estados Unidos, graças à grande necessidade da indústria bélica
norte-americana por essa matéria-prima (ARGUELHES, 2010, p.133).
O interesse norte-americano pelo produto residia no fato dos japoneses terem
invadido e dominado os principais centros produtores de borracha na Ásia, entre 1941 e 1942.
Os Aliados precisavam da matéria-prima para seu esforço de armamento e voltaram suas
50
atenções para a borracha amazônica. O Brasil, por sua vez, via a procura da borracha pelos
Aliados, mais intensamente pelos Estados Unidos, como a chance de recuperar o mercado de
venda dessa matéria-prima que acabou sendo perdido para as colônias européias do sudeste
asiático (FERRAZ, 2005, p.24).
O financiamento do Governo Roosevelt para o desenvolvimento do setor da
produção da borracha de início foi bem recebida pelos representantes brasileiros. Porém, a
atitude do governo norte-americano querer para si todo o poder administrativo por conta
desses investimentos, acabou desagradando alguns componentes da delegação brasileira
(CORSI, 2000, p.207-208).
Mesmo assim, foram assinados três acordos a respeito da produção, consumo e
exportação da borracha. Esses acordos consolidavam a influência do governo norte-americano
nesse setor da produção agrícola no Brasil. Eles iam desde a compra do excedente de
produção pelos Estados Unidos, limitando o consumo interno e as exportações brasileiras do
produto para outros países do continente, até acordos que visavam incentivar a criação de
melhores condições para a produção em curto prazo no estado do Amazonas, tentando sanear
a região de problemas que dificultassem o escoamento do produto (CORSI, 2000, p.208).
Apesar de haver certa preocupação por parte do governo brasileiro quanto ao
domínio norte-americano no controle da produção de um material tão importante aos países
que estavam envolvidos diretamente na guerra e àqueles que precisavam do produto para o
seu consumo interno, Vargas não conseguiu controlar como realmente queria os Estados
Unidos.
O desenvolvimento da indústria nacional de produtos de borracha por conta das
limitações impostas pelo governo Roosevelt e parte dos investidores norte-americanos,
Nelson Rockefeller foi um deles41, de maneira geral não teve o crescimento esperado no país.
Mas, alguns estados da federação foram, de certa forma, obrigados a se adequar aos acordos
firmados entre o Brasil e os Estados Unidos.
Alagoas foi um desses estados que precisou produzir uma quantidade de borracha
acima da média anual por conta dos acordos da III Reunião de Chanceleres e das metas
estabelecidas pelo programa federal chamado de “Batalha da Produção” 42, que era organizada
41
Nelson Rockfeller foi um dos maiores industriais do mundo à época. Ele pretendia construir uma corporação
para a exploração da região amazônica. O governo norte-americano o ajudaria com créditos e auxílio técnico e
ficaria, como retorno pelos investimentos gastos, com o controle financeiro e administrativo do projeto (CORSI:
2000; p.207).
42
A Batalha da Produção correspondeu ao esforço de produção brasileira durante o período em que o país esteve
envolvido na guerra por conta dos acordos firmados com os aliados a partir de 1942. A base de sua tática residia
nos seguintes fatos: “Materiais estratégicos tinham sua produção ou extração intensificada, como manganês,
51
e dirigida pela Coordenação de Mobilização Econômica, criada com o intuito de mobilizar
todos os recursos nacionais para a guerra (FERRAZ, 2005, p.23).
Nos relatórios de realizações governamentais do interventor Ismar de Góes Monteiro
e produzidos pelo Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda (DEIP), têm-se breves
comentários sobre a sua administração no estado. Havia uma lista de obrigações organizadas
pelo governo federal em que o estado se comprometia a realizá-las em nome da
responsabilidade federativa firmada.
Naquele momento, 1941-1942, Alagoas tinha sua economia vinculada basicamente a
duas fontes: o açúcar e o algodão. Precisavam-se criar mecanismos que incentivassem a
economia do estado com o objetivo proposto pelo Governo Vargas, quanto ao abastecimento
das cidades e o fortalecimento do esforço de guerra do país. A produção agrícola era o ponto,
assim, de maior relevância imposta pelo governo aos estados. Em um dos registros sobre a
sua administração, confeccionado pelo DEIP, o interventor alagoano foi citado da seguinte
forma:
Na órbita da produção agrícola, que se constituiu o tema de maior relevo da atual
administração, condicionou o interventor Ismar de Góes Monteiro as iniciativas do
seu governo ao parecer de técnicos com que formou um novo órgão: o Conselho de
Expansão do Estado. Assentada na orientação, e tendo em vista as bases do acordo
com a União, tem despendido o governo soma apreciável, para o revigoramento de
nossa economia43.
O relatório das atividades administrativas do governo de Alagoas era mandado ao
Presidente da República para a confirmação do que estava sendo feito de acordo com as
ordens federais. Reafirmavam-se no documento, em linhas gerais, dois pontos centrais do
discurso da administração alagoana: o trabalho e a ordem.
O primeiro ponto referia-se ao trabalho desenvolvido no estado na construção de
algumas obras, como por exemplo, a reforma do Porto de Maceió, que se encontra ainda hoje
no bairro de Jaraguá. Os serviços de exploração do porto, após a reforma, foram iniciados em
29 de janeiro de 1942, sendo que a conclusão da obra já tinha sido alcançada desde dezembro
de 1940, ficando todo esse tempo sem utilização por conta do argumento de falta de material,
influenciada pela situação internacional44.
Vê-se que a necessidade de se utilizar o Porto de Maceió está intimamente ligada à
situação nacional diante do conflito desencadeado na Europa. Em 1942, o Brasil já havia
bauxita, cobalto, tungstênio, níquel, berilo, cromo, cristais de quartzo, diamantes industriais, babaçu, a borracha,
ente outros. Produtos tradicionais como o café, o cacau e o açúcar, também tinham como destino preferencial,
quando não único os Estados Unidos” (FERRAZ, 2005, p.23).
43
DEIP: Relatório da Síntese das Realizações do Governo Ismar de Góes Monteiro de 1943, p.03 (IHGAL).
44
DEIP: Relatório da Síntese das Realizações do Governo Ismar de Góes Monteiro de 1943, p.33 (IHGAL).
52
declarado o fim das relações diplomáticas com a Alemanha e assinalava formalmente através
de acordos a sua colaboração junto ao bloco dos Aliados, representados na América pelos
Estados Unidos. Esse porto teve grande serventia no desembarque de mercadorias em Maceió
durante o início da década de 40, obtendo lucros principalmente por conta da crise de
transporte decorrentes da guerra.
Além do porto, existiram outras obras de infraestrutura que foram postas em prática
neste período. Havia verbas federais reservadas para a construção de rodovias em 1943 por
todo o estado. A Divisão de Engenharia, já em organização, foi o órgão técnico que
coordenou os planos de construção rodoviária dos municípios. Queria-se criar uma conexão
maior no estado de Alagoas em relação aos locais mais distantes e reforçar a ligação daqueles
mais próximos com a capital45.
A concepção de trabalho e ordem divulgada pelo governo estadual, que se baseava
na política nacional de controle direto do Estado sobre as ações de investimentos e de
administração final das mudanças na economia, na política e na área social (CAPELATO,
2003, p.114), era assim disposta no documento publicado pela administração estadual, com o
aval do DEIP: “O regime de ordem e trabalho implantado pelo interventor alagoano
significava redirecionar a administração pública para o esforço de guerra, tentando dinamizar
a vida econômica de Alagoas e estimulando a atividade pública no estado” 46.
Essa era a ideia que o governo alagoano queria passar não só para os alagoanos como
também para o governo federal: de uma Alagoas coadunada com o esforço de guerra geral dos
outros estados. Muitos dados, porém, que poderiam provar essa atitude mais detalhadamente
não puderam ser revelados. Não havia no estado um corpo técnico que possibilitasse a
elaboração de dados para assim demonstrar ao governo federal a capacidade do Interventor
Ismar de administrar tão bem como ele declarava em documentos oficiais. Pode-se ser
facilmente detectável essa falha quando se analisa um de seus relatórios, que assim se escreve:
Através das dificuldades oriundas da situação internacional, bem evidente se torna
não ser possível ao administrador apresentar, neste momento, em panorama de
vultosas realizações, desde quando todos os esforços do governo têm de convergir,
por imperativo de defesa nacional, para um problema de mais alta relevância: o da
segurança do país, ameaçada nesta hora incerta para os destinos da humanidade47.
O quadro de obrigações impostas ao interventor na década de 1940 era voltado para
uma logística de guerra. Os investimentos aqui depositados pelo governo federal refletiam
45
Ibid.
Ibid.
47
Ibid.
46
53
uma tentativa de facilitar o transporte de pessoas e materiais pelo estado. Avenidas famosas
da capital tiveram suas construções ligadas a esse propósito.
A criação de rodovias, como a Durval de Góes Monteiro e a Fernandes Lima, que se
constituem no mais importante corredor de transportes da capital, foram projetadas com o
objetivo de deslocar comboios e tropas norte-americanas para as bases aeronavais encontradas
nos bairros do Vergel do Lago e do Tabuleiro, em Maceió (PEDROSA, 2001, p.65). Ainda
hoje, encontram-se nessas localidades resquícios das rampas de lançamentos para pequenos
aviões.
Em uma das entrevistas, feita com um ex-combatente alagoano para este trabalho,
houve esclarecimentos sobre a importância do bairro do Vergel do Lago durante a guerra.
Morador da localidade, o Sr Aurino Ribeiro da Silva, de 93 anos, relatou que quando chegou
de Pilar, interior de Alagoas, para morar no bairro, praticamente nada existia, mas que com o
tempo muita coisa foi se construindo. O seu filho, morador também do Vergel, bombeiro,
mesmo não tendo vivido aquelas transformações à época, nos possibilitou um
complementação do que o Sr Aurino tinha deixado de relatar48.
Foi dito por ele que galpões foram feitos no Vergel durante o período da Segunda
Guerra com a intenção de depositar armamentos do Exército. Infelizmente esses galpões não
existem mais e no seu local houve a construção de residências que pode-se verificar, assim
como os resquícios das rampas para o lançamento de pequenos aviões que serviram para
patrulhar o litoral de Maceió, contra supostas invasões inimigas49.
Foram relatadas também as marcas deixadas pela Segunda Guerra no bairro, que
servem de pistas da sua influência naquela localidade. O nome da principal avenida, que corta
o Vergel é Monte Castelo em homenagem à tomada do monte na Itália pelos pracinhas
brasileiros. O nome de uma rua do bairro, chamada de Rua da FEB, que sofreu uma corruptela
por parte do povo e passou a ser denominada e conhecida como Rua da “Febre”, e a
confirmação de que nesta localidade existia um monumento em homenagem aos soldados que
participaram da guerra, demonstram que no bairro existiram algumas atividades militares.
Este monumento, que será estudado juntamente com outros locais representativos da memória
de guerra no estado, no capítulo III, foi retirado do local para a construção de uma base
policial pelo governo.
48
Nota: Apesar do depoimento de Sr Aurino ter sido positivo para esta pesquisa quanto ao seu papel como excombatente brasileiro na defesa do litoral brasileiro durante a guerra, a sua fala sobre o bairro não teve a mesma
contribuição. Por isso, houve a ajuda de seu filho (ver entrevista).
49
Ver foto em anexo.
54
Mesmo havendo algumas transformações no aspecto urbanístico do estado por
influência da guerra, será na agricultura ou na extração de matéria-prima que teremos uma
divulgação nos meios de propaganda mais acentuada. A extração do látex, para obter a
borracha, a disputa na produção do álcool entre o nordeste e o sudeste e a pressão sofrida
pelos banguezeiros para se adequarem aos novos índices de produção serão muito apreciados
pelo governo e por parte da elite econômica do estado.
O modelo de chamamento para se produzir a borracha, propagandeado nos
periódicos ou divulgado nas rádios seguia um padrão. Slogans como “Extrair borracha para a
vitória é colaborar no esforço de guerra”50 ou “Brasileiros! Produzir borracha é obra
patriótica”51 eram constantes, principalmente nos anos de 1943 e 1944, quando há uma
intensificação da guerra.
A base do conteúdo das propagandas era o aviso aos brasileiros para a necessidade
de se extrair a borracha, enviá-la aos Aliados e utilizá-la também na defesa aérea e marítima
no Brasil. Para aqueles que queriam se tornar parte da produção, o aviso deixava bem claro
sobre a facilidade com que se poderia trabalhar o produto e a rentabilidade do mesmo. Todo o
procedimento de venda e compra da matéria-prima estaria disponível nas prefeituras locais.
A necessidade de se aumentar esse produto através da divulgação de estímulo por
parte do governo federal a todo o território brasileiro, chegou ao ponto de instituírem junho
como o mês da borracha. Existia uma Subcomissão Estadual da Batalha da Produção que
visava dar incentivos e orientações na produção do nordeste, chegando a avisar aos
interventores dos estados que fizessem um apelo aos produtores, classes conservadoras,
trabalhadores e técnicos para dobrarem a produção do produto, sempre alegando o fato do
esforço de guerra e da necessidade da sociedade se manifestar através dessas atitudes como
verdadeiros patriotas52.
Um exemplo da influência da propaganda federal sobre a campanha do “Mês
nacional da borracha” no estado de Alagoas aconteceu em São Miguel dos Campos. O Sr.
José neto, prefeito da cidade, em entrevista disse o seguinte:
Tendo recebido do Sr. Presidente da República um apelo para que se processasse
com o maior incentivo a cultura da borracha, bem como uma circular do
Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda (DEIP), acompanhada de farto
50
Propaganda da extração da borracha, Jornal de Alagoas, Maceió, 24/06/43, p.04 (IHGAL).
Propaganda da extração da borracha, Jornal de Alagoas, Maceió, 05/06/43, p.04 (IHGAL).
52
S/a. ALAGOAS em Pleno Desenvolvimento. Jornal de Alagoas, Maceió, 05/06/43, p.04 (IHGAL).
51
55
material de propaganda do “Mês Nacional da Borracha” fiz distribuir por todo o
município panfletos a respeito do assunto 53.
Houve uma enquete no Jornal de Alagoas a respeito dos ganhos que o estado poderia
ter com a introdução da extração do látex em grande quantidade. Representantes de setores
ligados à produção agrícola de Alagoas foram convidados a participar e dar as suas opiniões.
Pessoas como Rui Palmeira (gerente da Cooperativa dos Banguezeiros e
Fornecedores de Cana), Ormindo Monte (presidente do Sindicato dos Banguezeiros e
Fornecedores de Cana de Alagoas), o jornalista Carvalho Veras, (diretor da Agência Nacional
Sucursal Alagoas), um alto funcionário do DEIP, entre outros que faziam parte do corpo de
“ilustres alagoanos”, todos ligados ao governo e aos produtores de cana do estado ora como
donos da terra, ora como servidores de órgãos governamentais, deram suas respostas sobre a
extração da cana no estado.
Para os três senhores, Alagoas deveria participar da campanha da produção da
borracha e essa atitude seria possível se intensificasse o aproveitamento da vegetação
alagoana. A principal reserva de látex existente naquela época no estado advinha da
mangabeira, planta que havia sido localizada mais nas regiões dos mocambos e carrascos54.
De acordo com Ormindo Monte, municípios de Alagoas como Arapiraca, São
Miguel dos Campos, Marechal Deodoro e toda a região que se estende do município de
Coruripe ao de Penedo, onde são extensas as produções de mangabeira, poderiam intensificar
a extração do látex e possibilitar ao estado dar uma contribuição muito maior para o país55.
No caso de Carvalho Veras, além do compromisso assumido com as Nações Unidas
ou com o bloco dos Aliados, e a própria defesa nacional, a campanha da borracha se revestia
de possibilidades para Alagoas e outros estados nordestinos, que deixariam de ser tão
dependentes de um ou dois produtos apenas56.
Verás ainda sustenta a ideia de que por ser a Segunda Guerra Mundial um conflito de
destruição de proporções incalculáveis, caso houvesse uma vitória dos aliados nas regiões do
pacífico, os seus moradores escolheriam destruir as suas reservas de borracha, queimando
estoques e plantas, a deixar que os aliados, principalmente os Estados Unidos, tomem para si
o produto. Seria, segundo Veras, a chance do estado de Alagoas desenvolver de vez as bases
53
S/a. NECESSIDADE de um Movimento para Orientar as Populações Rurais. Jornal de Alagoas, Maceió,
16/06/43, p.03 (IHGAL).
54
S/a, É NECESSÁRIO dirigir e intensificar o aproveitamento da mangabeira. Jornal de Alagoas, Maceió,
11/06/43, p.03 (IHGAL).
55
S/a, NECESSSIDADE de um Movimento para Orientar as Populações Rurais. Jornal de Alagoas, Maceió,
10/06/43, p.03 (IHGAL).
56
S/a, A FOME da borracha Perdurará Mesmo com o Advento da Paz. Jornal de Alagoas, Maceió, 17/06/43,
p.04 (IHGAL).
56
de seu crescimento econômico, pois os norte-americanos comprariam todo o estoque alagoano
de borracha57.
Para ele, as mudanças ocorridas na estrutura da economia borracheira ampliaria as
opções comerciais e quebraria o círculo vicioso da cana e do algodão, podendo diminuir o
medo dos produtores alagoanos da concorrência com os produtores desses gêneros da região
sudeste do país, principalmente São Paulo58.
Esse medo dos produtores alagoanos advinha do fato de ter sido proposto por estados
da região sudeste, como São Paulo, a possibilidade do Governo Federal autorizar a produção
da cana em larga escala na região. Concorrendo, dessa forma, com a região nordeste, formada
por antigos produtores canavieiros.
Essa disputa foi intensificada com o advento do decreto federal que impossibilitava
os produtores de álcool e outros derivados da cana-de-açúcar vender seu produto para outros
estados da federação. Esse decreto tinha como objetivo declarado pelo governo federal
fortalecer as regiões menos produtoras de cana, incentivando-as ao plantio, para que assim
houvesse um excedente de derivados dessa agricultura, impossível de ser constituído apenas
com a produção advinda do nordeste. Os estados nordestinos não se sentiram confortáveis
com essa medida.
Uma comissão formada por representantes da lavoura canavieira da região vai se
dirigir à capital federal para discutir o futuro da economia do nordeste, que de certa forma, era
quase toda baseada na produção de cana. Dentre as propostas firmadas, estabeleceu-se o
aumento do preço do açúcar, de modo que a lavoura canavieira não continuasse deficitária, e
em contrapartida continuaria confirmada a elevação da produção da região sudeste59.
A proposta dos usineiros paulistas, de elevarem as quotas de produção de açúcar do
seu estado, seria para os usineiros alagoanos uma atitude negativa tanto para eles como para a
indústria açucareira nordestina em geral. Alega Mário Gomes de Barros, presidente da
Associação dos Plantadores de Cana de Alagoas, que os usineiros paulistas estariam agindo
com muita violência para com os usineiros alagoanos. Para ele:
antes eram manifestações esparsas de usineiros gananciosos de maiores lucros que
procuravam sabotar a grande obra do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA). Agora,
57
Ibid.
Ibid.
59
S/a, O PERIGO é Grande de Mais para que Cruzemos os Braços: São Paulo quer tudo. Jornal de Alagoas,
Maceió, 13/05/44, p.04 (IHGAL).
58
57
não. É a ofensiva organizada, bem planejada, e veja lá, com a participação do próprio
governador estadual.60
Rui Palmeira declarou que a montagem de engenhos no Sudeste tinha como um dos
objetivos maiores acabar como os banguês do nordeste. “Contrários a toda política de
limitação, eles vão mais longe. Querem engenhos, querem usinas. Querem as fábricas e
querem o caos”. É assim que haveria a possibilidade de fazer desmoronar a indústria
açucareira no nordeste, para Rui.
Os produtores no Nordeste defendiam a posição de que o único órgão que poderia
limitar os objetivos dos investidores do sul seria o Instituo do Açúcar e Álcool (IAA). Para
eles, o IAA seria o controlador de ambições, controlando a produção para que possa existir o
equilíbrio e a estabilidade industrial, garantidores, no seu modo de ver, da tranquilidade do
produtor e do consumidor61.
Eles achavam que existia a tentativa do sudeste de acabar com qualquer limitação
dirigida ou policiada pelo Estado, podendo este ter no máximo o poder de apenas direcionar a
economia brasileira. Dentro dessa visão, a indústria canavieira do Nordeste só poderia ser
salva se o IAA não fosse destruído pelos produtores do Sul. Para Rui Palmeira, “a
continuação da política açucareira do Presidente Vargas desde 1931 não acabará. O seu
sentido é o equilíbrio, a estabilidade de preços e a facilidade de crédito”62.
O mercado do Sudeste, em especial São Paulo, era muito importante para os
banguezeiros porque a venda do açúcar mascavo, da rapadura e de outros elementos oriundos
da cana que era feita com os mercados europeus acabou por conta da guerra. A suspensão das
restrições à produção de açúcar naquela região, que a portaria do Coordenador da
Mobilização Econômica queria justificar como uma medida importante pela guerra, abriria a
porta à montagem de inúmeros engenhos, os quais em pouco tempo começariam a funcionar
em condições de suprir aqueles mercados onde não mais teria o ingresso do produto alagoano.
De acordo com os banguezeiros entrevistados isso poderia resultar na paralisação dos banguês
do Nordeste63.
Com base nesse entendimento, a decisão tomada pelo coordenador, suspendendo
todas as medidas restritivas à produção de rapadura e açúcar enquanto durarem os efeitos da
60
Ibid.
PALMEIRA, Rui. Essa gente não desgraçará o Nordeste. Jornal de Alagoas, Maceió, 19/06/43, p.04 (IHGAL).
62
Ibid.
63
GUSMÃO, Messias. Contra a Economia de uma Região. Jornal de Alagoas, Maceió, 31/05/43, p.04(IHGAL).
61
58
guerra, contraditoriamente não se inspirou nas necessidades surgidas com a guerra, mas com
os desejos dos produtores do sudeste:
Desde quando se tornou urgente limitar a nossa produção, como meio único de
salvar a indústria, ameaçada de ruína com a queda dos preços, que se tenta contrariar
a finalidade desta medida. O açúcar começou a obter bons preços graças à sua
limitação de produção de acordo com consumo. E isso deve ter servido de estímulo
aos produtores sulistas. Era inconcebível que uma cultura secular, organizada de
aparelhagem complexa, formadora da base econômica de uma região tivesse que ser
transferida imediatamente para outras regiões do país, só tendo que indenizar seus
antigos exploradores, no caso os banguezeiros e usineiros alagoanos.64
Dizer que a realidade da guerra impõe algumas medidas não é de todo verdade.
Mesmo que a guerra acabasse, enquanto durassem seus efeitos tais medidas seriam tidas como
intocadas, pois a pressão dos produtores sulistas, como os de São Paulo, Rio de Janeiro e
Minas Gerais, era muito forte65.
Os produtores alagoanos achavam que a medida era incabível, gerando muitos
prejuízos à economia do estado e à sua população dependente desse tipo de plantio. Assim,
afirma um usineiro alagoano para o jornal:
Há meses a produção alcooleira de Alagoas está sob a proibição de se evadir para as
outras unidades da federação. O estado alagoano, que abastecia muitos mercados
dentro do país, onde a fabricação de álcool não é suficiente para atender ao seu
consumo, viu-se privado desse comércio para atender a necessidades de
estocamento. Não se cogitou ao menos que os depósitos existentes no estado seriam
demasiado pequenos para armazenar a produção de álcool. Por conta disso,
destilarias ameaçam parar66.
A análise de parte da elite econômica do estado e a base de seu discurso residiam
pura e simplesmente na preocupação com a diminuição dos seus lucros naqueles anos de
guerra. Chegavam a alegar que, se fosse aceito o aumento dos salários dos trabalhadores que
sustentavam a estrutura da produção sucroalcooleira, por conta do aumento da sua exploração,
teriam que inevitavelmente aumentar o preço da cana67.
Caso isso não fosse concedido pelo IAA, o aumento dos salários dos trabalhadores
não poderia acontecer por conta de não se ter alcançado uma compensação, em contrapartida,
equiparável com os esforços do Estado por parte dos trabalhadores rurais, que detinham um
baixo nível de escolaridade e não conseguiriam absorver todos os ganhos ofertados pelo
governo68.
64
Ibid.
Ibid.
66
S/a. PÂNICO entre os Alcooleiros. Jornal de Alagoas, Maceió, 10/01/43, p.02 (IHGAL).
67
S/a.O PREÇO da Cana-De-Açúcar. Jornal de Alagoas, Maceió, 13/04/44, p.04 (IHGAL).
68
Ibid.
65
59
Chegaram a afirmar que, com advento do salário mínimo, houve uma estagnação da
vida do trabalhador. Pois, de acordo com os produtores alagoanos, para o trabalhador o fato
de trabalharem dois dias e já ter o básico para comer, acabava lhes dando uma sensação de
dever cumprido deixando de trabalhar os outros quatros dias. Esse era o pensamento do
governo e da classe produtora em relação ao trabalhador, extremamente explorado e pouco
valorizado pelos donos das terras e dirigentes do estado69.
Nota-se pelo conteúdo das entrevistas realizadas para enquete uma valorização a
respeito da produção da borracha no estado. Observa-se, também, que a ideia principal dos
argumentos era estabelecer mais um núcleo de produção baseada na extensão de terra e na
concentração de lucros, visto que o maior comprador do produto seria o próprio estado,
tornando-se o principal mediador da relação entre o produtor e os países compradores ou até
mesmo com o próprio Governo brasileiro.
A enquete foi produzida com o intuito de expor apenas a opinião de um segmento da
sociedade. Os trabalhadores, os indivíduos da classe menos favorecida no estado e que
estavam diretamente envolvidos não foram ouvidos. A opinião da elite econômica
conservadora de Alagoas, como sendo a única voz a ser ouvida, era vista como a
representação da maioria da sociedade, fazendo-se presente nessas pesquisas de opinião
propostas pelos jornais. Na rádio, em várias frequências, no horário de divulgação da
propaganda da borracha, praticamente se reproduzia o mesmo discurso.
Sabemos que a maioria da população alagoana à época tinha baixa escolaridade. Essa
evidência se configura quando ouvimos os ex-combatentes alagoanos falarem que a sua base
de estudo, ou a sua formação escolar, é muito singela, mal tendo concluído o primário e que o
estudo na época da sua juventude era para poucos. Negado o seu direito de ter acesso a uma
educação básica, fortalecia a construção do discurso de que não havia possibilidades de uma
classe tão presa ainda ao passado, sem nenhuma concepção de organização de trabalho,
pudesse opinar sobre aspectos da economia alagoana.
Reforça-se esse argumento da falta de mobilização dos trabalhadores no estado por
conta da sua baixa escolaridade, ou de seu interesse por assuntos tão complexos, quando se
esquece de mencionar que durante a guerra foi-se instituído novas mudanças na relação
capital e trabalho. Vários direitos conquistados pelos trabalhadores anteriormente, como a
limitação da jornada de trabalho e o pagamento de adicional por horas extras, foram
suspensos em nome da “Batalha da Produção” (FERRAZ, 2005, p.25).
69
Ibid.
60
As faltas ao trabalho poderiam ser consideradas deserções, as greves eram vistas
como motins e seus responsáveis julgados e punidos em tribunais militares (FERRAZ, 2005,
p.26). A militarização do trabalho e, consequentemente, a vigília do Estado para com os
trabalhadores, dificultava o acesso às discussões econômicas, principalmente num estado
onde as forças dominantes eram tão agressivas aos movimentos trabalhistas como era o caso
de Alagoas.
A base da sociedade de Alagoas na década de 1940 era formada por pessoas que
trabalhavam na agricultura. No entanto, poder afirmar que não existiram comentários a
respeito das influências da guerra no estado por essas mesmas pessoas seria uma conclusão
apressada. Alguns ex-combatentes alagoanos entrevistados para esta dissertação conseguiram
dar algumas pistas sobre este período.
É preciso, contudo, deixar claro que as suas conclusões a respeito da década de 1940,
sobre a economia ou a política e até mesmo a respeito da sociedade de uma forma geral,
transmitidas e registradas só agora, passaram ao longo do tempo por mudanças. É da própria
memória esses encontros e desencontros com o passado. Comparar ou analisar o que disseram
com o que foi posto ou divulgado à época é uma forma de alargar o entendimento de alguns
temas como, por exemplo, questões ligadas à economia de Alagoas ou a sua política dentro de
um leque maior de afirmações advindas de outros segmentos sociais, que não fossem apenas
da elite política econômica alagoana.
Infelizmente, não foi possível para este trabalho expor a opinião dos trabalhadores da
época dado o fato dos pracinhas alagoanos entrevistados para esta dissertação serem
provenientes de atividades profissionais diferentes das exercidas na agricultura. Eram
comerciantes, funcionários de fábricas, servidores, entre outras profissões. Pode ter havido
sim ex-combatentes ligados à agricultura alagoana, mais especificadamente na extração da
borracha, no entanto, não foi possível localizá-los.
Talvez em estudos futuros esses homens, ex-combatentes ou não, possam ser
encontrados e consigam falar sobre suas experiências com as atividades de produção que aqui
foram relatadas. Não se podendo, por conta disso, deixar de registrar, como foi feito, as
opiniões expostas nos jornais, mesmo que sejam de um segmento da sociedade, composta
apenas de parte da elite política e econômica do estado.
Além da repercussão nos jornais locais a respeito da produção da borracha no estado,
por conta dos acordos firmados na III Conferência de Chanceleres, teremos também uma
preocupação notável dos mesmos periódicos em relação ao carnaval, uma das maiores
61
festividades brasileiras que tem um grande apreço popular e é marcadamente identificada com
a cultura nacional.
Este acontecimento durante os três últimos anos de guerra, de 1943 a 1945, terá sua
cota de discussão nos meios de divulgação. Os jornais publicados no estado vão trazer
argumentos escritos por pessoas que advogavam a possibilidade ou não de se manter essa
manifestação popular naqueles dias de conflito.
Desde janeiro de 1942, já havia manifestações formais contrárias à realização do
carnaval. A III Reunião de Consulta dos Chanceleres Americanos já servia de argumento para
aqueles não desejosos da realização da festividade. Diziam que era incompatível com a
magnitude do evento, que reunia líderes máximos do mundo para discutirem sobre a guerra,
uma multidão motivada tão fortemente pela felicidade (PEDREIRA, 2004, p.149).
Essa polêmica, que tomou conta de quase todos os estados da federação, indicava
uma preocupação por parte da população em geral e de seus “notórios representantes” a
respeito da significação de uma festa pagã que era impensável de ser negada aos festivos
foliões distribuídos por todo o Brasil (PEDREIRA, 2004, p.147).
Enquetes sobre esse assunto também foram realizadas em Alagoas, só que agora as
opiniões expostas eram mais diversificadas. Parte da sociedade, ligada de alguma forma à
administração pública, via com maus olhos a realização de uma festividade em momentos tão
tristes que assolavam o mundo.
Outro segmento social, formado por indivíduos menos favorecidos economicamente,
defendiam
as
manifestações
carnavalescas
como
algo
que
deveria
acontecer
independentemente do quadro de horrores que se tinha no momento, pois seria uma atitude,
acima de tudo, advinda de um povo destemido frente ao mal que se manifestava na Europa.
As opiniões de autoridades locais sobre a propositura ou não do carnaval, como do
professor Antônio Santos, Ulysses Braga Júnior (Diretor da Divisão do DSP), o jornalista Jota
Maia (Diretor Geral do DSP), Rui Palmeira, Ary Pitombo (Secretário do Interior, Educação e
Saúde do estado), divergiam das posições de homens como o Major Bonifácio Silveira,
personalidade popular e famoso folião de Alagoas, e do Sr Manoel Cícero do Nascimento,
Secretário do bloco carnavalesco “Cavaleiro dos Montes”.
Nas entrevistas concedidas ao Jornal de Alagoas o grupo de “ilustres” senhores
alagoanos, representantes das classes mais abastardas, relatava que o fato de grande parte do
mundo está em guerra e o Brasil tê-la declarado aos países do Eixo, fazer festas carnavalescas
seria impossível. Para este segmento, uma conduta minimamente solidária com os mortos no
62
conflito na Europa e no litoral brasileiro era incompatível com momentos de alegria pelas ruas
do país.
Chegaram a declarar que seria evidente que não se podia conciliar o espírito da
guerra e do carnaval. Um povo não podia, ao mesmo tempo, preparar-se para o ato mais grave
da sua existência coletiva, que era a luta externa, e se encantar com os folguedos escandalosos
do Zé-Pereira. O sentido de “um filho teu não foge à luta” era totalmente incompatível, para a
classe conservadora, com o desejo de expressar a sua alegria através de “mamãe eu quero”70.
Alguns mais flexíveis em relação à não proibição do carnaval no estado durante a
Segunda Guerra aprovavam-no, mas com ressalvas. Era preciso que o povo se divertisse de
uma forma pacífica e ordeira como algo que lhe possibilitasse alegria, descontração e um
benefício de natureza física. Advogavam as suas críticas na defesa do carnaval com a
alegação de que seria o povo mais humilde, os braços e pernas da produção brasileira, o maior
prejudicado caso não houvesse as festividades carnavalescas. Um povo tão sofrido não
mereceria ser proibido de brincar mesmo naqueles momentos tão sombrios71.
Havia uma clara tendência desses apoiadores mais receptíveis à propositura do
carnaval em época de guerra, de limitar a liberdade dos foliões pela ação do Estado. Era uma
noção de carnaval organizado ou vigiado pela repressão governamental. Queriam que a
segurança nacional estivesse acima das manifestações populares. Assim, não poderia haver
carnaval sem a autorização e vigilância de entidades governamentais, mesmo em localidades
onde se realizassem tais eventos de forma bastante discreta72.
Entre as opiniões divergentes das que foram expostas até o momento, duas se
destacaram. Representantes do segmento mais pobre da sociedade e defensores da
manutenção do carnaval, como o Major Bonifácio Silveira e o Sr Manoel Cícero do
Nascimento, vão declarar seu total apoio a essa manifestação popular.
Diziam eles que deveria haver carnaval para a massa, pois era com a plebe que a
pátria contava nos momentos de luta. Proibir o carnaval de rua, para eles, era ferir o coração
dos alagoanos. Limitar as festividades carnavalescas aos bailes em clubes não resolveria o
70
ATHAYDE, Austregésilo de. Os Combatentes Tomaram como Escárnio..., Jornal de Alagoas, 19/01/1943,
p.04 (IHGAL).
71
PALMEIRA, Rui. A proibição apenas do carnaval de rua seria uma injustiça ao Povo. Jornal de Alagoas,
20/01/43, p.04 (IHGAL).
72
PITOMBO, Ary. A proibição apenas do carnaval de rua seria uma injustiça ao Povo. Jornal de Alagoas,
20/01/43, p.04 (IHGAL).
63
problema da grande maioria dos foliões. Visto que as festas realizadas em tais locais seriam
feitas somente para os mais ricos, e a pobreza também precisava se divertir73.
Completando os seus argumentos, declararam que o carnaval deveria ser realizado
com todas as suas características e “com o mesmo esplendor de outrora. Não nos devemos
amofinar com a guerra. Pelo contrário, devemos procurar nos divertir para mostrar aos
bárbaros nazistas que suas ameaças não nos trazem medo”74.
Como se vê, as festividades também sofreram influências marcantes por conta da
guerra. A discussão se poderia ou não ter carnaval nos anos de conflito mundial,
principalmente em 1944 e 1945, foi pano de fundo para um debate mais profundo. Alguns
seguimentos da sociedade, a ala mais conservadora, liderada pela igreja católica, diminuía o
desejo popular pela festividade, alegando destratarem o momento tão traumático que todos
estavam passando75. Como se a população mais carente não entendesse a realidade do
momento e quisesse comemorar algo incompatível com o sofrimento de tantos brasileiros e de
tantas outras pessoas prejudicadas pela guerra.
A igreja católica chegou a declarar que o fato de quase não ter havido carnaval
carioca demonstrava a seriedade e a compreensão do povo do Rio de Janeiro, em sua grande
maioria, pelos sofrimentos dos milhares de indivíduos mortos durante a guerra. Essa atitude
deveria ser seguida por todos os brasileiros, inclusive os alagoanos. Foram publicadas várias
atividades católicas que iam de encontro às festividades de rua, como por exemplo, os retiros
espirituais na época do carnaval que sempre convocavam as pessoas ditas conscientes do
momento difícil em que o mundo estava passando76.
Enquanto isso, outro segmento, mais intimamente ligado às festividades
carnavalescas, não se esquecia de que a comemoração do carnaval era mais do que a
celebração de uma simples festa anual. Era uma manifestação de resistência à política de
divulgação e de controle governamental para com o povo. Sentiam-se participativos,
solidários ao sofrimento dos outros, embora não negassem o culto a uma festividade de cunho
popular.
Poderia até haver um sentimento de aceitação por parte do segmento mais
conservador e elitista da sociedade alagoana quanto à celebração do carnaval naquela época.
Mas, o luto desejado era como se fosse algo imposto por uma ordem legal muito mais do que
73
SILVEIRA, J. Bonifácio. e NASCIMENTO, M. C. Carnaval em Alagoas. Jornal de Alagoas, 23/01/43, p.04
(IHGAL).
74
Ibid.
75
S/a. Meio Carnaval. O Semeador, 12/03/43, p.01 (IHGAL).
76
S/a. Retiro de Carnaval. O Semeador, 06/03/43. p.01 (IHGAL).
64
algo sentimental. Os bailes, as festas em clubes e em igrejas não eram tão criticadas como as
comemorações carnavalescas. A própria celebração do Natal não fora questionada.
Parecia que a proibição do carnaval não se dava apenas por conta da súbita alegria
em tempos de guerra. O controle estatal desejava se estender por todas as manifestações de
cunho popular. Qualquer ato coletivo que fosse visto pelo estado como algo desorganizado ou
sem a sua influência direta na estrutura do acontecimento, festivo ou não, era tido como algo
perigoso que despertava cuidados.
Os festejos de Momo foram autorizados com ressalvas. Houve uma pesquisa
encomendada pela administração local em que a maioria da população alagoana, contrariando
a parte que não queria o carnaval, desejava brincar nas ruas e gostaria que as festividades não
fossem abortadas. A autorização foi dada, mas com algumas proibições como a não utilização
de mascaras, ou de alguma fantasia que não desse para identificar quem era o folião77.
A aprovação do carnaval nas ruas não só de Alagoas, mas de todo o país, não poderia
ser uma ofensa aos jovens que estavam combatendo na Europa, ou em outra parte do mundo,
pelo fato de até mesmo os pracinhas, lá na Itália, não terem aberto mão, em alguns poucos
momentos de descontração, de se lembrarem da comemoração do carnaval e do Natal, mesmo
que timidamente (SILVEIRA, 1987, p.123).
Uma interessante defesa que poderá resumir a opinião dos favoráveis ao carnaval
está exposta em um jornal carioca que assim transcreveu: Por que será que os americanos
organizam shows para os soldados até na linha de frente? O soldado que no dia seguinte
marchara para o ataque, bebe, canta e dança na véspera. Como admitir então que o povo,
longe do front, não possa divertisse livremente?78
As pressões sofridas pelos combatentes aliados, imaginadas por aqueles que estavam
no território brasileiro, eram muitas vezes desconectadas com as dificuldades passadas pelos
soldados no front. Mesmo que se tivesse um correio eficiente ou uma imprensa que divulgasse
constantes notícias da guerra, a vida dos soldados no campo de batalha na Itália, contudo,
nunca era transmitida de forma totalmente verídica.
As condições físicas e psicológicas dos soldados brasileiros, as causas da ida da FEB
para a Europa, a guerra no front e o final da guerra para o Brasil foram, nas últimas décadas,
objeto de vários trabalhos de pesquisa que tentaram descrever essas e outras questões. Os
depoimentos dos ex-combatentes mais pobres só vieram a público, no entanto, depois de
muitos anos.
77
78
S/a. O Carnaval será na Avenida Moreira Lima. A Notícia, Maceió, 01/02/45, p.01 (IHGAL).
Fonte: Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 04/02/1945 (PEDREIRA: 2004, p.170).
65
Colher os depoimento desses homens e mulheres que participaram da Segunda
Guerra passou a ser uma atividade extremamente difícil, principalmente por conta do lapso
temporal que separa as suas atividades como jovens convocados, ocorrida em 1944-45, da sua
vida atual, como velhos pracinhas. Mesmo assim, durante a pesquisa para esta dissertação
houve a possibilidade de registrar algumas falas desses ex-combatentes, naturais do estado de
Alagoas, que muito contribuíram para a consecução deste trabalho e que estarão presentes nos
próximos capítulos.
66
2. SOLDADOS ALAGOANOS NO BRASIL E NA ITÁLIA
Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Das pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.
(Canção do Expedicionário)79
Quando se observa a Canção do Expedicionário, nos deparamos com os vários locais
dos quais os soldados brasileiros vieram. Pessoas do morro, das selvas brasileiras, dos
cafezais, da boa terra da Bahia, das casas pequenas e humildes, das praias, das montanhas,
pampas, da parte ribeirinha e costeira do país, dos seringais e dos engenhos brasileiros. A
FEB foi formada por jovens advindos dos vários cantos do país. A sua base era composta, em
sua grande maioria, por pessoas de baixa renda, com pouca escolaridade e que pouco sabiam
do quadro de guerra que se configurava naquele ano de 1944.
A história desses homens foi contada de início pelo alto comando do Exército,
principalmente pelo General e comandante supremo das Forças Armadas Brasileiras na Itália,
Mascarenhas de Moraes80. Com o intuito de construir uma ideia de desempenho impecável
para a FEB, o General Mascarenhas de Moraes não poupou adjetivos que ilustrassem de
forma bastante vitoriosa todos os percursos da campanha brasileira, desde a formação da FEB,
passando pela sua composição e treinamento, até a sua atuação no teatro de operações na
Itália.
Com o tempo alguns estudos foram sendo elaborados sobre o papel da FEB. As
referências firmadas pelos militares, aos poucos acabaram sendo discutidas e confrontadas
com trabalhos que não identificavam a atuação da FEB como algo incontestável tanto do
ponto de vista militar, pois existiam grandes falhas na sua composição e na preparação dos
79
Disponível em: www.miniweb.com.br/cidadania/hinos/hino_expedicionário.html. (Acesso em: 22/02/2014). A
Canção do Expedicionário, de autoria do maestro Spartaco Rossi e do poeta Guilherme Almeida, junto com
outras marchas que traziam em suas letras alguma ligação com os pracinhas brasileiros e a presença do Brasil na
Itália, era tocada em várias rádios pelo país. Um dos principais objetivos dessas canções era incentivar o
sentimento nacionalista do povo (SANDER, 2011, p.282).
80
MORAES, J. B. Mascarenhas. A FEB Pelo Seu Comandante. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005.
67
soldados brasileiros, nem do ponto de vista político, já que a FEB também serviu de moeda de
troca para os interesses do governo Vargas junto às nações Aliadas.
A falta de identificação dos mais de 25 mil homens e mulheres que compuseram o
quadro geral de convocados para a Itália em 1944, foi visto por muitos estudiosos como algo
incompleto para se extrair respostas das dúvidas a respeito daqueles tempos difíceis, em que
filhos e filhas tiveram que se retirar, temporária ou permanentemente, do laço de suas famílias
para defenderem uma posição tomada inicialmente pelo governo, através dos acordos
internacionais como já foi exposto nesta dissertação, e que só depois com o afundamento de
navios mercantes brasileiros teve o apoio da maioria da população.
As únicas menções nos livros militares de brasileiros que participaram da guerra,
logo após o fim do conflito, são de diários feitos pelos oficiais de alta patente, aparecendo de
forma bem generalizada sobre a composição da FEB em tabelas, que descrevem o local de
origem e a quantidade de pessoas convocadas daquele determinado lugar81. Os depoimentos e
o entendimento dos convocados sobre a guerra, contudo só viriam a ser produzidos e
publicados muito tempo depois.
