A Trajetória Política e Intelectual de Octavio Brandão (1916/1922) - Shuellen Sablyne Peixoto da Silva
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
Shuellen Sablyne Peixoto da Silva
A TRAJETÓRIA POLÍTICA E INTELECTUAL DE OCTAVIO BRANDÃO (1916/1922)
Maceió – Alagoas
2014
SHUELLEN SABLYNE PEIXOTO DA SILVA
A TRAJETÓRIA POLÍTICA E INTELECTUAL DE OCTAVIO BRANDÃO (1916/1922)
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em História.
Orientador: Prof. Dr. Osvaldo Maciel
Maceió – Alagoas
2014
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário Responsável: Valter dos Santos Andrade
S584t
Silva, Shuellen Sablyne Peixoto.
A trajetória política e intelectual de Octavio Brandão (1916/1922) / Shuellen
Sablyne da Silva. – Maceió, 2014.
109 f.
Orientador: Osvaldo Maciel.
Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Ciências humanas, Comunicação e Artes. Programa de
Pós-Graduação em História. Maceió, 2013.
Bibliografia: f. 103-109.
1. Brandão, Octavio. 2. Anarquismo – História. 3. Comunismo – História.
4. Intelectuais - Alagoas. I. Título.
CDU: 329.16
Folha de Aprovação
AUTORA: SHUELLEN SABLYNE PEIXOTO DA SILVA
(A trajetória política e intelectual de Octávio Brandão (1916/1922) / Dissertação de mestrado
em História, da Universidade Federal de Alagoas, na forma normalizada e de uso obrigatório)
Dissertação de Mestrado submetida ao corpo
docente do Programa de Pós-Graduação em
História da Universidade Federal de Alagoas e
aprovada em 25 de Setembro de 2014.
____________________________________________________________
Prof. Dr. Osvaldo Batista Acioly Maciel, Universidade Federal de Alagoas.
Banca Examinadora:
___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Golbery Luiz Lessa de Moura, Mpog/Incra
___________________________________________________________________________
Prof. Dr. Osvaldo Batista Acioly Maciel, Universidade Federal de Alagoas.
___________________________________________________________________________
Profª. Drª., Ana Paula Palamartchuk, Universidade Federal de Alagoas.
Dedico este trabalho a minha mãe, Marly Vidinha,
que sempre foi um exemplo de mulher e guerreira
que luta por seus ideais e, por isso, me incentivou a
travar lutas por um mundo mais justo e livre de
todas as opressões.
Agradecimentos
Não poderia deixar de agradecer primeiro aos trabalhadores brasileiros que, a partir da
riqueza que geraram diariamente com seu trabalho, permitiram que a CAPES me concedesse
uma bolsa de pesquisa possibilitando, assim, que eu concluísse o mestrado.
Agradeço à minha mãe, Marly Vidinha, por toda a dedicação e esforço em me ensinar
a importância do conhecimento e pelo apoio dispensado durante toda a pesquisa.
Agradeço ao professor Osvaldo Maciel, meu orientador que me acompanha desde a
graduação, por toda paciência, atenção, dedicação e confiança, as quais foram essenciais para
a conclusão desta pesquisa.
Ao meu companheiro, Eli Magalhães, por estar ao meu lado me ajudando na
construção desta pesquisa e tornando a vida um pouco mais simples.
Deixo meu agradecimento também, a meus amigos, que me incentivaram, me deram
apoio na construção deste trabalho e não me deixaram desistir frente às adversidades
encontradas, em especial à Daniella Pontes, Fernanda Café, Isaac Moraes, Mariana Pércia,
Júlio Arantes, Bárbara Suelen, Amanda Merconi, Clara Saraiva, Ellen Morais, Davi Menezes,
Fernanda Macedo, Lylia Rojas, Guthierre Ferreira e Wibsson Lopes.
Enfim, agradeço a todos que, de alguma forma, me apoiaram e contribuíram para que
esta pesquisa fosse concluída.
RESUMO
Este é um estudo sobre a trajetória política e intelectual de Octavio Brandão Rêgo, intelectual
alagoano, personagem importante da história da esquerda brasileira que, ao longo da sua vida,
travou lutas políticas e intelectuais ao lado da classe trabalhadora. Centraremos nossa
pesquisa entre os anos de 1916 e 1922, pois foram anos em que as batalhas pessoais e
políticas acabaram por tornar mais claras suas escolhas intelectuais e políticas. Escreveu o
livro Canais e Lagoas, que preconizava a existência de petróleo em Alagoas, e defendeu a luta
dos trabalhadores por melhores condições de vida. Acreditamos que, por mais que
menospreze sua atuação neste período em seu livro de memórias, Octavio defendeu o
anarquismo com unhas e dentes dos anos 20 e sua entrada no PCB, em 1922, partindo de um
rompimento ideológico e posterior negação da experiência com o anarquismo. Portanto,
acreditamos que a pesquisa da trajetória política e intelectual de Octavio Brandão nesta fase
pode nos oferecer pistas para entender a história da esquerda brasileira, seus fluxos e refluxos
e suas agremiações teóricas na defesa da revolução no Brasil. Para tanto, revisitamos artigos
escritos e publicados pelo intelectual neste período; o livro Canais e Lagoas que, apesar de
ser centrado no estudo das ciências naturais, trata também da situação de miserabilidade do
povo alagoano que chocou o jovem Octávio em suas pesquisas, além, é claro, de suas
memórias, Combates e Batalhas e O Caminho.
PALAVRAS CHAVE: Octavio Brandão, Anarquismo, Comunismo.
ABSTRACT
This is a study on the political and intellectual history of Octavio Brandão Rêgo, intellectual
from Alagoas, important character in the history of Brazilian leftwing politics that, throughout
his life, fought political and intellectual struggles alongside the working class. We will center
our research between the years 1916 and 1922, as were years in which the personal and
political battles eventually lighten his intellectual and political choices. Wrote the book Canais
e Lagoas, which proclaimed the existence of oil in Alagoas, and defended the workers'
struggle for better living conditions. We believe, however much underestimate his activism
during this period in his memoir, Octavio fiercely defended anarchism during the 20's and his
adhesion to the PCB, in 1922, started from an ideological rupture and subsequent denial of the
experience with anarchism. Therefore, we believe that the study of political and intellectual
history of Octavio Brandão at this stage can offer us clues to understand the history of the
Brazilian leftewing politics, its ebbs and flows and their theoretical associations in defense of
the revolution in Brazil. To this end, we revisit articles written and published by the
intellectual in this period; the book Canais e Lagoas that, despite being focused on the study
of natural sciences, also deals with the situation of misery of the people from Alagoas that
shocked the young Octavio in his research, besides, of course, his memories, Combates e
Batalhas and O Caminho.
Keywords: Octavio Brandão, Anarchism, Communism
Sumário
Introdução ................................................................................................................................. 9
CAPÍTULO 1. Os primeiros anos da vida de Octavio Brandão em Alagoas e
Pernambuco ............................................................................................................................ 19
1.1. Alagoas e os Passos Iniciais de Octávio ........................................................................ 19
1.2. Educação em Alagoas .................................................................................................... 28
1.3. Estudos em Recife.......................................................................................................... 31
1.4. Maceió e os Canais e Lagoas ......................................................................................... 35
1.5. Conferências e polêmicas sobre Canais e Lagoas ......................................................... 38
1.6. Breves Conclusões ......................................................................................................... 48
CAPÍTULO 2. Os primeiros passos nas lutas dos trabalhadores ..................................... 50
2.1. Segundo passo libertador: A luta ao lado dos trabalhadores em Maceió ...................... 50
2.2. Antônio Canellas e a Semana Social ............................................................................. 54
2.3. O trabalho como professor e as batalhas intelectuais .................................................... 58
2.4. A propaganda revolucionária e o primeiro exílio .......................................................... 61
2.5. O complô Maximalista ................................................................................................... 66
2.6. Breves Conclusões ......................................................................................................... 69
CAPÍTULO 3: A vida no Rio de Janeiro e o Anarquismo ................................................. 71
3.1. A vida política brasileira ................................................................................................ 71
3.2. A vida no Rio de Janeiro ................................................................................................ 80
3.3. Educação dos trabalhadores ........................................................................................... 83
3.3.1. Anarquismo e Religião ............................................................................................ 83
3.3.2. A responsabilidade dos intelectuais na educação para a revolução ........................ 86
3.3.3. A revolução será anarquista .................................................................................... 90
3.4. Breves Conclusões ......................................................................................................... 98
Conclusão .............................................................................................................................. 100
Referências Bibliográficas ................................................................................................... 103
Fonte documental ................................................................................................................ 103
Bibliografia ......................................................................................................................... 106
9
Introdução
Este é um estudo sobre a trajetória política e intelectual de Octavio Brandão Rêgo,
alagoano que, pela luta política no estado, foi obrigado a mudar-se para o Rio de Janeiro com
apenas 19 anos. Lá, mesmo em uma cidade nova e muito distinta de Maceió, não deixou de
travar suas lutas políticas e intelectuais ao lado da classe trabalhadora. Participou do PCB a
partir do final de 1922 e, ao longo da sua vida, acabou tornando-se um dos personagens
importantes para a história da esquerda brasileira no século XX.
Centraremos nossa pesquisa entre os anos de 1916 e 1922, pois foram anos em que as
batalhas pessoais e políticas acabaram por tornar mais claro suas escolhas intelectuais e
políticas. Escreveu o livro Canais e Lagoas, que preconizava a existência de petróleo em
Alagoas, e defendeu a luta dos trabalhadores por condições melhores de vida. Acreditamos
que, por mais que menospreze sua atuação neste período em seu livro de memórias, Octavio
defendeu o anarquismo nos anos 20 e sua entrada no PCB, em 1922, partiu de um
rompimento ideológico e posterior negação da experiência com o anarquismo.
Portanto, acreditamos que a pesquisa da trajetória política e intelectual de Octavio
Brandão neste fase pode nos oferecer pistas para entender a história da esquerda brasileira,
seus fluxos e refluxos e suas agremiações teóricas na defesa da revolução no Brasil. Para
tanto, revisitamos artigos escritos e publicados pelo intelectual neste período; o livro Canais e
Lagoas que, apesar de ser centrado no estudo das ciências naturais, trata também da situação
de miserabilidade do povo alagoano que chocou o jovem Octávio em suas pesquisas, além, é
claro, de suas memórias, Combates e Batalhas e O Caminho.
O estudo da vida de um intelectual é uma tarefa que exige do pesquisador um olhar
para a sociedade na qual o "objeto de estudo" está inserido. Segundo Chartier, "o campo da
história intelectual cobre o conjunto das formas de pensamento, individuais ou coletivas,
filosóficas ou comuns, inventadas ou recebidas, conceitualizadas ou atuadas" 1.
Desta forma, uma de nossas preocupações centrais é que o estudo da trajetória política
e intelectual de Octávio Brandão esteja inserido em seu devido contexto histórico. Assim, no
que diz respeito a nossa pesquisa, buscamos sempre como objetivo não apenas um estudo
comparativo entre as obras produzidas por Octávio Brandão, mas mostrar que suas obras
estão sempre enraizadas, de alguma maneira, na sociedade de seu tempo e nas opções
1
CHARTIER, Roger. Intelectual (História). IN: BURGUIERE, André (org.). Dicionário das Ciências
Históricas. Trad. Henrique de Araujo Mesquita, Rio de Janeiro: Malo, 1993, p. 448.
10
políticas tomadas pelo seu autor. Ainda sobre a história intelectual, Chartier afirma:
Não se trata, por conseguinte, de caracterizar socialmente as obras a partir da
posição dos indivíduos ou dos meios que as produzem, assim como não se
trata de qualificá-las a partir de sua área social de difusão, mas de
compreender como cada um dos campos de produção intelectual traduz,
segundo suas próprias estruturas e referências, as determinações exteriores
que sobre ele pesam. (...) Assim é definida (e praticada) uma história
intelectual no sentido mais amplo, que por um lado não ignora que seus
objetos são socialmente determinados, mas que, por outro, considera essas
determinações através das propriedades específicas que, em cada caso, a
mediatizam2.
Octavio Brandão foi uma figura importante para a história da esquerda no Brasil.
Durante sua história, demonstrou um grande esforço em conhecer as teorias revolucionárias e,
já na década de 20, travara contato com o anarquismo, o bolchevismo e o marxismo. Sua
preocupação terminou levando-o a ser o responsável pela primeira tradução para o português
do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels3.
O seu livro de 1926, Agrarismo e Industrialismo, é a primeira produção teórica de
fôlego e publicada enquanto livro, que pensa a realidade brasileira sob a ótica do Marxismo.
No livro A Derrota da Dialética4, Leandro Konder faz uma crítica ao Agrarismo e
Industrialismo, afirma que é um livro que demonstra as diversas confusões teóricas de
Octavio Brandão que, apesar de ter lido muito sobre a teoria marxista (principalmente levando
em consideração outros militantes e a falta de material traduzido para o português), ainda
cometia confusões primárias, segundo o autor.
Mesmo diante desta crítica, Konder reconhece a importância do livro para a história da
esquerda, tendo em vista que as teses propostas neste estudo foram aprovadas em congresso e
aplicadas pelo próprio PCB. Sobre o livro e o conhecimento teórico de Brandão, Konder
afirma:
O tom convicto, peremptório, que Brandão utilizava para expor suas
posições, nas condições da época, aumentava seu poder de persuasão. Pouco
afeitos à reflexão filosófica, seus leitores eram levados a crer que ele sabia
das coisas; eram levados a sentir vergonha de terem dúvidas e aceitar aquilo
que era afirmado com tanta ênfase. As afirmações eram impressionantes; só
depois é que se verificaria que a história não viria a confirmá-las.5
2
CHARTIER, Roger. Intelectual (História). IN: BURGUIERE, André (org.). Dicionário das Ciências
Históricas. Trad. Henrique de Araujo Mesquita, Rio de Janeiro: Malo, 1993, p. 449.
3
A tradução foi feita em 1922. É possível encontrar mais informações em KONDER, Leandro. A derrota da
dialética: A recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos 30. 2. ed. São Paulo: Expressão
Popular, 2009.
4
KONDER, Leandro. A derrota da dialética: A recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos
30. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
5
KONDER, Leandro. A derrota da dialética: A recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos
11
As novas noções e descobertas feitas nas produções intelectuais de Octavio Brandão,
apesar de demonstrar um grande avanço intelectual, encontram limites que dizem respeito aos
limites impostos pela própria sociedade da época. Por exemplo, a intuição fabulosa de
Octavio Brandão junto com a descoberta de indícios de petróleo em terras alagoanas, feita em
seu estudo Canais e Lagoas6, era um grande passo em 1918, porém ocorreu em um ambiente
de circulação incrédula desta hipótese. A existência de petróleo no Brasil só foi comprovada
muitos anos mais tarde, através das pesquisas de Monteiro Lobato.
Quanto ao estudo sobre Octavio Brandão, sabemos que, a primeira vista, qualquer
biografia é uma apresentação da vida de um indivíduo. Mas não queremos trabalhar esta
dissertação a partir desta abordagem, que também consideramos importante. Queremos
realizar esta pesquisa com base na intersecção entre história intelectual e biografias, sempre
ponderando o papel que cumprem a documentação e a memória do intelectual Octavio
Brandão. É desta forma que acreditamos que vamos conseguir perceber toda sua produção
intelectual e sua trajetória dentro do contexto histórico no qual estava envolvido. Por isso, não
pretendemos realizar um estudo apenas linear da vida e obra de Octávio Brandão, assim como
se refere Schmidt:
Certamente, não falo das biografias tradicionais - narrativas factuais e
lineares da vida dos "grandes homens" desde o nascimento até a morte - cujo
objetivo principal é o de apresentar o biografado como modelo de conduta a
ser seguido: um "discurso de virtudes", nas palavras de Michel Certeau. Nem
das biografias sensacionalistas - do estilo "Os segredos de...", "A vida íntima
de..." destinadas a saciar os apetites voyeuristas dos leitores. Refiro-me,
sim, às biografias que, partindo das experiências de um indivíduo, abordam
questões mais gerais relacionadas à época na qual o mesmo viveu.7
Yara Aun Khoury afirma que existe um alargamento dos horizontes da história e da
memória, a partir do reconhecimento historiográfico de que todos os homens são construtores
da história e da memória. Isto significa, para a autora, "tomar a cultura e a memória como
referência significativa na exploração e compreensão da realidade social em sua
complexidade"8. Em outras palavras:
Com esse olhar pensamos a história como um processo complexo e
contraditório, construído e transformado cotidianamente. Buscando entender
como processos amplos de dominação e exploração se forjam e se expressam
no dia-a-dia das pessoas, em todas as dimensões da vida social, enfrentamos
30. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 185 e 186.
6
BRANDÃO, Octavio. Canais e Lagoas. Maceió: Edufal, 2001. 1 v.
7
SCHIMIDT, Benito Bisso. Em busca da terra da promissão: a história de dois líderes socialistas. Porto
Alegre: Editora Livraria Palmarinca, 2004, p. 21.
8
KHOURY, Yara Aun. Edgar Leuenroth, anarquismo e as esquerdas no Brasil. In: FERREIRA, Jorge; REIS,
Daniel Aarão. A formação das tradições: 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. , p. 116.
12
alguns desafios: o de superar versões únicas da história; o de admitir e
destrinchar as questões da diferença, da diversidade, da multiplicidade, da
pluralidade, como alternativas colocadas na sociedade, sem negar a
contradição e o conflito; o desafio de buscar ver essas diferenças e essa
diversidade forjadas por um embate de forças sociais, de campos que se
opõem ou se complementam; de buscar ver como hegemonia se engendram e
carências e necessidades se constituem no embate dessas forças. 9
Para realizarmos esta pesquisa, diante dos pressupostos expostos, procuramos diversos
acervos produzidos por e sobre Octavio Brandão, desde obras e cartas escritas pelo
intelectual, até textos e críticas de terceiros sobre o mesmo. Para tanto, analisamos o Fundo
Octavio Brandão, encontrado no Arquivo Edgar Leuenroth (AEL), na UNICAMP; as coleções
do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), onde encontramos diversos
documentos do e sobre o Octavio Brandão; e o Arquivo Público do Estado de Alagoas, onde
revisitamos os principais jornais da grande mídia alagoana durante os anos que Octavio
Brandão estava em Alagoas10.
Sobre o período que tratamos, principalmente os primeiros anos, encontramos pouca
documentação. Encontramos artigos publicados em jornais, no qual se apresentam posições
políticas e intelectuais de Octavio, no entanto a maioria da documentação arquivada, trata-se
de documentação de outros períodos da vida de Octavio. Neste sentido, também optamos pelo
uso do livro de memória Combates e Batalhas, que foi imprescindível para o
desenvolvimento desta pesquisa.
Porém, esbarramos em uma questão: o livro de memórias de Octavio Brandão trata-se
de uma tentativa do próprio autor de (re)construir sua memória e sua história. Todo o discurso
do livro é construído na terceira pessoa, o autor refere-se a ele mesmo com diversos adjetivos,
como o "combatente", o "revolucionário", dentre outros. Ou seja, toda a memória é construída
como se o autor fosse outra pessoa olhando sua própria vida. Inclusive, em muitos momentos
do livro é possível perceber um confronto entre o Octavio que escreve e o Octavio do livro,
principalmente no que diz respeito à dicotomia entre Anarquismo X Comunismo.
Desta forma, é possível perceber ao longo do livro diversas construções (informações,
julgamentos e valores) que são incompatíveis com a época, a exemplo do olhar sobre o
anarquismo e seu suposto afastamento destes. Desta forma, sabemos que "nada, pois, se
compara ao método histórico fundamental de comparação e confirmação de fontes variadas, já
9
KHOURY, Yara Aun. Edgar Leuenroth, anarquismo e as esquerdas no Brasil. In: FERREIRA, Jorge; REIS,
Daniel Aarão. A formação das tradições: 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. , p. 117
10
Procuramos os jornais da grande mídia dos anos que Octávio Brandão estava em Maceió também no Instituto
Histórico e Geográfico, porém todos os jornais do período de nossa pesquisa encontravam-se muito danificados
e, portanto, não era permitida a consulta.
13
que o mais das vezes o escritor mergulha numa obra imaginária para escapar à vida real"11.
Assim, usamos toda a documentação que encontramos acerca de Brandão no período em
comparação com as suas memórias, posto que entendemos que, diante da importância do
Combates e Batalhas para o desenvolvimento de uma pesquisa como a nossa, não podíamos
deixar de usá-lo, no intuito de analisar as informações constantes na documentação e
construídas em seu livro.
Quanto aos acervos de documentação que encontramos relativos ao Octavio Brandão,
é possível perceber uma grande preocupação do Octavio em preservar sua memória de
maneira intacta, sempre destacando sua grande trajetória política, o acerto de suas opções e a
importância que teve para o movimento dos trabalhadores brasileiro.
Algo que de fato é passível de diversos elogios, tendo em vista que através da
documentação guardada por este intelectual é possível encontrar diversas pistas para
desvendar a história dos trabalhadores do Brasil e a história do Partido Comunista Brasileiro.
Apesar deste aspecto positivo e importante cabe ressaltar que, para nós, o fundo
Octavio Brandão, encontrado no AEL e feito pelo próprio Octavio Brandão, é um arquivo da
vida do intelectual, cuja preocupação é construir sua própria memória (ou justificá-la). Desta
forma, é necessário ter uma certa atenção e cuidado ao analisar estes documentos, afinal eles
podem nos apresentar muito mais do que o que está explícito, ao passo que podem esconder
diversos outros aspectos importantes para análise, mas que não o são para a manutenção da
imagem do militante histórico em questão. Le Goff afirma que este é um aspecto sob o qual
nós, historiadores, temos que estar preocupados seja qual for o documento.
A intervenção do historiador que escolhe o documento, extraindo-o do
conjunto de dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-lhe um valor
de testemunho que, pelo menos em parte, depende da sua própria posição na
sociedade da época e da sua organização mental, insere-se numa situação
inicial que é ainda menos neutra do que a sua intervenção. O documento não
é inócuo. É, antes demais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou
inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produzam, mas
também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez
esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo
silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o
ensinamento que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados,
desmistificando-lhe o significado aparente. O documento é monumento.
Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro –
voluntaria ou involuntariamente – determinada imagem de si própria. No
limite, não existe um documento-verdade. Todo documento é mentira. Cabe
11
DOSSE, François. O Desafio Biográfico: Escrever uma vida. São Paulo: Edusp, 2009, p. 59.
14
ao historiador não fazer o papel de ingênuo12.
Ressalte-se com isto que, com esta citação, não quero aqui afirmar que os acervos do
Octavio Brandão contém documentos falsos/mentirosos ou que não devem ser analisados.
Longe disso, quero afirmar que este acervo deve ser analisado levando-se em consideração o
período em que foi formado, de onde veio e como foi formado, quais as intenções que se
podem verificar na preservação deste acervo etc. Desta forma, é possível evitar o anacronismo
na análise e perceber que a formação deste arquivo tem uma intenção clara, o que não difere
da formação dos demais arquivos/acervos, tal como afirma Chartier:
É claro que nenhum texto, mesmo o mais aparentemente documental,
mesmo o mais objetivo, mantém uma relação transparente com a realidade
que ele apreende. [...]A relação do texto com o real constrói de acordo com
modelos discursivos e recortes intelectuais próprios a cada situação de
escritura.13
É dessa forma que procuramos analisar os arquivos do Octávio Brandão, procurando
continuidades e descontinuidades, não apenas para reconstituir o passado, mas para entender a
própria formação dos acervos e como esta formação e organização pode nos apresentar
elementos de análise novos. Como estas camadas podem nos dar acesso ou tornar opaco um
período passado.
Coadunamos também com a Heloísa Belloto que afirma que a verdadeira utilidade de
acervos na pesquisa histórica é que eles apresentam “‘flagrantes’ possíveis e confiáveis dos
diferentes aspectos da experiência humana”.14 A nossa hipótese é que a formação do acervo
do Octávio Brandão tinha como pretensão a manutenção da imagem do "revolucionário
Octávio Brandão", particularmente o comunista. É preciso um olhar crítico à essa montagem
para ampliarmos as possibilidades de leitura do acervo pois como este teve sua vida de
alguma forma ligada ao movimento dos trabalhadores e à esquerda brasileira, é possível
conhecer mais da história da esquerda e dos trabalhadores através deste arquivo.
Caracterizar os fundos do Arquivo Edgar Leuronth e do Instituto Histórico e Geográfico
de Alagoas não é uma tarefa tão fácil, pois são dois fundos completamente diferentes e,
aparentemente feitos com intenções diferentes. O primeiro possui uma organização maior, já
foi tratado, é dividido em séries e parece ter sido pensado de forma a preservar a memória do
Octavio Brandão da forma como o próprio gostaria que esta fosse preservada. Já o segundo,
12
LE GOFF, Jaques. História e Memória. 5ª Edição. Campinas: Editora Unicamp, 2003, pp. 537 e 538.
CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude/ Roger Chartier, trad. Patricia
Chittone Ramos. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 2002, p. 56.
14
BELLOTTO, Heloísa. Arquivos permanentes: tratamento documental. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora FGV,
2007, p. 270.
13
15
parece mais um depósito de tudo o que diz respeito à determinada pessoa, guardada por um
admirador, uma espécie de coleção.
O acervo Octavio Brandão que se encontra do Arquivo Edgar Leuronth, é muito rico. O
arquivo foi doado por uma de suas filhas, Dyonisia Brandão, a única das três que ainda mora
no Brasil, e que, segundo o inventário do acervo, decidiu colocar a coleção de documentos em
uma instituição científica para que este ficasse a disposição de pesquisadores e estudiosos.
O acervo encontra-se totalmente microfilmado e é de fácil acesso a pesquisa, para
qualquer pesquisador ou interessado. Contém diversos manuscritos, cartas, textos políticos,
textos literários e suas obras mais famosas (Canas e Lagoas e Agrarismo e Industrialismo).
Além disso, no fundo é possível encontrar também uma entrevista feita com o comunista em
1977, sobre sua trajetória, além de um acervo especial sobre Laura Brandão, sua esposa.
O fundo contém documentos que datam a partir do ano de 1946 com as
correspondências de saudação a sua chegada ao Brasil e termina com as análises políticas
sobre os anos 60. Apesar disso, é possível encontrar documentos dos anos anteriores ou que se
refiram aos anos anteriores de sua vida. A maior parte da documentação dos anos anteriores
foi perdida nas fugas e extradições que marcaram a vida deste militante, mas Octavio
registrou tudo em seu livro de memória, Combates e Batalhas.
Toda a organização em séries e dossiês que se encontram neste fundo do Octavio
Brandão, foi organizada pelo mesmo. E, em seu tratamento, o AEL optou por mantê-las como
estava originalmente15, poucos são os recortes de jornais encontrados neste arquivo, a maior
parte do arquivo é datilografado. São os esforços políticos e teóricos de Octavio, esforços que
muitas vezes, principalmente através das cartas, demonstram o medo que este intelectual tinha
de cair no ostracismo.
Diferente do acervo encontrado no AEL, a documentação do IHGAL não segue um
padrão. Parece ter sido uma junção de recortes de jornais e rascunhos de documentos que
falavam sobre e pertenciam a Octavio Brandão. O acervo do Instituto Histórico e Geográfico
de Alagoas não possui nenhum documento original, todos são cópias. Apresenta um período
de abrangência um pouco maior, pois o arquivo engloba documentações desde a década de 20
até a década de 60. Na indicação avulsa existente em uma das pastas, consta que foi doado
pelo senhor "Dyonisio Brandão". Achamos que aqui encontra-se uma grande confusão, pois
15
Inventário analítico do acervo Octávio Brandão/ coord. Elaine Marques Zanatta. Campinas: Editora Unicamp,
1986.
16
em nenhum registro é encontrado este senhor. Suspeitamos que este seja na verdade Dyonisia
Brandão, a filha de Octávio que doou também havia doado um outro acervo para o arquivo
AEL.
Nas cartas de Octávio encontradas no AEL, é possível perceber um diálogo muito forte
com o primo Theo Brandão, diálogo que em alguns momentos demonstrava aspectos de
parceria. Suspeitamos que alguns dos recortes de jornais encontrados neste acervo tenham
sido doados por este primo. Mas estas são apenas hipóteses que levantamos.
Muitas das publicações encontradas na coleção do IHGAL são encontradas nas suas
primeiras versões no AEL, em forma manuscrita ou datilografada. Mas o que de fato
caracteriza o acervo encontrado no IHGAL é a junção de grande parte das notícias e textos
que foram publicados por Octavio Brandão e sobre ele, particularmente na imprensa operária.
São recortes de jornais, por vezes com o mesmo texto publicado diversas vezes, mas que nos
ajudam a mapear a trajetória política e intelectual deste comunista de acordo com a imprensa
brasileira do período.
Para os objetivos expostos até aqui, dividimos esta dissertação em três capítulos. No
primeiro, tratamos sobre os anos iniciais da vida de Octavio Brandão, sua infância no interior
de Alagoas, sua educação e depois partida para Recife. Em Recife, Octávio curso a faculdade
de Farmácia e iniciou suas pesquisas sobre a ciências naturais, uma das suas paixões. No ano
de 1916 escreveu Canais e Lagoas. Este livro representa uma das grandes batalhas
intelectuais de Octávio, pelo relevância da pesquisa, o autor acha-se injustiçado pela falta de
reconhecimento acreditando, desta forma, ter existido um complô contra ele. Portanto,
procuramos transpor um pouco da discussão sobre a existência do petróleo no Brasil e trazer a
visão de outro intelectual sobre o mesmo processo, Monteiro Lobato.
No segundo capítulo trazemos uma discussão sobre a aproximação do jovem ao
movimento dos trabalhadores, ainda enquanto morava em Alagoas. A aproximação de
Antonio Canellas e o despertar da crítica à burguesia alagoana, através das propagandas
revolucionárias sistemáticas. Culminando com a prisão do jovem em 1919 e aquele que ele
denomina de "primeiro exílio", pois foi quando teve que sair fugido de Alagoas para o Rio de
Janeiro.
Por fim, no terceiro capítulo, tratamos sobre a vida de Octávio Brandão no Rio de
Janeiro. No entanto, antes disso, travamos uma discussão sobre as correntes ideológicas e
políticas que existiam no movimento dos trabalhadores brasileiros, para só então entrar nas
17
discussões políticas e teóricas feitas por Octávio a partir de então. É possível perceber a
atividade intelectual de Octávio completamente voltada para a educação dos trabalhadores
quanto a situação deles próprios, a Revolução Bolchevique e a necessidade de uma revolução
anarquista.
Quanto à produção teórica sobre o intelectual, encontramos alguns estudos de mais
fôlego sobre a vida de Octávio Brandão, sob diferentes perspectivas. Leandro Konder, no
livro Derrota da Dialética16, fala sobre a trajetória de Octávio Brandão, porém a abordagem
revela uma secundarização da trajetória política de Octávio em relação à de Astrojildo Pereira,
intelectual contemporâneo de Octávio Brandão. Roberto Mansilla Amaral17 desenvolveu uma
pesquisa na Universidade Federal Fluminense, na qual ressalta a secundarização da história do
Octávio Brandão no PCB e como no fim da vida o intelectual acaba sendo relegado dentro do
próprio partido que defendeu a vida inteira. Sob outra ótica, Alice Plancharel18 desenvolveu
uma pesquisa sobre a vida de Octávio Brandão, na qual defende que o intelectual, ao longo de
sua trajetória, procura esconder seu passado anarquista.
Octávio Brandão é uma figura emblemática na história da esquerda do Brasil. Teve uma
vida política marcada por autos e baixos e, por mais que tenha tido uma grande importância
intelectual e política, passou os últimos anos de sua vida "esquecido" pelo partido que
reivindicou durante toda a sua vida, o PCB.
É necessário entender este intelectual dentro do meio em que viveu e de acordo com o
momento conjuntural no qual sua militância estava envolvida. Ele viveu em momento de
efervescência da luta de classes, onde o mundo passava por uma revolução socialista (Rússia 1917). Acompanhou os caminhos e descaminhos traçados pela esquerda, mesmo em um
momento em que pouco se sabia sobre teoria marxista. Buscava respostas para os problemas
cotidianos nas suas leituras, desta forma primeiro ele se aproximou do anarquismo, para,
posteriormente, virar comunista e, em certa medida, até renegar seu passado anarquista19. A
construção e preservação da memória de Octávio Brandão coadunam com a sua vontade e
16
KONDER, Leandro. A derrota da dialética: A recepção das ideias de Marx no Brasil, até o começo dos anos
30. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
17
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octávio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003.
18
PLANCHAREL, Alice Anabuki. Memórias & omissão: Anarquismo & Otávio Brandão. Maceió: Edufal,
1997.
