Os Primeiros Anos do PT em Alagoas 1979-1989 - Wibsson Ribeiro
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
WIBSSON RIBEIRO LOPES
OS PRIMEIROS ANOS DO PT EM ALAGOAS (1979/1989)
Maceió – Alagoas
2016
WIBSSON RIBEIRO LOPES
OS PRIMEIROS ANOS DO PT EM ALAGOAS (1979/1989)
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal de Alagoas, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em História.
Orientador: Prof. Dra. Michelle Reis
Maceió – Alagoas
2016
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Bibliotecária Responsável: Janaina Xisto de Barros Lima
L864p
Lopes, Wibsson Ribeiro.
Os primeiros anos do PT em Alagoas (1979-1989) /Wibsson Ribeiro Lopes – 2016.
180 f.: il.
Orientadora: Michelle Reis.
Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Ciências humanas, Comunicação e Artes. Programa de
Pós-Graduação em História. Maceió, 2017.
Bibliografia: f. 177-180.
1. Brasil – Política e governo. 2. Partido dos trabalhadores. 3. História política.
4. História de Alagoas. 5. Movimentos sociais. I. Título.
CDU: 981(091):323.233 “1979/1989”
RESUMO
Este é um estudo sobre o Partido dos Trabalhadores (PT). Buscamos investigar os
primeiros anos do Partido no Estado de Alagoas, a edificação da organização e os primeiros
embates políticos travados na transição da Ditadura para o período conhecido como Nova
República. Para isso, entrevistamos ativistas que compuseram o PT no seu início, bem como
um dirigente de outra organização que enxergava no surgimento do PT no Estado a
possibilidade de um novo ator político participar das cenas de luta. Também nos valemos dos
jornais da época e sua cobertura dos momentos políticos daquele contexto, tanto as
mobilizações de rua, da qual a campanha das Diretas Já foi sua principal contribuição, quanto
os períodos eleitorais, dentro deles destacando-se as eleições de 1982, da qual o PT viu-se
ausente, e as eleições presidenciais de 1989, quando ocupou o centro da cena política com a
candidatura de Lula enfrentando o futuro presidente eleito Fernando Collor de Mello.
Buscamos com essa pesquisa identificar quem foram aqueles agentes sociais à frente da
construção do PT no Estado e como o Partido pôde se desenvolver no período, avaliando suas
estratégias, alicerces organizacionais e movimentação política.
Palavras-chave: Partido dos Trabalhadores, História Política, História de Alagoas.
ABSTRACT
This is a study on the Worker's Party (PT). We intended to research the first years of
the party in the Alagoas Country, the building of the organization and the firsts political
struggles during the transition from the dictatorship to the period known as new republic.
Insofar, we interviewed activists that were part of the PT on it's beginning, so as a leadership
of another organization who saw on the emergence of the PT on the state the possibility of a
new political actor participating on the scenes of struggle. We also took the newspapers of the
time and its covering of the political moment of the time, even the street mobilizations, like
the campaign of the Diretas Já!, as the electoral races, on that higlighting the elections of
1982, on which the PT were absent in Alagoas, and the presidencial elections of 1989, on
which the same occupied the center of the political scene with the candidature of Lula fighting
the future elected president, Fernando Collor de Mello. We intended with that research to
identify who was those social agents who became ahead of the building of the PT in Alagoas
and how the Party could developed on that time, examining its strategies, organizational
foundations and political movements.
Key Words: Worker's Party, Political History, Alagoas History.
SUMÁRIO
Introdução ........................................................................................................... 9
I.I - Uma consideração sobre a atual conjuntura política: O ódio disseminado à presidenta
Dilma Rousseff ..................................................................................................................... 16
1
Capítulo 1 -- Um país em transformação: Surge o Partido dos Trabalhadores.
19
1.1
O contexto político internacional no final dos anos 1970.......................................... 19
1.2
A distensão lenta, gradativa e segura ......................................................................... 22
1.3
As derrotas eleitorais da ARENA e o fim do bipartidarismo .................................... 24
1.4
O renascimento do movimento sindical..................................................................... 28
1.5
Surge a proposta do PT .............................................................................................. 37
2
Capítulo 2 -- Os primeiros passos do PT em Alagoas ............................ 43
2.1
A problemática das fontes orais. ................................................................................ 43
2.2
O peso do presente na memória. ................................................................................ 44
2.3
Breve contexto social do ocaso da Ditadura em Alagoas .......................................... 49
2.4
O primeiro contato com o Partido dos Trabalhadores. .............................................. 52
2.5
Primeiro grupo pró-fundação do PT .......................................................................... 59
2.6
Campanha pela legalização do PT ............................................................................. 73
2.7
O papel da Igreja Católica.......................................................................................... 83
2.8
Os núcleos .................................................................................................................. 86
2.9
A composição inicial do PT ....................................................................................... 89
3
Capítulo 3 -- Das eleições de 1982 às Diretas Já! ..................................... 92
3.1
As eleições de 1982 ................................................................................................... 92
3.2
A ausência nas eleições de 1982 em Alagoas ............................................................ 94
3.3
Os embates na eleição de 1982 .................................................................................. 97
3.4
Relação com as organizações e grupos da direita tradicional .................................. 100
3.5
O PT e a CUT em Alagoas ...................................................................................... 104
3.6
As Diretas Já ............................................................................................................ 108
3.7
A campanha das Diretas Já! em Alagoas ................................................................ 113
3.8
O balanço político da campanha das Diretas Já! ..................................................... 124
4
Capítulo 4 -- As eleições de 1989. ............................................................ 130
4.1
O embate Lula X Collor e o papel da mídia ............................................................ 133
4.2
O fortalecimento do PT............................................................................................ 141
5
Conclusão .................................................................................................. 153
Referências ...................................................................................................... 156
9
INTRODUÇÃO
Este trabalho é um estudo sobre o Partido dos Trabalhadores em Alagoas no período
de sua fundação, coincidente com o ocaso da ditadura nas campanhas das Diretas Já! e as
eleições de 1982. Veremos como se construiu no Estado de Alagoas esse partido que
assumiria papel de enorme importância ao longo dos anos em nosso país.
Nosso principal objetivo é analisar os percalços pelos quais passaram os membros
fundadores do PT em Alagoas. O cenário político alagoano do início dos anos 1980 será visto
sob o prisma da fundação do Partido dos Trabalhadores. Abordaremos o período de 1979,
quando da eclosão das greves do ABC, e formulação da proposta de criação do PT, até 1984,
com a votação da emenda Dante de Oliveira e a mobilização em torno da campanha das
Diretas Já! Escolhemos este período por representar a fundação do Partido dos Trabalhadores
no Estado acompanhando duas importantes provações para o partido, uma institucional,
envolvendo a participação do PT alagoano nas eleições de 1982, e uma provação dentro do
movimento de massas, com a já citada campanha das eleições diretas para presidente da
República.
O estudo de um partido político coloca algumas necessidades. A primeira delas é
analisar de que maneira determinada cultura política1 se formou a partir da atuação política de
uma organização. A segunda questão é abordar a própria noção de político à luz dos
problemas colocados pelo estudo de um partido político de esquerda tão polêmico quanto era
o PT em seu surgimento. Cabe recordar que o PT foi responsável por, se não inaugurar, visto
que durante anos o PCB construiu uma concepção parecida, resgatar a noção de classismo,
construindo um partido de e para os trabalhadores ainda dentro do regime militar.
1
"O objetivo era mostrar que a cultura política constituía um conjunto coerente em que todos os elementos estão
em estreita relação uns com os outros, permitindo definir uma forma de identidade do indivíduo que dela se
reclama. Se o conjunto é homogêneo, as componentes são diversas e levam a uma visão dividida do mundo, em
que entram em simbiose uma base filosófica ou doutrinal, a maior parte das vezes expressa sob a forma de uma
vulgata acessível ao maior número, uma leitura comum e normativa do passado histórico com conotação positiva
ou negativa com os grandes períodos do passado, uma visão institucional que traduz no plano da organização
política do Estado os dados filosóficos ou históricos precedentes, uma concepção da sociedade ideal tal como a
veem os detentores dessa cultura e, para exprimir o todo, um discurso codificado em que o vocabulário utilizado,
as palavras-chave, as fórmulas repetitivas, são portadoras de significação, enquanto ritos e símbolos
desempenham, ao nível do gesto e da representação visual, o mesmo papel significante." BERSTEIN, Serge. "A
cultura política". IN: RIOUX & SIRINELLI (org.) Para uma história cultural. Lisboa: Estampa, 1998. p. 350351.
10
Escolhemos, portanto, pesquisar a história do surgimento do Partido dos
Trabalhadores em Alagoas e a influência política que este exerceu no desenvolvimento dos
movimentos sociais e na construção do cenário político Alagoano pós ditadura militar nos
primeiros anos de sua trajetória. Optamos pelo período de sua constituição em Alagoas até o
final dos anos 1980, com a eleição que levou o presidente Fernando Collor ao poder. Grande
momento de lutas políticas e de provações que submeteram o PT a um teste que iria marcar
sua identidade por décadas. São grandes momentos da história política brasileira que
colocarão o Partido dos Trabalhadores, sua militância e seus parlamentares à prova perante
toda a sociedade.
Alagoas foi um dos nove Estados escolhidos para a coleta de assinaturas e fundação de
diretórios municipais visando a fundação do Partido dos Trabalhadores em 1981. Porém, o
número mínimo de filiados só viria a ser atingido em 1983, após a primeira atuação nacional
do Partido em um processo eleitoral, durante o ano de 1982:
Em Alagoas, alunos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e do centro de
Ensino Superior (CESMAC), além de rodoviários, integrantes do sindicato dos
urbanitários, trabalhadores da construção civil e professores, entre outros, se
mobilizavam para contribuir com a legalização do PT. Viagens ao interior eram
comuns entre 1980 e 1981. Apesar do esforço, Alagoas só consegue oficializar a
sigla em 1983. Foram criados 19 diretórios, mas erros na documentação impediram
o registro.2
Contando com a presença em seu primeiro diretório de socialistas, ativistas do
movimento estudantil da UFAL e CESMAC, sindicalistas e profissionais liberais, o PT iria se
constituir no Estado de Alagoas sem jamais ter a força que chegou a ter em outros estados do
Brasil. Parte do estudo poderá também ajudar a entender por que em Alagoas o Partido dos
Trabalhadores foi incapaz de ter um número significativo de filiados e alcançar
expressividade no poder político local.
A razão da inexpressividade do PT em Alagoas, segundo vários de seus dirigentes,
como Paulo Fernando dos Santos (Paulão), ex-dirigente sindical e deputado federal, estaria na
própria constituição econômica do Estado. Sem uma classe operária forte, a grande base
social do PT, Alagoas não veria o Partido ter o mesmo desempenho que em outros estados de
maior industrialização. Da mesma forma, a ausência de distribuição de renda não poderia
construir uma classe média forte, a outra parte da fundamental base social que constitui o PT
2
Jornal Gazeta de Alagoas. Maceió, 14 de fevereiro de 2010. Acessado às 18:00.
11
na maior parte dos Estados. O dirigente político do Partido dos Trabalhadores remonta à
própria emancipação política de Alagoas para afirmar que os fatores que contribuem
decisivamente para o caráter minguado da organização são a má distribuição de renda e
conservadorismo do Estado:
Você não consegue ter uma esquerda forte se não tem bases sociais forte, uma
classe média e uma classe trabalhadora fortes, se não tem uma distribuição de renda
razoável." Explica o deputado ao questionar: "Como foi criado Alagoas? Alagoas
foi separado de Pernambuco, que vivenciava a luta contra a escravidão, os ventos
da revolução francesa, a visão industrial da Inglaterra, da Holanda, da França. E
quem cria Alagoas? A elite pernambucana atrasada, que pega as melhores terras de
Pernambuco e cria o Estado. Nosso problema é de nascedouro, vem de formação. 3
A fala do Deputado engessa a interpretação do período de que adiantaria então a
construção de organizações políticas, as ações de resistência dos movimentos sociais e a luta
das oposições e mesmo das classes subalternas se Alagoas já estaria a priori condenada ao
domínio de forças conservadoras e alinhadas às classes dominantes? De que adiantaria a
formação de partidos de esquerda se a hegemonia política já estaria estruturalmente associada
aos partidos tradicionais? Longe de oferecer uma interpretação sociológica ou matizada pelo
contexto histórico, o que a interpretação acima nos traz é uma visão conservadora e resignada,
uma justificativa simplista. É como se não importassem as decisões, ações, movimentos e
escolhas dos agentes políticos. Não abre espaço para as mudanças e transformações. Veremos
ao longo deste trabalho como, longe de representar um engessamento político a priori, o que
marcou a constituição do PT no Estado foram as escolhas e as movimentações dentro das
possibilidades, bem como a presença também de outras organizações de esquerda, como o
PCdoB e o PCB, que também disputavam espaço político na reorganização que se dava na
década de 1980 por conta da abertura política.
Sem dúvidas o estudo dos primeiros anos do Partido dos Trabalhadores por outro lado
podem ajudar a construir a história política das esquerdas de conjunto no Estado e explicar
por que este foi um partido de baixa adesão em comparação com os partidos alinhados com
discursos mais conservadores.
3 IDEM, p. 14.
12
É nosso intento analisar neste trabalho de onde vieram os primeiros militantes do PT.
Que movimentos e setores sociais animaram o Partido nesse primeiro período? Abordaremos
essa questão no primeiro capítulo de nosso trabalho. No segundo capítulo analisaremos a
questão das eleições de 1982 e o desempenho do Partido nesse período de desenvolvimento.
Por fim, no terceiro capítulo faremos uma análise da atuação do Partido durante o período das
Diretas Já e avaliaremos o impacto das eleições de 1989 no PT local. Partimos da hipótese de
que esses eventos são significativos da constituição da identidade política do Partido dos
Trabalhadores nacionalmente. São acontecimentos políticos que irão forjar a memória política
do PT.
A economia alagoana teve um desenvolvimento muito mais calcado em formas
arcaicas de acumulação capitalista do que as do Sudeste do país. Sendo breve, o cenário
econômico formado em Alagoas foi o de domínio de um setor extremamente retrógrado para
os padrões capitalistas, o sucroalcooleiro. Lessa traça um panorama sombrio para as terras
caetés:
Além de construir, pela utilização da mais-valia absoluta, uma sociedade de
miseráveis, a agroindústria alagoana, por seu caráter exportador, cria uma sociedade
sem estabilidade econômica, sem mercado interno substancial e carente de um grau
significativo de divisão interna do trabalho. A atual economia alagoana superou a
escravidão, porém conserva ainda, de maneira modernizada, os outros traços da
economia alagoana do período colonial; ainda baseia-se na monocultura, na união
entre agricultura e indústria e na exportação dos seus principais produtos. 4
Lessa descreve ainda que pelos padrões de acumulação de capital impostos pelos
usineiros termina por ser produzido em Alagoas um contingente elevado de desempregados.
Estes desempregados contribuiriam para diminuir a força da organização sindical,
constantemente minada em suas bases.5
Nos últimos anos da ditadura militar, começou a se gestar em Alagoas um cenário
mais favorável aos movimentos da esquerda. Houve uma maior politização de setores
assalariados como químicos, bancários, funcionários públicos, dentre outros.