Coube, assim, aos curiosos no assunto, estudiosos e pesquisadores em sua grande
maioria, “perseguir” os ex-combatentes espalhados por todo o país para poderem ouvir e
registrar as suas contribuições, os seus medos e as suas críticas a respeito de como a guerra foi
vista por eles, únicos verdadeiramente a lutar na campanha da Itália e a representar o país
tanto em solo estrangeiro, quanto na defesa do seu litoral.
Relatar as entrevistas feitas com alguns pracinhas alagoanos, extrair deles alguns
dados referentes ao tema proposto, concatenando-os com outros dados advindos de
bibliografias encontradas e dar uma maior abrangência aos estudos sobre os convocados
naturais dos estados brasileiros que compuseram o quadro geral da FEB, será um ponto
importante que deverá ser registrado mais detalhadamente neste e no capítulo seguinte deste
trabalho.
Muitos alagoanos que participaram de forma ativa e puderam ter seus depoimentos
colhidos farão parte desta pesquisa. Alagoanas que ocuparam o posto de enfermeiras,
soldados enviados para a Itália e convocados para defenderem o litoral, integrantes da FAB,
ribeirinhos e até de Capelão do Exército serão demonstrados juntamente com relatos de outros
indivíduos que também serviram e deram os seus depoimentos para análises futuras.
81
MORAES, J. B. Mascarenhas. A FEB Pelo Seu Comandante. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005, p.
313.
68
Infelizmente não se teve condições de entrevistar todos os ex-combatentes alagoanos
que ainda estão vivos. Há uma dificuldade incomensurável para encontrá-los. Sendo que até
mesmo alguns dos entrevistados acabaram morrendo logo depois da entrevista ser feita. Mas,
mesmo assim, houve o acréscimo de outros depoimentos de alagoanos que foram ouvidos por
outras pessoas e que deixaram as suas contribuições registradas em jornais, livros e textos
esparsos, além de diários e outros registros pessoais que poderão ser vistos neste momento.
2.1. O Soldado Brasileiro e a Modernização das Forças Armadas
Antes de se analisar as entrevistas feitas para este trabalho com alguns alagoanos
convocados durante o período da Segunda Guerra Mundial, serão observadas estudos
referentes à preparação e o envio das tropas brasileiras para a Itália. Para tanto, será
desenvolvido um estudo não só das questões militares ou de fortalecimento do seu
aparelhamento bélico e humano, tidas como bastante positivas e tão reproduzidas
unilateralmente pelos oficiais, como também o aspecto político que envolveu a criação da
FEB e o recrutamento de cidadãos-soldados por todo o país.
Este tópico possibilitará um maior entendimento do quadro vivido pelos excombatentes no campo de batalha e poderá auxiliar na compreensão de questões importantes
sobre as causas da criação da FEB, projeto que partiu do Governo brasileiro, e o seu papel
junto às Forças Aliadas no território italiano.
As Forças Armadas brasileiras passaram, ao longo de sua criação, por mudanças
bastante significativas na sua estrutura de preparação e de combate efetivo. A nova filosofia
militar, que até o início do século XX era ditada pela concepção francesa, teve o seu
pensamento lapidado nos moldes da escola militar norte-americana durante a Segunda Guerra
Mundial (McCANN, 1982, p.84).
Essa modificação foi diretamente influenciada pelo apoio do Brasil ao bloco dos
países Aliados, em especial, aos Estados Unidos. Sendo os acordos de cooperação militar ou
de defesa mútua, estabelecidos entre os governos brasileiro e norte-americano, no decorrer
das décadas de 1930 e de 1940, os grandes modificadores da estrutura do Exército brasileiro
desde aquela época. A ida de alguns oficiais, com o objetivo de estagiar nos Estados Unidos, e
a vinda de missões e consultores ao Brasil fortalecerá a sua opção pela doutrina norteamericana (SVARTMAN, 2009). A FEB vai ser moldada dentro dessa concepção militar.
A guerra foi um forte catalisador no processo de americanização do Exército
brasileiro, pois acelerou uma tendência que vinha desde o início da década de 1930,
69
limitando, de certa forma, as posições dos dirigentes germanófilos que compunham o quadro
de militares brasileiros. Tem-se como exemplo o próprio Góes Monteiro, então ministro da
Guerra, e Eurico Gaspar Dutra, seu sucessor e futuro Presidente do Brasil em 1945, que
declaravam a sua simpatia à política de aproximação com a Alemanha Nazista82.
No entanto, outros ligados diretamente ao governo brasileiro, como Osvaldo Aranha,
então Ministro do Exterior, também não escondiam a sua inclinação para com os Estados
Unidos. Chegou a descrever a aliança com os norte-americanos como uma verdadeira “aliança
de destinos”. O Ministro acreditava que relações estreitas entre o Brasil e os Estados Unidos
deveriam ser a base da política externa brasileira, até tal ponto que acabou facilitando, para os
norte-americanos, o seu poder de barganha, dificultando, assim, os laços entre Brasil e
Alemanha (McCANN, 1982, p.134).
Mesmo não defendendo uma aliança com os Estados Unidos, alguns setores
militares, também sonhavam com o Brasil visto como uma potência. Para tanto, entendiam
que isso só poderia acontecer caso o país se industrializasse, capacitando-o a produzir não só
materiais indispensáveis à industria de base, como a siderúrgica, mas, também, o aumento da
produção de armamentos. Pontos relevantes, na visão de alguns militares, para a
independência nacional e para o fortalecimento do país, chegando a ser entendido como um
interesse nacional (CORSI, 2000, p.56).
Como já foi relatado neste trabalho, a liderança de parte do setor industrial nacional,
desde 1930, já procurava formular um projeto de desenvolvimento para o país, onde pontos
como a superação da miséria, a integração do país e a sua independência estariam vinculados
à industrialização, sem, contudo, abandonar a agricultura (CORSI, 2000, p.56).
Sempre é bom lembrar que algumas concessões dos Estados Unidos ao Brasil foram
feitas durante o período da guerra, como, por exemplo, o envio de armamento e até mesmo de
dinheiro para a reestruturação da infraestrutura do país, sendo que, em contrapartida, o Brasil
além das matérias-primas, concedeu aos Estados Unidos bases aéreas e navais no seu
território, acesso ao litoral nordestino, assistência diplomática brasileira na formação de um
sólido bloco pan-americano, dentre outras.
A política exterior norte-americana, em pouco tempo, passou a ser controlada por
considerações de ordem militar. Os Estados Unidos haviam proposto ao Brasil defender o seu
litoral contra supostas invasões, principalmente da Alemanha. Essa atitude que se baseava na
82
Góes Monteiro, Chefe do Estado-Maior do Exército, chegou a declarar que a Alemanha estaria vitoriosa por
volta de setembro de 1940. (McCANN, F.D. A Nação Armada: Ensaios sobre a história do exército Brasileiro.
Guararapes: Rio de Janeiro, 1982, p. 140)
70
concepção de que as nações têm interesses independentemente das suas relações de amizade,
contrariava a confiança do ministro Aranha, que acreditava numa sólida amizade diplomática
entre o governo brasileiro e o governo dos Estados Unidos, sem precisar se levar em conta os
interesses econômicos, políticos ou de cunho estratégico- militar (McCANN, 1982, p.141).
Para os militares norte-americanos, os brasileiros não estavam preparados para
defender o nordeste do país ou até mesmo de participar de operações no exterior. Essa
conclusão vai se dar, em parte, pelas próprias condições que se encontravam as Forças
Armadas brasileiras. O próprio Roosevelt, em 1940, vai ordenar que o Exército dos Estados
Unidos enviasse cem mil homens para o nordeste brasileiro (McCANN, 1982, p.141).
Basicamente o envio de soldados para aquela região e a atenção dobrada pelos
Estados Unidos com relação ao Brasil, ocorreram graças ao papel estratégico que o país
ocupava nos planos dos norte-americanos, como uma potência regional que deveria ser
controlada, e o medo do governo norte-americano da instauração definitiva de uma ditadura
de cunho nacionalista e aparentemente próxima, pelo menos ideologicamente, do fascismo
(CORSI, 2000, p. 92).
Acreditava o governo brasileiro que a atitude dos EUA em tentar proteger o Nordeste
contra uma invasão nazista era mentira, dado o fato dos norte-americanos acharem o Brasil
qualificado para uma ocupação conjunta nas Guianas, contra os alemães, e ao mesmo tempo,
não o era para uma defesa interna do seu território (McCANN, 1982, p.142).
O Brasil, naquele momento, mais uma vez, expressava seu temor em relação à
Argentina mais do que em relação à própria Alemanha. A histórica rivalidade com a
Argentina, que estava implementando uma ampla política de fortalecimento de suas forças
armadas para tentar ampliar sua influência sobre os países vizinhos, era a maior preocupação
do Brasil naquele momento (HILTON, apud CORSI, 2000, p.54). Por isso que havia certa
urgência, por parte do governo brasileiro, para com o atraso econômico, a falta de uma
estabilidade política e o despreparo das forças armadas do país.
As desconfianças a respeito do Exército brasileiro também eram proporcionadas
pelas mudanças do quadro de oficiais norte-americanos responsáveis pela verificação e
avaliação do contingente militar do país. O Brasil mudou pouco seu quadro militar: Dutra,
Góes Monteiro, Mascarenhas de Moraes, Oswaldo Cordeiro de Farias, entre outros,
exerceram papel fundamental nas negociações com os Estados Unidos. Enquanto, do outro
lado, as regras eram modificadas pelos novos quadros que iam entrando (McCANN, 1982,
142).
71
Brasil e Estados Unidos passaram a se acusar mutuamente. Para o Governo
brasileiro, o interesse norte-americano no país havia diminuído e isso se devia graças às
grandes vantagens extraídas por parte do seu vizinho do norte, através dos acordos firmados
entre os dois países. Já os Estados Unidos, por sua vez, alegavam que os brasileiros não
acatavam inteiramente a orientação do seu Departamento de Guerra e não haviam concluído a
organização das unidades da sua Força Expedicionária (MOURA, 2012, p.134).
A suspeita de autoridades militares estadunidenses de que oficiais brasileiros, como
Gaspar Dutra e Góes Monteiro, estariam inclinados a apoiarem o Governo alemão dificultou o
fornecimento do material bélico prometido. As suas permanências no controle do Exército
brasileiro e a existência de relações entre este com grandes entidades organizadas por naturais
dos países Eixistas só aumentavam as desconfianças do Governo norte-americano. Somado a
esse quadro de insegurança ente os dois países, havia a proibição brasileira aos Estados
Unidos de não poderem prover o pessoal militar encarregado do armamento, dos tanques, das
aeronaves, da proteção dos aeródromos e de certos pontos estratégicos localizados ao longo
da costa brasileira (MOURA, 2012, p.95).
Mesmo com todos esses problemas e com a vitória aliada no norte da África83, o
Brasil teve a sua participação efetiva confirmada na guerra com o envio de tropas para a Itália
no ano de 1944. O próprio Hobsbawm (2005) esclarece que é quase desnecessário demonstrar
que a Segunda Guerra Mundial foi global, em que praticamente todos os Estados
independentes do mundo se envolveram, quisessem ou não. Contudo, delega às repúblicas da
América Latina apenas a participação de forma mais nominal, esquecendo-se da única
exceção que foi o Brasil, participante ativo da guerra. Essa constatação é muito importante,
pois identifica o quanto a literatura mais conceituada sobre o assunto ainda está em formação,
mesmo com muitos trabalhos a respeito já tendo sido escritos.
Antes, porém, do envio da FEB para o teatro de operações na Itália, coube às
Comissões Mistas84 analisar a estrutura e capacidade do envio de tropas brasileiras para a
Europa. Membros dessas Comissões, naturais dos EUA, vieram ao país inspecionar
diretamente as condições e as possibilidades de se ter esse objetivo concretizado (MOURA,
2012, p.98).
83
Com a derrota alemã no norte da África (Operação Tocha), em 1943, o valor estratégico do Nordeste para os
norte-americanos diminui consideravelmente. Com isso, o envio de armamento para o país não se fazia
necessário diante da atual realidade. Não havia mais o temor de invasão alemã pelo litoral brasileiro
(ARGUELHES, 2010, p.139).
84
“Foram criadas por um acordo político-militar entre o Brasil e os Estados Unidos, ficando uma localizada em
Washington e outra Comissão no Rio de Janeiro, sendo a da capital norte-americana responsável pelos planos
conjuntos para a defesa do Nordeste e a segunda trabalharia para elevar os padrões das forças brasileiras e
estudar a formação de uma Força Expedicionária do Brasil” (MOURA, 2012, p.98).
72
O Ministro da Guerra, Gaspar Dutra, fez, por seu turno, uma visita aos Estados
Unidos, no intuito de colher informações e discutir o assunto na própria Comissão Mista.
Pouco tempo depois, pela portaria de 09 de agosto de 1943, estruturavam-se os mecanismos
legais para a formação da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE)85.
O General Mascarenhas de Moraes foi enfático ao afirmar que “Nossas tropas estão
contentes e impacientes para chegar à frente de batalha”, quando do seu desembarque na
Itália, para vistoria da tropa86. Em uma entrevista antes das declarações do General
Mascarenhas, o Ministro da Guerra, General Gaspar Dutra, em visita de inspeção, a convite
de Washington, em 1943, relata sobre a nossa participação direta na Guerra, afirmando que
“não será mera representação simbólica e sim uma grande força expedicionária composta de
numerosas divisões. Com esse propósito, o Brasil tem feito e fará todos os esforços para se
preparar para a luta ativa”87.
O Exército brasileiro não estava preparado para o tipo de guerra que iria empreender.
Mesmo com declarações de oficiais experientes tanto do Brasil, quanto dos Estados Unidos,
ou até mesmo da Inglaterra, a insuficiência de requisitos para aquele tipo de conflito era
patente e percebida por muitos de seus oficiais, apesar do discurso proferido de que nada
poderia dar errado para os combatentes brasileiros.
O Ministro tentava passar aos brasileiros a imagem de um Brasil afinado com o
pensamento militar norte-americano, visto que a Guerra criava a necessidade, para os países
beligerantes, de uma nova doutrina, modificada, pelo menos no ponto correspondente à
atuação efetiva no campo de batalha. MOURA (2012), assim descreve a situação do Exército
brasileiro:
Apesar dessas declarações, internamente os mesmos ministros, Dutra e Góes
Monteiro, não acreditavam que o Brasil efetivamente estivesse em condições de
participar da guerra. O Ministro Dutra confirmou a falta de preparo do Exército
brasileiro e Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior, não tinha um plano de guerra
para apresentar ao secretário da Marinha, Frank Knox, dos Estados Unidos, quando
este visitou o Rio de Janeiro em outubro de 1942. Os militares brasileiros também
reconheciam que a liderança da guerra estava nas mãos dos Estados Unidos, Reino
Unido e União Soviética, e que nações como o Brasil tinham importância e valor
secundários para o esforço de guerra dos Aliados. Assim, se o Brasil fosse colaborar
com os Aliados, teria que aceitar quaisquer condições impostas pelos Estados
Unidos (MOURA, 2012, p.121).
85
BRASIL, Exército. Estado maior do Exército. História do Exército Brasileiro.Brasília: 1972, p.827.
Declaração do general Mascarenhas de Moraes, por intermédio de um porta-voz de seu Estado-Maior. Jornal O
GLOBO, edição matutina de19/07/44, p.1. Disponível em: <http://acervo.oglobo.globo.com/>, acessado em
23/08/2013.
87
Entrevista dada em 28/01/1943 ao Jornal O GLOBO, edição matutina, p. 1 Disponível em:
<http://acervo.oglobo.globo.com/>. Acessada em: 25/08/2013.
86
73
O Brasil estava sendo preparado por uma política de interesses que o colocava na
situação de “potência associada”. Havia um planejamento por parte de setores militares
ligados ao Governo que sustentavam uma íntima relação com os Estados Unidos, objetivando
a produção econômica e o fortalecimento militar do país, tão importantes para a consecução
de uma posição relevante depois no pós-guerra (MOURA, 2012, p.121).
A visita de Dutra ratificava, entre outras coisas, essa relação ou esse comércio de
guerra entre Brasil e os Estado Unidos que, desde 1939, já havia sido discutido a cooperação
militar entre os dois países pelos chefes dos estados-maiores americano e brasileiro, George
C. Marshall e Pedro de Góes Monteiro. Marshall recebeu alguns dados sobre a capacidade
militar do Brasil, o que muito facilitou o planejamento do War Department, enquanto Góes
Monteiro recebia pouco mais do que sorrisos e apertos de mão (McCANN, 1982, p.134).
Entre maio e junho de 1939, Marshall falou sobre uma aliança militar que forneceria
as armas desejadas pelo Exército brasileiro. Mas, assim que a guerra eclodiu na Europa,
interrompendo o fluxo de armas alemãs para o Brasil88, os americanos perceberam que o
Exército brasileiro dependia do armamento dos Estados Unidos. Desse momento em diante,
foi preciso alguma determinação do Brasil para obter armas da defesa americana (McCANN,
1982, p.138-139).
A visita de Dutra, naquele momento, possibilitou um olhar mais apurado da
tecnologia militar norte-americana e um alargamento dos acordos de compras de armamentos
para o conflito mundial, como afirma nota no jornal O GLOBO:
...os visitantes percorreram toda à base, inspecionando-a e em seguida o General
Dutra examinou e manobrou pessoalmente todas as mais modernas armas norteamericanas, inclusive o fuzil-metralhadora “Garand”de calibre 45. Não só o General
Dutra como os membros de sua comitiva ficaram vivamente impressionados com o
que viram, e o ministro brasileiro disse textualmente: “tenho uma enorme impressão
deste importante estabelecimento”89.
A viagem de Gaspar Dutra aos Estados Unidos fez com que os militares norteamericanos suspeitassem que o Ministro pudesse utilizar a FEB com dupla finalidade: ora
como um meio para que o Brasil adquirisse mais armamentos, ora como propaganda pessoal,
88
Em meados da década de 1930, o comércio do Brasil com a Alemanha beneficiava diretamente o exército e os
negócios particulares. O exército desejava a continuação desse projeto, pois suas compras de armas na Alemanha
podiam ser pagas através de um complicado sistema contábil (compensação), que não implicava na remessa de
moeda estrangeira”. (McCANN, F.D. A Nação Armada: Ensaios sobre a história do exército Brasileiro.
Guararapes: Rio de Janeiro, 1982. P.134).
89
Declaração feita em 28/01/1943, no Jornal O GLOBO, edição matutina, p.1 Disponível em:
<http://acervo.oglobo.globo.com>. Acessada em: 25/08/2013.
74
sendo Dutra politicamente beneficiado por conta do prestígio que tal atitude poderia lhe
proporcionar. Dessa forma:
O governo brasileiro tentou transformar a visita de Dutra em prova do real desejo do
Brasil de participar ativamente da guerra, embora as circunstâncias e objetivos da
visita de Dutra na verdade levaram os militares estadunidenses a suspeitar do
comprometimento de fato do Brasil e de sua capacidade real de organizar a força
proposta (MOURA, 2012, p.132).
O Brasil, além dessas desconfianças dos Estados Unidos, ainda tinha outros
problemas de natureza prática. Diferentemente da Primeira Guerra, em que as trincheiras
possibilitavam a paralisação dos Exércitos conflitantes, a Segunda Guerra tinha como
característica marcante a frenética mobilização de tropas e de maquinário de todo tipo. Essa
nova forma de combate foi traçada pelo Exército Alemão, com sua famosa “Guerra
Relâmpago” ou Blitzkrieg. O Brasil estava caminhando em direção a um novo modelo de
campanha militar, do qual os Estados Unidos seriam o maior exemplo e colaborador dessa
estratégia, que teria que ser desenvolvida em pouco mais de um ano, já que se estava no ano
de 1943 e o envio das tropas brasileiras, para a Itália aconteceria em 1944 (SILVEIRA, 1995).
Depois de um ano da sua declaração de Guerra ao Eixo, o Brasil resolve, enfim, por
em prática a sua formação profissional militar. Preparado por uns, e despreparado por outros,
uma coisa estava certa: era preciso sair da neutralidade, ou da participação apenas formal. Era
necessário, para o Brasil, naquela altura dos acontecimentos, lançar-se à Guerra de forma
efetiva, sem ficar apenas no papel ou na política de defesa do litoral. Em abril de 1944, Góes
Monteiro escreveu a Osvaldo Aranha, que “se deixarmos transcorrer o atual momento
histórico... sem nos levantarmos do berço para adquirirmos uma posição sólida e desafogada
no continente, creio que arriscaremos a perder tudo mais”90.
Era preciso que o Brasil, dessa forma, efetivasse a sua colaboração, obtivesse o
conhecimento militar e o armamento prometido pelo Governo norte-americano e garantisse a
sua presença nas discussões futuras após a guerra. O envio de uma força expedicionária
brasileira para a Itália foi, assim, entendido pelo governo brasileiro como uma possível
resposta para essas questões (MOURA, 2012, p.122).
O país já estava dando aos Aliados tudo de que precisavam: apoio político, materiais
estratégicos, rotas, bases e patrulhas aéreas e navais, além do combate à quinta coluna nazista.
Era preciso justificar a declaração de guerra aos países eixistas, pois o esforço de guerra
aliado não necessitava de assistência adicional, mas existia o fato do Brasil desejar ampliar o
90
Citação retirada do livro de McCANN, F.D (1982, p. 129), concebida do Arquivo Osvaldo aranha, no Rio,
datada de 03/04/de 1944.
75
seu papel político não só no continente como no resto mundo, através do estreitamento das
suas relações com os Estados Unidos. (MOURA, 2012, p.119).
A dúvida norte-americana de que a FEB não era um mero projeto de aquisição de
armas e sim uma tentativa determinada de se envolver na luta anti-Eixo foi resolvida com a
proposta de Vargas aos Estados Unidos de manterem bases militares no Norte e Nordeste do
Brasil sob o controle estadunidense, ou pelo menos garantir a sua utilização no período pósguerra, além de uma base no Sul do país que serviria de observatório norte-americano do
governo argentino, anti-Estados Unidos (MOURA, 2012, p.145-146). Ele faria esse acordo,
mas com algumas condições estratégicas91.
Havia por parte norte-americana uma política externa de controle à influência
soviética no mundo. Tais bases representariam “um extenso sistema de segurança militar que
o Estado-Maior do Exército estadunidense estava preparando para o período pós-guerra em
diversas partes do mundo” (MOURA, 2012, p.145-146).
Vargas usava da barganha para se fortalecer política e militarmente. Embora o
governo dos Estados Unidos considerasse alto o preço cobrado pelo presidente brasileiro, a
troca parecia ser positiva para os norte-americanos. No outono de 1944, citando “razões
políticas”, Washington autorizaria a construção de duas bases aéreas no Sul do Brasil e as
forças armadas estadunidenses acabariam sendo convidadas a preparar os planos de transporte
da FEB para a Itália (MOURA, 2012, p.147).
Nesse interregno, houve, ainda, a recusa do governo britânico, que dividia os pontos
de comando dos Aliados no Mediterrâneo juntamente com os norte-americanos, quanto ao
envio da FEB para aquela localidade. Os oficiais militares britânicos estavam particularmente
descontentes com a possibilidade da presença de uma força brasileira no Mediterrâneo. Para
os britânicos, havia contingente de nacionalidades diferentes demais naquela área. Porém,
depois que os norte-americanos alegaram as razões do seu apoio à proposta brasileira de envio
da FEB92, o governo do Primeiro-Ministro Britânico Churchill, então, concordou com o seu
envio em 05 de maio de 1944 (MOURA, 2012, p.148-149).
2.2. Do processo de convocação dos brasileiros para a guerra na Itália
91
A munição prometida deveria ser enviada sem mais delongas para o Sul do Brasil; o governo dos Estados
Unidos tinha que dar ao Brasil os meios para construir as duas bases aéreas no Sul; e a FEB tinha que ser
enviada para o exterior (MOURA, 2012, p.147).
92
O acordo das bases aéreas e o contrapeso que o Brasil seria à influência Argentina na América do sul
(Ibid.,p.149)
76
Foi a primeira vez que os militares participaram, depois da guerra contra o Paraguai,
de um conflito militar internacional tão relevante para o país. Por isso essa guerra é
considerada um marco decisivo na conduta dos militares brasileiros. Como resultado dos
vários acordos, das várias visitas mútuas entre brasileiros e estadunidenses, criou-se, enfim, a
Força Expedicionária Brasileira (FEB).
A Força Expedicionária Brasileira (FEB) era o centro de um projeto construído pelo
governo e por outras organizações de direita, como a Liga de Defesa Nacional, e de
organizações de esquerda como o Partido Comunista e remanescentes da ANL, para fortalecer
as Forças Armadas Brasileiras e dar ao país uma posição de destaque maior na América
Latina e de no mundo como “aliado especial” dos Estados Unidos (MOURA, 2012, p.122).
Da mesma forma que ela representava uma saída para os problemas externos,
internamente servia tanto para o fortalecimento das Forças Armadas, quanto para a
sustentação do regime político autoritário de Vargas que levantava a bandeira de unidade
nacional. De acordo com parte dos apoiadores da FEB, ela poderia ser a expressão de vontade
de uma nação (VIGEVANI, apud CORSI, 2000, p.230).
O número de combatentes que compuseram a FEB é apresentado em vários
documentos. A Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, Secção Alagoas, disponibilizou
uma relação sucinta do roteiro da FEB na Europa e de alguns dados do seu quantitativo
militar. Dessa forma, pode-se afirmar que 25.334 homens e mulheres fizeram parte da FEB,
no ano de 1944. Foram 239 dias de combate (do dia 06 de setembro de 1944 a 2 de maio de
1945) como a unidade-base do Quarto Corpo do Quinto Exército dos Estados Unidos na
Itália93.
Motivada por ideias antinazistas e antifascistas, e composta por camponeses,
trabalhadores rurais, operários, comerciários, entre outros, a FEB se tornou instrumento de:
um programa político-militar voltado ao fortalecimento do regime e à ampliação do
prestígio e do poder de segmentos da classe dirigente para o país. Achava-se que o
desempenho da FEB conferiria ao Brasil o direito a uma voz ativa nas conferências
de paz futuras. Outros previam a provável projeção do país como grande potência
internacional. A FEB era representada como instrumento de uma política de
“Potência Associada” no pensamento das classes dirigentes brasileiras (MOURA,
2012, 149-150).
Antes de o Brasil entrar na guerra, entre 1939 e 1942, sua força militar estimada era
de 66.000 a 95.000 soldados, distribuídos em regimentos, pelos dez distritos militares do país.
93
Dados extraídos de um relatório cedido pela Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, secção de Alagoas,
aonde subscreve o roteiro da FEB resumidamente antes e depois do seu envio para a Itália.
77
A grande maioria estava localizada no triângulo Rio de Janeiro - Belo Horizonte - São Paulo
(McCANN, 1982, p.157). Com a entrada direta do Brasil na Segunda Guerra, o quadro militar
de convocados para a FEB espalha-se mais entre os estados da federação94. Isso reforçava o
desenho de união nacional, que tendia a ser propagandeado como um desejo da nação e não
apenas do governo.
A Major Elza Cansanção95, natural do Rio de Janeiro, filha de pais alagoanos,
participou ativamente da Segunda Guerra Mundial como enfermeira e em seu livro de
memórias, descreve as condições dos brasileiros que chegaram à Itália. Afirma que pelo fato
dos dirigentes militares da época serem em sua maioria germanófilos, não tinham o menor
interesse em que a FEB partisse. “Tudo que a ela destinavam era de má qualidade. Até o
material humano. Pensaram em mandar o que havia de pior nos exércitos do interior”
(CANSANÇÃO, 1987, p.54).
Os brasileiros convocados não passaram por uma rigorosa inspeção de saúde, até
porque o Exército brasileiro não tinha material suficiente para desenvolver tal procedimento
preventivo. É da própria Major a afirmação de que, para alguns dirigentes, a convocação seria
posta sem nenhuma avaliação mais apurada dos sorteados: “Para bucha de canhão, qualquer
coisa que fique em pé sobre duas pernas está bom” (CANSANÇÃO, 1987, p.54).
No caso do Brasil era evidente que atrás das fardas existiam homens, na sua grande
maioria jovens, que sentiam pressões de todos os tipos. Não havia um estudo do estado
psicológico do combatente. Quando se deparava com um esquizofrênico, este logo era
tachado de medroso e não de enfermo. Elza Cansanção, relatando a respeito dos poucos
exames psicológicos feitos nos soldados brasileiros, escreveu que “por eles passaram muitos
soldados e até mesmo oficiais que não tinham absolutamente condições de suportar as tensões
94
Amazonas: 91; Pará: 281; Maranhão: 134;Piauí: 87; Ceará: 347; Rio Grande do Norte: 341; Paraíba do Norte:
349; Pernambuco: 651; Alagoas: 148; Sergipe: 192; Bahia: 686; Espírito Santo: 345; Estado do Rio: 1942;
Distrito federal: 6.094; São Paulo: 3.889; Paraná: 1542; Santa Catarina: 956; Rio Grande do Sul: 1.880; Minas
Gerais: 2.947; Goiás: 111; Mato Grosso: 679. (MORAES, J. B. Mascarenhas. A FEB Pelo Seu Comandante. Rio
de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005, p. 313).
95
Nascida em 21 de outubro de 1921, no Rio de janeiro ingressou no serviço ativo do Exército Brasileiro, em
1943, sendo a primeira brasileira a se apresentar como voluntária, na diretoria de saúde do exército, para lutar na
guerra. Seguiu para a Itália, juntamente com 73 enfermeiras no Destacamento precursor de saúde. Durante a
campanha, trabalhou nos hospitais de evacuação, local onde atuou o maior contingente de enfermeiras brasileiras
nos hospitais norte-americanos. Foi designada enfermeira “chefe” na cidade de Livorno. No pós-guerra,
concedeu várias palestras e escreveu vários livros, dentre eles, o que é utilizado nesta pesquisa, intitulado “E Foi
Assim que a Cobra Fumou”. Faleceu aos 88 anos de idade, em decorrência de uma queda que fraturou o fêmur,
como a mulher mais condecorada do Brasil, de acordo com o Serviço de Informações Militar. (EXÉRCITO,
Centro de Comunicação Social do. Personagem da Nossa História: Major Elza Cansanção Medeiros, p. 58).
78
e as pesadíssimas responsabilidades de enfrentar uma batalha ou de conduzir soldados nessas
condições”96.
Era normal que os países beligerantes não demonstrassem ao inimigo as suas falhas,
suas debilidades ou os seus percalços na formação e preparação para o combate. Muitos
soldados relutaram em ir para a guerra. As notícias que chegavam até eles não condiziam com
a realidade que se estava vivendo ou que se via dentro do Exército.
Os discursos variavam de soldado para soldado. Aqueles que continuaram no serviço
militar posteriormente à guerra esboçam um discurso voltado principalmente para a exaltação
ao Exército, muito parecido com o que as matérias jornalísticas daquele momento
apresentavam. Os que, por vários motivos, desistiram da carreira militar, não estavam tão
preocupados em afinar seus depoimentos com a suposta construção heróica do país. São bem
simples ao afirmarem que o serviço militar foi feito com o lastro da obrigatoriamente.
Desconhecem a palavra voluntariado, ou se a identificam, esclarecem que tais voluntários não
tinham o menor conhecimento do que estava acontecendo na Europa.
A afirmação, exposta nos jornais, de que “não há brasileiro que não compreenda a
transcendental significação desse acontecimento”97 é um chamado à nação para o
posicionamento do país junto às grandes potências capitalistas da época, em particular da
Inglaterra e dos Estados Unidos.
Não se pode negar que alguns oficiais possuíam alguma experiência de combate.
Estágios de observação no norte da África e na Itália foram feitos por alguns chefes militares
brasileiros, entre eles o general Mascarenhas de Moraes98. Outros nomes também são
mencionados na tentativa de formar um contingente militar mais capacitado com as
necessidades da guerra. Foram os casos dos capitães alagoanos Edinardo Avila Melo, do 22º
Batalhão de Caçadores, José da Silva Barros, do 4º Regimento de Artilharia Montada, e Mário
de Carvalho Lima, do 20º Batalhão de Caçadores. Todos eles saíram de Alagoas em 04 de
maio de 1944, em direção a Recife, para depois, em dia não publicado, partirem para os
96
Cerca de 300 homens aproximadamente, ao chegar em terra, foram direto para o hospital na Itália, com
enfermidade diversas como sarampo, catapora, coqueluche, varicela e venéreas (CANSANÇÃO, 1987, p.54).
97
Notícia retirada do Jornal o Globo, edição vespertina, de 18/07/44, p. 01. Disponível em
acervo.oglobo.globo.com Acesso dia 15/07/2013.
98
Organizou-se um grupo, chamado de “Grupo de Observadores Militares”, que seguiu para a África e Itália, em
dezembro de 1943, chefiado pelo General-de-Divisão João Batista Mascarenhas de Moraes, com o objetivo de
colher informações úteis à formação e ao treinamento de nossa tropa expedicionária, nos moldes do Exército
norte-americano. EXÉRCITO, Estado maior do.História do Exército Brasileiro.Brasília: 1972, p.831
79
Estados Unidos. Seria um estágio de três meses no Exército norte-americano, em Fort Bening,
distrito de Columbia99.
O capitão Mário de Carvalho Lima tornou-se um observador de alguns momentos
relevantes que aconteceram em Alagoas durante a década de 1940. Publicou alguns textos,
entre eles Sururu Apimentado100 que está marcado na literatura do estado como um material
importante para o entendimento não só dessa época, como, também, de outros períodos
relacionados ao contexto histórico político de Alagoas.
Basicamente, suas impressões dizem respeito à segunda metade da década de 1940, e
se referem ao período em que ele era comandante do 20º BC. Seu trabalho aqui citado pode
ser caracterizado como um livro de memória, mas que traz alguns aspectos históricos de
Alagoas. Uma dessas marcas do estado refere-se às atitudes autoritárias do seu governador
Silvestre Péricles de Góes Monteiro (LIMA, 2008, p.170).
Em entrevista concedida, um ex-combatente alagoano, Rosalvo Loureiro de Souza,
morador de Delmiro Gouveia, relata alguns fatos que contribuíram para essa pesquisa sobre
os pracinhas alagoanos. Notando-se a lucidez com que relembra acontecimentos ocorridos
durante sua trajetória de vida, já com 93 anos, ao ser indagado sobre a atuação dos governos
Vargas e Ismar de Góes Monteiro, ele imediatamente cita o irmão do interventor alagoano,
seu sucessor, eleito, Silvestre Péricles. Para o entrevistado, “Silvestre era um homem bastante
ignorante e tido por todos como um valentão”101. Tal relato não é diferente do que está
registrado no livro de Mario de Carvalho Lima sobre essa personalidade alagoana.
Por ser um operário, diferenciava-se do conjunto de ex-combatentes nordestinos que
compunham o quadro geral de convocados, muitos advindos do trabalho no campo. Assim
como o pracinha Ulisses Firmino de Oliveira, também operário e alagoano, teve a sua
convocação publicada em nota dos jornais correntes da época102.
O processo de convocação foi muito traumático. Tanto para os que foram
convocados quanto para os familiares mais próximos que não sabiam quais as reais condições
99
S/A, Oficiais Brasileiros estagiarão nos Estados Unidos: Designados três capitães servindo em nossa capital.
Jornal de alagoas; 04/05/44, p.02 (IHGAL).
100
LIMA, Mario de Carvalho, Sururu Apimentado: Apontamentos para a História Política de Alagoas. Maceió:
Imprensa oficial, 2008.
101
SOUZA. Rosalvo J. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 14/09/2013.
102
O jornal de Alagoas, tinha uma seção de publicação, intitulada “Noticias Militares” que tratava de assuntos
referentes ao exército. Dentre esses assuntos existia a relação de convocados por sorteio, que viriam servir ao
Exército naquele ano. Assim, dispunha a coluna militar no Jornal de Alagoas, de 05/04/44, da pág. 02: Relação
dos cidadãos que foram alistados á revelia pelo cartório do 1º Distrito-Maceió, para concorrerem ao sorteio
militar que terá lugar em setembro de 1944. Classe de 1924: JOSÉ, filho de Joanita de Azevedo melo; IZAIAS,
filho de Antonio paulino da Silva; AMARO, filho de Manoel José dos Santos...
80
materiais do conflito. Desconheciam, em grande parte, o processo de desenvolvimento e
evolução da guerra.
O coronel capelão militar do II Grupo de Obuses da FEB, Alberto da Costa Reis, em
entrevista para o Projeto de História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial, demonstra
sua vontade de ir para guerra quando esconde dos seus pais a sua viagem para a Itália, não
sendo convocado e sim voluntário para participar do combate mundial. Mentiu ele para a sua
mãe afirmando que iria para Recife, quando na verdade seu embarque para a Itália já estava
marcado103.
Além do capelão alagoano Alberto, outros combatentes se dispuseram de livre e
espontânea vontade a servir o país. O grupo de enfermeiras que participou ativamente da
Segunda Guerra Mundial e que teve alguns exemplos de espontaneidade é lembrado por
algumas pesquisas sobre o tema. O envio de mulheres para a guerra tornava-se mais do que
uma prática, uma necessidade imposta pelas condições dos países envolvidos no conflito.
Junto com a FEB, formou-se a Organização Feminina Auxiliar de Guerra (OFAG),
composta por mulheres uniformizadas, entre 17 e 50 anos de idade, que prestavam os serviços
tradicionalmente considerados femininos, como de secretária, telefonista, recepcionista,
datilógrafa e de enfermeira. Ao entrar na organização, “fazia um juramento que incluía termos
que lembravam características do modelo de feminilidade dominante da época, como, por
exemplo, a afeição e a bondade” (WOLFF, 2012, p.431-432). Embora estivessem se
associando ao Exército, uma instituição masculina em princípio, elas eram obrigadas a
defender os “valores femininos”.
Muitas mulheres da OFAG trabalharam no Brasil durante a guerra, auxiliando o
policiamento de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Essa experiência neste período
seria, mais tarde, utilizada como exemplo pelas defensoras da criação da Polícia Feminina,
que trabalharia na proteção de mulheres, crianças e de outras questões sociais (WOLFF, 2012,
p.432). Embora se sabendo disso, o papel de destaque da participação feminina na Segunda
Guerra coube mesmo às enfermeiras de guerra.
No caso do Brasil, foram convocadas, aproximadamente, 50 enfermeiras nas duas
primeiras turmas de formação104 (CANSANÇÃO, 1987, p.50). Nem todas que participaram
dos primeiros exercícios no Rio de Janeiro ou no Rio Grande do Norte foram selecionadas
103
História Oral do Exército na Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 2001,
p. 204.
104
Tal número é aumentado para 67 enfermeiras no total, até o fim da guerra em 1945. (CAMERINO, O. de A. A
Mulher Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Cape: Rio de Janeiro, 1983).
81
para o embarque com destino à Itália. No entanto, a turma de mulheres disposta a colaborar
para com o Brasil na Itália foi, de certa forma, significativa.
Os motivos de tal engajamento são os mais diversos possíveis. Existiam mulheres
que já tinham certa história militar na família e se sentiam no dever de participar para honrar o
nome da família. É o caso, por exemplo, da Major Elza, não tendo irmão vivo que pudesse ir e
tendo o pai idoso, sentiu-se na obrigação de se apresentar, mesmo contra a vontade dele
(CANSANÇÃO, 1987, p.39).
Outras por motivos pessoais como Helena Maria dos Santos, natural de Alagoas, que
teve o marido morto por conta do torpedeamento alemão ao navio mercante Anibal Benevolo,
em que ele trabalhava, tornou-se enfermeira e participou de todos os cursos que dispunha
naquele momento, chegando a declarar que: “quero honrar a memória do meu marido. Ele deu
a sua vida pelo Brasil. Quando eu soube de sua morte, o que desejava era morrer também.
Hoje, não. Quero seguir para a luta e voltar com vida”105.
A alagoana Olímpia de Araújo Camerino, uma das enfermeiras que trouxe a família
como exemplo de amor à pátria, era oriunda de família de militares. Tinha oito parentes
oficiais da ativa e um na reserva, sendo que um deles fez parte da FEB, o capitão Francisco
Caldas de Araujo Xexeu. Ela era escrituraria da diretoria do recrutamento e tornou-se
enfermeira só para se alistar como voluntária para a guerra106.
Era filha de Olímpia de Araújo Camerino e José Jacinto Camerino. Viveu sua
infância no interior de Alagoas, tendo posteriormente se transferido para Maceió a fim de
completar seus estudos. Mudou-se em seguida para o Rio de Janeiro para assumir um
emprego no Ministério da Guerra107.
Quando dos sucessivos torpedeamentos dos navios brasileiros pelos navios alemães
nas costas brasileiras, fez curso de enfermagem para voluntária socorrista e manipuladora de
Raios X, no Rio de Janeiro. Criado o Curso de Emergência de Enfermeiras da Reserva do
Exército, também se apresentou como voluntária, seguindo depois para a Itália. Chefiou um
grupo de 33 enfermeiras que, em 19 de outubro de 1944, embarcou para a Itália. Atuou no
Serviço Hospitalar Brasileiro, junto aos seguintes hospitais na Itália: 7th Station Hospital, em
Livorno; e o 35 th Field hospitalar, Sparinise, em Nápoles108.
105
TOURINHO, Borba. A Mulher Brasileira vai para Guerra... de Alagoas à Europa. Jornal de Alagoas;
04/05/44, p.05 (IHGAL).
106
Ibid.
107
SILVA, E. Q. R. e BONFIM, E.A (Orgs). Dicionário Mulheres de Alagoas Ontem e Hoje. Maceió: EDUFAL,
2007.
108
Ibid.
82
Foi intermediária entre o grupo de 20 colegas secretária anexa ao 7th Evacuation
Hospitalar. Foi designado, também, para enfermaria de ligação entre a administração
Brasileira e o hospital em Livorno. Voltou ao Brasil em 3 de outubro de 1945 e em 29 de
outubro do mesmo ano foi licenciada e mandada retornar à sua repartição, ou seja, ao
Ministério da Guerra. Por força da Lei nº 3169, retornou ao serviço ativo no qual permaneceu
até sua reforma por idade e tempo de serviço o que lhe valeu a promoção para Capitã, com
proventos de major109.
Recebeu várias condecorações entre elas as Medalha de Guerra, de Campanha,
Meritorius Service United Plaque, Ordem do Mérito Militar no Grau de Cavaleiro, Medalha
do Pacificador e a medalha Mascarenhas de Moraes. Publicou um livro sobre a experiência
das brasileiras na Segunda Guerra Mundial intitulado A Mulher Brasileira na II Guerra
Mundial110. Na vida civil, colaborou na Associação Nacional de Veteranas de Guerra,
ajudando os seus companheiros de campanha mais necessitados e faleceu no Rio de Janeiro.
A Capitã Camerino foi uma das principais representantes das enfermeiras febianas.
Assim como a Major Elza Cansanção, ela fez parte de um pequeno grupo de militares que
conseguiu publicar as suas experiências durante a guerra na Itália. A sua obra sobre o papel da
mulher brasileira convocada, mais especificadamente a atuação do corpo de enfermeiras da
FEB, foi elaborado em forma de diário, onde ela aborda, entre outros assuntos, o caráter
patriótico dessas 67 mulheres que compuseram o quadro geral de enfermeiras.
Diferentemente de Elza Cansanção, que mesmo sendo uma defensora do sentimento
patriótico dos convocados, critica o fato do país ter mandado homens e mulheres para uma
guerra com pouca preparação militar. Olímpia, opostamente, engrandece e exalta
sobremaneira a preparação das enfermeiras para a guerra. Segundo a Capitã Camerino:
Ao mesmo tempo em que se adestravam os rapazes da Força Expedicionária
Brasileira, que defenderam nos campos de batalha da Europa, com bravura e
civismo, a honra e a causa da nossa Pátria, fortalecendo as nossas gloriosas tradições
militares, outros trabalhos especiais de adestramento eram realizados, com o fim de
preparar uma turma de enfermeiras para completar a nossa expedição oferecendolhes os modernos conhecimentos e recursos de guerra (CAMERINO, 1983, p.32).