19
Esta é uma hipótese levantada pela intelectual Alice Anabuki Plancharel, que pode ser encontrada no livro:
PLANCHAREL, Alice Anabuki. Memórias & omissão: Anarquismo & Otávio Brandão. Maceió: Edufal, 1997.
18
esforço feito para deixar sua contribuição política e intelectual ao Brasil.
19
CAPÍTULO 1. Os primeiros anos da vida de Octávio Brandão em Alagoas
e Pernambuco
Vivi num ambiente de pobreza econômica, dificuldades
financeiras, perseguições políticas, preterições sociais,
dores
morais,
injustiças
intelectuais.
A
existência
consumiu-se no trabalho, na paixão, na amargura, no
esforço penoso. Mas em vista de algo historicamente
necessário.20
Este capítulo tem por objetivo traçar uma discussão, através de um debate baseado em
sua biografia, sobre os primeiros anos de vida de Octavio Brandão em Alagoas e Pernambuco,
sua infância, educação, primeiras pesquisas no campo intelectual e de descobertas da natureza
viva, sua grande paixão, e o livro Canais e Lagoas, do qual o autor seguiu falando até o fim
dos seus dias por sentir-se injustiçado pela falta de reconhecimento.
Para tanto, julgamos necessário, além de entender a trajetória de Octavio Brandão,
fazer breves discussões sobre a historiografia alagoana, a educação dos filhos dos senhores de
engenho no estado no início do século XX, sobre as críticas e discussões intelectuais a cerca
do livro Canais e Lagoas e dos indícios descobertos quanto à existência e exploração do
petróleo no Brasil.
1.1. Alagoas e os Passos Iniciais de Octávio
Em 1822 Alagoas passa a compor o Império enquanto Província. Até então, o território
era parte de Pernambuco. Segundo Dirceu Lindoso:
Constituída inicialmente, até o século XVIII, com apenas uma referência
regional da antiga capitania de Pernambuco, passa ainda nesse século à
condição de comarca, que se estende até o século XIX. Em 1817 adquire a
forma autônoma de sua diferenciação, convertendo-se por ato régio numa
capitania, que em 1822 compõe o corpo do Império na condição de uma
província. Proclamada a República em 1889, a província das Alagoas muda
sua forma política, e se converte em um dos Estados da federação
brasileira.21
20
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.XXVI.
LINDOSO, Dirceu. Representação Social na Escrita da Cultura Alagoana do Século XIX. In: LINDOSO,
Dirceu. Interpretação da Província. Maceió: Secult, 1985. p. 49-78. (Cultura Popular/Cadernos de Cultura),
pp. 74 e 75.
21
20
Assim como Diégues Junior no livro Banguê das Alagoas22, Moacir Sant’Ana atribui o
povoamento nas terras que posteriormente vieram a ser chamadas de Estado de Alagoas à
indústria do açúcar, pois, segundo o autor: “os primeiros povoados quase sempre surgiam e se
desenvolviam em torno dos engenhos de fabricar açúcar”23, afinal esta foi a grande fonte
econômica do estado.
Sant'Ana afirma que a cultura da cana-de-açúcar começou a ganhar espaço maior a
partir de 1835 nas Alagoas. No entanto, foi entre 1849 e 1859 que a indústria do açúcar
cresceu mais em Alagoas, “o número de engenhos elevou-se em cerca de 50% [...] existiam
316 engenhos, quantidade elevada para 475, daquele ano para o de 1859, sendo que 17 destes
ainda estavam se levantando e 32 outros achavam-se parados”24. Sant'Ana atribui o
crescimento ao fato de que 1846 foi o ano que os Estados Unidos fixaram o monopólio do
algodão no comércio internacional e, portanto, a partir daí, teria acontecido um crescimento
na indústria açucareira no estado, já que o mercado fechou-se para a produção de algodão que
ali havia, processo que faz com que a primeira supere a última
Vale ressaltar que, apesar de apontar com clareza o predomínio da cana-de-açúcar nas
terras alagoanas, o autor aponta a existência de fazendas e engenhos onde era possível
encontrar vasta produção de algodão, além de produções menores de feijão, arroz, mandioca e
milho. Aliás, a produção de algodão era também um dos pilares da economia alagoana no fim
do século XIX e início do século XX.
O surgimento de indústrias no estado também ocorre a partir do final do século XIX,
mesmo que em número reduzido. Segundo Luiz Sávio de Almeida, não há referências
explícitas de indústria fora dos limites da agricultura, pois era dentro destes limites onde
encontravam-se “moendas banguezeiras, as bolandeiras, a fiação e tecelagem, todas elas
sendo a prática de continuidade que somava os interesses de produtores agrícolas, industriais,
comerciantes e financiadores do processo”25.
No entanto, ainda no século XIX, os grandes engenhos de cana-de-açúcar começaram
a ser substituídos pelas usinas, que possibilitavam maior produtividade. Assim, a produção de
algodão recupera espaço. Sant'Anna aponta como um dos principais motivo para a decadência
22
DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. O Bangüê nas Alagoas:Traços da influência do sistema econômico do engenho
e açúcar na vida e na cultura regional. 3ª Maceió: Edufal, 2012.
23
SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à história do açúcar em Alagoas. Recife: Museu do
Açúcar/IAA, 1970, p. 229.
24
IDEM, p. 230.
25
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Chrônicas Alagoanas: Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. 2.
ed. Maceió: Edufal, 2013, p. 32.
21
dos engenhos a falta de rodovias, e a deficiência das existentes, para o escoamento dos
produtos da província. Em 1866 existiam apenas duas estradas nas Alagoas. “uma atravessava
o município de Maceió, esticando-se quase numa linha reta até a então Vila Imperatriz, hoje
União dos Palmares, e a outra [...] se dirigia de Maceió a Quebrangulo”26. No entanto, a
condição destas estradas era deplorável. A situação era agravada pela falta de pontes, o que
deixava o transporte de algumas cidades para Maceió a mercê da maré cheia, afinal, a grande
parte do transporte de cana era feito pelas vias naturais, como as lagoas Mundaú e Manguaba,
os rios Coruripe, São Miguel, Santo Antônio Grande, Santo Antônio Mirim, Camaragibe e
Maguaba.
Outro grande motivo da decadência é a falta de crédito para os agricultores alagoanos,
problema que, aliás, segundo o autor, sempre concorreu para asfixiar a indústria agroaçucareira nordestina. Era uma dificuldade que vinha de longa data e não era exclusiva de
Alagoas, ocorria também em outras províncias nordestinas mais fracas, para as quais não
existia facilidade para obtenção de recursos nos estabelecimentos bancários.
Era essa escassez de dinheiro que impedia aos Senhores de Engenho
efetuarem a melhoria do maquinismo de suas fábricas, que não lhes
possibilitavam sequer satisfazer os compromissos inadiáveis, forçando-os a
entregar o açúcar a negociantes capitalistas, por preço inferior. 27
Mesmo diante da decadência dos engenhos em detrimento das usinas, que possuíam
mais condições técnicas e tecnológicas, os senhores de engenhos, coronéis e figuras políticas
imperiais mantiveram seu poder nas terras alagoanas. Mesmo o fim do século e a chegada da
República não mudariam este cenário.
A proclamação da República marca o fim da centralização monárquica e, desta forma,
as antigas províncias, atuais estados, passam a ter em suas mãos o poder das decisões
políticas. Na verdade, “o novo regime foi a concretização dos interesses das oligarquias ou
dos grupos detentores de poder econômico nos Estados, a quem já não convinha mais um
regime de governo que centralizasse na corte, o Rio de Janeiro, a prerrogativa de todas as
decisões”28. Ou seja, a descentralização da economia viria a impulsionar o aprofundamento do
capitalismo, já que os verdadeiros beneficiados foram os setores hegemônicos das classes
dominantes, principalmente, as oligarquias do café no centro-sul do país.
Já na última década do século XIX, as relações de força traduziam-se em
26
SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à história do açúcar em Alagoas. Recife: Museu do
Açúcar/IAA, 1970, p.310.
27
IDEM, p 322.
28
TENÓRIO, Douglas Apratto. Metamorfose das Oligarquias. Curitiba: Hd Livros, 1997, p. 09.
22
supremacia do Sudeste cafeicultor, tendo São Paulo como polo de
desenvolvimento. A aparente igualdade jurídica introduzida pela Federação
ocultava, na verdade, profundas desigualdades regionais. A desvalorização
da moeda, o desemprego e a contenção de crédito traziam infortúnios aos
mais carentes.29
Quanto à proclamação da República, as decisões e rumos políticos do país contaram
com uma ínfima participação da população que era, naquele período, em sua grande maioria,
analfabeta.
Porém, os ventos que traziam a “nova sociedade”, traziam também esperanças de dias
melhores. Afinal, segundo, Douglas Apratto, “liam-se notícias que traziam de outras partes os
sinais de progresso, sinônimo de civilização que os telégrafos e as revistas do sul insistiam em
mostrar como fato inevitável de povos adiantados”30. Em contrapartida, “outros se
desesperançavam com a demora da chegada desses melhoramentos às plagas tão distantes da
terra, berço ilustre do proclamador e do consolidador da República”31.
As promessas de progresso não se concretizaram nas primeiras décadas da República.
Sant'Anna32 vai falar sobre o avanço na construção de estradas e pontes em Alagoas,
ressaltando a construção de cinco pontes de madeiras apenas no ano de 1913 e a construção
de estradas por iniciativa particular, a estrada que ligava Água Branca a Quebrangulo, em
1914.
Porém, algumas medidas eram mais urgentes, afinal era preciso “remodelar a cidade,
mudar seus ares provincianos, tal como estava acontecendo nos grandes centros, era
imprescindível para se chegar a melhores estágios”33. Por isso, praças foram construídas e
ruas foram abertas, não só em Maceió, mas nas cidades do interior como Penedo,
Camaragibe, Viçosa e Coruripe34.
Osvaldo Maciel afirma que Maceió, capital da província a partir do ano de 1839, já
começa a incorporar elementos da modernidade mesmo antes, desde a primeira metade do
século XIX.
Centro comercial e político desde a primeira metade do século XIX, para a
capital afluíam desde comerciantes e representantes de firmas estrangeiras
até pequenos agricultores e miseráveis, expulsos das áreas rurais pela
ampliação dos canaviais, passando também pelos filhos dos coronéis que
29
MORAES, Dênis de. O velho Graça: Uma biografia de Graciliano Ramos. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 22.
TENÓRIO, Douglas Apratto. Metamorfose das Oligarquias. Curitiba: Hd Livros, 1997, p. 19
31
IDEM, p. 19.
32
SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à história do açúcar em Alagoas. Recife: Museu do
Açúcar/IAA, 1970, p 311.
33
IDEM, p. 24.
34
TENÓRIO, Douglas Apratto. Metamorfose das Oligarquias. Curitiba: Hd Livros, 1997.
30
23
vinham em busca de melhor educação e de colocação no quadro do
funcionalismo estadual. Parece-nos que é nesse período que a população da
cidade começa a perder os laços de comunidade, característicos dos
pequenos núcleos populacionais, incorporando facetas da modernidade. Nas
ruas, novos transeuntes compõem um quadro com elementos estranhos. Uma
parte dos seus habitantes não mais se reconhece nem sabe de suas origens e
vida.35
É nessa conjuntura de promessas de dias melhores, sete anos após o golpe militar que
proclamou a República brasileira e expulsou a família real do país, que nasce Octavio
Brandão Rêgo. O garoto nasceu na Zona da Mata alagoana no sítio Jenipapo, localizado nas
margens do rio Paraíba, no município de Viçosa, no dia 12 de setembro de 189636.
Octávio foi o segundo filho37 do casamento entre Maria Loureiro Brandão Rêgo,
conhecida como Maroquinha, e Manoel Correia de Melo Rêgo que era conhecido como Néco
Felix. Este mesmo casamento ainda teve como fruto mais quatro filhos, porém, por conta das
más condições de vida da época, além de Octavio Brandão, só sobreviveu, Maria Brandão
Vilela, conhecida como Mariinha .
Muito embora não cite em seu livro de memória, no texto Vida Vivida, Octavio38 fala
de uma segunda irmã, apenas por parte de pai, chamada Cecy. "Cecy faleceu jovem e bela,
deixando cinco filhos"39.
Na tentativa de deixar claro sua origem de classe, Octavio ressalta que seus avós não
eram ricos. Do avô paterno ele ressalta a origem camponesa e afirma: "trabalhava duramente
a terra, no cabo da enxada, com o próprio esforço e a própria família, sem explorar o trabalho
alheio"40. A avó paterna, conhecida como Pastorinha, era rendeira. Octavio lembra com muito
carinho das tardes que passava sentado ao lado de sua avó observando seu trabalho de
rendeira. A lembrança carinhosa resultou na homenagem posterior no livro O Caminho41,
Pastorinha inspirou uma das personagens, com o mesmo nome.
Teotônio Torquato Brandão, avô materno de Octavio, nasceu em Coqueiro Seco, no
ano de 1840, e aos 8 anos foi morar em Barro Branco, onde já adulto constituiu um engenho.
Mesmo citando que seu avô foi senhor do Engenho de Barro Branco, Octavio opta por não
falar em sua memória sobre a decadência dos engenhos nas terras de Alagoas no início do
35
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Trabalhadores, Identidade de Classe e Socialismo: Os gráficos de
Maceió (1895-1905. Maceió: Edufal, 2009, p. 49.
36
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978.
37
O primeiro filho do casal faleceu.
38
Ao longo deste texto, optamos por chamar Octávio Brandão apenas pelo primeiro nome.
39
Vida Vivida - Recordações. Fundo Octavio Brandão. AEL
40
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 39.
41
BRANDÃO, Octavio. O Caminho. Maceió: Edufal, 2007.
24
século XX, que davam espaço para as usinas de açúcar. Para justificar o fato de não ter sua
origem de classe reconhecida a partir dos filhos de engenho de Alagoas, ele opta por deixar
claro que, para chegar a possuir o engenho, o avô precisou trabalhar muito como agricultor no
cabo de enxada de baixo do sol do agreste alagoano e que, quando morreu, deixou muitas
dívidas. Portanto, parte do engenho foi vendido para o pagamento delas. Portanto, ele nunca
teria sido um “menino de engenho”.
Nunca fui menino de engenho42, produto de um ambiente feudal ou
semifeudal. Nasci e vivi numa pequena cidade do interior. Comecei a
formar-me no seio da pequena-burguesia urbana, defensora de ideias
progressistas e vítima do domínio dos grandes proprietários rurais
semifeudais.43
Sem dúvidas, um dos episódios mais tocantes da vida de Octavio foi a morte de sua
mãe, Maroquinha. Em suas memórias ele declara que desde o início a vida lhe negou a
doçura. Perdeu a mãe com menos de quatro anos. Maroquinha morreu com apenas vinte e
nove anos de infecção puerperal. Octavio lembra do episódio com pesar:
Entrei na vida pela porta da orfandade e da amargura. Conservei na memória
a visão trágica e terrível. Guardei no coração, a vida inteira, a imagem
sempre viva e dolorosa, a imagem sublime de Mamãe - morta!44
Com a morte de sua mãe sua vida deu uma guinada. Mariinha e Octavio foram levados
para a casa do avô materno, no engenho Barro Branco. Mas sete meses após a morte da mãe,
o avô Teotônio Torquato Brandão também faleceu. Após a morte do avô, o pai, Neco Felix,
foi buscar as crianças para enviá-los à escola. Mariinha preferiu ficar com as tias, e apenas
Octavio partiu com o pai, para uma vida que não tinha grandes luxos.
A criança entrou na Vida pela porta da pobreza. E foi pobre, a vida inteira. O
pai não podia comprar leite. O filho precisava de alimentos fortes. No
entanto, bebia café ralo. Não teve leite na infância. Comia feijão com farinha
de mandioca e a uma carne grosseira, o charque ou ceará. Nenhum legume,
exceto jerimum. Fruta, apenas banana, quando era possível comprar. Vestia
uma roupa ordinária de algodão. Era pobreza em tudo.45
Em Viçosa, o pai de Octavio Brandão, possuía uma pequena farmácia popular, posto
que era um prático de farmácia. Para Brandão, isto o colocava na chamada pequenaburguesia. “Pequeno-burguês urbano empobrecido, prático de farmácia em Viçosa. A
princípio teve um empregado. Depois, empobrecendo, dispensou-o passou ele próprio a
42
A frase destacada pelo próprio autor de Combates e Batalhas, pode demonstrar uma tentativa de Octavio
Brandão de ressaltar que, apesar de ser nascido em um engenho de cana-de-açúcar, viveu a maior parte de sua
vida fora deste engenho, em meio a ideias progressivas. Portanto, nada o ligaria àquele ambiente de atraso.
43
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, pp. 38 e 39.
44
IDEM, p.44.
45
IDEM, p. 48.
25
trabalhar, sem assalariados, auxiliado unicamente pelo filho”46.
Brandão caracteriza sua educação como severa. Neco Félix era um pai muito rigoroso
com o pequeno Octavio, muitas vezes nem o deixava brincar. O que resume este rigor para
Octavio era a sentença que o pai sempre repetia: "Da farmácia para a escola, da escola para a
farmácia"47.
Porém o próprio Octavio afirma que essa severidade na educação, comum no período
em questão, teve lados bem positivos, tendo em vista que foi criado em um ambiente que ele
denomina de "ambiente de pureza moral", no qual Brandão afirma não ter convivido com
"más companhias" ou com "meninos deformados e viciados".48
A farmácia popular de Neco Félix era frequentada por pessoas de todo tipo:
trabalhadores rurais negros, ex-escravos e mestiços. Esses trabalhadores impressionavam o
pequeno Octavio com as mais diversas histórias, que posteriormente inspiraram o livro O
Caminho.
Papai e esses Homens do Trabalho foram os meus primeiros educadores. Na
farmácia, ouvia esses trabalhadores com atenção e respeito. Ficava
impressionado. Minha infância desde os mais verdes anos, foi embalada,
esclarecida e iluminada pelas lendas, histórias e narrativas dos caboclos e
negros, pelos feitos épicos dos índios e dos negros Palmarinos.49
Mesmo na sociedade alagoana da época cheia de atrasos culturais e históricos, Neco
Félix combatia preconceitos sociais e defendia ideias progressistas. Não é a toa que Octavio o
responsabiliza por boa parte de sua formação no terreno do pensamento. Neco Félix, mesmo
morando em uma cidadezinha do interior alagoano em 1889, quando, na visão de Octavio "as
notícias eram incertas e contraditórias", já estava entre os simpatizantes dos republicanos.
Amaral afirma:
O próprio Neco Félix simpatizava com a causa republicana num momento
em que, ainda no interior do Estado, as notícias do advento do novo regime
eram incertas e contraditórias. Chegou, até mesmo, a se tornar vereador e um
dos signatários da ata da sessão extraordinária da adesão à República que a
Câmara Municipal local realizou, no dia 30 de novembro de 1889. Pouco
depois, no entanto, decepcionou-se com ela. Passou a ser um opositor
daquilo que considerava um governo reacionário que estava nas mãos dos
proprietários rurais e da grande burguesia.50
46
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.41.
IDEM, p.48.
48
IDEM, p.48.
49
IDEM, p.56.
50
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octávio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p. 26.
47
26
Octavio Brandão caracteriza seu pai como um opositor sistemático. Um homem cheio
de indignação. Ele atribui ao pai a primeira lição antiimperialista, já que Neco Félix, ao
referir-se aos ingleses donos da estrada de ferro Great Western, vivia a repetir: "Esses gringos
são uns ladrões! E repetia: - São uns ladrões!".51
Aqui vale uma reflexão: por mais que Viçosa fosse uma cidade do interior alagoano, a
verdade é que o município encontrava-se no círculo das principais cidades de Alagoas, pelos
fatores que já destacamos acima, relacionados à agricultura e produção de cana-de-açúcar, já
que os grandes engenhos estavam concentrados na Zona da Mata. Segundo Maciel, em termos
de números populacionais, Viçosa tinha a segunda maior população do estado, ficando atrás
apenas da capital Maceió52.
Durante seus primeiros anos escolares, Octavio estudou em escolas na cidade onde
morava, Viçosa. A primeira escola que frequentou, aos quatro anos de idade, ficava quase em
frente à farmácia do seu pai. A professora que marcou sua vida foi a professora Maria do Ó,
uma mulata muito severa que, como era comum naquele período, sempre recorria a
palmatória. Por conta deste método, Octavio afirma: "Num ambiente de terror, aprendi a ler.
Um passo importante na vida".53
A escola frequentada por Octavio foi a mesma que Graciliano Ramos frequentou nos
anos iniciais de sua educação. Foi nessa escola que Octavio lembra que conheceu Graciliano e
onde leu o livro Iracema, do José de Alencar, que despertou no garoto o interesse pela triste
história dos índios e índias, que acabou sendo refletida no livro O Caminho. A professora
Maria do Ó também fez parte da vida do escritor Graciliano Ramos, porém não foi sua
primeira professora.
No livro Infância, Graciliano relembra o dia que seus pais resolveram colocá-lo na
escola primária, notícia que o garoto tomou com ar de pânico, afinal ele já tinha ouvido que a
escola “era o lugar para onde se enviavam as crianças rebeldes”54 e ele era um menino
comportado e tímido.
Graciliano lembra de Maria do Ó como uma “mulata fosca, robusta em demasia”55
que, tal qual caracteriza Octavio, era uma figura extremamente rígida, que não abria mão de
51
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.49.
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Trabalhadores, Identidade de Classe e Socialismo: Os gráficos de
Maceió (1895-1905. Maceió: Edufal, 2009, p. 49.
53
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.58.
54
RAMOS, Graciliano. Infância. 11. ed. São Paulo: Record, 1976, p. 111.
55
IDEM, p. 170.
52
27
gritos e palmatória. Segundo o próprio Graciliano, a solução para fugir do terror Maria do Ó
foi tentar chamar o mínimo de atenção possível, desta forma ele descreve a sua participação
em sala de aula: “Ali, no encolhimento e na insignificância, os livros fechados, embruteciame em leves cochilos, quase só”56.
Segundo Dênis de Moraes, a educação severa fez de Graciliano um garoto cheio de
defesas que se julgava inferior aos amigos e vizinhos57. Situação um pouco diferente de
Octavio Brandão que, ainda em suas memórias, lamenta que os familiares o subestimassem
intelectualmente, apesar de achar normal, tendo em vista as poucas oportunidades que um
menino pobre tinha no interior das Alagoas.
Por isso, lembra com carinho do presente dado pelo tio Alfredo Brandão, ainda em
1906, quando foi aprovado em exame na escola. O tio o presenteou com o dicionário de
português, o qual ele atribui boa parte do desenvolvimento do seu vocabulário as noções de
Geografia, História do Brasil e História Universal, pois:
Na farmácia, aproveitando o tempo, aprendi rapidamente a conhecer as
figuras e gravuras do dicionário, sobretudo os retratos de homens célebres do
Brasil e dos outros países. Bastava vê-los de longe e já sabia de quem se
tratava.
A criança colocava a mão sobre certas palavras do dicionário, ocultando a
parte onde era explicada a significação, e ia dizendo-a, como estava no
livro.58
Infelizmente, em Viçosa, em 1908, não havia escolas em condições de desenvolver a
educação de Octavio. A escola pública da professora Maria do Ó, era uma escola primária, e o
garoto já tinha concluído essa fase escolar. O pai não tinha muito e, portanto, não tinha como
custear a educação do jovem Octavio em outra escola. Por isso, entregou-o ao tio materno, o
dr. Alfredo Brandão. Aos onze anos, foi a última vez que viu o pai, que se mudou para uma
cidade no agreste alagoano, Palmeira dos Índios:
Meu pai foi empobrecendo mais e mais. Contraiu dívidas e não podia pagálas. Tinha cerca de 47 anos de idade. Sofria do fígado. Mudou-se para
Palmeira dos Índios, no agreste, a zona de transição entre as matas e os
sertões. Aí, a 3 de janeiro de 1911, esse homem tão bom morreu na mais
profunda miséria. O cadáver foi envolto num lençol e, assim, atirado à terra
madrasta.59
Octavio não conseguiu despedir-se do pai. Quando recebeu a notícia de sua morte, em
Viçosa, o velório já havia ocorrido.
56
RAMOS, Graciliano. Infância. 11. ed. São Paulo: Record, 1976, p. 171.
MORAES, Dênis de. O velho Graça: Uma biografia de Graciliano Ramos. São Paulo: Boitempo, 2012, p.
31.
58
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.60.
59
IDEM, p. 60.
57
28
1.2. Educação em Alagoas
Os avós paternos de Octavio Brandão tiveram seis filhos. Assim como outros senhores
de engenho do período, Teotônio Torquato Brandão investiu na educação dos filhos. Mandou
a filha mais velha, a Maroquinha, educar-se em Maceió e enviou três filhos à escola superior.
Nas Alagoas dos engenhos de açúcar, muitos dos filhos dos senhores de engenho eram
encaminhados para as carreiras de doutores ou seminarista, mais por ostentação do que por
vocação. Já bacharéis e doutores, estes não tinham interesse no trabalho do campo e na
maioria das vezes saiam dos engenhos para clinicar e trabalhar com famílias burguesas da
cidade. Neste contexto, em Alagoas alguns hábitos mudaram, houve o desaparecimento das
grandes famílias e a decadência dos grande engenhos.
Dos engenhos saíram grandes nomes e figuras da vida cultural e política de Alagoas,
devido a educação que proporcionavam os senhores de engenho a seus filhos. São exemplos:
Visconde de Sinimbú, Espiridião Eloi Barros Pimentel, Antonio Buarque de Lima, Inacio
Mendonça Uchoa e Floriano Peixoto.
Saíram das Alagoas, também, grandes poetas, escritores, pensadores, músicos, e
também grandes pintores, a exemplo de Rosalvo Ribeiro. Mas poucos deste tiveram como
objeto das suas obras o tema propriamente das terras alagoanas, fato que Octávio,
posteriormente, faz questão de ressaltar. Mesmo assim, é necessário colocar as dificuldades
culturais do Estado. Diegués afirma:
Não há margem para atividades intelectuais puras; a arte ou a literatura não
podem constituir profissões, nem dão ensejo a que isso se torne exequível,
porque as profissões de natureza econômica exigem o trabalho de todos. Pela
própria origem da terra, pelo espírito de sua colonização, pela evolução de
sua história, sente-se a natureza econômica da constituição alagoana.60
Àquela época, poucos eram os homens intelectuais e eram estes que estavam
envolvidos na maioria das atividades da intelectualidade, seja no âmbito público ou não. Eram
os mesmos que cuidavam dos liceus, das escolas primárias e ainda assumiam cargos da
administração pública. A participação em jornais e em associações de diversas modalidades
era comum, desde os mais progressistas aos mais conservadores. Uma das maiores
associações de Alagoas neste período era a Montepio dos Artistas. Dela faziam parte muitos
dos intelectuais e personalidades de Alagoas e, assim como outras associações:
[...] possuía, além da função da benemerência, a de congregar artistas de
60
DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. O Bangüê nas Alagoas:Traços da influência do sistema econômico do engenho
de açúcar na vida e na cultura regional. 3ª Maceió: Edufal, 2012,p. 238.
29
diversas categorias através de festas sociais e reuniões; de propagar a
ilustração através de conferências e palestras; e de prestar solidariedade a
grupos, pessoas e comunidades que estivessem com dificuldades, como os
flagelados da seca do Ceará em 1900.61
Era a função dos letrados investir no progresso do país e era desejo comum entre os
intelectuais desde os mais progressistas e considerados de esquerda até os conservadores.
Foi assim na família Brandão, o avô Teotônio Torquato, senhor de engenho, com
muito esforço, segundo Brandão, investiu na educação dos filhos. Os tios de Octavio
receberam educação em escolas superiores fora do estado e, um deles, Eloi Brandão virou
seminarista, outro, Manoel Brandão, tornou-se médico.
O entendimento da importância do ensino na vida de uma criança ou adolescente fez
com que Maroquinha insistisse no leito de morte para que seus irmãos cuidassem da vida e
educação dos seus filhos. Este é um dos motivos que fez com que os tios Eloi e Alfredo
Brandão custeassem os estudos de Octavio em Maceió e Recife.
Em 1908, o jovem Octavio partiu pela primeira vez de Viçosa. Foi para Maceió, onde
viveu e estudou até 1911. Partiu de trem na companhia da tia Augusta e seu marido, o
comerciante Honorato de Sá. Só voltava a Viçosa nas suas férias.
O primeiro colégio que frequentou em Maceió, escolhido pelo seu tio, padre Elói
Brandão, foi o Colégio Diocesano dos Irmãos Maristas. Este era um colégio de origem
francesa, portanto, foi onde Brandão começou a estudar a língua francesa.
Leu, em francês, Gênio do Cristianismo de Chateaubriand. No livro, o adolescente
lembra da fascinação pelas descrições da Natureza como a noite na catarata do Niágara.
Apesar disso, lembra também que "O livro não me prendeu. Posteriormente, compreendi que
era ideologicamente nocivo e literariamente falso, artificial"62.
O que Octavio quis dizer com isso estava ligado às preferências religiosas da escola,
que eram impostas aos alunos. Ainda neste ano, adolescente, Octavio caracteriza que começou
uma das suas batalhas.
O tio Elói, lente de Português e diretor espiritual do Seminário de Alagoas,
no Alto do Farol em Maceió, foi logo ver-me. Era um convicto e um
combatente fiel à doutrina. Tinha vastos planos a respeito do sobrinho.
Pretendia fazer dele um campeão da Igreja Católica.63
61
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Trabalhadores, Identidade de Classe e Socialismo: Os gráficos de
Maceió (1895-1905). 3ª Maceió: Edufal, 2009, p. 127.
62
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.62.
63
IDEM, p.61.
30
Quando morava com o pai, Octavio convivia com a completa indiferença religiosa. A
única vez que sabia que havia entrado em uma igreja tinha sido para o seu batismo. Lembra
categoricamente que nunca havia ido à missa. Porém ele afirma: "no Colégio Diocesano,
começou o envenenamento religioso do pequeno caboclo brabo".64
No princípio, o garoto resistiu, recusou a estudar catecismo. Porém era severamente
castigado por sua "rebeldia". Ele relembra: "Cada tarde, o próprio diretor do colégio, Irmão
Teodoro, não permitia que eu fosse ao recreio como os outros e colocava-me de castigo, em
pé, durante 2 longas horas voltado para a parede".65A resistência foi inútil. Depois de alguns
dias de castigo, ele teve que se render e, assim, passou a seguir as normas religiosas do
Colégio Diocesano.
Mas nem todas as lembranças dessa escola são ruins. Foi no colégio Diocesano que
Octavio conheceu Jorge de Lima que, posteriormente, veio a ser um dos maiores poetas
alagoanos. Os dois viraram grandes amigos. Jorge de Lima, em suas memórias, refere-se a
Octavio da seguinte forma:
Descobri Octavio Brandão no mesmo colégio, nascido três anos depois de
mim, em 1896. No seu temperamento, já naquela idade rebelado, não havia
comodismo; e a sua coragem quase juventude me atraiu logo [sic]. (...) Esse
digno revoltado com quem mantenho até hoje uma amizade perfeita, em
1912 já era ateu diante do meu espanto cristão.66
Em 1909, Octavio saiu do Colégio dos Maristas, matriculou-se no Liceu Alagoano.
Logo percebeu que apesar da vantagem de não ser um colégio religioso, e talvez por isso
mesmo, os alunos possuíam uma linguagem obscena que o chocou.
Segundo Octavio, foi no Colégio 11 de Janeiro que seu interesse por ciências naturais
ficou mais latente e, em 1911, começou a estudar. Foi neste ano também que o gosto pela
literatura aumentou. Octavio conta em sua memória, Combates e Batalhas, que escondido do
tio Alfredo Brandão, leu diversos livros do Eça de Queiroz e impressionou-se com as ironias
quanto ao clero.
Neste contexto, apesar da oposição categórica do seu tio, Eloi Brandão, Octavio
passou a afastar-se cada vez mais da religião. "As dúvidas foram aumentando sobre a
concepção religiosa da vida e do universo. Em 1911, comecei a desintoxicar-me do
64
IDEM, p. 62.
IDEM, p. 62.
66
LIMA, Jorge de. Minhas memórias - Tempos de Magia e Contemplação. Apud: AMARAL, Roberto
Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário Octávio Brandão
(1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2003, p. 27.