O amplo
movimento nacional por anistia chegava em Alagoas e unificava a esquerda; mobilizações
sindicais pipocaram e se enfrentaram com os governos e o regime. A eleição aos sindicatos
dos Jornalistas terminou com a vitória da oposição liderada por Freitas Neto e a derrota do
4
Lessa, Golbery. Uma nova Alagoas é Possível. <https://docs.google.com/document/d/1QYhvEfwBzBikP2a2p1E15ctzlDoiPOX_7yrwOKOWZE/edit?hl=pt_BR&pli=1>. Acessado às 02:41 13/11/2013
5
IDEM
13
candidato apoiado por Divaldo Suruagy, força política local aliançada ao regime 6. Lideranças
empresariais descontentes com os rumos do governo militar pós-milagre econômico lideraram
uma frente democrática que abarcava os novos partidos de esquerda e questionava a ditadura
e suas figuras políticas no Estado. O PT surge neste momento de questionamentos. Cícero
Péricles é preciso quanto ao clima político que existia no Estado, de forte rechaço aos
candidatos do regime militar:
Em Alagoas, em quase todos os setores políticos, entra-se na década de 80 com a
consciência plena do fracasso dos vários governos que se sucederam na vigência do
regime militar (Luiz Cavalcante, Lamenha Filho, Afrânio Lages, Divaldo Suruagy e
Guilherme Palmeira) no seu enfrentamento contra o próprio subdesenvolvimento
regional. O balanço realizado pelo próprio Governo do Estado em 1983 é um
verdadeiro libelo acusatório aos governantes estaduais do período em que o Brasil
viveu sob a ditadura militar. Depois de duas décadas de 'revolução' e de 'milagres,
42% da População Economicamente Ativa encontrava-se desempregada ou
subempregada;(...)7
Dedicar-nos a entender qual foi o peso que o PT desempenhou na vida política nos
primeiros anos de sua existência em Alagoas, dentro destes embates contra o agonizante
regime militar, será de grande valia para auxiliar-nos a entender o grau de enraizamento do
Partido dos Trabalhadores na política estadual. Igualmente importante é precisarmos quais
foram os grupos políticos e camadas sociais que estiveram à frente da fundação do PT no
Estado. Que papel teve o sindicalismo de classe média no Estado? E o movimento estudantil?
E os trabalhadores assalariados e trabalhadores do campo? São questões em aberto que
merecem respostas e ajudarão a entender o que foi o PT em seus primeiros anos em Alagoas.
Entender como se deu o surgimento do Partido dos Trabalhadores em Alagoas
auxiliará a compreender também o que representou para o país o fenômeno político do PT. O
estudo do partido dos trabalhadores em Alagoas dará mais consistência à história do Partido
no Nordeste e no Brasil.
Nosso trabalho terá como fonte principalmente os depoimentos dos pioneiros do PT
em Alagoas, dos fundadores e membros iniciais do Partido. Portanto, o uso da história oral
será de grande importância para nosso estudo. Usaremos a expressão "fontes orais" para assim
nos referirmos a estas, por acharmos o termo mais preciso e mais de acordo com a abordagem
6
CARVALHO, Cícero Péricles de Oliveira. Alagoas 1980-1992: a esquerda em crise. Maceió:
EDUFAL/LUMEN/ENGENHO, 1993. p.25
7
IDEM, p.22.
14
adotada. É preciso entender as particularidades das fontes orais em relação a outras mais
comumente utilizadas pelos historiadores. A fonte oral é aquela produzida de maneira
imediata para o historiador.
Por fim, a abordagem se preocupará em compreender qual memória foi construída
pelo Partido dos Trabalhadores. Em nosso entender as fontes orais não podem ser vistas,
assim como nenhuma fonte histórica, como um instrumento de verdade absoluta. Os distintos
agentes partícipes da construção do Partido dos Trabalhadores terão construído uma narrativa
diferenciada a partir de sua posição; por isso conversar com dirigentes que também não
fizeram parte do Partido dos Trabalhadores será importante para contrastar os mais distintos
discursos, e analisar cada um desses contrastes será essencial.
Entrevistaremos os pioneiros do Partido dos Trabalhadores em Alagoas. Figuras que
ainda hoje cumprem importantes papéis políticos e sociais na cidade. Os professores Ricardo
Coelho e Tutmés Airan, respectivamente dos cursos de Comunicação e de Direito, estavam
entre os primeiros líderes estudantis a tomar parte na organização. Igualmente, a professora de
Ciências Sociais Alice Anabuki, à época funcionária pública, esteve entre as fundadoras do
Partido no Estado.
Além destes nomes, o primeiro diretório do PT em Alagoas servirá como fonte.
Nomes como Adelmo dos Santos, à época do sindicato dos radialistas de Maceió, poderão ser
entrevistados para ajudar a explicar as origens do Partido dos Trabalhadores e sua presença e
impacto nos movimentos sociais alagoanos da época.
Usaremos a história oral sobretudo como um método, conforme proposto por Ferreira:
Há ainda os que consideram a história oral como um método de investigação e têm
como pressuposto, portanto, defender a história oral como metodologia. Em nosso
entender, a história oral, como todas as metodologias, apenas estabelece e ordena
procedimentos de trabalho - tais como os diversos tipos de entrevista e as
implicações de cada um deles para a pesquisa, as várias possibilidades de transcrição
de depoimentos, suas vantagens e desvantagens, as diferentes maneiras de o
historiador relacionar-se com seus entrevistados e as influências disso sobre seu
trabalho -, funcionando como ponte entre teoria e prática. Esse é o terreno da
história oral, o que, a nosso ver, não permite classificá-la unicamente como prática.
Mas, na área teórica,a história oral, o que, a nosso ver, não permite classificá-la,
unicamente como prática. Mas na área teórica, a história oral é capaz apenas de
suscitar, jamais de solucionar questões, ou seja, formula as perguntas, porem não
pode oferecer as respostas.8
8
FERREIRA, Marieta de Moraes. "História oral: velhas questões, novos desafios." pág. 170. IN: CARDOSO, Ciro
Flamarion & VAINFAS, Ronaldo. Novos Domínios da História. Rio de Janeiro, Elsevier, 2012.
15
Material nada inocente, a memória deve ser investigada com cautela. Afastamo-nos do
binarismo que relaciona história/memória em dicotomias como verdadeiro/falso. Não
identificamos a memória também como uma narrativa fixa do passado. Nas palavras de
Lavabre:
la “memoria” no designa ya más únicamente la capacidad de un individuo a fijar, a
conservar, a recordar el pasado: evoca, en desorden, todas las formas de presencia de
un pasado que no tienen que ver stricto sensu la historia como operación intelectual
que se esfuerza por establecer los hechos del pasado y de hacer que sean
inteligibles.9
Por isto o debruçar sobre as memórias deve ser cuidadoso. A memória é mais efeito do
presente que efeito do passado10, aponta Lavabre. Por isto, muito do que acontece no presente
que vive, aquele que relata sua memória se imbrica em seu discurso. Seus interesses, suas
paixões e suas projeções também estão lá e cabe ao historiador percebê-los.
La definición de la “memoria” se funda entonces en la distinción entre ella y la
historia: esta última, “crítica” y no “totémica”, según la fórmula de Pierre Nora,
dotada de sus métodos y sus saberes técnicos, toma la memoria como objeto. La
“memoria” remite así a todas las formas de la presencia del pasado que aseguran la
identidad de los grupos sociales y especialmente de la nación. No es historia, por lo
tanto, en cuanto ésta tiende a la inteligibilidad del pasado, y tampoco es,
propiamente hablando, recuerdo: es “economía general y administración del pasado
en el presente” (Pierre Nora).11
A memória não é passado. Também não é simples recordação. A memória remete a
todas as formas de presença do passado, a memória é aquilo que conforma a identidade de um
grupo, de um Partido, de uma nação. Esta definição de memória é a que servirá de guia deste
trabalho.
9
http://virajes.ucaldas.edu.co/downloads/Virajes11_1.pdf. Acessado em: 24/07/2016. 12:46
idem, ibidem.
11
http://www.historizarelpasadovivo.cl/downloads/lavabre.pdf. Acessado em: 24/07/2016. 13:19
10
16
I.I - UMA CONSIDERAÇÃO SOBRE A ATUAL CONJUNTURA POLÍTICA: O
ÓDIO DISSEMINADO À PRESIDENTA DILMA ROUSSEFF
Desenvolvemos nossa pesquisa no período compreendido entre as mobilizações de
Junho de 2013 e o processo que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff.
Momentos quentes da história política contemporânea brasileira. O calor destes momentos
refletiu-se neste trabalho, especialmente nos depoimentos de pessoas até hoje ligadas
afetivamente ou mesmo organizativamente ao Partido dos Trabalhadores. É difícil ainda
entender com profundidade o atual momento da política brasileira. Em ensaio instigante,
Tales Ab'Saber bate no liquidificador de sua prosa toda a irracionalidade da política atual:
Quando se vive, em um estado de direito, em meio a denúncias constantes de
desvios de várias centenas de milhões de dólares de empresas públicas, cuja culpa já
foi assumida por vários réus em juízo; e quando a empresa assaltada é a Petrobras; e
quando milhares de pessoas, em sua maioria das classes altas brasileiras, vão às ruas
mais de uma vez pedir o impedimento da Presidente; quando discursos públicos de
governo são encobertos com o som de panelas batendo, e quando o mesmo público,
que se levanta indignado por um sistema de corrupção, convive bem com outro e
com quem pede o retorno de alguma ditadura no Brasil; quando, após anos de
disseminação desta linguagem, ouvimos aos gritos que petistas devem ir para Cuba
– no mesmo momento em que os Estados Unidos reabrem relações com Cuba –
quando Ronaldo Caiado – alguém ainda se lembra quem ele é? – tenta se tornar
representante das ruas, e pede a extinção do Partido dos Trabalhadores por
corrupção reiterada; quando, da noite para o dia, e sem manifestação do governo, o
Congresso libera votações da redução de maioridade penal e de uma quase ilimitada
terceirização, no país dos direitos trabalhistas varguistas que, entre outras coisas,
foram responsáveis pela criação dos sindicatos que deram origem ao PT; quando
papais e mamães ficam felizes com as fotografias de seus filhos abraçados a
policiais militares durante manifestações na Avenida Paulista, em uma época em que
a polícia brasileira é denunciada como uma das que mais mata no mundo,
especialmente jovens pobres e negros; quando o espaço público da política
imaginada se encontra em tal momento de radicalização, de tensão e de
esgarçamento dos sentidos, a favor de uma difusa nova direita, em que cidadania
parece ser apenas a garantia de todos se desentenderem, bem como o evidente
direito da grosseria brasileira de se expressar nas ruas como política, talvez, então,
nesta hora histórica de meio transe, seja difícil – para muitos dos que estão
excitados, ou correndo risco iminente de prisão, ou movidos pelos interesses mais
baixos de ódio e de vingança (de classe?) – pensar com processos de sentido mais
amplos, que, todavia, nem sempre são meramente simbólicos.12
Hora histórica de meio transe talvez seja uma boa definição, que aponte para a aura de
irracionalismo que recobre nosso tempo político. O fato é que depois de mais de uma década
12
AB'SABER, Tales. Dilma Rousseff e o ódio político. p.20.
17
de governos petistas organizou-se uma oposição de direita capaz de defenestrar Dilma
Rousseff da presidência através de questionável processo de impeachment.
Mas seria falso ver apenas em forças conservadoras a oposição ao governo petista.
Junho de 2013 viu as ruas tomadas por um movimento iniciado contra os aumentos das
passagens, mas canalizado para massivos protestos onde desfilaram muitas bandeiras,
demandas e máscaras, mas prevaleciam a indignação e o descontentamento com os rumos das
grandes cidades e da condução política do país. O PT perdeu também a hegemonia das ruas:
O movimento social dos jovens independentes de esquerda pensava em valores
amplos e utópicos, mas perfeitamente possíveis, ao mesmo tempo que ocupava o
espaço real deixado pela alienação do Estado e da política oficial em relação ao
mundo da vida. Uma nova prática social, à esquerda, anunciava a perda de contato
do Partido dos Trabalhadores com as forças que durante mais de trinta anos ele quis
representar, e soube integrar, para a hegemonia do grande projeto de Lula.13
Solapado à esquerda e à direita, o mandato de Dilma Rousseff enfraqueceu-se e
naufragou. Claro que o agente político desse ataque não foi a esquerda, a juventude de Junho
ou algum ator social alinhado a ideias de esquerda. O que o Brasil assistiu nos últimos anos
foi a volta à cena de um tipo não totalmente desconhecido. Anticomunista, odioso de tudo que
possa remeter ao imaginário da esquerda, vestido de verde e amarelo, branco, elitista, raivoso,
avesso ao diferente, intolerante:
Com o realinhamento gradual e real do grande capital contra o governo, o homem
conservador médio, antipetista por tradição e anticomunista por natureza arcaica
brasileira mais antiga – um homem de adesão ao poder por fantasia de proteção
patriarcal e agregada, fruto familiar do atraso brasileiro no processo da produção
social moderna – pode entrar em cena como força política real, deixando de
expressar privadamente um mero ressentimento rixoso, carregado de contradições,
contra o relativo sucesso do governo lulo-petista, que jamais pode ser
verdadeiramente compreendido por ele.
Com as eleições, e o apoio senhoril assegurador do grande dinheiro, que voltava a
ser genericamente antipetista, este povo se manifestou em massa. Com a bomba
atômica da corrupção na Petrobras revelada, explodindo no colo da Presidente logo
após a reeleição – a verdadeira ficha do desequilíbrio político final – esta camada
média, que havia se organizado ao redor de um candidato e que não se conformara
com a sua derrota, ganhou o instrumento definitivo, agora de fato real, que, junto
com a sua própria nova organização, de produção midiática de espetáculo de massas,
e de muita estratégia na internet, gerou a nova paixão política conservadora
pósmoderna brasileira. O desequilíbrio mais profundo da política no capitalismo de
13
IDEM. p.29
18
consenso geral brasileiro, indicado acima por Paulo Arantes, tendia a se
desequilibrar fortemente para a direita, nova velha. 14
Velhos conhecidos. Descontentes com a derrota de seu candidato oficial às eleições,
esta massa reacionária, conservadora, voltou à cena e assumiu, admitamos, protagonismo
político ao colocar em xeque o governo petista. Encerrou-se o ciclo de governo petista à
frente do país de maneira inimaginável. Neste contexto político caótico, de incertezas e
determinações, é que desenvolvemos nossa pesquisa.
O Partido dos Trabalhadores assumiu o protagonismo da esquerda em nosso país.
Construído como uma ferramenta de combate à ditadura, esse partido se tornou a linha de
frente na organização sindical do país, serviu como centro gravitacional de importantes
movimentos como o Movimento Sem Terra (MST) e chegou ao poder em nosso país. Contar
a história deste partido é contar a história do Brasil sob determinado ângulo, nos últimos anos.
E é impossível contar esta história sem observar as singularidades e diferenças locais. O
estudo do PT em nosso Estado nos ajudará portanto a entender este partido, entender Alagoas
e, sobretudo, entender o Brasil recente sobre um determinado ângulo político.
14
IDEM. p.32
19
1 CAPÍTULO 1 - UM PAÍS EM TRANSFORMAÇÃO: SURGE O PARTIDO DOS
TRABALHADORES.
Este capítulo tem como objetivo traçar um breve panorama sobre o cenário político da
transição do regime militar para a Nova República. Analisaremos o contexto do declínio da
política econômica da ditadura militar, conhecida como o milagre econômico e os fenômenos
políticos que influenciariam a criação do Partido dos Trabalhadores. Além disso,
observaremos o cenário da política do Governo Geisel de distensão lenta, segura e gradual da
ditadura. Construindo este quadro da política brasileira dos anos 1979 até 1984
simultaneamente acompanhamos a fundação do Partido dos Trabalhadores em Alagoas e
contextualizamos o discurso dos construtores do PT, nossas fontes orais, dentro do período. O
contexto político social do surgimento do Partido dos Trabalhadores: a crise do milagre
econômico
1.1 O CONTEXTO POLÍTICO INTERNACIONAL NO FINAL DOS ANOS 1970.
O debate pela construção do Partido dos Trabalhadores iniciou-se dentro de um
contexto internacional muito distinto daquele que se viveu o processo de construção do PCB,
conhecido à época como "Partidão", como Partido de massas da década de 1940 e do
surgimento das vanguardas guerrilheiras, urbanas e rurais, da década de 1960. Se, por um
lado, vivíamos a nível internacional ainda dentro do que definimos como Guerra Fria, por
outro é mister analisar que há uma distensão global em torno das duas superpotências - EUA e
URSS - que rivalizavam a disputa política e ideológica que por vezes aproximou a
humanidade de fato de uma "guerra quente".