Talvez a sua posição de defesa do discurso dos militares de alta patente quanto à
qualificação positiva dos brasileiros convocados e a sua relação familiar muito próxima com o
Exército sejam alguns pontos que a levaram a ser tão requisitada para palestras e outros
eventos promovidos pelas Forças Armadas brasileiras, sobre a participação do país na
Segunda Guerra Mundial. Isso não quer dizer que os seus serviços militares não tenham sido
109
110
Ibid.
CAMERINO, O. de A. A Mulher Brasileira na Segunda Guerra Mundial. Cape: Rio de Janeiro, 1983.
83
reconhecidos por conta da sua eficiência na Itália. Porém, o fato de haver essas ligações com
o Exército não podem ser de forma alguma desconsideradas, pois outras enfermeiras que
participaram praticamente da mesma forma não tiveram os seus depoimentos colhidos durante
todos esses anos111.
Embora a profissão de enfermagem tenha um número maior de mulheres, o Exército
só tinha até aquele momento enfermeiros. Avisados pelos norte-americanos de que a FEB
deveria levar o seu próprio corpo de enfermeiras com o objetivo de facilitar o entendimento
entre pacientes e enfermeiros e de ajudar, também, as enfermeiras norte-americanas já
sobrecarregadas (CANSANÇÃO, 1987, p. 64).
Praticamente todos os cursos ofertados àqueles que desejavam ir para a Itália,
forçosamente ou não, tinham como base de formação a escola militar norte-americana.
Mesmo assim, os padrões estabelecidos pela escola militar dos Estados Unidos eram, para o
Exército brasileiro, difíceis de serem copiados. O manuseio de seu armamento configurava
muito bem essa constatação. Fuzis Garand, morteiro de 60 mm e bazuca, metralhadora leve
ponto 30, canhão anticarro de 57 mm, eram desconhecidos entre os combatentes recrutados
para a FEB112.
Em entrevista, o 2º Tenente aposentado, Ulisses Firmino Oliveira, de 95 anos, natural
de Alagoas e ex-combatente da FEB, durante a campanha na Itália, relatou que foi mandado
por um major limpar um fuzil113. No entanto, a sua experiência com a arma era praticamente
nenhuma. Não obtendo êxito na obrigação demandada, foi imediatamente reprimido pelo
oficial.
O general Cordeiro de Farias, de acordo com Ulisses, vendo aquela situação, advertiu
o major, argumentando que tal atitude não poderia ser feita com os recrutas. Isso demonstra
que o próprio oficialato do Exército brasileiro já possuía uma noção do grau de dificuldades
que a FEB detinha, principalmente em relação aos seus convocados. Estendia-se essa
inexperiência também aos oficiais médios, que desconheciam a expressão militar “ordem
dada é ordem cumprida”.
111
Em um texto de Juçara L. Leite é abordado a questão dos diferentes olhares presentes nos diários de Elza
Cansanção e Olímpia Camerino e o testemunho de uma enfermeira chamada Berta de Moraes. Neste há uma
acentuada discordância entre o conteúdo principal dos dois diários e o depoimento de Berta. A autora alerta com
seu texto para a questão dos diferentes olhares presentes em dois diários articulando-os a um testemunho de
pessoas que estiveram envolvidas de alguma forma a um mesmo contexto, no caso enfermeiras brasileiras na
Segunda Guerra Mundial (LEITE, J. L. Diários de Guerra: mulheres, livros e testemunhos. In: Anais do XXVI
Simpósio Nacional de História (ANPUH). São Paulo, julho 2011).
112
EXÉRCITO, Estado maior do. História do Exército Brasileiro.Brasília: 1972, p.883
113
OLIVEIRA. U. Firmino. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 14/09/2013.
84
O próprio logotipo da FEB demonstrava claramente a falta de segurança que a Força
Expedicionária passava para o resto do país. Os comentários de que seria mais fácil uma
cobra fumar do que o Brasil ir para a guerra só não foi amplamente divulgado pela imprensa
por conta da censura do Estado Novo. Mesmo assim, os comentários foram disseminados
fortemente por parte do ministério de Vargas e pelos agentes da quinta-coluna, defensores de
uma aliança com o governo nazista, que visavam o impedimento do combate direto entre
Brasil e os exércitos da Alemanha e o da Itália114.
Os meios midiáticos da época tentavam, de várias formas, promoverem certo
sentimento popular de aversão às suas propagandas contrárias à entrada do Brasil contra os
países Eixistas. Comícios de repúdio à atitude de descrédito para com a FEB foram montados
em quase todas as capitais. A convocação da população era feita principalmente nos jornais de
grande circulação. Notas explicativas do local, da data e da hora das manifestações vinham,
na maioria das vezes, expressas em chamadas de maior visibilidade. O Jornal de Alagoas,
que, em nota, chama a todos para o grande comício anti-fascista, que ocorreu em Maceió, na
Praça da Catedral, no dia 04 de maio de 1943, é um dos exemplos. Tal ato foi promovido pela
Associação Pré-Universitária Alagoana115.
Mas, mesmo assim, ficou a dúvida se realmente eles teriam condições de representar
o país na Europa. Apesar da dedicação dos soldados brasileiros na Itália, e apesar de seu
reconhecido valor como força de combate, “o papel da FEB na guerra foi extremamente
modesto e não poderia resultar no capital político que muitas autoridades brasileiras haviam
esperado” (MOURA, 2012, p.150).
A proposta de dar uma resposta para a população brasileira e uma outra externa para
os países que acreditavam ser o Brasil o mais gabaritado para negociar acordos, dos mais
variados tipos, com as grandes potências européias e até mesmo com os Estado Unidos, não
foi efetivamente concretizada.
Mesmo tendo sido a FEB criada mais como resultado de uma demanda brasileira
junto aos Aliados, do que uma resposta às demandas dos Aliados, particularmente aos Estados
Unidos, os pracinhas que embarcaram para a guerra, entretanto, nada podiam fazer a não ser
114
EXÉRCITO, Estado maior do.História do Exército Brasileiro.Brasília: 1972, p.832
“Como em todo o Brasil, nesta data (04/05/1943), os nossos estudantes querem significar, mais uma vez, e de
modo eloqüente, a sua repulsa e o seu ódio aos traidores nacionais, justamente no dia em que completa um lustro
da fracassada intentona dos fascistas de Plínio Salgado, que criaram a quinta-coluna, no nosso território, em
conluio com os agentes internacionais da política opressora de Hitler, e de toda a sua camarilha... farão uso da
palavra consagrados tribunos, entre os quais, o professor Antônio Santos e o escritor Ailton Quintiliano”. Jornal
de Alagoas, de 04/05/1943, p.2, (IHGA).
115
85
tentar voltar vivos para as suas casas. E foi o que eles, dentro das suas limitações, tentaram
fazer.
Do ponto de vista militar estadunidense, havia uma vantagem em concordar com a
criação da FEB: a crescente influência das Forças Armadas dos Estados Unidos sobre seus
colegas brasileiros no período pós-guerra. Houve, assim, um aumento da dependência militar
brasileira, sem, contudo projetar o Brasil a um patamar de potência mundial (MOURA, 2012,
p.152).
2.3. A Guerra no Front
Mesmo que se tenha uma noção do que foi a guerra no campo de batalha, as
reproduções, tanto de imagens quanto de palavras sempre ficaram devendo à memória
daqueles que viram bem de perto os horrores do ambiente extremamente agressivo nos teatros
de operações da Segunda Guerra.
Praticamente o mundo todo estava envolvido com o conflito mundial do início da
década de 1940. Como relata Hobsbawm (1995, p.32), “a Segunda Guerra Mundial foi uma
aula de geografia”. E continua o autor, “locais, regionais ou globais, as guerras do século XX
iriam dar numa escala muito mais vasta do que qualquer coisa experimentada antes”.
O seu grau de expansão é diretamente proporcional aos anseios dos governos, que
compuseram a mesa de negociações fracassadas, durante o período crítico da políticaeconômica capitalista, que será marcadamente lembrada nos anos de 1929, com a quebra da
bolsa de Nova York, somada às reivindicações territoriais dos países derrotados na Primeira
Guerra. No caso em questão, como já foi visto no primeiro capítulo desta dissertação, a
Alemã e a Italiana, de Hitler e de Mussolini, respectivamente.
Por ser objeto de pesquisa deste trabalho a participação dos pracinhas alagoanos na
Segunda Guerra Mundial, o panorama histórico do teatro de operações será o da Itália, tendo
como período de estudo os anos de 1944 e 1945. Tempo este que será o do envio das tropas
brasileiras para a Europa, mais especificadamente no Sul do território italiano.
Após ter feito uma breve passagem de observação pelo Norte do continente africano
e pela Itália, o general Mascarenhas de Moraes regressou ao Brasil com informações a
respeito daquela localidade. Concatenando a isso, outros fatores importantes que
possibilitaram a ida do Brasil para a guerra na Europa vão se fazer presentes.
86
A expulsão dos alemães e italianos do Norte da África e o desaparecimento de perigo
da suposta invasão do território nacional por forças do Eixo116, embora tenham sido pontos
relevantes para o envio da FEB, não serão os únicos fatores determinantes, do ponto de vista
militar, para esse envio.
Como já foi visto neste capítulo, existiram acordos econômicos e militares entre
Brasil e Estados Unidos que possibilitaram a entrada efetiva do país na guerra. Esses acordos
diziam respeito não só a armamentos vendidos pelos Estados Unidos a preços mais baixos
para o Brasil, mas também a liberação para os norte-americanos de bases no Sul e Nordeste
do território brasileiro fortalecendo assim, a primazia estadunidense na região Sul-americana
(MOURA, 2012).
A FEB operou na Itália durante aproximadamente sete meses e dezenove dias. A sua
guerra começou antes, como foi visto, já no processo de afirmação de sua criação. Porém, o
lapso temporal escrito acima, que se iniciou em 16 de setembro de 1944 e terminou em 02 de
maio de 1945, diz respeito ao período em que a FEB esteve envolvida diretamente no conflito
(SILVEIRA, 1987, p. 20)
Com um efetivo aproximado de 25.000 homens, contando com quatro generais e
1.535 oficiais. Neste total não estão incluídos três oficiais da Aeronáutica que serviram na
esquadrilha de ligação e observação da 1ªDIE; 15 da ativa e da reserva, destacados para a
justiça militar da FEB; 25 capelães militares; 28 funcionários do Banco do Brasil e 67
enfermeiras117.
A FEB inicialmente mandou, num 1º escalão algo em torno de 5 mil homens, que
partiram no dia 02 de julho de 1944 com destino à Itália, chegando apenas em 16 do mesmo
mês, no porto de Nápoles. No dia 06 de outubro, chegaram o 2º e 3º escalões, com cerca de 11
mil homens e os aviadores do 1º Grupo de caça, que logo tiveram que entrar em ação. Os dois
últimos escalões, o 4º e o 5º, chegariam à Itália pouco tempo depois, participando das
operações mais decisivas contra o inimigo, como o aprisionamento de toda uma Divisão
alemã, a 148ª118.
No início das conversações com os Estados Unidos, firmou-se o entendimento de que
o Brasil forneceria três divisões de infantaria para a Itália. No entanto, apenas uma foi: a 1ª
DIE. O envio de vários escalões para a Itália configura o que se chama de recompletamentos.
116
BRASIL, Exército. Estado maior do Exército. História do Exército Brasileiro.Brasília: 1972, p.831
Roteiro da FEB, disponibilizado pela Associação dos Ex-combatentes do Brasil, secção de Alagoas, baseado
em dados concedidos pelo Exército brasileiro.
118
Roteiro da FEB, disponibilizado pela Associação dos Ex-combatentes do Brasil, secção de Alagoas, baseado
em dados concedidos pelo Exército brasileiro.
117
87
A mudança de planos não tinha nada a ver com a vontade ou não dos brasileiros de
participarem ativamente da guerra. Mas, tal fato se deu, principalmente, em razão das novas
necessidades de meios de transporte para o ataque através do Canal da Mancha, então em fase
de planejamento. A partir desse ataque, a Itália e o Mediterrâneo deveriam tornar-se um teatro
secundário119.
Vernon A. Walters, em um livro de memória, “Missões Silenciosas”, descreve a sua
participação na guerra, entre outras funções, como de intérprete para alguns oficiais
brasileiros, nas conversas com o alto comando norte-americano. Ele mesmo afirma ter
encontrado algumas celebridades militares brasileiras, como o Coronel Humberto Castelo
Branco e o General Mascarenhas de Moraes, ajudando-os na tradução das conversas com os
generais norte-americanos Eisenhower e Mark Clark:
“Fomos recebidos pelo General Clark, em Nápoles, no seu posto de comando, nos
jardins atrás do Palácio de Caserta, um antigo palácio real italiano. Discutiram-se os
detalhes do emprego da 1ª Divisão brasileira. Já então se sabia da impossibilidade de
transportar mais de uma divisão para a Itália, pois todos os navios disponíveis
seriam desviados para tomar parte nos desembarques na Europa Ocidental”.
(WALTERS, 1986, p.83).
De acordo com WALTERS (1986), tanto Mascarenhas de Moraes, quanto o General
Zenóbio da Costa, que estava acompanhando-o, compreenderam a situação. Para o autor, a
decisão de incluir a tropa brasileira no V Exército “decorreu do fato de o General Clark já
contar em seu Exército com contingentes oriundos de várias nações” (WALTERS, 1986,
p.83).
Essa característica multinacional, na constituição do grupo de combatentes, não foi
uma especificidade norte-americana. O VIII Exército britânico, que combatia na Itália ao lado
do V Exército dos Estados Unidos, também era integrado por forças de várias nacionalidades.
A divisão brasileira deveria chegar à frente italiana justamente quando escasseassem os
reforços em efetivos norte-americanos ou britânicos, já então sendo encaminhados para a
invasão da Europa ocidental (WALTERS, 1986, p.83).
Contudo, para o gabinete de guerra britânico, já havia contingentes de nacionalidades
diferentes demais naquela área e uma força brasileira seria simplesmente um problema
adicional (MOURA, 2012, p.148). A intervenção dos Estados Unidos junto ao governo
britânico, expondo os ganhos que viriam a ter com a incorporação da FEB ao V Exército, já
expostos neste trabalho de pesquisa, foi um ponto chave para aprovação do governo de
119
WALTERS, Vernon A. Missões Silenciosas. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1986, p.77.
88
Churchill, que acabou aceitando o pedido norte-americano, em adicionar as forças brasileiras
no contingente aliado.
Nessa guerra de quase oito meses, a FEB perdeu cerca de 440 homens, entre
soldados e oficiais. Teve perto de três mil internados nos hospitais da retaguarda, mas,
conseguiu capturar 20.573 prisioneiros120. Tudo isso são números, que transmitidos de forma
fria e desavisada não possibilita àqueles que os examinam uma melhor compreensão do
quadro de horror que serviu de base para a exteriorização dessa lógica matemática, tão
apartada dos sentidos, sem lógica de emoção.
Analisar números pode ser uma atitude meramente interpretativa. No entanto, faz-se
mister entender que por trás dos números existe vida ou, como neste caso, morte. Os excombatentes que morreram na Itália não podem ser encarados apenas como estatística,
apresentada em um relatório, expedido por alguma organização vinculada às Forças Armadas
do país.
Há sim que se ter uma noção mínima de que a base para a reflexão e o entendimento
do quadro material que se deseja estudar pode ser construída sobre os dados obtidos. Ir além
desses dados numéricos, construindo uma perspectiva historiográfica, é um dos grandes
objetivos do historiador, que não se abstém de erguer esse escopo sem se sustentar no método
historiográfico.
Assim sendo, dos 443 ex-combatentes mortos na Itália, cinco deles são naturais do
estado de Alagoas121. São eles: soldado Eduardo Gomes dos Santos, falecido em 14 de abril
de 1945; soldado José Guilherme da Silva, falecido em 16 de abril de 1945; terceiro sargento
Benevides Valente Monte, falecido em 21 de fevereiro de 1945; o soldado cabo Olivaldo
Barbosa Vilanova, falecido em 29 de novembro de 1944, e o tenente Alberto122. Todos mortos
em combate123.
Esses cinco jovens ex-combatentes alagoanos, mortos em solo italiano, tiveram as
suas homenagens asseguradas após o fim do conflito. Um simples ato que para o Exército
representava um pagamento justo para com esses soldados e seus familiares. A entrega da
120
Roteiro da FEB, disponibilizado pela Associação dos Ex-combatentes do Brasil, secção de Alagoas, baseado
em dados disponibilizados pelo Exército brasileiro.
121
Todos os estados brasileiros estavam representados na FEB, e entre todos São Paulo foi o que teve o maior
número de mortos, 92. Minas Gerais perdeu 80 homens; o estado do Rio de Janeiro, 63; o então Distrito federal
chorou a morte de 50 cariocas; 29 paraenses e 28 catarinenses ficaram no cemitério de Pistóia, ao lado de 21
gaúchos, 17 goianos, 13 pernambucanos, 12 capixabas, 11 baianos, 6 cearenses, 6 paraibanos, 6 rio-grandensesdo-norte, 6 sergipanos, 5 alagoanos, 4 paraenses, 2 piauienses, 1 acreano e 1 amazonense. Um só estado, o
maranhão, foi mais feliz: não teve uma só morte na campanha da FEB. (SILVEIRA, Joel e, THASSILO, Mitke.
A Luta dos Pracinhas: A FEB 50 anos depois, uma visão crítica. Rio de Janeiro: Record. p. 24.)
122
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, ano: 1945-1946, volume XXIV, pág 155.
123
Ver imagem dos pracinhas alagoanos mortos no anexo.
89
medalha de campanha da FEB e da medalha “Sangue do Brasil” às famílias dos militares
mortos tinha como propósito a reparação pelos atos de bravura provindos de uma ínfima
parcela da população que se arriscou na guerra124. No entanto, quase nada de documentação e
de registro se tem a respeito desses soldados.
O ex-combatente Ulisses Firmino de Oliveira lembra com pouca saudade do tempo
em que esteve na Itália. Homem humilde, advindo do campo, conseguia observar a sua guerra
sem deixar de constatar o grau de dificuldades que o Brasil iria passar durante o conflito.
Afirmou em entrevista125 que, apesar do país não estar tão preparado quanto deveria, já
estavam lá e nada mais poderiam fazer. A não ser guerrear, para não morrer.
Para ele, “o Brasil estava preparado ‘apulso’”. A sua viagem é um retrato desse
despreparo quando viu vários soldados enjoados, não só pela falta de prática no mar, mas
também, pela falta de informação sobre procedimentos simples de viagens náuticas, como o
cuidado com a alimentação exagerada. Seu Ulisses ressalta o fato de ter comido muito pouco,
e que talvez tenha sido essa a razão dele não ter ficado muito enjoado com a viagem126.
O Capelão alagoano, Alberto da Costa Reis, relata que as condutas permitidas dentro
do navio de embarque para a Itália passavam por um rigoroso procedimento de aceitação,
como, por exemplo, colete de salva-vidas. Diz o Capelão Alberto “que foram 14 dias de
viagem para chegar à Nápoles e ninguém sabia do destino, a não ser o comandante do navio,
Mascarenhas de Moraes e o general Zenóbio” (MOTTA, 2001, p.206). O capelão relata que
antes mesmo de desembarcarem já se tinha, para ele pelo menos, uma ideia do caos que o país
estava passando, ao avistar a estátua equestre de bronze do Rei Vitor Emanuel, tombada ao
chão (MOTTA, 2001, p.206).
As enfermeiras brasileiras também ao desembarcarem notaram muita diferença em
comparação às suas colegas norte-americanas. “Durante a viagem, e ao chegarem à Itália, as
primeiras enfermeiras sofreram inúmeras humilhações por não terem posto. Diziam que elas
pertenciam ao círculo de oficiais, mas não possuíam nenhuma divisa” (CANSANÇÃO, 1987,
p.206).
Os norte-americanos não entendiam essa complicação, pois as suas enfermeiras,
assim como a dos demais países, tinham suas situações claras e definidas. Isso fez com que as
primeiras a embarcar passassem fome por não poderem ir para os refeitórios de oficiais nem
124
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, ano 1947, volume XXV, pág. 110.
OLIVEIRA. U. Firmino. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 14/09/2013.
126
Ibid.
125
90
para o de civis. Foram alojadas durante a viagem com as WACS, e não com as colegas
(CANSANÇÃO, 1987, p.64).
Como as brasileiras não eram oficiais, as colegas americanas não as reconheciam
como iguais e as destratavam. A solução chegou com a autorização para que as enfermeiras
portassem uma estrela em seus uniformes, elevando-se simbolicamente a tenentes, mas o
soldo e o status continuavam ao de um 3º sargento (LEITE, 2011, p.11).
O capelão Alberto relata que não havia, num primeiro momento, posto hierárquico
no Serviço Religioso para a FEB. Para alguns oficiais, os capelães pertenciam ao EstadoMaior da Unidade, ganhavam como 1º tenente, mas sem posto. Ao chegar à Itália, houve uma
reunião entre todos os capelães brasileiros com o Coronel Ryan, Capelão-chefe do V Exército,
que era padre127. Nesta reunião ficou entendido que a situação dos brasileiros não poderia
ficar da forma que estava. Era preciso estabelecer alguns postos de comando. Foi então que a
pedido do Coronel Ryan, diretamente ao General Mascarenhas de Moraes, ficou estabelecido
os postos de comando do Serviço Religioso na FEB (MOTTA, 2001, p.205).
A atual configuração hierárquica do Serviço Religioso brasileiro teve grande
influência da participação do Brasil na Segunda Guerra. Marcou-se de forma bastante
significativa para esse grupo, o desfile de 24 de outubro de 1944. Foi o momento em que o
próprio Getúlio confirmou ao então arcebispo do Rio, D. Jaime de Barros Câmara, cardeal
nomeado pelo Papa Pio XII logo após a Guerra e amigo íntimo do capelão Alberto, futuro
capelão-chefe e Vigário Geral das Forças Armadas, a decisão de criar um Serviço de
Assistência Religiosa (SER), via decreto128. No dia 26 de outubro de 1944, tal serviço acabou
sendo institucionalizado por ato do poder executivo federal129.
A guerra é um fenômeno que abrange vários outros acontecimentos, das mais
variadas naturezas, com objetivos não tão simples de serem analisados por aqueles que não
participaram direta, ou indiretamente, do fato acontecido. A medida que a tecnologia avança,
novas matérias são postas à público, com novos relatos, novas abordagens e, claro, novas
imagens que nos darão uma ideia não da realidade total vivida, mas de parcela da prática ou
do desenrolar, do conflito traumático que foi a guerra.
127
O número de capelães que serviram na FEB era de 26 homens. Sendo que, 24 eram católicos e apenas 2 eram
protestantes. (MOTTA, Aricildes de Moraes. História Oral do Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial.
Rio de Janeiro: Bibliex, Tomo 2, 2001, p. 205.)
128
Ibid.,p.218.
129
Oficialmente, a assistência religiosa às forças armadas foi criada no Império, pelo decreto n° 747, de 24 de
dezembro de 1850. Contudo seu restabelecimento ocorreu por ocasião da Segunda Guerra Mundial, com o
Decreto Lei n° 5573, de 26 de maio de 1944. Fonte: <http://sarex.dgp.eb.mil.br/index.php/historico>.
91
Muito material já foi, e ainda está sendo, elaborado sobre as grandes guerras.
Principalmente quando se está a falar da maior de todas, não só pelo seu poder de fogo, ou
pelo seu envolvimento de homens e mulheres dos mais variados cantos do mundo, mas
também pela divulgação que ela sofreu ao longo desses quase setenta anos do seu término.
O nome mais requisitado nas pesquisas sobre a participação do Brasil no conflito em
questão é o de Joel Silveira, um correspondente brasileiro que foi convocado pelo jornal
Diário Associados, para cobrir o Brasil na guerra, mais especificadamente a atuação da FEB,
junto ao V Exército norte-americano, na Itália, por volta de 1944.
Foram onze meses de ligação direta com os soldados brasileiros. Nesse período,
algumas notícias sobre o teatro de operações estiveram dentro de seu objetivo enquanto
correspondente de guerra130. A vida dos pracinhas, o seu cotidiano, no território italiano foi o
seu maior objeto de registro.
Na Itália, o frio foi sem dúvida um dos grandes inimigos que os soldados brasileiros
tiveram. Às vezes, a temperatura chegava até 15 graus abaixo de zero. Cidades como Pistóia e
Toscana eram, naquele momento, muito frias, até para os padrões europeus. E foi lá que os
pracinhas brasileiros se instalaram por dois meses. Avançaram para Porreta-Terme, onde
protagonizaram as suas mais famosas conquistas: a vitória de Monte Castelo (21/02/1945), a
de Castelnuovo e Soprassano (04/03), a de Montese (14/04), e o cerco e aprisionamento da
Divisão alemã, a 148ª (28 a 30/04) (SILVEIRA, 1987, p.21).
Por conta de um desses episódios, no de Montese, houve a criação de um Pelotão
Especial que conseguiu aprisionar alguns soldados alemães, em um ataque de limpeza a um
casario da região já dominada pela FEB. Dos vinte e um componentes, um dos integrantes
desse pelotão era o soldado alagoano Antônio Manoel Raimundo, que apesar de ter
participado efetivamente da operação, não se conseguiu encontrar nenhum registro de seu
depoimento sobre o acontecido (ALMEIDA, 1985, p.156-7).
Outro que esteve presente em um dos momentos de ação da FEB na Itália foi o 2º
Tenente Ulisses Firmino de Oliveira. Em entrevista131 diz que participou do ataque ao Monte
Castelo, afirmando que a grande dificuldade era o posicionamento dos alemães, que ficavam
em cima, atirando com metralhadoras muito difíceis de serem combatidas. Muitos brasileiros
morreram naquela operação, sendo que os médicos, segundo senhor Ulisses, tinham cobertura
130
No seu livro ALuta dos Pracinhas Joel Silveira, juntamente com Thassilo Mitke, descreve as dificuldaes que
os soldados brasileiros passaram quando das suas atuações na Itália. As operações de guerra, os vários
obstáculos encontrados pala FEB eram escritos e transmitidas aos brasileiros que aqui se encontravam, através
principalmente de jornais.
131
OLIVEIRA. U. Firmino. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 14/09/2013.
92
dos soldados febianos. Conta ele que em alguns momentos, os médicos desciam dos aviões,
com os enfermeiros, que levavam os que não tinham condições, e aqueles que ainda possuíam
alguma força, ficavam gemendo, às vezes até morrer.
A vida que os soldados levaram no front não era, de forma alguma, algo que se possa
entender como uma etapa passageira, que mais cedo, ou mais tarde, terminaria. As dúvidas
sobre as possibilidades de sobrevivência eram constantes. Senhor Ulisses esclarece que todos
tinham saudade de casa. E completa com uma frase bem forte: “Quem ‘tava’ num inferno
daquele, não saia porque não podia132”.
Carlos Scliar, cabo-artilheiro da FEB, conseguiu ilustrar em desenhos alguns
momentos vividos pelos ex-combatentes brasileiros. O soldado anônimo, tão bem
denominado por Rubem Braga, que assim como Joel Silveira, era correspondente de guerra,
foi desenhado de forma bastante ilustrativa em um caderno sobre atuação desses homens nos
mais diversos momentos em que estiveram na Itália.
O texto de Braga, somado aos desenhos de Scliar, contorna e dá vida ao caderno de
guerra, que ajuda a entender o momento histórico vivido por aqueles que perpassaram os
principais livros militares escritos até o momento sobre a participação dos pracinhas
brasileiros na Segunda Guerra.
É de Braga a consciência de que “neste caderno não estão as imagens dolorosas nem
as mais cheias de movimento da guerra que nossos homens viveram... a saudade o agarrava
com as unhas fundas”, e continua o jornalista “mas soava uma hora, que era a hora de fazer
alguma coisa, e ele ia fazer. E retomava seu novo ritmo. Forte coisa é a guerra, cuja rotina, em
meio a todas as misérias, embala o homem133”.
Em entrevista a um documentário sobre a FEB, Scliar, que hoje é artista plástico no
Rio de Janeiro, esclarece que por achar que iria morrer na guerra, resolveu, aos 24 anos,
produzir, mesmo que de forma tão simples, algo que pudesse ser documentado. Daí veio a
ideia de registrar tudo que achasse interessante no seu convívio. Diz ele que: “na minha folga
desenhava tudo que me cercava. Fiz quase mil desenhos e aqueles que serviram de documento
eu guardei134”.
Continua Scliar, agora relatando sua experiência pessoal com a guerra: “A guerra é
uma experiência que não desejo nem para o meu pior inimigo. Porque não é solução
132
Ibid.
SCLIAR, C. Caderno de Guerra de Carlos Scliar; texto de Rubem Braga. São Paulo: Pinacoteca do estado,
1995.
134
A Cobra Fumou na Itália. Entrevista com Carlos Sclier. 1’32”32. Disponível em:<
http://www.youtube.com/watch?v=Z726h2euqBs> . Acesso em novembro de 2012.
133
93
absolutamente para coisa nenhuma... para mim é uma monstruosidade a guerra sob qualquer
aspecto que você analise. Eu sou um violento pacifista135”.
Também no ataque a Monte Castelo, houve a atuação de pilotos da FAB. Atingindo
as posições e os locais de reservas alemãs, contribuiu para o desenvolvimento das operações
de infantaria da FEB. A base de soldados brasileiros era extremamente jovem. Em média, 23
anos. Eram também bem jovens os soldados que participaram da FAB (Força Aérea
Brasileira). Alguns desses jovens morreram em combate, outros foram mandados para suas
casas ou continuaram a servir a Força Aérea Brasileira. Neste grupo houve alguns alagoanos
que serviram à aviação de guerra na Itália na Segunda Guerra Mundial.
No livro do Major John W. Buyers136 existe uma considerável documentação a
respeito da 1ª DIE, além de inúmeros relatos pessoais de vários ex-pilotos que lutaram na 2ª
Guerra. O livro torna-se interessante para esta pesquisa sobre os alagoanos que estiveram
envolvidos na guerra não só porque foi escrito por alguém que esteve envolvido diretamente
nela, como foi o caso do Major Buyers, mas pelo fato, também, de trazer um registro da
atuação de pilotos alagoanos, pouco ou quase nada relatada.
O Major Buyers, que em entrevista, na sua residência em Utinga, disse que “se sentia
feliz por ter agido com urbanidade e solidariedade para com os seus companheiros mesmo ao
término da guerra”, e que uma das provas disso era o fato de “ter se lembrado deles na sua
obra”.
Infelizmente, será tratado aqui apenas três alagoanos, pois a documentação referente
à participação de Alagoas, junto à FAB, foi bastante difícil. A possibilidade de se constatar
apenas esse número de combatentes, graças aos registros do Major Buyers, não significa
poder afirmar que só houve três alagoanos na composição da FAB. Tal afirmação não seria
verdadeira, dado o fato de possivelmente existir outras documentações que possam comprovar
um número maior de alagoanos.
Sendo assim, o primeiro foi o 2º Tenente Aviador Álvaro Eustórgio de Oliveira e
Silva, BO-826, nascido em data de 5 de dezembro de 1922, na cidade de Maceió. Foi direto
do Brasil para a Itália como reposição de piloto, tendo logo a função de piloto combatente,
executando 93 missões de guerra (BUYERS, p.209).
Em 02 de janeiro de 1945, ele foi promovido a 1º Tenente, por tempo de serviço.
Como militar profissional, ao regressar da Itália, assumiu a função de piloto e chefias
135
136
Ibid.
BUYERS, John W. A História do 1º Grupo de Caça, 1943-1945. Maceió: Editora do Autor, 2001.
94
diversas, exercidas na Base Aérea de Santa Cruz, no 1º Grupo de Caça, Escola dos Affonsos,
Base Aérea Galeão, 1º e 2º Grupo de Transporte, realizando sempre missões do Correio Aéreo
Nacional (CAN), até a sua morte, em 7 de agosto de 1951 no Rio de Janeiro, em um acidente
de aviação. Casou-se com a Srª. Arlete de Oliveira e Silva, que declarou, no livro do Major
(2001, p. 209), o seguinte:
foi curta a sua vida após a guerra, e ele evitava o assunto sempre que podia. Tenho a
impressão que o horror da destruição que era obrigado a causar por dever de ofício e
por imposição do momento deixou marcas profundas em sua sensibilidade. Nos
cinemas, por exemplo, ele saía abruptamente, se fossem anunciados documentários
de guerra. Da guerra não levou troféus que lhe importassem.
O segundo, diz respeito a um alagoano nascido na cidade de Palmeira dos Índios, em
data de 14 de janeiro de 1924, seu nome soldado Antonio Rodrigues de Oliveira B-588. Tinha
a função no setor de armamentos. Há um dado curioso a respeito do soldado ora citado. Como
o 1º Grupo não tinha um Especialista Taifeiro Barbeiro, fora das horas de trabalho, “Areinha”
se prontificou a cortar, inicialmente, os cabelos dos oficiais. Em data de 5 de março de 1945,
foi promovido a Cabo. Foi condecorado com o Mérito Santos Dumont e Presidential Unit
Citation (USA). Ao regressar ao Brasil continuou na FAB, foi promovido a 3º Sargento e as
demais graduações, até ser transferido para a reserva remunerada como 2º Tenente (BUYERS,
p.212).
O terceiro alagoano que combateu junto à FAB na Segunda Guerra foi o 2º Sargento
Ernani Machado de Gusmão, B-324, nascido em data de 10 de dezembro de 1916. Tinha a
função de homem chave no setor de operações. Em data de 4 de janeiro de 1945, foi
promovido a 1º Sargento. Teve como condecorações a Campanha da Itália e Presidential Unit
Citation (USA). Ao regressar ao Brasil, continuou na FAB sendo promovido na ativa como 2º
Tenente. Continuou a exercer funções administrativas até ser transferido para a reserva
remunerada como 1º Tenente (BUYERS, p.267).
Da mesma forma que entendemos ser importante escrever sobre os alagoanos
convocados para participarem da FAB, o registro de outros nomes de alagoanos que
compuseram o quadro de ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira também deverá
ser demostrado neste trabalho.
Pela falta de possibilidades em entrevistá-los e de não ter achado nenhuma
documentação mais detalhada sobre as suas participações, tivemos, apenas, os fichamentos da
Associação de Ex-combatentes de Alagoas como ponto de referência. Muitos deles morreram,
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outros estão doentes ou simplesmente não foram encontrados e só puderam ser lembrados
como convocados para guerra, graças a algumas velhas fichas que pudemos ter acesso.
Exporemos apenas os seus nomes, as datas de seus nascimentos e os seus locais de
origem, ratificando o fato de não ter sido possível completar tais dados com outra
documentação mais detalhada sobre eles. Dessa forma, teremos: Antônio José da Silva,
nascido no dia 04 de setembro de 1921, morador da cidade alagoana de Porto Real do
Colégio; Antônio Gomes dos Santos, de 21 de janeiro de 1921, morador de Igaci, Alagoas;
Agnaldo Gusmão de Moraes, nascido em 24 de novembro de 1919, morador do bairro Ponta
Grossa, Maceió (Falecido em 2006); Augusto Zeferino de Souza, de 16 de junho de 1920,
morador do bairro do Poço, Maceió (Falecido em 2006); Walter do Nascimento Dantas, de 25
de dezembro de 1921, morador da cidade de Penedo, Alagoas; Humberto de Lucena Sarnento,
nascido em 30 de dezembro de 1922, de União de Palmares, alagoas; Olimpio dos Santos, de
07 de julho de 1923, do bairro Vergel do Lago, Maceió; Eraldo Pinheiro de Novais, nascido
em 15 de agosto de 1918, do bairro do Prado em Maceió; Aníbal Modesto Duarte, de 29 de
janeiro de 1921, do bairro da Ponta Verde, Maceió (Falecido em 2005); Pedro Ramos Góes,
de 01 de maio de 1924, morador do bairro Farol, de Maceió (Falecido em 2007); Zacarias
Santana, de 03 de novembro de 1923, do bairro do Farol, Maceió; Elzébio Lopes dos Santos,
nascido em 19 de fevereiro de 1922, do Farol, Maceió; Lourenço Manoel dos Santos, de 29 de
janeiro de 1918, morador do bairro Jacintinho Maceió; Euclides Gomes Bezerra, nascido em
23 de junho de 1922, morador do bairro Ponta da Terra, Maceió; Pedro Jenoino dos Santos,
de 06 de fevereiro de 1921, do bairro do Poço; Justino Nunes Costa, de 14 de abril de 1921,
morador do bairro do Farol (Falecido em 2004); José Maria Oliveira, nascido em 01 de agosto
de 1925, de Rio Largo, Alagoas.
Todos esses inscritos foram convocados e transportados para a Itália. Fizeram parte,
assim, dos 148 alagoanos que compuseram o quadro geral da FEB. Não puderam dar nenhum
depoimento sobre as suas respectivas participações na guerra, mas tiveram seus nomes
confirmados, ao menos, pela associação que os representavam.
Apesar dessa falta de documentação mais vasta a respeito desses ex-combatentes,
pudemos realizar algumas entrevistas com outros pracinhas alagoanos. Os seus depoimentos,
que foram colhidos para esta dissertação, referem-se mais especificadamente àqueles que ou
participaram da guerra no front ou tiveram as suas convocações restritas à defesa do litoral.
Não eram, assim, indivíduos convidados a participarem da guerra, mas homens e mulheres
convocados e obrigados a se apresentarem às Forças Armadas brasileiras para serviram na
Itália ou no Brasil.
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Suas memórias, só agora registradas, e o espaço de memória encontrado no estado de
Alagoas, no que diz respeito à Segunda Guerra Mundial, foram por todos esses anos mantidos
quase que esquecidos. Algumas poucas notícias publicadas em jornais locais foram as únicas
menções encontradas sobre a memória de guerra no estado. Essa falta de memória ou essa
política de esquecimento será o conteúdo do próximo capítulo, juntamente com as entrevistas
feitas com os ex-combatentes alagoanos e a criação da Associação dos Ex-combatestes do
Brasil, secção Alagoas (AECB-Al).
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3. MEMÓRIAS DE GUERRA EM ALAGOAS.
Nos capítulos anteriores foram analisados os principais pontos referentes aos acordos
firmados entre o Brasil e os Aliados, principalmente com os Estados Unidos, quando da
propositura da III Conferência de Chanceleres Americanos acontecida no Rio de Janeiro, em
1942, que confirmou o compromisso brasileiro de se unir aos Aliados e fornecer a eles
matérias-primas, pontos estratégicos do seu território e o envio de uma Força Expedicionária
para a Europa. Em troca, o país acaba ganhando uma garantia de receber armamentos e
investimentos do Governo norte-americano. As suas principais características e os seus
reflexos em Alagoas, como os incentivos para a produção da borracha no estado, também
puderam ser vistos.
Pôde-se, da mesma forma, demonstrar a preparação e o envio das tropas brasileiras
para a guerra na Itália, quando mais de 25.000 mil homens e mulheres tiveram que ser
transportados de navio para o conflito naquele país. As entrevistas com alguns alagoanos
convocados para a Segunda Guerra Mundial e os registros de relatos feitos por pesquisadores
e estudiosos do assunto foram importantes para se entender um pouco mais do que foi a
guerra no front italiano.
A ida da FEB para a Itália é criticada e vista como garantia do governo Vargas de um
acento permanente, quando da criação de um órgão internacional que servisse de mediador
dos conflitos entre os países frente aos ganhadores da guerra, no caso os Aliados. Queria o
governo ter condições de cobrar esse direito alegando ter enviado uma Força Expedicionária,
a única da América Latina, para a guerra junto ao bloco dos países de democracia liberal.
Não se pode, contudo, delegar aos solados brasileiros o papel de defensores dessa
política de moeda de troca, visto que o conhecimento dessas condições não fazia parte do seu
entendimento. Estavam numa guerra, em sua grande maioria, obrigados por força da
convocação e não tinham escolha. No próprio teatro de operações na Itália não tinham o que
fazer a não ser se manter vivos e voltar para casa o mais rápido possível.
A chegada dos ex-combatentes brasileiros ao Brasil foi num primeiro momento
celebrada com grandes festas e muita alegria. Contudo, passado alguns meses esse clima de
euforia se contrastou com a dura vida que os praças tiveram que encarar após o seu retorno à
pátria mãe. O despreparo dos governos e da sociedade em reinserir os veteranos de guerra
mostrou-se evidente. Os cidadãos-soldados, que haviam participado da guerra, tiveram suas
vidas alteradas compulsoriamente por conta das suas convocações. Os anos se passaram e
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apesar da criação de leis e benefícios sancionados oficialmente aos ex-combatentes, na
prática, estes foram deixados à sua sorte.
Neste capítulo, pretende-se trabalhar com depoimentos de ex-combatentes, que não
tiveram as suas falas registradas nestas quase sete décadas, coadunando assim com o
entendimento de que as memórias de muitos soldados ainda precisam ser registradas, visto
que são parte do que se pode chamar de memória viva de um período extremamente
conturbado tanto para o país quanto para o resto de grande parte do mundo.
Também será discutido neste capítulo, além da memória desses velhos excombatentes e o momento que diz respeito à chegada desses soldados em solo brasileiro, a sua
reintegração à sociedade, com a criação de uma instituição voltada para a segurança dos
direitos e das garantias dos pracinhas e de sua memória de guerra, no caso, A Associações dos
Ex-combatentes, Secção Alagoas, que representa um dos poucos espaços de memória da
Segunda Guerra Mundial no estado alagoano.
3.1. Memórias de Velhos Sobre os Dias de Guerra.
Embora tenha citado neste trabalho algumas considerações feitas por ex-combatentes
alagoanos em diários, livros de memória, jornais, e em outros textos sobre alguns momentos
em que estiveram envolvidos na guerra, as suas declarações em entrevistas concedidas para
esta dissertação serão analisadas dentro de uma abordagem mais específica neste capítulo,
mesmo já tendo sido expostas algumas falas dos ex-combatentes entrevistados durante este
trabalho.
Não há intenção por parte deste estudo de hierarquizar os meios de prova utilizados
para a construção desta dissertação. Se a análise das entrevistas ganha um destaque especial
será pelo fato de não se poder desqualificá-las diante do que foi proposto como objeto de
estudo que é a participação de ex-combatentes alagoanos durante a Segunda Guerra.
As discussões bibliográficas sobre a preparação e o envio dos soldados e sobre o
papel da FEB na Itália ganha um contorno mais geral, menos específico, se não analisarmos
algumas falas dos soldados que participaram da guerra. No caso em questão, os depoimentos
dos ex-combatentes alagoanos que foram convocados em 1944 e que nos proporcionaram
registrar suas impressões daqueles momentos vividos por eles.
Ao todo foram seis alagoanos que conseguimos entrevistar. Os senhores Abel do
Amor Divino, Rosalvo José de Souza, Ulisses Firmino de Oliveira, Joaquim Balbino dos
Santos, Aurino Ribeiro da Silva e Assis de Barros Costa. Todos tiveram a espontaneidade de
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relatar, depois de quase 70 anos, as suas impressões da guerra e tentaram estabelecer um nexo
de relação entre a sua vida durante e depois de terem sido convocados para defenderem o
Brasil.
A média de idade dessas pessoas entrevistadas, quando das suas convocações, estava
em torno de vinte e poucos anos137. Era a média de idade dos brasileiros convocados durante
os últimos anos de guerra. Eram solteiros, não tinham filhos e detinham pouca instrução
escolar. Vinham de famílias com uma renda econômica baixa e trabalhavam no setor urbano.
Eram empregados, comerciantes ou servidor do estado como condutor de bondes.
Atualmente, encontram-se instalados em suas casas com seus familiares sendo
aposentados como ex-combatentes, recebendo uma quantia irrisória que mal dá para custear
as suas necessidades básicas. Ajudam os familiares naquilo que podem e recebem deles certa
consideração por terem os ajudado muito mais quando ainda detinham forças para trabalhar.