65
31
catolicismo. Recusei continuar a praticá-lo. Sofri pressão cada vez maior da família
materna".67
Além dos livros do Eça de Queiroz, Octávio leu também Germinal, de Zola, onde
achou as primeiras referências a Bakunin. Chamou a atenção do garoto, pois, ainda em
Viçosa, ouvia o pai falar mal do tzar Nicolau II. Segundo Octavio Brandão, seu pai mostravalhe também fotografias das manifestações populares na Rússia de 1905 e falava da simpatia
pelos estudantes e operários na luta contra o tzarismo. Por isso, afirma: "Nos lábios do meu
pai, comecei a admirar os grandes revolucionários da Rússia".68
Em 1910, leu nos jornais de Maceió sobre a Revolta da Chibata, que estava
acontecendo no Rio de Janeiro. Tratava-se de uma insurreição armada dos marinheiros que
estavam cansados dos abusivos castigos que sofriam. Brandão afirma que acompanhou "com
interesse tudo quanto encontrei a respeito nos jornais. Fiquei impressionado com esses
acontecimentos. Senti simpatia pelos marinheiros e horror ao governo que massacrava os
filhos do povo".69
Aquela insurreição, de fato, impressionou o garoto, de tal forma que anos depois o
episódio da Revolta da Chibata ganhou grande destaque no livro O Caminho.
1.3. Estudos em Recife
Numa manhã de fevereiro de 1912, com apenas 15 anos, Octavio partiu para Recife,
em busca de novas oportunidades de estudo. Deixando para trás uma Alagoas cheia de
incertezas políticas, governada pela Oligarquia dos Malta, ligada à produção açucareira, desde
190070.
Em Recife, Octavio viveu até 1914. Foi aprovado na Escola de Farmácia, curso que
lhe rendeu a mesma profissão do seu pai. Cursar a faculdade só foi possível graças ao tio
Alfredo Brandão. Para Octavio, o tio mantinha um apreço enorme pelo sobrinho, apesar de ser
um homem seco e ríspido. Octavio declara ao longo da sua memória a grande gratidão que
nutre pelo tio, que além de auxiliá-lo a se formar em farmácia, incentivou nele o gosto pelas
ciências naturais. Por isso, a obra Canais e Lagoas foi dedicada a Alfredo Brandão, assim
como uma coleção de espécimes mineralógicos, descobertos por Octavio, também recebeu
67
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.65.
IDEM, p. 57.
69
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 66.
70
TENÓRIO, Douglas Apratto. Metamorfose das Oligarquias. Curitiba: Hd Livros, 1997.
68
32
seu nome.
Esta coleção, formada por Octavio Brandão, foi entregue à Sociedade Perseverança e
Auxílio dos Caixeiros de Maceió, em 1920, quando Octavio não podia voltar para Alagoas.
Porém, em 1960 quando pode retornar ao estado já não encontrou mais nada da coleção
supracitada. Ele fala no Combates e Batalhas "Alagoas nem sequer guardou as provas
científicas, colhidas desde 1916, sobre a existência de petróleo em seu subsolo".71
Em Recife, o apreço pelo estudo das ciências naturais ficou mais forte. Principalmente
porque, no primeiro momento, Octavio morava só. Portanto dedicou muito tempo para o
estudo das ciências naturais, já que tinha o desejo de vir a ser um naturalista.
Ao longo de sua biografia, ele afirma que sua vida foi marcada por três passos
libertadores. Foi em Recife que aconteceu o primeiro.
Dei logo o primeiro passo libertador. Tornei-me partidário do materialismo
filosófico - científico naturalista. Era o resultado de um lento processo que
vinha desenvolvendo-se há tempos. (...) Coloquei um primeiro marco na
vida. Abri uma perspectiva. Comecei a forjar o próprio destino, em nome do
materialismo filosófico.72
Aqui cabe fazer uma ressalva sob a pena de não cairmos no anacronismo. Todas as
fontes que o faziam se afirmar materialista filosófico e um pouco mais a frente,
revolucionário, ainda eram escassas. No Brasil do início do século XX, poucos livros relativos
a teorias sociais eram traduzidos. Não é possível afirmarmos que Octavio tinha clareza de
toda a teoria materialista.
Em seu livro Derrota da Dialética, Leandro Konder chega a afirmar que estas
“confusões” são fruto de um esvaziamento de reflexão, tendo em vista os poucos materiais de
leitura teórica traduzidos para o português73. Achamos que, pelo contrário, não podemos
estudar este período histórico julgando ser fruto de deturpações, e sim, como afirma Batalha74,
tentando “compreender as condições e formas de circulação/divulgação destas idéias”.
O próprio Octavio reconhece esta limitação. Tanto que procurava e conseguia ter
acesso a mais livros e, consequentemente, mais teoria, porque conseguia ler em francês,
graças ao Colégio Diocesano de Maceió. Quanto a esta questão ele afirma:
71
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 107.
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.68.
73
Para maiores informações, ver: KONDER, Leandro. A derrota da dialética: A recepção das ideias de Marx
no Brasil, até o começo dos anos 30. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
74
BATALHA, Claudio H. M. A Difusão do Marxismo e os socialistas brasileiros na virada do século XIX.
In: MORAES, João Quartin de (org.) História do Marxismo no Brasil, Vol II.Campinas: Ed. Unicamp, 1995.
72
33
Infelizmente, o materialismo filosófico que defendi a partir de 1912, não era
nem poderia ser consequente. É que, na época, me faltava tudo: o
conhecimento profundo e a experiência vivida. Além disso, no terreno social,
eu era, de fato, partidário do idealismo filosófico. Sofria a mesma
contradição e falta de unidade de todos os materialistas anteriores a Marx e
Engels75.
As leituras e as incertezas quanto à religião que já permeavam a cabeça do garoto, aqui
no momento em que se sentia mais livre, acabaram. Neste momento, Octavio deixou de ser
católico de vez.
No Nordeste, em 1912, o ambiente era completamente dominado pela reação
- pelos grandes proprietários rurais semifeudais, grandes burgueses e
clericais. Predominava a mistura caótica das sobrevivências católicas e
feudais da Idade Média europeia com o fetichismo das épocas mais
bárbaras76. (...) Nesse ambiente, a propaganda do materialismo filosófico
tinha de suscitar choques e conflitos. A pressão social foi tremenda. Fiquei
num isolamento doloroso durante 5 longos anos.77
Quando passou a reivindicar-se materialista e a ser propagandista do materialismo,
despertou a fúria de seus familiares. Octavio precisou resistir a ameaças para continuar a
defesa dos seus ideias:
O tio Alfredo dizia: "Receio prestar contas a Deus por ter contribuído para os
estudos de um ateu". Impôs o dilema: voltar ao catolicismo ou abandonar os
estudos. Ameaçou o sobrinho: "-Não lhe pagarei mais os estudos. Você
voltará a Viçosa e trabalhará como simples empregado"78.
O tempo em que morou em Recife foi aproveitado por Brandão para o
aprofundamento do conhecimento em ciências naturais e do materialismo filosófico. No
campo do naturalismo, o que, sem dúvidas, foi o tema ao qual ele dedicou mais atenção,
Octávio leu autores como: Darwin, Haeckel, Humboldt, Martius, Hartt, Branner, Ratzel, Karl
Ritter, Jean Brunhes e Eliseu Reclus.
No que concerne a literatura sobre filosofia e materialismo, Octavio afirma ter lido
Heráclito, Demócrito, Epicuro, Lucrécio, Giordano Bruno, Spinoza, Diderot e d'Holbach. Lia
também livros de literatura que o fascinavam, a exemplo do Fausto de Goethe e Os Sertões de
Euclides da Cunha.
Mas, sem dúvidas, o seu fascínio era por conhecer e entender as ciências naturais. É
75
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.71.
É possível que neste trecho, destacados por nós, o autor esteja referindo-se aos cultos populares ou de matriz
africana. Neste caso, atribui uma valoração negativa chamando a esta manifestação cultural de bárbara. Esta
atribuição se contrapõe a descrição que Octávio Brandão faz de si próprio, de menino criado em contato com a
cultura dos negros e indígenas e sem contato algum com o catolicismo! Sobre esta questão, ver BRANDÃO,
Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978.
77
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 69.
78
IDEM, p.70.
76
34
tanto que o autor de Combates e Batalhas afirma que organizou na sua própria casa um
pequeno laboratório, com ácidos, bases e sais. Foi neste laboratório que fez as primeiras
experiências químicas.
Fez longas caminhadas aos redores da cidade de Recife, no intuito de conhecer de
perto a Natureza e a vida dos povos que ali moravam. Para Octavio, a principal finalidade de
suas caminhadas era "fundir o passado e o presente em nome do futuro, estudar nos próprios
locais a história das lutas do povo brasileiro"79. O fruto dessas andanças foi o texto que veio a
ser publicado no Jornal do Recife, a 17 de maio de 1914, o estudo denominado "Aspectos
pernambucanos nos fins do Século XVI".
Neste estudo, Octávio descreve as paisagens naturais e as condições históricas,
econômicas e sociais da capitania de Pernambuco. Descreve a cidade de Olinda, as fontes
econômicas: os engenhos de açúcar, o pau-brasil e a cultura do algodão. Nos chama atenção a
descrição da natureza que, baseada em suas observações, funde os aspectos sociais com os
biológicos daquele espaço.
Para além das matas, existe o sertão, havendo entre os dois uma zona de
transição, o agreste.
Doloroso, dilatando-se a perder de vista, o sertão infundia na alma uma
angústia inominável. A natureza tinha sido cruel para ele. As raras árvores
eram tristes e silenciosas. Nenhum homem por aquela amplidão. Entretanto,
algumas nopallas e bromeliaceas davam um pouco de vida à agonia da
paisagem...80
Octavio anuncia este como início de uma fase de sua vida, a primeira etapa do
desenvolvimento de uma atividade que se prolongou até 1917, quando terminou de escrever
Canais e Lagoas, um estudo sobre a história natural e geográfica das terras de Alagoas.
Mesmo com os interesses paralelos, Brandão manteve seus estudos na Escola de
Farmácia e, desta forma, formou-se em dezembro de 1914. Seu trabalho final foi relacionado
aos estudos da natureza.
Apresentei uma longa tese científica sobre aspectos da botânica brasileira: a
família das labiadas em geral e a erva-cidreira em particular. No ato da
colação de grau, fui saudado carinhosamente pelo dr. Arnóbio Marques,
professor de história natural, que me abraçou e anunciou solenemente: "O sr.
terá um grande futuro na ciência!".81
Depois que se formou, Octavio voltou a sua terra natal. Passou os nove primeiro meses
de 1915 em Viçosa, onde trabalhou na farmácia do seu tio e médico, Manoel Brandão. Foi
79
IDEM, p.73.
BRANDÃO, Octavio. Aspectos Pernambucanos no fim do século XVI. IN: Arquivo Edgar Leuenroth.
81
IDEM, p.79.
80
35
onde pode começar a praticar o aprendizado do seu curso.
1.4. Maceió e os Canais e Lagoas
Ainda em 1915, o jovem Octavio partiu para Maceió, onde viveu até 1919, apenas
passando as férias em sua terra natal, Viçosa. Foi em Maceió que viveu suas primeiras
experiências ao lado do movimento operário, tendo contribuído para alguns jornais da classe
trabalhadora. Foi em Maceió também que concluiu seu estudo que seria publicado sob o título
de Canais e Lagoas, e em Maceió teve contato com intelectuais progressistas, que viraram
seus companheiros, dos quais Octavio lembra com grande carinho.
Em Maceió, encontrei um pequeno grupo de amigos: o poeta Faustino de
Oliveira, empregado no comércio; o esteta José Avelino Silva, também
empregado no comércio; o pintor João Moreira e Silva; os militantes
Rosalvo Gueres e Olímpio Sant'Ana. Deram-me conforto moral. Deles
guardei grata recordação.82
Ao chegar em Maceió, com a ajuda de Manoel Brandão, seu tio materno, abriu uma
pequena farmácia, cujo nome era Pasteur a pedido do mesmo tio. A farmácia ficava no bairro
da Levada, região muito pobre, onde, segundo Octavio, sua primeira professora, Maria do Ó,
passou os últimos anos de sua vida.
Foi através do trabalho na farmácia que Octavio teve contato com o povo que vivia
naquele bairro, pescadores, canoeiros e lavradores pobres daquela região que ele denominava
de região dos canais e das lagoas. Esta experiência significou para o jovem o chocante contato
mais próximo com a realidade brasileira, que "era a miséria e o abandono do nosso povo". 83
Naquele momento, Octavio começava a ser visto em Alagoas como um jovem
intelectual promissor. Por isso, ainda em 1915 teve oportunidade de desenvolver sua veia
poética e publicar no principal jornal do estado, o Jornal de Alagoas. Neste órgão, Octávio
publicou A Poesia da Terra Natal, um poema com o título de Fausto, além de alguns sonetos
como Á Árvore de Ouro.
Como já dissemos, grandes intelectuais saíram de Alagoas. Mas para Octavio o grande
problema dos nossos intelectuais era o menosprezo total pela terra natal e até pelo Brasil. A
exemplo do pintor Rosalvo Ribeiro, que tem grande parte de suas obras inspiradas nas
paisagens europeias. Para Brandão,
82
83
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.81.
IDEM, p. 82.
36
Nada tinham de realista, isto é, não partiam da realidade viva, concreta,
palpitante, em perene movimento, desenvolvimento e transformação.
Voltavam-se para a Europa em geral e para uma Grécia artificial, de fancaria
[sic], tão longe da verdadeira Grécia Clássica. Esperavam da Europa o santo
e a senha. Fechavam-se na sua Torre de Marfim. Cantavam suas dores
mesquinhas, pessoais. Choravam seus amores infelizes, de um romantismo
decadente e sepulcral. Nada tinham de comum com o realismo e o
romantismo heróico de Castro Alves e Euclides da Cunha. Escreviam
futilidades, frivolidades. Eram fósseis, múmias. Tinham parado no passado
morto - no romantismo bolorento, no parnasianismo formalista ou no
simbolismo de frases pomposas e vazias.84
Sem dúvidas, grande parte dos intelectuais alagoanos estava ligada aos grandes
proprietários rurais, posto que a educação formal ainda era muito cara e, portanto, acabava
sendo exclusividade destes. Além disso, boa parte virava "bacharel" em universidades
europeias, como a de Coimbra, ou em outros estados do país, como Recife e Rio de Janeiro. A
formação fora do estado permitia o contato com outras culturas, o que fazia com que parte
desses buscassem “modelos de organização social que deveriam ser aqui implementados”85, e
inspirassem sua arte a partir do que era considerado cultura civilizada.
Acreditamos que a combinação entre a vida na farmácia e o contato tão forte com o
povo da terra, junto à revolta pelo desprezo a sua terra natal e a paixão pelas ciências naturais,
despertaram ainda mais o interesse do jovem Octavio Brandão a desenvolver a obra Canais e
Lagoas. Na realidade, para além do estudo mineralógico das terras alagoanas, o livro tenta
despertar o olhar do leitor para a tão bela natureza alagoana que ele sempre admirou. Sobre o
estudo da natureza, Octavio afirma:
O estudo da Natureza é o ponto de partida para o descobrimento das riquezas
do país, para o seu desenvolvimento industrial, para a verdadeira
industrialização, a criação da siderurgia, da alta metalurgia, a produção de
meios de produção.
A natureza é o fundo da paisagem humana, social.86
Por isso, em 1916 iniciou suas andanças aos redores de Maceió, na tentativa de estudar
cada vez mais de perto a vegetação, as lagoas e os povos ribeirinhos. Octavio afirma que em
abril de 1916, com uma canoa a motor, iniciou suas viagens no território alagoano e percorreu
1500 quilômetros. Destes, 600 foram a pé87.
Preocupado com o futuro do Brasil, cheio do entusiasmo e da esperança da
adolescência, marchei ao vento, ao sol e à chuva. Atravessei cidades e
84
IDEM, p. 84.
MADEIRA, Maria Das Graças de Loiola. Itinerário do Educador Alagoano Francisco Domingues da Silva
(1847-1918). In: VERÇOSA, Élcio. Intelectuais e Processos Formativos em Alagoas (séculos XIX e
XX). Maceió: Edufal, 2011, pág. 52.
86
BRANDÃO, Octavio. Canais e Lagoas. Maceió: Edufal, 2001. 1 v., p. 10.
87
IDEM, p. 21.
85
37
povoações, o litoral e o interior, vales e montes, baixios e tabuleiros, matas e
capoeira, campinas e planaltos. Afundei nos grotões selvagens. Subi rios e
riachos, por vezes até nascente88.
Nestas viagens conheceu de perto vegetações ainda não exploradas pelos homens,
conheceu de perto o povo que vivia à margem dos canais e das lagoas, sua cultura, história e
folclore. O livro é marcado pela exposição desta região através de uma linguagem metafórica
e poética. Sobre as lagoas o autor afirma:
Cada uma das lagoas é como um coração a contrair-se na sístole da vazante e
a dilatar-se na diástole da enchente. Os rios fazem o papel de veias, isto é, de
vasos que levam sangue ao coração. Os canais são como artéria a conduzirse e a dispersar a água das lagoas pelo corpo do oceano.89
O autor expõe e caracteriza com riqueza de detalhes os rios, as lagoas, os minerais, o
clima e a flora alagoana. Chega a criar hipóteses matemáticas para, de acordo com suas
observações, prever quando novas enchentes ocorreriam no estado. Segundo Octavio, o
objetivo no livro não é descrever uma enchente e sim "mostrar que há um ciclo para as cheias,
do mesmo modo que existe um para as secas, como Euclides da Cunha acentuou".90
Fica claro, neste trecho, a influência que a obra de Euclides da Cunha exerce sobre a
construção do livro Canais e Lagoas. Durante vários momentos do livro, Octavio Brandão faz
menção ao autor de Os Sertões.
Outro aspecto presente no livro é a exaltação do povo do Norte. "Quando o [sic]
brasileiro e, especialmente, o nortista não é um incapaz. É um povo destinado a um grande
futuro, quando desperta da modorra em que vive".91
Sem dúvidas, nas andanças de Octavio Brandão para o desbravamento da região dos
canais e das lagoas, uma das coisas que mais lhe chamou atenção foi a condição de
miserabilidade na qual vivia o povo ribeirinho. De tal forma, que foi impossível o livro
restringir-se a exploração dos aspectos naturais e não propor soluções para aquelas camadas
populares que, segundo Brandão, "foram fadados a grandes destinos e que vivem, no entanto,
nem sei como".92
A solução apontada pelo autor é que as terras sejam divididas para o povo ribeirinho93
88
IDEM, p.86.
IDEM., p. 41.
90
BRANDÃO, Octavio. Canais e Lagoas. Maceió: Edufal, 2001. 1 v., p. 113.
91
IDEM, p. 142.
92
IDEM, p. 102.
93
Não estamos indicando que ele estava propondo algo como reforma agrária ou que aqui pudéssemos
vislumbrar um nexo com a luta pela reforma agrária, porém é possível que a pesquisa realizada no Canais e
Lagoas tenha contribuído para potencializar o engajamento de Octávio com essas questões mais na frente.
89
38
e que sejam tomadas medidas de higienização. Além disso, percebendo a exploração da
natureza em larga escala pelo homem, propõe diversas medidas de preservação da natureza.
São necessárias algumas noções de higiene, uma certa instrução e maior
repartição da terra, de modo que o trabalhador de enxada fique preso a ela,
e não trabalhando em terra alheia.
A atual organização social é a causa essencialíssima da miséria do nosso
povo. Existem outras, não nego, mas esta é a principal. (Grifos do autor)94
No entanto, para o próprio Octavio Brandão, não é nenhum dos aspectos expostos
acima que faz desta uma obra de grande importância. O aspecto que fez com que o autor
buscasse o reconhecimento da sua obra durante toda a sua vida foi a descoberta feita de
indícios de petróleo em Alagoas. Octavio afirma ter encontrado indícios petrolíferos em 14
lugares do Estado e, portanto, já sugere a construção de um porto, a desobstrução e a
drenagem dos rios. Propõe diretamente:
A exploração do petróleo nos lugares seguintes: na praia ao sul da foz do rio
Maragogi; no sítio Camacho; em Japaratuba; em Pitingui; na Barreira do
Boqueirão; ao norte de Porto de Pedras; na foz do rio Manguaba; na Barra de
Camaragibe; no Riacho Doce, na estação Utinga; na Volta d'água; no Broma,
na Bica da Pedra e no Porto Francês.95
A falta de reconhecimento do seu trabalho sempre foi um incomodo ao longo da vida
de Octavio. Ninguém acreditava que pudesse existir petróleo no Brasil, muito menos em
Alagoas. Novos estudos que falavam sobre a existência do Petróleo só vieram a surgir nos
anos trinta, feitos por Monteiro Lobato e Oscar Cordeiro que, talvez por ironia do destino, são
considerados os pioneiros da defesa do petróleo no Brasil. Amaral afirma: "Apenas em 1939,
vinte anos após a publicação do Canais e Lagoas, finalmente o 'diamante negro' jorrava, mas
por ironia da história, em Lobato, município da Bahia".96
1.5. Conferências e polêmicas sobre Canais e Lagoas
Sobre seus estudos dos Canais e Lagoas, Octavio Brandão, mesmo antes da
publicação do livro completo, realizou três conferências na cidade de Maceió, socializando
resultados parciais de suas pesquisas. As três tiveram caráter diferenciado.
Canais e Lagoas ficou pronto em outubro de 1917. Mesmo antes da sua conclusão,
alguns trechos puderam ser lidos, pois foram publicado no jornal A Semana Social, editado
94
BRANDÃO, Octavio. Canais e Lagoas. Maceió: Edufal, 2001. 1 v., p. 142.
BRANDÃO, Octavio. Canais e Lagoas. Maceió: Edufal, 2001. 1 v., p. 145.
96
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octávio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p. 32.
95
39
pelo tipógrafo Antônio Canellas. A série foi publicada através de dez edições do jornal, no
período entre 10 de abril de 1917 até 03 de julho do mesmo ano.
Mesmo concluso em 1917, o livro só foi editado e publicado no ano de 1919. Octávio
dedicou a obra ao tio Alfredo Brandão, pela influência que este exerceu em sua educação, e à
amada mãe, Maria Loureiro Brandão. A ela, Octávio dedica um poema:
Que mais te poderia dar do que este meu livro, escrito com ternura, e cheio
de luz, de sonho e de dor.
Não cheguei a conhecer sequer o mundo de amor que teu coração, como
uma ânfora ideal, guardava para o filho sem consolo.
Não deixaste mais que uma lembrança apagada na memória humana. Mas
esta lembrança que, para os outros, nada vale, para mim é um pensamento
amargo.
Ó nem sequer te conheci!
Não tenho ouro para elevar um monumento de mármore à tua memória
querida. Por isto, dedico à tua boa e simples e carinhosa alma esta página,
que irá evocar do esquecimento de uma campa humilde, lá no torrão natal um nome, uma saudade e uma dor!97
A primeira conferência foi realizada no dia 24 de fevereiro de 1917, no Teatro
Deodoro, em Maceió. Segundo Octavio a conferência foi "em homenagem à Constituição da
República".98A realização da primeira conferência do jovem intelectual mereceu uma nota no
Jornal de Alagoas. No dia 22 de fevereiro de 1917, sob a direção do senhor Luiz Silveira, é
possível ler no jornal:
O jovem intelectual patrício sr. Octávio Brandão, nosso particular amigo,
veio ontem, pessoalmente trazer-nos um convite para assistirmos à sua já
aqui anunciada conferência sobre as nossas lagoas, a realizar-se ao próximo
sábado do corrente, às 11 horas, no Teatro Deodoro.
Ficamos muito gratos a gentileza do distinto conferencista.99
A segunda conferência aconteceu no dia 12 de outubro de 1917, quando a pesquisa de
Octávio já estava mais próxima da conclusão, portanto, contou com elementos que não
poderiam ser encontrados na primeira. A conferência foi feita no Instituto Arqueológico e
Geográfico Alagoano e foi denominada A Mineralogia e Geologia dos Canais e Lagoas.
No seu livro Combates e Batalhas, Octávio afirma que "Compareceram muitos
rapazes e moças, intelectuais e simples homens do povo".100 Também esta conferência contou
com uma chamada no Jornal de Alagoas e, desta vez, com elogios mais diretos ao jovem
intelectual.
97
BRANDÃO, Octavio. Canais e Lagoas. Maceió: Edufal, 2001. 1 v., p. 21.
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.89.
99
CONFERENCIAS. Jornal de Alagoas, Maceió, nº:42, 22 de Fevereiro de 1917. In: Arquivo Público de
Alagoas.
100
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.89.
98
40
O farmacêutico Octavio Brandão realiza no dia 12 do corrente, às 19 horas,
no Instituto Arqueológico, sua conferência, dissertando sobre A mineralogia
e geologia dos canais e lagoas alagoanos.
Dado os conhecimentos e o talento do jovem escritor é de prever o
magnífico sucesso que vai obter seu novo trabalho.101
Nesta conferência, ao que parece, Octavio apresentou com mais clareza a composição
mineralógica das terras pesquisadas e falou da descoberta pioneira da existência de 14 lugares
com indícios de petróleo no estado.
Na segunda conferência, descrevi a composição mineralógica dos terrenos
percorridos. Mostrei sua formação geológica, isto é, o longo processo do
surgimento e desenvolvimento histórico da terra alagoana. Apresentei
publicamente as provas colhidas nas pesquisas de campo e investigações
diretas: folhelhos petrolíferos, muitos outros minerais encontrados, materiais
geológicos, espécimes paleontológicos, (plantas e peixes fossilizados,
petrificados).102
Segundo Octavio, o impacto da descoberta de indícios petrolíferos na conferência de
1917 despertou a raiva dos trustes estrangeiros e seus agentes no Brasil. Para o autor, já a
partir desta conferência, ele teria sido vítima de perseguições.
Trustes e agentes fizeram tramas de toda espécie, começando pela
conspiração do silêncio. Seus "técnicos" e "cientistas", corrompidos,
afirmavam a mentira de que em Alagoas, as rochas cristalinas ficavam logo
abaixo da superfície. Portanto, era "impossível" que aí existisse petróleo...103
Aqui, cabe um breve excerto para percebemos não só a importância que a descoberta e
a afirmação de Octavio possui, mas também o viés interpretativo que ele dava ao fato de que
tal descoberta estava sendo silenciada. Para tanto, remontamos a um debate ocorrido duas
décadas depois. Monteiro Lobato no livro O escândalo do petróleo e ferro, apresenta a tese de
que existiu um boicote a exploração do petróleo brasileiro, não por complô contra nenhum
pesquisador, mas por necessidade do capitalismo para o qual era mais rentável manter o
monopólio do líquido negro nas mãos do imperialismo norte americano.
Como então o Brasil se conservou de olhos fechados por tanto tempo? […]
O petróleo está hoje praticamente monopolizado por dois imensos trusts a
Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo,
dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; como
dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas
administrativas.104
Depois de muita luta política na imprensa e nos órgãos responsáveis já no final da
101
CONFERENCIAS. Jornal de Alagoas, Maceió, nº:228, 07 de Outubro de 1917. In: Arquivo Público de
Alagoas
102
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.89.
103
IDEM, p.105.
104
LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e ferro. São Paulo: Brasiliense Ltda, 1957. 7 v. (Obras
Completas de Monteiro Lobato), p. 9.
41
década de 30, Monteiro Lobato recebe uma carta assinada por Harry Koller, ex-geólogo da
Standar Oil, na qual seus argumentos são ressaltados:
Harry Koller ingenuamente confessa tudo que há quatro anos venho
afirmando pela imprensa. Confessa o programa dos trusts, nossos
abastecedores de petróleo, de manter o Brasil em estado de escravidão
petrolífera. Confessa a campanha de organização de contratos para o
acaparamento das boas estruturas com o fim de impedir que os nacionais as
explorem. Confessa a intensidade com que estudam nossa geologia e
adquirem terras. Confessa o interesse que demonstram em impedir a
exploração do petróleo brasileiro. Confessa tudo quanto, qual Cassandra em
terra de surdos, vivo proclamando por todos os meios.105
Monteiro Lobato fala sobre Alagoas, cita como um caso escandaloso. Em 1922 o
Serviço Geológico e Mineralógico Federal, subordinado ao Ministério da Agricultura, indicou
que se desenvolvesse a perfuração de poços em Alagoas, especificamente na região de Riacho
Doce. Para Octávio, essa indicação fez parte de uma grande batalha travada por ele já
enquanto morava no Rio de Janeiro.
O jovem tentou conseguir uma vaga para trabalhar no Museu Nacional, onde já
desenvolvia trabalho voluntário. A situação financeira no Rio de Janeiro estava cada vez pior.
Apresentou sua pesquisa, porém, a resposta que recebeu foi que havia na sua frente mais de
2400 pessoas indicadas e as ordens para o Ministério da Agricultura, dada pelo então
presidente Epitácio Pessoa, era “de não fazer novas nomeações”106.
Em contrapartida, Octavio acredita que a apresentação de sua pesquisa suscitou, no
mínimo, curiosidade e que foi por força deste encontro que se indicou o início da pesquisa nas
terras dos canais e lagoas. Em 1926, Eusébio de Oliveira, apresentou um relatório ao ministro
da Agricultura, o qual é comentado por Monteiro Lobato:
Mas a intenção de não tirar petróleo prova-se também como um fato
concreto dos mais interessantes. Na minha “Carta Aberta” afirmei que o
“petróleo já fora revelado no Brasil, mas que sua descoberta vinha sendo
sabotada”. Vou provar o asserto (sic) com apresentação de dois documentos.
O primeiro é um trecho do relatório apresentado em 1926 ao Ministro Lyra
Castro pelo Sr. Eusébio de Oliveira, então Diretor do Serviço Geológico. Diz
ele: 'ESTADO DE ALAGOAS. O Serviço Geológico até hoje não conseguiu
vencer as grandes dificuldades que se têm apresentado nas sondagens de
Riacho Doce devido à natureza extremamente friavel das camadas e às
dobras caprichosas, as quais, facilitando o escorregamento das camadas,
fazem que o furo diminua de diametro, inutilizando a perfuração. Nas
sondagens ali executadas (Riacho Doce) TEM SIDO ENCONTRADO
PETRÓLEO LIVRE. Por isso e pela possibilidade de se encontrar outros
sistemas geológicos abaixo da conhecida série de Alagoas (cretaceo superior
105
106
IDEM, pp. 105 e 106.
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.154.
42
ou terciário), a execução dessa perfuração até atingir as rochas cristalinas é
perfeitamente justificável sendo sem fundamento as críticas que, do ponto de
vista científico, têm sido feitas à execução desse furo'.107 [Grifos do autor]
Por isso, Monteiro Lobato chama o caso de Alagoas de escandaloso, tendo em vista
que ainda na década de 20 o petróleo jorrou naquelas terras, porém foi ignorado pelo poder
público. De acordo com o autor, ainda em 1918, o geólogo alemão José Bach, que vinha
fazendo estudos no trecho alagoano da costa nordestina, comunicou as autoridades que na
região de Riacho Doce, havia petróleo para abastecer o mundo108. Lobato, considera Bach
como o primeiro a estudar e afirmar a existência de petróleo naquela região, porém não teve
tempo para explorar, pois “logo que formou uma pequena companhia para explorá-lo, 'foi
morrido afogado' numa lagoa”109.Assim como as pesquisas de Octavio, as pesquisas de José
Bach não foram ouvidas pelo poder público.
Somente alguns anos depois do episódio relatado por Eusébio de Oliveira, o escândalo
tem prosseguimento. Monteiro Lobato, junto com Edson de Carvalho e Lino Moreira, anos
após a morte de Bach fundaram a Cia. Petróleo Nacional e tentaram as primeiras perfurações.
No entanto, o Departamento Nacional de Produção Mineral abriu campanha explícita
contra a empresa. Segundo Lobato, vários foram os meios usados na tentativa de desmoralizar
a empresa, tais como acusações na imprensa e sabotagens, que o próprio vai descrever em seu
depoimento no livro O escândalo do petróleo e ferro.
E mesmo diante das intrigas, sabotagens e pouco recurso, Edson de Carvalho consegue
perfurar 250 metros e fazer jorrar petróleo em Alagoas. Monteiro Lobato, afirma que Osman
Loureiro não cabia em si de tanto entusiasmo diante do que seus olhos viam, por isso mandou
ao ministro da Agricultura telegrama em que contava a descoberta em terras alagoanas. Aliás,
Lobato aponta como seu grande aliado nesta luta Osman Loureiro, governador do estado de
Alagoas entre os anos de 1933 a 1940.
Quando os geólogos representantes do governo chegaram a Maceió, constataram: “o
petróleo saia mesmo. Mas em vez de puxar o forceps, Bourdot saca do bolso um ofício de
Fleury da Rocha exigindo a entrega imediata da sonda federal com que Edson estava
perfurando”110.
107
LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e ferro. São Paulo: Brasiliense Ltda, 1957. 7 v. (Obras
Completas de Monteiro Lobato), pp. 81 e 82.
108
IDEM, p. 63.
109
LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e ferro. São Paulo: Brasiliense Ltda, 1957. 7 v. (Obras
Completas de Monteiro Lobato), p. 49.
110
IDEM, p. 50.