A nível internacional, assistíamos à derrota das tropas estadunidenses do Vietnã,
derrotadas pela forte pressão política exercida pelos movimentos anti-belicistas e juvenis que
se levantaram no mundo inteiro, tendo como epicentro o ativismo dentro do próprio Estados
Unidos. Esta retirada construiria também por parte dos EUA uma modificação em sua relação
com os demais países, levando à construção de uma política mais forte no governo de Jimmy
Carter de valorização dos direitos humanos e regimes democráticos.15 No governo Carter
também assistiu-se ao reestabelecimento de relações diplomáticas com a China em 1977 e ao
15
NETTO, José Paulo. Pequena História da ditadura brasileira. São Paulo: Cortez, 2014. p. 185-186
20
fomento a negociações de paz entre Israel e palestinos no Oriente Médio, com os acordos de
Camp David em 1979.
Na Europa, as ditaduras de Salazar em Portugal, findada com o movimento em 1974
conhecido como Revolução dos Cravos, e a de Franco na Espanha, que viveu nos anos de
1976 e 1977 um forte período de greves e mobilizações populares, construíram um ânimo
diferenciado nos movimentos sociais de toda a América Latina, incentivaram a percepção de
que também era possível enfrentar as ditaduras do cone sul, abrindo-se para a perspectiva de
vitórias e avanços.16 Somado a isso, explodiram lutas pela libertação colonial em diversas
colônias de Portugal, em reação à queda do salazarismo: Angola, Moçambique, São Tomé e
Cabo verde. Por fim, a Revolução Nicareguense em 1979 colocava novamente a América
Latina no mapa das lutas sociais de libertação e resgatava a memória da Revolução Cubana.
Reacendia-se o imaginário político de esquerda.
Mas não era só no terreno político que percebiam-se mudanças que afetavam o Brasil.
O terreno econômico também apresentava modificações que iriam afetar sobremaneira o
governo militar brasileiro. A combinação do fim do acordo de Bretton Woods, em que os
Estados Unidos abandonavam o padrão ouro, com a crise do petróleo causada pela retaliação
empreendida pela Organização dos Países Produtores do petróleo (OPEP), medida política
que fora chamada de primeiro choque do Petróleo17, empreendida como expressão de
descontentamento aos interesses expansionistas de Israel, com o objetivo de pressionar os
países ocidentais através do aumento do preço do barril de petróleo cru, constituiu um cenário
econômico que iria começar a afetar o chamado "milagre econômico" brasileiro. Em síntese,
José Paulo Netto apresenta as cifras que indicam a fragilidade em que se encontrava a
economia brasileira, tão dependente do petróleo:
Que o 'milagre' chegava ao fim, Geisel e sua equipe logo o constataram: se o
PIB crescera 14% em 1973, esta taxa caiu para 8,2% em 1974 e bateu nos 5,1%, em
1975. O crescimento da indústria indicava mais eloquentemente o que estava se
passando: os extraordinários 17,03% de 1973 caíram para 8,4% em 1974 e não
foram além de 4,9% em 1975. E a inflação avançava: 28, 6% em 1973, 27,8% em
1974 e preocupantes 41,2% em 1975. Estavam claros os estrangulamentos com que
se defrontava a economia brasileira, determinados pela sua dinâmica interna; a
questão era escolher e definir o rumo a seguir. Geisel não considerou nenhuma
16
CHAGAS, Juary. Nem classe trabalhadora, nem socialismo - O PT das origens aos dias atuais. São Paulo:
Sundermann, 2014. p. 39
17
REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014.
21
alternativa senão a continuidade do crescimento econômico, mesmo nas condições
internacionais adversas (que são sinalizáveis com um único dado: na conjuntura em
que o barril do cru triplicou de preço em semanas, o Brasil importava 80% do
petróleo que consumia) - seria uma espécie de 'marcha forçada' do crescimento. A
opção desenvolvimentista de Geisel estava conectada à sua estratégia política - seria
realmente muito difícil conduzir a distensão num quadro de estagnação ou, pior
ainda, de recessão econômica. 18
Vemos então em um rápido panorama a identificação do declínio daquilo que
convencionou-se chamar de "milagre econômico", o crescimento do país durante alguns anos
de um PIB de mais de 10% ao ano durante parte das décadas de 1960 e 1970. O "milagre",
frise-se, nada possuía de divino ou sobrenatural. Era na verdade o resultado de uma política
econômica baseada em intensa exploração da força de trabalho que tinha seus salários
achatados dentro de um contexto social em que a resistência operária era praticamente
inexistente devido ao cerceamento das liberdades, limitação do direito de greve e forte
controle estatal das organizações sindicais. A consequência deste modelo econômico foi uma
forte concentração de renda e a inserção das multinacionais estrangeiras na vida brasileira
como até então não havia se dado. Este modelo de desenvolvimento também foi o responsável
pela construção do parque automobilístico no ABC paulista, bem como uma maior
industrialização do país de maneira geral.
A solução encontrada pelo governo Geisel foi então a de adotar um novo plano
nacional de desenvolvimento - o II PND, haja vista que o primeiro teria sido aplicado em
1971 pelo governo Médici - sob uma perspectiva de adiar a crise e manter o crescimento
econômico mesmo em adversas condições internacionais. Em que pese que se tenha mantido
relativo crescimento, não se conseguiu manter os patamares do período do "milagre", e com
isso a deterioração das condições de vida passou a ser cada vez mais sentida.
O governo Geisel viu-se então em uma situação muito difícil: o Brasil se tornava o
campeão mundial do endividamento, com uma dívida externa de US$52 bilhões em 1978 19,
os trabalhadores indignavam-se com a defasagem salarial oculta por dados do governo que
inicialmente registravam a inflação no ano de 1973 em 15,5%, rapidamente desmascarados
por estudos do Banco Mundial que evidenciaram que na verdade a inflação daquele ano foi de
18
NETTO, José Paulo.Pequena História da ditadura brasileira. São Paulo: Cortez, 2014. p.187-188
REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014. p.122
19
22
22,5%.20 Tal revelação gerou a revolta dos trabalhadores em busca de seus reajustes salariais
e ajudaram a aumentar as tensões envolvendo a transição que se iniciava ainda lentamente. A
década de 1980 veria, por fim, o sepultamento definitivo do milagre econômico, com a
inflação registrando 100% anuais21. Tal cenário coincidiria com a explosão dos movimentos
pelas Diretas Já22 no Brasil inteiro.
1.2 A DISTENSÃO LENTA, GRADATIVA E SEGURA
Com a posse de Geisel, em 15 de março de 1974, e seus cinco anos de governo, vemos
a implementação de uma política de mudança no regime militar. Acossado pela crise
econômica internacional que atrapalhava os planos do milagre e se vendo às voltas com o que
chamaria de "excessos" do regime militar. Nas palavras do próprio Geisel, era preciso criar
uma "democracia forte".23 Algumas bandeiras democráticas deveriam ser erguidas, mas com a
cautela de manter o regime de segurança nacional e o aparato repressivo. Os ministérios
anunciados por Geisel em março de 1974 são um exemplo desta política de conservação da
linha dura e apontamento de mudanças. Os ministérios militares e centros de informação
ficarão na mão de "homens de confiança", militares da linha dura. 24 Mudanças se faziam
sentir na nomeação de Severino Gomes - afastado do governo Castelo Branco por supostas
posições nacionalistas - para o Ministério da Indústria e Comércio, Azeredo da Silveira,
diplomata pragmático, para o Ministério das Relações exteriores, e Golbery do Couto e Silva
com o importante papel de dirigir a casa civil.25
O que se discutia internamente era a necessidade de assentar o regime em outros
pilares além da repressão pura e simples. Conter os excessos do aparato repressivo e ao
mesmo tempo mostrar a sociedade que o regime abria-se para a incorporação "democrática"
da sociedade. Lembremos que o discurso da democracia era importante para a legitimação do
regime militar brasileiro, haja vista que todo o discurso que legitimou o golpe estava
20
IDEM,p. 119
IDEM,p. 142
22
As Diretas Já foram uma grande campanha cívica que tinha como principal pauta a luta pelas eleições diretas
para a presidência da República. Movimento emblemático do que seria a segunda fase do processo de abertura
política, marco das lutas pela democracia no período e pelo fim da Ditadura militar, chegou a aglutinar um
milhão de pessoas nas ruas do Rio de Janeiro, representando assim uma contundente refratação à proposta de
abertura conduzida pelos militares. Cf. TEIXEIRA, Francisco Carlos. “Crise da ditadura militar e o processo de
abertura política”. IN: O Brasil republicano; v.4. O tempo da ditadura: regime militar e movimentos sociais em
fins do século XX. Org. FERREIRA, Jorge; ALMEIDA, Lucília de.
23
NETTO, José Paulo.Pequena História da ditadura brasileira. São Paulo: Cortez, 2014. P. 177
24
IDEM, p. 177
25
IDEM, p.177
21
23
embasado em uma suposta preservação do regime democrático brasileiro contra as intenções
golpistas das organizações de esquerda. A chamada "revolução brasileira" tinha portanto o
objetivo claro de salvaguardar as instituições democráticas, derrotar as forças golpistas de
esquerda e reestabelecer a ordem. José Paulo Netto define o que seria a linha de intervenção
de Geisel:
Geisel se traçou uma linha de intervenção em dois planos. O primeiro consistia em
submeter a forte controle a máquina repressiva, disciplinando-a, depurando-a do
banditismo e do que considerava os seus "excesso". Estava consciente de que
encontraria fortes resistências nos núcleos 'duros' do regime, em especial na
"comunidade de informações' e nos 'porões', onde a autonomização dos agentes
repressivos já colidia, em muitos casos, com a própria hierarquia militar, mas
principalmente cuidou de avançar com cautela. O segundo plano de intervenção era
de natureza estritamente política: Geisel optou por buscar uma nova legitimidade
para o regime através da valorização do seu Partido, a ARENA, que até então, era
objeto de olímpico desprezo pelos dirigentes da ditadura. Em resumidas contas,
neste plano, o que Geisel pretendia era abrir espaço para um mínimo de vida e de
atividade políticas - mas espaço controlado pelo Executivo e sob sua orientação.
Seria nesse contexto que Golbery lançaria a disjuntiva de uma distensão "lenta,
gradativa e segura".
Em termos militares, uma retirada, ou seja, uma das operações mais complicadas e
delicadas. Qualquer descuido, como se sabe, e a retirada viraria debandada. Era
necessário o maior cuidado para que as coisas se passassem em ordem e em paz. Daí
porque a distensão deveria ser, conforme Geisel anunciou em agosto de 1974, lenta,
gradativa e segura. Lenta, sem pressa, devagar; gradativa, por etapas, de modo que
se pudesse avaliar, a cada momento, o caminho percorrido, as novas circunstâncias,
os objetivos alcançados e os desafios a serem enfrentados. e segura, sob controle,
com a máxima segurança possível. 26
A prova de que esta distensão se daria conservando ainda muito do caráter repressivo
do Estado Brasileiro se deu com a vaga repressiva desencadeada contra os Partidos
comunistas, PCB e PCdoB em 1975/1976, que culminaria mesmo com a eliminação física de
parte do comitê central do PCB.27 O caso mais grave, porém, seria o assassinato do jornalista
Vladimir Herzog. A morte de Vlado gerou intensa comoção na sociedade, a mobilização de
setores progressistas da Igreja Católica e da sociedade brasileira, como a ordem dos
26
REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014. p.98-99
27
NETTO, José Paulo. Pequena História da ditadura brasileira. São Paulo: Cortez, 2014. p.181
24
advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Mesmo parte da
imprensa que fora entusiasta do golpe condenou o desaparecimento do jornalista e a alegada
tese de que cometera suicídio. A Folha de São Paulo publicou editorial criticando a
arbitrariedade e truculência do regime no episódio envolvendo Vlado. Por fim, a morte do
operário Manuel Fiel Filho, do PCB, três meses depois do suposto suicídio de Vladimir
Herzog mostrava que os "porões" da ditadura estavam dispostos a seguir a escalada de
arbitrariedades mesmo a contragosto de Geisel. A forte pressão da sociedade, porém, foi
capaz de enfraquecer a "linha dura" e a ala mais truculenta do serviço de informações e
"porões" da ditadura, fortalecendo o projeto de distensão de Geisel.
É preciso entender o porquê da oposição desse setor ao projeto de distensão de Geisel.
À medida que um forte aparato repressivo fora construído para derrotar as esquerdas,
principalmente os movimentos de guerrilha, os militares ligados a estes aparelhos e órgãos se
viram
fortalecidos
politicamente. Desmembrar ou enfraquecer esses órgãos
era,
consequentemente, fragilizar politicamente todo um grupo de militares envolvido nessas
tarefas repressivas. Pejorativamente, estas alas de militares refratários a mudanças eram
também chamadas de "bolsões sinceros, mas radicais".28 Devido aos excessos cometidos
pelos militares da linha dura no período 1975/1976 e a pressão dos governos europeus e
principalmente do norte americano Jimmy Carter, envolvido em uma nova política de
valorização dos direitos humanos, os militares dos "bolsões sinceros" se viram muito
enfraquecidos em suas posições.
1.3 AS DERROTAS ELEITORAIS DA ARENA E O FIM DO BIPARTIDARISMO
É importante entendermos que o regime militar no Brasil se estruturou a partir de um
sistema partidário que garantiria uma aparência democrática, uma boa fachada para evitar
maior desgaste da ditadura. Havia o respeito a um colégio eleitoral controlado pelos militares,
a partir da dissolução de todos os Partidos e a legitimação de apenas duas organizações, o
ARENA, mais claramente ligado ao governo, e a oposição do MDB. Em que pese que houve
momentos de intensificação da repressão, como durante o período do Ato Institucional
número 5,29 esse bipartidarismo funcionaria como um esquema de suavização da percepção da
28
REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014. p.101
29
O Ato institucional nº5 ou AI-5 estabelecia prerrogativas ainda mais autoritárias ao regime militar. Sua
aplicação ficaria conhecida como "o golpe dentro do golpe".
25
ditadura e repressão e instrumento por onde se canalizaria uma possível distensão do
regime.30
Chamemos atenção para o fato de que a estratégia política da distensão democrática
empreendida pelo governo Geisel foi precedida pelas duas vitórias consecutivas da ARENA
nas eleições gerais de 1970 e 1972, alicerçadas no crescimento econômico do "milagre" e a
derrota sofrida em 1974, quando o MDB conquistou 16 das 22 cadeiras do Senado:
Com efeito, com a vitória oposicionista de 1974, a estratégia governamental
adquiriu uma dupla ação: de um lado, utilizou as eleições enquanto legitimador
processual, enquanto revitalizador da noção de legalidade na ação governamental; de
outro lado, empreendeu uma sucessão de medidas casuísticas contra o avanço
eleitoral da oposição, no objetivo de controlar os mecanismo de regulação de uma
competição política desigual.31
Esta derrota foi muito grave para os planos de distensão. O regime perdia nos
principais estados da federação, vencendo apenas na Bahia, Mato Grosso, Maranhão, Piauí,
Pará e Alagoas.32 As conclusões eram claras: pela primeira vez em eleições pós-1964 o MDB
obtinha um bom desempenho, apoiado na insatisfação com o regime, e assinalava uma
importante derrota aos militares.
Parte da luta por angariar simpatia na população utilizando-se das eleições, o MDB
lançaria também à presidência a candidatura de Ulysses Guimarães, que percorreria o país em
comícios e reuniões com apoiadores como forma de desgastar o regime. Embora alguns
tenham criticado a ação por ver nela uma abertura para a interpretação de legitimação do
regime33, outros viram na ação uma grata surpresa capaz de reforçar os ânimos da oposição.
A reação do governo a estas derrotas não poderia ser outra que não criar restrições ao
plano de distensão. O risco de perder o controle era real, à medida que o descontentamento
com o regime aumentava, na esteira dos problemas econômicos advindos da crise do
"milagre" e as insatisfações relacionadas com a condição de vida. O descontentamento
portanto não era só dos setores operários mas também das camadas urbanas, e mesmo setores
30
MENEGUELLO, Rachel. PT: A formação de um Partido, 1979-1982. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p. 22.