São velhos homens que com a sua velhice conseguem ainda se situar no espaço
deturpadamente estabelecido para os mais jovens que eles e que por conta do descaso de
alguns e da falta de sensibilidade de outros para com o passado, e consequentemente pela
memória, fazem com que estes velhos combatentes continuem lutando para manter vivo
aquilo que acreditam ser importante e que talvez seja o sentido para viverem ao longo desses
tantos anos de vida, ou seja, a pura e simples vontade de seguir vivendo.
Nas lembranças e nas memórias das pessoas idosas, pode-se detectar uma história
social bem desenvolvida, pois elas já passaram por um determinado tipo de sociedade ou
modo de vida caracteristicamente marcado e conhecido pelos mais velhos. Tiveram a vivência
de referências familiares e culturais anteriores, diferentes das impostas atualmente. Dessa
forma, “sua memória atual pode ser desenhada sobre um pano de fundo mais definido do que
a memória de uma pessoa jovem, ou mesmo adulta, que, de algum modo, ainda está absorvida
nas lutas e contradições de um presente que a solicita muito mais intensamente do que uma
pessoa de idade” (BOSI, 1994, p.60).
A memória dos velhos suscita cuidados, visto que é diariamente desprezada pela
sociedade contemporânea muito mais do que qualquer outro tipo de sociedade já estabelecida.
Para Bosi:
Além de ser um destino do indivíduo, a velhice é uma categoria social. Tem um
estatuto contingente, pois cada sociedade vive de forma diferente o declínio
137
Requisitos para ser convocado: Ser brasileiro nato, ter mais de 21 anos e menos de 26 anos de idade, ter boa
conduta comprovada com atestado da competente autoridade policial ou por oficial das Forças Armadas
Nacionais, ser solteiro ou viúvo sem filhos e ter no mínimo instrução primária completa (fonte: Jornal de
Alagoas: 27/06/43 (IHGAL)).
100
biológico do homem. A sociedade industrial é maléfica para a velhice, pois no lugar
de dar continuidade a sua obra, simplesmente a destrói e no seu lugar e construído
um novo empreendimento que força a ideia de continuidade de algo sempre novo,
sujeito por sua vez a um futuro de transformações (BOSI, p.77, 1994).
Essa falta de noção da importância da memória dos velhos faz com que dificulte o
seu papel na sociedade de verdadeiros guardiões das experiências vividas e dos
acontecimentos possíveis de serem revividos por aqueles que se dispõe a ouvi-los. O velho
passa a ter uma função social por conta da característica de ser velho ou de ser o indivíduo
que lembra. Por isso, existe um momento em que “o homem maduro deixa de ser um membro
ativo da sociedade, deixa de ser um propulsor da vida presente do seu grupo e passa a ter uma
função própria: a de lembrar” (BOSI, 1994, p.63).
POLLAK (1989) descreve sobre as memórias subterrâneas, que são aquelas que
ficaram por muito tempo oprimidas pelas construções oficiais. Essas memórias vêm à tona
quando grupos que até então não tinham voz passam a ter por conta de um movimento de
revisão, ou de uma autocrítica do status quo vigente, ou por atitudes de pessoas ligadas a
grupos marginalizados, a expor as suas ideias sobre um acontecimento de que fizeram parte.
Assim:
Essa memória "proibida" e portanto "clandestina"ocupa toda a cena cultural, o setor
editorial, os meios de comunicação, o cinema e a pintura, comprovando, caso seja
necessário, o fosso que separa de fato a sociedade civil e a ideologia oficial de um
partido e de um Estado que pretende a dominação hegemônica. Uma vez rompido o
tabu, uma vez que as memórias subterrâneas conseguem invadir o espaço público,
reivindicações múltiplas e dificilmente previsíveis se acoplam a essa disputa da
memória (POLLAK, 1989, p.03).
Existe também a questão das lembranças que sobrevivem mesmo por dezenas de
anos, lembranças traumatizantes que esperam o momento mais adequado para serem
expressas. Essas lembranças confinadas ao silêncio por tanto tempo e transmitidas de uma
geração a outra oralmente, e não através de publicações, permanecem vivas. Para Pollok:
O longo silêncio sobre o passado, longe de conduzir ao esquecimento, é a resistência
que uma sociedade civil impotente opõe ao excesso de discursos oficiais. Ao mesmo
tempo em que ela transmite cuidadosamente as lembranças dissidentes nas redes
familiares e de amizades, acaba com isso esperando a hora de ser registrada e
publicada para atingir um alvo maior de expectadores e forçar uma redistribuição
das cartas políticas e ideológicas impostas (POLLAK, 1989, p.03).
O registro das entrevistas dos ex-combatentes, colaboradores nesta dissertação,
homens com mais de oitenta anos, permitiu a preservação das suas experiências dentro do
contexto da guerra mais no Brasil do que na Itália138, servindo às vezes de complemento da
138
Infelizmente não se pode entrevistar outros pracinhas alagoanos que foram para a Itália por conta da
dificuldade que se teve para encontrá-los. Os únicos que conseguimos localizar foram o senhor Ulisses Firmino
de Oliveira e o senhor Macário L. de Albuquerque, sendo que este não foi autorizado pela família pelo fato de
101
bibliografia aqui utilizada, como a respeito da falta de treinamento dos soldados brasileiros
para a guerra, sendo que em outros momentos acaba discordando dela em alguns aspectos e
esclarece outros que não foram abordados principalmente pela bibliografia oficial. Como
exemplo disso, tem-se a sua obrigação para servir ao país na guerra e não a sua livre escolha
como querem afirmar principalmente a bibliografia oficial do Exército.
Assim, as entrevistas realizadas para este trabalho vêm para somar com as outras
fontes que foram utilizadas139, caracterizando-se como um recurso a mais de grau e
importância também elevados. Os entrevistados foram abordados com o intuito de alargar o
conhecimento sobre a participação de brasileiros na guerra, envolvendo mais a questão dos
convocados, trazendo nas entrevistas os seus depoimentos. Não se esquecendo de considerar o
fato de já ter passado muitos anos do final da guerra e não se ter encontrado nenhum estudo
sobre esses combatentes alagoanos que aqui prestaram o serviço de colaboradores de
informações e exemplos da memória viva de acontecimentos que viveram e presenciaram
durante o período da Segunda Guerra Mundial.
O relato dos senhores Abel do Amor Divino, presidente da Associação dos ExCombatentes Secção Alagoas, e Assis de Barros Costa, ex-combatente da Marinha de Guerra
brasileira, serão analisados oportunamente quando for estudado o tópico deste capítulo
referente à Associação dos Ex-combatentes de Alagoas. Fica só a título de informação que o
senhor Abel, alagoano, participou da Segunda Guerra Mundial como integrante da Marinha
Brasileira de Guerra na defesa do seu litoral, juntamente com o senhor Assis.
Os relatos dos pracinhas entrevistados se dividiram quanto aos pontos positivos da
sua participação como ex-combatentes. Para alguns, chegou a ser perceptível a relação que
estabeleceram entre a sua convocação e o sacrifício despendido dentro de uma concepção de
bondade e solidariedade. Para outros, as suas falas deixaram claro que o ponto mais positivo
foi a aposentadoria como ex-combatente, conquistada a duras penas após a guerra.
O interessante de se notar é que essa visão menos patriótica dos ex-combatentes não
foi aceita em muitos trabalhos produzidos pela bibliografia oficial do Exército140. Falar sobre
ex-combatente é relatar as sua experiências antes, durante e depois da guerra. Se naquele
acharem que uma entrevista sobre a sua participação na guerra iria complicar o seu estado emocional e físico já
bastante debilitado.
139
Livros, diários, jornais e outras entrevistas que foram utilizadas neste trabalho e que estão expostos na
bibliografia deste estudo.
140
Como exemplo tem-se uma coleção de depoimentos de ex-combatentes feita pelo Exército sobre a
participação de brasileiros na Segunda Guerra Mundial. Dividida em tomos, com mais de 150 entrevistas sendo
que a grande maioria delas trás depoimentos que exaltam o papel do soldado brasileiro como um verdadeiro
herói imbuído apenas da coragem e do amor à pátria e da eterna satisfação em ter sido escolhido para representar
o país na Itália e na defesa do seu litoral, mesmo tendo-se passado tanto tempo.
102
momento, 1944-45, não dava para fazer uma reflexão menos apaixonada do quadro geral da
guerra, contudo os convocados sabiam o quanto seria difícil e acreditavam nas promessas
feitas pelo Governo de dar a eles uma contribuição que valesse todo aquele esforço.
Essa contribuição, que muito mais tarde viria na forma de proventos, como
aposentadorias, foi uma conquista reconhecida mais até do que o esforço de guerra
desprendido por alguns soldados brasileiros, tamanha seria a sua luta depois da guerra para
sobreviver. Não mencionar essa motivação é deixar de registrar os relatos dos homens simples
que tiveram muitas dificuldades até mesmo para comer ou dar sustento aos seus familiares.
Por outro lado, têm-se os relatos de alguns pracinhas impregnados de um amor
patriótico que seria um vínculo social de sua identidade. Relatar feitos de amor à pátria, como
o ato de servir ao país durante a guerra, os coloca dentro de um imaginário de pessoas nobres,
de boa conduta e com aspectos de seriedade, criado pelo Exército e disseminado na sociedade.
Seria um salvo conduto por toda a sua vida, que alguns sempre acharam que os identificasse
com um grupo de homens honrados.
Algumas características de semelhança identificam os ex-combatentes entrevistados
para este trabalho. O seu grau de escolaridade era bastante elementar. Apenas sabiam ler e
escrever. Diferentemente do que se foi escrito em alguns trabalhos, que a maioria dos
combatentes era analfabeta, tal afirmação contradiz com o fato de no ato convocatório uma
das condições para ser recrutado era saber, ao menos, ler e escrever, mesmo que o básico.
Adivinham de famílias humildes, trabalhavam, eram assalariados e todos jovens.
Tiveram suas vidas marcadas pela guerra, uns de forma mais acentuada, outros não tão
marcadamente assim. Foram homens que conseguiram sobreviver não só à guerra, mas às
dificuldades encontradas durante suas vidas e que pelo simples fato de terem sido convocados
e de terem participado do maior conflito mundial já acontecido faz com que devam ser
lembrados e ter seus depoimentos colhidos para poderem, assim, ser observados não só neste
trabalho, como também em futuros estudos que envolvam este tema.
Na entrevista concedida por senhor Ulisses Firmino de Oliveira, ficou claro a sua boa
vontade de nos acolher de forma bastante respeitosa e de se dispor a responder às perguntas
que lhes foram direcionadas sempre com um sorriso no rosto. O ex-pracinha de 95 anos, exoperário e lavrador, nos proporcionou uma ideia do que foi a guerra na Itália, quando lá esteve
em 1944.
Com pouca escolaridade, mal sabia ler e escrever, utilizava a sua assinatura quando
ia receber a sua aposentadoria de 2º Tenente, no quartel de Paulo Afonso. Ele foi convocado
103
em 1942, quando tinha 26 anos e morava em Delmiro Gouveia, local que permaneceria até os
dias de hoje.
A sua convocação foi recebida por carta, entregue pela prefeitura de Água Branca,
município de Alagoas. Ficou lá por um tempo e depois seguiu para o Rio Grande do Norte,
onde serviu no 3º Batalhão, no quartel 29, sendo logo depois embarcado para a Itália. Relata a
sua ida de Mata Grande, município alagoano, para Maceió. Numa viagem sem nenhum
conforto, para poder se apresentar antes de seguir para o Rio Grande do Norte e de lá para a
Itália.
Na viagem de navio, conta o senhor Ulisses, que viu muita gente enjoada. Tal atitude
mostra como os pracinhas brasileiros estavam mal preparados para uma viagem de navio,
quiçá uma guerra de tamanha proporção como foi a guerra no território italiano, assunto que
já foi abordado no início deste capítulo e comprovou que diferentemente dos depoimentos
publicados nos jornais, a verdade era que não havia um preparo minimamente sustentável dos
pracinhas brasileiros. Ele revela que teve que comer pouco para ver se não passava mal
durante a viagem.
Quanto ao treinamento, antes de partir para o teatro de operações italiano, ele conta
que passou seis meses na praia, no litoral do Rio Grande do Norte treinando. Treinaram a
parte física e a parte de manuseio com armas. Chegou a ter acesso a canhões de 150 mm e
outras armas de fogo mais leves. Mas, mesmo assim, o treinamento foi muito superficial para
a guerra que os esperava.
Ele conta que o caminhão foi cheio de gente para receber a convocação das mãos do
prefeito. As dispensas, de acordo com ele, eram difíceis, mas alguns que ele conhecia
alegavam que não poderiam servir por conta de algumas fraturas141. Era normal tal atitude dos
brasileiros, principalmente dos mais ricos que inventavam todo tipo de desculpas para não
serem convocados142.
Só a título de exemplo, houve uma circular, expedida pelo Ministério da Justiça, em
que o governo alagoano faz um pedido ao arcebispo da arquidiocese de Maceió, Dom Ranulfo
de Farias, para que tomasse providências quanto à celebração de casamentos religiosos de
militar das Forças Armadas brasileiras, sem a apresentação de licença militar. Tal medida
141
Como a do seu amigo que teve um acidente no pé por conta de um carro-de-boi, ou alguns agricultores que
foram dispensados (OLIVEIRA. U. Firmino. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 14/09/2013).
142
As autoridades militares constataram que a juventude de maior escolaridade apreciava fazer discursos
favoráveis à guerra, mas não se apresentava para lutá-la. A avalanche de pedidos de dispensa de setores do
funcionalismo público e de alta especialização técnica ao ministério da guerra atingia principalmente o pessoal
mobilizado instruído, enquanto o pessoal sem instrução permanecia mobilizado. Essa evasão não passava
despercebida pela população (FERRAZ, F. C.A. A Guerra que não Acabou: A Reintegração Social dos
Veteranos da Força Expedicionária Brasileira (1945-2000). Londrina: Eduel, 2012, p.53).
104
objetivava impedir que praças da Marinha e soldados do Corpo de Fuzileiros navais
burlassem a lei, visto que com o casamento esses homens podiam alegar ser impedidos para a
convocação143.
Tais atitudes não querem dizer que em todos os casos de dispensa ou de algum
motivo que impossibilitasse o brasileiro de ser convocado, fosse constatável a fraude.
Existiram pessoas que por motivos reais não puderam ser convocados, mas, que mesmo
assim, compreendiam o seu papel dentro daquele momento de guerra.
Declara ele que a grande maioria dos convocados era pobre, “pé no chão”, vindo da
classe operária da região. Foram as classes mais pobres que participaram da guerra. E isso não
foi só uma característica brasileira. Alguns indivíduos de famílias mais abastardas também
participaram, embora em número muito menor do que os advindos de famílias mais pobres.
Diz o senhor Ulisses que na hora de viajar teve até manifestação de mulheres
seminuas, mostrando os seios para a tropa em sinal de despedida antes do embarque para a
Itália. Não há registros de tais atitudes relatadas por senhor Ulisses. Fica apenas a sua fala
como prova, embora tais manifestações de afeto por parte de mulheres simpatizantes dos
soldados possam efetivamente ter havido. Que eles representavam um grupo muito popular
nos meios de propaganda da época, isso é um fato. Talvez essa sua popularidade fizesse com
que despertassem nas mulheres alguns sentimentos mais calorosos de afeto e de carinho.
Ele chegou a ver Mascarenhas de Moraes e Cordeiro Farias em Recife. Não teve um
contato próximo com os dois, mas soube identificá-los e evidenciá-los, ao ponto de relatar tal
episódio com um ar de satisfação e orgulho na sua entrevista. Essa identificação com o
comando das Forças Armadas foi algo detectável em todos os entrevistados. Isso nos dá uma
noção do quanto seria poderosa a concepção da hierarquia militar, pois ainda hoje há um
respeito imenso dos ex-combatentes para com essas personalidades.
Quando chegou à Itália, o senhor Ulisses relata que ficou na divisão comandada
pelos Estados Unidos, ou Quinto Exército. Conheceu cariocas, paraibanos teve contatos com
alguns italianos, em especial as italianas. Mesmo afirmando que não ficou com nenhuma, seu
Ulisses disse que por falta de chance não foi, mas o problema era a patrulha que atrapalhava.
Tinha que sair todos os dias em patrulha pelas ruas.
Ele ficou na Itália por quase três anos, ou seja, mesmo com o fim da guerra ele ainda
ficou no país. Diz ter participado de um dos combates ao Monte Castelo. Relata que “eu fui
até o Monte Castelo. Fui não, me levaram. Porque eu não ia (risos)”144. Diz ter visto muitos
143
144
ESTADO de Alagoas. Secretaria do Interior, Educação e Saúde. Maceió, 13 de setembro de 1944.
OLIVEIRA. U. Firmino. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 14/09/2013.
105
mortos e o trabalho dos médicos e enfermeiros, que recebiam cobertura para poderem
trabalhar no salvamento dos soldados feridos, sendo que os mais graves ficavam gemendo até
morrer. De acordo com senhor Ulisses, o Exército brasileiro estava preparado apulso para a
guerra. Sentia muita saudade de casa e para ele “quem tava num inferno daquele, não saia
porque não podia”145.
Sobre se valeu a pena ter participado da guerra, o senhor Ulisses alega que valeu
porque ganhava um salário vagabundo, salário não, esmola como ele próprio constata e que
com a aposentadoria de ex-combatente deu para aumentar um pouquinho na renda de casa.
Essa declaração não é só dele, mas de outros ex-combatentes.
Senhor Ulisses é um pouco surdo e declarou que muitas coisas que viveu naqueles
tempos foram esquecidas por ele. Pensa que foi por conta da surdez que sua memória
começou a falhar e a ficar comprometida. Não sabe senhor Ulisses que surdez e falta de
memória tem pouca ou nenhuma relação. Talvez o fato de não falar mais sobre esses
acontecimentos tenha prejudicado muito mais as suas lembranças do que a falha no ouvir e
consequentemente a sua memória.
Infelizmente não se pode entrevistar outros alagoanos que foram para a guerra na
Itália. Quando as informações sobre suas localizações, como endereço ou número de telefone,
não eram insuficientes, existia o fato de já terem morrido ou de estarem sem nenhuma
condição de saúde para nos possibilitar o registro das suas experiências de guerra.
O depoimento do senhor Ulisses comparado com outros depoimentos de excombatentes, advindos de outros estados, que chegaram a embarcar para o teatro de operações
italiano, tem algumas diferenças dado o fato de se ter possibilitado aos outros pracinhas
relatar sobre os acontecimentos ocorridos na guerra de uma forma menos recente que a
entrevista concedida para este trabalho do velho ex-combatente alagoano.
Soma-se também o fato de muitos ex-combatentes terem sido convidados para dizer
suas opiniões dentro de uma perspectiva altamente positiva dos acontecimentos que foram
presenciados pelos outros entrevistados. Tirando as constantes histórias que ele contava para
alguns familiares e para alguns moradores da localidade, daí porque conseguimos encontrá-lo,
ninguém o requisitou para que expusesse as suas lembranças em filmagens ou em entrevistas
como se fez neste momento, sem nenhum corte ou manipulação a favor ou contra sua
condição de ex-combatente. Foi dado a ele total liberdade para se manifestar sobre suas
experiências na guerra.
145
Ibid.
106
São quase setenta anos que separam a sua vivência de guerra do seu relato gravado e
transcrito neste trabalho. Mesmo que se tenha passado tanto tempo o conteúdo da sua
memória pode ser comparado com a de outros relatos de ex-combatentes que participaram e
coerentemente se assemelham com as suas lembranças registradas, sendo que há um
acréscimo aos relatos já feitos, como, por exemplo, o desejo de poder escolher não ir para a
Itália e ter que combater alemães e italianos inimigos.
Como bem assevera Bosi (1994) a sua memória sobre o conflito mesmo que passadas
algumas décadas não pode ser tida como algo desprovido de veracidade. Por isso, que
acreditamos ser necessário e importante o registro de sua fala e a transmissão de sua memória
para servir de confirmação e de um maior entendimento sobre a participação dos brasileiros
na guerra, mesmo tendo repetições e esquecimentos. Estes são fruto tanto do tempo, quanto da
falta de importância que deram não só a ele como também a outros tantos soldados brasileiros
que não tiveram a oportunidade de registrar as suas experiências por pura falta de cuidado e
organização daqueles que se achavam os juízes da memória de um grupo, selecionadores das
falas e intérpretes de pessoas que por serem simples indivíduos, supuseram não terem nada a
declarar146.
A história dos ex-combatentes brasileiros acabou, dessa forma, sendo reproduzida
por homens e mulheres que ou tinham, naquela época, altos postos de comando ou passariam
a tê-los com o tempo, as únicas pessoas dotadas de memória para servir de registro da
história. Relatos de alagoanos, acreanos, maranhenses, amazonenses, sergipanos, paraenses
entre outros naturais dos diversos estados da federação são mais difíceis de serem achados,
graças ao fato de terem sido poucos os que os registraram e de, consequentemente, ter havido
um número mínimo de publicações sobre esses soldados.
Ficou a impressão de que não participaram da guerra e se o fizeram foi de uma
maneira pouco importante para atuação das Forças Armadas brasileiras147. A proposta do
registro de suas falas, assim, coaduna com a relevância do seu papel na guerra. É pouco
sabido do seu papel como soldado, pelo fato de terem sido pouco lembrados, ou de serem
nada requisitados para relatarem as suas participações no conflito.
146
Pela pesquisa que fiz em alguns lugares como na Associação dos Ex-combatentes Secção de Alagoas, na 20ª
CSM, no 59ª BTM e em outros locais, não consegui encontrar depoimentos de soldados alagoanos. Poderia ser
de grande valia se conseguisse somar neste trabalho mais entrevistas de ex-combatentes do estado de Alagoas.
Não afirmo que não existam, contudo foi-me assegurado por essas instituições que não existia nenhum
documento parecido com uma entrevista de pracinhas alagoanos.
147
Causou-me espécie um momento que tive a oportunidade de estar com alguns militares e ouvir de um oficial
a indagação sobre a participação de alagoanos na Segunda Guerra Mundial com ar de surpresa. A sua dúvida é o
reflexo de uma história ainda em construção e que teimam em afirmar apenas a colaboração de alguns como a
participação de todos.
107
Senhor Ulisses é a prova que existe uma hierarquia de memórias, que depende do
grupo que as colhe e que é através da coleta de outros indivíduos advindos das classes menos
prestigiadas que se consegue alargar o conhecimento sobre o objeto pesquisado. É da sua fala
que se pode entender que participar de uma guerra, da forma como os soldados brasileiros
participaram, é temer a morte e criticar o fato de está naquela situação por conta de uma
obrigação imposta pelo Estado e não apenas por uma atitude heróica e natural do bom soldado
brasileiro, como querem os relatos de muitos oficiais de alta patente, que se beneficiaram dos
seus postos para serem entrevistados como os únicos que podem opinar sobre a experiência
brasileira na Segunda Guerra Mundial, dentro da esfera militar.
Da mesma forma que o ex-combatente Ulisses não quis guardar nada com ele de
lembrança da sua ida para a guerra na Itália, um senhor entrevistado para o documentário
sobre a FEB, feito no Rio, também afirmou que não quis trazer consigo nada que lembrasse
aqueles momentos difíceis148. E por que então deram seus testemunhos sobre seus dias no
front?
Mais uma vez a vontade de ter suas experiências registradas para a posteridade se faz
emergir sobre a negação de esquecê-las quando eram jovens. A dor de conviver com as
imagens vividas durante todo esse tempo é substituída, mesmo que temporariamente, pelo
desejo de tê-las registradas como algo de suma importância para um trabalho do qual a sua
participação é necessária.
É o valor do seu depoimento que o torna mais forte que as dores do passado. É a
aceitação da sua fala por alguém que eles julgam ser interessado e que se compromete em
publicar e discutir o conteúdo falado por eles que os tornam mais receptivos e susceptíveis às
lembranças supostamente esquecidas, mas que permaneceram vivas, assim como eles, mais
velhas e mais dotadas de reflexão. Esse silêncio, ou essa recusa de dizer o que se lembra,
talvez tenha sido moldado pela angústia de não encontrar uma escuta, de ser punido por
aquilo que se diz, ou, ao menos, de se expor a mal-entendidos (POLLAK, 1989, p.06).
Até mesmo os convocados que não foram para a Itália merecem uma consideração e
um estudo sobre as suas lembranças e os relatos que porventura venham a dar para o registro
de suas memórias sobre o evento da guerra. Aqui conseguimos registrar, além do senhor
Ulisses, três indivíduos que participaram da guerra em solo brasileiro. Os senhores Rosalvo
José de Souza, Joaquim Balbino dos Santos e Aurino Ribeiro da Silva. Como já foi exposto
148
A cobra fumou na Itália. Disponível em : http://www.youtube.com/watch?v=Z723h2euqBs. Acesso em
novembro de 2012.
108
em linhas anteriores sobre os pontos que assemelham estes alagoanos, fica proposto tratar de
algumas questões, que dentro dos seus relatos, tornam-se mais singulares as suas entrevistas.
3.2 A Memória de Ex-combatentes Alagoanos Longe do Front
Muitos alagoanos que foram convocados para atuarem na guerra durante a década de
1940 tiveram a sua participação efetivada em solo brasileiro. Não se deslocaram para o teatro
de operações na Itália, mas passaram alguns meses em treinamento no país e
consequentemente na proteção do litoral brasileiro contra investidas militares dos países
inimigos, principalmente no caso da Alemanha. A maioria dos que conseguimos entrevistar
exerceram essa função junto ao Exército brasileiro.
A Associação dos Ex-combatentes do Brasil - Secção Alagoas tem dentro do seu
quadro de sócios um número consideravelmente maior de representantes advindos mais da
defesa do litoral do país, do que de ex-combatentes que participaram da guerra exercendo
outras funções, apesar de já se ter observado neste trabalho que os alagoanos que foram
convocados exerceram inúmeras funções diferentes no conflito.
Esse contingente maior de ex-combatentes alagoanos que desempenharam atividades
de guerra no litoral foi algo que ficou mais visível no decorrer da pesquisa e se consolidou
quando tivemos acesso às fichas de cadastro dos sócios da Associação de Ex-combatentes de
Alagoas. A dificuldade de achar alagoanos ainda vivos, ou que tivessem condições de serem
entrevistados, e que tivessem participado da Segunda Guerra em solo italiano tornou-se muito
grande.
Tivemos que recorrer, dessa forma, aos jornais, a diários e a outros trabalhos que
trouxessem alguns dados referentes aos ex-combatentes alagoanos. No entanto, as entrevistas
feitas com ex-combatentes de Alagoas que atuaram em solo brasileiro, tornaram-se de grande
valia para este trabalho dado o fato dos depoimentos desses homens terem sido bastante
esclarecedores em relação as suas respectivas participações na guerra.
Se isso não bastasse, teve a publicação do Decreto-Lei nº 5.315 de 12 de setembro de
1967, que estendeu o conceito de ex-combatente a todos aqueles que estavam a serviço das
Forças Armadas brasileiras durante a Segunda Guerra149. Tal posicionamento jurídico reforça
a importância da participação daqueles que mesmo ficando no Brasil, estavam a serviço do
149
Fonte: Associação de Ex-combatentes do Brasil – Secção Alagoas.
109
país como possível reforço de guerra, sujeito a serem transferidos das suas posições para o
território italiano.
Esse mesmo decreto não possibilitou, contudo, enquadrar como ex-combatentes os
brasileiros que mesmo não tendo sido convocados oficialmente pelas Forças Armadas, deram
a sua contribuição no patrulhamento da costa brasileira, exercendo a função de observadores
de supostos submarinos ou embarcações inimigas.
Muitos litorâneos alagoanos ajudaram na defesa do seu litoral não só pelo fato de
serem solicitados pela Marinha brasileira para tal atividade, mas, também, por conta da falta
de estrutura da própria Marinha e de fortes evidências de que existia uma grande possibilidade
de submarinos alemães atacarem a costa do Brasil, principalmente na área do nordeste. Dada
a sua importância na estratégia defensiva do Brasil, achamos que esses homens também
deveriam ser lembrados neste trabalho.
A política de adesão do Brasil ao bloco dos países que compunha o grupo dos
Aliados já alertava para supostos ataques alemães ao litoral do país. Antes mesmo do
engajamento brasileiro, havia o patrulhamento da costa nordestina, que foi denominado de
“Patrulha de Neutralidade”, com o objetivo de vigiar a possível presença de submarinos do
Eixo150.
Contrastando com essas medidas de prevenção, existia o fato da Marinha brasileira
ser extremamente deficitária de armamento, de embarcações e de homens que pudessem
servir ao país com um mínimo de treinamentos para enfrentar os inimigos que já haviam feito
as suas preparações para a guerra, muito antes dela ser oficialmente declarada.
Em nota ao jornal Letras em Marcha, quando da comemoração dos cinquenta anos
do término da Segunda Guerra, o veterano Hélio Leôncio Martins, que serviu à Marinha
brasileira durante a guerra no Caça-Submarino Juruena, declara que:
Lamentavelmente, fruto do abandono a que sucessivos governos haviam relegado
nosso poder naval, estava ele longe de ser capaz de assegurar a vital continuidade
das linhas de navegação. Nós à época não podendo contar com a inexistente
indústria pesada nacional, para a fabricação de canhões, torpedos, minas submarinas
e até aviões, contávamos apenas com os restos da Esquadra adquirida em 1908 151.
Unindo-se a essa declaração de Martins, tem-se os trabalhos de DUARTE (1971)
sobre a Marinha brasileira na guerra. Para este autor, ao ser o Brasil envolvido no conflito
mundial, a Armada dispunha, naquele momento, de um poder naval singelo. De acordo com
150
MARTINS, H. Leôncio. Participação da Marinha Brasileira na II Guerra Mundial. Jornal Letras em Marcha,
de julho de 1995, nº251, p.11, Rio de Janeiro.
151
Ibid.
110
DUARTE (1971, p.132) a Esquadra Antiga, conjunto de navios cujas datas de construção, no
estrangeiro, variava entre 1908 e 1917, era composta de 87 navios.
A mobilização do pessoal foi difícil, como de resto nas outras Forças Armadas. O
número reduzido de reservistas disponível e a sua evidente desatualização, a par da urgente
incorporação no serviço ativo, criaram sérios problemas para o Estado-Maior da Armada, já
bastante solicitado por outros assuntos que diziam respeito aos meios materiais de que
careciam os arsenais, depósitos, bases e material flutuante (DUARTE, 1971, 132).
Foram feitos alguns arranjos para que houvesse a superação dessas dificuldades. O
plano previa deixar vários navios de guerra em pontos estratégicos, como foi o caso dos NM
Caravelas em Salvador, encarregado da costa baiana e o Cabedelo em Maceió, para atender ao
patrulhamento das águas de Sergipe e Alagoas (DUARTE, 1971, p.135). No entanto, como já
foi ressaltado, era quase impossível tal exercício. Foi exigida, assim, a convocação dos
ribeirinhos ou dos pescadores para ajudar nesta operação.
Em uma de suas obras, Nelson Werneck Sodré relata o ânimo dos praieiros,
afirmando haver “uma vontade doida de vingar o atentado, o desejo de destruir submarinos: A
prontidão foi cumprida com seriedade... Havia ânimo de combate por parte da população
litorânea, vontade de encontrar objetivo que a desafogasse” (SODRÉ, 1967, p.142).
Os meios de comunicação, principalmente em alguns jornais da época como o Jornal
de Alagoas, O Globo, entre outros, incentivavam os pescadores a se engajarem na luta contra
os eixistas. Foi o caso, por exemplo, do jornal baiano O Diário da Bahia, de julho de 1942,
que publicou um artigo intitulado “Apostam contra a morte o pão de cada dia”, ressaltando o
trabalho penoso dos pescadores e sua aptidão para viver perigosamente. Segundo o jornal,
“com todos esses perigos não abandonaram o mar... Seguem os impulsos de sua natureza...
não vacilam diante de nada”152.
Começava ali, uma vigorosa política de inclusão e alinhamento das populações
litorâneas. O tipo de discurso propagandeado pelos órgãos de imprensa estatais que ressaltava
a coragem e o patriotismo do pescador, quanto à defesa do litoral brasileiro, dava a ele uma
nova função. De trabalhador do mar, os pescadores passaram a ser entendidos como soldados,
que foram convocados para defender o país.
É preciso salientar que nem todos os pescadores eram aptos para o trabalho de
guerra. Sendo que, por decisão do governo, os pescadores de todo o país tinham que participar
de reuniões periódicas com oficiais da Marinha. Uma circular secreta, expedida pelo Estado152
O Diário da Bahia, 14 de julho de 1942, fornecido pela Associação do Ex-Combatentes do Brasil, secção
Alagoas.
111
Maior da Armada aos Capitães dos Portos e Delegados de Capitanias, criou, em 22 de janeiro
de 1942, o Serviço de Informações Secretas (SIS), para o qual seriam escolhidas pessoas de
confiança que pudessem ver o que se passava nos recantos da costa. Faziam parte desse
grupo, mestres de barcaças e de outras embarcações de cabotagem, que eram os preferidos
dos militares para esse serviço (PEDROSA, 2004).
O trabalho da Marinha Brasileira, quanto à inserção das populações litorâneas,
lacustres e fluviais nas atividades de defesa nacional, no período da Segunda Guerra, foi
descrito pelo Coronel José Maya Pedrosa153 no seu livro A Marinha para os Alagoanos, onde
assim se relata:
Envolvidas nossas populações litorâneas em tão graves episódios de guerra, coisa de
que muitas pessoas infelizmente não têm consciência, estava a Marinha na obrigação
de operar contando com a ampla e entusiástica colaboração dos pescadores e de suas
famílias: marinheiros da pequena cabotagem costeira ou simples habitantes do
litoral, na tarefa de vigiar e informar sobre os movimentos de embarcações estranhas
e de pessoas desconhecidas na região (PEDROSA, 2004, p.36).
Foi preciso condicionar os moradores costeiros a atual realidade. Houve vários
exercícios de segurança por parte dessa população contra os possíveis ataques navais de
submarinos ou navios inimigos no litoral alagoano, que compreende: a Enseada de Jaraguá,
Barra Grande, Porto de Pedras, Cupê, Barra de Santo Antonio, Porto do Francês, Barra de São
Miguel, Jequiá e Barra do Rio São Francisco154 (PEDROSA, 2004).
Em um dos pontos do litoral alagoano, acabou acontecimento um naufrágio
marcante, que exemplifica bem a importância desses pescadores não só no patrulhamento,
mas no salvamento de pessoas naufragadas. O afundamento do Itapagé, em 26 de setembro de
1943, que navegava de Salvador para Recife, foi torpedeado por submarinos alemães no
litoral alagoano, deixando 22 pessoas mortas e outras tantas feridas 155 (CANSANÇÃO, 1987,
p.36).
A tragédia só não foi maior, graças à ajuda prestada pelo povo daquela localidade aos
sobreviventes do atentado. Jornais da época noticiaram esse ataque como um ato de selvageria
por parte dos alemães, pois o navio Itapagé não era ameaça ao governo nazista, além do fato
153
O cel. Pedrosa além de instrutor da escola de comando do Estado-Maior do Exército (1969-1973), foi
comandante do 19º BC (1979-1980), em Salvador, na Bahia, diretor da Biblioteca do Exército no Rio de janeiro
(1986-1987), escritor de alguns livros sobre as Forças Armadas Brasileiras e integrante da Academia Alagoana
de Letras.
154
O 2º tenente aposentado e ex-combatente Joaquim Balbino dos Santos, em entrevista, declarou ter participado
da patrulha da costa alagoana durante a guerra (SANTOS. J. Balbino. Entrevista concedida ao autor, realizada no
dia 09-03-2014).
155
O Itapagé foi agredido por um U-161, a 8 milhas da costa de Lagoa Azeda, em Alagoas. Fonte: site
www.naufragiosdobrasil.com.br.
112
de terem morrido, entre homens e mulheres, crianças sem nenhuma culpa do que estava
acontecendo. A população, como era de se esperar, indignou-se ainda mais com tal
brutalidade156.
A descrição feita do ataque, registrada pela Revista do Instituto histórico e
Geográfico de Alagoas, ilustra bem como foi esse sentimento de repulsa por parte da
população brasileira, que já sendo incentivada pelas propagandas governamentais, tem na
repercussão desses ataques alemães uma influência a mais para apoiar a decisão do Governo
de entrar na guerra ao lado dos Aliados contra os Eixistas.
E não houve tempo para muitas providências, em 4 minutos apenas, se em tanto, o
navio submergiu, virando para boreste.
Muitos deles nem chegaram a recolher-se às baleeiras, em consequências do mar
agitado, que os jogavam à distância e do ambiente de confusão e pânico que logo se
estabelecera, como, aliás, era natural, agravando a situação. De momento, eis que
emerge entre as ondas a silhueta do submarino agressor, talvez, um dos sessenta aos
quais Churchill, em discurso recente, se referiu dizendo terem sido enviados
ultimamente pela Alemanha para o Atlântico Sul. Sobre seu bojo apareceram quatro
homens loiros, sem dúvida alemães, vestindo roupões pretos, acenando, em
gargalhadas soltas para os náufragos (grifo nosso)157.
Neste trecho da reportagem, publicada na revista do IHGAL, observa-se claramente
o chamamento da população contra as atrocidades cometidas pelos alemães, quando do ataque
ao Itapagé, reforçando o seu grau de crueldade quando afirma a sua indiferença a respeito dos
sobreviventes que foram jogados à sua sorte ao mar.
A revista destaca também o fato de um pescador, tido como um verdadeiro herói,
conseguir guiar as barcaças com alguns sobreviventes que estavam navegando à deriva pelo
mar. Assim descreve a revista o pescador alagoano João Cipriano e seus companheiros:
No meio da confusão reinante no local, surgiu uma figura de herói voluntário,
simples e destemido: o pescador ou barcaceiro João Cipriano, que faz a vida
temerariamente, no mar e nas lagoas de São Miguel de campo.
Arrastadas pela força das ondas e das correntes marinhas, desgovernadas, as
baleeiras iam ao leo, de encontro aos arrecifes, próximos do local do torpedeamento.
João Cipriano não hesitou: juntou alguns poucos companheiros, tomando todas as
suas frágeis embarcações e avançando para o mar foram evitar, guiando os
náufragos, que as baleeiras em que vinham salvas dezenas de pessoas fossem
esboroar-se, fatalmente, de encontro as pedras158.
Finalizando este ponto do trabalho, mas não o esgotando, verifica-se uma questão
importante a ser exposta. Morreram mais brasileiros no seu litoral do que nos campos da Itália
156
S/A. Ataque alemão na vila da Barra de São Miguel. Diário de Notícias, Maceió, 02 de out. 1945. Capa, p.
01. (IHGAL).
157
Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, ano 1977, volume XXXIII, p. 73.
158
Ibid.
113
à época da guerra. Só os três primeiros navios torpedeados, o Baependi, o Araraquara e o
Aníbal Benévolo, morreram entre homens, mulheres e crianças, 768 pessoas (BRANCO,
1960), ou seja, mais brasileiros que os que tombariam depois nos campos de batalha na Itália,
que somaram 451 mortos e 58 desaparecidos.
O encontro com pescadores ainda vivos, que ajudaram no patrulhamento do litoral
brasileiro ou mesmo nos salvamentos, não foi possível. Tivemos, como ficou demonstrado, de
recorrer à documentação e a trabalhos que possibilitassem encontrar alguns desses homens.
Tal dificuldade não foi impossível de ser superada quando nos propomos a registrar
entrevistas com os ex-combatentes alagoanos que defenderam o litoral brasileiro durante a
Segunda Guerra Mundial, mesmo tendo sido difícil localizá-los.
Pudemos, dessa forma, utilizar três desses ex-combatentes alagoanos, de diferentes
localidades do estado, e que tiveram as suas respectivas participações registradas, só agora,
nesta dissertação. Os outros que da mesma forma puderam participar da guerra defendendo o
litoral brasileiro infelizmente não foram encontrados. Ficando como prova de sua efetiva
participação, mais uma vez, apenas o registro de seus dados na Associação de Ex-combatentes
do Brasil – Secção Alagoas.
Nomes como do senhor Mathias Maciel da Cruz, Mauro Cardoso da Silva,
Esperidião Rodrigues da Silva, Paulo Vieira de Carvalho, todos de Maceió; Natalício Augusto
Canuto, de Arapiraca; Eloi José Torres, de Palmeira dos Índios, e de tantos outros nomes
dispostos nos fichamentos da Associação não puderam dar seus depoimentos sobre a guerra
para este trabalho pelo mesmos motivos daqueles que foram convocados para integrarem a
FEB, ou seja, morte, doenças ou mudanças nos seus endereços. Mesmo assim, ratificando,
pode-se registrar as entrevistas de três ex-combatentes que defenderam o litoral brasileiro
durante a guerra. São eles: Rosalvo José de Souza, Joaquim Balbino dos Santos e Aurino
Ribeiro da Silva.
O primeiro entrevistado, o senhor Rosalvo, 2º Tenente de 93 anos, nascido em 1920,
recebeu-nos em sua residência, localizada em Delmiro Gouveia, horas antes de termos
entrevistado o senhor Ulisses. De convocado para a guerra a prefeito de sua cidade, Rosalvo
nos embala em histórias ora engraçadas, ora esclarecedoras, ora emocionantes, sem deixar de
se notar a sua memória viva com que relata os fatos.
Filho de lavradores, de uma família de sete irmãos, senhor Rosalvo nos lembra de
sua vida dura quando menino. Declara ter seu pai trabalhado para o próprio Delmiro Gouvêa,
um pouco mais tarde, na função de inspecionador de pele, função que exerceu por muito
tempo. Juntamente com seus irmãos, Rosalvo trabalhou como operário da Fábrica de Pedra de
114
Delmiro por cinco anos. Era normal os jovens daquele local trabalharem nessa fábrica, que
era praticamente o único serviço disponível para quem não queria trabalhar na lavoura159.
Aos vinte anos de idade acabou sendo sorteado para se juntar ao grupo de jovens
alagoanos que deveriam compor o contingente de soldados do Exército brasileiro. A sua
convocação era, como regra, enviada pela prefeitura até o possível convocado, explicando os
devidos fins e os procedimentos que deveriam ser tomados pelos sorteados.
No seu relato sobre esse momento ficou claro que houve uma tensão e preocupação
por parte não só dele como também dos demais familiares. Rosalvo foi o único filho a ser
convocado. Não tinha ideia nenhuma do que poderia encontrar pela frente. Sabia muito pouco
dos problemas que iria enfrentar e apenas deduzia que ser convocado naquela altura dos
acontecimentos não poderia ser algo bom. Os comentários sobre a guerra eram disseminados
também através das conversas entre os moradores do local, mas não entendia a dimensão do
conflito. Só entendia que era uma coisa séria por conta de ser um documento expedido pelo
Exército e deveria acatar.
De acordo com seu relato ele:
Sabia que a guerra na Alemanha já tava funcionando. Aí nesse ano eu passei lá (o
lugar é o da convocação). Vi que a guerra tava funcionando e já fui liberado. Com
um ano eu fui liberado. Mas com 10 meses eu recebi o chamado para voltar
novamente. Aí foi nesse dia que a minha mãe, quando soube que eu ia viajar, “tem
chamado, tá esperando lá”, deu um ataque. Aí eu sei que me despedir do povo, me
despedi de pai, vi descendo uma lágrima. Coisa que eu nunca vi ele chorar. A minha
mãe era chorona, mas meu pai não. Aí depois de despedi de todo o mundo e a minha
mãe, cadê? Disseram: ela tá lá dentro, aí eu entrei, cheguei lá e o pessoal “apegado”
com ela e não tive mais acesso. Aí eu saí. Não chorei por isso, por que eu tive raiva.
Deixei a minha mãe esperando morrer, digamos, e eu fui a eles e não tive o direito
de esperar que ela morresse ou... e sabendo também que daquela noite, no outro dia
ia viajar e não tinha condições de voltar. Por que eu já sabia da coisa mais ou
menos160.