43
A notícia foi escandalosa, ganhou espaço na imprensa e em comícios, repercutiu de
norte a sul do país. Para Lobato, era a prova do que ele já vinha dizendo. Havia ganhado um
aliado, Osman Loureiro, que via diante dos olhos a possibilidade de riquezas em terras de
povo tão miserável e que, desta forma, tomou a batalha para si. Assim, passa a ser identificado
por Lobato como “homem de destino”111. Só no dia 25 de dezembro de 1935, Loureiro
conseguiu firmar contrato com a empresa de estudos geofísicos Piepmeyer e Cia e, mesmo
assim, ainda encontrou diversos entraves federais para realizar as pesquisas. Sobre o caso,
Lobato afirma:
Graças à visão, decisão pronta, energia e hombridade de Osman Loureiro e
Edson Carvalho, o pequeno estado nordestino vai ter petróleo, vai
enriquecer-se tremendamente, vai exportá-lo até para São Paulo (…) Os
Interesses Ocultos112 são poderosíssimos, oniscientes e onipresentes.
Controlam os bancos. Controlam o mundo. Daí as inesperadas e invencíveis
resistências anti-petrolíferas que os pioneiros encontram de todos os lados,
sobretudos nas zonas já bastante desenvolvidas economicamente. Os
pioneiros só poderão vencer atacando as linhas de menor resistência – os
estados de gente magra.
Bendita sejas tu, ó sadia magreza alagoana!113
Salta à vista a diferença de análise entre Octavio Brandão e Monteiro Lobato quanto
ao caso do petróleo no Brasil. Enquanto Octavio afirma que a atitude do governo era parte de
um complô dirigido contra ele, Monteiro percebe o fato como expressão da ordem econômica
mundial, como parte da manutenção do monopólio de mercado por grandes empresas do
imperialismo norte-americano e não como um boicote de silêncio individualizado contra
nenhum dos pioneiros da descoberta do petróleo no Brasil.
Como consta no livro Canais e Lagoas, havia indícios fortes, relativos à geologia das
terras alagoanas, que indicavam a existência do petróleo e o autor indica onde explorar. A
existência de petróleo em alguns dos locais indicados por Octavio Brandão foi confirmada
alguns anos depois, como o exemplo de Riacho Doce exposto acima.
Em contrapartida, a defesa de que houve um complô contra a Octavio passou a ser
feita por ele com mais força a partir do final da década de 40, quando voltou de seu exílio. O
petróleo, portanto, já era uma realidade no país. A forma como ele se insere no debate a como
constrói a memória relativa ao assunto, parece-nos, portanto, mais uma maneira de auto-
111
IDEM, p. 55.
Interesses Ocultos é o termo utilizado por Lobato para denominar o que ele caracteriza como rede de
dominação capitalista, neste caso o monopólio do petróleo por dois imensos trusts, a Standard Oil e a Royal
Ducht & Shell.
113
LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e ferro. São Paulo: Brasiliense Ltda, 1957. 7 v. (Obras
Completas de Monteiro Lobato), p. 62.
112
44
afirmação de sua importância política e intelectual para o Brasil. A volta ao Brasil não veio
acompanhada de grandes homenagens e reconhecimentos, trata-se de um recomeço de vida
depois de anos exilado na Rússia. Desta forma, a defesa da existência de um “complô” parece
ser mais uma das formas de justificar o fato de não ser ele reconhecido como o “pioneiro do
petróleo” no Brasil.
Octavio Brandão nunca se conformou com o fato de não ter sido reconhecido como o
responsável pela descoberta do petróleo no Brasil. Mesmo diante disto, ele declara em suas
memórias sua felicidade pelo desenvolvimento posterior do petróleo no Brasil: "Apesar de
tudo, essa batalha não foi em vão. É uma grande alegria verificar os progressos do monopólio
estatal do petróleo. Que a Petrobrás avance vitoriosamente! Que o Brasil conquiste a
libertação nacional e social!"114.
Muitos anos depois, Monteiro Lobato dedicou uma homenagem ao alagoano já na
abertura do seu livro Escândalo do Petróleo e do ferro:
Há mais de um quarto de século, um menino de 20 anos, filho do Norte,
lançou um livro de gênio - caótico, meio ciência, meio hino divinatório, o
mais profundo grito d'alma do seu tempo e o menos ouvido e compreendido.
Considerado "louco", foi perseguido, difamado e escorraçado de sua terra.
Mas suas palavras ficaram - e quero que na entrada deste livro figurem
algumas, que cito com profunda emoção (…) O livro de Otávio Brandão foi
publicado em 1919, há 37 anos, portanto, e os petróleos de Alagoas – e do
Brasil inteiro – continuam sabotados...115
Voltando ao início do século, apesar de toda a polêmica em torno da descoberta de
indícios de petróleo, as duas primeiras conferências de Octavio Brandão foram bem acolhidas
pela imprensa e pelos intelectuais da cidade. Já a terceira conferência que aconteceu no dia
31 de março de 1918, na mesma sede da Sociedade Perseverança e Auxílio teve outro caráter.
Cada vez mais envolvido com a luta dos trabalhadores, Octavio centrou a segunda
parte da conferência nos problemas sociais do estado e na necessidade de dividir as terras e
educar o povo dos canais e lagoas.
Alagoas era um estado muito miserável, dominado por grandes oligarquias e coronéis
do açúcar. As principais fontes de renda eram a indústria açucareira e a algodoeira. A
população era, em sua maioria, analfabeta. Segundo Maciel, índices na casa dos 80% de
analfabetismo eram comuns no Nordeste, e em Alagoas não podia ser diferente:
114
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.104.
Octavio Brandão o pioneiro do petróleo brasileiro desde 1917 (recorte de jornal). Coleção Octávio Brandão.
IHGAL.
115
45
ÍNDICES DE ANALFABETISMO EM ALAGOS (1872 - 1920)116
ANO
ALFABETIZADOS
ANALFABETOS
% de analfabetismo
sobre a população
total
1872
41.913
306.096
88,0
1890
70.115
441.325
86,5
1900
129.563
519.710
80,0
1920
144.535
834.213
85,2
O que Brandão narrou na sua terceira conferência foi o estado de miserabilidade que
ele viu na região dos canais e lagoas, pessoas que sobreviviam do que pescavam diariamente.
É claro que, em uma sociedade dominada pelos coronéis do açúcar, a conferência de um
jovem intelectual promissor, como era visto Octavio Brandão, propondo divisão das terras e
educação do povo, não poderia ser bem recebida.
Nos anos posteriores, Octavio reconheceu diversas falhas que seria possível encontrar
neste livro. A primeira, e uma das que ele considera principal falha, é o fato de o livro não se
basear na dialética marxista e sim, nas palavras do autor, "numa dialética primitiva e
espontânea"117. Junto a este primeiro problema, o autor aponta também a falta de relação dos
problemas sociais e do uso das riquezas naturais ao imperialismo norte-americano, além de
não apontar qual é o verdadeiro problema da divisão das terras no estado, que para o autor,
está relacionada à condição semifeudal do país.
Por fim o autor afirma que não apresenta caminhos para a resolução dos problemas
levantados, "apresenta apenas aspectos parciais do sistema social dominante e não mostra o
caminho para a libertação nacional e social do Brasil"118.
Achamos que problemas relativos à falta de clareza teórica no estudo de Octavio
Brandão são mais que comuns no início do século XX no Brasil, principalmente no que diz
respeito à teoria marxista, tendo em vista que a primeira versão do livro Manifesto do Partido
Comunista, de Karl Marx e Frederich Engels, foi traduzida para o português só em 1922, pelo
116
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Trabalhadores, Identidade de Classe e Socialismo: Os gráficos de
Maceió (1895-1905. Maceió: Edufal, 2009, p. 57.
117
BRANDÃO, Octavio. Canais e Lagoas. Maceió: Edufal, 2001. 1 v., p. 16.
118
IDEM., p. 17.
46
próprio Octávio Brandão. Além disso, a própria realidade na qual está inserido o intelectual
pode limitar o entendimento teórico na sua totalidade. Por isso, todos os elementos elencados
pelo autor, anos depois, não diminuem o valor da obra.
Canais e Lagoas é uma obra ímpar, na qual Octavio Brandão apresenta as mais
diversas características da natureza de Alagoas, combinado com a realidade miserável do
povo sofrido que vivia nesta terra. O estudo profundo da geografia, a mineralogia e a geologia
da região permitiu que o autor pudesse ser o primeiro a sugerir a possibilidade de existência
de petróleo no Brasil.
As críticas ao livro Canais e Lagoas ainda persistiram por muito tempo. Em 1919, já
morando no Rio de Janeiro, Octavio continuou as pesquisas pelas ciências naturais e
apresentando conferências das mais diversas. Em suas memórias, Octávio cita críticas feitas
por intelectuais contemporâneos a ele, a exemplo do escritor Lima Barreto, Monteiro Lobato,
José Oiticica, o professor Fábio Luz, o jornalista José Patrício Filho, dentre outros.
O jornalista José Patrício Filho era um dos colunistas do Jornal A Notícia, do Rio de
Janeiro. Na edição do dia 22 de Outubro, assinando sob o pseudônimo de João das Regras, o
Jornalista presta homenagem a Octavio Brandão.
“Canais e Lagoas” não tem, entretanto – apesar de o ser – a aridez de forma
característica aos livros de conhecimento experimentais. Em cada página
surge um trecho de estimável louvor literário, que, pela louvável
preocupação do detalhe sincero, pouco a pouco nos vai revelando a
paisagem, os costumes, a humanidade regional, com uma ternura e uma
veracidade que são o mais cabal documento dos louváveis sentimentos
patrióticos do autor. […] “Canais e Lagoas” nos revela para o futuro escritor
poderoso com a capacidade de estudo e de realização literária propícia a
cantar, dentro da verdade científica, as maravilhas da nossa terra, que ama de
um amor esclarecido e útil.119
Em Alagoas, o escritor também recebeu diversos elogios. O Poeta Faustino de Oliveira
dedicou uma série de três artigos, publicados no ano de 1920 no Jornal do Commércio sobre o
livro do jovem alagoano. O poeta não poupa elogios a obra de Octávio que, para ele, além de
ser de uma grande importância científica, é de uma grande qualidade artística.
O seu livro não é botão de flor que indeciso se entreabre. É fruto sazonado, é
milagre palpável, é dia plenamente claro, desbordando em oceanos
marulhantes de luz.
É uma documentação perfeita das grandes verdades adstritas ao passado,
presente e futuro da nossa pátria de vastos empreendimentos, onde se
revolve uma multiplicidade infinita de problemas, que se chegassem a ser
119
REGRAS, João das. Canaes e Lagoas – por Octávio Brandão. IN: A Notícia, Rio de Janeiro, 22 de Outubro
de 1919.
47
resolvidos, legariam a nossa História a maior afirmação de progresso
conquistado por um povo.
Em “Canais e Lagoas” há páginas que são verdadeiras epopeias,
incomparáveis cantos gloriosos a beleza bárbara e pagã da nossa terra, que
surge na maravilha delirante das suas lagoas rebrilhando à festa das
alvoradas ou melancolizando-se à tintura de açafrão do sol poente, nos seus
canais serpenteantes, na opulência embriagadora das nossas paisagens, nas
suas matas vibrando em hinos milenares de exuberância, nas suas colinas
ondulando além pelos horizontes esbatidos.120
Mas não é só a riqueza em termos de literatura que Faustino Oliveira ressalta na obra.
O poeta dedica grande espaço do seu artigo para chamar atenção dos alagoanos para as
“injustiças” sofridas por Octavio, garoto de classe média que tentou dedicar sua obra
intelectual às riquezas e belezas alagoanas. Que se debruçou sobre os problemas sociais do
estado. Que enfrentou as oligarquias canavieiras e propôs que as terras fossem divididas, que
o povo da região dos Canais e Lagoas tivessem direito à dignidade. Faustino Oliveira trata
das dificuldades da infância de Octavio, na tentativa de demonstrar a superação do garoto que,
apesar de todos os entraves, conseguiu desenvolver aquele trabalho intelectual que, para
Faustino, era de grande qualidade. Por fim, termina seu último artigo demonstrando a
indignação de ver o exílio e as dificuldades de Octavio.
Li algures que “todo espírito de escól (sic), que tem contrastar com o meio,
há de sofrer no isolamento uma tortura intima, que é a vingança dos deuses,
o tributo da superioridade”.
Octávio está nesse caso.
Os seus sofrimentos, as suas âncias de afogado, a sua agonia de soterrado
vivo em meio à maravilha de sua pátria privilegiada, não são mais do que o
amargo tributo da sua superioridade, o castigo lançado de além túmulo pelos
deuses sobre os homens que os destronaram um dia do Olympio, cheios das
grandes verdades das novas eras, para reinar sobre eles, através dos séculos
futuros.121
Canais e Lagoas, apesar de ter recebido muitos elogios, também recebeu críticas de
intelectuais e jornalistas da época. Octavio cita algumas em suas memórias. Em nossa
pesquisa, nos chama atenção o texto publicado no jornal A Batalha, que circulava na cidade
de Lisboa em 1920. No artigo, escrito por B.122, a obra é reconhecida como uma obra de
qualidade, melhor dizendo, um trabalho de certo valor tanto científico quanto artístico. Já no
inicio o autor afirma “faltaríamos á verdade se por acaso afirmássemos considerar como uma
obra-prima o livro recentemente publicado por Octavio Brandão com o título Canais e
120
OLIVEIRA, Faustino. Canaes e Lagoas. IN: Jornal do Commércio, Maceió, 13 de Janeiro de 1920.
OLIVEIRA, Faustino. Canaes e Lagoas. IN: Jornal do Commércio, Maceió, 13 de Janeiro de 1920.
122
Encontramos a cópia do artigo no Instituto Histórico e Geográfico em Alagoas. Na cópia, apesar do texto ser
assinado por B., consta que este seria um pseudônimo de Neno Vasco.
121
48
Lagoas”123.
O autor da crítica consegue reconhecer traços em Canais e Lagoas que lembram obras
de Humboldt, uma das inspirações de Octavio. Porém também percebe que a juventude de
Octavio Brandão faz com que sua obra padeça de defeitos grandes. Os principais citados são
falta de objetividade, Octávio desvia do assunto principal com facilidade ao longo do livro,
falta de originalidade e “exageros” linguísticos.
Não podemos deixar de lhe apontar alguns defeitos no seu livro; e assim é
que em certos capítulos, mistura ele com algumas páginas de verdadeiro
compêndio de corografia, as exclamações e as apóstrofes as mais exageradas
num estilo cheio de pompa, todo alegórico e hiperbólico, que destoa um
pouco do gênero didático da obra.
Além disto, muitas das suas imagens e semelhanças são – na nossa opinião –
destituídas de graça e originalidade.124
Octavio Brandão não gostou das críticas que recebeu, pois para o autor nenhum dos
intelectuais “se preocupou com os problemas levantados na obra”. Octavio acreditava que as
críticas que recebeu faziam parte da conspiração do silêncio, a mesma que abafaria o livro por
trinta anos.
Canais e Lagoas foi editado e publicado em 1919, no Rio de Janeiro a partir de
economias do próprio Octavio. Sua ideia inicial era fazer uma série de três livros, chegou a
publicar a segunda edição, porém, a dedicação aos estudos teve que ficar para segundo plano.
No Rio de Janeiro, Octavio precisou trabalhar e, além disso, envolveu-se cada vez mais na
vida política.
Décadas depois, quando Octavio voltou ao Brasil do segundo exílio (quando teve que
ir com sua família para a Rússia) já no final da década de 40, fez questão de relembrar aos
brasileiros sua obra. Ao voltar para o Brasil, já com o petróleo sendo uma realidade, Brandão
procurou repercutir sua descoberta125.
1.6. Breves Conclusões
Jovem garoto, neto de senhor de engenho, Octavio Brandão, mesmo diante de uma
infância difícil, teve oportunidades de educação dignas dos filhos da burguesia alagoana. A
123
B. Sobre o livro Canais e Lagoas. IN: A Batalha. 12 de junho de 1920.
B. Sobre o livro Canais e Lagoas. IN: A Batalha. 12 de junho de 1920.
125
Encontramos críticas positivas em jornais e inclusive textos do próprio Octávio Brandão sobre a sua obra,
Canais e Lagoas, até da década de 60 em jornais de Alagoas, São Paulo e Rio de Janeiro.
124
49
paixão pela ciências naturais fez com que, mesmo estudando no curso de farmácia em Recife,
o garoto desenvolvesse pesquisas marcantes, como o Canais e Lagoas.
Não queremos aqui defender que este é um grande clássico da literatura e geologia
brasileira. Porém, achamos que tem importância histórica, principalmente no que diz respeito
ao entendimento de toda a construção da memória de Octavio Brandão. É emblemática a
forma como ele trata o desenvolvimento tardio da exploração do petróleo no Brasil como
"conspiração do silêncio" voltada contra ele. A diferença de análise é colocada com mais
clareza quando vamos às opiniões de Monteiro Lobato, que diante do mesmo fato, analisa
como consequência do desenvolvimento do capital, para o qual era mais rentável manter o
petróleo nas mãos dos grandes trustes imperialistas.
Vale ressaltar que é a partir da pesquisa das ciências naturais que nasce o interesse pela
luta contra as injustiças sociais, interesse que vai permear o restante da vida de Octavio
Brandão no Brasil e fora do país.
50
CAPÍTULO 2. Os primeiros passos nas lutas dos trabalhadores
Pensamento que não se transforma em ação,
Para mim tem valor limitado, mesquinho:
Sonho que não é um poema... ideal – guião caminho Alma que não crepita, alma sem erupção...
[…]
Amo tudo que sobe tudo que se eleva:
A quimera a evoluir o ideal libertador...
O ferro, a espada... para a imensa luz, a treva...
E o pensamento que se torna redentor...
Portanto, para ti, o meu anseio, ó Ação!
Para teu esplendor, esta minha alma estética...
Toda a minha estupenda e vasta exaltação
Para ti, ó Dinâmica – a ti, Energética!126
Este capítulo tem por objetivo traçar uma discussão sobre os contatos de Octavio
Brandão com o movimento dos trabalhadores e a esquerda, no período em que ele vivia em
Alagoas. Os embates, batalhas e a primeira prisão.
Aqui, faz-se necessário traçar uma discussão sobre a imprensa operária no Brasil,
tendo em vista que toda a trajetória de Octavio Brandão foi permeada pela participação ativa
em periódicos deste tipo no país ou fora dele. Além disso, para termos mais clareza dos
caminhos percorridos em sua trajetória político-ideológica julgamos importante iniciar a
discussão sobre os embates intelectuais que Octavio teve, as aulas sobre ciências naturais,
permeadas com discussões filosóficas, a aproximação e consequentes confusões com as
teorias revolucionárias em voga naquele período.
2.1. Segundo passo libertador: A luta ao lado dos trabalhadores em Maceió
Foi em Maceió, em 1917, que Octavio deu aquele que denominou de segundo passo
libertador da sua vida. Passou a defender as causas dos trabalhadores e travar uma batalha
contra a Primeira Grande Guerra Mundial. "Iniciei a nova batalha duríssima pelo povo
brasileiro e pelos direitos, ideais e reivindicações imediatas dos trabalhadores. Coloquei o
segundo marco na vida"127.
Ainda em Recife, em 1914, ouviu falar e leu sobre a Guerra Imperialista e viu que
126
127
BRANDÃO, Octavio. Ação. IN: A Plebe, São Paulo, 3 de Julho de 1920.
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.111.
51
quase todos os intelectuais brasileiros ficaram ao lado dos anglo-franceses, ou seja, ao lado da
Tríplice Entente. Apesar de confuso, Octavio declara que não conseguia perceber a guerra
como uma luta por uma justa questão, portanto desde o início, não defendeu a guerra.
De toda forma, o estopim decisivo para dar este segundo passo libertador foi o contato
com a miséria do povo.
O exame direto das condições de vida e trabalho dos operários e lavradores
pobres causou-me um abalo profundo. Fiquei impressionado perante o
contraste entre riquezas do Brasil e a miséria das populações. Vi a opressão
geral. Pensei: - Como gastar tempo a estudar a Terra, quando o trabalhador é
um escravo? Como combater pela emancipação dos trabalhadores?128
Travar a luta ao lado da classe trabalhadora para Octavio significou principalmente a
colaboração em diversos jornais operários daquele período, ou seja, a luta para que os
trabalhadores pudessem compreender o quanto eram explorados.
Diferente do processo de formação da classe trabalhadora europeia que veio com a
revolução industrial, no Brasil e, consequentemente, em Alagoas, essa constituição aconteceu
de forma lenta, por um lado, com uma “transição” do trabalho escravo para o juridicamente
livre; e por outro contando com a intervenção do Estado na economia (particularmente no
fomento à criação de indústrias) e na consolidação de direitos para os trabalhadores. Segundo
Plancharel, a gênese colonial da formação social brasileira engendrou “relações sociais
particulares, de modo a caracterizar a coexistência entre diferentes formas de trabalho como
uma dessas especificidades”.129Neste contexto, os trabalhadores brasileiros tiveram que
aprender/forjar a ser livre.
As condições de trabalho eram péssimas130 com jornadas de trabalho que chegavam a
durar 16 horas, com salários baixos, sem descanso semanal e nem férias remuneradas. Porém,
o Estado, possuidor de grande aparelho repressivo, agia reprimindo as movimentações
desarticulando politicamente as lutas proletárias. Em sua tese de doutoramento, Thiago
Oliveira131 coloca que:
A classe dominante brasileira, amedrontada pelas experiências das
constantes ameaças de revoltas de escravizados vividos nas últimas décadas
de escravidão, temiam violentas sublevações populares dirigidas pelos
anarquistas.
128
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978,, p.112.
PLANCHAREL, Alice Anabuki. Memórias & omissão: Anarquismo & Otávio Brandão. Maceió: Edufal,
1997, p. 40.
130
PLANCHAREL, Alice Anabuki. Memórias & omissão: Anarquismo & Otávio Brandão. Maceió: Edufal,
1997.
131
OLIVEIRA, Tiago Bernardon de. Anarquismo, Sindicatos e Revolução no Brasil. 2009. 267 f. Tese
(Doutorado) - Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009, p. 50.
129
52
É nesta conjuntura de repressão e, ao mesmo tempo, de sublevação popular, que
surgem diversos jornais direcionados aos trabalhadores brasileiros, tendo em vista, inclusive
que “a imprensa escrita foi, por décadas, o veículo de comunicação por excelência no
Brasil”132. Esses periódicos tinham grande influência entre seus leitores, muitos eram escritos
pelos próprios operários, outros, por intelectuais que tomavam seu partido. Para Araújo e
Cardoso133 os redatores “souberam aproveitar o momento histórico para agir como
catalizadores das insatisfações sociais, econômicas e políticas”. Por isso adotamos a noção de
Maciel sobre imprensa operária:
Propomos a noção de imprensa operária como a de uma imprensa
comprometida com os trabalhadores, isto é, como veículos impressos de
divulgação constante de textos, idéias, eventos, notícias, etc. que contribuam
na construção de uma identidade coletiva dos trabalhadores (ou de categorias
de trabalhadores) e de sua representatividade legítima. Ora, esta noção
implica uma necessidade de inserção – por mínima que seja – destes órgãos
da imprensa entre os trabalhadores.134
Compreendemos que a imprensa operária não pode ser entendida como algo factual ou
como mero registro do movimento operário. Achamos que esta apresenta elementos que
auxiliaram a formação do operariado enquanto classe. É por isso que, assim como Gonçalves,
entendemos a imprensa como uma forma/instrumento de intervenção na vida social.
Acreditamos que:
Seu estudo pode se dar como objeto/fonte, uma vez que desaparece a
categoria imprensa na forma abstrata para dar lugar ao movimento vivo de
idéias, protagonistas e, principalmente, para que emerjam dessa produção de
sentidos, como resultado da operação histórica, sujeitos dotados de
consciência determinada na prática social.135
Os diversos jornais operários do Brasil conseguem ampliar o espaço de denúncia e
crítica ao governo e aos patrões, assim, mostram-se como porta vozes das classes subalternas.
Além disso, conforme Gonçalves,136 cumprem função “pedagógica apoiado nos conteúdos de
crítica social e exortação à organização dos trabalhadores”. Coadunando com esta ideia,
Maria Luiza Pinheiro e Luiz Balkar Pinheiro137, colocam que tal trabalho de conscientização
se voltava para a organização contra os patrões, o Estado que lhes dava guarida, e as péssimas
132
MARTINS, Ana Luiza; LUCA, Tania Regina de (Org.). História da Imprensa no Brasil. São Paulo: Editora
Contexto, 2008, p. 84.
133
ARAÚJO, Silvia; CARDOSO, Alcina. Jornalismo e militância operária. Curitiba: Editora da Ufpr, 1992.
134
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Trabalhadores, identidade de classe e socialismo: Os Gráficos de
Maceió (1895 - 1905). Maceió: Edufal, 2009, pp.115 e 116.
135
GONÇALVEZ, Adelaide (Org.). Ceará Socialista: anno 1919. Florianopolis: Insular, 2001, p. 9.
136
IDEM, p. 9
137
PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte; PINHEIRO, Luiz Balkar Sá Peixoto (Org.). Imprensa Operária na
Amazonia. Amazonia: Edua, 2004, p. 10.
53
condições de vida e trabalho.
Francisco Foot Hardman defende que a imprensa deste período é usada como principal
instrumento de formação e informação. Segundo ele:
Numa época em que os grandes meios de comunicação de massa inexistiam,
a imprensa, em especial o jornalismo, possuía um papel decisivo como
veículo social de informação e formação: a imprensa operária em particular,
destaca-se por sua função de articuladora de interesses históricos de classe
como fator de atração e propaganda, na tentativa de aglutinar elementos de
uma consciência operária comum.138
No Brasil dos primeiros anos de República, as ideias de uma sociedade justa e livre,
povoou a mente de diversos intelectuais e artistas. Edilene Toledo afirma:
No contexto do Brasil da Primeira República, as reivindicações operárias,
influenciadas, em parte, pelo anarquismo, eram também um esforço de
democratização da sociedade, porque muitas vezes as lutas não visavam
somente a melhorar salários e reduzir jornadas de trabalho, mas assegurar o
direito à própria existência, ou seja, a garantir condições de democracia e
civilidade, em que o movimento e a organização dos trabalhadores pudessem
ser reconhecidos como um elemento legítimo da sociedade139.
No caso do Norte e Nordeste, segundo Batalha,140 o impacto da imigração é bem
menos significativo, portanto, a influência desta no movimento e na imprensa operária
nordestina é bem pequena, ao contrário do que acontece no eixo Rio – São Paulo141.
Os referenciais teóricos existentes no Brasil contribuíam para uma “certa confusão” na
adesão de um referencial ideológico. Fazendo com que muitos militantes anarquistas fossem
engajados no sindicalismo revolucionário. Toledo142 afirma ainda que “Embora muitos
anarquistas tenham participado da construção de organizações sindicais em São Paulo no
início do século, a teoria e a prática dos sindicatos não eram anarquistas”.
Entendemos que caracterizar os intelectuais engajados deste período como sendo de
esquerda ou socialistas, com base nos critérios de hoje, é extremamente complicado. A
conjuntura vivida por esses militantes era completamente diversa da que temos nos dias
138
HARDMAN, Francisco Foot. Nem pátria, nem patrão!: memória operária, cultura e literatura no Brasil.
3ed. rev. e ampl. - São Paulo: Ed. UNESP, 2002, p. 311.
139
TOLEDO, Edilene. A trajetória anarquista no Brasil na Primeira República. In: FERREIRA, Jorge; REIS,
Daniel Aarão. A formação das tradições: 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 55.
140
BATALHA, Claudio Henrique de Moraes. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 2000, p. 12.
141
Maria Nazareth Ferreira considera este período do qual estamos tratando como “anarcossindicalista”, autores
como Edilene Toledo, consideram que este período é muito mais diverso e possui outras formas teóricas de ver o
mundo e de produzir imprensa, como os Sindicalistas-Revolucionários. Não se restringindo portanto somente ao
anarcossindicalismo. Aprofundaremos a discussão sobre a influência do anarquismo no movimento dos
trabalhadores no segundo capítulo desta dissertação, por hora, achamos necessário pontuar esta discussão.
142
TOLEDO, Edilene. A trajetória anarquista no Brasil na Primeira República. In: FERREIRA, Jorge; REIS,
Daniel Aarão. A formação das tradições: 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 110.
54
atuais. Os referenciais teóricos em português eram praticamente inexistente. De alguma
forma, este quadro ajuda a explicar as características do pensamento e da atuação de Brandão.
Octavio Brandão ajudou a publicar e colaborou em diversos jornais da imprensa
operária. Desde jornais que se diziam revolucionários, como A Semana Social, a jornais que
reivindicavam o poder dos Sindicatos apenas. A questão é que o referencial teórico deste
intelectual ainda estava se formando. Mais a frente o contato com José Oiticica o aproxima do
anarquismo, porém durante toda a construção de sua memória, Octavio Brandão se reivindica
mesmo como comunista, como que numa tentativa de negar o passado de proximidade
anarquista, como defende Plancharel em seu livro Memórias & Omissão: Anarquismo &
Otavio Brandão. 143
2.2. Antônio Canellas e a Semana Social
Ainda em Viçosa, em 1916, Octavio teve contato com uma imprensa voltada para os
trabalhadores. Conheceu o jovem Antônio Bernado Canellas que, com apenas 16 anos, já
escrevia um pequeno jornal chamado Tribuna do Povo. Canellas nasceu na cidade do Rio de
Janeiro, e a Tribuna do Povo foi o primeiro jornal editado pelo carioca, o que fazia dele,
segundo Iza Salles144, um dos editores e ativistas mais jovens do país. Segundo Salles, não se
sabe o motivo pelo qual o jovem Antônio Canellas viria a escolher morar na cidade de Viçosa,
no entanto, foi nesta cidade que o jovem editou 18 edições do jornal Tribuna do Povo e deu
início a uma campanha contra a guerra imperialista combinada com a denúncia das injustiças
do sistema capitalista, campanha que foi estendida e ganhou força quando Canellas se mudou
para Maceió, em 1917145.
Não encontramos nenhum texto do Octavio Brandão na Tribuna do Povo, porém,
chama-nos atenção a constante propaganda da farmácia do seu tio, Manoel Brandão, onde o
próprio Octavio trabalhava. Além disso, na edição do dia 21 de setembro, encontramos a
seguinte homenagem ao jovem:
Passou no dia 12 do vigente, o aniversário natalício de Octavio Brandão.
Moço poeta, servido por uma inteligência lúcida, talhado para os bons
combates "o seu intelecto resplandece como as estrelas". Muito jovem ainda,
apenas conta 19 primaveras, porém, ele deixa a cada momento os traços
143
PLANCHAREL, Alice Anabuki. Memórias & Omissão: Anarquismo & Otávio Brandão. Maceió: Edufal,
1997.
144
SALLES, Iza. Um cadáver ao sol. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
145
IDEM, p. 40.
55
radiantes de seu amor aos livros. Lá, na terra de Martins Junior, sua
inteligência ficou gravada nos corações dos moços estudiosos. E aqui, na
terra dos marechais ele triunfa como a "Águia do Haya". Embora tarde,
queira o moço letrado aceitar o meu abraço sincero de saudação amiga, de
envolta com a minha saudade.146
Em 1917 a situação política e econômica do Brasil se acirrou, portanto o país foi palco
de grandes lutas dos trabalhadores. O povo brasileiro já vinha sentindo na pele o alto custo de
vida, devido ao envio de ajuda pelo Governo brasileiro aos fronts de Guerra e a crise
econômica mundial que se aprofundava.
A entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial serviu de estopim para o agravamento
da degradação nas condições de vida dos assalariados. Durante a Guerra, gêneros alimentícios
básicos, a exemplo de açúcar, feijão e carnes, foram subtraídos do abastecimento interno para
serem fornecidos aos “Aliados”. Com isso, os alimentos que ainda restavam nas prateleiras
tiveram seus preços aumentados, enquanto os salários continuavam baixos. Esta foi uma das
principais alavancas para o movimento operário neste período. Várias greves e mobilizações
estouraram pelo Brasil afora, a burguesia ficou apreensiva, já que, em nível mundial, havia
uma revolução na Rússia e a ameaça comunista era eminente.
As contradições entre a burguesia e o proletariado agravavam-se, o trabalhador era
cada vez mais explorado, os operários multiplicavam-se e os produtos de primeira
necessidade ficavam mais caros e longe do poder aquisitivo dos mesmos. Durante este
período é que ocorre um dos episódios mais importantes na história da luta dos operários no
Brasil. Segundo Edilene Toledo, "verdadeiras multidões saíram às ruas para protestar e
reivindicar. Manifestações quase diárias ocorreram no Rio de Janeiro e em São Paulo, contra
o alto custo da vida, o trabalho de mulheres e crianças e outros tantos problemas que afligiam
a vida dos trabalhadores"147.