IDEM, ibidem, 1989. p. 23-24.
32
REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro:
Zahar, 2014. p.106
33
IDEM, p. 93
31
26
empresariais e de importância política para o regime começavam a debandar para o apoio à
oposição.
A primeira medida como reação à derrota de 1974 foi a instituição da Lei Falcão,
batizada com o nome do ministro da Justiça, Armando Falcão. A lei vetava a propaganda
eleitoral à mera aparição de foto e currículo do candidato e foi aplicada nas eleições de 1976 e
extensão para 1978. Como resultado, uma vitória nas eleições para prefeitos e vereadores por
parte da ARENA, o que para muitos já era esperado e não representava sobretudo uma vitória
da ARENA, visto que era possível vislumbrar uma redução do seu número geral de votos.34
Ainda por cima, esta redução de votos se verificou mesmo com a campanha de Geisel, que
percorreu o país angariando votos para ARENA e formulando propostas e promessas por
todos os municípios que passava. Sem dúvida, em marcos gerais o Partido oficial do governo
amealhava mais uma derrota.
Na sequência da Lei Falcão viria o chamado "Pacote de abril", um conjunto de
medidas arbitrárias baixadas por Geisel. Dentre elas a prorrogação do mandato presidencial
por 6 anos e diversas outras alterações na legislação eleitoral, tornando as eleições um
processo mais restrito em diversos âmbitos. Destaca-se deste pacote a criação da eleição
indireta de determinado percentual de senadores que ficariam conhecidos pejorativamente
como "biônicos". Vemos que todas estas medidas tinham como principal objetivo manter o
controle sobre o processo de distensão e prejudicar a oposição que se fortalecia. Tudo isso
aprovado sob a suspensão do Congresso Nacional, que fora dissolvido entre os dias 1 e 14 de
abril de 1977. Era Geisel dando o recado de que o regime militar transitaria apenas pelos
trilhos que o governo permitisse.
Nas eleições de 1978, nova derrota do regime militar. Em que pese todas as reformas
de cunho restritivo aplicadas pelo regime, a ARENA não conseguia sair novamente
moralizada. Obviamente, seu candidato a presidente (Figueiredo) foi vitorioso e o Partido
ocupou a maior parte dos cargos a que concorreu no Legislativo e no Judiciário. Porém, o
número de votos diminuíra e sua maioria seguia contestada.35
34
IDEM, p.109.
Figueiredo, um militar proveniente da "linha dura" era indicado à presidência, se viu ás voltas com um novo
candidato anti-regime, desta vez o general Euler Bentes Monteiro, que passara ao MDB após anos de apoio ao
regime militar. No saldo final, a ARENA obteve 40% dos votos válidos contra 39,3% de votos para o MDB na
disputa pelo congresso nacional. Conforme assinala REIS, p. 116-117.
35
27
O regime se deparava com uma transformação clara na disputa eleitoral. Se antes o
caráter plebiscitário das eleições, dado o bipartidarismo, configurava-se como uma vantagem
ao regime, nas eleições de 1978 se comprovara um empecilho. Muito mais do que um voto de
confiança no MDB, boa parte dos votos era na verdade uma indignação contra o regime
militar e a ARENA. Crescia o voto de protesto/castigo aos militares.36
A partir do resultado das eleições de 1978 o regime iniciara então uma nova leva de
mudanças institucionais, destacando-se deste período a abolição do AI-5, a lei de anistia do
Governo Figueiredo em 1979, a reforma partidária que acabava com o bipartidarismo e a
volta quase que completa da liberdade de imprensa. 37
Um novo cenário institucional foi então criado pela ditadura. Surgiram novos Partidos
com funções sociais bem definidas: O Partido Popular (PP) como Partido de centro, ligado à
ditadura, articulado aos empresários e Partido de confiança no governo de transição; PDS e
PMDB, renomeações do Arena e MDB; PTB, Partido Trabalhista. A ditadura como forma de
se precaver de adversários que surgiam - o próprio PT, Leonel Brizola e seu PDT, comunistas
(PCB e PCdoB) - através da lei da Reforma Partidária (lei nº 6.767 de 20-12-79) criou uma
série de obstáculos legais para instituição de novos Partidos, e organização de Partidos
pequenos, bem como impossibilitou a existência legal dos Partidos comunistas.38
A longa citação que se segue sintetiza de forma precisa o que significou o surgimento
do PT para o cenário político e institucional de nosso país:
Apesar de uma dinâmica autônoma frente à política institucional, tornou-se
crucial para a maior parte dos movimentos sociais obter um maior acesso às
estruturas políticas estabelecidas, mesmo porque a própria reformulação partidária
colocada pelo regime conformou-se na única resposta do Estado autoritário às
reivindicações pelo seu afrouxamento e democratização, oriundas da sociedade civil.
Como se pode observar, a relação entre Estado autoritário e movimentos sociais
no Brasil traduziu-se na tentativa de constituição de uma arena político-institucional
legítima, de formato tradicional, ou seja, com Partidos fortes e representativos, até
então atípicos em nossa história política.
Tal necessidade de abrigo político-institucional levou os movimentos sociais à
busca de formas internamente democráticas, que abrangessem suas diversidades
reivindicativas. Boa parte dos movimentos abrigou-se no PMDB que, a partir de
1974 fundamentalmente, exerceu papel de "guarda-chuva" das manifestações de
36
NETTO, José Paulo.Pequena História da ditadura brasileira. São Paulo: Cortez, 2014. p.198.
MENEGUELLO, Rachel. PT: A formação de um Partido, 1979-1982. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p. 25.
38
IDEM, ibidem, 1989. p. 26.
37
28
oposição. Outra parte dirigiu-se à formação do PT, que se apresentou então como
nova forma de representação popular no âmbito institucional.
Em resumo, queremos destacar que, em torno do contexto institucional
demonstrado, dos avanços e retrocessos políticos que caracterizam o processo de
"abertura", e em torno do intenso período de articulação e mobilização social que
envolveu os mais importantes setores produtivos urbanos e deu nova dimensão
política ao sistema autoritário, o PT configurou-se uma novidade políticoinstitucional quanto à origem, organização e proposta.39
1.4 O RENASCIMENTO DO MOVIMENTO SINDICAL
A ditadura militar brasileira foi capaz de desenvolver, a partir do chamado "milagre
econômico" um enorme crescimento industrial no país. Setores automobilísticos concentrados
nas cidades do chamado ABC paulista foram o centro nevrálgico deste crescimento e modelo
de prosperidade para o regime militar. Este crescimento industrial diversificado, mas tendo
grandes centros como destaque, propiciou o surgimento de uma reorganização sindical no
Brasil. O fortalecimento de laços de solidariedade entre operários, a rearticulação das
entidades sindicais, oposições e comissões de fábrica foram possíveis graças à concentração
industrial e urbana propiciada no período. No final da década de 1970 iriam explodir as
péssimas condições de trabalho, os problemas econômicos, a inflação, arrocho salarial,
degradação das cidades, falta de democracia e repressão encarniçada. Todos estes fatores
culminaram na organização operária a partir da confecção de jornais operários, retorno do
protagonismo sindical e avanço da consciência política.
Paulo Henrique Martinez nos dá uma precisa definição do que significou a crise que
pôs fim ao milagre econômico da ditadura para o movimento operário:
No Brasil dos anos 1970 e 1980, a crise econômica alimentada pela dívida externa e
pelo esgotamento do modelo de desenvolvimento desembocou em desemprego,
inflação, baixos salários e queda nas atividades fabris. Essa crise acirrou tanto os
conflitos políticos em torno dos meios para sua superação, comprimindo a "transição
lenta, gradual e segura", quanto os conflitos sociais, protagonizados por empresários,
trabalhadores e o Estado. Esses confrontos dinamizaram as disputas pela direção e
pela organização da sociedade.40
39
IDEM, 1989. p. 30.
MARTINEZ, Paulo Henrique. "O Partido dos Trabalhadores e a conquista do Estado: 1980-2005". IN: Reis,
Daniel Aarão e Ridenti, Marcelo (org.). História do Marxismo no Brasil.V.6. Partidos e movimentos após os anos
1960. Campinas: Editora da Unicamp. 2007.
40
29
Esse acirramento de contradições iria produzir então o que seria batizado de novo
sindicalismo. A representação política de um novo proletariado, descontente com as velhas
representações sindicais chamadas de "pelegas", atreladas à velha estrutura sindical. O
estopim que levou à explosão de luta deste proletariado do ABC fora a luta pela reposição
salarial dentro do contexto da já mencionada adulteração dos dados concernentes à inflação
do ano de 1973, desveladas por estudos do Banco Mundial.
Iniciada em uma greve na fábrica da Saab Scania de São Bernardo em Maio de 1978, a
mobilização operária se espalhou como um rastilho de pólvora por todo o ABC e entusiasmou
todo o país. Não é que não estavam ocorrendo greves por dentro dos sindicatos oficiais, mas
sem dúvidas esta greve fora demonstrativa de que se abria outro momento político.
Destas mobilizações surgiria a figura daquele que se tornaria a principal liderança
operária do país, Luís Inácio Lula da Silva, o Lula41, presidente do sindicato dos metalúrgicos
de São Bernardo do campo. Surgido da estrutura oficial sindical do regime militar, Lula
iniciaria sua militância sindical com um discurso visando obter apenas conquistas trabalhistas,
pouco diferenciando-se do discurso do sindicalismo oficial. Somente com a evolução política
do novo sindicalismo Lula modificaria estas posições,42 oscilando entre um sindicalismo
trabalhista restrito a condições econômicas e um perfil mais ideológico de combate ao
capitalismo.43
Vale a pena chamar atenção para o fato de que estas mobilizações tiveram imensa
importância também para questionar a estrutura sindical que a ditadura reforçou, de
corporativismo e atrelamento ao Estado derivados da Era Vargas44. A estrutura sindical
brasileira desde o Estado Novo é marcada por forte corporativismo. A ditadura se utilizou da
legislação sindical e aplicou um controle baseado na expulsão de dirigentes sindicais
combativos, intervenção direta e controle ideológico. Por outro lado, a legislação sindical foi
41
Luís Inácio Lula da Silva, ou Lula como passou a ser conhecido no movimento sindical foi o grande dirigente
sindical do período. Símbolo do novo sindicalismo e das lutas sindicais contra a ditadura. Seria alçado a uma
das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores e chegaria a presidência da República do Brasil em 2002.
42
RIDENTI, Marcelo. "As oposições à ditadura: resistência e integração." IN: Motta, Rodrigo Patto Sá, Reis,
Daniel Aarão & Ridenti, Marcelo. (org.) A ditadura que mudou o Brasil: 50 anos do golpe de 1964. Rio de
Janeiro: Zahar, 2014. p.40-41.
43
MARTINHO, Francisco. Carlos Palomanes. "A armadilha do novo: Luís Inácio Lula da Silva e uma esquerda que
se imaginou diferente." IN: Revolução e democracia (1964...) Ferreira, Jorge & Reis, Daniel Aarão. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira. 2007. p.550
44
ANTUNES, Ricardo &SANTANA, Marco Aurélio. "Para onde foi o "novo sindicalismo"? Caminhos e
descaminhos de uma prática sindical." IN: Motta, Rodrigo Patto Sá, Reis, Daniel Aarão & Ridenti, Marcelo. (org.)
A ditadura que mudou o Brasil: 50 anos do golpe de 1964. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. p,129-130
30
alterada para exercer ainda mais controle sobre os operários e restringir sua esfera de atuação
mais política. Os sindicatos durante o período militar adquiriram assim um verniz
assistencialista e foram alijados de seu teor combativo. O exemplo mais demonstrativo desta
ação é a restrição dura que aos sindicatos foi imposta sobre o direito de greve. Alijados de sua
ferramenta política mais eficiente, os trabalhadores se viram reféns do regime militar, meros
negociadores frente ao Estado.
Após anos de controle sindical e repressão aos setores mais dispostos ao
enfrentamento dentro do movimento, a greve de 1978 estimulava uma postura mais agressiva
frente ao governo e de mais autonomia organizativa, o que era possível graças justamente à
mencionada nova base social surgida a partir da industrialização da década de 1970. O maior
fruto deste enfrentamento com a estrutura sindical vigente seria a criação, em 1983, da
Central Única dos Trabalhadores, a CUT. Como objetivo estava a construção de uma central
sindical forte e independente das garras da ditadura.
As medidas adotadas pelo governo militar frente ao novo ascenso de greves não foram
diferentes das empregadas em momentos anteriores, como a greve de 1968 em Osasco:
repressão e prisões arbitrárias. Eram comuns a censura, recolhimento de materiais de
propaganda, perseguição política e prisões. Na greve de 1980 praticamente toda a diretoria do
sindicato dos metalúrgicos seria presa.45 Porém, diferente de em momentos anteriores, desta
vez a repressão não fora capaz de deter o movimento dos trabalhadores.
Assim, a ditadura militar produzia seu próprio coveiro, das entranhas do milagre
econômico emergiu um forte e concentrado proletariado e um forte movimento de
trabalhadores assalariados e de oprimidos que se organizaram contra o regime. A expressão
política deste novo momento foi o Partido dos Trabalhadores:
A década de 70, estimulada pela "abertura" abrigou ondas intensas de mobilização
política de diversos segmentos sociais. Produto direto das violentas transformações
infraestruturas e do rápido assalariamento pelo qual passou a economia nacional a
partir dos anos 60, tais mobilizações refletiam, em parte, o impacto da reestruturação
45
COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital: o transformismo dos grupos dirigentes do PT (1979-1998).
São Paulo: Xamã,2012. p. 45
31
ocupacional urbana, o consequente assalariamento da classe média, além do veloz
processo de favelamento nos grandes centros e degradação das condições de vida. 46
Nesse cenário que surgiu então o novo sindicalismo, este sujeito político determinante
para a fundação do PT. Este novo sindicalismo seria diferente do anterior por contar com mais
autonomia, não ser atrelado, "pelego", na linguagem sindical, aos patrões e à ditadura. Casado
a este novo sindicalismo, é importante destacar também a emergência de diversos
movimentos sociais populares organizados "de baixo", a partir de instituições autônomas.
Também faria parte do caldo que formaria o PT os movimentos ligados à Igreja Católica e à
experiência das comunidades eclesiais de base.