Antes de seguir viagem para o Rio Grande do Norte, quando passaria por um
treinamento de seis meses, teve que se apresentar em Maceió e seguir para Recife, para só
depois chegar ao seu destino que era Natal. Há um dado curioso referente ao navio que
Rosalvo fez a viagem para Natal. Era o Itapajé, a mesma embarcação atacada por submarinos
nazistas no litoral costeiro de Alagoas, relatada anteriormente. Diz ter ficado muito
preocupado quando soube do ataque ao navio brasileiro, pois era a embarcação que o tinha
levado para Natal.
159
160
SOUZA. Rosalvo J. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 14/09/2013.
Ibid.
115
Relata senhor Rosalvo que foram poucos alagoanos que ele conheceu na viagem e no
treinamento. Um deles foi o senhor Ulisses Firmino de Oliveira. Como todos os outros
soldados teve aulas de tiro, manuseio com armamento de grosso calibre e exercícios físicos
normais que os convocados deveriam se submeter.
Além de conviver com a angústia de poder ter sido mandado para a guerra na Itália
teve também o pesar, nesses dez meses de preparação, da morte da sua mãe antes de se
despedir dela. O seu choro foi a prova mais contundente desse seu remorso. Escreve Bosi
(1994, p. 86) “por que chora o narrador em certos momentos da história de sua vida? Esses
momentos não são, com certeza, aqueles de que esperaríamos lágrimas e nos desconcertam”.
E foi assim que a maioria dos ouvintes se sentiu: desconcertados com o choro de Rosalvo.
Quanto às causas do seu choro, fica um misto de remorso, por não ter se despedido
ou conversado um pouco mais com a sua mãe, de saudade, por ter despertado mais fortemente
as lembranças de momentos tão difíceis de serem esquecidos e de satisfação pelo dever
cumprido, mesmo que para isso ter acontecido, houve a morte de um ente tão estimado.
Ele analisa a sua trajetória de guerra como alguém que esteve presente em um
momento que não tinha muitas escolhas caso fosse convocado. Foi obrigado a se apresentar,
mas se sente um vencedor por ter feito parte do grupo de jovens que estavam sendo treinados
para a guerra.
Mais tarde, com o fim do conflito, Rosalvo vai se tornar prefeito de Delmiro
Gouveia, pela ARENA (Partido da Aliança Nacional), e comerciante nas horas vagas. Tímido,
disse ter contado suas experiências na guerra apenas para alguns conhecidos e para esta
entrevista, que foi a única e a última concedida por esse ex-combatente alagoano161.
O 2º Tenente Joaquim Balbino dos Santos, de 96 anos, foi outro ex-combatente que
nos cedeu um tempo do seu dia para ser entrevistado. Nascido em Alagoas, natural do
município de Limoeiro de Anadia, alfabetizado, mas apenas com o grau escolar primário,
trabalhou na companhia de bonde do estado, onde ocupou a função de condutor de bonde. Foi
criado pelo irmão mais velho, juntamente com outros irmãos e sua mãe, pois seu pai morrera
quando ainda era criança.
Perguntado sobre a convocação, senhor Balbino, como gosta de ser chamado, diz que
recebeu uma notificação e que parece ter tido um irmão também convocado juntamente com
161
Rosalvo José de Souza morreu em Janeiro de 2014, poucos meses depois de ter concedido a entrevista para
esta dissertação. O seu depoimento gravado em vídeo foi dado aos seus familiares, mulher e filhos, como
lembrança registrada de alguns acontecimentos de sua vida.
116
ele162. Foi encaminhado para o litoral alagoano, mais especificadamente para a Barra de Santo
Antônio , quando lá ficou por mais de três anos, de 1942 a 1945.
Nesse tempo de serviço militar, ele ajudou a patrulhar a costa do litoral norte do
estado. Como ele mesmo diz: “Ficava naqueles bicos da praia, naquelas entradas, né?
Naquelas entradas que dava acesso à cidade, né?”163. Pela sua declaração observa-se que
existia uma preocupação por parte das Forças Armadas brasileiras, principalmente do
Exército, quanto a uma possível invasão alemã pelo litoral do país. Chegou a ser instaurada
uma Companhia militar na Barra de Santo Antônio para manter um ponto de defesa naquele
local.
Balbino é um daqueles ex-combatentes extremamente orgulhosos de ter sido
convocado durante o período da Segunda Guerra. Chegou a declarar que se ofereceu para ir
no lugar de alguns jovens designados para viajar em direção à Itália. Perguntado se as notícias
que chegavam até ele sobre a guerra no território italiano não o preocupavam, de pronto ele
respondeu:
Não dava medo a mim, mas a muita gente dava. Para algumas pessoas como os
colegas. Você sabe que nem todo mundo é igual, né? Tinha uns companheiros que já
estavam se acabando. Naquele tempo era moço, disposto. Esses cabras meio banda
voou, que não tem medo de nada. Eu era meio desmantelado164.
Balbino se lembra do tempo em que o povo acreditava que os ex-combatentes eram
guerreiros, fortes e diferentes dos demais. De acordo com suas lembranças, para ele o povo
via os ex-combatentes como algo superior e com certo temor. Afirma não ter gostado dessa
visão que parte da sociedade, pelo menos a alagoana, nutria sobre os ex-combatentes.
Tais afirmações estão relacionadas com a sua satisfação por ter servido ao Brasil
como soldado e de ser lembrado por outras pessoas que de alguma forma dão importância aos
seus relatos. Ele acredita que houve reconhecimento do Estado em relação aos excombatentes e que a maior comprovação dessa atitude veio com a sua aposentadoria. De
acordo com ele, sobre a falta de reconhecimento que alguns ex-combatentes declaram ter
acontecido por setores ligados ao poder público e a sociedade de uma forma geral, relata que:
Bom, eu mesmo não acho não. Porque eu fui reconhecido, né? Mas, há alguém que
acha que faltou reconhecimento. Existe alguém, mas eu não. Eu fui convocado e fui
promovido. A guerra me deu o que eu tenho hoje, por isso eu não tenho queixa da
guerra. Se não tivesse tido a guerra, se não tivesse sido convocado eu não teria o que
162
Este irmão era fruto de um outro relacionamento do seu pai.
SANTOS. J. Balbino dos. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 09/03/2014.
164
Ibid.
163
117
eu tenho hoje. Hoje tenho o pão de cada dia certo, graças a Deus, para mim e para
minha família165.
Mesmo assim, senhor Balbino sente certo remorso quanto aos acordos firmados no
fim da Segunda Guerra principalmente entre a Alemanha e o Brasil. Para ele, é um absurdo o
país ainda ter firmado relações diplomáticas com os alemães no pós-guerra. Entende que não
poderia haver tais relações pelo fato de se ter morrido muitos brasileiros por conta de uma
guerra contra os alemães.
Achamos importante reproduzir um trecho da entrevista feita pelo ex-combatente
alagoano, em que ele exprime de forma bem contundente a sua aversão ao fato de haver
algum tipo de relação entre brasileiros e alemães, independentemente do momento que se vive
atualmente. É como se o tempo houvesse parado para senhor Balbino e a sua raiva contra um
país, governado por um grupo altamente belicoso há muitos anos, estendesse a todos os
indivíduos pertencentes a esse local. Relata ele que:
Nós que participamos, merecia o que talvez eles nunca pensaram em nos dá. Já
pensou pegar um fuzil e brigar com o adversário? Naquela época o adversário era os
alemães e que hoje nós si damos com ele, como amigo. Coisa que nunca devia
acontecer, por que eles foram uma espécie de carrascos, entendeu?
E continua a sua indignação ao se referir na entrevista, mais uma vez, em um
momento posterior sobre a falta de noção de alguns brasileiros em aceitar alemão como
amigo. Assim declara que “os alemães era um povo assim sem vida, sem noção. Uma espécie
de bandido. Naquela época os alemães eram uma espécie de bandidos. Não sei como as
pessoas chegaram a botar o alemão na lista de amizade. Eles não mereciam, não”166.
Senhor Balbino não pode ser entendido como um homem rancoroso ou desprovido
de qualquer sentimento de justiça ou de perdão. Ele, de todos os entrevistados para este
trabalho, foi aquele que confirmou ter tido acesso a muitas notícias sobre a guerra na época.
Não desmentiu, não negou e nem disse que não teve acesso a essas publicações. Pelo
contrário, confirmou que sabia do que estava acontecendo, mesmo que tenha sido com base
nas propagandas governamentais. Relata ele que “Aqui se sabia de tudo. Tinha um noticiário,
num sabe? Aqui se sabia de tudo que estava acontecendo, principalmente nós ex-combatentes
que tinha responsabilidade por aqui, num sabe? Nós éramos os responsáveis por aquela
base”167.
165
Ibid.
Ibid.
167
Ibid.
166
118
Esse seu ódio pelos alemães é fruto, ainda hoje, da divulgação e do que ele
presenciou naquele momento. Não foi para Itália, mas viu no Brasil o sofrimento das famílias
e sentiu a morte de algumas pessoas do seu conhecimento. Jovens que morreram ou
simplesmente desapareceram, como seu amigo o Cabo Olivar Barbosa Vila Nova, que não
tinham chegado nem aos vinte cinco anos, não voltaram mais para as suas casas. E como
recompensa o Estado dava à família um dinheiro para tentar contornar o sofrimento dos
familiares e dos amigos e mais nada.
Faz-se necessário registrar o fato dele se contradizer quando afirma que apesar de
naquele tempo o mundo ser difícil por conta da guerra, mesmo assim hoje em dia, em
comparação à sua época de jovem, as pessoas tem mais consideração umas com as outras.
Para ele, o reconhecimento das pessoas com os outros indivíduos é muito mais verificável
atualmente do que na época da guerra, mesmo com as grandes diferenças que envolvem os
dois momentos e mesmo quando se verifica essa solidariedade até para com os alemães.
Nos alerta alguns autores a respeito dessa precariedade da memória quando analisam
os relatos de pessoas que estiveram envolvidas em algum acontecimento que de certa forma
os possibilitaram a narrar as suas experiências para alguém que as tem como algo importante.
Assim:
Pode-se imaginar, para aqueles e aquelas cuja vida foi marcada por múltiplas
rupturas e traumatismos, a dificuldade colocada por esse trabalho de construção de
uma coerência e de uma continuidade de sua própria história. Assim como as
memórias coletivas e a ordem social que elas contribuem para constituir, a memória
individual resulta da gestão de um equilíbrio precário, de um sem-número de
contradições e de tensões... Assim, as dificuldades e bloqueios que eventualmente,
surgiram ao longo de uma entrevista só raramente resultavam de brancos da
memória ou de esquecimentos, mas de uma reflexão sobre a própria utilidade de
falar e transmitir o seu passado. Na ausência de toda possibilidade de se fazer
compreender, o silêncio sobre si próprio - diferente do esquecimento - pode mesmo
ser uma condição necessária (presumida ou real) para a manutenção da comunicação
com o meio-ambiente” (POLLAK, 1989, p.11).
O senhor Balbino entende o momento atual como uma época diferente, mas o
denuncia como um período mais solidário do que o vivido por ele no passado talvez por conta
do que ele próprio vive em relação a sua dependência para com os seus familiares. Está quase
cego, surdo e com pouca mobilidade. Sente que apesar de narrar sobre um homem que em um
outro momento era temido e tido como um guerreiro, mesmo contra a sua vontade, agora se
esforça para construir essa imagem por intermédio da sua fala e se sente valorizado por ter
ainda pessoas que o solicitem para expô-la.
O outro ex-combatente alagoano que concedeu uma entrevista para este trabalho foi
o senhor Aurino Ribeiro da Silva. Filho único de um pescador e de uma doméstica, era
119
comerciante à época, hoje com 93 anos, casado, natural da cidade de Pilar, serviu ao Exército
brasileiro em 1944, quando foi designado para defender o litoral brasileiro em Fernando de
Noronha.
Senhor Aurino participou da guerra em território brasileiro com 24 anos. Ficou em
Fernando de Noronha por quatorze meses, quando foi reengajado em Olinda para depois ser
dispensado. Neste tempo, teve algum treinamento específico de combate e chegou a prestar
provas para ser admitido. Conseguiu obter o ensino primário e se manteve no posto de Cabo,
do qual recebe uma aposentadoria até os dias de hoje.
Pode-se notar que senhor Aurino quando ficou sabendo que seria entrevistado para
uma pesquisa sobre a participação de alagoanos na guerra, achou que seria apenas requisitado
pela sua atuação junto ao Exército. Muitas das perguntas sobre a sua experiência também se
referiam ao contexto mais geral da guerra, como por exemplo, sua vida antes do conflito, a
parte econômica e a política do estado durante aquele período.
Ele se ateve mais a responder sobre a sua preparação para a guerra e sua atuação na
defesa do litoral brasileiro, mesmo que as perguntas se referissem aos aspectos econômicos,
políticos e sociais. Essa atitude não quer dizer necessariamente que ele não saiba relatar sobre
esses pontos. Mas como foi requisitado para dar um depoimento sobre a guerra e como talvez
ele faz questão de se apresentar como um ex-combatente, algo que lhe dá orgulho, essa sua
fala e a exposição apenas desses acontecimentos podem ser um reflexo da ideia que tem da
supervalorização do status de ex-combatente que é parte do Exército e ,de acordo com seus
valores, homem que já provou o quanto é corajoso e destemido pelas suas experiências.
Talvez, para ele, isso seria o seu cartão de visita, sendo por isso solicitado ou aceito
em rodas de conversa entre amigos e familiares. Ele se sente pertencente a algo que foi
importante e faz questão de intensificar essa sua participação no seu depoimento.
Diferentemente do que acontece com o adulto ativo, que trata o ato de lembrar como uma
fuga da vida prática, do trabalho, o velho entende que o ato de lembrar é um exercício de
grande importância e responsabilidade, e não uma ocupação apenas de contemplação. “Ele
está se ocupando consciente e atentamente do próprio passado, da substância mesma da sua
vida” (WALBWACHS, apud BOSI, 1994, p.60).
Essa ideia de importância sobre o passado que embasou a entrevista do senhor
Aurino esta totalmente relacionada com o entendimento sobre a formação do soldado naquela
época. A sua valorização enquanto um brasileiro que participou da Segunda Guerra Mundial,
do lado dos Aliados, ainda permite que um ex-combatente ao se lembrar do que aconteceu
com ele, acabe lembrando-se de forma bastante apaixonada.
120
Senhor Aurino participou de um grupo que foi tido durante a guerra como um
exemplo de patriotismo, divulgado pela propaganda do governo Vargas. A sua condição de
ex-pracinha o possibilita a descrever um depoimento influenciado, mesmo depois de tantos
anos, dessa politização de elevação e de supervalorização do soldado brasileiro. Ele serve para
exemplificar uma ideia de função social dos velhos entendida pela maioria da sociedade, ou
seja, a de lembrar.
Nem toda a sociedade espera que haja uma concretização dessa função social dos
velhos. Há uma variação da cobrança dessa sua função a depender do momento e do local em
que ele vive. A hipótese mais geral corrente na nossa sociedade é a de que “o homem ativo
(independente de sua idade) se ocupa menos em lembrar, exerce menos frequentemente a
atividade da memória, ao passo que o homem já afastado dos afazeres mais prementes do
cotidiano se dá mais habitualmente à facção do seu passado” (BOSI, 1994, p.63).
Mesmo assim, a sociedade atual rejeita o velho, não oferece nenhuma sobrevivência
à sua obra. Perdendo a força de trabalho, ele já não é produtor nem reprodutor. Os bens
acumulados servem de defesa para esse descarte humano. Aquele que conseguir adquirir bens
ao longo de sua vida é sustentado socialmente pelo que conseguiu acumular. “O velho de uma
classe favorecida defende-se pela acumulação de bens. Suas propriedades o defendem da
desvalorização de sua pessoa” (BOSI, 1994, p. 77).
E o que dizer daqueles que não conseguiram acumular bens? O que dizer de
indivíduos advindos de uma classe menos constituída de patrimônio material? Qual seria o
lugar desses homens e dessas mulheres dentro da sociedade atual?
Sabe-se que a maioria dos ex-combatentes veio da classe menos favorecida. Muitos
mal tiveram sua formação escolar básica. A rejeição da sociedade por essas pessoas fica
evidenciada quando o papel delas dentro de um contexto histórico tão relevante para o mundo,
como foi a Segunda Guerra Mundial, é quase esquecido, ou pouco lembrado.
Alguns por terem um destaque hierárquico maior no grupo que faziam parte têm as
suas opiniões registradas logo no final de 1945. No entanto, os ocupantes de postos menos
privilegiados tiveram as suas marcas sobre o contexto geral dos primeiros anos da década de
40 bem mais tarde registradas. Ficando, assim, uma dívida para com essas pessoas, que está
sendo paga aos poucos durante todos esses anos pela historiografia brasileira.
Todos os entrevistados moram com suas respectivas famílias. Não houve nenhuma
demonstração por parte dos familiares de descuido ou até mesmo violência para com os excombatentes entrevistados. Havia uma satisfação presente nos seus gestos, mesmo que cada
121
entrevista tenha sido por poucas horas, esse comportamento era sentido no ambiente por parte
de todos os outros presentes.
O encontro sempre foi marcado por imensa satisfação de verem o seu familiar sendo
registrado no trabalho de pesquisa e de algo que eles sempre contavam para todos os
familiares. Acreditamos que seja por isso que os pracinhas entrevistados sempre traziam um
sorriso no rosto quando contavam suas histórias na guerra, dando sentido àquilo que os foi
impostos ainda muito jovens e tendo posteriormente identificado sua ação como algo nobre, a
serviço do bem contra o mal, dando sentido à sua velhice no momento presente.
Além de todos serem alagoanos, ex-combatentes, de idade bastante avançada,
simpáticos e com vontade de relatar as suas experiências durante a guerra, têm como
semelhança também o fato de fazerem parte da Associação dos Ex-combatentes Secção
Alagoas. Uma instituição com mais de 40 anos que passa atualmente por grandes problemas
que vão desde questões de ordem financeira, até dificuldades de ordem institucional ou de
sustentação da sua razão de ser, no caso em questão: de representante dos pracinhas em
Alagoas. Estudá-la significa entender o papel da memória coletiva de um grupo de indivíduos,
formado há muito tempo, convocados para participarem da Segunda Guerra Mundial e que
tiveram seus registros de participação conservados pela única instituição do estado que se
mostrou responsável e com um mínimo de preocupação pela sua conservação.
3.3 A Associação de Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas: Um Espaço de Memória dos
Pracinhas Alagoanos da Segunda Guerra
Ao término da Segunda Guerra Mundial e com a vitória dos países que formavam o
bloco dos Aliados, vários acontecimentos iram marcar a nova conjuntura econômica, política
e social no mundo. Os principais líderes das nações vencedoras firmariam acordos que
envolveriam grande parcela de Estados que de alguma forma acabaram, por sua vez, se
envolvendo no conflito mundial.
Dentre tantas mudanças, algumas merecem destaque como a instituição da ONU, um
órgão internacional com competência para mediar os conflitos internacionais, com grande
influência dos Estados Unidos; a criação do Estado de Israel e o redirecionamento do mundo a
partir de duas grandes forças que surgiram com maior amplitude no cenário mundial após a
guerra, que formaram dois grandes blocos de atuação, no caso o bloco dos países capitalistas,
liderados pelos Estados Unidos, e o bloco socialista, capitaneado, por sua vez, pela União
Soviética. Era o início da Guerra Fria.
122
Esse quadro geral das principais consequências da guerra, torna-se insuficiente
quando tentamos entender sobre os soldados que participaram direta ou indiretamente da
Segunda Guerra. O que aconteceu com aqueles indivíduos que tiveram suas vidas mudadas
pela convocação e retornaram ao convívio dos seus semelhantes, agora como excombatentes?
Para se compreender, inicialmente, o que aconteceu com os soldados brasileiros que
participaram da guerra, pelo menos com a maioria deles, começaremos relatando os seus
primeiros momentos, logo da sua chegada no Brasil, quando se viram como verdadeiros
heróis da nação e representantes diretos dos países vencedores da guerra.
Com o encerramento do conflito na Itália e com a rendição das tropas alemãs naquele
Teatro de Operações, os soldados brasileiros, que integravam à FEB, e a maioria dos
expedicionários, composta de recém-convocados para a guerra, acabou sendo desmobilizados
ainda em solo italiano. Foram recebidos no Rio de Janeiro como verdadeiros heróis e isso
aconteceu praticamente em todas as cidades que tiveram seus naturais representados na FEB.
Além desse reconhecimento popular, houve ainda o reconhecimento financeiro imediato e
temporário com o pagamento de parcela dos soldos prometidos.
Desde o início do desfile dos pracinhas brasileiros, o grupo imenso de pessoas que se
fazia presente no Rio de Janeiro já demonstrava a sua gratidão para com os ex-combatentes. A
descrição desse momento pode ser parcialmente lembrada através de algumas fontes
utilizadas neste trabalho. Entre elas, tem-se o depoimento do Coronel Adhemar R. de Almeida
que assim descreve aquele momento:
Finalmente, iniciou-se o desfile. Nenhum de nós poderia ter calculado a beleza do
espetáculo que estava se desenrolando diante de nossos olhos. Quase toda a
população da cidade estava nas ruas e para qualquer ponto que se olhasse estava a
massa compacta, com suas bandeiras e flâmulas, a festejar, a aplaudir.
Não havia um só edifício em que as suas sacadas, janelas e marquises não
estivessem apinhadas de pessoas - Homens mulheres e crianças. A cidade era uma
coisa viva e saltitante, fervilhante de paixão. Uivavam as sirenes e gritava o povo.
Bandas, militares e civis, tocavam dobrados e canções populares.
Palmas estrugiam em ruídos de casc atas. Difícil era a passagem. Éramos forçados,
às vezes, a ir até a fila indiana. O povo intrometia-se ente os soldados, que sorriam
felizes por tudo aquilo – a recepção, a volta ao lar (ALMEIDA, 1985, p.190).
Apesar de realmente ter sido a volta dos pracinhas ao país um evento apoteótico e de
uma alegria da população pouco antes notada, essa fase de glória foi extremamente curta.
Bastaram alguns poucos meses para que os agora ex-combatentes sofressem as primeiras
derrotas na vida como pracinhas. A falta de trabalho ou os traumas psicológicos causados pela
guerra eram os seus maiores inimigos, tão grandes quanto os soldados alemãs que
123
combateram na Itália ou a ansiedade e o medo de ver o seu país invadido por alemães, quando
alguns soldados tiveram que defender o litoral brasileiro.
A má vontade de parte do Governo para com a FEB refletia o seu receio de ter que
disputar o poder político com os soldados brasileiros recém-chegados da Itália, que gozavam
de prestígio da maioria da população naqueles primeiros momentos. Os militares que não
embarcaram para a guerra também temiam ser preteridos nas promoções pelos oficiais e
praças febianos. Muitos soldados da FEB foram, por conta disso, hostilizados nos quartéis
(FERRAZ, 2012).
Mesmo com a criação de algumas leis, como as que obrigavam os empregadores a
recontratarem seus ex-funcionários que tiveram que se apresentar para a guerra junto ao
Exército ou a outra instituição das Forças Armadas, não foram suficientes. Alegavam que os
pracinhas não estavam mais adequados para o serviço, ficando a mercê de uma burocratização
governamental lenta e sem nenhuma boa vontade para com eles.
Diferentemente dos ex-combatentes entrevistados para este trabalho, muitos dos
outros convocados sofreram por conta da falta de emprego, chegando à mendicância ou à
dependência total de seus familiares. Os que achavam que poderiam contar com as leis que
foram criadas mais tarde com o objetivo de lhes assegurar alguma base de sustentação, logo
se viriam com poucas esperanças a respeito delas.
A elaboração de um aparato legal que sustentasse os convocados advindos de uma
guerra não é algo novo no cenário internacional. A sua criação e o seu desenvolvimento vai
ter origem, mais formalmente, desde a Revolução Francesa (1789), quando o Estado Nacional
se viu com um número de contingente de soldados bastante expressivo, graças ao
recrutamento masculino universal. Seria o início da profissionalização militar.
O Estado da mesma forma que aumentava seus Exércitos, contraia cada vez mais
responsabilidades e compromissos quando a guerra e a mobilização acabassem. Além disso, o
desenvolvimento da guerra nos séculos XIX e XX buscava novas formas de treinamento, de
suprimento, de comunicações, de reforços, entre outras, obrigando os Exércitos a uma
mobilização cada vez maior de todas as pessoas convocadas ou não. Dessa forma, a grande
maioria da sociedade, já no século XIX, era direta ou indiretamente envolvida pela guerra
(FERRAZ, 2008, p.464-65).
Essas transformações produziram mudanças nas formas pelas quais os combatentes
se relacionavam com o Estado. Havia uma cobrança deste para com os cidadãos convocados,
como o serviço militar obrigatório para os exercícios, a disciplina e a manutenção da ordem
hierárquica, entre outras, e por sua vez o Estado se comprometia com algumas
124
responsabilidades para com o cidadão convocado como, por exemplo, indenização para ele se
ficasse ferido permanentemente, ou para a sua família caso morresse em combate. Mesmo
quando sobrevivente ou curado, cabia ao Estado promover sua reintegração social e material à
Nação pela qual colocou sua vida em risco (FERRAZ, 2008, p.465-66).
O país que despenderá uma maior atenção aos soldados participantes ativamente da
guerra será os Estados Unidos, por conta da Guerra da Secessão (1861). Tal
comprometimento do setor público foi influenciado, dentre outras coisas, pelo sistema
eleitoral, que pretendia atrair o grande número de eleitores convocados. Essa medida
possibilitará críticas e rejeições da maioria dos norte-americanos, que alegava favorecimento
de um segmento da sociedade em contrapartida aos demais. A concessão de pensões e
benefícios aos veteranos da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), assim, terá uma forma
muito mais restritiva em comparação à adotada na guerra civil de 1861(FERRAZ, 2008,
p.466-7).
Mesmo tendo a Primeira Guerra deixado milhões de combatentes vivos, as suas
vidas, no entanto, estavam destruídas do ponto de vista físico e principalmente psicológico.
As autoridades e a população não estavam, assim, preparadas para o fato de que com o fim da
guerra, milhões de homens brutalizados, deformados e arruinados procurariam voltar à vida
civil, querendo retornar a seus empregos, tentando, dessa forma, reativar seus laços sociais.
Esse despreparo já se evidenciava não só quanto aos Estados Unidos, mas, também,
em países como a França e a Inglaterra 168, agravando esse problema no final da guerra, em
1918, quando milhões de soldados desmobilizados retornaram para as suas casas e as
encontraram tão transformadas quanto eles. Ex-combatentes e famílias tinham dificuldades
em compreender aqueles jovens e suas transformações durante a guerra (FERRAZ, 2008,
p.468).
Além das dificuldades físicas e sociais, existia a questão econômica. Os excombatentes empregados logo eram substituídos pelos ocupantes anteriores dos seus
empregos. As dispensas eram fáceis de serem justificadas, principalmente pelo fato dos excombatentes possuírem problemas físicos e comportamentais por conta da guerra. Esse
quadro de dificuldades vai ser aumentado com o advento da crise econômica de 1929
(FERRAZ, 2008, p.469).
168
“Mutilados e deformados na França, por exemplo, somente tiveram reconhecidos seus direitos de reparação
em 1925. Até então, os incapacitados franceses ficavam à sua própria sorte, mesmo com extremas dificuldades
de encontrar emprego... A Inglaterra, por sua vez, tratava os traumas psiquiátricos de guerra dos seus soldados
com desconfiança, chegando as autoridades inglesas a rotularem as manifestações de neurose de guerra como
‘fraude contra o Ministério das Pensões’” (FERRAZ, 2008, p.468).
125
A depressão econômica de 1929 ressaltou os problemas do desemprego e da
dificuldade de reintegração social dos veteranos de guerra. Movimentos sociais dos veteranos
começaram a eclodir por todo o país. Marchas e manifestações eram organizadas em vários
estados americanos até o episódio da violenta repressão de tropas federais à “Marcha para
Washington”.
A “Marcha para Washington” foi o ponto de inflexão das reivindicações dos
veteranos americanos e das atitudes governamentais em face destes. O descaso foi
logo substituído pela preocupação repressiva, e depois, pela compreensão de que o
problema não seria resolvido com uma pensão pecuniária ou a permanente repressão
aos manifestantes. Anos depois, tais tensões sociais seriam lembradas como motivo
relevante para a criação de políticas de efetiva reintegração social dos veteranos
depois da Segunda Guerra Mundial. Evitar tais tensões seria, portanto, um dos
objetivos subjacentes das legislações de ex-combatentes da guerra seguinte. O outro
objetivo seria transformar o veterano de mero pensionista, dependente do Estado,
em combatente possibilitado a ser de novo um cidadão produtivo, quando do seu
retorno ao lar (FERRAZ, 2008, p.474).
Os governos não queriam que os erros e descasos cometidos no passado, em relação
aos ex-combatentes, repetissem-se. Em alguns países, como a França, a Inglaterra e os
Estados Unidos, antes mesmo de se configurar a vitória, já havia comissões de estudo,
designadas pelos governos nacionais, para definir políticas substantivas de reintegração física,
social e econômica dos desmobilizados, feridos e incapacitados de guerra. O temor de repetir
os equívocos do pós-guerra anterior era grande, mas as sociedades, a guerra e os seus
veteranos já não eram mais os mesmos.
No caso dos Estados Unidos, por exemplo, a adoção de medidas para beneficiar seus
ex-combatentes, comparada às outras guerras que a antecederam como a Primeira Grande
Guerra, e outras que vieram depois, como a do Vietnã, a Segunda Guerra Mundial é vista pela
maioria dos norte-americanos como “a boa guerra”. Essa denominação advêm principalmente
pelo fato de haver um consenso geral da população de que as tropas dos Estados Unidos
lutaram por uma “boa causa” e que tal atitude seria o início da sua hegemonia no mundo
capitalista. Mesmo com a economia retraída do pós-guerra, teve-se, nesse mesmo momento, a
ampliação das oportunidades dos ex-combatentes estadunidenses (FERRAZ, 2012).
Assim, a postura governamental a respeito dos seus ex-combatentes, com um melhor
acompanhamento dos seus problemas físicos, materiais, psicológicos e sociais, além da
criação de leis mais efetivas e a maneira diferente de como a guerra seria lembrada, tanto por
aqueles que ficaram no front doméstico ou que lutaram em solo europeu, quanto pelas
gerações posteriores, contribuíram para desenvolver uma nova configuração política e social
dos veteranos de guerra. Essa nova postura por parte dos governantes e dos ex-combatentes
126
dos países Aliados vai refletir nos caminhos tomados por aqueles brasileiros que foram
convocados e que acabaram servindo às Forças Armadas brasileiras.
Mais do que a existência ou não de uma estrutura de programas de retorno dos
combatentes à sociedade, uma variável que não pode ser deixada de se levar em consideração
para o sucesso ou não da reintegração social do ex-combatente, foi a relação que a sociedade
não-combatente desempenhou ao lado dos seus combatentes. A aceitação, ou não, pela
população civil, da participação dos soldados, bem como a memória dessas guerras,
repercutiu profundamente na forma como os milhões de jovens convocados retornaram às
suas vidas profissionais e sociais.
Essa valorização ou divulgação da participação dos ex-combatentes na guerra será
uma das maneiras encontradas por este trabalho de tentar entender o caso brasileiro. O excombatente do Brasil foi desvalorizado, ente outras coisas, pelo fato de ter havido uma
política de esquecimento desenvolvida pelo Estado ao longo dos anos.
As suas ações foram valorizadas de início com o intuito de ligar o governo às forças
democráticas liberais, melhor dizendo ao bloco dos países vencedores. A luta por benefícios
ao grupo de soldados que participaram direta ou indiretamente da Segunda Guerra Mundial
foi desencadeada sem o apoio da população geral. Os próprios presidentes da Associação
Nacional dos Ex-combatentes tiraram das pautas de reivindicação as discussões mais políticas
que poderiam servir de meio para atrair a sociedade para esse debate de obtenção de direitos.
O início da criação de uma Associação de Ex-combatentes Brasileiros vai tomar
forma ainda na Itália. Isso não aconteceu apenas com o Brasil. Os soldados dos países aqui
mencionados já cogitavam a formação de associações formadas por grupos de militares que
participaram da guerra, antes mesmo dela acabar.
Porém, por conta do número reduzido de convocados, os soldados brasileiros recémchegados ao país detinham uma dimensão em termos de grupo de pressão por melhorias dos
ex-combatentes muito menor do que daqueles grupos de combatentes militares de outros
países que eram numericamente superior aos brasileiros. Por isso é que se pode supor que a
sua importância está muito mais ligada ao seu papel de desempenho como agente de memória
social da participação na guerra do que como grupo de pressão política.
As associações de ex-combatentes foram cogitadas inicialmente, bem informalmente,
como uma espécie de clube de encontros para manterem viva a amizade surgida no front,
reforçando os laços de solidariedade e ajuda mútua entre os convocados regressos. Entretanto,
como ainda era subordinada a regulamentos disciplinares rígidos, a efetivação das associações
127
ficara para quando os expedicionários fossem desmobilizados no Brasil (FERRAZ, 2012,
p.212).
Em 01 de outubro de 1945, foi registrada a fundação da primeira associação de excombatentes, no Rio de Janeiro. Tratava-se da Associação dos Ex-combatentes do Brasil
(AECB), que além de ter uma central, localizada na capital do país, contava com outras
associações espalhadas pelo território brasileiro, criadas quase que de forma espontânea pelos
seus respectivos associados (FERRAZ, 2012, p.212).
As
Associações
fundadas
em
várias
cidades
brasileiras
eram
baseadas
geograficamente, e não nas unidades combatentes. Assim, uma seção poderia reunir excombatentes de outras localidades, desde que residissem na cidade ou no estado do qual se
tinha uma Associação, não precisando por conta disso de ter servido ao mesmo regimento.
(FERRAZ, 2012, p.213).
Segundo seus estatutos, os objetivos de criação e funcionamento das associações iam
desde a promoção da integração social ente os veteranos de guerra, representando seus
interesses coletivos, até a preservação e promoção da memória dos feitos dos brasileiros na
Segunda Guerra Mundial. Havia o expresso comprometimento das Associações, dentro das
suas possibilidades, quanto à assistência social e jurídica aos associados em dificuldades169.
No início, eram aceitos nas associações apenas aqueles que tivessem tomado parte
diretamente nas operações de guerra na campanha da Itália e no patrulhamento do litoral do
país. À medida que o conceito legal de “ex-combatente” foi estendido a outras categorias, as
afiliações passaram a incorporá-las também.
Do mesmo modo, anos depois, os ex-combatentes estrangeiros, radicados no Brasil,
também foram aceitos como sócios170. O critério para o alargamento legal e a aceitação por
parte da maioria dos veteranos de guerra era a questão do risco de morte corrido por todos os
convocados durante a guerra. Se o indivíduo tinha sido convocado, largou o emprego e a
família, ficou à disposição do Exército para as tarefas de vigilância de lugares vulneráveis, de
quartéis, de depósitos de armas e munições, e não foi à guerra na Itália, isso faria dele um
combatente, pois estava á serviço do país (FERRAZ, 2012, p.215).
Alguns veteranos, que participaram da guerra na Itália, se sentiram afrontados e
fundaram uma outra agremiação denominada de Associação Nacional dos Veteranos da FEB
(ANVFEB). Para se associar teriam que portar a medalha de campanha. O objetivo era fundar
169
Estatuto da Associação dos Ex-combatentes Secção Alagoas.
O italiano Natale Allieve, combatente da Divisão militar Sforzesca, foi um desses ex-combatentes
estrangeiros aceitos, mesmo tendo sido um combatente inimigo na guerra (Fonte: AECB-AL).
170
128
uma entidade em que os que haviam ido para Itália se sentissem mais à vontade, dado o fato
do número de ex-combatentes que não serviram no território italiano ter crescido muito nas
associações de ex-combatentes e criado, por parte dos que foram para Itália certa indiferença
para com os outros que ficaram defendendo o litoral brasileiro (FERRAZ, 2012, p.216).
Apesar dessa divisão, de acordo com seus estatutos, os objetivos de ambas as
Associações são os mesmos, embora o número de associados e de sedes espalhadas pelo país
da AECB seja muito maior. As duas associações colaboram-se mutuamente, sem nenhum tipo
de cisão profunda. Nas cerimônias e nos eventos promovidos pelas duas instituições, faz-se
presente os associados indistintamente, a não ser pelas boinas diferentes, verdes para a ACEB
e azuis para a ANVFEB171.
Diferentemente dessa divisão entre Ex-combatentes e Veteranos da Guerra, que
formou as duas instituições que mais representam os brasileiros convocados para a Segunda
Guerra Mundial e acabou sendo decidida em um acordo de mutua cooperação, foi a briga
política entre integrantes das associações ligados a uma linha mais à esquerda contra os
grupos de associados, ligados às Força Armadas que integravam as associações, defensores de
uma postura mais direitista.
Essas disputas internas ocorridas nas associações vão se fazer presentes por muitos
anos, formando-se assim uma parte da história da sua formação que está sendo recentemente
estudada. Autores como Francisco Ferraz (2012) e Patrícia Ribeiro (2013) desenvolveram
estudos referentes à posição política das AECB durante todo o seu período de formação e
consolidação no território brasileiro.
Muitos de seus membros estavam envolvidos antes mesmo da guerra terminar, em
movimentos ligados à esquerda, principalmente ao PCB. Os partidários dessa legenda
acabaram sendo reprimidos e tiveram, juntamente com o próprio partido, a decretação da
impossibilidade de seguir adiante nas decisões das associações espalhadas pelo país.
Graças ao maior acesso às fontes e o aumento de pesquisadores militares e civis,
principalmente destes, nos estudos sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial,
houve uma ampliação da historiografia referente a essa temática. Porém, ainda hoje, existe o
esquecimento por parte dessa mesma historiografia de alguns personagens importantes para
este estudo. O grupo de ex-combatentes brasileiros ligados à esquerda é visto como uma
171
Nos últimos grandes encontros dos Ex-combatentes acontecido em Brasília, no ano de 2010, os dois grupos se
encontraram e confirmaram essa união (Disponível em : http://www.portalfeb.com.br/. Acessado em: fevereiro
de 2014).
129
dessas questões que está sendo aos poucos estudada e passando por um processo de
resignificação.
A resposta que achamos mais coadunada com a falta de relevância dada pela
historiografia até meados da década de 1990 para esse tema é aquela defendida por alguns
historiadores que em seus trabalhos esclarecem que muitos estudos a respeito da atuação das
associações, foram concebidos como se elas fossem simples apoiadoras da ditadura civil
militar que aconteceu no país, esquecendo-se de constatar que nem todos os convocados
brasileiros para a guerra eram simpatizantes do regime ditatorial do Estado Novo e do civil
militar de 1964172.
A bibliografia militar oficial que foi utilizada neste trabalho de dissertação quase
nada se refere a esse fato importante da formação das associações, que foi a presença de
associados ligados ao PCB. Trabalhos recentes como o de RIBEIRO (2013) e o de FERRAZ
(2012) serviram de alerta para esse ponto ainda pouco estudado.
A memória da FEB foi nos últimos cinquenta anos construída sob a influência do
posicionamento, consciente ou não, dos ex-combatentes associados que apoiaram, mesmo que
de forma indireta, a ditadura, esperando do Estado um reconhecimento dos seus esforços
praticados em nome da pátria.
Esse alinhamento das associações com o regime, que teve inicio da década de
sessenta, pode ter sido um dos motivos da desvalorização da FEB e da memória dos
Expedicionários brasileiros para pesquisadores não militares (RIBEIRO, 2013, p.202). Por
mais de quarenta anos, houve um entendimento majoritário de que a FEB fosse totalmente
cúmplice da repressão instituída naqueles anos. Tal análise vai contribuir para a construção de
uma memória negativa de sua associação.
O alerta feito por RIBEIRO (2013) a respeito da memória da FEB é de grande
importância para se ter uma visão mais abrangente dessa construção da memória e das críticas
a respeito da participação das associações e de seus membros. Assim, tem-se que
É interessante notar que as sobrevivências dos traumas experimentados durante a
ditadura são, ainda em 2013, fontes de novos ressentimentos, quer entre as vítimas
do regime, quer entre os próprios militares, que se julgam injustiçados por serem
apontados como os únicos que desejavam o golpe. Como numa reação em cascata,
essa dinâmica de sentimentos se reproduz com o passar do tempo, contribuindo para
construir uma memória negativa da FEB ao transformá-la em cúmplice da repressão
instituída em 1964. Nesse sentido, para as gerações que sucederam o regime civil
172
Ver: FERRAZ, Francisco C. A. A Guerra que não acabou: A reintegração social dos Veteranos da Força
Expedicionária Brasileira (1945-2000). Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina (EDUEL),
2012; e RIBEIRO, P. da S. Em Luto e Luta: Construindo a Memória da FEB; 301 f. Tese (Doutorado em
História) – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, Programa de Pósgraduação em História, Política e Bens Culturais, 2013.
130
militar, especialmente para aquelas que o vivenciaram, a memória da FEB torna-se
indissociável da herança de 1964 e, como tal, estava condenada. No entanto, é
importante destacar que tratar a memória da FEB como um todo é incorrer em erro,
uma vez que certamente, as experiências que informam a memória dos oficiais
febianos são diferentes daquelas preservadas pelos ex-combatentes civis. E mais, a
apropriação que esses grupos fazem dessas memórias também variam em função do
contexto histórico em que se inserem. Assim, apesar de bastante distintas, essas
versões memoriais são, na maioria das vezes, tratadas em conjunto, o que acaba por
transferir para os ex-combatentes civis, o peso das escolhas feitas pelos oficiais da
FEB que se envolveram diretamente no golpe de 64. Por outro lado, ao passo que
alguns desses oficiais se beneficiaram com essas escolhas, outros foram vítimas das
arbitrariedades praticadas contra a sociedade brasileira nesse período (RIBEIRO,
2013, p.202-03).
O Brigadeiro Rui Moreira Lima foi um dos ex-combatentes brasileiros que sofreu a
perseguição dos militares que chegaram ao poder em 1964. Existe também o caso do senhor
Abel, presidente da Associação dos Ex-combatentes Secção Alagoas, que foi acusado de
desertor por ter pedido junto às Forças Armadas a sua entrada na reserva à época do golpe173.
Junto com eles outros brasileiros participantes da Segunda Guerra Mundial também tiveram
seus direitos impedidos de serem exercidos na sua plenitude pelo Governo e pelas Forças
Armadas brasileira174.
Essa situação de acusações e de restrições para com os ex-combatentes durará até o
fim da ditadura, mais especificadamente com a promulgação da Constituição Federal de 1988.
Nesse momento, houve a ratificação da pensão especial proposta em 1978 aos excombatentes, com um pequeno acréscimo ao valor estipulado anteriormente. Diz a lei que o
vencimento daqueles que foram convocados e estiveram envolvidos na guerra seria
correspondente ao de Segundo-Tenente das Forças Armadas175.
Mesmo tendo recebido algum acréscimo pecuniário por seus trabalhos junto às
Forças Armadas, passaram-se mais de 40 anos para que pudessem usufruir desse direito
prometido pelo Estado desde 1945. Além desse ponto, ainda existe o fato de ter-se construído
um discurso que considera os ex-combatentes como grandes beneficiários da guerra, pois
acabaram recebendo uma aposentadoria que lhes colocaram em um patamar de privilegiados.
Coisa que, como se vê, não se percebe na prática.
173
DIVINO. Abel do A. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 21/02/2014.
Como exemplo de ex-combatente brasileiro da Segunda Guerra Mundial, ligado ao PCB e que teve seus
direitos tolhidos durante a repressão, tem-se o caso de Henrique Cordeiro Oest, que também formava o grupo de
esquerda que fazia parte da FEB, foi General do Exército, comandante na tomada de Castelnuevo, na Itália, e
mais tarde Deputado Federal pelo PCB, eleito por Alagoas. Além de ter tido seu mandato cassado em 1974, foi
integrante também da primeira lista dos cassados pelo Ato Institucional de 09 de abril de 1964. Fazia parte da
esquerda militar, era comunista e fez parte da Aliança Nacional Libertadora (ANL) (RIBEIRO, 2013, p.191).