Neste mesmo período em Alagoas, segundo Plancharel, os movimentos populares e da
classe trabalhadora organizaram-se contra a adesão do Brasil à guerra e contra o alto custo de
vida148.
Emergindo dos locais de trabalho, ruas e praças de Maceió, os movimentos
popular e da classe trabalhadora organizam-se contra a adesão do Brasil à
guerra de 1914-1918 contra a Alemanha; [...] realizam numa praça de
146
Tribuna do Povo, Viçosa, nº6, 21 de setembro de 1916.
TOLEDO, Edilene. A trajetória anarquista no Brasil na Primeira República. In: FERREIRA, Jorge; REIS,
Daniel Aarão. A formação das tradições: 1889-1945. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 79.
148
PLANCHAREL, Alice Anabuki. Memórias & Omissão: Anarquismo & Otávio Brandão. Maceió: Edufal,
1997.
147
56
Maceió, em 1917, um comício contra aquela adesão149.
Foi organizado também em Maceió, em 1917, o Comitê de Defesa Proletária, do qual
Octavio participava, que encaminhou ao governo do Estado um ofício solicitando que fosse
baixado um Decreto que regulamentasse o controle nos preços dos produtos e o valor do
aluguel.
O jornal A Semana Social, dirigido pelo tipógrafo Antônio Canellas surge no início do
ano de 1917. Octavio Brandão teve uma participação ativa neste periódico, primeiro com a
publicação de parte do seu estudo Canais e Lagoas, posteriormente escrevendo artigos sobre
os mais diversos temas, inclusive a entrada do Brasil na Guerra e a carestia da vida, que
colocava o povo cada vez mais no estado de miséria.
O estudo Canais e Lagoas, passa a ser publicado já na segunda edição do periódico,
além disso, tal qual acontecia na Tribuna do Povo, o anúncio da farmácia de Manoel Brandão
é uma constante nas páginas do jornal. Os primeiros textos assinados por Octavio para o
periódico, em geral, estão relacionados à atividade intelectual, suas conferências ou artigos
sobre artistas da época.
O primeiro artigo que encontramos do jovem Octavio, no qual ele faz uma crítica para
além do trabalho intelectual, é o texto O que é patriotismo, publicado na edição do dia 27 de
outubro. O artigo é uma polêmica direta com a propaganda do patriotismo brasileiro feita pelo
poeta Olavo Bilac, através da Liga de Defesa Nacional, ligada a entrada do Brasil na Primeira
Guerra Mundial.
A obra do patriotismo é ser uma obra de paz que só espalhe a vida e o bem e
não guerra e a morte, como querem os senhores. Guerra é uma coisa ilógica,
um retrocesso; é uma bofetada na cara de todos os gênios que iluminaram a
humanidade - gênios que se chamara Platão, ou Cristo ou Tolstoi.150
Octavio relembra, em sua memória, que combateu de forma árdua a guerra e defendeu
a paz mundial. Sobre este artigo relembra "À noite, eu ia à saleta da redação o jornal, perto da
Praça da Cadeia. Publiquei em A Semana Social um artigo atacando a guerra e o militarismo
do poeta Olavo Bilac e da Liga da Defesa Nacional, nacionaleira, patrioteira" 151.
Nesta mesma edição do periódico, Octavio escreve outro artigo no qual ele compara a
situação de miséria na Rússia com a situação de Alagoas, a comparação dá-se por conta do
impacto que a leitura do livro A Mãe, do Gorki, causou no jovem. O fato é que a história do
149
PLANCHAREL, Alice Anabuki. Memórias & Omissão: Anarquismo & Otávio Brandão. Maceió: Edufal,
1997, p. 65.
150
Brandão, Octavio. O que é Patriotismo?, A Semana Social, Maceió, nº 25, 27 de Outubro de 1917.
151
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.113.
57
jovem Pavel, protagonista do livro, na Rússia tzarista despertava em Octavio grande
admiração e animação, sentia que a luta de Pavel pela libertação do povo russo, era a sua luta
pela libertação do povo brasileiro.
Em Alagoas, como na Rússia a miséria do povo é sem nome: a sua timidez
insondável, a sua passividade sem fim. E sobre tanta miséria paira a
ganância dos comendadores capitalistas e a alegria dos bandidos políticos
que vivem a corvejar a carcaça popular em busca das últimas migalhas.
Pavel, meu herói sem nome! Que tua palavra obscura tremule na terra
alagoana, levante-a num ímpeto estupendo, retorça-a e sopre sobre ela num
clarão de revolta - esta revolta que nos falta.152
A admiração por Gorki o acompanhou durante muitos anos na vida. No prefácio da
epopeia O Caminho, Octavio conta que quando morava em Moscou fez diversas tentativas
para falar com o autor de A Mãe, sob o objetivo de "obter dele um documento de importância
histórica - uma vibrante Mensagem aos povos da América Latina, chamando-os à luta contra a
incultura e a barbaria, contra o imperialismo e as sobrevivências do feudalismo".153
Infelizmente, Octavio não conseguiu fazer contato algum com o escritor que faleceu em 1936.
Segundo o autor de O Caminho, as causas para este contato não ter existido é que havia
"ordens diretas para impedir, por todas as formas, toda e qualquer ligação de Gorki com os
intelectuais dos outros países"154.
Muito embora, os artigos citados acima tenham incomodado a burguesia local por seu
conteúdo, sem dúvidas, o que marcou a história do semanário foi sua última edição. No dia 26
de outubro de 1917 o presidente do Brasil Venceslau Braz aderiu à Primeira Guerra Mundial,
a partir dali, o país não mandaria apenas mantimentos e remédios, mandaria também os
brasileiros para lutar.
A edição seguinte do periódico, que foi publicado no dia 03 de novembro, contou com
um grande artigo sobre a entrada do Brasil na Guerra. Era um protesto explícito e corajoso
para época. O artigo declarava:
Este gesto do Brasil declarando guerra à Alemanha, representa a consumação
da mais imoral canalhice da quadrilha governamental organizada desde 1889
e reformada de 4 em 4 anos. [...] A quadrilha de malfeitores [...] viu agora
esgotada todas as fontes de onde extrai fraudulentamente os recursos da
nação. [...] Mas os quadrilheiros acharam que esta situação não podia
continuar. Era lá possível que neste país não houvesse mais nada a roubar?
[...] Pois bem: vender-se-ia esse povo. Mais tarde vender-se-á o território do
país155.
152
Brandão, Octavio. A Mãe – Maximo Gorki, A Semana Social, Maceió, nº 25, 27 de Outubro de 1917.
BRANDÃO, Octavio. O Caminho. Maceió: Edufal, 2007, p. 17.
154
IDEM, p. 17.
155
CANELLAS, Antonio. O atentado governamental contra a vida e sossego do povo: Bruscamente e
153
58
Esta matéria gerou comoção geral, a burguesia alagoana ficou ensandecida, e parte do
restante da população também, afinal o semanário dizia que os governantes queriam vender o
povo brasileiro ao imperialismo. Segundo Octavio Brandão, após a publicação do artigo, uma
multidão de empregados do comércio, estudantes etc, montando cerca de cinco mil pessoas,
fizeram um comício na praça dos Martírios e, depois, saíram para a redação do periódico.
Milhares de patrioteiros, estudantes e empregados no comércio, instigados
por agentes do imperialismo anglo-francês, realizaram um comício e uma
passeata e dirigiram-se à redação do jornal. Gritavam furiosamente: - Matar
Canelas "espião boche"! "quebrar as costelas de Octávio Brandão".156
Em suas memórias, Octavio ressalta que tentou precaver Canellas sobre o risco de
perseguições, e o levou para Viçosa, mas o tipógrafo logo decidiu voltar a Maceió, para sua
redação. Quando o protesto chegou próximo à redação, Canellas descansava, e precisou ser
acordado por uma vizinha que o escondeu. Neste episódio, a redação do jornal foi
completamente destruída e Canellas teve que sair da cidade, e posteriormente, passou a morar
em Recife, onde continuou a participar ativamente da vida política do país e a editar jornais
operários.
Foi a primeira, de muitas vezes, que Octavio precisou ficar escondido. Ficou sumido
por quinze dias. Ao voltar para Maceió, sob o protesto e preocupação da família com a
situação que viria enfrentar, o jovem Octavio recebeu a notícia do triunfo da revolução russa.
Esta notícia deixou a cabeça dele confusa, cheia de novas ideias. De qualquer forma as
notícias chegavam com atrasos e de maneira confusa, mesmo assim, Octavio afirma, a notícia
reforçou sua abnegação para a luta pela libertação dos trabalhadores: "Enchi-me de coragem
moral. Já tinha renunciado a qualquer esforço pelo dinheiro, vaidades e honrarias. Tratei de
adquirir sangue-frio, serenidade e endurance - a capacidade ilimitada de resistência"157. Sua
história de luta no campo da esquerda estava apenas começando.
2.3. O trabalho como professor e as batalhas intelectuais
A paixão pelas ciências naturais não parou na construção do seu estudo Canais e
Lagoas. Enquanto esteve desaparecido, Octavio aproveitou para escrever o programa de um
curso de história da filosofia, que foi publicado no jornal A Plebe em 1919.
contra a vontade quase unânime da nação, os dirigentes levam o país a guerra. IN: A Semana Social, 03 de
Novembro de 1917, nº 26.
156
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.114.
157
IDEM, p. 115.
59
Na Quinta do Paraíso, com sarcasmo, escrevi o programa de um curso de
história da filosofia, desde os hindus e os gregos até Büchner e Haeckel para os bois, "os cristianíssimos bovinos" do engenho Boa Sorte, em Viçosa.
Esse curso terminava glorificando a rebeldia e elevando uma apoteose à
revolução.158
O jovem Octavio passou a dar aulas. Levava seus alunos para fazer excursões pelas
redondezas da cidade de Maceió, com o objetivo de conhecer com eles "direta, teórica e
praticamente a Natureza Viva, investigar os minerais, os vegetais e os animais
encontrados"159. A partir deste método, ele pretendia "despertar nos alunos e alunas, a paixão
pela ciência e a cultura, o amor à Pátria, à Humanidade e à Natureza- a verdadeira
trindade"160. Octavio lembra com muito orgulho de seus alunos:
Os alunos Olímpia Moura, Carlos Nogueira, Natalício Lopes de Farias e o
poeta Faustino de Oliveira, com o pseudônimo de Aurélio Lemos, no Jornal
do Comércio de Maceió, publicaram narrativas das excursões, cheias de
entusiasmo, de amor ao estudo, ao Brasil e à Natureza.161
O jornal O Caduceu, de 1918, relata algumas das aulas ao ar livre promovidas por
Octavio. O método adotado pelo jovem despertou curiosidade e suscitou elogios.
É profundamente vergonhoso que o compêndio de Historia Natural adotado
nos nossos cursos superiores, seja de um francês (Langlebert) que
desconhecia completamente a natureza brasileira, o que não merece censuras,
mas sucedendo o mesmo ao tradutor que passou o livro para o português sem
o ampliar na parte relativa ao Brasil.
De modo que estudamos e conhecemos muitos vegetais, animais e minerais
europeus ou africanos e no entanto, raríssimos – brasileiros.
Por isso, ao tomar conta da cadeira de Historia Natural na Academia de
Ciências Comerciais de Alagoas, Octávio Brandão procurou fazer um curso
nacional, todo ele com aplicações ao nosso país, especialmente, o nosso
Estado, cuja natureza ele, carinhosamente, tem estudado.
Assim é que domingo passado, 11 de Agosto, às 9 do dia, à rua de Santa
Maria, diante da maioria dos seus alunos, teve lugar uma aula prática de
Historia Natural Regional consistindo na apresentação e explicação dos
numerosos espécies que constituem a <Coleção Dr. Alfredo Brandão>, assim
batizada em homenagem ao tio, ao padrinho e pai espiritual de Octavio.[…]
Octavio Brandão dissertou sobre perto de 200 espécies quase todos
alagoanos; mostrou praticamente como o granito e o arenito evoluem;
apresentou moedas antigas, velhas notas de dinheiro, uma escritura (de terras)
com 210 anos, um dicionário da língua Bunda (sic), um pedaço de pau
brandão; falou sobre os grandes naturalistas do passado – Hart, Plinio,
Tournefort, Linneu, Darwin, Haeckel, Burchner – cujos retratos pendem das
paredes da sua sala de estudos, como também os de Dante, Goethe, Euclides
da Cunha, Anthero, Nietzsche, Schopenhauer, Comte, Descartes, Voltaire,
Renan, Strauss, Zola, Reclus, Kropotkine e Bakunine. Enfim mostrou como o
158
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, pp.114 e 115.
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.100.
160
IDEM, p.100.
161
LOBATO, Monteiro. O escândalo do petróleo e ferro. São Paulo: Brasiliense Ltda, 1957. 7 v. (Obras
Completas de Monteiro Lobato), p. 01 e 02.
159
60
schema do seu livro pode aplicar-se não somente aos Canais e as Lagoas,
como também a qualquer parte do Brasil ou do mundo.162
As aulas de Octavio não expressavam apenas a tentativa de fazer seus alunos
conhecerem a natureza alagoana. O jovem passava aos seus alunos os seus referenciais
teóricos que transcendiam os limites do estudo das ciências naturais. Nietzsche teve grande
influência na formação do jovem intelectual. Até o ano de 1919, a leitura e estudo da filosofia
de Nietzsche era parte cotidiana da vida de Octavio. Prova disso é que é possível encontrar
textos do jovem Octavio em diversos periódicos, nos quais ele cita e disserta sobre Nietzsche.
Ainda sobre suas aulas, o Jornal O Caduceu afirma:
Depois de ler todos esses trabalhos, Octavio Brandão disse que o dia 25 de
Agosto de 1918 era o 18º aniversario da morte de Frederico Nietzsche e por
isso para, sob a verdura imortal da vegetação alagoana e sob a azulescência
divina do céu tropical brasileiro comemorar o crepúsculo do grande Bárbaro,
do grande Vidente, convinha dizer alguma coisa. Por isso leu: um seu estudo
sobre a obra do visionário Super homem, um trabalho de José Ingegnieros
fazendo um paralelo entre Nietzsche e o Cristo e o altíssimo capítulo “Antes
de nascer o Sol” do celebre “Como falava Zaratustra”.163
Além do conhecimento em ciências naturais e filosofia, artes também fazia parte de
sua aula:
Finalmente, para coroar a romagem e terminar através da Estética a
peregrinação iniciada com a botânica e ampliada com a mineralogia, a
fisiografia, a geologia, a metereologia, a poesia e filosofia, Octavio Brandão
resolveu fazer uma visita ao notável coroplasta dr. Virgilio Guedes e outra ao
grande pintor João Moreira e Silva. Era uma pequena mas carinhosa
homenagem que o professor de Historia Natural e os seus alunos prestavam
aos esplendores da inteligências dos dois patrícios que tanto horam a terra
alagoana.164
A arte de lecionar Octavio exerceu por muito tempo, neste período para seus alunos,
convidados e amigos, anos depois para os operários de vários estados do Brasil, através de
conferências em sindicatos e associações. Os assuntos não eram mais relacionados com
ciências naturais, eram a mais abnegada tentativa de apresentar a possibilidade de
modificação da vida dos trabalhadores, de convencê-los que o patrão era o inimigo e que se os
trabalhadores são os responsáveis por fazer a riqueza do país, portanto, poderiam parar o país.
Ainda em 1917, a partir dos estudos da natureza alagoana e das aulas, abria-se um
futuro brilhante ao jovem Octávio, a possibilidade de tornar-se um intelectual reconhecido e
respeitado na área de geologia. Porém, Octavio renunciou a estas possibilidades quando
passou a travar lutas em defesa da classe trabalhadora do Brasil.
162
História Natural Aplicada ao Brasil. IN: O Caduceu. Maceió, , Ano III, Nº 3, 18 de Agosto de 1918.
Uma peregrinação espiritual. IN: O Caduceu, Maceió, Ano III, Nº 5, 01 de Setembro de 1918.
164
IDEM.
163
61
2.4. A propaganda revolucionária e o primeiro exílio
Ainda em Maceió, em Janeiro de 1918, Brandão fundou a Sociedade dos Irreverentes,
cujos membros eram operários e empregados do comércio. Funcionava nos fundos de sua
farmácia e servia de espaço para discussão sobre os problemas sociais do estado e o ateísmo.
Segundo Amaral, a Sociedade dos Irreverentes tinha como um dos objetivos principais
combater o “misticismo” da população carente de Alagoas165. Esta foi uma das primeiras
experiências militante, de fato, junto aos trabalhadores.
Além da sociedade dos Irreverentes, Octavio declara que em 1918 auxiliou na "luta
vitoriosa pela conquista do repouso semanal, aos domingos, para os práticos de farmácia de
Maceió"166. O jovem participou de reuniões de vários sindicatos e relembra:
Espalhei manifestos. Auxiliei a organização dos sindicatos. Contribui para
congregar operários das fábricas, os trabalhadores do porto de Jaraguá, os
ferroviários da Great Western, os tecelões, os empregados no comércio e os
pescadores. Sustentei as greves. Lancei as palavras de ordem: - Aumento dos
salários! Dia de 8 horas de trabalho! Defesa das liberdades! Organização de
sindicatos de resistências!167
Além do movimento com os operários, Octavio não se conformava com a injustiça e a
miséria que sofriam os trabalhadores rurais. Também em 1918, percorreu a região, chamada
por ele de região dos canais e lagoas, e zonas do interior Alagoana. Tentou fazer, sem sucesso,
propaganda para que os trabalhadores expropriassem as terras que trabalhavam. Logo
percebeu que eram propagandas inúteis, já que os trabalhadores não a compreendiam.
Mesmo com o fim do periódico A Semana Social, Octavio não desistiu de escrever em
jornais operários e sua vontade de mudar a sociedade traduzia-se cada vez mais em
propaganda revolucionária. No jornal O Povo, a 2 de setembro de 1918, do tipógrafo e amigo
Santa Cruz Lima, Octavio, sob o pseudônimo de Salomão Bombarda, publicou um texto, cujo
objetivo era propagandear o socialismo que deveria chegar no Brasil.
No artigo Sob o tremular do estandarte socialista, Octavio trava uma discussão
sobre o que seria o socialismo ligando, de forma ainda confusa pela insuficiência de seu
referencial teórico, a algumas das concepções de Nietzsche. Vale ressaltar, que neste período,
Octavio lia, ainda em francês, as obras deste teórico, dentre as quais Assim falava Zaratustra,
A origem da tragédia, Humano, demasiado Humano, Mais além do Bem e do Mal, A Gaia
165
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octávio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p. 40.
166
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 116.
167
IDEM, p. 126.
62
Ciência, Aurora, O Anti-Cristo, O Crepúsculo dos Idolos, O Viajante e sua Sombra, A
Genealogia da Moral168.
Neste mesmo artigo, Octavio contrapõe Nietzsche a Engels. Octavio afirma sobre
Engels: ”Engels, um grande revolucionário, acabou mesmo afastando-se das teorias
subversivas”169. Sobre Nietzsche afirma: “Frederico Guilherme Nietzsche, esse maravilhoso
profeta, estranha floração que brotou entre as neves teutônicas, é mais adepto das ideias
socialistas do que geralmente se pensa”170.Ainda sobre o socialismo em Nietzsche, Octávio
declara:
O socialismo não se contenta com a sua liberdade, com a livre expansão dos
seus bons instintos, com o desdobramento do seu EU sobre todo o universo,
com o desenrolar do seu individualismo sobre todas as almas. Ele quer mais:
Deseja que todos os outros homens, especialmente os pobres, os deserdados,
isto é, os escravizados se individualizem, se libertem, e desdobrem as suas
forças, os seus membros, as suas energias manifestas, comprimidas pelas
vastas paragens mundiais. Aí está porque Palante conclui que o socialismo
representa o individualismo (...) Aí está igualmente um profundo ponto de
contato entre o socialismo e as teorias de dois geniais individualistas:
Nietzsche e Stiner.171
Em suas memórias, Octavio afirma que, por um período, dispensou muita admiração a
Nietzsche, principalmente no que diz respeito às poesias e ao lirismo. O filósofo acabou sendo
uma das suas referências por um curto período, não só pelo lirismo, mas por suas posições
teóricas também.
A declarada propaganda revolucionária não poderia passar despercebida na terra dos
marechais, as Alagoas. O jovem passou a despertar a ira dos grandes proprietários rurais do
estado. Os jornais, que antes se referiam a ele como promissor jovem intelectual, com um
belíssimo futuro pela frente, passaram referir-se a ele como jovem maximalista, ou seja
bolchevique.
Segundo Luiz Sávio de Almeida, o ano de 1918 teria sido “considerado como de
intensa atividade do grupo anarquista em Maceió”172. Porém, ainda segundo Almeida, neste
mesmo ano, houve um boicote da grande imprensa em termos de divulgação das lutas dos
trabalhadores, pois são raras as referências às greves e outras atividades. Um pequeno grupo
de jovens se apresentava como anarquistas e faziam propaganda revolucionária para os
168
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978.
IDEM.
170
BOMBARDA, Salomão. Sob o tremular do estandarte socialista. IN: O POVO, Maceió, nº 4, 2 de
setembro de 1918.
171
IDEM.
172
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Chrônicas Alagoanas: Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. 2.
ed. Maceió: Edufal, 2013, p. 125.
169
63
trabalhadores em busca de melhores condições de vida, ou seja, a “libertação” destes, além
disso, faziam a denúncia das eleições como fraude. Segundo Almeida173, os principais nomes
são Octavio Brandão, Pedro Codá, Olympio Santana, Canellas.
A propaganda feita pelos jovens se intensifica no ano de 1918, mesmo depois do
episódio acontecido no ano anterior com o periódico A Semana Social. Mesmo não morando
mais em Maceió, Canellas continua sendo uma importante figura na história do movimento de
esquerda de Alagoas, porém agora combinado com sua vida política em Recife. Seu jornal
Tribuna do Povo, durante todo o ano de 1918 apresenta artigos e análises sobre Alagoas,
inclusive, sobre as greves locais que não apareciam na grande mídia.
Nos fins de 1918 uma ilustre figura do movimento anarquista nacional chegava
deportado à Maceió, era José Oiticica. Segundo Almeida, “na ponte de desembarque, estava
esperando-o uma espécie de comissão anarquista de boas vindas; José Oiticica chegava e era
recebido por um movimento organizado”174. A chegada do famoso anarquista causou tal
comoção entre os intelectuais militantes, que mereceu nota de destaque no jornal Tribuna do
Povo de Pernambuco.
Pelo paquete Olinda chegou a Alagoas no dia 15 o nosso incansável e
ilustrado camarada dr. José Oiticica, um dos mais ardorosos militantes
libertários do Brasil. Os nossos companheiros de Maceió fizeram-lhe
recepção condigna, tendo ido recebê-lo na ponte de desembarque comissões
de todas as organizações sindicalistas de Alagoas. Que seja bem vindo a
estas terras de opressão e servilismo o grande aposto da liberdade e da
rebeldia!175
Octavio publicou o estudo Um Evadido da Realidade176, no Jornal do Comércio de
Maceió, a 1º de junho de 1918.
Nesse estudo, levantei vários problemas. Denunciei a miséria do povo.
Condenei o sistema dos latifúndios. Preconizei a divisão das terras e sua
entrega aos camponeses. Reivindiquei uma arte e literatura de conteúdo
social e nacional. E fiz um apelo a 36 intelectuais de Alagoas. Entre eles, o
poeta Jorge de Lima, o historiador Moreno Brandão, o esteta José Avelino
Silva e o poeta Faustino de Oliveira. Solicitei-lhes que se inspirassem na
173
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Chrônicas Alagoanas: Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. 2.
ed. Maceió: Edufal, 2013, p. 121.
174
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Chrônicas Alagoanas: Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. 2.
ed. Maceió: Edufal, 2013, p.128.
175
Dr. José de Oiticica. IN: Tribuna do Povo, Orgam da federação de resistencia das classes trabalhadores de
Pernambuco, Recife, nº 28, ANNO I, 20 de Dezembro de 1918.
176
Não encontramos o texto Um Evadido da Realidade, nos arquivos que consultamos, portanto, não foi possível
um contato com o texto original. Por tratar-se de um estudo sobre arte moderna, no livro Combates e Batalhas
Octavio dedica-lhe um grande espaço. Ele considera este documento como um precursor da Semana da Arte
Moderna, tendo em vista, que faz um apelo a alguns pintores alagoanos, para que estes passem a fazer uma arte
social e nacional, realista e regional, acreditamos que aqui pode ter uma sobrevalorização de Octávio Brandão do
papel cumprido pelo estudo em questão.
64
Natureza brasileira, descrevessem a vida dos trabalhadores, narrassem os
sofrimentos das multidões laboriosas. 177
Tratava-se de uma propaganda clara por divisão de terras, chegando a conclusão de
que estas deveriam ser entregues aos trabalhadores rurais. Uma luta contra a miséria do povo
alagoano. Nas Alagoas dos marechais, canaviais e engenhos, da riqueza concentrada nas mãos
de pouquíssimos enquanto a grande maioria encontrava-se na mais profunda miséria, uma
propaganda como esta não poderia continuar circulando de forma livre. O mesmo jovem que
causara grande incômodo, em parceria com Antônio Canellas, acerca da participação da
Guerra Mundial, agora tinha voltado sua luta para acabar com os grandes monopólios e
oligarquias rurais do estado.
Mesmo em Recife, Antônio Canellas continua a escrever sobre Alagoas, seus
governos, problemas sociais e políticos. O contato com Brandão permanece forte, inclusive a
Tribuna do Povo, jornal editado por ele na capital pernambucana é distribuído em Maceió.
Pelo contato forte, Canellas julga ser importante continuar travando debates no campo político
e teórico. Por isso, sobre o apelo feito por Octavio em seu texto, Canellas afirma:
Esse apelo a ser aceito de verdade por aqueles a quem foi dirigido,
representaria um grande passo no sentido da emancipação do povo alagoano
e da exaltação da terra de Alagoas. Mas duvidamos que esse apelo seja
ouvido. Quando muito – e por deferência ao seu autor – será ouvido
superficialmente, porém nunca será ouvido DE VERDADE. Não vá nisto
ofensa alguma aos literatos, poetas, jornalistas e políticos burgueses a quem
Octávio Brandão dirigiu o seu apelo. Nós sabemos que todas essas
personagens se adaptaram ao meio em que vivem (foi em virtude dessa
adaptação que conquistaram as posições sociais que atualmente ocupam) e
não são livres de tomar uma decisão contraria aos interesses desse meio –
que a tal ponto teriam de chegar se fossem tomar a sério a obra da redenção
do Homem e da Terra.
Os fins visados por Octavio Brandão estão fora de toda discussão, no tocante
à sua natureza humanitária e ao seu alcance social. São fins que se impõem
indiscutivelmente ao acatamento de todos os homens de boa vontade. Mas
quanto aos MEIOS de se atingirem esses fins, julgamo-los ineficazes e os
reputamos filhos da ingenuidade do seu autor quanto à ação do Estado. O
escritor do CANAES E LAGOAS faz, no apelo em questão, uma ideia do
Estado que fica muito aquém da realidade por ser demasiadamente
otimista.178
Canellas acusa Octavio Brandão de ingênuo, posto que no texto em questão, uma das
hipóteses levantadas é o chamado para que os intelectuais contemporâneos das Alagoas
entrem na luta junto a Octávio, com o intuito de fazer com que o Governo preste atenção às
terras da região dos Canais e Lagoas e, assim, mandem cortar os mangues e aterrar os
177
178
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 118.
Em torno de um apello, Tribuna do Povo, Recife, nº 12, ANNO I, 1 de Julho de 1918.
65
pântanos, desobstruir os rios, abrir estradas etc. A crítica de Antônio Canellas está centrada no
fato de considerar o apelo inútil, tendo em vista que esta já seria uma das obrigações do
governo e apelos não fariam o governo cumpri-las. Portanto, propõe:
E para que não se diga que só destruímos, sem nada construir, eis o que
pensamos ser o meio eficaz de se conseguir a redenção do Homem e da
Terra. Para a redenção da Terra, é preciso primeiro redimir o Homem que a
habita. O problema da redenção do homem está, pois, em primeiro lugar.
Para redimir o Homem o que é necessário? Nada mais nem menos do que
uma profunda e vasta revolução que leve a uma desagregação horrorosa o
amalgama jeito de sangue, miséria e injustiça que atualmente é conhecido
sob o nome de Sociedade; uma Revolução que despedace as algemas que
hoje prendem o povo à servidão. Que saneie a atmosfera empestada desta
sociedade burguesa, que faça tabua rasa das convenções sociais que hoje nos
infelicitam e dos costumes arcaicos ainda hoje reinantes; que disperse,
enfim, o rebanho humano e o leve a novas organizações mais conformes
com a Justiça e a Razão.
É inútil tentar-se fazer consertos no edifício burguês porque o seu defeito
está na base (que é a propriedade privada) e portanto o melhor é pô-lo abaixo
logo de uma vez. Que os timoratos se intimidem ante a perspectiva de tão
grandiosas transformações; porém nada impedirá que elas se realizem, pois a
humanidade caminha para elas como as águas da serra para o fundo do vale.
E depois de redimido o Homem quando entre humanos não mais houverem
divisões injustas nem tirania e todos forem irmãos uma mesma obra, a Terra
se redimirá também, todos a reconhecendo como a mãe comum que de todos
merece carinho porque a todos alimenta.179
As críticas de Antônio Canellas ao texto de Octavio tem um fundo teórico. Na
verdade, na concepção do jovem carioca, a verdadeira solução para a superação da
miserabilidade do povo da região dos canais e lagoas seria uma completa mudança no sistema
de sociabilidade, mudança esta que só poderia ser feita através de uma revolução, embora não
fique muito claro em que base teórica e estratégica ele se apoie.
O chamado aos intelectuais, para Canellas, não deveria ser para juntar força e fazer
pedido às autoridades para que solucionasse o problema do povo alagoano e nem muito
menos para que estes começassem a fazer arte a partir de suas “alagoanidades”. Na verdade,
para Canellas, o principal objetivo seria unir forças para, ao lado do povo que sofre
diariamente a miséria imposta na região dos canais e lagoas, conseguir a verdadeira
transformação social. Para Amaral, o que demonstra Octavio neste texto não é uma concepção
de transformação social próxima ao socialismo científico.
Octavio Brandão demonstrava possuir uma concepção mais utópica do que
cientifica de socialismo – se é que se pode fazer tal analogia – uma vez que
ainda ignorava alguns conceitos fundamentais do pensamento marxiano,
entre os quais, 'violência revolucionária' e 'luta de classes'. Talvez fosse por
179
Em torno de um apello, Tribuna do Povo, Recife, nº 12, ANNO I, 1 de Julho de 1918.
66
essa razão que advogasse como conditio sine qua non para o êxito do
processo revolucionário a procura incessante 'pelo amor e pelo direito de
todos os grandes, de todos os poderosos para a beleza transcendente do
altruísmo. Porque se elas não diminuírem a ambição que as devora, a
Revolução será fatal (…)'.180
Apesar das críticas, não há um distanciamento entre Canellas e Octavio neste período.
No jornal Tribuna do Povo de Pernambuco, é possível encontrar diversas referências a
Brandão, assim como textos assinados por ele, sob o pseudônimo de Salomão Bombarda.
Além disso, como já mencionamos, várias são as notícias encontradas no periódico sobre
Alagoas, inclusive, sobre as lutas e greves dos trabalhadores do estado. Acreditamos que é
possível que Octavio faça parte desta rede de informações sobre o cotidiano do trabalhador
alagoano passado para o periódico pernambucano.
2.5. O complô Maximalista
As piores críticas recebidas por Octavio quanto a suas publicações não vieram de
Canellas. Brandão passou a ser criticado nos maiores jornais da cidade de Maceió, o que,
tendo em vista o fato de que o os textos de Octavio voltavam os holofotes para as grandes
oligarquias rurais do estado, não nos causa estranhamento. Segundo Octavio, as críticas
chamaram a atenção da polícia contra o jovem181. No Jornal de Alagoas, encontramos
diversos artigos de resposta e/ou polêmica às declarações de Octavio sobre os mais diversos
temas, tanto os que diziam respeito ao Um Evadido da Realidade, quanto a outras posições
como acerca das questões do nacionalismo e da revolução russa.
Na edição do dia 18 de Julho de 1919, encontramos um artigo chamado Nacionalismo,
diretamente voltado à discussão travada por Octavio Brandão. Apesar de ter opinião
divergente do jovem Octavio, o jornalista ressalta: "Em Octavio Brandão percebo a alma de
um solitário remoto e lhe admiro o singular desdém, o desapego estranho pelo
convencionalismo social, contra o qual ele opõem as energias de seus aventurosos surtos
altruísticos".182
As críticas a Octavio não pararam por aí. Ainda no Jornal de Alagoas, no ano de 1918,
mais cinco edições mereceram textos direcionados diretamente ao jovem intelectual. Ainda
180
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octávio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p. 45.