O novo sindicalismo surgiria então, como já afirmamos, de dentro do próprio
desenvolvimento econômico desenfreado da ditadura militar, do desenvolvimento em especial
das empresas privadas e das necessidades e reivindicações trabalhistas daí decorrentes:
modernização das relações de trabalho, luta contra o agravamento da exploração, contra o
arrocho salarial, contra a disparidade entre crescimento econômico e salários. O ápice do que
seria este novo sindicalismo estaria concentrado na experiência das lutas operárias do final
dos anos 1970 na cidade de São Bernardo do Campo, ABC paulista. Novas lideranças
sindicais, independentes, portando reivindicações políticas e econômicas cujo interesse maior
recaía sobre o operariado daquela região, maior concentração de produção mecânica e
automobilística pesada do país. Ficaram conhecidos como sindicalistas "autênticos", em
contraposição aos "pelegos":
De forma geral, podemos caracterizar dois blocos ao longo do processo. De um lado,
os chamados sindicalistas "autênticos", reunidos em torno dos sindicalistas
metalúrgicos do ABC, agregando sindicalistas de diversas categorias e partes do
país, os quais, com os grupos integrantes das chamadas oposições sindicais,
compunham o autodenominado bloco "combativo". (...) este setor formaria a base do
chamado "novo sindicalismo". De outro, a Unidade Sindical, que agrupava
lideranças tradicionais no interior do movimento sindical (muitas delas vinculadas
ao setor conservador do sindicalismo denominado "pelego"), e os militantes de
setores da esquerda dita "tradicional", tais como o Partido Comunista Brasileiro
(PCB), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o movimento revolucionário 8 de
46
MARTINEZ, Paulo Henrique. "O Partido dos Trabalhadores e a conquista do Estado: 1980-2005." IN: Reis,
Daniel Aarão e Ridenti, Marcelo (org.). História do Marxismo no Brasil.V.6. Partidos e movimentos após os anos
1960. Campinas: Editora da Unicamp. 2007. p. 28
32
Outubro (MR-8). Estes dois blocos seriam a base de sustentação dos organismos
intersindicais de cúpula que seriam criados no processo.47
As greves desencadeadas a partir de 1978 iriam colocar o chamado "novo
sindicalismo" como um movimento social de referência em todo o país, questionariam o
regime militar colocando em debate as liberdades democráticas, a cidadania, o direito de
greve, certos reajustes salariais. Na esteira desta explosão, se desenvolveria um sindicalismo
do setor terciário, funcionários públicos e profissionais liberais que ficaria conhecido como
"sindicalismo de classe média". 48
A visão que o "novo sindicalismo" construiria para si, conjuntamente com análises
acadêmicas produzidas no período, era a de um sindicalismo rompido com o antigo pacto
"populista", que não se constituía de fato enquanto força autônoma e era dependente da
política dita "populista". Além disso, era um movimento sindical "vanguardista e populista".49
Esta crítica se enraizaria no discurso do chamado "classismo", a necessidade de
independência política e autonomia que os sindicatos deveriam construir se quisessem
enfrentar a fundo o regime militar. Mais à frente essa posição classista se cristalizaria como
um dos pilares do PT, embora grande parte desse discurso que dava ao sindicalismo das novas
lideranças do ABC ares de completa ruptura com as antigas práticas sindicais e absoluta
"novidade" possa hoje ser relativizado. Diversas propostas presentes nos discursos das
lideranças, como por exemplo as organizações por locais de trabalho e empresas, acabaram
sendo episódicas em comparação ao que se propugnava. Esse discurso, que se pretendia
fundante de um "grau zero da prática sindical", terminou resvalando em óbvios problemas
dados pela própria complexidade política da atuação sindical. Seu acento no caráter de
originalidade e novidade acabou "impedindo que desse a devida atenção às dificuldades
históricas experimentadas pelo movimento dos trabalhadores no Brasil. Por isso, talvez, ele
não tenha podido sequer desviar-se dos obstáculos reproduzindo, ao longo do tempo, práticas
47
SANTANA, Marco Aurélio. “Trabalhadores em movimento”. p. 290. IN: O Brasil Republicano. No final dos
anos 1980 estes dois grupos consolidarão centrais sindicais distintas, a CUT e a CTB. As principais divergências
dizem respeito a relação que deveria se estabelecer com as oposições sindicais, a relação que deveria se
estabelecer com os movimentos populares e também, igualmente importante, a postura frente ao combate à
ditadura e a política para a transição, visto que o PCB (parte política importante da Unidade Sindical),
considerava importante evitar enfrentamentos diretos com o regime, co medo de que isso pudesse paralisar a
transição, enquanto que o PT defendia o confronto político direto com o governo dos militares através dos
movimentos sindicais e de luta por democracia. Cf. IDEM.
48
MENEGUELLO, Rachel. PT: A formação de um Partido, 1979-1982. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.
49
COSTA, Hélio da. "O novo sindicalismo e a CUT: entre continuidades e rupturas." IN: Revolução e democracia
(1964...) Ferreira, Jorge & Reis, Daniel Aarão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p.601
33
que tanto dizia combater."50 Nos anos 1990, a CUT e os oriundos do "Novo Sindicalismo"
iriam receber diversas críticas por práticas que seriam consideradas de "colaboracionismo
sindical", através de uma aproximação maior de práticas sindicais ligadas ao sindicalismo
social-democrata europeu.51 O discurso do "novo" não foi capaz, portanto, de se
consubstanciar em uma prática sindical tão distinta do que seria a tradição do sindicalismo
brasileiro:
Pode-se perceber que o "novo sindicalismo" tem traços de novidade para o contexto
mas, ao mesmo tempo, exibe fortes marcas de continuidade. No processo de
construção de sua identidade, o "novo sindicalismo" reforçara suas distinções
relativas a práticas pretéritas, atribuindo a elas qualificações bastante negativas. Em
termos discursivos, houve uma radicalização que em muito ofuscou também
inúmeros dos dilemas já existentes na própria origem desse sindicalismo. 52
Não se trata, evidentemente, de subtrair o papel e a absoluta potência que foi a
emergência desse movimento sindical frontalmente oposto ao regime militar. A explosão de
greves radicalizadas contribuiu do lado das demandas populares para o enfrentamento aos
militares e à luta por uma transição que não a pactuada.
Não haveria outro local para a explosão de greves radicalizadas se não o ABC paulista.
Dos anos 1930 até 1980 esta região viveria uma forte industrialização e urbanização, ligadas
ao aumento demográfico e acumulação de capitais. Segundo Lincoln Secco:
No ABC, a grande indústria automobilística se concentrou, assumindo a vanguarda
produtiva e tecnológica do Brasil com suas montadoras e fábricas de autopeças: nos
anos setenta, a indústria automotiva liderou a acumulação de capital, com taxas
anuais de crescimento acima de 30%. 53
Ainda segundo Secco:
As primeiras manifestações operárias se deram contra as manipulações
inflacionárias feitas pelo governo. A luta desencadeada contra o arrocho, a partir de
confissões de Mário Henrique Simonsen de que o custo de vida subira 22,6% e da
revelação pela Folha de São Paulo que a variação dos preços internos e por atacado
havia sido de 22,6% (acima da versão governamental que divulgara que subira
pouco mais de 11%). A partir desse cenário centenas de greves explodiriam, como
50
SANTANA, Marco Aurélio, ANTUNES, Ricardo. “Para onde foi o ‘novo sindicalismo’?”. IN: A ditadura que
mudou o Brasil. p. 140
51
IDEM, p. 136.
52
IDEM, p. 140.
53
SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Editora Ateliê, 2011.
34
símbolo desse período estava a greve da Scania, iniciada de maneira espontânea
pelos trabalhadores da ferramentaria, logo tomaria conta de todo o ABC pela ação
do sindicato e da figura política de Lula, que em breve se destacaria como a maior
expressão política de todo o processo. As greves eram apoiadas por uma ampla rede
comunitária nos bairros, tomando as cidades, pontos de ônibus, ruas, organizadas em
igrejas, formando uma ampla rede de solidariedade. 54
A coordenação articulada da mobilização sindical fora decisiva para o sucesso das
greves em 1979. A campanha salarial fora construída conjuntamente por 34 sindicatos sob a
direção da Federação dos metalúrgicos de São Paulo. Na reunião de 31 de janeiro da
Federação uma pauta única foi construída, com 22 itens comuns.55
O duelo com os empresários foi desde o começo muito intenso, cobrindo um período
de 15 dias de paralização, uma trégua de 45 dias e uma retomada da greve posteriormente. É
desse período as imagens de grandes assembleias dentro do lotado Estádio de Vila Euclides,
as maiores delas envolvendo a presença de 110 mil operários.56
A intransigência patronal, apoiada legalmente na estrutura sindical do regime militar,
mostrou-se desde o início da greve; em seu segundo dia, esta já fora considerada ilegal. Pouco
depois, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) propõe o índice de reajuste salarial em apenas
44%, abaixo dos 65% defendidos pelo movimento paredista.57
A greve não teria sobrevivido à repressão não fosse a enorme onda de solidariedade
que percorreu todo o país, começando pelo fundo de greve construído pela direção do
sindicato que receberia doações de todo o país, passando pelo apoio e solidariedade da Igreja
Católica, até chegar, em seu 15º dia, a uma trégua, em uma paralisação que contou com
interdição do sindicato, saída de Lula da direção da greve para posterior retorno e muitos
enfrentamentos com a ditadura. O ano de 1979 ainda veria a realização de uma enorme
manifestação em comemoração ao primeiro de maio com mais de 130 mil pessoas presentes e
a eclosão da greve dos metalúrgicos de São Paulo organizada pela oposição sindical dos
metalúrgicos:
54
SECCO, 2011. p. 40.
COSTA, Hélio da. "O novo sindicalismo e a CUT: entre continuidades e rupturas." IN: Revolução e democracia
(1964...) Ferreira, Jorge & Reis, Daniel Aarão. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 2007. p. 603
56
COSTA, Hélio da." O novo sindicalismo e a CUT: entre continuidades e rupturas." IN: Revolução e democracia
(1964...) Ferreira, Jorge & Reis, Daniel Aarão. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 2007. p. 604
57
Idem
55
35
As comemorações do Primeiro de Maio, em São Bernardo do Campo, reunindo 130
mil pessoas, incluindo personalidades artísticas e lideranças sindicais de várias
regiões do Brasil, além de políticos e intelectuais que se solidarizaram com a luta
dos trabalhadores do ABC, foram fundamentais para mudar os rumos dos
acontecimentos, quebrando a intransigência patronal e fortalecendo politicamente os
metalúrgicos do ABC, que se transformaram em referência na luta contra a ditadura
militar. Às vésperas de expirar o prazo final da trégua, os representantes da Fiesp e
dos metalúrgicos do ABC celebraram um acordo que, depois de aprovado em
assembléia, no dia seguinte, encerraria a campanha salarial de 1979, traduzida numa
longa e difícil batalha entre governo e empresários, de um lado, e os trabalhadores,
de outro. Os trabalhadores tinham consciência de que aquele teria sido apenas o
primeiro grande confronto, e procuraram tirar dos acontecimentos as lições
possíveis, preparando-se para as lutas já anunciadas do ano seguinte.
A campanha salarial do ano seguinte não teria contornos menos dramáticos e não
representaria uma luta menos acirrada. Já no segundo semestre de 1979 iniciou-se um
processo de mobilização nas fábricas, preparativo para a greve de 1980.
No dia 30 de março uma assembleia com 60 mil trabalhadores votou no início de mais
um movimento paredista. Com forte adesão em São Bernardo e contagiando os metalúrgicos
de diversas cidades do interior de São Paulo, como Campinas, Jundiaí, dentre outras. O
movimento sindicalista surgido em São Bernardo se consolidava definitivamente como um
dos grandes símbolos da redemocratização.
Mesmo perante a força do movimento paredista, o regime seguia com sua política de
tratamento dos grevistas com base na repressão. Encarando novamente a greve como "caso de
polícia", o TRT decreta o movimento ilegal no seu 14º dia de paralisação58 e intervém no
sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e de Santo André, destituindo sua direção. Dois
dias depois diversos dirigentes sindicais, Lula incluso, são presos e levados para o
Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
A experiência das paralisações anteriores, porém, servira para manter a firmeza dos
trabalhadores mesmo sob duro ataque. Com dificuldades, um comando de greve seguiu
liderando o movimento mesmo com a ausência de seus principais representantes. A
resistência dos trabalhadores gerou comoção na tradicional manifestação do primeiro de maio,
encerrada no lotado e emocionado Estádio de Vila Euclides, coroando o movimento sindical.
Encerrada a greve, os trabalhadores retomaram os sindicatos e seguiram suas mobilizações
nos locais de trabalho.
58
IDEM, p. 609
36
O esfriamento das paralisações da indústria no começo dos anos de 1980 levaria a
impasses da luta sindical. A estrutura sindical do regime não seria derrubada, embora
conquistas importantes nesse âmbito tivessem sido alcançadas. A arena político-institucional
se tornava a saída para a luta contra a ditadura quando a arena sindical parecia se esgotar. A
partir daí, maiores embates se dariam dentro dos próprios grupos sindicais. O novo
sindicalismo, defendendo a abertura do regime e a transformação da estrutura sindical e das
relações trabalhistas embarcaria na construção do PT, o Partido dos Trabalhadores. A eles se
juntariam as oposições sindicais, voltadas para a construção de organizações a partir das
comissões de fábrica, tinham menor peso e eram impulsionadas por pequenas organizações
marxistas e trotskistas e setores da Igreja. Entrariam em rota de colisão com o projeto político
do grupo chamado Unidade Sindical. Esses últimos impulsionavam a política de se manter
dentro do MDB, não apostar na construção do PT e tampouco questionar a estrutura sindical
vigente. 59
Reivindicando a luta pela cidadania, democracia e mudanças estruturais na política, o
novo sindicalismo assumiria o posto de protagonista na luta contra o regime militar no Brasil.
Percebendo que a luta sindical seria insuficiente para enfrentar a ditadura, deslocou-se para a
luta político institucional como espaço privilegiado de disputa política dos trabalhadores. Mas
esta construção não se daria a partir da adesão a algum Partido vigente, e sim a partir da
construção de uma ferramenta política própria dos trabalhadores, o PT. Este projeto animaria
não só os trabalhadores da indústria pesada, mas seria capaz de aglutinar em torno de si os
setores progressistas da Igreja Católica, os setores radicalizados de classe média, intelectuais,
movimentos sociais urbanos e os agrupamentos trotskistas que faziam a luta política na
clandestinidade subterrânea do regime militar.60
Em síntese, assim se define como a luta que se iniciou nas fábricas do ABC poderia
gerar um processo político tão rico e capaz de unificar todos os setores radicalizados em luta
contra a ditadura:
A integração de demandas econômicas, sociais e políticas na pauta de reivindicações
do novo sindicalismo refletia os efeitos da intervenção do Estado autoritário desde
os primeiros momentos do regime em dois planos fundamentais: no campo das
relações de trabalho, com o deslocamento do poder de decisão e de regulação para o
59
60
MENEGUELLO, Rachel. PT: A formação de um Partido, 1979-1982. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989. p.49.
IDEM, ibidem, 1989. p. 49-52
37
Executivo, e no campo dos direitos sociais e políticos, com a proibição do direito de
greve, a limitação da autonomia de organização, o aperfeiçoamento da estrutura
corporativista estadonovista e a política de exclusão popular levada pelo regime.
No princípio dos anos 70, a luta sindical do novo sindicalismo fundou-se na
conquista de autonomia das organizações frente ao Estado. Naquele momento, vale
lembrar, o distanciamento da cena política generalizava-se por toda a sociedade,
refletindo a experiência do autoritarismo e de um sistema de representação limitado.
Com a abertura política, paralelo ao empenho das forças situacionistas em
normalizar institucionalmente o regime, fluía ao lado do sistema de Partidos o
processo de articulação de variados segmentos e forças de oposição. Neste processo
de articulação, o novo sindicalismo constituiu-se em um recipiente capaz de
englobar boa parte das forças ainda não introduzidas na arena política.61
A unificação se deu principalmente por dois elementos:
a) A criação de uma pauta de reivindicações unificada, não só restrita aos setores
industriais, mas comum a toda classe trabalhadora, como salário mínimo nacional único,
garantias de estabilidade no emprego, fim do arrocho salarial, liberdades organizativas. Essa
pauta conferiu identidade entre os trabalhadores.
b) A luta pela cidadania. A luta por mais democracia unificou distintos setores, sejam
os operários ou os movimentos de bairro, os intelectuais ou as igrejas, e neste caldo entrariam
também os trotskistas, articulados em torno de um movimento pela criação do PT e pela
democracia no país. 62
1.5 SURGE A PROPOSTA DO PT
Com o início da distensão e as discussões em torno do fim do bipartidarismo se
espalharam por todo o Brasil diversas propostas sobre a criação de um novo Partido de
esquerda. O foco das propostas de esquerda era, evidentemente, o MDB, o Partido que
aglutinava toda a oposição à ditadura.
No Rio Grande do Sul, a partir da juventude do MDB, surgiria a Tendência Socialista,
grupo criado com a intenção de fundar um Partido articulando operários, estudantes e
intelectuais. A corrente de vinculação trotskista, Convergência Socialista (CS), que atuava
dentro do MDB, propugnava a criação de um Partido socialista e trabalhista e, por fim, havia
a proposta do Partido Popular Democrático e Socialista (PPDS), lançada por intelectuais do
61
62
IDEM, ibidem, 1989. p. 53-54
IDEM, ibidem. p. 54.