175
Isso aconteceu com todos os ex-combatentes alagoanos entrevistados para este trabalho.
174
131
Assim, o papel das associações tem se revelado de fundamental importância para a
preservação da memória da FEB, no que tange a participação dos ex-combatentes brasileiros
na Segunda Guerra Mundial. O que foi construído ao longo dos anos sobre a sua memória,
desde força perigosa para o Estado Novo, a apoiadora do Regime de 1964, é apenas um
fragmento do que pode ser vislumbrado com os novos estudos a respeito da sua existência.
Tentando acrescentar novos dados ao que está sendo discutido sobre o papel das
Associações de Ex-combatentes e da atual situação dessa instituição e dos seus sócios foi
pretendido, neste trabalho, registrar a atuação da secção alagoana. O fato de ser humanamente
impossível, por conta do tempo de duração desta pesquisa e do deslocamento entre as
diferentes sedes espalhadas pelo país, optamos como parâmetro de estudo as de São Paulo,
com Francisco Ferraz (2012), do Paraná, com o grupo de estudo orientado pelo professor
Dennison de Oliveira (2012), e do Rio de Janeiro, mas especificadamente da Casa da FEB,
que foi desenvolvido por Patrícia da Silva Ribeiro (2013). Tal escolha não foi feita de forma
alguma aleatória, dado o fato de se ter encontrado muitos trabalhos sobre as associações de
ex-combatentes brasileiros que se utilizaram dessas referências.
A Associação dos Ex-combatentes do Brasil Secção Alagoas está localizada em
Maceió, no centro da capital, em um prédio de tamanho mediano, com poucos cômodos,
situado na Praça da Independência. Nela se podem encontrar associados que pertenceram a
regimentos expedicionários diferentes, mas que, naquele momento, residiam em Maceió e por
isso tinham a sua vinculação ligada à Associação de Alagoas. Mesmo não tendo combatido
juntos, os ex-combatentes entendiam que as experiências que haviam passado podiam ser
consideradas parecidas, já que é possível de ser verificável nos depoimentos dos pracinhas
aqui coletados o mesmo discurso de que eram jovens, praticamente tinham a mesma idade e
estavam a serviço do país em uma grande guerra.
Assim como aconteceu com as outras associações, houve na de Alagoas a elaboração
de um estatuto próprio que teve como base, por sua vez, o estatuto da Associação Nacional
dos Ex-combatentes. Todas as associações possuem o seu próprio estatuto que as orientam e
definem os seus objetivos quanto ao papel que podem desenvolver junto aos seus associados e
familiares e trazem os procedimentos internos de sua administração.
O objetivo principal da associação de Alagoas era reunir os ex-combatentes
brasileiros, alagoanos ou não, aproximando-os para facilitar a representação dos seus
interesses de forma mais coletivizada perante às autoridades. O trabalho desenvolvido dessa
forma facilitaria a obtenção dos resultados pretendidos, pois no lugar de se buscar
132
individualmente os seus direitos, buscando-os como grupo haveria uma pressão e uma
viabilidade maior por tais garantias.
Havia uma distinção expressa no regimento interno da AECB-AL176 a respeito dos
seus sócios. Essa diferenciação foi ocasionada por conta da extensão dada pelo Governo
Federal ao conceito de Ex-combatentes. Estes não eram mais apenas os que foram para a
Itália, mas todos aqueles que sendo convocados e a serviço do Estado acabaram participando
da guerra, mesmo que em solo nacional e de forma indireta177.
Assim, têm-se aqueles que são considerados como sócios efetivos da secção Alagoas
os que participaram da Segunda Guerra Mundial, como integrantes da FEB ou do primeiro
Grupo de Caça da FAB no Teatro de operações da Itália; os tripulantes da Marinha Mercante
Brasileira que durante a guerra participaram de operações militares de guerra; os brasileiros,
inclusive naturalizados, que incorporados às Forças Armadas de países aliados haviam
tomado parte ativa em guerra de que o Brasil participou; e os integrantes da Força do
Exército, FAB, Marinha de Guerra, Marinha Mercante, ilhas oceânicas, que se deslocaram de
suas sedes, para cumprimento de missões de vigilância e segurança do litoral brasileiro, por
ordem do Escalão Superior178.
Além desse grupo, fazem parte da Associação aqueles que tiveram seus nomes
propostos por sócios efetivos para votação de aceitação, tendo que ter uma prova de sua
idoneidade moral, e os herdeiros de ex-combatentes mortos durante ou após a guerra. Todos
eles representam a vontade de fazer parte de um grupo que dava a entender ser representativo
de algo positivo e importante da história brasileira, mesmo não tendo direito de voz e de voto
nas reuniões179.
Essa abertura do conceito de ex-combatente e da possibilidade de se ter mais sócios
nas AECBs, inclusive na Secção Alagoas, vai refletir diretamente no número de associados
que compunham seu quadro geral de componentes. Tanto foi assim que no caso da
Associação de Alagoas houve, na década de setenta e meados dos anos noventa, mais de
176
Abreviação de Associação de Ex-combatentes do Brasil Secção Alagoas.
Como já foi exposto anteriormente neste capítulo, por conta dessa extensão do conceito de ex-combatente,
houve uma cisão interna na Associação Nacional, formando dois grupos: o dos ex-combatenes, que seguiram a
lei, estendendo a todos que participaram militarmente da guerra o título de ex-combatente, e a dos veteranos, que
era representada apenas por aqueles que foram para a Itália. A lei que dispõe sobre os ex-combatentes e dá uma
margem mais ampla do conceito sobre eles é a de nº 5315 de 12 de setembro de 1967, que assim traz: Considerase ex-combatente, para efeito da aplicação do art. 178 da constituição do Brasil, todo aquele que tenha
participado efetivamnete de operações bélicas na segunda Guerra Mundial, como integrante da força do
Exército, da Força Expedicionária Brasileira, da Força Aérea Brasileira, da Marinha de Guerra e da Mercante, e
que, no caso de militar, haja sido licenciado do serviço ativo e com isso retomado à vida civil definitivamente.
178
Estatuto da Associação dos Ex-combatentes do Brasil, Secção alagoas, p.10-11.
179
Ibid. p.11.
177
133
quinhentos associados, sendo que desses, aproximadamente 90% eram considerados efetivos
e o restante era classificado como cooperadores ou beneficiários especiais180.
Apesar de se ter um número pequeno em relação às outras Associações dos grandes
centros181, a Secção de Alagoas desfrutava, em certa medida, de uma estrutura bastante
organizada. Havia através das contribuições de seus sócios, que correspondia a 1,5% do piso
salarial, meios de manter a sua sede, sendo que até os funerais dos ex-combatentes associados
eram pagos por ela182.
Embora houvesse um número representativo de associados e tivesse uma certa
assiduidade por parte deles quanto às reuniões, as discussões mais politizadas, no entanto,
ficavam em segundo plano. O Presidente atual da Associação de Alagoas, o senhor Abel,
lembra, em entrevista concedida para este trabalho, que não se permitia discutir, dentro do
espaço correspondente à associação, questões ligadas às políticas governamentais.
Mesmo sendo está prática proibida nas outras associações, o fato é que houve
discussões envolvendo, como já foi exposto neste capítulo, partidários da esquerda dentro do
espaço reservado aos associados. Os partidários dessa linha eram contra qualquer tipo de
impedimento às discussões mais politizadas, como a situação do país ou dos ex-combatentes
que, em ambos os casos, deveria ser debatido e esclarecido à população de uma forma geral.
Essa postura mais contestadora de alguns membros das associações dos grandes
centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, vai se dar, entre outros fatores, por conta da
existência de uma classe operária sindicalizada mais ativa e já acostumada com as
organizações partidárias de esquerda dentro das associações, desenvolvendo, assim, a política
de células pregada pelo partido, no caso o PCB, com maior praticidade, chegando a ocupar,
nessa cidades, posições importantes nas diretorias e no Conselho Nacional 183.
No caso dos membros da AECB-AL essa experiência não foi possível pelo fato de
não se ter no estado uma base sindical consolidada, partidária do PCB e simpatizantes do seu
projeto, mesmo tendo fora das associações grupos ligados às suas ideias. Não havia, assim,
ex-combatentes na associação alagoana que pudessem ter acesso aos objetivos pretendidos
pelos militares de esquerda e nem uma base de sustentação dentro da associação que lhes
dessem condição para poderem propor aquilo que envolvia toda a luta de contestação
180
Relação dos Associados da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas, disponível na própria
Associação.
181
No caso, por exemplo, como o da Associação dos Ex-combatentes do Brasil, Secção São Paulo, havia 3.245
ex-combatentes associados. Esse número referente à Associação paulista é quase correspondente ao número de
praças de todo o estado de São Paulo que embarcaram com a FEB para a Itália, que foi de 3.245 ex-combatentes
(FERRAZ, 2012, p.214).
182
Estatuto da AECB-AL, p.14-15.
183
SILVEIRA apud PIMENTEL, p.09.
134
desenvolvida pelos esquerdistas nas outras associações, representada pelo ideário de liberdade
perante os governos para a obtenção de seus direitos.
Além dessa dificuldade, existia o fato da maioria dos associados militares alagoanos
serem de postura mais conservadora. Muitos ex-combatentes apenas frequentavam aquele
espaço a fim de buscar auxílio para suas dificuldades, fossem elas físicas, psicológicas,
financeiras ou até mesmo para desfrutar do convívio social que a associação proporcionava184.
Em entrevista, senhor Abel relata que não havia comunistas infiltrados na AECBAL. Não houve condições neste trabalho de desenvolver uma análise mais detalhada a
respeito dessa afirmação do presidente da associação. Os ex-combatentes que conseguimos
entrevistar não declararam explicitamente as suas opiniões políticas, embora tenham deixado
claro que pertenciam ao pensamento mais direitista que presidia a Associação Nacional ou o
Conselho Nacional185.
A documentação que está disposta na AECB-AL em forma de fichas de
identificação, trás alguns dados a respeito dos associados que fizeram parte do quadro geral de
membros efetivos da associação. A parte de identificação pessoal do associado como nome,
data de nascimento, filiação, o tipo de sangue, que categoria de sócio pertencia, a data da
admissão, o seu endereço, a unidade em que serviu na guerra, o posto que ocupava na época
da guerra, a sua patente após o término do conflito e se o associado estava vivo ou morto,
eram registrados nas fichas de cada membro da associação.
Faltou nessa documentação dados referentes à escolaridade, á profissão ou ao local
de trabalho dos associados, que poderiam facilitar a construção do perfil dos membros da
AECB-AL, visto que houve um interesse neste trabalho, possível de ser verificado nas
entrevistas feitas aos ex-combatentes encontrados, de se ter acesso a essas informações para
poder assim adquirir um leque maior de dados sobre os alagoanos convocados. A essas
lacunas, somam-se alguns espaços em branco que deveriam ter sido preenchidos e que hoje se
encontra no lugar a expressão tão dolorosa para o pesquisador: “sem informações
disponíveis”186.
O que liga o estudo da AECB-AL ao trabalho sobre os alagoanos que foram
convocados para a Segunda Guerra Mundial é o fato de se ter encontrado poucos alagoanos
ainda vivos, sendo por isso essencial para este trabalho a documentação e as informações
184
DIVINO. Abel do A. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 21/02/2014.
O Conselho Nacional, sediado no Rio de Janeiro, era o órgão centralizador das várias secções da AECB. Era
o órgão máximo da AECB, formado por delegados, eleitos por representantes de todas as secções nas
Convenções Nacionais, que aconteciam de dois em dois anos (FERRAZ, 2012, p.214).
186
Por conta dessas lacunas encontradas, foi de suma importância para a complementação desse tópico as
informações concedidas pelo senhor Abel do Amor Divino, presidente da AECB-AL e associado desde 1974.
185
135
acessíveis, contidas na associação alagoana, que mesmo estando com alguns espaços sem
registro são interessantes do ponto de vista documental.
É também importante registrar que faz parte do acervo da associação alguns livros
que foram doados por particulares e pelo Exército, revistas, fotos de ex-combatentes, registros
de jornais comemorativos recentes das AECB e algumas poucas notas sobre a relação dos
associados, que eram feitas anualmente e que estão expostas de forma desorganizadas.
Por essa documentação é que se pode verificar a diminuição do número de
associados e o aumento da inadimplência dos mesmos. A maioria dos inscritos procurou a
associação em seu período inicial de formação, fato que ocorreu também com outras secções
da AECB, como as de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte (FERRAZ, 2012, p.220).
Esse entusiasmo inicial pela AECB-AL pôde ter sido ocasionado pela vontade de se
agrupar com outros que participaram, de alguma forma, da guerra e assim fazer parte de uma
agremiação de ex-combatentes. Ou, de outra maneira, procuraram a Associação alagoana
como um órgão de assistência social e encaminhamento de emprego dos veteranos
necessitados (FERRAZ, 2012, p.220).
Uma terceira opção, porém, nos parece mais convincente. Essa se baseia na
afirmação de que com a ampliação da liberalidade da legislação do ex-combatente, houve um
número maior de matrículas junto à associação de Alagoas, por conta das orientações e
encaminhamentos dos benefícios recém-concebidos.
As chamadas “leis da Praia” confirmavam que os convocados que tinham participado
efetivamente em missões de vigilância e segurança como integrante da guarnição de ilhas
oceânicas, ou que tenham sido tripulantes de navio de guerra ou mercante, atacados por
inimigos ou destruído por acidente, entre outros pontos, poderiam ser configurados como excombatentes187.
De acordo com as fichas de identificação e controle da AECB-AL, a maioria dos
seus associados é formada por ex-combatentes que prestaram serviços ativos de operações em
defesa do litoral brasileiro. Não é por acaso que o número de associados da secção Alagoas
tenha aumentado após as “Leis da Praia”. Diferentemente, por exemplo, do caso de São Paulo
que por não ter unidades de vigilância do litoral, o número de ex-combatentes “da Praia”
sempre foi relativamente pequeno (FERRAZ, 2012, p.220).
Infelizmente, é preciso esclarecer que nos últimos quinze anos, ou mais, a AECB-AL
não teve o cuidado de manter o seu banco de dados sobre os associados atualizado. No
187
Decreto-Lei nº 5.315 de 12 de setembro de 1967 (Fonte: AECB-AL).
136
momento em que os seus membros foram morrendo, ela não dispôs de uma iniciativa mais
organizada quanto ao registro dos que ainda estavam vivos, separando-os dos que haviam
falecido.
Esse trabalho de catalogação e de registro não foi feito pelo fato, também, dos
próprios associados terem se desvinculado sem dar nenhuma satisfação à associação.
Mudaram de localidade ou de endereço, mas não avisaram, ficando, assim, impossível para a
direção encontrá-los e saber se realmente tinham morrido ou apenas não queriam mais fazer
parte da instituição.
Baseado no que foi encontrado nos fichamentos de identificação da AECB-AL e de
acordo com o relato de senhor Abel, presidente da mesma, pode-se afirmar que o perfil médio
dos ex-combatentes associados é de indivíduos que se filiaram mais de quinze anos depois da
guerra, principalmente na década de setenta, mesmo tendo a associação sido formada em
1956. É composta de uma maioria absoluta de ex-combatentes confirmados pelas “leis da
praia”, com pouca escolaridade e que viam na associação uma forma de se fortalecerem tanto
na questão da fraternidade, como integrantes de um grupo ligado à guerra, quanto no
fortalecimento das lutas por direitos e garantias legais, que entendiam serem mais difíceis
caso fossem propostas individualmente sem um amparo jurídico fornecido pela associação.
Muitos dos associados se filiaram, também, por conta de seus familiares. Em
entrevista concedida, o senhor Assis de Barros Costa, ex-combatente alagoano da Marinha de
Guerra brasileira e membro efetivo da associação, declara que se filiou por conta da ajuda que
a associação poderia dar aos seus familiares, quando ele morresse. Essa ajuda não se refere às
questões puramente materiais, de cunho financeiro. Ela diz respeito às honras pós-morte que
poderão ser atribuídas ao ex-combatente associado, como por exemplo, ter um funeral militar
ou ser sepultado no Mausoléu do Ex-combatente da Segunda Guerra Mundial.
Localizado no cemitério Nossa Senhora da Piedade, em Maceió, o Mausoléu do Excombatente foi construído pelas mensalidades dos associados e pela contribuição da prefeitura
que doou o terreno e parte da mão-de-obra necessária para a sua construção188. Ele se
constituí de 30 gavetas e 30 ossários e é exclusivamente destinado ao sepultamento apenas
dos ex-combatentes associados.
O ex-combatente associado que morrer terá no sepultamento honrarias de herói da
pátria, com os seus companheiros presentes, devidamente uniformizados, com bandeira
nacional sobre o ataúde (caixão funerário) e toque de silêncio a cargo de corneteiro militar
188
Decreto-Lei Municipal 4022 de 26 de março de 1991.
137
designado, a pedido da associação, pelo 59º Batalhão de Infantaria Motorizado, que deverá
também mandar um representante da unidade189.
Em visita feita ao cemitério onde está localizado o Mausoléu, constatamos as boas
condições em que se encontra a sua estrutura física190. O problema, no entanto, diz respeito à
sua utilização pelos associados. Na entrevista concedida a este trabalho, o presidente da
AECB-AL relata que existe um pagamento para que os ex-combatentes sejam sepultados no
local. A prefeitura cobra a importância de quatrocentos e cinquenta a quinhentos reais para
que o ex-combatente seja enterrado no mausoléu, que foi feito para ele e doado pela
administração municipal.
O Mausoléu e o prédio em que se encontra a AECB-AL podem ser considerados os
dois locais que mais representam a memória dos ex-combatentes alagoanos na Segunda
Guerra Mundial no estado, pelo fato de se ter passado muitos anos desde o término da guerra
e de se possuir atualmente pouquíssimos ex-combatentes ainda vivos, que seriam os
principais representantes dessa parte da história da guerra.
Soma-se a esses dois lugares localizados em Maceió e que fazem parte das
lembranças da Segunda Guerra, o Monumento em Memória aos Ex-combatentes, encontrado
na Avenida Duque de Caxias, no centro da capital alagoana, na Praia da Avenida. Erguido em
1995, no bairro do Vergel do Lago, mais precisamente na Avenida Monte Castelo, na Praça
dos Pobres, a escultura que ali se encontrava, e foi transportada para a sua atual localização, é
constituída por três bustos de militares, sobrepostos um ao lado do outro, representando as
Forças Armadas brasileiras. O objetivo do monumento era homenagear o agrupamento militar
alagoano, que junto ao de outras unidades federativas, compôs a Força Expedicionária
Brasileira na luta contra o Eixo na Itália.
Esse objetivo não seria de forma alguma indesejado se o monumento continuasse
localizado no bairro do Vergel, visto que a localidade faz parte do momento histórico que o
país ou o estado alagoano passava durante a guerra, muito mais do que a Praia da Avenida. É
no bairro do Vergel que se tem as marcas da presença de militares norte-americanos no estado
e da ida dos pracinhas alagoanos para a Itália191.
Houve, com essa atitude, uma desqualificação do bairro por parte das autoridades
públicas, que se acharam no direito de manusear de qualquer forma os documentos e
189
Diário Oficial de Alagoas, Maceió, 25 de outubro de 1995 (Associação dos Ex-combatentes do Brasil –
Secção Alagoas).
190
Ver imagem no anexo.
191
Já foram expostos neste trabalho os locais que ainda possuem as marcas da guerra, como casas, estruturas de
antigos galpões, e base de rampas para aviões. Todos esses pontos estão localizados no Bairro do Vergel do
Lago.
138
monumentos que constituem a memória daquele local. Descaracterizando o espaço reservado
às lembranças de acontecimentos e fatos importantes de uma sociedade, transportando-os para
outro lugar, que acreditam ser mais identificados com o aspecto histórico da capital,
independentemente de existir ou não relação mais próxima com esses fatos, demonstram a sua
total falta de comprometimento para com os espaços alagoanos de memória.
A própria AECB-AL passa atualmente por problemas extremamente sérios que
dizem respeito à sua existência enquanto espaço de memória dos alagoanos que foram
convocados para a guerra. A falta de pagamento, o número reduzido de associados 192 e a
possibilidade de ver a sua sede ser tomada pelo poder público são alguns dos problemas que
passam a associação alagoana193.
Existe uma vontade por parte da administração pública de retomar o prédio que foi
doado à associação. A questão da valorização imobiliária daquela região e o fato de restarem
poucos associados efetivos faz com que os órgãos públicos se interessem cada vez mais pelo
imóvel. O senhor Abel já foi avisado dessa manobra e tenta conseguir maneiras de não deixar
que a associação perca sua sede. Uma dessas saídas é transformar a AECB-AL em um
memorial da guerra, que será entregue aos cuidados da Escola Superior de Guerra.
É dele a seguinte fala a respeito da possível saída para a crise de despejo:
O futuro dessa associação (AECB-AL) não pode ser mais. A associação não tem
ninguém. Estão morrendo, inclusive morreu um até a semana passada lá em Delmiro
Gouveia (Foi um dos ex-combatentes entrevistados, o senhor Rosalvo José de
Souza). Não há possibilidade de se fazer mais uma associação. Eles pedem no
regulamento que tenha pelo menos vinte associados (no caso, a Secção de Alagoas
tem apenas oito). Assim será um memorial dos ex-combatentes194.
E quanto à ajuda pedida para a Escola Superior de Guerra, ele assim relata:
Eu estou satisfeito também com a Escola Superior de Guerra. Eu não tenho palavras
para agradecer o que eles me garantiram. “Nós vamos fazer de tudo para o senhor.
Vamos fazer o memorial, vamos fazer a lei para poder usar isso aqui”. Porque, pelo
o que está aqui (mostra uma folhas), enquanto existir um ex-combatente eu garanto
o prédio, mas o governo (de Teotônio Vilela) já falou aí com alguém, oferecendo
este prédio. Ele não disse para que era, mas ele ofereceu este prédio porque aqui não
havia mais ninguém e ia ser entregue. Mas, nunca recebi nada.
Outras associações de ex-combatentes brasileiros também passam por essa
dificuldade. Ver a sua sede não sendo utilizada como um lugar que possibilite aos mais novos
192
Atualmente a AECB-AL conta com oito associados ativos, que contribuem e participam de alguma forma da
associação.
193
Por conta das suas dificuldades, desde 2010 o Conselho Nacional da AECB deixou de ser o órgão central.
Após essa data, as associações passaram a ser independentes do Conselho.
194
DIVINO. Abel do A. Entrevista concedida ao autor, realizada no dia 21/02/2014.
139
entender a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial também os atormenta. O fato
de terem que estar vivos para que esse sonho não se torne um pesadelo é o que angustia
alguns dos associados.
O terreno em que se encontra a sede da AECB-DF, por exemplo, estava sendo
reivindicada pela companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) 195. Ele foi doado à associação
em 1966 e abriga além da sede da instituição, 31 residências, onde moram 32 militares da
FEB e viúvas de alguns deles, sendo que a maioria dos pracinhas já é idosa e doente.
O prédio da entidade e as casas ocupadas pelos associados foram construídos com
dinheiro dos militares, tendo alguns deles levantado as paredes com as próprias mãos. A sede
da Associação dos Ex-combatentes de Brasília conserva e expõem documentos, fotografias,
roupas e equipamentos usados pelos militares nas duas grandes guerras mundiais e mesmo
assim a sua valorização está intimamente ligada, para alguns, mais ao mercado imobiliário do
que ao seu papel de espaço de memória dos ex-combatentes196.
Esses três lugares citados neste trabalho destinados à memória de guerra, ou seja, a
Associação dos Ex-combatentes do Brasil - Secção Alagoas, o Mausoléu dos Ex-combatentes
da Segunda Guerra Mundial e o Monumento aos Ex-combatentes, são exemplos da falta de
compromisso dos poderes públicos para com as políticas de preservação dos espaços onde se
produz e se reproduz a memória de um lugar.
De acordo com NORA (1993, p.21), os lugares de memória são lugares que
pertencem a dois domínios: ao de experiência e ao da abstração. São lugares que têm efeito
material, simbólico e funcional. Mesmo um lugar de aparência puramente material, como um
depósito de arquivos, só pode ser considerado lugar de memória se a imaginação o investe de
uma aura simbólica.
Para o autor, mesmo um lugar puramente funcional, como um manual de aula, um
testamento, ou uma associação de antigos ex-combatentes, só poderá entrar na categoria de
lugar de memória se for objeto de um ritual. O minuto de silêncio, exemplo extremo de uma
significação simbólica, é ao mesmo tempo o recorte material de uma unidade temporal e uma
chamada concentrada de lembrança (NORA, 1993, p.22).
195
A Terracap se baseia na denúncia do companheiro de uma neta de um ex-combatente, recebida em 2007. O
homem apontou inúmeras irregularidades na associação, como aluguel de residências e descumprimento de
outras regras acordadas no ato da doação do terreno. Os ex-militares negam todas as acusações e desconfiam que
a ação está ligada à criação do Noroeste, bairro onde o metro quadrado construído vale, em média, R$ 10 mil. Só
o lote da associação está avaliado em R$ 55 milhões (jornal Correio Brasiliense de 25/08/2010) (Disponível em:
<htpp://g1.globo.com/Notícias/Política/0,,MUL4634465601,00excombatentes+da+FEB+fechammuseu+e+associ
ação.html> . Acesso em fevereiro de 2014).
196
Ibid.
140
O que constitui os lugares da memória para Pierre Nora (1993) é a relação que
acontece entre memória e história. Uma interação dos dois fatores que leva a uma
sobredeterminação recíproca. Se, com o tempo, o lugar de memória perde o seu sentido por
conta da falta de reciprocidade com a história, ele passa a ser lugar de história, onde a
memória coletiva que o identifica, acaba não mais o identificando. Transforma-se em uma
figura simplificada apenas pela sua presença física, sendo somente compreendido pelo olhar
da história e dos seus profissionais (NORA, 1993, p.23).
Esse é o problema da subtração, já mencionada, do Monumento em Memória aos Excombatentes no bairro do Vergel do Lago. Tirado da sua localização inicial, ele hoje
descaracterizado, acaba perdendo com o tempo o seu sentido de lugar de memória, para ser
entendido como lugar de história, pois lhe falta a compreensão da memória coletiva advinda
da história oral dos moradores do bairro.
Isso tem a ver com a distinção entre lugares dominantes e lugares dominados. Os
primeiros, espetaculares e triunfantes, geralmente impostos de cima para abaixo por
autoridades constituídas, são cercados por solenidades oficiais e visitados de forma
obrigatória. Do outro lado, têm-se os lugares dominados, podendo ser chamados de “lugares
refúgio, santuários das fidelidades e das peregrinações do silêncio que representa o coração da
memória e que são visitados por livre e espontânea vontade pelas pessoas” (NORA, 1993,
p.26).
Os lugares de memória se tornam diferentes de todos os objetos da história por não
terem referentes na realidade. Eles mesmos são seu próprio referente e acabam sendo
entendidos como sinais em estado puro. Tal afirmação não quer dizer que não tenham
conteúdo, presença física ou história. Ao contrário, “o lugar de memória é um lugar duplo,
podendo ser fechado sobre si mesmo, sobre sua identidade e recolhido sobre o seu nome,
como constantemente aberto sobre as suas várias significações” (NORA, 1993, p.27).
Pensando sobre as significações que podem ser atribuídas aos lugares de memória,
Patrícia Ribeiro (2010) fez um estudo sobre as políticas de memória adotadas no país, com a
intenção de promover uma reconciliação entre veteranos da FEB e seu passado sensível,
destacando o fato de mesmo que tenha havido ações compensatórias como a legislação, ainda
que tardia, as cerimônias em homenagem aos ex-combatentes e a construção de alguns
monumentos para a FEB, tais medidas não foram capazes de cumprir plenamente a
reconciliação pretendida.
Com base em uma notícia divulgada sobre o fechamento da Casa da FEB e
consequentemente o desmantelamento do grupo de ex-combatentes daquele lugar, já com
141
idade avançada, RIBEIRO (2010) afirma que tal medida representa uma ameaça à
manutenção da memória que os associados desejam preservar através de suas associações.
Localizada em um prédio de cinco andares, na Rua das Marrecas, no Centro do Rio
de Janeiro, fundada em 1963 e localizada nesse endereço só em 1975, quando o exgovernador Carlos Lacerda doou o terreno para a sua construção, encontra-se a sede da
Associação Nacional dos Veteranos da FEB, mais conhecida como a Casa da FEB.
Por conta das péssimas condições em que se encontra, produzida pelos grandes
problemas financeiros e da falta de colaboradores, os últimos associados, através da Direção
da associação, resolveram, assim como a AECB-AL, transformar a associação em um
memorial da Segunda Guerra Mundial que será administrado pelo Exército, como uma
tentativa de garantir a memória dos ex-combatentes quando estes morrerem (RIBEIRO,
2010).
A transferência da guarda do acervo da Casa da FEB ou da AECB-AL para os
cuidados diretos do Exército deve ser olhado não só como uma saída para os problemas da
preservação documental e da existência dessas associações. Há uma possibilidade de com
essas mudanças ocasionar mais o esquecimento do que a preservação das suas memórias.
Seria muito mais interessante para as associações e para a produção de trabalhos a
seu respeito, se elas mesmas continuassem desenvolvendo, com o auxílio e as condições
devidos, a preservação da memória de guerra. Visto que são os seus filiados os verdadeiros
detentores dessa atividade.
Neste trabalho, em especial, houve a visita a várias instituições que se relacionavam,
de alguma forma, aos alagoanos que foram convocados para a Segunda Guerra Mundial 197.
De todas elas, a que melhor possibilitou o acesso a sua documentação foi a AECB-AL. Todas
as outras dificultavam as pesquisas ora por conta da sua burocracia institucional, ora pelo fato
de nada terem em relação ao que o estudo pretendia ou não saberem se detinham algo
relevante para o mesmo.
Entregar seu acervo a uma instituição civil ou militar, como a Escola Superior de
Guerra, pode até representar uma saída para a conservação do material sobre a história do
Brasil na Segunda Guerra Mundial. O que não se pode deixar de registrar, por conta disso, é o
fato de tal medida poder dificultar ainda mais aqueles que pretendem futuramente estudar esse
acontecimento, por conta das barreiras impostas ao acesso livre do material disponível. Com a
197
É possível ser citado como exemplo de algumas instituições militares visitadas a 20ª CSM e o 59º Batalhão
de Infantaria Motorizada, ambos localizados em Maceió. Faço uma ressalva quanto ao tratamento que tive
nessas duas instituições, sendo sempre muito bem recebido, embora não tenha obtido acesso livre à sua
documentação.
142
entrega da memória contida nas associações ao Exército, não se saberá qual será a sua nova
cara.
Analisando o conceito simples de associação de ex-combatentes desenvolvido por
Pierre Nora (1993, p.26) de que “as associações de ex-combatentes são lugares nitidamente
consagrados à manutenção de uma experiência intransmissível e que desaparecerá com
aqueles que a viveram se não forem bem cuidadas”, com o último trecho da entrevista do
senhor Abel do Amor Divino em que ele fala, em tom de desabafo, “não quero que morra uma
parte de Alagoas, perante o Brasil, sobre a guerra”, nos faz entender que manter as
associações vivas seria dar continuidade a algo que pode se perder com o tempo pela
transitoriedade da vida dos seus principais protagonistas. No caso, os ex-combatentes.
143
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A GUERRA
Convocados que fomos para a guerra,
Tão cheios de esperanças, à flor da idade,
Ficando para trás os entes queridos,
Em cada coração uma saudade.
A vida nos quartéis, uma dureza
Para quem não estava acostumado;
A disciplina, a ordem unida e a xepa.
E o toque de silêncio do soldado.
Depois, para os campos de batalha
Viajamos quinze dias pelos mares,
Para enfrentar os canhões e a “metralha”.
Muitos jamais voltaram à sua terra.
Outros voltaram duplamente mutilados
Da fúria insana do horror da guerra.
Este
Albuquerque
198
poema
escrito
pelo
ex-combatente
alagoano
Macário
Loureiro
de
, publicado numa pequena coletânea de poesias de sua autoria, em 1995,
poderá servir de síntese desta pesquisa e de base para as nossas considerações finais.
Tentamos ao longo dos três capítulos produzidos nesta dissertação, demonstrar que apesar das
dificuldades encontradas foi possível registrar a participação de vários alagoanos na Segunda
Guerra Mundial.
Dentro dessa proposta pudemos também verificar que Alagoas esteve envolvida
diretamente na guerra, quando houve uma política de inserção de todo o país, dentro de um
projeto governamental que ficou conhecido como o “Esforço de Guerra”. A produção da
borracha no estado, a deliberação ou não das festividades carnavalescas e as mudanças na
infraestrutura de Alagoas, por consequência da guerra, foram sentidas por parte da sociedade
e confirmadas, principalmente, através dos periódicos da época.
O conjunto de obrigações impostas pelo Estado coadunava com as exigências de um
governo que tentava se manter no poder de forma extremamente autoritária e com o objetivo
de fazer do Brasil uma potência regional industrial e militar, influenciadora de parte do
continente americano. Para tanto, além de ter o apoio de alguns dos mais ricos, queria, da
mesma forma, a adesão massiva da classe operária.
198
Nascido em 22 de abril de 1920, Macário L. de Albuquerque foi um dos ex-combatentes vivos que
conseguimos encontrar, mas que não foi possível entrevistar. Por está extremamente doente e sem condições de
prestar depoimentos sobre a sua participação na Segunda Guerra Mundial, os familiares de Macário optaram por
não deixá-lo ser entrevistado, pois, de acordo com eles, poderia se emocionar e complicar ainda mais o seu
quadro de saúde.
144
A entrada do Brasil na guerra, com a declaração formal da quebra de relações
diplomáticas com a Alemanha em 1942, consequência direta da assinatura dos acordos
firmados na III Reunião de Chanceleres Americanos, ocorrida no mesmo anos, no Rio de
Janeiro, marca uma nova fase da política internacional brasileira. A proposta que viria logo
em seguida teria como base a formação e o envio de uma Força Expedicionária brasileira para
o Teatro de operações na Itália.
Seguir apenas o roteiro e as anotações dos órgãos oficiais brasileiros e de alguns
autores que deles fazem parte tornou-se insatisfatórios na consecução deste trabalho.
Precisou-se de outros registros em que haveria uma possibilidade não apenas de se obter o
número de combatentes alagoanos que fizeram parte das Forças Armadas brasileiras, em
especial a FEB, mas documentos que descrevessem as suas experiências quando das suas
convocações.
Conseguimos colher e registrar, como ficou visto nas páginas anteriores dessa
dissertação, através de vários meios probatórios, além da confirmação de alagoanos na guerra,
os seus relatos e as suas opiniões sobre o conflito do qual participaram, juntamente com
outros homens e mulheres convocados.
Não houve desprezo pela literatura militar. Pelo contrário, os dados referentes à
participação do Brasil na Segunda Guerra foram de grande serventia para este trabalho. A
falha que percebemos, no entanto, está no fato dessa literatura supervalorizar em demasia as
campanhas militares e o papel do país junto aos Aliados. Tal atitude acabou dando margem a
uma série de críticas que viam nos ex-combatentes brasileiros uma extensão dos militares
golpistas de 1964.
Os soldados brasileiros convocados para a Segunda Guerra não podem ser vistos
apenas como defensores de um regime autoritário. Eles foram obrigados a participar de uma
guerra que não podiam deixar de comparecer. É visível nos depoimentos colhidos de excombatentes alagoanos a sua obrigação por conta da convocação. Mesmo que representassem
uma pequena parcela do quadro geral de convocados, tal posicionamento foi verificável em
outros ex-combatentes que, assim como os alagoanos, tiveram que servir ao Brasil em 1944.
Quanto ao número pequeno de soldados alagoanos, faz-se necessário registrar que
existiram, ou ainda existem, mais alagoanos convocados dos que os registrados nos diários de
guerra do General Mascarenhas de Moraes. Os 148 alagoanos foram apenas a parte que
compôs a FEB. Muitos outros alagoanos participaram da guerra. Desprezar as suas histórias
ou os seus relatos diminui as possibilidades de entender a Segunda Guerra Mundial, através
145
de depoimentos daqueles que se envolveram diretamente no conflito e que representavam as
classes economicamente mais baixas do país.
O fato de se ter considerado não só os brasileiros que foram para o Teatro de
Operações na Itália, mas de outros segmentos que também foram convocados para o conflito
mundial, aumenta o contingente de alagoanos que participaram como ex-combatentes da
Segunda Guerra. O Decreto-Lei que equiparou os ex-combatentes que defenderam o Brasil no
seu litoral foi um ato de justiça para com os jovens que mesmo em solo brasileiro
conseguiram marcar presença na guerra, sendo úteis para as Forças Armadas brasileiras não
só na patrulha da costa, como também integrantes da reserva, caso viesse o país a requisitá-los
para substituir os combatentes que foram para a Itália.
O poema descrito revela que os alagoanos convocados mereciam ter seus
depoimentos colhidos durante esses mais de setenta anos do envio das tropas brasileiras para a
o território italiano de uma forma mais considerável. Se houve algum registro escrito dessas
suas memórias nós não pudemos ter acesso. Em todos os locais visitados para este trabalho,
não houve nenhuma referência que se assemelhasse ao de uma transcrição de depoimentos
como foi feita neste trabalho. Apenas em jornais e em algumas poucas obras tivemos a
oportunidade de ver observações, descritas apenas de forma sucintas, sobre as suas atuações
na Segunda Guerra.
A falta de registros das falas desses alagoanos nos fez chegar a conclusão de que a
memória dos ex-combatentes brasileiros ainda precisa ser registrada, para que se possa ter
uma maior dimensão da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. A importância
dada aos trabalhos recentes, envolvendo os convocados de vários locais do país, atesta para
essa necessidade.
Torna-se eminente o registro desses estudos, dado o fato de se estar em perigo boa
parte dessa documentação. Pois, infelizmente, o futuro dos homens e mulheres que
participaram da guerra e o das associações de que fazem parte não é muito seguro. No caso da
secção alagoana, há uma política total de descaso para com a permanência dessa instituição,
capitaneada pelo poder público, avesso à memória do país e dos indivíduos que compõem a
história do mesmo.
Verifica-se a falta desses depoimentos mais acentuadamente quando procuramos por
aqueles convocados que vieram das classes economicamente menos favorecidas. Parece-nos
que só agora, nesses últimos vinte anos, a historiografia brasileira passou a observar mais de
perto os ex-combatentes que não possuíam apenas medalhas no peito, condecorações nos
ombros e estrelas na testa.
146
A história desses jovens, advindos de vários estados e possuidores de pouca ou quase
nenhuma instrução de guerra, não foi detalhada pela maioria dos militares. A bibliografia
oficial tentou ao longo dessas décadas calar as vozes de quem participou diretamente do
conflito, desprotegidos do frio, da fome e da morte. Não os deu a atenção devida nem quando
foram obrigados a entrar na guerra, nem tão pouco quando do seu retorno ao Brasil ou sua
posterior reintegração na sociedade.
Quando lemos o trecho do poema “A Guerra”, em que o autor relata que “Outros
voltaram duplamente mutilados, da fúria insana do horror da guerra”, há nele a constatação de
quem viu os horrores da guerra e de que as feridas adquiridas não se cicatrizaram com o seu
término. Muitos foram mortos, outros tidos como loucos e muitos outros nunca mais puderam
exercer algum tipo de trabalho que lhes dessem melhores condições financeiras.
As festas e comemorações promovidas pelo Estado, quando da volta dos pracinhas
brasileiros, ocultou a falta de preparo do Governo no que diz respeito à promoção de políticas
que servissem ao processo de reintegração dos seus convocados. Assim como os excombatentes não estavam aptos para a guerra na Itália ou no Brasil, entendemos que o Estado
brasileiro também não estava preparado para recebê-los de volta e pagar aos pracinhas o que
havia sido prometido de imediato.
A memória dos ex-combatentes sobre a Segunda Guerra Mundial é formada pelas
suas lutas antes, durante e após a guerra. Optar por apenas um desses momentos, como por
exemplo, a convocação, a guerra no front ou a volta para a casa, acabaria dificultando o
entendimento dos seus relatos, pois deixam de ser inseridos dentro de um contexto maior em
que praticamente todos os setores do país estiveram envolvidos.
As entrevistas com os ex-combatentes alagoanos nos proporcionaram uma visão
mais ampla da guerra. Conseguimos ter contato com alguns homens que foram convocados e
que não tiveram nenhum receio de nos receber e nos dar os seus depoimentos. As visitas que
pudemos fazer a alguns lugares, entendidos nesta dissertação como espaços de memória,
também nos foi muito satisfatórias.
Dentro desses espaços de memória sobre a guerra que conseguimos encontrar, a
Associação dos Ex-combatentes do Brasil – Secção Alagoas (AECB-Al) foi o mais
importante. Sua relevância em comparação aos outros lugares, concebidos como pontos de
referência à Segunda Guerra Mundial no estado, principalmente na capital, está no fato de
nela existir um material mais vasto sobre os pracinhas alagoanos. Contudo, a sua condição de
principal local de memória dos ex-combatentes alagoanos está sendo desconstituído ano após
147
ano. Os vários avisos de reintegração do seu prédio pelo poder púbico, tornou-se um
problema que precisa ser solucionado imediatamente.
A agilidade com que deveria ser conduzida a solução desse problema é desejada
dado o fato da associação alagoana ter um quadro de associados bem reduzido e de seu
próprio presidente acreditar que com as suas mortes o prédio, que serve como sede da
associação, poderá voltar a pertencer ao poder público para ser utilizado como mais uma
repartição.
Entendemos que a associação alagoana não pode ser extinta, dentre outro fatores, por
representar o espaço da memória coletiva do grupo de alagoanos que participou ativamente da
guerra. O primeiro passo dos ex-combatentes alagoanos na luta pelos seus direitos e pelo seu
reconhecimento enquanto grupo, começou com a criação das associações de ex-combatentes e
o seu último passo poderá ser dado quando a conservação da sua memória for entregue à
Escola Superior de Guerra, pois poderá ser, com isso, dificultado o seu estudo e futuros
trabalhos sobre o tema.
Essa preocupação com o futuro das associações e com os trabalhos que porventura
venham a ser feitos sobre a sua história dos seus associados, não é a única. Com o transcorrer
da pesquisa abriram-se outras possibilidades de novos trabalhos que envolvessem além dos
ex-combatentes outros temas que poderiam ser produzidos. Questões que tragam mais
detalhes sobre a economia alagoana durante a guerra, o perfil dos seus trabalhadores ou a
participação de outros envolvidos diretamente no conflito; a vida dos seus pescadores e
ribeirinhos não só na proteção do litoral, como também o registro das suas memórias sobre a
guerra; as mudanças ocorridas na sociedade alagoana pelo advento da guerra, como os
blecautes e as amostras de filmes, além da música e outros aspectos do seu cotidiano; não se
esquecendo das disputas políticas locais durante a ditadura de Vargas, que poderiam ajudar a
construir um entendimento maior sobre as consequências da guerra no estado e sobre os seus
naturais, durante a década de 1940.
Tentamos não abordar apenas sobre os homens e as mulheres que participaram
ativamente da guerra, mesmo deixando a entender que o objeto da pesquisa escolhido referiase aos ex-combatentes alagoanos, escrevendo também um pouco sobre as questões
supracitadas com o intuito de possibilitar futuros estudos sobre as mesmas.
Finalizando, entendemos que o estudo da participação de alagoanos convocados para
a Segunda Guerra Mundial contribui para novas pesquisas sobre os ex-combatentes brasileiros
que ainda não tiveram as suas experiências registradas. Aumentar a produção historiográfica
sobre esse tema envolve outros estudos que discutam o Brasil a partir de outras bibliografias
148
que não seja apenas a de uma única posição, no caso, de segmentos ligados diretamente aos
governos. As convocações de jovens brasileiros, dos mais distantes lugares, atestam para a
confirmação dessa necessidade, visto que mais de setenta anos se passaram, desde o
recebimento do ato convocatório que obrigou vários brasileiros a se apresentarem às suas
respectivas zonas militares, e ainda existem estados que não produziram trabalhos sobre as
memórias de seus naturais que participaram diretamente da maior e mais letal de todas as
guerras já estudadas.