181
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, 124.
182
CAVALCANTI, Povias. Nacionalismo. IN: Jornal de Alagoas, nº: 157, 18 de Julho de 1918.
67
sobre os assuntos publicados no estudo de Octavio, as edições de número 160 e 166, dos dias
21 e 28 de Julho, respectivamente, contaram com novos artigos de Povias Cavalcanti
respondendo às críticas feitas pelo jovem.
No mês seguinte, a discussão era com outro jornalista, o sr. A. de Albuquerque, e o
tema era a luta pelo socialismo. O artigo que nos chama mais atenção é denominado Tiro de
misericórdia, publicado no dia 7 de agosto de 1918. Neste artigo, o jornalista trava uma
batalha contra a ideia de socialismo defendido por Octavio, declarando
O meu caso é simples e muito claro. O sr. Octavio Brandão publicou uma
crítica ou apelo ao manifesto socialista (...) ofendeu a justiça e desprezou as
leis de coerência.
Com o mesmo direito com que o sr. Octavio exercitou as suas críticas
chamando a sociedade e a política de "prostitutas" (...), eu também lhe
critiquei os escritos, os manifestos.183
No meio de toda esta polêmica pública, Octavio relembra que recebeu cartas do tio
Alfredo Brandão, que estava no Rio de Janeiro. Elas "eram cruéis e ofensivas. Atacavam
tremendamente as ideias socialistas e 'Um Evadido da Realidade'"184. Muito embora, o jovem
sentisse muita tristeza ao ler as cartas do tio, permanecia irredutível na luta por seus ideais.
Em 1919 a campanha contra o "maximalismo" e qualquer propaganda considerada
revolucionária aumentou. No ano de 1919, em Alagoas, o governador do estado, Fernandes
Lima, deu início a um forte movimento de repressão contra o movimento operário. Segundo
Amaral, “o governo mandou invadir e fechar sindicatos, além de efetuar inúmeras prisões de
seus membros”185.
Luiz Sávio de Almeida acredita que o que aconteceu pode ser chamado de “complô
maximalista”, tendo a polícia ficado preparada para qualquer oportunidade sob a qual pudesse
justificar este “complô”.
Fernandes Lima, quando assumiu o governo colocou Manoel Buarque de
Gusmão como 1º Comissário e Carlos Povina Cavalcanti iria ser o 2ª. A
Farmácia Pasteur, propriedade de Octávio Brandão, era um dos centros
anarquistas, ficava na área do 1º Comissariado. As regiões do Jaraguá e
Pajuçara estavam no 2º Comissariado.186
Como é possível perceber, Octavio e seus companheiros foram vigiados durante um
183
ALBUQUERQUE, A. de. Tiro de misericórdia. IN: Jornal de Alagoas, nº: 174, 07 de Agosto de 1918.
BRANDÃO, Octávio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 119.
185
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octavio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p. 46.
186
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Chrônicas Alagoanas: Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. 2.
ed. Maceió: Edufal, 2013, p.128.
184
68
bom tempo, não poderia ser surpreendente que logo viesse sua prisão. Segundo Almeida, o
primeiro a ser preso é o senhor Rosalvo Guedes, empregado do comércio e ativo militante,
depois de ser acusado de ter a responsabilidade por uma panfletagem ocorrida na porta do
Teatro Deodoro, cujo teor seria propaganda “maximalista”.
No entanto, a própria polícia vai afirmar, dias depois, que teria encontrado uma carta
com Rosalvo Guedes, na qual afirmava-se que os anarquistas nada teriam a ver com a
panfletagem em questão. Mesmo assim, no dia 13 de março de 1919, por prestarem
solidariedade ao seu companheiro Rosalvo Guedes, Octavio Brandão e Pedro Codá são
presos.
Vão ser presos em seguida, Olympio Santana, Gracindo Silva e Lisboa
Júnior. Havia sido descoberto pela polícia um aparelho anarquista, ou pelo
menos se fazia crer a queda do grupo. A Polícia faz alarde de ter descoberto
uma célula maximalista: o Conselho (a) S: G-Ganganelli. Seus componentes
eram Jonas Medeiros, Odilon Lira, Pedro Codá, Olympio Santana.
Abdoinack Fonseca, Cleodon Mendes, Gracindo Silva, Lisboa Júnior,
Rosalvo Guedes e João Domingos. Dizia a polícia ter encontrado com
Octavio Brandão, para ser distribuído, o programa socialista-anarquista de
Malatesta; além disso, encontrou 14 tiras de papel amarelo contendo uma
conferência de José Oiticica, que deveria ser realizada em uma reunião
maximalista.187
Na imprensa, logo após a prisão de Octavio, teve início uma longa campanha sobre os
"maximalistas". Apenas dois dias após a prisão de Octavio, o Jornal de Alagoas, publicou um
texto sob título de O Maximalismo em ação: Documentos importantes, no qual alegava a
existência de documentos que demonstrariam a ligação dos jovens intelectuais de Alagoas ao
movimento nacional, mas especificamente ao anarquismo. Ao fim do texto, cita a prisão dos
jovens: "Foram detidos ontem o russo Isaac Benroli e os brasileiros Pedro Codá e Octavio
Brandão para diligências. E as diligências prosseguem"188.
No dia seguinte, o texto foi dedicado exclusivamente ao Octavio Brandão, já no título
dizia: Maximalismo em ação: A posição de um farmacêutico. O artigo centrava na tentativa
de provar a ligação de Octavio com o movimento nacional, ao bolchevismo e ao anarquismo.
Não precisará, por hora, prova melhor que pregam folheto socialismo
querem a derrocada das instituições e da sociedade, conforme dissemos na
edição do 15, do que os princípios por eles adotados propagados pelo
PROGRAMA SOCIALISTA ANARQUISTA REVOLUCIONÁRIO de
Malatesta, que em folhetos foram encontrados em poder de alguns dos
187
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Chrônicas Alagoanas: Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. 2.
ed. Maceió: Edufal, 2013, p. 132.
188
O Maximalismo. IN: Jornal de Alagoas, Maceió, nº: 68, 28 de Março de 1919.
69
detidos.189
Após alguns dias na prisão, Octavio conseguiu a liberdade, depois que, segundo
Amaral, seu "tio Manoel Brandão pagou uma quantia de cinco mil réis de fiança" 190. Mesmo
em liberdade a situação do jovem não era das melhores. Na terra dos marechais a perseguição
colocava em risco a sua vida.
O secretário do Interior de Alagoas - Manoel Moreira e Silva - depois de
mandar encarcerar-me, avisou a meus parentes que, se eu continuasse com as
mesmas ideias, seria preso novamente e sairia debaixo de facão. Além disto,
afirmou categoricamente - "Não me responsabilizo pela vida de Octávio
Brandão!"191
A ameaça era clara e a solução única: deixar a terra natal. Octavio relata que preparou
três tentativas de fugas. Para a família materna, o jovem não deveria partir, deveria tornar-se
um rapaz sem ideias revolucionárias, um rapaz dito normal. Mas essa perspectiva estava fora
de cogitação para Octavio.
Por isso, deixou Alagoas no dia 18 de maio de 1919, embarcando em um navio no
porto de Jaraguá, usando o nome Octávio de Melo Rego. Lembra com sentimentos dos anos
que passou longe de Alagoas: "Durante 41 anos, perdi a imensa doçura nostálgica do Nordeste
e guardei no coração a dor mais profunda - dor de não poder voltar à terra natal!".192 Só em
1960 Octavio pode voltar à Alagoas.
2.6. Breves conclusões
Os primeiros anos de militância de Octávio Brandão foram muito intensos. Na terra
dos marechais do açúcar, o jovem naturalista de apenas 19 anos, defendeu a divisão de terras,
melhores condições de vida e trabalho para os trabalhadores e povo pobre, além disso,
criticou os grandes capitalistas brasileiros que estavam lucrando com a guerra, enquanto o
povo estava à míngua.
Ainda em Alagoas foi preso pela primeira vez, por conta de seus ideais e ainda com
menos de vinte anos foi obrigado a exilar-se de sua terra natal. A influência de Nietzsche é
evidente em seus textos durante este período. O jovem reivindica as formulações sociais do
189
Maximalismo em ação: Documentos importantes. IN: Jornal de Alagoas, Maceió, nº: 57, 14 de Março de
1919.
190
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octávio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p. 47.
191
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 132.
192
IDEM, p. 133.
70
intelectual. Acreditamos que tanto algumas formulações sobre sociedade quanto algumas
sobre moral, combinada com o contato com a miséria do povo alagoano, contribuíram para
que Octavio mergulhasse ainda mais na vida militante, rompendo de vez com a religião e a
família. Ao longo da sua trajetória, o contato com outros intelectuais faz com que a admiração
que Octavio tinha por Nietzsche seja rompida e fique cada vez mais no passado.
71
CAPÍTULO 3: A vida no Rio de Janeiro e o Anarquismo
Não nego que, fora do pensamento livre se
possa ser grande.
Mas afirmo que se fica maior dentro do
pensamento libertário.193
Neste capítulo trataremos da chegada do Octavio Brandão ao Rio de Janeiro, seu
contato de perto com outros intelectuais, outras leituras, a aproximação maior com o
anarquismo e a posterior entrada no Partido Comunista do Brasil.
Para tanto, torna-se necessário fazer um rápido panorama da vida política e intelectual
do país e as correntes que atuavam neste período que, mesmo diante do recrudescimento da
repressão tiveram grande importância. Desta forma, faremos uma análise sobre as posições
políticas e intelectuais de Octavio Brandão com base nos textos publicados por ele em jornais
da época, nos quais Octavio deixa suas posições bem claras e tenta, assim, convencer mais
trabalhadores quanto a seus ideais.
3.1. A vida política brasileira
Falar sobre a formação intelectual e política de qualquer intelectual de esquerda no
início do século XX é uma tarefa complexa. Primeiro porque se trata de um período em que
há pouca clareza teórica. Segundo porque é também um período em que as ideias e
movimentações são tratadas como de predominância meramente anarquistas. É tanto que o
volume de trabalho que a historiografia sobre o movimento operário dedica a temas ligados às
experiências anarquistas é muito grande.
De forma geral, cria-se a imagem de que o movimento operário na Primeira República
é sinônimo de movimento anarquista. Porém, em nossa opinião, não é possível considerar
todos os militantes que lutavam pelos direitos dos trabalhadores e por uma sociedade diferente
como anarquistas naquele momento. A historiografia social do trabalho, nos últimos anos
contribuiu para esta revisão do período.
Os anos de 1917 e 1919 foram de grande efervescência política no Brasil e no mundo.
Como já citamos no capítulo anterior, em 1917 o Brasil presenciou uma greve geral que
paralisou grandes centros urbanos, como São Paulo, durante dias. No mundo, corriam notícias
193
BRANDÃO, Octavio. Folhas Esparsas. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 14 de maio de 1922.
72
da revolução proletária vitoriosa na Rússia. Mesmo que as informações fossem escassas, isto
agitou os movimentos dos trabalhadores no Brasil.
O ano de 1919 conta também com muitas lutas e greves organizadas pelos
movimentos dos trabalhadores. Segundo Edilene Toledo, é neste ano que o movimento
operário brasileiro entra na sua fase mais intensa, ainda com características parecidas com as
greves e mobilizações que aconteceram em 1917. As reivindicações continuam sendo as
mesmas de 1917, giram em torno da luta por direitos trabalhistas e melhores condições de
vida. Mas, para Edilene Toledo, as greves de 1917 e 1919 demonstram algo mais profundo:
As greves de 1917-19 ocorreram, na verdade, em virtude da organização dos
próprios trabalhadores, mas contaram com a participação de líderes
sindicalistas, anarquistas, socialistas e também de grupos democratas
descontentes com a situação do país. Verdadeiras multidões saíram às ruas
para protestar e reivindicar. Manifestações quase diárias ocorreram no Rio de
Janeiro e em São Paulo, contra o alto custo da vida, o trabalho de mulheres e
crianças e outros tantos problemas que afligiam a vida dos trabalhadores.194
Entretanto, a repressão policial às manifestações e greves foi muito forte. Ainda
segundo Edilene Toledo, muitos trabalhadores e intelectuais foram presos sobre a acusação de
anarquismo ou maximalismo (que, naquele momento, era sinônimo de bolchevismo), e muitos
trabalhadores estrangeiros foram deportados.
As prisões se encheram de trabalhadores real ou supostamente anarquistas,
as organizações dos trabalhadores foram impedidas de funcionar, suas casas
foram invadidas, reuniões foram interrompidas com violência. Os resultados
das ações foram parciais, tanto no Rio como em São Paulo, pois não destruiu
as organizações dos trabalhadores por completo. O Estado brasileiro e os
empresários, porém continuavam apostando na repressão, e não nas
reformas, para resolver questões sociais. Os esforços das autoridades
públicas foram no sentido de esmagar a crescente organização operária e
suas ligas, sindicatos e federações. As prisões foram inúmeras e muitos
estrangeiros anarquistas, socialistas e outros foram deportados,
particularmente em São Paulo. Também em São Paulo, os movimentos
custaram a vida de muitos trabalhadores, talvez duzentos, segundo dados da
época. 195
Foi neste período que Octávio Brandão foi preso pela segunda vez, já enquanto
morava no Rio de Janeiro. Mas, apesar dos esforços do governo, o movimento continuou.
Segundo Brandão, a repressão tinha um motivo: barrar o avanço do movimento dos
trabalhadores.
194
TOLEDO, Edilene. A trajetória anarquista no Brasil na Primeira República. In: FERREIRA, Jorge; REIS,
Daniel Aarão (Org.). A FORMAÇÃO DAS TRADIÇÕES ( 1889 - 1945). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1997. p. 54-100, p. 79.
195
IDEM, p. 80 e 81.
73
A notícia da revolução socialista na Rússia provocou, no Brasil, o ódio
bestial, o pânico e o estupor no seio dos grupos imperialista, dos
latifundiários e da grande burguesia, com seus jornalistas e intelectuais.
Desencadearam campanhas furiosas de calúnias e falsificações contra a
revolução e os bolchevistas, que eles chamavam maximalistas. Encheram os
jornais com os "telegramas de Riga", isto é, com torpezas fabricadas pelas
agências da contra-revolução internacional. Exigiram medidas terroristas
contra os movimentos dos operários avançados e intelectuais progressistas
do Brasil.196
Neste período há um fortalecimento da concepção sindicalista, mais que nos
movimentos dos anos anteriores. Mas não é apenas o sindicalismo que se fortalece. Segundo
Edilene Toledo197, cresce nos trabalhadores e intelectuais da época o sentimento da
necessidade de organização, seja em ligas, sindicatos ou partidos políticos.
As greves ocorridas nos anos de 1917 e 1919 são analisadas por parte da historiografia
como um todo anarquistas ou anarcossindicalistas. Entretanto, consideramos que existiam
diversas correntes políticas atuando no movimento dos trabalhadores, algumas mais próximas
do anarquismo, outras ainda mais próximas do reformismo.
Além do mais, não é possível enquadrar de forma dogmática os militantes daquele
período, pois, como já discutimos anteriormente, os livros teóricos existentes no Brasil até
aquele momento eram muito escassos. Pouco se tinha traduzido e muito menos produzido. O
Manifesto do Partido Comunista de Engels e Marx vai ser traduzido, pelo próprio Octavio
Brandão, somente em 1924.
As informações que exerciam influência sobre os trabalhadores brasileiros eram as
relativas à vitória da Revolução Russa. E como as informações eram escassas, por algum
tempo os próprios anarquistas brasileiros reivindicaram completamente a revolução russa,
apesar de sabermos que na União Soviética havia uma luta política contra alguns anarquistas
que discordavam da forma de organização do estado soviético pós-revolução. Por isso, para
nós, seria anacrônico, ainda, considerar os militantes da época anarquistas baseados no
anarquismo que conhecemos atualmente. Ou socialistas baseado nos estudos marxistas que
existem hoje. Estas concepções devem se analisadas de acordo com os próprios termos do
período.
Segundo Carone198, a burguesia e parte da população letrada conhece bem o francês e
grande parte da leitura realizada são das publicações nesta língua. Mas essa realidade ainda
196
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 165 e 166.
IDEM.
198
CARONE, Edgar. O Marxismo no Brasil - Das origens a 1964. In: SECCO, Lincoln; DEAECTO, Marisa
Midori (Org.). Leituras marxistas e outros estudos. São Paulo: Xamã, 2004. p. 17-74.
197
74
estaria longe dos trabalhadores brasileiros, tendo em vista que o nível de analfabetismo no
Brasil do início do século é alarmente.
Tiago Bernardon Oliveira afirma que no movimento operário da Primeira República
brasileira coexistiram diversas tendências ideológicas, "de forma geral, até 1930 podemos
encontrar tendências mutualistas, socialistas, anarquistas e comunistas, e em cada uma dessas
orientações há distinções importantes a serem consideradas"199.
Nesta pesquisa cabe, para nós, analisar as três principais correntes ideológicas que
coexistiram no movimento dos trabalhadores no início do século, quais sejam: os anarquistas,
socialistas e os sindicalistas revolucionários. A diferença entre estas tendências, por vezes,
torna-se confusa, portanto, propomos uma análise mais voltada às práticas dos grupos,
construídas estrutural e circunstancialmente, para não cairmos em comparações e definições
estanques.
Estas tendências ideológicas tinha um objetivo comum: a transformação da sociedade
capitalista. As grandes diferenças que as afastavam eram os meios escolhidos para chegar aos
objetivos. Os socialistas, ao contrário dos anarquistas, considerados mais radicais,
acreditavam que a luta deveria ser travada no campo das instituições políticas que já existiam
na sociedade. Segundo Oliveira, os socialistas brasileiros do início do século preferiam a
organização dos trabalhadores e operários dentro das estruturas organizativas como ligas e
uniões de associações. Além disso,
Para os socialistas brasileiros, de forma geral, "Revolução" seria o estágio
final de um processo evolutivo, inevitável e quase natural, no qual lhes era
reservada a função de um "preparar o povo para receber a transformação
social e não estorvar a marcha do progresso". Fazia parte dessa preparação à
revolução a conquista de direitos para os trabalhadores, sobretudo sob forma
de leis barganhadas e garantidas pelas instituições políticas, ainda que
burguesas. Enquanto o termo "reformista" causa ainda hoje "calafrios" em
muita gente que o considera uma ofensa, ele era abertamente aceito por
muitos militantes da época, como justificativa para manter viva a
propaganda em condições tidas como adversas.200
Existia ainda, segundo Oliveira, o grupo dos "colaboracionistas", que muitas vezes
confundiam-se com os socialistas, apesar de existir distinções grandes entre eles. Para o
pesquisador, os colaboracionistas eram "os grupos que foram organizados com objetivos
oportunistas expressos (ainda que negados verbalmente pelos elementos envolvidos) de apoiar
199
OLIVEIRA, Tiago Bernardon. Mobilização operária na República excludente: Um estudo comparativo
entre o Estado e movimento operário nos casos de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul nas duas
primeiras décadas do século XX. 2003. 203 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de História, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003, p. 74.
200
IDEM, p.75 e 76.
75
ou favorecer políticos, governos ou mesmos industriais"201.
A grande diferença entre estes e os socialista é que não era objetivo nem de longe dos
socialistas a colaboração com os governos ou com a burguesia. Por mais que os métodos
utilizados estivessem dentro dos marcos da democracia burguesa, tendo em vista que se
apoiavam nas instituições existentes, os socialistas tinham como seu norte a criação de uma
nova forma de sociabilidade.
Já os colaboracionistas, segundo Oliveira, apenas objetivavam "algumas alterações
que propiciassem a melhoria de condições de vida e de trabalho dos operários, sem questionar
a estrutura social vigente, ou apenas tirar proveito ou beneficiar políticos e empresários" 202.
Este grupo era combatido com muita força pelos anarquistas:
A oposição a esse grupo, por parte dos anarquistas, era intensa. A sua forma
de influenciar e organizar o proletariado era vista como perniciosa e
desmobilizadora pelos libertários, que rotulavam esse grupo de "amarelos"
ou "pelegos", tanto por sua relação direta com grupos ou pessoas que
usavam o proletariado para seu benefício exclusivo, como pela sua visão
corporativista, sem ter em consideração uma visão mais abrangente do
conjunto da sociedade e do capitalismo.203
Quanto ao anarquismo e ao sindicalismo revolucionário, cabe, nesta pesquisa, uma
atenção especial, por serem as correntes das quais Octavio Brandão mais se aproximava até
sua entrada no Partido Comunista Brasileiro, no final de 1922. O anarquismo era a corrente
predominante no Brasil.
O termo “anarquia” é de origem grega e significa ausência de qualquer poder. E
sempre que se faz menção ao anarquismo logo pensamos em destruição do capitalismo com a
passagem direta a uma sociedade sem "patrões". Portanto, segundo Preobrazhenski os
anarquistas seriam um grupo de "pessoas que aspiram a um regime social no qual não haja
nenhum tipo de poder ou imposição no qual deve reinar a liberdade absoluta" 204. Aqui no
Brasil, o anarquismo, na verdade confundia-se com o sindicalismo revolucionário.
Aqui cabe uma ressalva: no Brasil de 1917-1919 as reivindicações de todas essas
correntes intelectuais do movimento operário, sejam anarquistas ou socialistas, estavam
ligadas muito mais ao esforço da democratização do país e garantias de direitos básicos do
201
OLIVEIRA, Tiago Bernardon. Mobilização operária na República excludente: Um estudo comparativo
entre o Estado e movimento operário nos casos de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul nas duas
primeiras décadas do século XX. 2003. 203 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de História, Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2003, p.76.
202
IDEM, p.77.
203
IDEM, p.77.
204
PREOBRAZHENSKI, Evgheni. Anarquismo e Comunismo. São Paulo: Sundermann, 2013, p.17.
76
que a ruptura total com a sociabilidade. Ou seja, o esforço era para garantir, no mínimo, a
possibilidade de existir um movimento e organização dos trabalhadores que pudessem ser
reconhecidos como um elemento legítimo da sociedade.
Assim como outras ideias que circularam pelo mundo a fora, a imagem de
uma sociedade de livres e iguais, em que o Estado, as Igrejas e o capitalismo
tivessem desaparecido, povoou corações e mentes também no Brasil, entre o
fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Eram professores,
médicos, advogados, mas também muitos operários que viram no
anarquismo uma possibilidade efetiva de transformação de si mesmos e da
sociedade em que viviam.205
Neste período, alguns teóricos costumam chamar o movimento dos trabalhadores de
anarcossindicalista, tendo em vista a orientação dos operários e intelectuais que se
identificavam com o anarquismo, de construir organizações e sindicatos dos trabalhadores.
Apesar desta denominação e influência, Toledo206 afirma que o movimento operário brasileiro
“foi muito mais sindicalista revolucionário do que anarquista”. E prossegue afirmando ser
equivocado incorporar o sindicalismo revolucionário ao anarquismo, com o nome de
anarcossindicalismo, posto que são movimentos diferentes.
Entre tantas diferenças, o sindicalismo revolucionário considerava que “os sindicatos
não deveriam ser nem anarquistas, nem socialistas e nem de outra tendência, mas
simplesmente operários”207, ou seja, pregavam uma independência do sindicalismo tanto ao
socialismo como ao anarquismo.
Já os anarquistas, por sua vez, desejavam uma transformação completa da sociedade e
acreditavam que sua tarefa seria transformar o homem e “convencê-los, despertar-lhes a
vontade criadora e transformadora (...) e só a instrução poderia ser o caminho da
conversão”208. Por isso, apostavam bastante na imprensa operária, pois esta seria o
instrumento de maior e melhor alcance para a educação dos operários brasileiros.
Para Tiago Bernardon209, na verdade, o sindicalismo revolucionário não poderia ser
considerado como uma corrente política em si, pois se tratava de uma das táticas adotadas
pelos anarquistas do início do século, tendo em vista que seria uma forma de organizar
205
TOLEDO, Edilene. A trajetória anarquista no Brasil na Primeira República. In: FERREIRA, Jorge; REIS,
Daniel Aarão (Org.). A FORMAÇÃO DAS TRADIÇÕES ( 1889 - 1945). Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1997. p. 54-100, p. 56.
206 TOLEDO, Edilene. Anarquismo e sindicalismo revolucionário. São Paulo: Editora Fundação Perseu
Abramo, 2004, p. 12
207 IDEM, p. 49.
208 IDEM, p. 43.
209 OLIVEIRA, Tiago Bernardon. Anarquismo, Sindicatos e revolução no Brasil (1906-1936). 2009. 267 f.
Tese (Doutorado) - Curso de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009. Disponível em:
<http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2014.
77
trabalhadores para combater com mais força os seus adversários, ou seja, o governo e os
patrões. Ainda segundo Tiago Bernardon:
A aproximação deliberada dos militantes anarquistas do Brasil com os
sindicatos se deu em meio a um contexto internacional, em que se tentou, a
partir das experiências de lutas dos trabalhadores operários urbanos europeus
do século XIX, dar novos contornos táticos e estratégicos, que permitissem a
difusão dos ideais libertários concomitantemente ao exercício prático da
organização e da mobilização reivindicatória. Essa aproximação se deu sob a
influência direta do chamado sindicalismo revolucionário, cujos contornos se
delineavam nos debates em torno da Confederação Geral do Trabalho
francesa, desde os anos 1890, e se consolidaram na Carta de Amiens, de
1906, até serem euforicamente apresentados por Pierre Monatte, no ano
seguinte, no Congresso Anarquista de Amsterdam.210
Neste sentido, temos acordo com Tiago Bernardon. A própria trajetória de Octavio
Brandão demonstra isso. A atuação em sindicatos era um instrumento que estava submetido a
um objetivo maior. Para os anarquistas brasileiros, o sindicalismo era um meio imprescindível
para a ação, ou seja, o sindicalismo não bastava em si mesmo.
Aos olhos dos militantes que pretendiam revolucionar a estrutura social, era
preciso um insistente trabalho de militância para que as ações de
trabalhadores pudessem resultar em ações revolucionárias. Por mais que se
atribua ao anarquismo a crença quase dogmática na espontaneidade
revolucionária das massas, que saberiam, quase que por instinto, provocar e
promover efetivamente uma revolução, na realidade, os anarquistas, quando
falavam em espontaneísmo, na maioria das vezes o faziam em uma
perspectiva relativa, pois sabiam da necessidade constante de organização,
propaganda e educação das massas para a promoção de práticas
revolucionárias. Isso se torna mais evidente a partir dos debates em torno das
formas de organização para a catalisação da ação direta, em especial da
validade do sindicato como instrumento de luta rumo à anarquia. Afinal, o
reconhecimento do sindicato como forma de organização não foi algo
imediato, tampouco contou com a adesão de todos os grupos e militantes que
se diziam anarquistas. Na história do anarquismo e do movimento operário,
houve muita discussão em torno da funcionalidade do sindicato para os
propósitos almejados por seu ideal. A ação direta se tornaria o principal meio
que colocaria em evidência os propósitos da militância anarquista,
constituindo-se na principal ferramenta política a contribuir para a
proliferação de sindicatos e da relativa força que o movimento operário
atingiria no Brasil da Primeira República.211
No Brasil, o movimento anarquista, segundo Toledo, tinha a função de difundir ideias
libertárias para toda a sociedade. A denúncia das condições de vida e exploração dos
210
OLIVEIRA, Tiago Bernardon. PARA ALÉM DO SINDICALISMO: NOVOS INSTRUMENTOS E
ALIADOS PARA A REVOLUÇÃO ANARQUISTA NO BRASIL (1917-1922). In: SIMPÓSIO NACIONAL
DE
HISTÓRIA-ANPUH,
26.,
2011,
São
Paulo.
Disponível
em:
<http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1308190543_ARQUIVO_TiagoBernardondeOliveiraANPUH2011-Paraalemdosindicalismo-novosinstrumentosealiadosparaumarevolucaoanarquistanoBrasil.pdf>.
Acesso em: 25 jul. 2014.
211
OLIVEIRA, Tiago Bernardon. Anarquismo, Sindicatos e revolução no Brasil (1906-1936). 2009. 267 f.
Tese (Doutorado) - Curso de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009, p.49.
78
trabalhadores e trabalhadoras nas fábricas das cidades, denúncia do Estado e da dominação do
cristianismo, seus dogmas e moral. Tudo isso sob um objetivo principal: educar os
trabalhadores para emancipar a humanidade. Afinal, somente um intenso trabalho de
propaganda poderia "constituir esse grupo e preparar as bases de sustentação no momento do
confronto"212. Por isso:
A educação ocupava um lugar central para os anarquistas, pois defendiam a
ideia de que só a educação garantiria o êxito da revolução social, já que tinha
a função de tornar possível o acesso à consciência revolucionária, o
autodidatismo popular tinha lugar de destaque nos discursos anarquistas.213
Um dos princípios do anarquismo é o repúdio à ideia de representação política, seja no
parlamento ou fora dele. Por isso, segundo Oliveira, os anarquistas procuravam organizar os
sindicatos onde atuavam de forma que evitassem processos de burocratização e criação de
dirigentes profissionais completamente afastados da base. Desta forma, adotavam "medidas
que garantissem uma rotatividade frequente dos cargos de direção (sempre não remunerados)
e a inexistência da figura de um presidente"214.
Apesar da grande ofensiva repressiva do governo em respostas a vitória da Revolução
Russa e aos movimentos grevistas que tomaram o país em 1919, segundo Evaristo de Moraes
Filho, neste ano são fundadas diversas Ligas Comunistas, "culminando com a criação do
partido Comunista, mas de índole anarquista"215.
Portanto, diante do contexto das grandes mobilizações que vinham em curso desde
1917, é sob a influência das notícias da Revolução Russa que em 1919 é criado no Rio de
Janeiro o Partido Comunista do Brasil.
O Partido Communista do Brazil foi um grupo político formado pelos
militantes da Aliança Anarquista do Rio de Janeiro, que estavam sob a
influência da Revolução Russa, em março de 1919. Criado no Rio de
Janeiro, mas pretendendo ter uma abrangência nacional, recebeu a adesão de
associações operárias de diversas regiões do país. Organizou manifestações,
editou o jornal Spartacus e patrocinou uma Conferência Comunista na
Capital Federal, com a participação de representantes de sete estados. Apesar
212
OLIVEIRA, Tiago Bernardon. Anarquismo, Sindicatos e revolução no Brasil (1906-1936). 2009. 267 f.
Tese (Doutorado) - Curso de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009. Disponível em:
<http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2014, p.80.
213
MARQUES, Carlos. A Imprensa Libertária: jornalismo operário e resistência anarquista na primeira década
do Século XX. Antíteses, Londrina, v. 5, n. 10, p.855-864, jul. 2012. Disponível em:
<http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/antiteses/article/viewFile/9680/12139>. Acesso em: 25 jul. 2014.
214
OLIVEIRA, Tiago Bernardon. Anarquismo, Sindicatos e revolução no Brasil (1906-1936). 2009. 267 f.
Tese (Doutorado) - Curso de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009. Disponível em:
<http://www.historia.uff.br/stricto/td/1142.pdf>. Acesso em: 23 jul. 2014, p.80.
215
MORAES FILHO, Evaristo de. A Proto-História do Marxismo no Brasil. In: REIS FILHO, Daniel Aarão et
al. História do Marxismo no Brasil: O impacto das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 15-46.
(Volume I), p. 41.
79
destas tentativas de organização, as referências ao partido vão desaparecendo
durante o ano de 1920, em meio à repressão ao movimento operário
brasileiro e às divergências em torno das novas ideias que vinham da Rússia
dos Soviets.216
Sua formação é bastante ampla, chamava anarquistas, socialistas e quem estivesse
disposto a construir uma sociedade comunista. A ideia de inspirar-se no exemplo russo
predomina na cabeça dos revolucionários desde que as primeiras notícias começaram a chegar
no Brasil. Tanto é que, a revolução russa passa a ser exemplo recorrente em diversos jornais
operários da época. Bartz, dá alguns exemplos:
Em agosto de 1917, depois da Greve Geral de São Paulo, foi publicado pelo
jornal anarquista A Plebe, um apelos aos soldados, para que se unissem aos
operários no combate à burguesia; em Maceió, neste mesmo período, o
jornal operário A Semana Social defendia abertamente que apenas a
formação de um Comitê de Operários e Soldados poderia salvar o povo e em
Porto Alegre, no mês de dezembro, Abílio de Nequete, militante operário
com destacada participação na greve de agosto daquele ano, foi preso ao
distribuir um panfleto assinada por um Grupo de Operários e Soldados
Brasileiros, incitando estas categorias a se unirem.217
Foram criadas células do partido em vários estados. O objetivo era ter uma
organização forte que aglutinasse trabalhadores de todo o país. Segundo Cristina Feiber o
programa do Partido Comunista do Brasil de 1919, "falava da reforma agrária, da divisão da
produção, regulamentação das horas de trabalho e sua obrigatoriedade para todas as pessoas,
liberdade de pensamento e livre acesso à educação"218. Ainda segundo a pesquisadora, o
partido organizava-se em núcleos e, apesar da amplitude, possui uma filiação baseada em oito
pontos.