38
MDB.63 A proposta do PPDS era a criação de um Partido cujos eixos programáticos se
assemelhariam ao antigo Partido Socialista Brasileiro (PSB), defensor de um socialismo
democrático, crítico das experiências socialistas vistas como burocráticas (stalinismo,
maoísmo etc.) e visando aproximação com movimentos sindicais e sociais em geral. Porém, a
proposta que ganharia maior fôlego dentre todas as aventadas era a da criação de um Partido
dos Trabalhadores.
Muitos atribuem aos "autênticos", grupo de sindicalistas liderado por Lula, a primazia
na criação do Partido dos Trabalhadores. Este grupo começaria a ser formado no sindicato
dos metalúrgicos de São Bernardo ainda na gestão de Paulo Vidal64, através da articulação
com técnicos do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos
(Dieese) por meio de debates e reuniões, mas se consolidaria realmente a partir do
relacionamento estabelecido entre os dirigentes sindicais ao longo dos anos que antecederam
as greves de 1978 e 1979. Eurelino Coelho destaca o diálogo que começou a se estabelecer
entre Lula e Olívio Dutra - dirigente do sindicato dos Bancários do Rio Grande do Sul - como
um primeiro momento importante na construção desta relação, esta articulação se daria em
base ao contexto já mencionado da luta por reposição salarial à luz das fraudes constatadas
nos índices do governo.65 Outro grande momento apontado por vários pesquisadores fora a
atuação preparatória para o Congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores na
Indústria (CNTI). Diversos sindicalistas a partir destes encontros e reuniões trocaram
experiências sobre as greves, impressões sobre a situação política e propostas de resoluções
para o próximo período.
É evidente nesse processo a figura de Lula como liderança política vinda das greves do
final dos anos 1970 para a linha de frente da criação do Partido dos Trabalhadores. Sua
postura durante todo este período foi a de mediador político,66 colocando-se entre os distintos
interesses dentro do PT e demarcando uma separação clara entre as pequenas organizações de
esquerda revolucionária, com o tempo, aglutinaria de forma mais orgânica em torno de si um
63
ANGELO, Vitor Amorim de. A trajetória da Democracia Socialista: da Fundação ao PT. São Carlos:
EDUFSCar,2008. p. 28
64
A gestão de Paulo Vidal antecedeu a primeira gestão de Lula à frente do sindicato.
65
COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital: o transformismo dos grupos dirigentes do PT (1979-1998).
São Paulo: Xamã,2012. p.57.
66
MARTINHO, Francisco. Carlos Palomanes. "A armadilha do novo: Luís Inácio Lula da Silva e uma esquerda que
se imaginou diferente." IN: Revolução e democracia (1964...) Ferreira, Jorge & Reis, Daniel Aarão. Rio de
Janeiro, Civilização Brasileira. 2007. p.550
39
grupo político mais coeso que, formado o PT, mais à frente, irá formar a tendência política
que hegemonizará o PT, a "articulação dos 113".
Se é correto que o Sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e os sindicalistas que
viriam a se agrupar sob o rótulo de "autênticos" cumpriram importante papel na elaboração do
projeto de um Partido dos Trabalhadores, seria simplório colocá-los como únicos
responsáveis pela criação do Partido. É preciso levar em conta a confluência de diversos
segmentos urbanos em luta contra a ditadura, principalmente as organizações clandestinas de
esquerda que recusavam-se a se agrupar sob a égide do MDB.
Prova inconteste desta confluência de interesses em direção à criação de um Partido
dos Trabalhadores no país se daria no Congresso de Lins, importante evento do movimento
operário, em 1979. Seria neste congresso que a proposta de criação do PT surgiria de maneira
mais firme pela primeira vez. O Congresso de Lins seria um congresso da categoria dos
metalúrgicos de São Paulo, mas apontando os rumos para a luta no país a partir da
organização dos empresários e reparação da surpresa sentida em 1978. Percebendo o
endurecimento dos empresários os metalúrgicos se organizam em Lins para discutir os rumos
do movimento operário, unificando todos os sindicatos da região, seja os ligados ao novo
sindicalismo de Lula ou aos chamados "pelegos". Estes provocaram desconfiança dos setores
oriundos das oposições sindicais, trotskistas e pequenos agrupamentos marxistas. Em que
pese que a primeira elaboração no encontro a respeito do PT tenha sido a moção lida por José
Maria de Almeida67 e aprovada pelo congresso, elaborada pelo sindicato dos Metalúrgicos de
Santo André. A moção seria no congresso defendida por Lula e contaria com o enfrentamento
dos sindicalistas ligados ao PCB, mas a adesão à proposta seria muito grande, e esta
terminaria por fim aprovada. Cabe notar que a tese avançava para além de reivindicações
democráticas envolvendo as liberdades sindicais, destacando também a composição social do
novo Partido, que se comprometia a ter funcionamento democrático e não agrupar nenhuma
67
José Maria de Almeida era metalúrgico em Santo André. Viria a fazer parte da corrente conhecida como
Convergência Socialista, que mais tarde daria origem ao PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado),
organização na qual sairia candidato a presidente nas eleições de 1994, 1998, 2002, 2010 e 2014. Para mais
informações ver Karepovs, Dainis e LEAL, Murilo. Os Trotskismos no Brasil: 1966-2000. IN: História do
Marxismo no Brasil. v.6. Ver também FARIA, Marcos Moutta de. A experiência do movimento Convergência
Socialista. Campinas: cadernos AEL, n° 12. Trotskismo. 2005
40
fração da burguesia.68 Vemos aí que longe de representar exclusivamente uma iniciativa dos
"autênticos", a proposta era formulada por distintas vozes.
A proposta porém não era um consenso para a oposição ao regime militar. Muito pelo
contrário, era uma verdadeira cisão em relação aos interesses de parte do movimento,
especialmente aquele ainda ligado ao MDB, que defendia um Partido amplo, de setores da
sociedade civil descontentes com o regime mas abarcando também empresários. A
independência de classe, norte político muito presente nos discursos dos sindicalistas pró-PT
afastou os emedebistas e consolidou os defensores das teses pró-PT em um movimento mais
claro.
A tese de Santo André- Lins começava com uma declaração crítica ao capitalismo e
prosseguia apontando o Partido político como a ferramenta política de organização dos
trabalhadores. Além disso, criticava o regime militar e também o MDB, tido como um Partido
heterogêneo demais e, portanto, incapaz de representar satisfatoriamente o proletariado
brasileiro nos embates com o regime. A declaração terminava apontando os pontos que
norteariam a criação do novo Partido:
1) total desvinculação dos órgãos sindicais do aparelho estatal, ponto fundamental
para o desenvolvimento da vida sindical;
2) democratização dos sindicatos; que os órgãos sindicais se pautem, em seu
funcionamento, pela democracia operária que a todos assegura o direito de, em
igualdade, participar das lutas e das decisões;
3) que se lance um manifesto, por este congresso, chamando todos os trabalhadores
brasileiros a se unificarem na construção de seu Partido, o Partido dos
Trabalhadores;
4) que este Partido seja de todos os trabalhadores da cidade e do campo, sem
patrões, um Partido que seja regido por uma democracia interna, respeite a
democracia operária, pois só com um amplo debate sobre todas as questões, com
todos os militantes, é que se chegará à conclusão do que fazer e como fazer. Não um
Partido eleitoreiro, que simplesmente eleja representantes na Assembléia, Câmara e
Senado, mas que, além disso e principalmente, seja um Partido que funcione do
primeiro ao último dia do ano, todos os anos, que organize e mobilize todos os
trabalhadores na luta por suas reivindicações e pela construção de uma sociedade
justa, sem explorados e exploradores;
5) que seja eleita neste congresso uma comissão e junto com todos os outros setores
que, embora ausentes, também estão interessados na construção desse Partido,
amplie os contatos e comece a encaminhar essa luta nacionalmente em discussões
com as bases, iniciadas desde já; que essa comissão fique encarregada da redação de
68
FARIA, Marcos Moutta de. A experiência do movimento Convergência Socialista. Campinas: cadernos AEL, n°
12. Trotskismo. 2005.
41
um manifesto aos trabalhadores brasileiros, chamando à construção do Partido dos
Trabalhadores, proposto no terceiro ponto.69
Enfim, no ato do primeiro de maio de 1979 foi lançada a carta de princípios do PT,
escrita um mês antes e publicada na gráfica do jornal da organização trotskista Convergência
Socialista, o que desagradou a muitos pelo formato ser o mesmo do jornal da organização.70
Muitos dos autênticos achavam que a proposta poderia favorecer a ditadura, mesmo Lula no
momento chegou a expressar dúvidas sobre o grau de solidariedade depositado às greves no
ABC. Após idas e vindas como o congresso em Contagem (MG) que não contou com o apoio
de Lula, foi lançado, no dia 13 de outubro de 1979, no restaurante São Judas Tadeu em São
Bernardo do Campo, o Movimento pró-PT, com a aprovação da Carta de Princípios e a
criação de uma comissão nacional provisória.71
A carta não poupa críticas ao regime militar e também ao modelo econômico
implementado. Sequer o MDB é poupado. A carta de princípios acirraria os ânimos dentro da
reorganização política que vivia o país:
O MDB, por sua origem, por sua ineficácia histórica, pelo caráter de sua direção, por
seu programa pró-capitalista, mas sobretudo por sua composição social
essencialmente contraditória, em que se congregam industriais e operários,
fazendeiros e peões, comerciantes e comerciários, enfim, classes sociais cujos
interesses são incompatíveis e nas quais, logicamente, prevalecem em toda a linha
os interesses dos patrões, jamais poderá ser reformado. A proposta que levantam
algumas lideranças populares de “tomar de assalto” o MDB é muito mais que
insensata: é fruto de uma velha e trágica ilusão quanto ao caráter democrático de
setores de nossas classes dominantes. Aglomerado de composição altamente
heterogênea e sob controle e direção de elites liberais conservadoras, o MDB tem-se
revelado, num passado recente, um conduto impróprio para expressão dos reais
interesses das massas exploradas brasileiras.72
A Carta de Princípios, ao invés de por panos quentes em toda a denúncia de
"divisionismo", que era feita por parte daqueles que construíam o MDB, vinha colocar ainda
mais lenha na fogueira da disputa política e reagia, não só às críticas de divisionismo como
também apontava, de forma agressiva, o que era na opinião dos dirigentes do Movimento PróPT os limites do MDB.
69
http://www.fpabramo.org.br/sites/default/files/atesedesantoandre-lins_0.pdf. Acessado às 18:33 do dia
26/03/2015
70
SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Editora Ateliê, 2011.p.41.
71
SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Editora Ateliê, 2011. p. 42-43.
72
https://www.pt.org.br/wp-content/uploads/2014/03/cartadeprincipios.pdf. Acessado às 18:52 do dia
26/03/2015
42
Os intelectuais e dirigentes do MDB reagiriam acusando a carta de princípios de
propor um movimento muito restrito e radical. Residiria principalmente na crítica ao chamado
classismo o foco de ataque do MDB. Ao contrário de representar qualquer tipo de recuo, o
classismo era erguido como um mote por todo o movimento Pró Partido dos Trabalhadores.
É importante nesse momento atentarmos para o fato de que já aqui opera-se um
discurso que funcionaria como um mito político na constituição da identidade do Partido dos
Trabalhadores, um "mito de origem". O PT não foi a consequência retilínea das vontades de
um grupo de sindicalistas ligados à Lula, que depois viria a hegemonizar a política do Partido.
Na verdade, "O PT tal como ele se configurou não estava dado a priori. Foi, sim, a
consequência dos embates que se travaram entre as forças que se envolveram". 73 Esta luta
aconteceu entre vários grupos políticos e segmento sociais, alguns deles não necessariamente
oriundos da classe operária.
Era então cada vez mais concreto o surgimento de uma nova organização política
capaz de dar voz àqueles inconformados com a ditadura. Atravessada por polêmicas dentro do
próprio movimento sindical e por organizações políticas de esquerda como o PCB e o PCdoB,
que enxergavam na construção do MDB a melhor ferramenta para enfrentar a ditadura, o PT
se fortalecia ao passo que a distensão da ditadura progredia. Seria o PT a ferramenta capaz de
articular os trabalhadores, funcionários públicos, intelectuais, movimentos de bairro e todos
aqueles que lutavam por uma democracia no país.
A identidade política do Partido iria aos poucos se moldando em seus congressos e
encontros nacionais. Em setembro de 1981 ocorreria a primeira Convenção Nacional do PT,
onde foram debatidos temas como a concepção de socialismo do partido, o que ele intentava
como organização e seu funcionamento interno. Mais tarde, em maio, foi aprovado o
programa do PT.74
73
COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital: o transformismo dos grupos dirigentes do PT (1979-1998).
São Paulo: Xamã, 2012. P.53
74
cf; IDEM, P.67
43
2 CAPÍTULO 2 - OS PRIMEIROS PASSOS DO PT EM ALAGOAS
Nosso intento no presente capítulo é observar quais foram os grupos sociais
constitutivos do Partido dos Trabalhadores em Alagoas. Partimos da ideia de que o Partido
dos Trabalhadores forjou-se conduzido por sindicalistas e militantes do movimento dos
trabalhadores, mas também por estudantes, figuras religiosas ligadas à Igreja Católica e à
teologia da libertação, ex-guerrilheiros, movimentos pela anistia etc. Nessa constelação de
interesses políticos, movimentos e organizações, pretendemos enxergar quais são as forças
políticas que estiveram à frente da fundação do partido em Alagoas. Depois, que
agrupamentos cumpriram um papel secundário nestes primeiros anos de organização do PT
no Estado.
2.1 A PROBLEMÁTICA DAS FONTES ORAIS.
As fontes que utilizaremos neste e nos próximos capítulos são entrevistas realizadas
com membros do PT à época de sua fundação. Selecionamos quatro, dentre os membros que
exerceram ativismo nestes anos iniciais, que vão de 1979-1989.
Não enxergamos nas fontes orais uma fonte necessariamente superior às fontes
escritas, como forma de investigação histórica. Sabemos do risco que corremos em um
momento soterrado por o que alguns chamam de presentificação75 do tempo histórico, do
vício memorialístico e do que Beatriz Sarlo chama de "guinada subjetiva"76. Enxergamos
nesses relatos orais apenas arquivos, "no sentido comum do termo, isto é, o documento
conservado e depois exumado para fins de comprovação, para estabelecer a materialidade de
um 'fato histórico' ou de uma ação, não passa de um elemento de informação entre outros". 77
Escolhemos estas fontes pelo entendimento de que sobre ela podemos fazer determinadas
questões históricas e compreender o objeto que selecionamos em nome da pesquisa.
Pretendemos evitar o fetichismo da testemunha, da memória e do relato oral como fonte
75
O momento atual é um momento de "vício no presente". É preciso estar atento a essa relação temporal
fetichizada. Para Hartog, o século XX: "...é também o século que, sobretudo no seu último terço, deu extensão
maior à categoria do presente: um presente massivo, invasor, onipresente, que não tem outro horizonte além dele
mesmo, fabricando cotidianamente o passado e o futuro do qual ele tem necessidade. Um presente já passado
antes de ter completamente chegado. Mas, desde o fim dos anos 1960, este presente se descobriu inquieto, em
busca de raízes, obcecado com a memória. À confiança no progresso se substituiu a preocupação de guardar e
preservar: preservar o quê e quem? Este mundo, o nosso, as gerações futuras, nós mesmos." HARTOG, Francois.
Tempo e patrimônio. p. 10-11. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/vh/v22n36/v22n36a02.pdf>
76
Para uma discussão sobre guinada subjetiva ver: SARLO, Beatriz. Tempo-Passado: Cultura da memória e
Guinada Subjetiva. São Paulo: Companhia das letras; Belo Horizonte: UFMG. 2007.