149
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em 5 de outubro de 1988. Art. 53, inciso IV, dos Atos das Disposições Constitucionais e
Transitórias da Constituição Federal de 1988, que assegura alguns direitos aos excombatentes, como por exemplo, a pensão especial de segundo-tenente...
BRASIL. Decreto nº 19.770, de 19 de Março de 1931. Regula a sindicalização das classes
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participaram de operações de guerra. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Rio
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Sobre
o
fechamento
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da
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combatentes+da+FEB+fecham museu+e+associação.html> . Acesso em fevereiro de 2014.)
160
APÊNDICE A – Entrevista I: Rosalvo José de Souza (14/09/2013)
Em entrevista concedida para este trabalho, o ex-combatente, Rosalvo Loureiro,
morador de Delmiro Gouveia, relata alguns fatos que contribuíram para minha pesquisa de
mestrado sobre os pracinhas alagoanos. O pracinha alagoano nos recebeu em sua casa com
muita boa vontade e admiração pelo trabalho proposto. Depois das apresentações, e demais
receptividades iniciais, começamos a perguntá-lo:
SÉRGIO: O nome do senhor todo:
ROSALVO: Rosalvo José de Souza
SÉRGIO: Qual a data do seu nascimento?
ROSALVO: A minha idade? 93 anos, no dia 11 de Julho de 1920.
SÉRGIO: O nome da sua mãe?
ROSALVO:
SÉRGIO: O nome de seu pai
ROSALVO: José de Souza Ferraz.
Obs.: Teve 07 irmãos e tem 10 filhos.
SÉRGIO: Eles faziam o quê, mais ou menos?
ROSALVO: Eles trabalhavam em Delmiro Gouveia. Eram operários. Eles são sertanejos de
Pernambuco da cidade de Betânia.
SÉRGIO: O senhor passou a sua infância todinha aqui em Alagoas?
ROSALVO: Foi
SÉRGIO: Em Delmiro Gouveia?
ROSALVO: Foi
SÉRGIO: O senhor tem alguma lembrança daquela época, como era aqui? Era tão moderno
como agora?
161
ROSALVO: Naquele tempo não tinha a fábrica. No tempo que pai chegou aqui. Ali no lugar
da fábrica era xique-xique e macambira. Aí meu pai foi inspecionador de pele. Delmiro ia
comprar pele por Pernambuco, aí nas cidades, e meu pai era inspecionador. O meu pai, foi
inspecionador de pele por muito tempo.
SÉRGIO: O senhor estudou aqui mesmo?
ROSALVO: sim
SÉRGIO: O senhor chegou a se formar aqui?
ROSALVO: Não, não. Eu não sou formado.
SÉRGIO: Não. Eu falo do primeiro grau
ROSALVO: É. O que eu tive que aprender foi por aqui.
SÉRGIO: Sua trajetória profissional. Eu sei que o senhor fez muita coisa nesses mais de 90
anos. De prefeito, tendo sido ex-combatente e tal. Mas eu quero pelo menos saber o caminho
do senhor para se chegar até agora, assim, profissionalmente falando.
ROSALVO: Primeiro do que tudo, eu fui operário. O meu pai gostava de roça. Até 15 anos, o
meu pai colocava “nós” pra trabalhar na roça. Ele gostava de roça. Aí eu passei 15 anos na
Fábrica da Pedra. Com 20 anos eu fui sorteado.
SÉRGIO: Esse sorteio era como? Colocava o nome das pessoas?
ROSALVO: O sorteio vinha lá da cidade. O Exército mesmo, eles têm o mapa da cidade e
coisa e tal. Quando menos espera, recebe o aviso que foi sorteado e aí não pode deixar de
atender.
PEDRO (Foi quem intermediou a entrevista. Morador também de Delmiro.): Era do Distrito
de Água Branca, uma cidade a 15 km e aqui pertencia a Água Branca. Aí depois emancipouse.
SÉRGIO: Aí o senhor foi sorteado?
ROSALVO: Fui. Aí eu fui sorteado.
SÉRGIO: O senhor ficou sabendo como?
162
ROSALVO: Não, eles mandam. Eles mandam a convocação.
SÉRGIO: E o senhor pegou o papel...
ROSALVO: Não. Quem recebe é o prefeito, neste tempo era o de Água Branca, quem
recebeu. Quando eu me batizei o padre que funciona aqui era lá de Água Branca. Era uma
coisa só. Trabalhava lá e cá.
SÉRGIO: O prefeito, então, falou que o senhor tinha sido convocado?
ROSALVO: Não. Veio o papel.
SÉRGIO: O senhor leu perto da família?
ROSALVO: Foi.
SÉRGIO: E quando o senhor viu isso? Quando o senhor pegou o papel e viu? O senhor tinha
quantos anos na época?
ROSALVO: Eu sei que eu fui com 20 anos. Foi em 1940.
Obs: na verdade seu Rosalvo foi convocado em 1943. Depois de conversar com a sua esposa,
a segunda. Ele era viúvo.
SÉRGIO: Tinha alguma namorada aqui? Para deixar com saudade?
ROSALVO: Mais ou menos.
SÉRGIO: Quando o senhor pegou o papel e viu. O senhor sabia o que iria encontrar, mais ou
menos, pela frente?
ROSALVO: Não. Não tinha. Na verdade eu não vou mentir. Mas recebi, coisa e tal, li,
entendi que era coisa do Exército, era um caso sério, não podia deixar de atender.
SÉRGIO: Aqui vocês tinham notícias do que estava acontecendo lá?
ROSALVO: Sabia que a guerra na Alemanha já tava funcionando. Aí nesse ano eu passei lá
(o lugar é o da convocação). Vi que a guerra tava funcionando e já fui liberado. Com um ano
eu fui liberado. Mas com 10 meses eu recebi o chamado para voltar novamente. Aí foi nesse
dia que a minha mãe, quando soube que eu ia viajar, “tem chamado, tá esperando lá”, deu um
163
ataque. Aí eu sei que me despedir do povo, me despedi de pai, vi descendo uma lágrima.
Coisa que eu nunca vi ele chorar. A minha mãe era chorona, mas meu pai não.
Aí depois de despedi de todo o mundo. E a minha mãe, cadê? Disseram: ela tá lá dentro, aí eu
entrei, cheguei lá e o pessoal “apegado” com ela e não tive mais acesso. Aí eu saí. Não chorei
por isso, por que eu tive raiva. Deixei a minha mãe esperando morrer, digamos, e eu fui a eles
e não tive o direito de esperar que ela morresse ou... e sabendo também que daquela noite, no
outro dia ia viajar e não tinha condições de voltar. Por que eu já sabia da coisa mais ou menos.
SÉRGIO: Aí o senhor foi. Teve mais ou menos um curso, e qual foi a cidade que o senhor
ficou?
ROSALVO: Em Maceió. Eu passei 15 dias lá esperando para aonde a gente ia ficar. Aí com
15 dias foi que chegou o aviso que era para ir para Rio Grande do Norte. A capital de Natal.
Que era o 16º RI. Aí justamente, é que seguimos, como lhe falei, de Maceió embarcou por 6
horas e daí houve uma confusão com o pessoal, que andava com uma conduta, alteração na
hora. E foi preciso agarrar ele, um cabra como aquele ali (meu cunhado, de 1,80m) e deu
trabalho, mas agarraram ele e coisa e tal, e deixaram ele preso. Aí quando foi 3:00 da
madrugada, quando me acordei, já sentia que o navio ia funcionando. Aí, 11:00, “nóis” tava
em Recife. Foi bom, aí tivemos uma hora lá de trégua para a gente, se a gente quisesse andar
em linha (deu uma volta no local). Coisa e tal, mas era só uma hora. Aí todo mundo saiu para
tomar um negócio, aí viajamos. Lá no caminho, um avião passou baixinho, investigando a
gente, coisa e tal, mas tudo correu bem. Em 12:00 chegamos em Natal.
SÉRGIO: Ficou em Natal?
ROSALVO: 6 meses. Esse navio que eu viajei, o Itapajé, foi torpedeado, aqui nessa cidade de
Rui Palmeira, do engenho de Guilherme Palmeira. Ali esse navio foi torpedeado. Esse que eu
viajei. Eu fiquei assim, até meio preocupado, “Meu Deus do Céu, quase que me pegaram”.
Mas...
SÉRGIO: O treinamento, lá em Natal, durante esses 6 meses, como era o curso que o senhor
teve?
ROSALVO: Homem, lá até metralhadora de avião a gente fez treinamento.
SÉRGIO: O senhor lembra o nome do seu superior direto?
164
ROSALVO: De lá de Natal, não.
SÉRGIO: O senhor fez parte de algum grupo específico?
ROSALVO: Homem, lá se fazia de tudo. Um dia era uma coisa, outro dia era outra. Era
assim, era treinamento para enfrentar a guerra.
SÉRGIO: O senhor conheceu ou viu alguns alagoanos? Pessoas que o senhor depois teve
contato?
ROSALVO: Teve lá, um rapaz que foi convocado primeiro e voltou à cidade e levaram lá
para fazer treinamento com a gente. Mas não cheguei a ver ele. Sei que a gente fez muito
treinamento de tiro. E teve até um baleado, de bala de festim.
PEDRO: Quantos foram aqui mais o senhor?
ROSALVO: Homem, no dia em que eu saí, parece que só foi eu. Mas, depois, quando eu já
estava em Maceió, chegou outros: compadre Ulisses, eu acho que vocês vão passar lá na casa
dele. Meu compadre Ulisses, ele é mais velho do que eu.
Obs: o seu compadre Ulisses foi um dos convocados que foi para a Itália e será alvo da
segunda entrevista.
PEDRO: O comandante que lhe denunciou para dar benção à sua mãe, foi o coronel, capitão
Aldo?
ROSALVO: Capitão Aldo, isso. Eu falei com ele, naquele tempo ninguém tinha direito. Mas
teve um dia... chegou o chamado, aí nós passamos o dia todo se arrumando para viajar. E
passamos o dia, e passamos até 12:00 horas. Mas, aquilo ali, disseram que fizeram isso para
que no dia de fato que fosse verdade ele já tá mais ou menos com aquilo na cabeça, e não
estranhar muito. Mas, isso me preocupou muito. Mas eu, tanto tempo que estou aqui, ia fazer
dois anos que estou fora de casa. Eu vim cá do, vim aqui para Tamandaré, na divisa de
Alagoas com Pernambuco. Fiz dois meses de serviço lá. Aí, vim de lá, da banda da Paraíba, e
foi criando um contingente lá do R.G.N., eu soube da história que era pra vim aqui ficar na
divisa com Alagoas, e eu quero ir. Eu disse, pode ser que quem sabe que eu de lá, mais perto,
não posso voltar na casa da minha mãe.
165
SÉRGIO: Lá no fundo o senhor não queria participar disso mesmo. O senhor acha que teve
alguém com vontade de participar da guerra, pela conversa que o senhor teve com seus
amigos?
ROSALVO: Não tem. Eu acho que não tem gente que queria ir para a guerra. A gente vai
porque a lei manda. A gente tem compromisso né? De cidadão. Não quer desertar, né? Foi
bom (riso acanhado).
SÉRGIO: O senhor tem ideia de algum caso engraçado que aconteceu lá nesses 6 meses?
Num joguinho de baralho que vocês jogavam. Dava para ouvir música lá. Quando vocês
estavam lá, nesses 6 meses?
ROSALVO: Nesse tempo que eu vim para aqui, quando eu cheguei aqui, a semana quase toda
foi samba. Eu sou sambista. Aí aproveitaram eu aqui. Um fazia um samba, outro fazia outro
samba. Até no dia que ficou para viajar, mas não viajei porque a gente viajava daqui. Os
caminhões da companhia, até Rio Branco naquele tempo, e hoje é Arco Verde. Foi bom, aí eu
fiquei sambando. A minha mãe quando eu chegava em casa, ela ia pra dentro do quarto e se
deitava. Eu sempre ficava muito triste. Eu andava passando, visitando meus amigos e coisa e
tal. Quando chegava, minha mãe tava cuidando da casa, mas quando ela via eu chegar,
fechava a porta do quarto. Aí eu não queria tá muito tempo em casa. Eu tornava sair para lá
me entretendo com os amigos (risos acanhados). Por que não ficava satisfeito com ela deitada
e eu lá dentro de casa.
Obs.: nessa parte da entrevista seu Rosalvo relata os momentos em que ele foi vice-prefeito
(1968-1973) e prefeito de Delmiro Gouveia (1977-1983) pela ARENA (o mesmo de Arnon de
Mello). Depois de ter servido o Exército, foi comerciante por mais de 30 anos e logo depois
ingressou na carreira política. Um homem extremamente honesto com seus princípios, nos
moldes cristãos, que a convite, como ele mesmo fala, sem condições de negar o pedido, se
lançou na política. Foi produto do processo político da época. (mas por convocação, que por
escolha própria). Não há aqui, de minha parte, o interesse de absorvê-lo das suas opções
partidárias ou das suas decisões políticas. Ele foi um típico político do interior, conservador,
mas que entendia por administração correta o zelo com o erário público.
Quando perguntado sobre os “ilustres” políticos de sua época, imediatamente vêm as figuras
de Arnom de Mello e de seu filho Fernando Collor de Mello.
166
Sobre Ismar de Góes Monteiro, o interventor de Alagoas durante os anos de 1940 a 1945, seu
Rosalvo, assim relata:
Lembro de Ismar de Góis Monteiro, “mas o mais famoso era o seu irmão Silvestre Péricles,
que era famoso. Ele era valentão. O outro (Ismar de Góes Monteiro) não correu nada contra
ele. Silvestre é que era valentão.
SÉRGIO: E Vargas? O senhor lembra muito bem dele?
ROSALVO: Lembro.
SÉRGIO: O senhor acha o quê de Vargas como político, como cidadão?
ROSALVO: Eu achei ele muito bom. Agora Silvestre era agressivo demais. O outro, Ismar,
era calmo. Ele não foi Governador? Naquele tempo o nome era diferente, era interventor.
SÉRGIO: Então o senhor acha que ele foi um bom interventor aqui para o Estado, mais
tranqüilo?
SÉRGIO: Foi.
SÉRGIO: O senhor hoje faz parte da Associação dos Ex-Combatentes daqui de Alagoas?
ROSALVO: Não.
SÉRGIO: Mas já fez parte?
ROSALVO: Não.
SÉRGIO: A sua patente é de?
ROSALVO: 2º Tenente
SÉRGIO: O senhor de alguma forma ainda está ligado ao Exército?
ROSALVO: Quem me atende é aqui em Paulo Afonso, no Batalhão da Infantaria.
SÉRGIO: O senhor acha que ficou algum trauma durante a guerra, ou depois da guerra, por
conta dessa experiência de 6 meses de pressão? Nessa angústia de se ia ou não ia.
ROSALVO: (PAUSA) Homem, eu tive... Eu sei que eu fui com muita disposição, treinei
como quem ia receber uma medalha. Eu aprendi o que devia aprender, eu aprendi. Eu vim
167
aqui tomar benção da minha mãe quando eu fui. Fui sartisfeito. Eu me lembro que eu pedi a
Jesus, porque eu viajei sem tomar a benção da minha mãe, e eu pedi a meu Deus, que me
deixasse matar 100, para poder me levar, por que eu ia sem tomar a benção da minha mãe. Eu
pedi a Deus (neste momento seu Rosalvo nos mostra o que muitas vezes nós, estudantes do
tema, vemos em relatos de outras pessoas, gravadas, filmadas, relatadas por outros estudiosos,
a emoção e o olhar de perda que, a grande maioria dos homens e mulheres daquela época
ainda traz consigo. Todos se emocionaram na sala. A entrevista que era para ser um material
de pesquisa, transforma-se em material de reflexão pessoal. Principalmente para mim, o mais
afinado, pelo menos naquele recinto, com o mote da entrevista. Fica claro que fazer história
sem emoção é entender sem desejar, é viver lendo sem sentir, é discutir, ou debater, sem se
transformar, é não se humanizar).
Para a pesquisa, a entrevista com seu Rosalvo acaba aqui. Mas os seus relatos nos dão a
certeza de que mesmo com todas as suas contradições, ele foi um homem de sua época. Sabia
das suas maiores obrigações. Tinha recebido um legado cultural e não queria, ou não podia,
dentro das suas circunstâncias, ser radicalmente diferente do que lhe propunham. Mas, os seus
atos, ou as suas atitudes, continuaram nessa inquirição por mais 13 minutos, num total de 47.
Não tive coragem de interrompê-lo. Não acredito que tenho esse poder. E mesmo se tivesse,
deixá-lo-ia extravasar o seu desabafo e a sua vontade de explicar, para todos que ali estavam,
que a sua longa vida, apesar das dificuldades (perdeu a mãe sem dizer o quanto a amava;
ergueu o pai no leito de morte, para que pudesse evacuar de dor; Foi jurado de morte por
alguns desafetos políticos; dentre outros acontecimentos), foi vivida, para ele, de forma
honesta. Não acho que houve a intenção de se valorizar diante das câmeras. Mostrou-se desde
o primeiro momento como uma pessoa educada e bastante simples. Claro que em alguns
momentos as suas convicções fizeram transbordar a personalidade e o seu caráter de homem
forte e pouco afável com aqueles que o acusaram de ser diferente do que afirmava ser.
168
APÊNDICE B – Entrevista II: Ulisses Firmino de Oliveira (14/09/2013)
Na entrevista concedida pelo senhor Ulisses a este trabalho de pesquisa, ficou clara a
sua boa vontade de nos acolher de forma bastante respeitosa e se dispor a responder às
perguntas que lhe foram direcionadas sempre com um sorriso no rosto. O pracinha de 96 anos,
negro, ex-operário e lavrador, nos proporcionou uma ideia do que foi a guerra na Itália
quando lá esteve em 1944. A entrevista teve início logo após a ocorrida com o Sr. Rosalvo.
Assim, depois das apresentações e de dizer quais eram os meus objetivos, passamos a
entrevistá-lo:
SÉRGIO: O seu nome todo?
ULISSES: Ulisses Firmino de Oliveira (95 anos)
SÉRGIO: Como era o nome do pai do senhor?
ULISSES: André
SÉRGIO: O nome da mãe do senhor?
ULISSES: Maria Joaquina
SÉRGIO: Todos são daqui (Delmiro Gouveia)?
ULISSES: Eram
SÉRGIO: O senhor nasceu aqui, foi criado aqui?
ULISSES: Eles já morreram.
Obs.: Senhor Ulisses é surdo de um ouvido. Por isso às vezes as suas respostas não coincidem
com as perguntas de forma perfeita, mas com a repetição da pergunta de forma mais intensiva,
mais límpida, conseguimos fazer com que ele as respondesse de maneira mais segura.
SÉRGIO: O senhor foi criado aqui?
ULISSES: Foi
SÉRGIO: A escola, lá no iniciozinho, o senhor chegou a fazer as séries iniciais. O senhor teve
contato com ela?
169
ULISSES: Home! o estudo foi muito pouco, eu não vou mentir. E agora tá com dois anos que
eu vou e nem o nome eu posso assinar mais.
Obs: ele se refere a assinatura do depósito correspondente à sua aposentadoria. Ele a recebe
no quartel de Paulo Afonso, como 2º Tenente.
SÉRGIO: E o senhor está com quantos anos hoje?
ULISSES: Hoje? 95 anos. Eu completei no dia 15 de outubro.
SÉRGIO: Na época em que o senhor foi convocado, o senhor tinha quantos anos, mais ou
menos?
ULISSES: Tá aí, essa eu não tô lembrado.
SÉRGIO: Foi 44 ou 45 que o senhor chegou a ir?
ULISSES: Fui convocado... em 42.
SÉRGIO: E o senhor saiu daqui de Delmiro Gouveia mesmo, foi para Maceió...
ULISSES: Nós fomos para Maceió, num caminhão “veio” aí, ele botou corrente, os cabra já
tudo envenenado (tinham bebido um pouco de bebida alcoólica). Não tô muito lembrado do
negão, que disse “olha, vocês desçam e vão “impurrar” o carro”. Aí eu disse: “pera. nós
somos ‘calunga de caminhão’? isso, dentro de Mata Grande. Ele infezou-se, nós fiquemo lá.
Passamo a noite em Mata Grande, logo dia de feira, menino... oh rapaz...
SÉRGIO: Foi sofrimento?
ULISSES: Foi
SÉRGIO: O senhor chegou sair daqui para Maceió ou já foi para Recife, ou foi para onde?
ULISSES: De Mata Grande, o motorista disse e o tenente “olha não vou levar ninguém mais
para Maceió, não. Bagunçaram aí, não todos, mas bagunçaram bastante. Aí não foi.
SÉRGIO: Mas, o senhor serviu o Exército dessa época, 42, 43. Qual foi o batalhão, aonde foi
que o senhor ficou?
ULISSES: No Rio Grande do Norte, no 3º batalhão, tudo convocado, no quartel 29.
SÉRGIO: O senhor ficou lá no R.G.N. durante esse tempo?
170
ULISSES: Muito tempo.
SÉRGIO: O senhor lembra mais ou menos dessa época? O senhor chegou a ir para Itália? Ou
o senhor ficou aqui mesmo?
ULISSES: De lá nós fomos... O cumpade Rosalvo (o outro pracinha entrevistado por mim)
veio para o Batalhão de engenho, não sei... E os outros foram com o General Cordeiro de
Farias e Mascarenhas de Moraes, de navio.
SÉRGIO: O senhor, então não foi?
ULISSES: Não. Eu fui lá para Itália.
SÉRGIO: O senhor chegou a sair do RJ ou saiu daqui mesmo?
ULISSES: Saí do R.G.N.
SÉRGIO: O senhor saiu do R.G.N. e foi para a Itália?
ULISSES: Foi
SÉRGIO: O senhor tem, mais ou menos, uma lembrancinha da viagem, como foi. Um dia no
navio?
ULISSES: Rapaz, muito nego enjoou. Eu não, eu não quis comer...
SÉRGIO: Foi a viagem todinha sem comer?
ULISSES: Sim. Os “cabra”... não, primeiro nós fomos para Recife, chegou lá não tinha vaga,
nem na Paraíba, nem nada, aí veio um capitão... aí chegou lá deu um sinal, ou telefonou, não
sei o que... aí nós saímos marchando, a pé, para o quartel 29. Dormi em rede, tinha nego que
chiava (risos). Eita diabo! Tinha um César, do Rio de Janeiro, menino! Esse era o cão.
SÉRGIO: Na preparação que foi do Brasil para ir para a guerra, antes do embarque, o senhor
lembra como foi a preparação?
ULISSES: Foi o primeiro batalhão, passava 6 meses na praia treinando. Aqueles canhãozão
de concha, 150, e o derradeiro foi o 3º batalhão. Com 6 meses nós viemos. Coronel ruim que
só o cão. O quartel dos convocados, não tava pronto ainda. Aí foi quando de manhã bem cedo
a banda de música tocava. Os maus elementos ficavam tudo atrás, pro mode que os oficiais
tinham raiva deles. Quando ele dizia “bom dia meu regimento”. Cabra dizia: “bom dia corno”.
171
Outro dizia: “fi dessa, fi daquela outra”. Eu sei que ele ficava vermeio. Mas, por sinal, rapaz,
nesse dia, o sargento testou, tava lá perto, uns treino de tiro. Eu vinha com uns tijolos nos
braços, aí ele disse: “o que que você é? Aí eu disse: “um simples carregador de tijolo”. Aí, ele
ficou vermeio como a peste. Aí danou-se lá para o quartel. Aí bateu a corneta. Aí o Sargento
Nestor disse: “olha vão lhe expulsar”. Aí eu disse: “não posso fazer nada”. Ele não me deu um
bom dia lá. Eu com a mão cheia de tijolo. Tinha gesto de cabeça, mas eu não fiz. Aí, me
mandaram chamar. Tinha um cearense, era quem dirigia o jipe. Naquele tempo, não tinha
carro não. Era um jipe veio, que andava pra lá e pra cá. Aí, quando eu cheguei, já tinha
conversado muito, aí disse: “olha, foi mandado chamar você minha ordenança”. O bicho ficou
vermeio que só a peste. Eu digo: “olha, eu nunca fui vaqueiro, nunca lavei cavalo e nem
arrumei cama pra mulher, ou pra homem. “aí foi que ele ficou vermeio. E mandou eu sair.
SÉRGIO: Isso tudo aqui no Brasil, ainda?
ULISSES: Sim. Foi lá no R.G.N. Antes de embarcar. Outro dia ele me mandou chamar. Aí eu
falei: “rapaz eu já não disse que eu não vou. Eu nunca lavei cavalo de patrão, nem nunca
arrumei cama para mulher”. Aí ele, não, mas vamos lá...
SÉRGIO: E como o senhor recebeu a notícia da convocação para a guerra?
ULISSES: De Água Branca, do prefeito de lá é que mandava as cartas de convocação.
SÉRGIO: O senhor lembra do dia em que o senhor pegou o papel e leu. Aonde o senhor
estava?
ULISSES: Não. Eu fui buscar na perna. Aqui era ruim de carro. Foi eu e Quichabera, bebo
como um cachorro (risos). Era novo.
SÉRGIO: Tinha namorada por aqui, mulher, filho?
ULISSES: Não. Eu morava ali (aponta para o local que fica numa rua próxima a sua atiual
residência). Eu era solteiro ainda.
SÉRGIO: Aí o senhor pegou o papel da convocação, junto com outras pessoas daqui também?
ULISSES: O caminhão foi cheio, home. Agora voltou... O finado João Gomes tava com o pé,
era agricultor, e a roda do carro de boi passou no pé dele.
SÉRGIO: Tinha alguém que fazia alguma coisa para não ir? Falava que tava doente, ou não?
172
ULISSES: Não podia, né. Foi dispensado, o Palmeira, os que era agricultor...
SÉRGIO: Tinha alguém dentro desse caminhão que tinha algum dinheirinho? Ou era tudo da
classe trabalhadora, mais humilde?
ULISSES: Não. Os que tinha mais alguma coisa eram os “pacífes”. Os outros não tinham
nada não. Eram operários, outros num eram. Como diz a história, era pé-no-chão.
SÉRGIO: Aí o senhor saiu do Rio Grande do Norte, pegou o navio e foi parar na Itália?
ULISSES: Não. Nós terminamos no R.G.N. os cabra (risos)... o Coronel tão Caxias que ia na
frente marchando, deixou o jipe lá, e saiu marchando. E as mulheres pegando com ele,
mostrava os peitos, ele: “não tem jeito, não”. E os cabra assobiando, mas não teve jeito, não.
Quando a gente embarcou no navio. Foi Cordeiro Farias e Mascarenhas de Moraes, que já
morreram, em Recife, um bichinho baixo, mas era bom.
SÉRGIO: O senhor chegou a vê-lo, assim, de pertinho?
ULISSES: Claro. Eu já tinha visto ele em 39, quando eu fui sorteado. Tinha um Major que
criava passe de mulher prostituta, me dava um valor danado. Aí, Assis me deu um fuzil véio,
que nem a bixiga limpava ele. Ele me deu o “corné” e um pó, eu passava assim (mostra como
limpava o fuzil) da janela, aí eu abusei. Tá prestando “im riba” não. O Major olhava assim. Aí
eu falei: “nem o cão limpa ele”. Ele tava do lado do General. Ele pegou e jogou, assim, lá no
chão. Aí o Cordeiro de Farias disse: “não se faz isso com recruta, não”. Aí ele pegou o fuzil
olhou e disse: “Isso aqui só se for no fogo ou na broca”. Aí depois ele mandou me chamar e
disse: “viu o que ele disse a você?” aí eu falei: “ eu não tenho culpa. Que culpa tenho eu?”
Mas também com poucos dias ele foi transferido, num sei pra onde (risos). Aí chegou um
Coronel bom que danado.
SÉRGIO: O senhor lembra o nome desse Coronel?
ULISSES: Não.
SÉRGIO: O senhor ficou lá em qual batalhão? Lá na Itália?
ULISSES: A gente ficou colocado na divisão dos EUA. Num batalhão deles, assim (mostra
com as mãos, sinalizando várias fileiras de homens). Aí, agora me lembrei (rindo). Bem
cedinho, naquele nervoso doido, eles davam dois dedos assim (demonstra com os dedos uma
pequena dose), não sei que bebida era, eu dizia “bota isso pra lá, que eu não bebo”. Nem
173
beber, nem fumar, nunca. Aí, esse agricultor que era nervoso que só a desgraça, um dia ele fez
o Tenente coisar... pegou e jogou ele dentro de uma privada véia, na Roca. Uma cachaça da
peste dos cabra. Aí, o Tenente veio, era o 1º Tenente mineiro. Mas, menino! Aí disse: “bigode
ó como eu tô”. “Que culpa tenho eu?”. Aí peguei na oreia do burro, ele outra. Torcemo,
torcemo, aí ele disse: “viu paraibano? O que o alagoano fez? Mas você deixar o burro me
jogar dentro da lama.” Naquele tempo usava bota, até aqui, os oficiais... mas, menino, todo
melado. Vamos simbora (risos). Fi da peste! (mais risos).
SÉRGIO: E lá na Itália, era muito diferente? O povo de lá o senhor achava muito diferente do
daqui? O senhor chegou a ter contato com alguém de lá?
ULISSES: Pouco, pouco, com as mulher. Você sabe que soldado gosta de esculhambar
demais. As italianas com raiva chegava, assim, ficava aquela fila. Aí eu me lembro pouco.
SÉRGIO: Elas eram bonitas?
ULISSES: Tinha bonita e tinha feia (risos). Aí, não sei o que eu tava cantando, aí ela
perguntou: “quem é bigode, aqui?” “é aquele cara ali”. Lá vem ela conversar comigo (risos).
Aí conversamos um pouco, e ela disse: “olha, você pode dar uma voltinha por aqui de noite?”
“Homi”, se eu não sair da patrulha...
SÉRGIO: Saia todo dia de patrulha?
ULISSES: Saia. Mas, não saia um só não. Era um bocado de soldado.
SÉRGIO: O senhor ficou na Itália quanto tempo?
ULISSES: Quase 3 anos. Terminou a guerra, nós fiquemos por lá e tudo.
SÉRGIO: Depois da guerra o senhor ainda ficou por lá?
ULISSES: Ficamos. O derradeiro combate foi no Monte Castelo. Era uma metralhadora da
peste, lá de cima.
SÉRGIO: Mas o senhor chegou a participar?
ULISSES: Eu tava lá no meio.
SÉRGIO: O senhor viu brasileiros morrerem?
174
ULISSES: Morreu muito. Agora o engraçado que eles davam cobertura aos médicos, os
aviões davam cobertura, os médicos desciam, com os enfermeiros. Aquele que não tinha
condições ficava gemendo até morrer. Agora, aquele que tinha condições eles levavam.
SÉRGIO: O senhor acha que o Exército Brasileiro, daquela época, estava preparado?
ULISSES: Ele tava preparado apulso.
SÉRGIO: Batia saudade de casa?
ULISSES: Batia. Quem tava num inferno daquele, não saia por que não podia.
SÉRGIO: E quanto à alimentação? O senhor teve algum problema?
ULISSES: Não, não tive problema nenhum. Agora, alguns tiveram. Nem tudo que eu via, eu
não ia comer.
SENHOR: As minas que ficavam enterradas, o senhor chegou a ver a casos de explosão?
ULISSES: Morreu muita gente, mas eu não conhecia não. Era gente demais. 3 batalhão. Eu
fazia parte do 3º batalhão.
SÉRGIO: O senhor lembra quantos foram para lá, de vez, no navio que o senhor foi?
ULISSES: Aí é difícil.
SÉRGIO: Então, o senhor participou do Monte Castelo?
ULISSES: Eu fui até o Monte Castelo. Fui não, me levaram. Por que eu não ia (risos).
SÉRGIO: E o senhor chegou a ver o Exército Alemão que foi capturado?
ULISSES: Vi, agora o mais ruim era o Hitler. Aquele era um velho ruim da peste. Mas, não
deu jogo a ninguém para pegar ele, não.
SÉRGIO: Aí o senhor ficou este tempo todo na Itália, mesmo depois da guerra?
ULISSES: Poucos dias.
SÉRGIO: Aí o senhor voltou para o Brasil.
ULISSES: Sim.
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SÉRGIO: O senhor voltou direto para O R.G.N., ou para o R.J?
ULISSES: Voltei para o R.G.N.
SÉRGIO: Qual a sua patente no Exército? O senhor chegou a seguir carreira, ou o senhor
parou?
ULISSES: Eu não tinha nada. Essa esmola, como diz a história, me veio num bom tempo, de
segundo tenente. Mas, mais nada.
SÉRGIO: O senhor guarda alguma lembrança dessa época?
ULISSES: Lá eu não tirei foto nenhuma.
SÉRGIO: E a sua aposentadoria é pelo Exército?
ULISSES: É sim.
SÉRGIO: Hoje, olhando para trás, o que o senhor pensa daquele momento? Valeu a pena?
ULISSES: Valeu por que, eu ganhava um salário vagabundo, salário não, esmola. Olha, a
mulher que atendia a gente na 1ª seção, menino! Dei várias viagens, passando fome, não vou
mentir. Mas, teve um filho de Deus, de Feira de Santana, me disse: “oh cidadão, não leve a
mal, não, mas por que é que todo mundo salta e vai fazer lanche. O que é que tá
acontecendo?” Aí eu disse isso (mostra a mão como quem mostrasse um documento). Aí ele
me deu um café. Com poucos dias a minha aposentadoria chegou. Dona Vitória dizia, mas seu
Ulisses vá agora com Collor. Eu disse: quantos tenentes não queriam que eu fosse embora
daqui, queriam que eu tirasse outros papéis. Eu disse não. Por que eu tinha feito na associação
dos Ex-Combatentes.
SÉRGIO: O senhor, então, faz parte da Associação?
Obs.: Ele falou que não faz. Mas, a filha falou que ele ainda contribui.
SÉRGIO: Então, o senhor acha que valeu a pena ter sido convocado e ter ido para Itália?
ULISSES: Foi. Olha, eu ganhava uma porqueira. Na roça, rachando toco...
SÉRGIO: Os outros que saíram aqui de Alagoas, também trabalhavam no campo, como o
senhor?
176
ULISSES: Não sei.
SÉRGIO: Pela conversa que o senhor teve lá, com os amigos, não tinha muita gente que
trabalhava no campo não?
ULISSES: Tinha, mas a conversa lá era pouca.
SÉRGIO: O senhor lembra qual foi a cidade da Itália que senhor ficou?
ULISSES: Depois que fiquei surdo, eu me esqueci de muita coisa.
Neste momento, já vendo que ele estava um pouco cansado, e acredito, com fome, resolvi
fechar a entrevista. Mostrando uma lista de nomes de alagoanos que foram convocados para a
guerra, perguntei a ele se conhecia alguns daqueles nomes. Mas, infelizmente ele não
conhecia. No entanto me forneceu vários documentos pessoais que comprovam a sua
participação na FEB, naquele tempo. Sendo que ficou patente a sua ideia positiva da
convocação graças à aposentadoria, concedida por conta da sua ida para Itália.
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APÊNDICE C – Entrevista III: Abel Silva do Amor Divino (21/02/2014)
O senhor Abel Silva do Amor Divino é o presidente da Associação dos Excombatentes Brasileiros Secção Alagoas. Foi um dos alagoanos que serviram às Forças
Armadas Brasileiras quando da entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Serviu a
Marinha desde 1944 e nos possibilitou uma entrevista sobre a Associação da qual preside. A
entrevista foi concedida em janeiro de 2014, tendo a duração de 36 minutos e 45 segundos. Os
principais aspectos que envolvem a sua criação e a sua manutenção foram explicados pelo
senhor Abel em um depoimento bastante elucidativo a respeito dessa instituição que como diz
o próprio presidente está com os dias contados. Assim, vamos à entrevista:
SÉRGIO: O nome do senhor todo:
ABEL: Abel Silva do Amor Divino.
SÉRGIO: Qual a sua naturalidade?
ABEL: Sou alagoano mesmo. Sou natural do município de São Miguel dos Milagres, na
época era Porto de Pedra.
S: Como o senhor iniciou a sua formação militar?
A: Eu fui para Escolar Militar de Marinheiro, em 11 de junho de 1944.
S: O senhor chegou a ser convocado pela Marinha na época da Segunda Guerra?
A: Não. Eu fui para a Escola, quando terminei a Escola fui para a Guerra.
S: Mas o senhor chegou a embarcar?
A: Embarquei. Embarquei de São Paulo.
S: O senhor tinha quantos na época?
A: 17 para 18 anos.
S: Como foi a experienciência lá? O treinamento...
A: Rapaz, na guerra tem que ser o treinamento de guerra, não sabe? Estávamos com os
americanos e tinha que ser junto com eles.
178
S: O senhor conheceu alguns alagoanos lá na época?
A: Há conheci muitos. Minha turma toda de Alagoas eu conheci todos.
S: Vocês faziam o cadastramento, ou melhor, o recrutamento era em Recife ou aqui (Alagoas)
mesmo?
A: Tudo em Recife.
S: E o treinamento chegou a ser em Recife, ou chegou a ir paraq o Rio?
A: Tudo em Recife, aqu8i mesmo não tinha nada. Aqui tinha uma capitaninhazinha (pequena
capitania) só.
S: Quantos anos o senhor serviu a Marinha?
A: Eu servir 25 anos.
S: Na época da Revolução de 64 (o termo “revolução” foi utilizado e não “golpe” para deixar
o entrevistado mais à vontade) o senhor chegou a pedir sua aposentadoria, ou alguma coisa
desse tipo, foi negada?
A: Não. Eu quando pedi a reserva sem ter completado os 25 anos, completava assim no mês
de trinta dias, que tinha um parecer do Supremo Tribunal Federal que dava esse direito e eu
fui negado. É a única coisa que eu fui negado. Depois, quando eu o completei me deram e
tiram meu direito. Tiraram e me botaram como suboficial.
A: Vai sair tudo isso?
S: Se o senhor quiser que sai, sai.
A: Então, tá. A minha reserva saiu como suboficial coisa que eu já era e com os proventos de
segundo tenente e só. A lei 288, 616 e 1156 me amparava e me dava direito a duas
promoções, mas não me deram.
S: E o senhor acha que foi por conta do que? O que eles alegam?
A: Depois mais ou menos uns dois anos que eu estava na reserva, eu encontrei uma pessoa da
Marinha e ele disse: “olha, você foi castigado pela revolução”. Por que saiu na época da
revolução para a reserva. O Ministro considerou que todas as pessoas da Marinha que se
aposentou na época da Revolução, era contra a Revolução. Eu não era contra nada. Nunca fui
179
contra Revolução, nunca fui contra nada, nada. Sempre fui a favor da Marinha, dos oficiais
etc. meu trabalho é intenso na Marinha. Fiz viagens nos navios. Na Ilha Grande fui para a
Europa. O navio ficou fazendo reparo e eu conheci a Europa quase toda: França, Alemanha,
Bélgica, Holanda, a Dinamarca, a Espanha, Suécia, conheci o Líbano, conheci a Síria, conheci
o Iraque...
S: Tudo a serviço da Marinha?
A: Tudo a serviço da Marinha. De lá eu fui para esses lugares. Eu estava num petroleiro e
para pagar o serviço que tinha sido feito no próprio petroleiro, tinha que fazer essas viagens
para poder fazer o pagamento.
S: E outras pessoas tiveram o mesmo problema do senhor, neste caso?
A: não sei dizer. Se alguém pediu não levou também por que... o que eu sei que tinha uma
turma que depois de 14 anos anularam a promoção e eu não sai. E eu inclusive entrei e
nenhuma dessas turmas recebeu. Eu tenho direito, a lei está dizendo.
S: Quanto a questão da Associação, quando foi fundada a Associação dos Ex-combatentes de
Alagoas?
A: Foi no dia 12... (Senhor Abel da uma para da para pegar um documento que fala da criação
da Associação secção Alagoas). A Associação Geral, era o Conselho Nacional, foi fundada
em outubro de 1945. Essa era a geral. Agora, a daqui de Alagoas foi fundada em 12 de maio
de 1956.
S: O senhor se lembra daquela divisão que tem as Associações dos ex-combatentes e teve
outra agremiação, o senhor lembra?
A: Teve qualquer outra, mas é lá no Exército. Eu não sei bem. Eu sou da Marinha. Teve isso
lá do pessoal que foi para a Itália, chamava pracinha, chamava veterano. Foi criado mas lá
junto deles lá do Exército.
S: Qual a diferença básica, assim, entre elas?
A: É a mesma coisa...
S: Quando teve o encontro de 2010 participou os veteranos e os associados das outras
associações?
180
S: Em 2010, participou o pessoal que foi para Turquia, da guerra dos sete dias.
S; Mas não teve um grande encontro da Associação dos Ex-combatentes, a última, que foi
nacional, em 2010?
A: bom, essa aí de 2010 foi para extinguir. Iria reeleger o presidente que estava muito velho,
não tinha mais General, apareceu um Coronel que não ex-combatente e queria ser o
presidente. Então, o pessoal anulou o Conselho Fiscal.
S; Então quer dizer que o Conselho não existe mais?
A: Não existe mais.
S: Certo. Então nacionalmente falando...
A: Cada estado tem a sua e nada mais. O estado de São Paulo, por exemplo, tem mais de uma
Associação. Assim como o Rio de Janeiro. Santa Catarina só tem uma, é um estado pequeno
como o nosso.
S: Minas Gerais também deve ter mias de uma, né?
A: Tem mais de uma, também.
S: Qual o principal objetivo da criação da Associação?
O senhor Abel pega o Estatuto da Associação e pergunta se pode lê-lo. Digo que pode, mas
insisto no pedido da resposta ser livre. Então ele responde:
A: O objetivo naturalmente foi para o reconhecimento geral do Brasil e principalmente em
Alagoas que não tem nada a respeito disso. Esse negócio que tem lá na praia (monumento em
homenagem aos ex-combatentes brasileiros da Segunda Guerra Mundial) foi feito há três anos
passados, foi na época da Kátia (ex-prefeita de Maceió). Aqui, só tem isso aqui (referindo-se
ao prédio da sede da Associação), eu nem sei como. O governo daqui queria tomar isso. Tanto
é que eu falei com a escola Superior de Guerra, e estou agindo daqui mesmo, eu quero colocar
ela aqui em cima, a Escola Superior de Guerra, e eu fico lá embaixo para poder não morrer a
história dos ex-combatentes. Estamos fazendo o memorial dos ex-combatentes de Alagoas
junto com a Escola Superior de Guerra.
S: Existe até um probleminha do Mausoléu, né?
181
A: O Mausoléu tem no regulamento que quando tivesse mais de um passasse para a
prefeitura. Mas, eu estive conversando com um secretário da prefeitura e ele me disse “faça
tudo, pois se quiser que continue o negócio dos ex-combatentes para fazer o negócio do”...
(no momento ele é interrompido sobre uma reunião marcada). Eu quero falar até com o Rui
(Rui Palmeira, atual prefeito de Maceió) se ele decreta um negócio, um projeto de lei... está
aqui o projeto de lei da Kátia Borni, prefeita, que nós fizemos junto com a prefeitura. Mas, a
prefeitura cobra 450,00 ou 500,00 para o nosso Mausoléu (no caso, senhor Abel declara que a
prefeitura cobra 450, ou 500,00 reais para o ex-combatente ser enterrado no mausoléu). Ela
não devia cobrar. Com o comandante da CSM pedi a ele não sei quantas vezes para ver se
havia possibilidades de falar com o prefeito, ele era muito amigo dele, mas não consegui. Ele
até que tentou. Tentou três vezes fala r com o prefeito e não conseguiu.
S: Como é que se faz para se tornar sócio da Associação?
A: Bom, é só ler o estatuto que vai ser mudado, a Associação não vai ter mais, vai ser um
outro nome, a Escola Superior de Guerra vai me ajudar a fazer. A razão social vai mudar.
Tem dois oficiais que vão me ajudar a fazer, porque eu não tenho condições sozinho de fazer.