A tentativa de criar um partido forte que pudesse unir os trabalhadores das diversas
vertentes ideológicas foi derrotada pela forte repressão do governo. Cada vez mais
informações sobre a revolução russa chegavam ao Brasil, e os primeiros sentimentos de
vitória que tomavam os corações dos intelectuais e militantes brasileiros, começaram a virar
divergências mais claras entre o anarquismo e o bolchevismo. Segundo Bartz, o acirramento
da luta política entre o anarquismo e o bolchevismo "provoca um refluxo no movimento, o
que interfere no partido, cujas referencias vão se perdendo ao longo do ano de 1920" 219. Ao
216
BARTZ, Frederico Duarte. PARTIDO COMMUNISTA DO BRAZIL (1919): lutas, divergências e
esquecimentos. Aedos, Porto Alegre, v. 2, n. 4, p.318-330, nov. 2009. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/aedos/article/view/10936/7492>. Acesso em: 01 ago. 2014.
217
IDEM.
218
FEIBER, Cristina Gabriela. O Partido Comunista Brasileiro de 1922: Seus antecedentes e sua
formação. Revista Latino Americana de História, São Leopoldo, v. 1, n. 3, p.276-286, mar. 2012. Disponível
em: <http://projeto.unisinos.br/rla/index.php/rla/article/view/83/61>. Acesso em: 02 ago. 2014.
219
BARTZ, Frederico Duarte. PARTIDO COMMUNISTA DO BRAZIL (1919): lutas, divergências e
esquecimentos. Aedos, Porto Alegre, v. 2, n. 4, p.318-330, nov. 2009. Disponível em:
80
longo do ano de 1920 novos grupos se gestam e a ampla unidade feita para a criação do
Partido Comunista do Brasil vai ficando para trás.
A existência do Partido Comunista do Brasil de 1919 é, por vezes, considerada como
mero acidente de percurso, porém acreditamos que é um dado importante para explicar o
contexto da esquerda e de seus intelectuais no período em que estamos tratando nesta
pesquisa.
3.2. A vida no Rio de Janeiro
Octavio Brandão chegou ao Rio de Janeiro em maio de 1919, depois de sair exilado de
Alagoas em decorrência dos seus posicionamentos políticos, que faziam com que o jovem não
fosse mais bem quisto na terra dos marechais.
Vivi no Rio de Janeiro, em 1919 - 1931. Anos tensos e intensos. Anos
decisivos, determinantes. Todo um período de combates penosos e desiguais,
contra forças imensas coligadas. Aí lutei e sonhei, sofri e trabalhei. Suportei
inúmeras injustiças e incompreensões.220
A mudança para o Rio de Janeiro não representa um capítulo fácil da vida de Octavio
Brandão. Suas lembranças são permeadas pelos percalços que passou, sejam financeiros ou
emocionais. Mas é verdade, também, que a ida para a capital do Brasil serviu para aproximálo de tantos outros intelectuais e lutadores sociais. Serviu para que o jovem tivesse ainda mais
experiência com a luta da classe trabalhadora e, assim, o fez avançar política e
intelectualmente em seus posicionamentos.
Ao chegar na cidade maravilhosa, o jovem intelectual dedicou-se ainda mais as mais
diversas leituras, tanto quanto a ciências naturais quanto a ciências políticas. Como já
dissemos, tentou emprego na Biblioteca Nacional e tentou aprofundar mais suas pesquisas em
ciências naturais. No entanto, desempregado, Octavio sabia que logo teria que procurar
emprego para se manter na capital do país, posto que suas economias logo findariam. Mesmo
nesta situação, nos primeiros meses da sua chegada ao Rio de Janeiro, segundo Brandão:
Desempregado, derrotado pelo triste ambiente dominante tirei partido da
própria adversidade, em vista de um destino superior. Durante cerca de 10
meses, visitei assiduamente a Biblioteca Nacional, à Avenida Rio Branco. Aí
continuei os estudos sobre literatura e filosofia, ciências naturais e ciências
sociais. (...)Reestudei as páginas de Darwin e Humboldt.221
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/aedos/article/view/10936/7492>. Acesso em: 01 ago. 2014.
220
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 136.
221
IDEM, p.138.
81
No livro Combates e Batalhas, Octavio ressalta que foi neste período em que ele fez
leituras dos grandes poetas e intelectuais da Índia Antiga, da Grécia Clássica e da Europa
Moderna. Ele exemplifica os seguintes: Viasa, Valmiki, Kalidasa, Homero, Ésquilo, Sófocles,
Eurípedes, Lucrécio, Virgílio, Shakespere, Byron, Goethe, Heine, Kapila, Kanada, Vrihaspati,
Demócrito, Epicuro, Giordano Bruno, Spinoza e Diderot222.
Neste mesmo período, cresceu, inevitavelmente, o prazer pela fruição das artes. Além
disso, segundo Brandão, a mudança para Rio de Janeiro permitiu que ele conhecesse mais de
perto muitos intelectuais brasileiros.
Conheci, então, muitos intelectuais: Coelho Neto, Alberto de Oliveira,
Clóvis Beviláquia, Pontes de Miranda, Nestor Vítor, Hermes Fontes, Goulart
de Andrade, Mário de Alencar, Elísio de Carvalho, Gustavo Barroso, Afonso
Celso, Ramiriz Galvão e outros. Todos foram amáveis. Nada tenho a dizer
no terreno pessoal. Mas as divergências eram profundas. Deixei de procurálos.223
No entanto, dentro os intelectuais dos quais Octavio aproximou-se ele cita como
verdadeiros amigos, apenas, Astrojildo Pereira, José Oiticica e o historiador Rocha Pombo.
Da família, Octavio afastou-se cada vez mais. As ideias libertárias que defendia colocavam-no
cada vez mais distante daqueles que o criaram.
O tio materno Alfredo Brandão morava à rua Joaquim Nabuco, em
Copacabana. Mas se opunha à minha viagem ao Rio de Janeiro. Achava que
eu estava "perdido" por causa das ideias avançadas. Rompeu relações
comigo. Fiquei ainda mais só. O tio só reatou a amizade depois que, no fim
de 1919, leu o apêndice de Canais e Lagoas. Sentiu-se comovido. Escreveume. Fui vê-lo. Infelizmente, as relações já não podiam ser as mesmas. Meu
tio nunca me procurou, embora passasse sempre pela rua do Ouvidor, onde
eu morava. Nunca mais se interessou por mim. Era progressista em face do
Quilombo dos Palmares e episódios semelhantes do passado da História do
Brasil. Mas atacava muito as ideias socialistas. Daí os choques e as
divergências.224
Nos primeiros dez meses que passou no Rio de Janeiro, Octavio não conseguiu
arranjar nenhum emprego. Sem ajuda da família e sem amigos influentes, o jovem passou por
dificuldades financeiras. Desta forma, mandou vender sua farmácia em Alagoas. Da venda
recebeu 8 contos e, com este dinheiro pensou em sair do Brasil, "deixar a Pátria cruel e
madrasta, exilar-me pela segunda vez, viver modestamente em Paris, aí estudar e trabalhar, ir
a Moscou para conhecer Lênin, compreender o marxismo e viver a Revolução Socialista"225.
222
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.138.
IDEM, p.140.
224
IDEM, p.149 e 150.
225
IDEM, p.154.
223
82
Segundo Octavio, a falta de militantes de esquerda no Brasil o fez desistir da partida.
Vale ressaltar que, foi exatamente neste ano que houve um aumento da repressão no Brasil,
quando muitos militantes foram deportados. Parece-nos que mesmo diante de tamanha
repressão, Octavio não arrefeceu, pois encontramos muitos materiais em jornais da classe
trabalhadora que comprovam que em 1920 Octavio mergulhou de cabeça no movimento dos
trabalhadores e contribuiu muito para a imprensa operária.
Para sobreviver, com o dinheiro conseguido da venda da farmácia em Maceió, o jovem
comprou outra farmácia no Rio de Janeiro:
Com o dinheiro da venda, em março de 1920, comprei uma pequena
farmácia no Rio de Janeiro, à rua São Francisco Xavier 228, em frente ao
Colégio Militar. Fui enganado pelo vendedor. Ela não estava em nome dele.
Vendeu-a, recebeu o dinheiro e desapareceu. Lutei 17 meses, mas não pude
legalizar os documentos, embora gastasse um dinheirão no Tesouro, na
Prefeitura e com o despachante. Fui boicotado pela freguesia burguesa e
intimado pelo Departamento de Saúde Pública a fechar o estabelecimento ou
transferi-lo para outro local.226
Diante destas dificuldades, Octavio viu-se obrigado a procurar outro emprego, além da
farmácia. Por isso, deixou um aprendiz em seu lugar para conseguir outro emprego, "aprendi
o ofício de linotipista nas oficinas da Gazeta de Noticias, à rua 7 de Setembro, perto da
Avenida Rio Branco"227.
Entretanto, nem todas as lembranças deste período são ruins. Foi no Rio de Janeiro
que Octavio veio a conhecer aquele que seria o grande amor da sua vida, Laura Brandão.
Laura era professora e morava no mesmo edifício que Octavio. De Laura, Octavio relembra
com carinho.
Quando muitos me abandonavam, ela acreditou em mim e confortou-me.
Tinha fé, amor, compreensão. Despertou belos pensamentos e nobres
sentimentos. (...) Laura tinha a paixão e a convicção revolucionária. Dizia
ser a minha discípula. Era a discípula dileta, predileta. Veio a ser a Egéria - a
inspiradora, a animadora e a cooperadora. (...) Durante mais de 22 anos, deume toda a beleza do mundo. Debruçava-me sobre ela como sobre uma
torrente de águas puras, cristalinas. E via nas profundezas das águas límpidas
e luminosas, minha alma transfigurada pelo amor sublime de Laura!228
Com Laura, Octavio casou-se no dia 10 de abril de 1921 e teve três filhas. Laura foi
mais que esposa para o jovem, era também companheira e militante ativa no movimento
operário.
226
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.155.
IDEM, p.161.
228
IDEM, p.158 e 159.
227
83
3.3. A educação dos trabalhadores
Quanto ao movimento dos trabalhadores Octavio ressalta que chegou no Rio de
Janeiro em um momento de efervescência política. Como já citamos, no ano de 1918-1919 a
situação do povo brasileiro piorou, altos preços dos gêneros alimentícios, maior desemprego,
salários baixos, etc. Sobre a luta dos trabalhadores e sindicatos da época, Octavio afirma:
Infelizmente, esse movimento não tinha clareza ideológica. Nem firmeza
política. Encontrava-se sob a influência do anarquismo e do anarcosindicalismo. Então, no Brasil, não existia nenhuma tradição marxista.
Ninguém conhecia Marx, Engels e Lênin. Falava confusa, vaga e
erroneamente sobre Marx como se se tratasse de um reformista do tipo da II
Internacional. Erros terríveis.229
Por mais que anos depois Octavio considere que o movimento deste período tinha
"pouca clareza teórica", durante os anos de 1919-1921 Octavio atuou dedicadamente no
movimento dos trabalhadores, dizendo-se e defendendo abertamente o anarquismo. A
educação dos trabalhadores passou a ser um dos nortes de sua militância, portanto, proferiu
diversas conferências em cidades e sindicatos diferentes.
Parece-nos possível perceber que um dos objetivos principais de Octavio, assim como
de vários militantes do período, era educar os trabalhadores brasileiros, para que entendessem
que estes eram os sujeitos da revolução. Durante os anos de 1919 a 1922, Brandão dedica-se a
alguns jornais, dentre eles o jornal Spartacus, que segundo Bartz230, era organizado pelo
Partido Comunista do Brasil de 1919, e o A Voz do Povo, ambos do Rio de Janeiro.
3.3.1. Anarquismo e Religião
Entre os temas abordados por Brandão estão principalmente religião, miséria do povo
e necessidade da revolução. Octavio não condena só o cristianismo e a Igreja católica,
condena todas as religiões e formas de fanatismo. Por isso, boa parte da sua propaganda
revolucionária é direcionada a esta questão. Acreditamos que Octavio, pela importância que
seu rompimento religioso teve para sua formação enquanto militante revolucionário,
acreditava que um dos primeiros passos para que o trabalhador pudesse ser um militante
"anarquista" e revolucionário seria o rompimento religioso.
229
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 163.
BARTZ, Frederico Duarte. PARTIDO COMMUNISTA DO BRAZIL (1919): lutas, divergências e
esquecimentos. Aedos, Porto Alegre, v. 2, n. 4, p.318-330, nov. 2009. Disponível em:
<http://www.seer.ufrgs.br/index.php/aedos/article/view/10936/7492>. Acesso em: 01 ago. 2014.
230
84
As formas que escolhia para fazer este debate eram as mais diversas, iam desde os
argumentos científicos a sátiras e ironias. Em 6 de setembro de 1919, Octavio Brandão
publica o texto Quando a Igreja era senhora do mundo, no qual o jovem faz uma narração
da história da Igreja durante a Idade Média, suas atrocidades e o destino dos que ousavam não
acreditar. Ironiza algumas das lendas do cristianismo, para então, condenar o fanatismo.
Termina o texto da seguinte forma:
Quando a Igreja era a senhora do mundo a humanidade tinha descido a um
nível de boçalismo inominável.
Sombra, ignorância, fanatismo, escravização do Pensamento - eis aí a Idade
Média.
Por isso a condeno como condeno a Igreja.231
Outra maneira de fazer os trabalhadores romper com a religião era explicar científica e
historicamente a origem dos mitos da Igreja. Em 27 de setembro de 1919, ele publicou o texto
O mito do Satan no jornal Spartacus, no qual ele explica qual a origem da figura do Satã no
cristianismo. O jovem intelectual resgata a lenda egípcia de Osíris, que é o deus bom, e de
Set, o deus mau. A partir da explicação da lenda antiga, Octavio afirma: "Eis como o
cristianismo, salada de todas as religiões da antiguidade, arranjou a fábula de Satan" 232. No
texto Analisando a Bíblia, publicado no jornal Voz do Povo, em 29 de março de 1920,
Octavio analisa diversos trechos da bíblia e satiriza:
Entretanto, dizem que Cristo foi gerado pelo Espírito Santo. Não
compreendo esse embrulho. Tendo sido gerado pelo Espírito Santo, Cristo
não podia ser filho de José, portanto, descendente de David?
Teria havido parthenogenese?
Curioso Espírito Santo:
Existem milhões de indivíduos que acreditam ou dizem acreditar em
semelhante idiotice!233
O fanatismo era uma das características da fé que mais incomodava o jovem alagoano.
Parecia muito difícil para o Octavio entender o porquê acreditar em Deus se não havia provas
científicas da sua existência, aliás, as provas mostravam que o cristianismo era uma religião
formada por um misto de outras tantas lendas. Além disso, a fé tornava as pessoas cegas e,
para Octavio, impedia que elas partissem para a ação, portanto, as religiões seriam como
"papões inventados para refrear e aterrorizar a meninada medrosa por aí que se chama
humanidade"234. No texto Idolatria, publicado no dia 08 de agosto de 1920, no jornal Voz do
Povo, Octavio repugna a idolatria de todas as formas. Para o autor, a idolatria seria um
231
BRANDÃO, Octavio. Quando a Igreja era a senhora do mundo.... Spartacus, Rio de Janeiro, 06 de
setembro de 1919.
232
BRANDÃO, Octavio. O mito de Satan. Spartacus, Rio de Janeiro, 27 de Setembro de 1919.
233
BRANDÃO, Octavio. Analisando a Bíblia. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 29 de março de 1920.
234
BRANDÃO, Octavio. O Desabar dos deuses. Spartacus, Rio de Janeiro, 03 de janeiro de 1920.
85
sentimento nocivo, portanto afirma: "O indivíduo que substitui no seu íntimo o culto de Deus
ou do Cristo pelo culto da Razão ou da Liberdade - nada fez; ainda é um escravo"235. Por fim,
Octavio chama a todos a romper com todas as formas de idolatria e religiões.
Os textos parecem servir também ao objetivo de reafirmar ao mundo que o jovem
alagoano, sobrinho de seminarista, há muito tempo já havia rompido com as religiões.
Portanto Octavio afirma:
Prefiro a agitação, a amargura produzida por uma verdade qualquer a calma
interior originada por um mito, uma religião, cuja essência não sondei, cujos
recessos não aprofundei. Isto é contra os que dizem, ainda mesmo que o
catolicismo não fosse verdadeiro, que importa, se ele produz a paz interior?
(...) Conheço muitos indivíduos que se dizem cristãos, mas no intimo não
passam de pagãos sensualistas, pois o que veem na sua religião é o lado
exterior, que excita os sentidos: velas, imagens, sons de sinos, roupagens,
etc.236
A citação acima demonstra-nos uma importante característica de Octavio: apesar da
negação incansável da religião, o jovem ainda carrega ao longo dos anos características
cristãs. O julgamento por comportamentos que seriam "amorais" ou "pagãos" é parte dos
pilares que sustenta a religião até os dias atuais. Acreditamos que a negação da religião para
Octávio Brandão, faz parte do processo de afirmação das suas práticas revolucionárias
naquele período e negação do seu passado familiar. Além disso, posteriormente, acreditamos
também que faça parte da afirmação de sua importância para o movimento dos trabalhadores,
o que permeia todo o seu livro de memórias.
No texto Kristo, essa confusão permanece clara. Octavio crítica o dogmatismo
religioso e ressalta que a luta pela mudança do mundo cheio de misérias em que vivemos é
mais importante do que a fé e a religião, ou seja, a preocupação pelo próximo poderia ser um
dos princípios ressaltados pela religião, no entanto não acontece.
Não o simpatizo, pelo seu dogmatismo ferrenho; quando fala num pseudojuízo final - porque inferno pior, para as almas sensíveis, que o mundo atual,
não pode existir - porque todos sofrem, do menor ao maior, e a alma agitada,
inquieta de muitos ricos seria mais merecedora do tal reino dos céus, do que
a alma cheia de paz e alegrias de muitos pobres que conheço.237
O texto em questão não é só de críticas a religiosidade, Octavio ressalta na vida de
Jesus Cristo os aspectos que ele julga importantes para os homens.
Amo-o pela sua vida de aventureiro através das cidades e aldeias; quando
acha bem-aventurados os limpos de coração, os perseguidos, os
235
BRANDÃO, Octavio. Idolatria. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 08 de agosto de 1920.
BRANDÃO, Octavio. O Desabar dos deuses. Spartacus, Rio de Janeiro, 03 de janeiro de 1920.
237
BRANDÃO, Octavio. Kristo. Spartacus, Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1920.
236
86
pacificadores; quando ataca os escribas e os fariseus, antepassados dos
burgueses, magistrados e clericais de hoje; quando prega a reconciliação;
quando condena o juramento e exalta a firmeza na palavra dada; quando
pede que sejamos perfeitos, embora eu saiba que isto não para tão cedo.238
A crítica à religiosidade foi elemento constante na trajetória de Octavio Brandão. Sua
apologia contra a religiosidade causou críticas. No jornal O Lynge, de propriedade de Jesus de
Oliveira, encontramos a seguinte crítica, referindo-se a uma das conferências de Octavio:
Constituiu um verdadeiro fracasso, o discurso, proferido no dia 1º durante a
posse da nova diretoria da Federação Operária, pelo sr. Octavio Brandão,
vindo do Rio, para esse fim.
O seu discurso, violentamente dito contra o catolicismo, protestantismo e a
República, em que chamou de venal, foi uma audácia, que não agradou
ninguém dos que estavam presentes.
Este senhor jovem e bem inteligente, como demonstrou ser, devia ter mais
consideração com a assembleia que, em sua maioria era católica. (...)
Seguimos uma doutrina oposta às dos católicos e protestantes, porém, damos
nossa solidariedade aos que ali se achavam e que foram tão insolitamente
ofendidos.239
Aqui nos chama atenção outra característica: a crítica feita à religiosidade não era
descolada das críticas sociais, muito pelo contrário, era feita a serviço destas. A crítica de
Jesus de Oliveira ao Octavio Brandão não se resume a opinião de que o intelectual não tem
cuidado político quanto a religiosidade dos presentes, o artigo apresenta também críticas
acerca do posicionamento político apresentado por Octávio Brandão: Rompimento com o
republicanismo e o anarquismo.
3.3.2. A responsabilidade dos intelectuais na educação para a revolução
Para Octavio, o contato e a participação dos intelectuais era muito importante para o
desenvolvimento da revolução, tendo em vista a contribuição que estes podiam dar na
formação e evolução das consciências da massa, além do desenvolvimento da teoria
revolucionária. Por isso, enquanto esteve no Rio de Janeiro, procurou muitos intelectuais,
tanto para apresentar seu trabalho, quanto para aproximar-se e trazê-los para o movimento
revolucionário.
No entanto, logo o jovem percebeu que a conjuntura vivida entre 1917 e 1920 no
Brasil e no mundo tiveram uma consequência para a intelectualidade, pois "suscitaram uma
delimitação e diferenciação entre os intelectuais. De um lado, os progressistas. Do outro lado,
238
239
BRANDÃO, Octavio. Kristo. Spartacus, Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 1920.
Um fracasso oratório. O Lynge. Juiz de Fora, 07 de Maio de 1922.
87
os reacionários"240.
Entre os intelectuais progressistas, Octavio cita Lima Barreto e Astrojildo Pereira,
entre os reacionários, Rui Barbosa, Graça Aranha, Olavo Bilac, José Veríssimo, Coelho Neto,
Medeiros e Albuquerque e João do Rio. Para Octavio o que os tornava inimigos da classe
trabalhadora era a defesa da Primeira Guerra Mundial e a discordância declarada com as
ideias socialistas e anarquistas. Sobre Rui Barbosa, o jovem afirma: "Rui lançou libelos
totalmente reacionários contra a revolução e o socialismo. Caluniou-os torpemente. Exerceu
influência profundamente nociva. Era advogado da empresa imperialista Light"241. Enquanto
dedica grandes elogios a Lima Barreto que, para Octavio sustentou ideias avançadas, pois "em
artigos publicados, manifestou sua simpatia pela revolução na Rússia. Saudou-a com um
movimento que abalava os fundamentos da sociedade burguesa"242, e, junto com outros
intelectuais, teria dado continuidade à tradição progressista de Euclides da Cunha.
Diante desta perspectiva, vários foram os artigos de Octavio Brandão, dedicados ao
chamado para que a intelectualidade participasse ativamente do movimento operário.
O povo não é o principal elemento da História. Os pensadores, os criadores
também têm seu papel. Vou mais além: estes são os motores e aquele é a
máquina, até aqui inconsciente, mas daqui em diante conscientíssima.243
Fica clara a importância que Octavio dava a intelectualidade, pois, para ele, era papel
dos intelectuais educar as massas. Os intelectuais que não o faziam, na verdade, prestavam um
desserviço para o desenvolvimento da humanidade. Era assim com Rui Barbosa, a quem
Octavio declarou guerra. Em suas memórias, ele relembra de Rui Babosa como homem de
intelectualidade nula, que se valia de uma camarilha que o cercava e que estava a serviço do
imperialismo e contra a revolução. No entanto, apesar disso, era considerado ídolo, portanto,
era papel de Octavio mostrar às massas sua verdadeira face244.
Hoje, só existem para o escritor, dois caminhos: o silêncio ou a rebeldia. Ou
ele se cala por interesse ou por covardia, ou se revolta. Só mesmo uma
profunda miséria moral nos escritores contemporâneos é que os leva a
assistirem indiferentes ao drama do presente, continuando a fazer versos e
crônicas às melindrosas, ou a tomarem a defesa das castas exploradoras.
Saibam escritores semelhantes de uma vez para sempre: eu, o anarquista, o
rebelde, o indesejável, eu os desprezo como os cães mais baixos do
universo!!!
A literatura sem libertação, pensamento que não redime, só é digno de
240
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 167.
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 168.
242
IDEM, p. 168.
243
BRANDÃO, Octavio. Apontamentos. A Plebe, São Paulo, 11 de Setembro de 1920.
244
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 203.
241
88
lacaios e bufões e não de homens e pensadores.
O primeiro passo para a libertação universal, não resta dúvida, é a libertação
individual. (...) Rui é um "grande homem" por causa da nulidade da
camarilha que o cerca; se esta valesse alguma coisa, ele não seria tão grande
como o querem fazer passar.245
Este trecho nos dá pista para duas concepções de Octavio. A primeira é a que já
ressaltamos, a importância do papel do intelectual para a revolução. A segunda é, talvez, mais
importante para entender um pouco de sua trajetória durante os anos que tratamos nesta
pesquisa, é a concepção de que a mudança da sociedade depende da mudança individual.
Acreditamos que a sua visão do papel da intelectualidade é decorrente da segunda concepção
que acabamos de citar. Além disso, a concepção do papel do indivíduo pode ser decorrência
dos estudos sobre Nietzsche, que ainda eram muito presente nas leituras do jovem intelectual
e, mesmo diante do afastamento da teoria de Nietzsche da que defendia por Octavio, ele
continua a defender alguns pontos da teoria nietzschiana que considera importantes para a
formação das massas.
Mesmo com a defesa do anarquismo mais clara em seus textos, muitas eram
as alusões a Nietzsche, Stiner ou mesmo Kant.
Nietzsche e Sitner declararam-se inimigos do anarquismo, mas entretanto
são pontes para o anarquismo. Isto é mais que verdadeiro, pois quem os lê
adquire facilmente o desprezo pelas convenções, pelas mentiras sociais,
pelos homens da política, pelos arrotos dos burgueses.
Nietzsche, pelo seu horror aos dogmatismos, pela insubmissão, pelo tom
libertário, pela altivez, pela revolta, pelo desprezo ao Estado, à política, à
sociedade, pelo amor à vida, pela sua crença numa Humanidade futura, é
bem um autor que deve ser recomendado aos escravizados.
O que me corta o coração quando o leio, é ver as acusações injustas ou
absurdas que profere contra o anarquismo, teoria na qual ele nada
enxergou.246
Além do apelo aos intelectuais, neste período, Octavio continuou o apelo aos artistas
por uma arte voltada a população brasileira, uma arte que não fosse inspirada na arte da
Europa, mas que tivesse como inspiração o povo e a natureza brasileira.
Feliz a nação cujas primeiras manifestações literárias surgiram no seio do
povo e não no seio dos ricos e aristocratas ociosos e amaneirados.
O povo é como a natureza; é tosco, rude, bárbaro mesmo, porém tem forças
tão poderosas, tem inspirações tão ricas e divinas, que nele a arte não pode
descer, só pode fugir, sob um invólucro de escorias, é verdade, porém
escorias que o primeiro Goethe ou o primeiro Wagner eliminarão facilmente.
A verdadeira Arte não deve ser oficial, nascer nos corredores dos palácios,
mas sim brotar como uma flor selvagem e exótica na alma do povo. (...) E é
por isto que o movimento literário brasileiro está em decadência, porque
nossos poetas e prosadores são meros lacaios do governo ou da burguesia,
tipos inferiores que não avaliam a grandeza do pensamento e vendem-se
245
246
BRANDÃO, Octavio. Brados de Guerra. A Plebe, São Paulo, 03 de julho de 1920.
BRANDÃO, Octavio. Aforismos e anotações. A Plebe, São Paulo, 24 de julho de 1920.
89
miseravelmente por qualquer emprego.247
A luta política de Octavio pela intelectualidade não ficou centrada apenas em textos.
Ele aderiu ao Grupo Clarté de Paris que, segundo ele, era dirigido pelo escritor Henri
Barbusse. No Brasil, fez parte do Grupo Comunista Zumbi, formado por intelectuais. O nome
era inspirado em Zumbi dos Palmares, pois significava "a bandeira dos que se rebelam contra
o jugo do sindicato político, clerical e industrial em cujas garras amarram nosso Brasil" 248.
Dentre as bandeiras defendidas pelo grupo estava a liberdade do homem sobre a terra
livre, a emancipação da mulher, a abolição dos privilégios de classe e a "República Universal
onde todos trabalhem e onde todos tenham direito à vida"249. O Grupo brasileiro era filiado ao
Clarté. A partir do contato com outros intelectuais do mundo, Octavio tentou fazer com que a
situação no Brasil fosse conhecida por intelectuais de todo o mundo, para isso, então, enviou
panfletos e artigos para intelectuais da América Latina, Europa, Ásia e África, dentre eles
Máximo Górki, Timiriazev, e José Ingenieros. De alguns, recebeu respostas, mas lamenta,
"infelizmente, nada recebi de Górki e Tagore, de Barbusse e Anatole France"250. Sobre o
Clarté, Octavio escreve:
O fim do grupo "Clarté" é formar a Internacional do Pensamento que
preparará a Internacional dos Povos. Se os governos dividem os povos é para
reinar sobre estes. Nesta hora em que a humanidade inteira procura libertarse das velhas leis opressoras, os homens de pensamento livre tem o dever de
agrupar-se para exercer uma ação social. (...) Os intelectuais não ficarão
impassíveis, eles não o podem. Mais ainda que um dever moral, mais que as
exigências imperativas do ideal, é a paz e a vida de todos os homens que
estão agora em questão.251
Mesmo com o contato com alguns intelectuais, seus artigos, livros e os apelos à
intelectualidade, Octavio não foi reconhecido como intelectual naquele período. A falta de
reconhecimento, Octavio atribui a seus posicionamentos políticos.
Sustentando concepções opostas aos interesses dos capitalistas estrangeiros,
das duas classes dominantes e de seus respectivos intelectuais, fui
hostilizado em todos os terrenos: econômico e financeiro, político e social,
moral e ideológico.252
As lutas intelectuais e políticas não cessaram pela falta de reconhecimento e, ao longo
dos anos seguintes, intensificaram-se.
247
BRANDÃO, Octavio. O palacianismo na Arte. Spartacus, Rio de Janeiro, 25 de Outubro de 1919.
Núcleo Organizador. Grupo Comunista Brasileiro "Zumbi". Spartacus, Rio de Janeiro, 03 de Janeiro de
1920.
249
IDEM.
250
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 140.
251
BRANDÃO, Octavio. Pela República Universal! O Imparcial, Rio de Janeiro, 02 de fevereiro de 1920.
252
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 152.
248
90
3.3.3. A revolução será anarquista
A defesa de outra sociedade permeou os escritos de Octavio Brandão. Desde os
primeiros momentos no qual viu, ainda em Alagoas, a situação de miséria do povo, sua
militância foi centrada em procurar formas de mudar essa realidade. Em 1920, Octavio
publica um texto chamado As vendedoras de sururu, no qual ele expõe a situação de
pobreza do povo que vivia às margens da região dos canais e lagoas e chama os trabalhadores
para mudar essa realidade.
Não há coisa mais triste, mais profundamente dolorosa e mais intensamente
clamorosa que a vida dessas patrícias que todos os dias passam diante das
nossas portas com o humilde tabuleiro a cabeça.
Muitas, no dia anterior, estavam dentro da Lagoa Mundaú, mergulhando na
água fria e tiritando por causa do plaudismo horroso.
Muitas passaram a noite inteira sem dormir, descascando sururu. (...) Acorda,
mocidade heróica! Protesta contra a miséria de tuas patrícias.253
Ainda sobre Alagoas, no mesmo ano, Octavio mandou um recado aos trabalhadores
dizendo: "Não vos esqueci; e essas linhas escritas 8 meses depois de ter partido, acossado pela
prepotência da casta maldita que vos explora, são testemunho verdadeiro"254. Neste texto,
Octavio ressalta a sua vida dedicada à luta dos trabalhadores, contra a burguesia e a
reafirmação que, mesmo depois da tentativa dos poderosos de calá-lo, sua luta continuava
ainda mais viva.
Como a maioria dos militantes da época, Octavio procurou promover a educação
através de seus textos nos jornais e diversas conferências. Foram dezenas de conferências aos
operários, não só no Rio de Janeiro, mas em cidades como São Paulo, Petropólis e Juiz de
Fora também. Em 1919, estava muito envolvido com suas pesquisas naturais, esse tema ainda
era permanente. Porém, a partir de 1920, fez dezenas de conferências sobre religião, a
situação do povo brasileiro, necessidade de organização e revolução. Encontramos registros
de conferências aos operários como gráficos255, tecelões256, caixoteiros257 e da construção
civil258. Os convites aos trabalhadores eram feitos através de anúncios em jornais.