77
ROUSSO, Henry. O Arquivo. p.4
44
privilegiada, portanto. Não achamos que a memória por si só explique o passado, nem que
história e memória possam ser consideradas termos sinônimos. Concordamos com Meneses
quando diz que "somente a História e a consciência histórica podem introduzir a necessária
descontinuidade entre passado e presente: História, com efeito, é a ciência da diferença". Sem
problematização, sem questionamentos, a mera reprodução destes relatos no trabalho poderia
funcionar como simples repetição pálida do presente. Nos interessa, na verdade, ler os
arquivos:
Escrito, oral ou filmado, o arquivo é sempre o produto de uma linguagem própria,
que emana de indivíduos singulares ainda que possa exprimir o ponto de vista de um
coletivo (administração, empresa, partido político etc.). Ora, é claro que essa língua
e essa escrita devem ser decodificadas e analisadas. Mas, mais que de uma simples
"crítica interna", para retomar o vocabulário ortodoxo, trata-se aí de uma forma
particular de sensibilidade à alteridade, de "um errar através das palavras alheias",
para retomar a feliz expressão de Arlene Farge. É esse encontro entre duas
subjetividades o que importa, mais que o terreno sobre o qual ele se dá ou o tipo de
rastro que o torna possível através do tempo.78
Neste capítulo, nos perguntamos ao analisar estas fontes qual a composição social do
PT em seus primórdios, que grupos sociais se engajaram em sua construção nos primeiros
anos.
Utilizamos também entrevistas realizadas com Geraldo de Majella, dirigente do PCB
na época estudada.
Como uma forma de cotejar os depoimentos e agregar elementos e pontos de vista ao
estudo do período também utilizamos como fonte jornais da época, a saber, os jornais: Jornal
de Alagoas, Gazeta de Alagoas e Jornal de Hoje. Percorrendo os caminhos da imprensa do
período analisamos também um olhar sobre o período da reabertura e os conflitos políticos da
época.
2.2 O PESO DO PRESENTE NA MEMÓRIA.
Cabe aqui uma última reflexão antes de entrarmos propriamente na análise dos relatos
colhidos. Se não podemos confiar inteiramente nos nossos entrevistados, tampouco podemos
ignorar o fato de que eles contam aquilo que escolheram contar. Esta escolha não é
necessariamente um movimento plenamente consciente, mas também um movimento em que
a fala pontua as preocupações que o entrevistado vive no momento em que responde as
questões da pesquisa. Conforme Pollak:
78
IDEM, ibidem.
45
A memória é seletiva. Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado. A memória
é, em parte, herdada, não se refere apenas à vida física da pessoa. A memória
também sofre flutuações que são função do momento em que ela é articulada, em
que ela está sendo expressa. As preocupações do momento constituem um elemento
de estruturação da memória. Isso é verdade também em relação à memória coletiva,
ainda que esta seja bem mais organizada.79
Nesse sentido, ainda que determinados acontecimentos80 estruturem a narrativa, é
impossível crer em uma narrativa pura, estruturada de maneira objetiva. Toda narrativa é
contaminada pelo momento presente, pelas preocupações que o entrevistado enfrenta no
presente e tenta a elas dar resposta:
Esse último elemento da memória - a sua organização em função das preocupações
pessoais e políticas do momento mostra que a memória é um fenômeno construído.
Quando falo em construção, em nível individual, quero dizer que os modos de
construção podem tanto ser conscientes como inconscientes. O que a memória
individual grava, recalca, exclui, relembra, é evidentemente o resultado de um
verdadeiro trabalho de organização.81
No caso específico de nossa pesquisa, destacamos que o momento em que as
entrevistas foram realizadas é, sem sombra de dúvidas, de radical importância para a história
do PT e do país, visto que este representa -- ao menos até o momento em que escrevemos -- o
fim da primeira longa experiência do Partido dos Trabalhadores à frente do poder executivo
federal. As entrevistas foram realizadas no calor das mobilizações inflamadas por grupos de
oposição à direita do Governo Federal, nos meses de março e abril de 2016, semanas antes da
votação do Impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Evidente que o calor das
79
Disponível
em:
<http://www.pgedf.ufpr.br/downloads/Artigos%20PS%20Mest%202014/Andre%20Capraro/memoria_e_identid
ade_social.pdf>.
80
"Quais são, portanto, os elementos constitutivos da memória, individual ou coletiva? Em primeiro lugar, são
os acontecimentos vividos pessoalmente. Em segundo lugar, são os acontecimentos que eu chamaria de
"vividos por tabela", ou seja, acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente
pertencer. São acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou mas que, no imaginário, tomaram
tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não. Se
formos mais longe, a esses acontecimentos vividos por tabela vêm se juntar todos os eventos que não se
situam dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo. É perfeitamente possível que, por meio da
socialização política, ou da socialização histórica, ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com
determinado passado, tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada." (IDEM)
81
IDEM.
46
mobilizações e o temor, confirmado, da queda do Governo alimentaram os relatos e a
reconstituição da memória de todos os entrevistados. Concordamos com Sarlo:
Propor-se não lembrar é como se propor não perceber um cheiro, porque a
lembrança, assim como o cheiro, acomete até mesmo quando não é convocada.
Vinda não se sabe de onde, a memória não permite ser deslocada; pelo contrário,
obriga a uma perseguição, pois nunca está completa. A lembrança insiste porque de
certo modo é soberana e incontrolável (em todos os sentidos dessa palavra).
Poderíamos dizer que o passado se faz presente. E a lembrança precisa do passado
porque, como assinalou Deleuze a respeito de Bergson, o tempo próprio da
lembrança é o presente; isto é, o único tempo apropriado para lembrar e, também, o
tempo do qual a lembrança se apodera, tornando-o próprio.82
Desse modo, à medida que todos os entrevistados vivenciam novos momentos
políticos, aqueles pelos quais passaram vêm novamente à tona. O ódio ao governo petista,
quando irrompe nas ruas, coloca-os novamente na reflexão daquele projeto político que
iniciaram no passado. Essa dialética entre os tempos reflete nas respostas dadas nas
entrevistas.
As "visões de passado" (segundo a fórmula de Benveniste) são construções.
Justamente porque o tempo do passado não pode ser eliminado, e é um perseguidor
que escraviza ou liberta, sua irrupção no presente é compreensível na medida em
que seja organizado por procedimentos da narrativa e, através deles, por uma
ideologia que evidencie um continuum significativo e interpretável do tempo. Falase do passado sem suspender o presente e, muitas vezes, implicando também o
futuro. Lembra-se, narra-se ou se remete ao passado por um tipo de relato, de
personagens, de relação entre suas ações voluntárias e involuntárias, abertas e
secretas, definidas por objetivos ou inconscientes; os personagens articulam grupos
que podem se apresentar como mais ou menos favoráveis à independência de fatores
externos a seu domínio. Essas modalidades do discurso implicam uma concepção do
social e, eventualmente, também da natureza. Introduzem um tom dominante nas
"visões de passado."83
"Fala-se do passado sem suspender o presente." Os amores, os personagens, os
interesses do presente estão todos ali, nas entrelinhas do discurso. É difícil, praticamente
impossível, que a fala dos entrevistados sobre momentos políticos do passado não esteja
imbuída de suas preocupações e questionamentos contemporâneos, suas agruras e dilemas
atuais. Também porque a cultura política permanece, ela se metamorfoseia mas muitas vezes
segue existindo na consciência, mantendo vivas determinadas práticas e representações.
82
83
SARLO, p. 10.
IDEM, p. 12
47
Paul Ricoeur se pergunta, no estudo que dedica às diferenças já clássicas entre
história e discurso, em que presente se narra, em que presente se rememora e qual é
o passado que se recupera. O presente da enunciação é o "tempo de base do
discurso", porque é presente o momento de se começar a narrar e esse momento fica
inscrito na narração. Isso implica o narrador em sua história e a inscreve numa
retórica da persuasão (o discurso pertence ao modo persuasivo, diz Ricoeur). Os
relatos testemunhais são "discursos" nesse sentido, porquê tem como condição um
narrador implicado nos fatos, que não persegue uma verdade externa no momento
em que ela é enunciada. É inevitável a marca do presente no ato de narrar o passado,
justamente porque, no discurso, o presente tem uma hegemonia reconhecida como
inevitável e os tempos verbais do passado não ficam livres de uma "experiência
fenomenológica" do tempo presente da enunciação. "O presente dirige o passado
assim como um maestro, seus músicos", escreveu Italo Svevo. E, como observa
Hallbwachs, o passado se distorce para introduzir-se coerência.84
Assim sendo, não nos cabe aqui nesse trabalho buscar um "grau zero" da pureza
discursiva, um discurso livre de qualquer contaminação pelas paixões do presente. Ao
contrário, o nosso compromisso é o de detectar essas paixões e motivações nos discursos, bem
como as distorções que podem se introduzir para dotar de coerência argumentativa o que é,
também, defesa de determinadas visões e posicionamentos. Porém, ainda seguindo as palavras
de Beatriz Sarlo, é preciso estarmos atentos aos pecados do anacronismo:
A disciplina histórica também é perseguida pelo anacronismo, e um de seus
problemas é justamente reconhecê-lo e traçar seus limites. Todo ato de discorrer
sobre o passado tem uma dimensão anacrônica; quando Benjamin se inclina por uma
história que liberte o passado de sua reificação, redimindo-o num ato presente de
memória, no impulso messiânico pelo qual o presente se responsabilizaria por uma
dívida de sofrimento com o passado, ou seja, no momento em que a história pensa
em construir uma paisagem do passado diferente da que percorre, com espanto, o
anjo de Klee, ele está indicando não só que o presente opera sobre a construção do
passado, mas que também é seu dever fazê-lo.
O anacronismo benjaminiano tem, por um lado, uma dimensão ética e, por
outro, faz parte da polêmica contra o fetichismo documental da história científica do
começo do século XX. No entanto, a crítica da qualidade objetiva atribuída à
reconstituição dos fatos não esgota o problema da dupla inscrição temporal da
história. A indicação de Benjamin também poderia ser lida como uma lição para
historiadores: olhar para o passado com os olhos de quem o viveu, para poder ali
captar o sofrimento e as ruínas. A exortação seria, nesse caso, metodológica e, em
vez de fortalecer o anacronismo, seria um instrumento para dissolvê-lo. 85
Com plena consciência dessa temporalidade cindida entre passado e presente do
discurso dos entrevistados, prevenimo-nos dos anacronismos e construímos aqui uma
84
85
IDEM, p. 49.
IDEM, p. 58.
48
narrativa capaz de fazer justiça a essas vozes e ecoar aquilo que está subjacente a elas.
Verificaremos as repetições, os elementos irredutíveis, aquilo que está presente nas memórias
individuais e que constitui essas memórias coletivas. Seguindo Pollack, acreditamos que:
É como se, numa história de vida individual - mas isso acontece igualmente em
memórias construídas coletivamente houvesse elementos irredutíveis, em que o
trabalho de solidificação da memória foi tão importante que impossibilitou a
ocorrência de mudanças. Em certo sentido, determinado número de elementos
tornam-se realidade, passam a fazer parte da própria essência da pessoa, muito
embora outros tantos acontecimentos e fatos possam se modificarem função dos
interlocutores, ou em função do movimento da fala. 86
Trabalhamos com a memória individual de quatro ativistas à frente da construção do
PT no período histórico estudado:
- Adelmo dos Santos. Adelmo foi presidente do sindicato dos radialistas. Esteve presente
desde o começo na fundação do Partido e cronologicamente, dentre os entrevistados, foi o
primeiro a se aproximar do grupo pró-fundação do PT. Até hoje pertence ao Partido dos
Trabalhadores e à corrente hegemônica, outrora Articulação, agora conhecida como
Construindo um Novo Brasil (CNB). Trabalha no gabinete do Deputado Paulão (PT), sendo
até hoje um militante político reconhecido.
- Alice Anabuki. Iniciou seu ativismo no movimento estudantil, em torno da Revista Em
Tempo, animada pela corrente trotskista "Democracia Socialista" (DS). Os outros
entrevistados se referem ao seu período de militância em Alagoas como sendo próximo à
corrente trotskista "O Trabalho". Afastou-se do PT local para concluir Mestrado e Doutorado
em São Paulo. Não faz mais parte do Partido e atualmente é professora de Sociologia na
Universidade Federal de Alagoas. Durante o período estudado era funcionária pública do
Estado.
- Tutmés Airam. Aproximou-se do PT via movimento estudantil, sendo estudante de Direito
da Universidade Federal de Alagoas. Foi da corrente Democracia Socialista (DS) e durante
algum tempo, como o mesmo atesta em seu depoimento, presidente do Diretório Municipal
do PT em Maceió. Atualmente cumpre a função de desembargador e, portanto, não possui
mais vínculos orgânicos com o PT. No entanto, é comum intervir publicamente com posições
86
Pollack. Identidade e memória social. p.2
49
políticas eventualmente próximas ao Partido dos Trabalhadores87, o que sugere que ainda
conserva simpatia pela agremiação.
- Ricardo Coelho. Aproximou-se do PT também a partir do movimento estudantil. Atualmente
é professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas. É
militante do PT até hoje.88
- Geraldo de Majella. Foi dirigente do PCB durante o período que compreende os anos de
1979 até o começo dos anos 1990. Sendo figura política presente na construção das esquerdas
durante o ocaso da Ditadura e no período posterior, utilizamos seu relato como forma de
registrar um olhar sobre o PT de fora desta organização.
2.3 BREVE CONTEXTO SOCIAL DO OCASO DA DITADURA EM ALAGOAS
O PT surgirá em Alagoas no período de ocaso da Ditadura Militar, simultaneamente
ao desenvolvimento do projeto político do Partido dos Trabalhadores em nível nacional.
Antes de passarmos a analisar os primeiros anos do Partido em Alagoas, cabe assinalar os
efeitos do regime militar no Estado, qual era o cenário político quando o Partido começa a se
constituir.
Em primeiro lugar, observa-se que em Alagoas o projeto militar de solapar as
esquerdas foi plenamente bem-sucedido. Durante trinta anos as figuras a assumir o poder
político no Estado virão, em franca maioria, da União Democrática Nacional (UDN), Partido
de caráter conservador, portanto facilmente alinhado ideologicamente ao projeto político dos
militares.89 O cenário para a esquerda, durante a maior parte desses trinta anos, foi desolador:
A ditadura militar em Alagoas representou, até pelas características do nosso
pequeno Estado, um esmagamento quase completo da ciclo da esquerda pré-64. A
desarticulação dos movimentos sociais foi profunda. Os quadros políticos da
esquerda quase todos presos, neutralizados, exilados, voluntariamente ou não. O
movimento sindical e social inteiramente desorganizado, reprimido. 90
87
Como exemplo, conferir o artigo escrito no calor da votação na câmara dos deputados a respeito do
Impeachment da presidenta Dilma Rousseff: http://www.conjur.com.br/2016-mar-24/tutmes-airan-stf-possadar-juizo-aos-nossos-juizes. Acessado às 12:45 do dia 22/07/2016.
88
Cf.
89
Cf. ALMEIDA, Leda Maria de. Rupturas e Permanências em Alagoas: O 17 de Julho de 1997 em questão. P. 66.
90
Cf. MIRANDA apud ALMEIDA.
50
Sob a égide do milagre econômico, um crescimento calcado em empresas
multinacionais, o prestígio da ditadura não encontrará rivais dentro do território alagoano
durante quase três décadas. A economia da cana-de-açúcar, uma das principais do Estado, não
vislumbrará sinais de crise no período91, conferindo segurança econômica para que a ditadura
nomeie seus representantes políticos locais sem maiores dificuldades.
Figura de destaque nesse período é a de Divaldo Suruagy. Oriundo -- como ele próprio
gosta de frisar -- de classes populares, Suruagy iniciará sua carreira política pouco antes do
golpe de 1964. Alinhado à UDN, aos poucos galgará posições de importância no cenário
local, sendo Prefeito de Maceió e líder da bancada Estadual do Governo. Como Deputado,
Suruagy exercerá dois mandatos de governador nos anos 1970. Consolidará então a figura de
grande administrador e captador de recursos.92 Segundo Almeida, seu governo garantiu o
apoio popular através de duas medidas, "era um governo que pagava em dia os funcionários e
dava emprego à população."93
No seu primeiro mandato, Suruagy (1975-1979) destinou a maior parte de seus
investimentos para a dimensão econômica, segmento industrial e infraestrutura econômica,
dentro do plano batizado de plano de ação imediata.94 Através deste plano foi implantado o
polo petroquímico do Estado de Alagoas, estradas vicinais, de expansão da energia elétrica e
da rede de telecomunicações. A dimensão social foi subalternizada, o que pesou
negativamente nas populações mais pobres. Seu mandato foi incapaz, portanto, de oferecer
uma saída estrutural para os problemas populares.