Vocês façam tudo e assumam essa sala todinha (correspondente ao primeiro andar) para poder
botar a Escola Superior de Guerra aqui. Tem força? Porque eu sozinho como é que vou fazer?
Até o vice-presidente não vem mais. Eu pago 150,00 reais e não é mole.
S: Qual foi o maior número de associados que a Associação já teve?
A: Mais ou menos uns quinhentos associados. Mais ou menos, porque aqui não foi só os
militares. Tinha os da Marinha, do Exército, da aero náutica e da Marinha Mercante. O
pessoal da Marinha Mercante era subordinado à Marinha de Guerra.
S: Tem até um livro do Coronel Maia Pedrosa que vai dizer sobre as pessoas que vão
participar indiretamente da guerra.
S: E atualmente?
A: Atualmente, rapaz, tem uns oito.
S: E por isso que a razão social vai mudar, por que tem menos de vinte associados?
A: Exatamente.
S: O senhor acha que há algum incentivo público ou privado?
182
A: Tem nada. É zero. Eu já me dirigi ao Banco do Brasil, Petrobrás, a antiga SALGEMA, fui
negado em tudo.
S: O senhor entrou com algum projeto?
A: Mandava fazer e nada.
S: O senhor acha que isso é uma dificuldade de Alagoas ou é geral de todas as Associações?
A: É só de Alagoas. A de Santa Catarina é uma beleza.
S: O ex-combatente lá você vê que tem a cesso a muita coisa.
A: Tem. Não sei, para mim não agiliza. Telefonou para mim semana passada disse que vinha
aqui fazer uma visita, aí me disse: “você ainda está aí?”, aí eu falei: “estou”.
S: Quantos anos o senhor é presidente?
A: Eu sou de 2004 para cá (08 anos), quando faleceu o Floriano (ex-presidente da Associação
antes de senhor Abel assumir).
S: A presidência é vitalícia?
A: Não. Sempre eleito. Meu mandato em dezembro de 2014 termina, aí eu não vou fazer mais
eleição. Não tem o que fazer. Eu fiz uma eleição, ganhei duas vezes, estava em casa. Não
precisei publicar. Foi como se fosse indireta (essa atitude foi dada pelo fato de se ter poucos
associados comprometidos com a eleição da Associação secção de Alagoas. Caso não
houvesse um presidente a Associação poderia já ter fechado as portas).
S: E as condições financeiras, daqui? São péssimas?
A: São péssimas. Eu pago 150,00 reais todos os meses para ajudar.
S: Quanto à documentação, o senhor acha que existe um acervo abrangente aqui?
A: Bom, tem. Agora, eu não sei bem porque nunca pesquisei, mas tem muito livro lá embaixo
e tem livro de guerra.
S: E, por último, qual é o futuro, para o senhor, da Associação de ex-combatent4es de
Alagoas?
183
A: O futuro dessa Associação não pode ser mais. A Associação não tem ninguém. Estão
morrendo, inclusive morreu um até a semana passada lá em Delmiro Gouveia (foi seu
Rosalvo, entrevistado também para essa pesquisa). Não há possibilidade de se fazer mais uma
Associação. A Associação, eles pedem no regulamento que tenha pelo menos 20 associados.
Assim, será um memorial dos ex-combatentes.
S: E o senhor já publicou algo sobre isso, avisando às outras Associações sobre essa
desvinculação?
A: Não. Já está desvinculada, já. Eu já recebi a ata.
S: Senhor Abel muitíssimo obrigado e espero que o nosso trabalho de pesquisa sirva para que
outras pessoas venham a se interessar pela Associação, assim como houve esse interesse de
minha parte.
A: Eu também espero. Olha, eu estou satisfeito também com a Escola Superior de Guerra. Eu
não tenho palavras para agradecer o que eles me garantiram. “Nós vamos fazer de tudo para o
senhor. Vamos fazer o memorial, vamos fazer a lei para poder usar isso aqui”. Porque, pelo o
que está aqui (mostra uma folhas), enquanto existir um ex-combatente eu garanto o prédio,
mas o governo (de Teotônio Vilela) já falou aí com alguém, oferecendo este prédio. Ele não
disse para que era, mas ele ofereceu este prédio porque aqui não havia mais ninguém e ia ser
entregue. Mas, nunca recebi nada.
S: Aqui paga IPTU, água...?
A: Água, luz, paga. O IPTU agente estava pagando, mas o prédio é do governo e eu não posso
pagar para o governo. Isso aqui não foi alugado, foi doado. Eu conversei com o Cícero (que
foi prefeito de Maceió), tenho procurado dinheiro, mas não consegui. Tive que dá 500,00 para
poder salvar alguma coisa que tem aqui.
S: Então o senhor acha que a Escola Superior de Guerra vai dar um grande auxílio?
A: Vai. Vai melhorar muito. Agora não posso dizer nada por que Lea me pediu segredo. Não
diga nada a ninguém. Porque é muita gente com inveja por conta do prédio e pode atrapalhar.
Depois de agradecer mais uma vez pela entrevista senhor Abel leu para mim o termo de
doação expedido pela prefeitura quanto ao prédio do qual se encontra a sede da Associação
dos Ex-combatentes Secção Alagoas. Tudo com o objetivo de provar e deixar registrado o
184
compromisso firmado entre os órgãos públicos a aquela entidade no que diz respeito à
manutenção das suas acomodações naquele local. É visível o descontentamento com a
situação da Associação causada principalmente pelo descaso do poder público e de algumas
autoridades indiferentes ao papel da história e da memória que alguns homens possibilitaram
ao país. Diz ele: “não quero que morra uma parte de Alagoas perante o Brasil sobre a guerra”.
185
APÊNDICE D – Entrevista IV: Joaquim Balbino dos Santos (09/03/2014)
Com o segundo tenente aposentado, e ex-combatente Joaquim Balbino dos Santos,
tivemos um rápido contato. Mesmo estando disposto a dar a sua contribuição para este
trabalho, a saúde era bastante debilidada. Tivemos que entrevistá-lo no seu quarto, onde
esteve sentado na cama e nos dando as suas impressões sobre os dias de guerra em que esteve
envolvido como um soldado convocado para a defesa do litoral.
SÉRGIO: o senhor é daqui de Alagoas mesmo?
BALBINO: Sou.
SÉRGIO: Nasceu aqui em alagoas?
BALBINO: Venho de Anadias.
S: Os pais do senhor também são daqui?
B: São de Limoeiro de Anadias.
S: O senhor chegou a frequentar escola?
B: Na escola comum?
S: Sim.
B: Somente no começo, né? Eu não me formei em nada não.
S: E o senhor trabalhava aqui, na época da juventude, em que?
B: Trabalhei na companhia de Bonde.
S: Ah, então trabalhava aqui em Maceió mesmo?
B: Sim, como condutor de bonde. É aquele rapaz que cobrava o dinheiro das pessoas.
S: o senhor lembra quando o senhor foi convocado?
B: Lembro.
S: O senhor recebeu uma cartinha? Como foi?
186
B: Eu recebi uma notificação.
S: E o senhor tinha quantos anos mais ou menos?
B: Naquela época era moço. Eu tinha... era muito moço...
S: Tinha pai, tinha mãe, irmão?
B: Meu pai morreu muito sedo. Tinha irmão e foi quem nos criou.
S: Mas eles também chegaram a ser convocados?
B: Eles chegaram a ser convocados. Parece que só teve um que foi convocado
S: Junto com o senhor?
B: Sim.
S: E o senhor lembra mais ou menos para onde vocês foram na época da convocação? Como
foi o treinamento de vocês?
B: Para as praias. Naquelas praias das barras, aonde podiam entrar o adversário. Barra de
Santo Antônio.
S: Vocês ficaram então no litoral?
B: Sim. Ficamos no litoral.
S: Mas chegou a ir para Recife, Natal?
B: Eu mesmo não fui não, né? Mas alguém foi, né?
S: O senhor lembra de alguns alagoanos que participaram junto com o senhor?
B: Agora eu tô meio esquecido. Pode ater ser que com o tempo eu possa me alembrar.
S: Foram 148 alagoanos que saíram daqui e foram lá para Itália, na Europa. Aí eu acho que
vocês ficaram aqui no litoral, defendo o litoral, né?
B: Isso mesmo. Ficamos aqui no litoral. Não foi para a Itália, não.
S: O senhor lembra quanto tempo o senhor ficou de guarda, aqui?
B: Eu fiquei de 1942, quando fui convocado, até 1945. Três anos.
187
S: Como era o seu dia-a-dia nesses três anos? O que vocês faziam?
B: Ficava naqueles bicos da praia, naquelas entradas, né? Naquelas entradas que dava acesso
à cidade, né?
S: Tiveram algum treinamento com armas, com essas coisas?
B: O treinamento era normal.
S: O senhor chegou a pegar que patente?
B: Eu era cabo, quando fui transferido fui promovido a tenente. Eu sou segundo tenente. Tá
entendendo? (ele dá uma maior intensificação na sua patente, repetindo o seu posto no
Exército). Eu fui transferido para o interior e fui promovido a segundo tenente.
S: Maceió era muito diferente de hoje, né?
B: Rapaz, não era essas diferenças toda não.
S: Era melhor para viver?
B: Eu acho que era. Nós vivíamos num mundo cão, sabe? Ninguém gostava de ninguém não.
S: E hoje em dia?
B: Não, hoje em dia não. Apesar das coisas ter mudado com o tempo, mas dão mais
reconhecimento as pessoas.
S: o senhor lembra mais ou menos na época da guerra, 1942-45, se as notícias da guerra
rodavam aqui em Alagoas, se todo mundo sabia como é que estava a guerra lá fora?
B: Aqui se sabia de tudo. Tinha um noticiário, num sabe? Aqui se sabia de tudo que estava
acontecendo, principalmente nós, ex-combatentes, que tinha responsabilidade por aqui, num
sabe? Nós éramos os responsáveis por aquela base.
S: O senhor falou que era onde mesmo a base que o senhor ficava?
B: Das barras, né? Barra de santo Antônio que foi instaurada uma companhia. Passamos lá
uma porção de tempo, sem abuso, tranquilo.
S: Mas ficava com medo de ser convocado para ir lá para fora, para a Itália?
188
B: Não. Quer dizer, naquele tempo eu era muito moço e não tinha medo de nada não. Eu
cheguei até uma vez lá, o pessoal começou a chorar porque foi transferido para viajar e
começou a chorar, né? Aí aperreou a mãe dele, né? Aí eu pedi para me colocar no lugar do
rapaz. Aí o doutor, o chefe, o tenente, disse: Você não faça isso não porque o tratamento de lá
não é igual o daqui, não. Naquele tempo eu era cabo, num sabe? Era cabo de fileira.
S: Isso tudo bem novo?
B: Bem novo.
S:O senhor está com quantos anos hoje?
B: Bom eu sou de 1918...
S: Então o senhor tem 96 anos incompletos e está forte. Está com corpo de 70 anos.
B: Mas eu tenho mais (sorri).
S: Mas então se pedisse para ir para a Itália, aí você iria?
B: Iria, tranquilamente.
S: E as notícias que estavam vindo de lá, sobre a guerra não dava medo não?
B: Não dava medo a mim, mas a muita gente dava. Para algumas pessoas como os colegas.
Você sabe que nem todo mundo é igual, né? Tinha uns companheiros que já estavam se
acabando. Naquele tempo era moço, disposto. Esses cabras meio banda voou, que não tem
medo de nada. Eu era meio desmantelado.
S: Aí depois que acabou que acabou a guerra em 1945, o senhor continuo ainda no Exército?
B: Quando acabou a guerra fiquei no Exército.
S: chegou a trabalhar em outra coisa?
B: Bom, depois que eu servi o Exército é que eu trabalhei como condutor de bonde.
S: aposentou como condutor de bonde?
Obs: Mesmo insistindo com a pergunta ele não consegui entendê-la e respondeu que
trabalhava no bonde.
189
S: Nunca trabalhou na roça, no campo?
B: Na roça mesmo não.
S: O senhor sabe ler escrever direitinho?
B: Sim, sei ler e escrever graças a Deus.
S: O senhor faz parte da associação dos Ex-combatentes de Alagoas?
Faço.
S: Tem tempo que o senhor faz parte?
B: Tem tempo, muito tempo.
S: O senhor guarda alguma lembrança dessa época, de amizade, alguma coisa forte que você
lembra? Alguma saudade?
B: Tinha muito lugar bom. Eu me lembro de que o povo tinha muito medo, né? O povo em
geral tinha muito medo dos ex-combatentes. Achavam que os ex-combatentes era um
guerreiro, forte, diferente e o povo tinha medo.
S: E você reparava isso quando andava nas pelas ruas? O povo já olhava cismado?
B: É, mas a gente não queria que demonstrasse não. Não queríamos passar medo, não. Excombatente não tinha fardamento, não.
S: Vocês tiveram que devolver, não foi?
B: Foi.
S: O senhor acha que faltou reconhecimento a vocês?
B: Bom, eu mesmo não acho não. Porque eu fui reconhecido, né? Mas, há alguém que acha
que faltou reconhecimento. Existe alguém, mas eu não. Eu fui convocado e fui promovido. A
guerra me deu o que eu tenho hoje, por isso eu não tenho queixa da guerra. Se não tivesse tido
a guerra, se não tivesse sido convocado eu não teria o que eu tenho hoje. Hoje tenho o pão de
cada dia certo, graças a Deus, para mim e para minha família.
S: Mas tiveram algumas pessoas que acham que não foram reconhecidos. Por que o senhor
acha que eles pensam assim?
190
B: Eu noto que cada um quer para si. Acham que deveria ser tudo para eles. Agente tem o
espírito diferente do dos outros.
S: O senhor se sente honrado de ter dado a sua contribuição?
B: Eu graças a Deus não sofri nada na guerra. Eu fui um alvo de respeito.
S: O senhor chegou a tirar foto da época vestido de praça?
B: Tirei, tem em casa.
(Nós vimos as fotos dele espalhadas pela casa e a documentação que o atesta como convocado
no ano da guerra, além da carteira de associado da Associação dos ex-combatentes secção
Alagoas, entre outros objetos referentes á sua época quando estava no Exército).
S: Você acha que merecia ter feito mais trabalhos sobre vocês, mais divulgação sobre o que
vocês fizeram?
B: Nós que participamos, merecia o que talvez eles nunca pensaram em nos dá. Já pensou
pegar um fuzil e brigar com o adversário? Naquela época o adversário era os alemães e que
hoje nós si damos com ele, como amigo. Coisa que nunca devia acontecer, por que eles foram
uma espécie de carrascos, entendeu?
S: Na época vocês tinha a maior raiva deles, não era?
B: Vixe, nossa senhora. Eu lembro que na época o desejo era só de matar.
S: Vocês liam nos jornais sobre os alemães?
B: A gente lia tudo, né? Sabia de tudo.
S: Quem era o seu comandante, qual era o seu nome?
B: Coronel Amilton de Freitas Rolim.
S: Era gente boa?
B: Era sim.
S: Gostava de vocês?
191
B: Gostava. Eu era diferente dos outros. Por que eu era diferente me mandavam fazer as
coisas: “mande o Cabo Balbino”. Eu era Cabo naquela época, né? Mande o Cabo Balbino, ele
não perde viagem não. Aí mandavam me chamar: “tem um trabalho para você”. Aí eu
respondia: “Se tiver ao meu alcance eu atendo agora”. Vai buscar um soldado que estava
desesperado, fazendo absurdos.
S: O senhor acha que a gente estava preparado. Os soldados estavam preparados? O senhor
estava preparado para uma invasão? Tinha soldados suficientes no Brasil?
B: Tinha não. Tinha aparentemente, mas na realidade eu acho que não tinha, não.
S: Faltava muito ainda?
B: Os alemães era um povo assim sem vida, sem noção. Uma espécie de bandido. Naquela
época os alemães eram uma espécie de bandidos. Não sei como as pessoas chegaram a botar o
alemão na lista de amizade. Eles não mereciam, não.
S: E as notícias das mortes que tinham na época, muita gente morrendo?
B: Tinham, tinham sim. Tinha muita notícia sobre isso.
S: O senhor conheceu muita gente que ficou preocupada com alguém que estava na Europa?
B: Eu conheci gente que morreu lá. Conheci gente que foi convocado quando eu fui. Viajou
mas não voltou.
S: A família que ficava aqui ficava desesperada?
B: Oh meu Deus, ficava todo mundo. Recebia um dinheiro, mas não se conformava, não.
Tudo moço, morrendo. Vinte anos, vinte e poucos. Os mais velhos não chegavam a ter mais
de vinte e cinco anos.
S: O senhor lembra quando teve que apagar as luzes aqui do litoral com medo de invasão?
B: Me lembro. Me lembro que fiz parte, mas não lembro dos detalhes. De apagar todo tipo de
luz aqui da praia.
S: O senhor lembra do governador (Interventor) Ismar de Góes Monteiro?
B: Lembro. Era um governador bom. Cabra bom e valente.
192
Chego ao final da entrevista com o senhor Joaquim Balbino dos Santos. Já estava um pouco
cansado e resolvi parar de entrevistá-lo por conta disso. Agradeci pelo tempo e pela paciência
que ele teve comigo, contando sobre sua vida como convocado e sua atuação na defesa do
litoral brasileiro. Porém, tentando ainda me esclarecer algumas coisas sobre aquele momento,
disse-me:
B: Ali, naquela época, vou lhe dizer uma coisa, o cara tinha que ter coragem de qualquer jeito.
Ninguém podia se acovardar, não. Tinha que ter coragem de qualquer jeito. O tempo era
perigoso, pesado, todo mundo tinha cuidado com a vida.
S: Quanto ao agradecimento pela sua contribuição, afirmou ele:
B: Eu que agradeço pelo seu trabalho. O seu trabalho esta mostrando o valor que teve os excombatentes, mostrando o que os ex-combatentes fizeram.
Lembrando sobre os tempos difíceis para encerrar a entrevista ele diz mais uma vez sobre as
mortes de muita gente inclusive de alguns amigos seus que serviram junto com ele, mas que
foram para a Itália e não voltaram mais. Conseguiu lembrar do nome de um deles, que ficou
desaparecido: O Cabo Olivar Barbosa Vila Nova.
193
APÊNDICE E – Entrevista V: Aurino Ribeiro da Silva (12/04/2014)
O ex-combatente alagoano Aurino, morador do bairro do Vergel do Lago, localizado
em Maceió, foi um dos pracinhas que conseguimos entrevistar. Foi convocado para a defesa
do litoral brasileiro, mas especificadamente em Fernando de Noronha, Aurino demonstra uma
boa saúde e relata as suas experiências de guerra, sendo um dos colaboradores deste trabalho.
SÉRGIO: O senhor nasceu quando?
AURINO: 16 de outubro de 1920.
SÉRGIO: Qual o nome da mãe do senhor?
AURINO: Maria da Conceição.
SÉRGIO: O nome do seu pai?
AURINO: Firmino ribeiro da Silva.
S: no que seus pais trabalhavam?
A: Bom, ela era doméstica e ele sempre trabalhava na luta cotidiana.
S: Mas era na lavoura ou...
A: Era na pescaria.
S: O senhor passou a sua infância aqui mesmo em Alagoas?
A: Sim. Eu fui sorteado e convocado daí partir para o 20º BC. Do 20ª BC um trem levou a
gente para Recife. De Recife tinha um caminhão esperando para Olinda Farol, de Olinda eu
fui para Piedade, de Piedade eu fui para Fernando de Noronha, no navio Itupiara, passando
três dias, com três noites, navegando dentro do oceano, que quando chegamos, via gente
vomitando aquela água azul, não tinha mais o que vomitar dentro do corpo. Chegando em
Fernando de Noronha, servir lá por quatorze meses. Depois de quatorze meses, passando uma
vida medonha, só tinha lá... rato, só tinha rato branco, cobra não existia. Passei lá quatorze
meses. Voltei para Olinda. De Olinda eu fui engajado, depois fui reengajado.
terminou o reengajamento aí eu pude ser enviado.
Quando
194
S: O senhor tinha quantos anos nessa época/ o senhor lembra?
A: Bom... (faz menção que não lembra).
S: A carta de convocação que o senhor recebeu, o senhor lembra mais ou menos como foi,
quanto anos o senhor tinha? Só tinha o senhor de filho? A carta veio por onde? Veio pelo
correio?
A: Bom, de filho só. Agora, eu fui sorteado e convocado, né? ( Ele repete toda a história
contada entes sobre o seu percurso até está preparado para exercer os comandos militares)
S: O senhor tinha mais ou menos uns 22 anos, 23?
A: mais ou menos isso.
S: E o senhor ficou como? O senhor tinha uma ideia do que estava acontecendo e do tamanho
da guerra? O senhor ouvia no rádio?
A: Não, na guerra é o seguinte, quando a gente chegou lé em Fernando de Noronha tinha o
telêmetro (é um dispositivo de precisão destinado à medição de distâncias em tempo real), que
era quem avistava os civis, as divisas coisa e tal. Aí tinha os canhões 152, 4, que era preciso
duas pessoas na padiola para botar na câmara, quando ele dava os estampidos muita gente
“pocava” os ouvidos e se estivesse com a boca aberta mordia a língua. NE morro aas vezes
desabava muitas pedras que tava no morro do estampido do canhão.
S: Mas eu falo assim, antes do senhor embarcar, no momento que o senhor soube que o
senhor ia, o senhor tinha mais ou menos ideia do que estava acontecendo no mundo, assim
pelo jornal, pelo rádio, ou pelos bares, o povo falando, ou o senhor não sabia?
A: Eu não sabia nada disso.
S: Os seus amigos não discutiam isso, não?
A: Não, não. Não discutiam nada. Eu fui convocado e partir para lá.
S: Mas, assim, na época os jovens iguais ao senhor não comentava sobre as convocações?
“Olha, fulano foi!”. Não dava esse medo, não?
A: Depois que eu cheguei lá, chegou um... lá mesmo eu tive o posto de Cabo, chegou um que
era advogado e disse: eu vou fazer o curso de Cabo para botar você para resolver terra aqui
195
em Fernando de Noronha. Disse: Eu já estou acostumado. Quando a gente chegava pegava o
carro de mão, subia no caminhão e ia abrir estrada, não sabe? Aí, quando foi um tempo, todo
mundo de lápis na mão, nem caneta tinha. Eu cheguei um pouco atrasado, o comandante lá do
território disse: você sente-se naquela mesa ali, nem pesca e ninguém pesca seu. Aí veio a
prova, né? Quando as provas chegou, tudo que tinha na prova eu já sabia de cor e salteado.
S: A escolaridade do senhor é até o ensino primário?
A: É o primário completo. Aí eu meti o pau escrevendo, fiz e fiquei esperando. Ele disse:
termina rapaz. Aí eu disse: já terminei. Traga para cá. Aí entreguei ele, ele olhou e disse: è
você é um cabra danado. O Jorge que era advogado, estudou muito elevado e não sabia o que
era que ia acontecer antes não passou. Aí ele disse que ia “butar” ele para remover a terra lá, e
eu já estou acostumado...
S: O senhor trabalhava com o que? Ou não trabalhava ainda antes de ir?
A: Eu negociava. Vendia camarão, siri na feira.
S: Mas já era casado, não?
A: Não. Não era casado.
S: O senhor ficou lá em Fernando de Noronha por quanto tempo, mesmo?
A: Onze meses (O senhor Aurino ficou quatorze meses fora de casa, mas desses onze foram
em Fernando de Noronha).
S: E o senhor foi para lá mais ou menos quando? 43, 44.
A: Foi quando começou a guerra. Aí eu fui engajado. Depois que eu me engajei e terminou a
guerra, aí volto para Olinda. Em Olinda, quando terminou a guerra aí eu saí.
S: O curso foi em Olinda?
A: Não, o curso foi em Fernando de Noronha.
S: E o senhor tem na carteira do Exército qual posto?
A: Cabo.
196
S: Bom. Eu queria saber algumas coisas antes do senhor ter ido. O senhor lembra de alguma
coisa que eles falavam da produção da borracha aqui no estado?
A: Não. Não lembro.
Obs: pode-se notar que senhor Aurino quando ficou sabendo que seria entrevistado para uma
pesquisa sobre a participação de alagoanos na guerra, achou que seria apenas requisitado pela
sua atuação junto ao Exército. Muitas das perguntas sobre a sua experiência também se
referiam ao contexto mais geral da guerra, como por exemplo, sua vida antes do conflito, a
parte econômica da época em alagoas e a política do estado. Ele se ateve mais a responder
sobre a sua preparação para a guerra e sua atuação na defesa do litoral brasileiro, mesmo que
as perguntas se referissem aos aspectos econômicos, políticos e sociais. Essa atitude não quer
dizer necessariamente que ele não saiba relatar sobre esses pontos. Mas como foi cobrado
para dar um depoimento sobre a guerra e como talvez ele fez questão de se apresentar como
um ex-combatente, algo que lhe dá orgulho, essa sua fala e a exposição apenas desses
acontecimentos podem ser um reflexo da ideia que tem da supervalorização do status de excombatente que é parte do Exército e ,de acordo com seus valores, homem que já provou o
quanto é corajoso e destemido pelas suas experiências. Talvez, para ele, isso seria o seu cartão
de visita, sendo por isso requisitado ou aceito em rodas de conversa ente amigos e familiares.
Ele se sente pertencente a algo que foi importante e faz questão de intensificar essa sua
participação.
S: E vocês aqui não tinham muito a cesso no que estava acontecendo lá fora?
A: Não, não tínhamos.
S: E o senhor encarou como quando viu que teria que participar da guerra?
A: Pegamos um navio que ruim, o Itupiara, passou três dias e três noites dentro do oceano,
quem vomitava, vomitava água verde porque não tinha mais nada para vomitar. Quando
chegamos lá, aí só foi trabalhar.
S: Teve algum grupo daqui de Alagoas, também de jovens assim como o senhor, que o senhor
conheceu lá na hora?
A: Teve o advogado que passou batido lá na hora das provas.
S: Mas não tiveram outras pessoas lá não? Só era o senhor de Alagoas lá.
197
A: que eu saiba só.
S: O senhor lembra algum caso engraçado que aconteceu lá?
A: Bom, lá era o seguinte tinha um tenente que obrigava a gente a ir a olhar para um canto e
para outro e uma das vezes apareceu um submarino, quando o submarino apareceu a gente se
preparou para fazer fogo. Aí ele falou que tinha que comunicar primeiro para o Rio, quando
vier ordem do Rio, então faz fogo no submarino. Aconteceu o seguinte o submarino emergiu
foi embora e aí ninguém fez nada.
S: Mas será que era submarino alemão mesmo?
A: Era, era sim. Então, era submarino alemão.
S: E aí o senhor estava de guarda...
A: Com o telêmetro, coisa e tal, e canhão é aquele de 152,4, duas pessoas para colocar ele na
câmara, quando ele dava um tiro aquele rochedo rachava.
S: E o treinamento, o senhor acha que dava para defender? A turma que estava lá. Estava bem
preparada?
A: Claro. O curso que nos tomamos foi interessante.
S: E existia a possibilidade do senhor ser mandado para a Itália?
A: Olha uns foram para a Itália e outros foram para Fernando de Noronha.
S: Quem estava em Fernando de Noronha não tinha mais como ir para a Itália?
A: Não, não porque quem tinha que ir para Itália já tinha ido.
S: O senhor lembra do governador daqui da época?
A: Lembro não.
S: Ismar de Goês Monteiro?
A: Só meio pra lá, né?
S: Não gostava muito de política na época que o senhor era jovem, não?
198
A: É por que eu sempre trabalhei para manter a família. A minha era a família que foi criada
por vó.
S: Então era o pai do senhor, a mãe e a avó. Quantos irmãos ou irmãs o senhor tinha?
A: tinha um, mas era por parte de outra mulher. Então só era eu mesmo.
S: Mas não teve tensão, nervoso lá na época não?
A: Não. Acordava normal.
S: Existia aquela conversa de que os alemães poderiam invadir o Brasil?
A: Bom, sempre conversavam né? Mas aí a gente estava na atividade. Sempre olhando por
que se aparecesse dentro do oceano a gente atirava.
S: Se fosse para matar matava?
A: Era, mas também quando apareceu era preciso ter uma ordem do Rio.
S: Mas não deu nervoso de jeito nenhum quando viu um submarino alemão?
A: O cabra fica meio cismado, não sabe o que vem de lá, né?
S: O senhor costuma lembrar desses casos? Às vezes quando o senhor se deita, lembra ainda?
A: Rapaz é bom esquecer, mesmo. Lá ninguém tinha medo de nada.
S: Quando o senhor saiu de lá o senhor veio direto para Alagoas?
A: Para Olinda, para tirar o reengajamento, porque eu fui engajado e reengajado. Quando
terminou o reengajamento aí todo mundo foi dispensado.
S: Aí o senhor foi para onde?
A: Aí eu voltei para Pilar, porque eu sou de Pilar. Quando eu fui convocado eu estava em
Pilar. Aí eu fiquei trabalhando em Pilar.
S: O senhor chegou a receber alguma aposentaria especial por ser pracinha?
A: Eu sou ex-combatente e recebo como ex-combatente. Depois de muita luta.
S: O senhor faz parte da Associação dos Ex-combatentes de Alagoas?
199
A: Faço parte. E de seis em seis meses, em abril e em outubro, eu me apresento a CSM.
S: quando o senhor foi dispensado o senhor trabalhou como comerciante, não deu vontade de
seguir Carrera no exército, não?
A: Não, porque quando acabou a guerra ninguém queria saber mais de nada, queria era ir para
casa.
S: Se o senhor não fosse convocado não teria ido.
A: É.
S: se fosse para o senhor reviver aqueles meses de Fernando de Noronha o senhor reviveria,
ou o senhor acha que aquilo seria bom que não existisse mais?
A: Seria bom que não existisse mais. Quem quer saber de guerra?
200
APÊNDICE F – Entrevista VI: Assis de Barros Costa (21/02/2014)
O senhor Assis, um dos poucos sócios presentes e atuantes da Associação dos Excombatentes do Brasil-Secção Alagoas, nos concedeu uma entrevista e nos proporcionou ter
acesso sobre a sua participação na guerra, junto à Marinha de Guerra brasileira e como
membro efetivo da associação. Dessa forma:
SÉRGIO: O nome completo do senhor:
ASSIS: Assis de Barros Costa.
SÉRGIO: O senhor é daqui de Alagoas?
ASSIS: Sou. Nasci em Atalaia (Um município de Alagoas).
S: Como o senhor iniciou a sua formação militar?
A: Eu entrei como aprendiz de marinheiro na Escola de Aprendiz de Recife. Cheguei lá, fui
excesso. Voltei e entrei como voluntário.
S: O senhor chegou a ser convocado pela Marinha na época da segunda Guerra?
A: A Marinha não convocava ninguém para a guerra. Embarcava nos navios para fazer
comboio. Eu fiz muitos comboios: Norte-Sul, Sul-Norte, Leste-Oeste, Oeste-Leste, por aí a
fora.
S: Foi no período da Guerra?
A: Nesse período da guerra.
S: O senhor sabe, mais ou menos, quantos anos tinha?
A: Eu? Vinte e poucos anos.
S: Era casado?
A: Não.
S: Qual foi a sua experiência de guerra? O senhor lembra dos companheiros, das conversas?
201
A: Olha, a minha guerra foi o seguinte: A minha guerra foi comboiar navios mercantes
carregados de mercadorias do Brasil. Quer dizer que, na área de guerra eu embarquei num
navio de nome Marcílio Dias, embarquei no Duque de Caxias e fiz essa viagem toda, tudo
dentro do Brasil.
S: Pelo litoral brasileiro?
A: Pelo litoral brasileiro.
S: Na época, chegou a conhecer alguns alagoanos?
A: Olha, eu conheci, mas não me lembro do nome deles.
S: Mas, chegou a conhecer, sabia que eram de Alagoas?
A: Sim.
S: E o treinamento, o senhor chegou a ter algum tipo de treinamento específico?
A: O único treinamento que eu me lembro foi o lançamento de torpedo. Cheguei a executar e
aprendi a manobrar, né?
S: Quantos anos o senhor serviu à Marinha?
A: Na Marinha? Eu fiquei 16 anos.
S: Nesse tempo que o senhor ficou na Marinha, por 16 anos, a gente vê muitas coisas
acontecendo quanto aos direitos dos pracinhas. O senhor tem alguma reclamação sobre isso?
Houve algum direito que não foi dado ao senhor nesses 16 anos?
A: Não. Tenho n ao, pois todos os direitos eles me deram.
S: O senhor acha que, nesse ponto, a guerra foi uma boa?
A: Me foi bom, por que eu passei a..., depois que eu dei baixa fiquei recebendo como excombatente.
S: O senhor tinha noção do que estava acontecendo no mundo?
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A: Tinha noção. Tinha, por que a gente via nos jornais, ouvia no rádio e os comboios nos
comunicavam, nos avisavam, nos abria a atenção à bordo, como deveria se manter. Por que a
guerra é guerra.
S: Antes do senhor servir, aqui em alagoas, dava para se ter uma ideia do que estava
acontecendo lá na Europa?
A: Dava por conta da comunicação: rádio e jornal. Naquela época não tinha televisão.
S: O senhor tem quantos irmãos?
A: Tenho três.
S : Três irmãos. Como é nome do pai do senhor?
A: José Thomas de Farias Costa.
S: E da sua mãe?
A: Anedina de Barros Costa.
S: O que eles ficaram pensando? Assim, meu filho vai servir à Marinha brasileira, numa
época tão difícil dessa, em que o Brasil estava passando?
A: Estava muito preocupado, mas achava que era melhor eu ficar na Marinha do que ir para o
Exército.
S: Mas, mesmo assim, a Marinha na costa brasileira ficou apreensiva por conta de uma
suposta invasão alemã. Teve esse comentário?
A: Teve. Mas acontece que a Marinha tornou as precauções de isolar com os navios de guerra,
na? Quando localizavam os submarinos, jogavam uma bomba, eles desciam (afundavam). Por
que houve um bombardeio de submarinos em território nacional.
S: o senhor chegou à ver algum submarino?
A: Vi. Vi e eles mergulharam, se jogou bomba e tudo. Eles mergulharam, desceram e foram
embora. Fugiram.
S: E qual foi o litora?
203
A: foi na Bahia.
S: O fato de o senhor ter servido à Marinha tão cedo, 20 e poucos anos, entre vocês jovens,
não tinha um certo receio e medo, não?
A: Rapaz, as precauções nossas era na hora do serviço. O serviço era ativo, não ficava
cochilando, dormindo. Ficava atento, né? Até por que o radar ficava ligado. A pessoa ficava
olhando no radar se tinha submarino, olhando as embarcações que tinham nas mediações, né?
S: E quando acabou a guerra, o senhor viu as manifestações em comemoração pela volta da
FEB? O senhor chegou a presenciar?
A: Sim, presenciei sim a recepção dela.
S: Foi festa mesmo?
A: Foi um negócio bacana, sabe? Só pensando nos que ficaram lá, né? Nos mortos mais os
que haviam chegado.
S: O que o senhor acha de um momento tão importante como aquele, onde o Brasil esteve
envolvido na maior guerra que o mundo já viu? O senhor acha que o povo esqueceu desse
momento? O que foi que contribuiu para isso?
A: O povo, o brasileiro, não acreditava numa guerra com a Alemanha tão distante. Se a guerra
fosse aqui e todo mundo pudesse tomar parte, aí ninguém esquecia.
S: Parece que a guerra só foi de vocês, né?
A: Quem foi para lá, né? Sé sentiu a guerra mesmo, a pessoas que foram para a Itália, ou seja,
o Exército. Agora, a Marinha sentiu a guerra dentro do território nacional. Por que a gente ia
comboiando navios, que pegavam 300 a 400 soldados para levar para a Itália. Nós
comboiamos cinco navios carregados de soldados para irem para a Itália. O navio com os
soldados ia no meio e ao redor os navios de guerra iam escutando se havia submarinos para
bombardear. Então, a maior preocupação da Marinha àquela época foi transportar o Exército
para a Itália.
S: O senhor tem quantos anos de associação?
A: Uma base de 15 a 18 anos.
204
S: O senhor acha que a associação é importante?
A: Foi importante, por que tratava de todos os assuntos referentes aos ex-combatentes.
S: O senhor acha que o fim da associação seria ruim até que para a memória do país?
A: Sim. E para os ex-combatentes que estão mortos, a associação atende aos familiares que
estão vivos, né?
205
ANEXOS
206
NÚMEROS DE SOLDADOS CONVOCADOS QUE COMPUSERAM A FEB, DISTRIBUIDOS
POR ESTADOS199.
Amazonas: 91;
Pará: 281;
Maranhão: 134;
Piauí: 87;
Ceará: 347;
Rio Grande do Norte: 341;
Paraíba: 349;
Pernambuco: 651;
Alagoas: 148;
Sergipe: 192;
Bahia: 686;
Espírito Santo: 345;
Estado do Rio: 1942;
199
Distrito federal: 6.094;
São Paulo: 3.889;
Paraná: 1542;
Santa Catarina: 956;
Rio Grande do Sul: 1.880;
Minas Gerais: 2.947;
Goiás: 111;
Mato Grosso: 679.
MORAES, J. B. Mascarenhas. A FEB Pelo Seu Comandante. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2005, p.
313.
207
Propaganda da Borracha (Fonte: IHGAL, Jornal de Alagoas 24/06/43).
Propaganda da Borracha (Fonte: IHGAL, Jornal de Alagoas 01/07/43).
208
Propaganda da Borracha (Fonte: IHGAL, Jornal de Alagoas 06/06/43).
Propaganda da Borracha (Fonte: IHGAL, Jornal de Alagoas 31/05/43).
209
Propaganda do carnaval de 1943 (Fonte: IHGAL, Jornal de Alagoas).
Imagem do relatório do Interventor de Alagoas Ismar de Góes Monteiro de 1941-1943 (Fonte:
IHGAL).
210
Imagem do Interventor alagoano Ismar de Góes Monteiro (Fonte: IHGAL, Jornal de Alagoas 31/05/43).
211
Fonte: Acervo da Associação dos Ex-combatentes do Brasil -Secção Alagoas (AECB-AL).
Pracinhas embarcando para a Itália em 1944 (Fonte: Acervo da Associação dos Ex-combatentes do
Brasil -Secção Alagoas (AECB-AL)).
212
Fonte: Acervo da Associação dos Ex-combatentes do Brasil -Secção Alagoas (AECB-AL).
Fonte: Acervo da Associação dos Ex-combatentes do Brasil -Secção Alagoas (AECB-AL).
213
Fórum Mussolini 1938 (Fonte: Acervo da Associação dos Ex-combatentes do Brasil -Secção Alagoas
(AECB-AL)).
Itália 1944 (Fonte: Acervo da Associação dos Ex-combatentes do Brasil -Secção Alagoas (AECB-AL)).
214
Imagem do ex-piloto norte-americano da Segunda Guerra Mundial John Bayer (Fonte: BUYERS, John
W. A História do 1º Grupo de Caça, 1943-1945. Maceió: Editora do Autor, 2001).
215
Fonte: IHGAL, Jornal O Natal de Alagoas, 24/12/1945.
216
Ulisses Firmino de Oliveira (Fonte: elaborada por Sérgio Lima conceição).
217
Fonte: elaborada por Sérgio Lima conceição.
Fonte: elaborada por Sérgio Lima conceição.
218
Imagem de quadro em homenagem ao ex-combatente brasileiro, entregue a Ulisses Firmino de
Oliveira (Fonte: elaborada por Sérgio Lima conceição).
219
Imagem de Joaquim Balbino dos Santos (Fonte: elaborada por Sérgio Lima Conceição).
220
Imagem da Carteira de membro da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas de
Joaquim Balbino (Fonte: elaborada por Sérgio Lima Conceição).
Imagem da Carteira de membro da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas de
Joaquim Balbino (Fonte: elaborada por Sérgio Lima Conceição).
221
Imagem da medalha entregue a Balbino pelos seus serviços prestados às Forças Armadas quando da
Segunda Guerra Mundial (Fonte: elaborada por Sérgio Lima Conceição).
Imagem da boina utilizada pelo ex-combatente Joaquim Balbino (Fonte: elaborada por Sérgio Lima
Conceição).
222
Imagem do Ex-combatente alagoano Aurino Ribeiro da Silva (Fonte: elaborada por Sérgio Lima
Conceição).
Imagem da medalha entregue ao Ex-combatente alagoano Aurino Ribeiro pelos 50 anos da
participação brasileira na segunda Guerra Mundial Silva (Fonte: elaborada por Sérgio Lima
Conceição).
223
Imagem da certidão expedida pelo Exército que confirma a participação do Ex-combatente Aurino
Ribeiro da Silva na defesa do litoral brasileiro na época da Segunda Guerra Mundial (Fonte:
elaborada por Sérgio Lima Conceição).
224
Imagem do certificado de reservista de Aurino ribeiro da Silva quando da sua incorporação ao
Exército em 1943 (Fonte: elaborada por Sérgio Lima Conceição).
225
Fonte: elaborada por Sérgio Lima Conceição.
226
Imagem do ex-combatente Rosalvo José de Souza e Sérgio Lima Conceição (Fonte: elaborada por
Sérgio Lima Conceição).
Imagem da ficha de membro da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas de Rosalvo
José de Souza (Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
227
Imagem da ficha de membro da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas de Rosalvo
José de Souza (Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
Imagem da ficha de membro da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas de Abel
Silva do Amor Divino (Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
228
Imagem da ficha de membro da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas, alagoano,
que foi para a Itália (Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
Imagem da ficha de membro da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas, alagoano,
que defendeu o litoral brasileiro durante o período da segunda Guerra Mundial (Fonte: Associação
dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
229
Imagem do desfile dos Ex-combatentes alagoanos em comemoração ao 07 de setembro (Fonte:
Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
Imagem dos Ex-combatentes alagoanos reunidos em frente à antiga sede da Associação de Excombatentes (Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
230
Imagem do desfile dos Ex-combatentes alagoanos em comemoração ao 07 de setembro (Fonte:
Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
Imagem do desfile dos Ex-combatentes alagoanos em comemoração ao 07 de setembro (Fonte:
Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
231
Imagem da apresentação dos Ex-combatentes alagoanos, antes do desfile em comemoração ao 07
de setembro (Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas).
Imagem do senhor Abel do Amor Divino, atual presidente da Associação dos Ex-combatentes do
Brasil, Secção-Alagoas, no desfile de 07 de setembro de 2013.
232
Imagem da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas (Fonte: Sérgio Lima Conceição).
Imagem da Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas (Fonte: elaborada por Sérgio
Lima Conceição).
233
Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas (elaborada por Sérgio Lima
Conceição).
Fonte: Associação dos Ex-combatentes do Brasil-Secção Alagoas (elaborada por Sérgio Lima
Conceição).
234
Imagem do monumento em homenagem ao Ex-combatente alagoano da segunda Guerra Mundial
(fonte: Sérgio Lima Conceição).
Imagem do monumento em homenagem ao Ex-combatente alagoano da segunda Guerra Mundial
(fonte: Sérgio Lima Conceição).
235
Imagem da antiga rampa de lançamento de aviões anfíbios norte-americanos, localizada no bairro
Vergel do Lago, em Maceió, quando do patrulhamento da costa brasileira no período da Segunda
Guerra Mundial (fonte: Sérgio Lima Conceição).
Imagem da antiga rampa de lançamento de aviões anfíbios norte-americanos, localizada no bairro
Vergel do Lago, em Maceió, quando do patrulhamento da costa brasileira no período da Segunda
Guerra Mundial (fonte: Sérgio Lima Conceição).
236
Imagem do Mausoléu dos Ex-combatentes alagoanos, localizado no Cemitério da Piedade, no bairro
do Prado, em Maceió (fonte: Sérgio Lima Conceição).
Imagem da placa que faz parte do Mausoléu dos Ex-combatentes alagoanos (fonte: Sérgio Lima
Conceição).
237
Imagem de escultura talhada dos soldados que representaram às Forças Armadas brasileiras,
expostas ao lado do ossário que também compõe a estrutura do Mausoléu dos Ex-combatentes
alagoanos (fonte: Sérgio Lima Conceição).