Quarta-feira, 14, às 8 horas da noite, o camarada Octavio Brandão fará uma
conferência. O tema é dos mais sugestivos: - "Apelo a nacionalidade".
Não podia o comitê comemorar mais condignamente a tomada da Bastilha.
253
BRANDÃO, Octavio. As vendedoras de sururu. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 15 de Setembro de 1920.
BRANDÃO, Octavio. Manifesto aos trabalhadores alagoanos. A Plebe. São Paulo, 14 de agosto de 1920.
255
Festival do sindicato dos trabalhadores Gráficos. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 20 de Novembro de 1920.
256
Conferência. Voz do Povo. Rio de Janeiro, 22 de Agosto de 1920.
257
Associação dos Maleiros, Caixoteiros, Carroceiros, Seleiros e Artes Correlativas. Voz do Povo, Rio de
Janeiro, 14 de Julho de 1920.
258
Ao raiar da nova era. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 26 de julho de 1920.
254
91
O local da conferência será amanhã anunciado, sendo provavelmente nos
Tecelões, à rua Acre, 19.
Entrada Franca.259
Nesta conferência, Octavio chamou os trabalhadores à luta para a transformação do
Brasil em país governado pelos trabalhadores. Ressaltou que só os trabalhadores
conseguiriam uma verdadeira transformação social, "De pé, milhões de escravos que viveis no
meu país! Só os batalhadores são dignos de viver" 260. O jovem ainda ressaltou a situação de
miséria do povo brasileiro e fez um apelo para a necessidade de greve geral no Brasil, por
direitos e condições melhores de trabalho.
Já nesta conferência, nos chama atenção que o jovem passa a travar combates contra
os parlamentaristas e socialistas do período. De forma ainda confusa, Octavio afirma:
Não consintamos a predominância de elementos parlamentaristas os
socialisteiros no nosso meio, para depois não termos o trabalho de expulsálos, a esses Thratis [sic] sem vergonha: Só existe um ideal para o
proletariado: a Transformação. Só há um meio para isto: a Revolução Social.
Tudo quanto não tender para o sindicalismo revolucionário deve encontrar-se
a máxima expulsa no seio das massas conscientes. (...) Soldados da
Rebeldia, avante! Que meu Apelo encontre eco nas vossas almas! Auxiliame com as vossas terríveis talhadeiras! Empunhai outros seixos e lançai os
com a mesma violência da minha funda! Trabalhai, cataputas de guerra!
Quero assistir a derrocada do mundo velho. De pé, soldados da Rebeldia!261
Acreditamos que encontra-se aqui um elemento importante de reflexão. Ao passo que
a defesa da luta dos trabalhadores permeou sua vida, cada vez parece ficar mais clara para
Octavio a necessidade de que, para mudar a forma de sociabilidade do Brasil, seria necessário
uma revolução. À medida que o contato com o movimento de esquerda e com os
trabalhadores se aprofunda, sua identificação com os anarquistas torna-se mais clara. Como já
discutimos, dentre as vertentes de esquerda que existiam no período, era possível encontrar
socialistas e colaboracionistas. É possível que, no texto acima, quando Octavio refere-se aos
"socialisteiros", esteja falando dos colaboracionistas que buscavam acordos com os
parlamentares do período, em detrimento de vitórias pequenas para os trabalhadores e
vantagens para eles próprios.
A defesa da revolução e do anarquismo torna-se recorrente nos textos de Brandão. Até
1922, Octávio vai fazer grandes defesas de uma sociedade anarquistas. Sempre na perspectiva
de explicar aos trabalhadores porque os métodos de luta do anarquismo são as melhores
259
C.D.D.H. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 12 de Julho de 1920.
BRANDÃO, Octavio. Apelo à nacionalidade brasileira: lido na sede dos Tecelões, a 14 de julho, em
sessão comemorativa da Tomada da Bastilha, patrocinada pelo C.D.D.H. Voz do povo, Rio de Janeiro, 17 de
julho de 1920.
261
IDEM.
260
92
formas de construir um mundo melhor, Octavio afirma:
Nós, anarquistas, que somos os homens mais ansiosos de Amor Espontâneo,
seremos enérgicos se algum dia empunharmos o poder.
Nossos inimigos, que não querem ceder com boas razões força-nos a realizar
o nosso Ideal através de uma navegação perigosa por entre escolher e
sorvedouros [sic]. Nós, que somos inimigos da Autoridade, vemos-nos
obrigados a ser autoritários.
Aí dos que entenderem então ser obstáculos à realização dos nossos ideais!
Aí dos contra-revolucionários! Porque é impossível realizar a transcendência
das nossas convicções com a sociedade atual... e não iremos recuar por causa
de uns quantos retrógrados e estacionários.262
Apesar de morar no Rio de Janeiro, Octavio ainda carregava muitos dos elementos de
sua formação em Alagoas e Pernambuco. No entanto, acreditamos que uma das coisas que
mais pesava em suas análises era a análise da classe trabalhadora brasileira, que ainda era
muito agrária. Portanto, a discussão com os trabalhadores do nordeste também era elemento
marcante nos textos de Octavio Brandão.
Foi aí, nessa terra querida que sempre recordo com profunda saudade que
comecei a abrir os olhos à Luz e à Beleza.
Foi aí que sonhei os primeiros sonhos rebeldes que bebi as primeiras noções
filosóficas e que minha alma se abriu para os mundos do Pensamento.
Pernambuco, terra de heróis e mártires, estás fadada a tomar a dianteira do
movimento revolucionário no Brasil. (...)
O momento histórico é rubro, porque rubro é o estandarte da anarquia.
Para construir um mundo novo é imprescindível derrubar o mundo velho.
Pois bem: Pernambuco, terra do meu coração, é preciso soltar o grito:
-Abaixo a sociedade burguesa!263
Para convencer os trabalhadores de que o caminho seria uma revolução anarquista,
Octavio também tentou contrapor os discursos hegemônicos. Um deles era a ilusão da
possibilidade de existir um bom governo, que torne a vida dos trabalhadores melhor. Para
Brandão, isso seria impossível, afinal os governantes seriam "corjas exploradoras e não farão
leis a favor do pobre, porque é fazer contra si"264. No limite, a crítica de Otavio era contra a
ilusão de uma democracia no Brasil e pela desmistificação do anarquismo no ideário popular.
Nós, os ímpios, porque negamos a piedade, que ofende as almas heroicas;
nós, os sacrilégios pois não respeitamos as pretendidas coisas sagradas (pois
só merece respeito o que é justo e humano); nós, os heréticos, porque
negamos redondamente a pseudoverdade católica; nós, os malditos, porque
nos levantamos contra as castas dominadoras; nós, os loucos, porque vamos
contra o bom senso imbecil; nós, os anticristãos, pois vamos contra os
cristãos, corruptores das ideias de Cristo; nós os sem pátria enquanto a Pátria
for simbolizada pelos governos exploradores; nós, os indesejáveis, porque os
262
BRANDÃO, Octavio. Sobre os escombros fumegantes. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 12 de Julho de 1920.
BRANDÃO, Octavio. Manifesto aos trabalhadores pernambucanos. A Plebe, São Paulo, 17 de julho de
1920.
264
BOMBARDA, Salomão. Folhas esparsas. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 06 de Maio de 1920.
263
93
desejados são os que pactuam com a marosca universal; nós, os ateus,
porque acreditamos em fantasmas; nós, os amorais, porque negamos a Moral
de hoje; temos glória nisto!
Precisamos desmentir esse lugar comum que se repete constantemente: o
Brasil é o país mais liberal do mundo.
Depois de fatos de Canudos, da ilha das Cobras, do Satélite , do Contestado,
e das chibatadas em Everardo Dias, nenhum homem consciencioso pode
dizer tal coisa.265
Neste período, parece-nos que Octavio passa a uma análise mais profunda sobre a
Revolução Russa, a partir das informações e leituras que fazia naquele período. Apesar de
ressaltar a experiência vivida pelos trabalhadores a partir da Revolução na Rússia, Octavio
passa a fazer críticas aos métodos de Lenin, no que diz respeito ao pós-revolução. No dia 26
de outubro de 1920, foi publicado no jornal Voz do Povo o artigo Relâmpagos no Caos:
Anarquismo e Bolchevismo. Tratava-se de um texto no qual Octavio Brandão dedicou-se a
analisar com mais profundidade a Revolução Russa. Octavio inicia o texto questionando a
possibilidade de, no mundo, acontecer uma nova Revolução que, na opinião dele, deveria ser
anarquista, porém sem que passasse pelo "desfiladeiro do bolchevismo e leninismo" 266.
Para fazer o debate, Brandão parte da afirmação de que ele continua anarquista e
repudia as agremiações socialistas ou burguesas e que continua livre do "pesadelo leninista".
Além disso, reafirma seu apoio incondicional ao processo revolucionário na Rússia.
Devo ser leal; não quero enganar pessoa alguma. E por isso digo que sou a
favor dos operários e camponeses da Rússia que realizaram desapropriações
por auto decisões, sem consultas a tiranos ou ditadores, como sou contra aos
Srs. Lenin e Trotsky ou quaisquer comparsas na tragédia moscovita.
Dizendo isto, poderei perder a simpatia dos operários. Mas que importa? Eu
não sirvo a partidos nem a panelinhas. Sirvo à causa da verdade e da justiça.
Não vos deveis iludir comigo, ò trabalhadores.267
As críticas de Octavio continuam a partir das práticas para a manutenção da revolução
na Rússia, a exemplo da continuidade de existência de moedas. A culpa, segundo Octavio, não
era só de Lenin ou Trotsky, era da existência de um Partido, o Bolchevique. Sobre os
dirigentes do Partido Bolchevique, Octavio afirma: "A verdadeira Revolução Social não
poderá ser feita com truões como Lenin, com tarimbeiros como Trotsky e caixeiros viajantes
como Krassine"268.
O questionamento do intelectual era sobre o porquê, depois de tomar o poder, não teria
sido ainda implantado o comunismo, ou seja, a ditadura do proletariado. Sobre isso, Octavio
265
BOMBARDA, Salomão. Folhas esparsas. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 06 de Maio de 1920.
BRANDÃO, Octavio. Relâmpago e Caos: Anarquismo e Bolchevismo. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 26 de
Outubro de 1920.
267
IDEM.
268
IDEM.
266
94
afirma:
Posse de poder... Ditadura do proletariado... Já não creio mais na
infalibilidade destas xaropadas, porque nascem como pecado original, o mal
da origem, o mal dos males, a autoridade. Um anarquista não pode falar em
ditadura de quem quer que seja, sob pena de não mais ser anarquista. É
preciso não esquecer que a nossa obra deve consistir apenas em levar a
consciência revolucionária às massas, educá-las num sentido anarquista, para
que cada indivíduo fique em condições de tomar auto-deliberações. Isto é
muito diferente de ser guia de cego, pastor de rebanho, como no
bolchevismo, onde bois-homens obedecem porque há o ferrão, a aquilhada
[sic] indiscutível. Dentro do proletariado, essa obra, para ser bela terá de ser
anti-autoritária; será como labor do pai que quer ensinar o filho a caminhar:
segurando-o pelo braço, leva-o a fazer pequenos percursos, que irão
aumentando pouco a pouco, até que um dia, já moço forte possa empreender
livres, só, sem auxilio algum, as grandes caminhadas através do áspero
cascalho da Reação, do deserto da Indiferença, da cratera terrível da
Revolução e chegue enfim aos vergel grandioso da Acracia.269
Em outro texto do mesmo ano, Os anarquistas e a defesa da Revolução Russa:
Machno e seus partidários270, Brandão continua a defesa dos trabalhadores russos, mas sua
guerra contra Lenin não acaba. Contrapõe as ideias de Machno com as dos Bolcheviques e sai
em defesa de Machno e suas ideologias, deixando claro a necessidade de organizações
coletivas, como as comunas, propaganda ativa, conferências sobre assuntos variados e o fim
das políticas de transição bolcheviques.
Apesar da defesa clara e intransigente de Octavio quanto ao anarquismo, em suas
memórias, Brandão não se atém a este período. A negação do anarquismo é marcante durante
toda a construção do Combates e Batalhas. No livro, Brandão afirma:
O anarquismo é próprio dos países atrasados industrialmente, como o Brasil
e os outros da América Latina, Portugal e a Espanha. Não tinham a grande
indústria. Nem um proletariado poderoso. Em contraste, a pequena burguesia
era numerosa. Exercia bastante influência. Nela, existiam muitos pequenoburgueses exasperados e desesperados com o empobrecimento. (...) O
anarquismo floresceu no Brasil em 1917-1920 não foram orientados pela
ideologia marxista-leninista. Não havia, na época, dirigentes marxistas. Não
existia um Partido Comunista, forte nos terrenos ideológico, político e
orgânico, um partido de classe, de combate e de massas, para dirigir as
batalhas, educar e organizar os trabalhadores.271
Brandão prossegue afirmando que seria impossível que os anarquistas triunfassem em
uma revolução, pois faltavam-lhes noções básicas quanto a teoria da luta de classes,
necessidade de um Estado Proletário, análise conjuntural para saber a correlação de forças de
269
BRANDÃO, Octavio. Relâmpago e Caos: Anarquismo e Bolchevismo. Voz do Povo, Rio de Janeiro, 26 de
Outubro de 1920.
270
BRANDÃO, Octavio. Os anarquistas e a defesa da Revolução Russa: Machno e seus partidários. Voz do
Povo, Rio de Janeiro, 22 de Novembro de 1922.
271
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.209.
95
cada momento e, por fim, luta parlamentar e extraparlamentar. Para Octavio, os militantes
anarquistas do período não passavam de grandes oportunistas de esquerda, e o grande legado
do anarquismo seriam derrotas do movimento operário e popular em países como Brasil,
Portugal, Espanha e Itália.
Acreditamos que a análise das posições de Octavio até aqui, somada com a análise de
suas opiniões no fim da sua vida, através de suas memórias, nos levam a crer que não é
possível entender a trajetória política e intelectual de Octavio Brandão como um percurso
linear que culminou, consequentemente, sua adesão ao comunismo. Na verdade, sua trajetória
é marcada por diversas lutas políticas e intelectuais que se apresentam constantemente em
seus textos pela afirmação dura de seus pensamentos. Desta forma, concordamos com Amaral,
que afirma que "sua aderência às fileiras do comunismo nacional processou-se de maneira
diversa, bastante sinuosa, onde as alternativas eram apresentadas e as escolhas iam sendo
feitas"272.
Até 1922 encontramos textos publicados de Octavio no qual ele defende o anarquismo
abertamente. No entanto, a postura é completamente diferente de outrora. O sentindo do texto
é muito mais unitário.
Estamos vendo que uma parte do proletariado está deixando-se levar por
uma luta inglória, sem beleza, contra o Grupo Comunista, composto de
elementos ainda ontem da vanguarda social.
Paz entre nós, guerra aos senhores!
A burguesia está triunfante. Ela agradece o serviço inestimável que os
exaltados de ambos os lados estão prestando.
Camaradas, que luta esteril a vossa, combatendo irmãos e deixando o
capitalismo em paz! (...)
Bolchevistas, deixai em paz os anarquistas; fazei a vossa obra contra o
capitalismo; preparai as forças proletárias para a Revolução social. (...)
Quem vos fala assim continua com a mesma atitude de outrora, não aderi aos
bolcheviques; não concordo com a ditadura.
Mas também não concordo com a exaltação doentia de muitos elementos das
fileiras anarquistas.
Este combate aos bolchevistas irá completar a obra de erros anteriores.
Completará a obra da reação policial.273
É possível que o texto acima seja resultado do momento de diminuição das lutas e
forte repressão que se abateu sobre o Brasil a partir de 1920. O próprio Octavio foi preso
neste ano, afinal, sua propaganda sistemática de uma nova sociedade não poderia passar
impune no governo de Epitácio Pessoa. Octavio foi preso na noite do dia 24 de março de
272
AMARAL, Roberto Mansilla. Uma Memória Silenciada: Ideias, lutas e desilusões na vida do revolucionário
Octávio Brandão (1917 - 1980). 2003. 351 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2003, p.63.
273
BRANDÃO, Octávio. Paz entre nós, guerra aos senhores. Voz do Povo. 1º de Maio de 1922.
96
1920. Além dele, outros dois redatores do jornal Voz do Povo, Fábio Luz e Alvaro Palmeira,
também foram levados. Segundo Brandão, o motivo de sua segunda prisão era pelo "crime de
solidariedade moral com a greve dos ferroviários da Leopoldina"274.
A prisão dos três redatores do Voz do Povo causou revolta entre alguns dos integrantes
de esquerda, pois, as primeiras notícias quanto a prisão era confusas, inclusive afirmavam a
prisão de José Oiticica, que não ocorreu. Os amigos dos jovens foram à polícia saber o que
tinha ocorrido com os redatores e, no primeiro momento, a polícia negava-se a informar onde
os três estavam. No dia seguinte à prisão, lia-se notas em alguns jornais do campo da
esquerda, no periódico O Jornal, o questionamento era Desaparecidos ou presos?.
Apesar dos esforços empregados pelos seus amigos e pessoas de família, não
foi possível ontem serem encontrados os seguintes redatores e colaboradores
do diário operário "Voz do Povo", srs. Fábio Luz, professor e escritor, Alvaro
Palmeira, aluno da Faculdade de Medicina e professor da escola pública de
Ramos, Octávio Brandão, autor do livro "Canais e Lagoas" e José Oiticica,
professor do Pedro II.
Apesar de serem procurados até na polícia, esta declarou que não sabia onde
eles se encontravam.275
Octavio Brandão passou 36 horas preso que foram, segundo o autor, horas de fome276.
Recebeu mensagens de solidariedade, publicadas em jornais do Rio de Janeiro, como A
Razão, O Jornal, Gazeta de Noticias, Correio da Manhã, e, no próprio Voz do Povo. No jornal
A Notícia, do Rio de Janeiro, questionava-se a arbitrariedade da prisão.
Não sabemos se é uma grande tolice perguntar a um chefe de polícia que é
bacharel e desembargador, só não é um constrangimento ilegal prender-se
um cidadão por mais de 24 horas sem flagrante delito ou mandado de
autoridade judiciária.
Como não temos ainda uma resposta, porque também só agora é que estamos
formulando essa inocente pergunta, queremos dizer que o farmacêutico
Octávio Brandão, preso anteontem por ordem do desembargador Germiniano
da Franca, está sofrendo um constrangimento ilegal, havendo mais a
circunstância de que as autoridades policiais, cônscias de que estão
praticando violência, permitiram fosse noticiado que o ilustre moço, posto
sob os cem olhos d'Argos na imundice onde está preso, havia mandado em
paz, conjuntamente com o Dr. Fábio Luz.
Nenhum constrangimento será mais desastroso do que este, porque a
violência policial vai acarretar um prejuízo irreparável a uma pessoa que
começava sua vida e que, posta incomunicável, não poderá sequer entenderse na vista mesmo de alguns beleguins, com as pessoas com as quais tem
compromissos que deviam vencer-se hoje.277
274
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 173.
Desaparecidos ou presos? O Jornal, Rio de Janeiro, 25 de Março de 1920.
276
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 174.
277
O Constrangimento ilegal à pessoa do escritor Octavio Brandão. A Notícia, Rio de Janeiro, 26 de Março
de 1920.
275
97
A repressão nos anos seguintes não parou. Até 1931, Octavio foi preso 15 vezes. Sua
farmácia passou a ser vigiada, pois servia como espaço de discussão e ponto de encontro entre
os militantes do movimento operário. Sobre as prisões, Brandão afirma que seu lar "foi
invadido, dezenas de vezes, pelos esbirros policiais. Suportei as mais duras masmorras.
Conheci a penúria, o abandono e a solidão"278.
Em suas memórias, Octavio deixa claro, ao longo do texto que, apesar das duras
perseguições e repressão, nunca desistiu de ser um militante combatente da esquerda. Nos
parece claro isso, afinal, foram diversas conferências e visitas a fábricas para conscientizar os
operários, além de tentativa de organizações. Mas é possível perceber um certo desanimo em
seu discurso nos anos de 1921. No jornal O Imparcial, encontramos o seguinte trecho:
“Contudo, minha alma transborda de esperanças. Queres aparar acaso o que cair? Pois fica
sabendo que somente esse resquício darão para encher tua alma até transvazar. Não avaliais
como é fundo o cofre da minha Esperança!"279.
Mesmo assim, a luta de Octavio não cessou, e em setembro de 1921 foi um dos
fundadores de Comitê de Socorro aos Flagelados Russos280, junto com a companheira Laura
Brandão, Astrojildo Pereira, José Oiticica, dentre outros camaradas281.
Em 25 de março de 1922 é fundado o Partido Comunista do Brasil. Os militantes que
logo aderiram ao partido eram os mesmos que faziam parte da luta política no campo do
anarquismo no ano anterior. A primeira direção do PCB, segundo Octávio Brandão, era
composta por Abílio de Naquete, Astrojildo Pereira, Antônio Canellas, Luiz Peres e Cruz
Junior282.
Octavio só veio compor as fileiras do PCB a partir de novembro de 1922. Segundo ele
o principal motivo para a adesão posterior eram a falta de conhecimento das obras marxistas,
pois ele acreditava que "não poderia aderir com um simples membro da base. Teria que aderir
como combatente, militante, com certa formação teórica"283.
Segundo Brandão, a partir de 1922, o seu esforço foi no sentido de buscar bases
teóricas quanto à superação do anarquismo ou, pelo menos, de conhecer melhor o comunismo
leninista e da Revolução Russa.
278
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.173.
BRANDÃO, Octavio. Esperança. O Imparcial, Rio de Janeiro, 09 de Maio de 1921.
280
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.213.
281
Solidariedade. A Plebe, 1º de Novembro de 1921
282
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p.225.
283
IDEM, p. 221.
279
98
Assim na pequena farmácia da rua General Câmara 307, a partir de meados
de 1922, pela primeira vez na vida, li em traduções francesas os livros de
Marx, Engels e Lênin - os três maiores mestres de toda a Humanidade. (...)
Procurei adquirir a necessária base teórica. Iniciei o estudo do materialismo
histórico, da dialética marxista-leninista como ciência - a ciência das leis
gerais do desenvolvimento da vida e do universo, da sociedade e do
pensamento. Tratei de ser materialista em todos os domínios - naturais e
sociais. Vi no idealismo filosófico, o chamado espiritualismo, uma forma de
capitulação no altar da mística, da teologia e da reação.284
Astrojildo Pereira, amigo e militante, foi decisivo neste processo. Segundo Brandão,
ele ia sempre a farmácia e emprestava livros marxistas para ele, mesmo sem discutir o tema
com Octavio. Assim, a partir das leituras e experiências vividas nos anos anteriores, Octávio
deu aquele que chamou de Terceiro Passo Libertador da sua vida, entrou no PCB e afastou-se
do anarquismo, tornando-se comunista.
Na pequena farmácia, a 15 de outubro, assinei a papeleta de adesão.
Astrojildo resolveu tornar solene o ato e recomendou como data de adesão: 7
de novembro de 1922.
Neste dia, apesar do estado de sítio, a sede do sindicato têxtil, à rua Acre 19,
ficou cheia de trabalhadores, que foram comemorar o 5º aniversário da
revolução proletária na Rússia. Nessa reunião, Astrojildo anunciou minha
adesão ao PCB. Falei exaltando a revolução socialista e expliquei porque me
tornara comunista, partidário da doutrina de Marx, Engels e Lenin.285
Acreditamos que esta fase da vida de Octavio é significativa para entender sua
trajetória. Percebe-se um esforço intelectual para o avanço na consciência política, deixando
de ser anarquista e virando comunista, rompendo com amizades antigas e importantes, como a
de José Oiticica, para defender uma nova visão de como construir uma nova sociedade para os
trabalhadores. Essa transição não foi fácil, nem muito menos linear. No entanto, acreditamos
que partiu de um esforço consciente baseado em suas experiências práticas e teóricas.
3.4. Breves Conclusões
Octavio Brandão, enquanto morou no Rio de Janeiro, teve uma vida permeada pelas
lutas junto à classe trabalhadora. Fez dezenas de conferências, escreveu artigos em vários
jornais e esteve presente em várias fábricas, aproximando-se do cotidiano dos trabalhadores.
Assim como os anarquistas da década de 20, Octavio prezava muito pela educação das
massas, portanto, em seus artigos, discussões sobre religião, revolução e situação do povo
brasileiro eram recorrentes.
284
285
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 231.
IDEM, p. 233.
99
Além disso, Octavio profere a intelectualidade um papel protagonista na luta pela
conscientização das massas, portanto, em várias oportunidades faz chamados aos intelectuais
a virem construir o anarquismo. O que nos chama mais atenção nos textos é a defesa do
anarquismo e, por vezes, inclusive, com discussões sobre o regime que estava sendo proposto
na Rússia pós-revolução e em contraposição aos intelectuais que ele vai reivindicar nos anos
posteriores, a exemplo de Lenin.
A entrada no PCB marca a fase de rompimento com o anarquismo e a adesão ao
socialismo bolchevique, mas não é possível entender essa passagem de forma linear, tendo em
vista todas as dificuldades do período e própria trajetória que Octavio trilhou até entrar no
PCB em outubro de 1922.
100
Conclusão
A vida de Octavio Brandão foi permeada por grandes batalhas em torno dos seus
ideais. Quando garoto, teve que lutar pelo reconhecimento daquela que seria para o intelectual
a grande obra de sua vida, Canais e Lagoas, depois as ideias anarquistas e revolucionária e, já
no Rio de Janeiro, o rompimento com estas para a construção do Partido Comunista do Brasil
a serviço da experiência da Revolução Russa.
Durante toda a construção de suas memórias, é possível perceber que Octavio tenta
construir a imagem de um garoto que viveu em terras alagoanas em uma infância que não o
permitiu o carinho dos pais e teve que trabalhar muito cedo. Na verdade, Octavio coloca a sua
infância a serviço da sua formação enquanto revolucionário. Não é à toa que o intelectual
expõe as dificuldades vividas pelo pai, as dividas do avô, que era senhor de engenho, e o
contato com a situação de pobreza do povo de Viçosa que visitava a farmácia de seu pai.
A paixão pelas ciências naturais é também colocada a serviço da construção dele
enquanto revolucionário. As pesquisas na região dos canais e lagoas o colocou em contato
direto com a miséria do povo ribeirinho. Acreditamos que, de fato, isso despertou no garoto
uma indignação, afinal, em um estado dominado por oligarquias açucareiras, onde poucas
famílias têm terras a perder de vistas, causa indignação a situação vivida pelos ribeirinhos das
lagoas alagoanas.
Quanto ao Canais e Lagoas, não queremos aqui defender que este é um grande
clássico da literatura e geologia brasileira. Porém, achamos que tem importância histórica e
científica sobre o tema que trata, por mais que seja cheio de confusões literárias e teóricas,
principalmente no que diz respeito ao entendimento de toda a construção da memória de
Octavio Brandão.
É sintomática a forma como Octavio trata toda a discussão sobre a falta importância
intelectual dada ao livro, mesmo anos depois quando ele volta para o Brasil e o petróleo já é
uma realidade. O desenvolvimento tardio da exploração do petróleo no Brasil é visto por
Octavio como "conspiração do silêncio" voltada contra ele. A diferença de análise sobre a
exploração tardia do petróleo entre Monteiro Lobato e Octavio Brandão salta aos olhos.
Enquanto o Monteiro apresenta argumentos que comprovam que a tardia exploração do
petróleo no Brasil é decorrência do desenvolvimento do capitalismo e do imperialismo, para
os quais era mais rentável manter o petróleo nas mãos dos grandes trustes imperialistas. Desta
101
forma, não havia, para os trustes imperialista, motivos que justificassem a exploração do
petróleo no Brasil na década de 20. Já Octavio Brandão, atribui a tardia exploração do
petróleo a uma "conspiração do silêncio", que seria voltada contra ele e que o acompanharia
durante toda a sua trajetória.
A vida militante de Octavio esteve ligada diretamente com suas escolhas políticas e
trajetória intelectual. Desde os primeiros anos de militância, ainda em Alagoas, o jovem
naturalista de apenas 19 anos, defendeu a divisão de terras, melhores condições de vida e
trabalho para os trabalhadores e povo pobre, além disso, criticou os grandes capitalistas
brasileiros que estavam lucrando com a guerra, enquanto o povo estava à míngua. Pela defesa
de suas ideias, foi preso em Alagoas pela primeira vez, e, alguns meses depois de chegar ao
Rio de Janeiro, foi preso lá também.
Sua vida militante nos anos em que estamos pesquisando foi intensa. Octavio escreveu
artigos em diversos jornais, visitou fábricas, panfletou, participou de greves e fez dezenas de
conferências para trabalhadores de diversas categorias, na perspectiva de educá-los e ganhálos para a concepção revolucionária. A educação da população era uma das características dos
militantes anarquistas na década de 20, neste sentido, Octavio escreveu diversos artigos sobre
temas como religião, revolução e situação do povo brasileiro.
A influência de Nietzsche é evidente em seus textos durante este período. O jovem
reivindica as formulações sociais do intelectual. Acreditamos que tanto algumas formulações
sobre sociedade quanto algumas sobre moral, combinadas com o contato com a miséria do
povo alagoano, contribuíram para que Octavio mergulhasse ainda mais na vida militante,
rompendo de vez com a religião e a família. Ao longo da sua trajetória, o contato com outros
intelectuais faz com que a admiração que Octavio tinha por Nietzsche fosse rompida e fique
cada vez mais no passado.
Outro aspecto da trajetória de Octavio é o papel protagonista que ele dedica à
intelectualidade. Nas formulações do intelectual, fica claro que aos intelectuais resta a tarefa
de atuar na luta pela conscientização das massas, portanto, em várias oportunidades faz
chamados aos intelectuais a virem construir o anarquismo e a revolução. Posteriormente, vai
lamentar os poucos intelectuais presentes nos primeiros anos do PCB286.
Durante os anos de 1919, 1920 e 1921, a defesa do anarquismo é elemento constante
nos textos de Octavio. O jovem produz textos mais densos, nos quais dedica-se a discutir o
286
BRANDÃO, Octavio. Combates e Batalhas: Memórias. São Paulo: Alfa-omega, 1978, p. 218.
102
porquê da situação em que vivem os trabalhadores brasileiros é necessário que se faça uma
revolução anarquistas. Em 1920 e 1921, apesar de defender a experiência dos trabalhadores na
Revolução Russa, faz discussões e críticas fortes contra Lenin e Trotsky, questionando o
Estado de Transição que se instaurou no pós-revolução e o modelo econômico que não
extinguia as moedas.
A entrada no PCB marca a fase de rompimento com o anarquismo e a adesão ao
socialismo bolchevique, mas não é possível entender essa passagem de forma linear, tendo em
vista todas as dificuldades do período e a própria trajetória que Octavio trilhou até entrar no
PCB em outubro de 1922. Octavio não era apenas um intelectual, era também militante, por
isso acreditamos que as derrotas sofridas pelo movimento dos trabalhadores em virtude da
forte repressão no Brasil, combinada com a fundação do PCB por anarquistas que eram,
também, referências e amigos de Octavio, como Astrojildo Pereira e Antônio Canellas, são
elementos determinantes para esse rompimento e posterior negação do anarquismo.
Quanto às produções de Octavio Brandão, João Quartim de Moraes acredita que são
pioneiras, pelas formulações teóricas e políticas, a partir da realidade do povo brasileiro.
Sobre o livro Agrarismo e Industrialismo, que foi escrito em 1925, quando Octavio já fazia
parte do PCB, o autor afirma:
De poucas obras dir-se-á com razão de serem tão paradoxais quanto
Agrarismo e Industrialismo. Seus defeitos saltam aos olhos, mas não devem
fazer perder de vista nem o pioneirismo doutrinário, que pensamos haver
convincentemente ressaltado, nem a percepção, que nos parece justa, de que
o principal conflito no Brasil de então opunha os interesses da nação dos das
oligarquias agrárias. Também são globalmente justas suas observações sobre
o imperialismo e a subordinação econômica dos interesses agrários à alta
finança inglesa, bem como sobre as perspectivas sombrias que nos reservava
nossa posição de maior exportadores de café287.
A filiação ao anarquismo não faz, em nossa opinião, de Octavio Brandão um
intelectual menos importante. Acreditamos que sua trajetória se confunde com a trajetória de
outros anarquistas que, posteriormente, filiaram-se ao PCB. Explica-se pela conjuntura
política que era vivida no Brasil e no mundo e nos apresenta elementos para compreender
melhor a história das correntes políticas da esquerda naquele período, sejam anarquistas,
sindicalistas-revolucionárias ou socialistas.
287
MORAES, João Quartim de. A influência do leninismo de Stalin no comunismo brasileiro. In: REIS FILHO,
Daniel Aarão et al. História do Marxismo no Brasil: O impacto das Revoluções. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
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