O governo Guilherme Palmeira (1979-1982) sucedeu o primeiro mandato de Divaldo
Suruagy (1979-1982) e manteve o foco na economia, em detrimento dos problemas sociais.
Na esteira do crescimento econômico nacional, o governo manteve o crescimento local:
Alagoas ainda estava vivendo o seu período mais próspero de crescimento
econômico. Os dois choques do petróleo ocorridos em 1973 e 1979 fizeram com que
a economia brasileira direcionasse sua atenção para o Programa Nacional do Álcool
(PROALCOOL), o que, de certa forma, veio beneficiar economicamente a
agroindústria açucareira alagoana. O efeito deste movimento foi que para ampliar a
91
Cf. . ALMEIDA, Leda Maria de. Rupturas e Permanências em Alagoas: O 17 de Julho de 1997 em questão. p. 67
Cf. . ALMEIDA, Leda Maria de. Rupturas e Permanências em Alagoas: O 17 de Julho de 1997 em questão. p.
70.
93
cf. IDEM. p. 71
94
Cf. CABRAL, Luís Antonio Palmeira. “Os ciclos de desenvolvimento em Alagoas”. IN: Desenvolvimento e
mercados no nordeste do Brasil. P. 82.
92
51
área plantada da cana de açúcar, foram devastadas grandes áreas de mata atlântica
do litoral alagoano, restando preservado menos de 2% da mata atlântica original. 95
Não tendo sido afetada de forma tão contundente quanto o resto do país pela crise
econômica internacional causada pelos choques do petróleo, Alagoas viveu anos de
prosperidade, baseada no desenvolvimento do polo petroquímico e na exportação de álcool.
Ainda assim, concentrando atenção quase insignificante aos problemas sociais do Estado. A
miséria, a pobreza e a fome seguiam afetando a maior parte da população.
O segundo governo de Divaldo Suruagy (1983-1987) se situou dentro do esgotamento
desse ciclo de desenvolvimento em Alagoas. Admitia-se que os níveis de emprego, saúde,
educação e habitação eram deficientes e havia uma enorme necessidade de intervenção social
no Estado.96 No cenário nacional, o milagre se esgotava e tornava-se incontornável o
problema da dívida fiscal. Aumentava a insatisfação popular devido ao que Leda Maria de
Almeida chamou de um "atrofiamento das políticas públicas.97
Os movimentos sociais e manifestações populares em Alagoas eram liderados pelo
MDB, que funcionava como um "guarda-chuva", abrigando tanto setores das classes médias e
altas da cidade quanto agremiações de esquerda. Em Alagoas, seus líderes eram "José Costa,
José Moura Rocha, Djalma Falcão, este herdeiro do espólio político de Muniz Falcão, e, a
essa altura, com o apoio do senador Teotônio Vilela, que migrará da situação para a frente de
oposição, sobretudo por divergências com a orientação que assumiria o Movimento Militar de
1974."98
Essa presença poderosa do MDB, ocupando a maior parte do espaço político à
esquerda, será um entrave para a construção do PT no Estado, ao mesmo tempo que elemento
de construção identitária do Partido, definindo-se a partir dos enfrentamentos com o MDB.
Ao mesmo tempo, este Partido vivia uma reorganização no período, com novas lideranças
emergindo e antigas lideranças modificando suas posições no espectro político:
(...) José Moura Rocha, um político considerado pelas classes dominantes alagoanas
como esquerda, abandonou a disputa pelo governo e ocupou o lugar de Teotônio.
José Costa, o mais brilhante deputado da bancada, abriu mão de uma reeleição
garantida e aceitou as incertezas do enfrentamento com Divaldo Suruagy, exgovernador, hábil negociador dos conflitos de chefes locais e gestor de imensos
95
Idem, p. 84.
Idem, p. 85.
97
ALMEIDA, Leda Maria de. Rupturas e Permanências em Alagoas: O 17 de Julho de 1997 em questão. p. 71.
98
idem. p. 73.
96
52
recursos que o Governo Federal lançou nas eleições em apoio aos seguidores. Costa
foi derrotado pelo voto-cabresto e pelo desespero da miséria, mas teve retumbante
vitória em Maceió, onde a opinião é mais livre e a fraude difícil. O seu sacrifício e
de Moura Rocha permitiram a sobrevivência do PMDB local, a constituição de uma
bancada majoritária na câmara dos vereadores da capital e a eleição de jovens
deputados estaduais progressistas, como a ex-presa política Selma Bandeira e o
antigo líder estudantil Ronaldo Lessa. 99
Introduzido este cenário, passemos agora a analisar os primeiros passos do PT em
Alagoas.
2.4 O PRIMEIRO CONTATO COM O PARTIDO DOS TRABALHADORES.
A forte presença dos ativistas que viriam a organizar o PT ajudou a espalhar a
influência do futuro Partido por todo o Brasil. Dois de nossos entrevistados contaram tomar
conhecimento do PT a partir de um ativismo externo. Ricardo Coelho e Tutmés Airan, ambos
militantes inicialmente vinculados ao movimento estudantil, narram que conheceram o PT
através da repercussão das mobilizações que aconteciam em outros Estados, e se vincularam
organicamente ao Partido após o contato com outros ativistas do movimento que já estavam
engajados na construção do Partido dos Trabalhadores. Ambos narram que o movimento
estudantil alagoano era hegemonizado pelo PCdoB, força que rivalizaria com o PT localmente
em diversos âmbitos pela disputa do espaço localizado à esquerda do espectro político.
Comparemos o depoimento de Ricardo Coelho e Tutmés Airan:
Eu ouvi falar depois da greve do ABC em 79, onde eu li algumas matérias de que
estava se criando o Partido. E eu fiquei interessado nessa criação desse Partido, mas
como não tinha nada aqui em Alagoas ainda assim muito organizado, e ainda havia
todo ainda um medo de repressão etc., eu até me aproximei um pouco mais do
PCdoB num primeiro momento quando eu entrei na Ufal em 79. Mas mesmo assim
fiquei acompanhando a questão do PT e quando eu soube que o PT ia se organizar
aqui em Alagoas eu tentei me aproximar, mas num primeiro momento não consegui.
O PT fez a primeira convenção aqui em 80, eu só fui me aproximar realmente do PT
em 1981 e... por iniciativa própria assim, de ter visto documento, de ter feito contato
com pessoas fora daqui, principalmente alguns colegas de Belo Horizonte que
estavam entrando no PT lá em Minas, eu terminei me aproximando, no começo de
81, principalmente via o movimento estudantil, onde foi que eu encontrei realmente
petistas, onde eu encontrei pessoas que estavam organizando o Partido aqui em
Alagoas foi exatamente no movimento estudantil. (Prof. Ricardo Coelho)
Movimento semelhante é narrado por Tutmés Airam:
99
ALVES apud ALMEIDA. p. 74.
53
É, é... na verdade, quando eu entrei na universidade havia uma força hegemônica,
muito forte, muito organizada, que era o PCdoB, não é? Então, quase que não...
quase que não havia espaço para alternativas, políticas, né?, políticas né? Mas o PT
naquela época ele tava surgindo, né? E era assim, alguma coisa meio, meio
encantadora, né?, com grandes ideias, com grandes lideranças,né?,uma composição
muito ampla de gente muito boa,né?, sindicalistas, estudantes, igreja, né? Então o
PT, o PT seduzia, né? E a gente no curso de Direito, a gente conseguiu fugir da área
de influência do PCdoB, né? Porque, isso é interessante de registrar, nós tínhamos
contato com pessoas do movimento estudantil de Recife, né? Mais especialmente
falando o nosso amigo Jeferson calassa, o famoso Jefinho, que foi dirigente
estudantil, né? Em razão desse contato com Jeferson, nós aí nos aproximamos muito
do PT, ahn.. e, bom, de uma hora pra outra nós passamos a militar dentro do PT,
né?, já na condição de filiados, né? E aí eu me lembro só era eu, o finado,
queridíssimo amigo Juca Sampaio,né? o Rafael Gazanael, que hoje é procurador do
trabalho, né?, enfim, uma turma muito boa, e que dentro dos limites da visão
estudantil deu uma contribuição razoável nos primeiros tempos, tempos enfim muito
difíceis, né? De... de... de ser PT, né? Muito difíceis. (Tutmés Airam)
Ambos entraram em contato com o PT através de contatos externos e ambos revelam
em sua fala o peso político que o PCdoB exercia no Estado, ao menos no movimento
estudantil. Assumindo que ambos partilharam uma realidade de movimento comum, o
movimento estudantil, não é difícil entender por que há essa convergência no discurso de
ambos. Na fala de Tutmés também há a menção à militantes políticos que estavam no
movimento estudantil no período e posteriormente ocuparam papel importante na sociedade
civil, como Juca Sampaio e Rafael Gazanael, atualmente procurador do trabalho.
Nossos outros entrevistados, vindos do movimento dos trabalhadores, ainda que
revelem uma aproximação diferenciada, também apresentam um discurso que corrobora com
a visão de que o PCdoB tinha hegemonia nos movimentos sociais e que a influência do PT
vinha a partir de grupos políticos externos e já sedimentados, de fora de Alagoas:
... estive acompanhando a fundação do Partido desde o início, na ocasião em 82 eu
ainda não era docente da Universidade Federal de Alagoas, eu trabalhava na
fundação instituto de planejamento de Alagoas e... desde o início a gente sempre
saudou, considerou como positivo o surgimento do PT, porque afinal ele se
propunha a ser um Partido classista, é... conseguiu mobilizar várias frações de
esquerda e era ao mesmo tempo também um contraponto para uma força expressiva
do PCdoB no Estado. Então... saldamos, nos empenhamos para a fundação do
Partido em Alagoas. Muito embora a ideia primeiramente tenha contado com o
apoio do Alan que veio do setor dos petroleiros. Nós apenas, é... somamos força,
apoiamos nesse sentido. Mas, desde o início, pelo caráter classista do Partido, né?
Pela independência do Partido em relação aos governos, ao aparelho de Estado, em
relação aos Partidos, né, oficiais? Na época se bem me lembro era... não sei se já era
o PMDB, acho que ainda era o MDB... tanto é que o Aerton Soares veio, né? Do, do
MDB... e o PDS que era o Partido do Maluf. Então... saldamos assim com muito
54
entusiasmo, até porque eu... nós, o pessoal que aglutinou em torno do PT, a gente
veio de uma militância no movimento estudantil de São Paulo... então pra gente foi
assim um revigoramento de um Partido de esquerda, não fundamentalmente
eleitoral, muito embora também não estivesse excluído, né, as participações nas
campanhas eleitorais, mas ele conseguiu aglutinar um pensamento com uma certa
tradição na esquerda. (Alice Anabuki)
Alice conta da sua proximidade com a militância também vinda do Movimento
Estudantil, demonstrando aí que também foi atingida pelo ressurgimento do movimento que
se dava nacionalmente. Mas o mais importante é que aí já começa a se delinear uma
construção da imagem petista em relação aos outros partidos, chamados por ela de "oficiais".
Alice se refere ao PT como uma força capaz de "aglutinar um pensamento com uma certa
tradição na esquerda". Aqui ela se refere a toda a militância que surgiu ao longo das décadas
posteriores à instauração do regime militar, crítica da diretriz política do PCB e do PCdoB,
crítica do trabalhismo, do nacionalismo e do stalinismo em perspectiva internacional. Dentro
dessa tradição estaria inscrito o trotskismo, por exemplo. Ela também é, dentre todos os
entrevistados, a única a empregar o termo "classista" para definir o partido do período, além
de ressaltar positivamente o caráter independente do Partido, em relação às demais forças
políticas e empresariais do país. Este discurso tem consonância com a tese do Congresso de
Santo André-Lins, já mencionada no capítulo anterior. Nota-se aqui a disputa pela memória
do PT dos primórdios, da "origem" classista e independente.
Eu... nesse período eu era simpatizante do agrupamento Em Tempo, né, nós
distribuíamos o jornal aqui em Alagoas, então esse era um canal, né? Era um canal,
e também... não me lembro... convocou-se uma reunião no escritório, acho que era
do Alan, no centro da cidade, foi a primeira ou a segunda reunião, e nós fizemos
presente. Foi aí que eu soube de que havia um agrupamento, um futuro núcleo do
PT, e foi feita essa convocatória ampla de quem se interessasse da proposta. Claro
que já se aventava em nível nacional o movimento pela criação pelo PT, então nós
integramos esse movimento. (Alice Anabuki)
Fica aí explicitada a relação que a militante em questão já carregava de uma militância
anterior à sua vivência em Alagoas, também vinda do movimento estudantil, e sua relação
com o jornal Em tempo, jornal, à época, animado por agrupamentos que mais à frente iriam
fundar a corrente trotskista conhecida como Democracia Socialista. Mas em seu depoimento
vemos aí já uma resposta a um chamado prévio vindo de militantes ligados ao movimento
operário, no caso específico, Alan Brandão, presidente do sindicato dos petroleiros. O jornal
Em tempo foi criado por dissidentes do periódico Movimento. Descontentes com os rumos
55
políticos adotados pelo Movimento, próximo das concepções do PCdoB, que via no momento
político como tática privilegiada a atuação dentro de uma frente democrática, essa dissidência
produziu um jornal de ideias aproximadas ao trotskismo, que vinha ganhando visibilidade no
período. A união de grupos políticos ligados ao Em tempo e ao jornal Centelha, grupos
estudantis de Minas Gerais, Porto Alegre e outras regiões, daria origem à Democracia
Socialista, tendência política ligada internacionalmente ao Secretariado Unificado da IV
Internacional (SU), que tinha como um de seus principais dirigentes o marxista Belga Ernest
Mandel.100 A DS seria, ao longo da história do PT uma das principais correntes trotskistas,
juntamente com a Convergência Socialista e a corrente O Trabalho, até abandonar suas raízes
ideológicas trotskistas nos anos 1990.
Acrescentando informações importantes a esta visão, passemos ao depoimento de
Geraldo de Majella. O ex-dirigente comunista afirma que no cenário alagoano se desenha um
PT muito diferente daquele da imagem do ABC paulista explodindo em greves operárias. É
que a repressão militar aos sindicatos em Alagoas foi implacável, e não havia muito
desenvolvimento de movimento operário e de sindicalismo de bases mais alicerçadas no setor
fabril. O que se tinha era, para Majella, uma forte organização com bases na classe média.
Dentro desse setor de classe média há a inequívoca referência ao movimento estudantil:
"... o que agregou muita força à militância petista daquele momento foram os
estudantes. Os estudantes a partir dos anos 1980, 1981, 1982 passou a ter uma
militância política interessante da juventude, sobretudo da juventude estudantil a
partir dos cursos da Universidade Federal de Alagoas e entre os cursos o curso de
Direito foi um curso que deu bastante militantes naquele momento para o PT. Então
esse PT que foi criado aqui em Alagoas ele é um PT completamente diferente do
que surge no ABC, do que surge até mesmo no Rio de Janeiro e em outros centros,
né?, porque esse era dada diante da realidade política que Alagoas se encontrava,
quase todos os sindicatos eles tinham sofrido a intervenção sindical por parte da
Delegacia Regional do Trabalho mas tinha alguns poucos sindicatos que tavam
retomando a direção." (Geraldo de Majella)
A militância na Universidade Federal de Alagoas seria, para todos estes atores
entrevistados, uma marca importante da constituição do PT em Maceió. Aí sim teríamos um
compasso maior entre a dinâmica local e a dinâmica nacional, no âmbito das articulações
100
Para mais informações ver: Angelo. A trajetória da Democracia Socialista. Sobre o Em Tempo, Além deste,
conferir também MACEDO, Michelle Reis de. Recusa do passado, disputa no presente: esquerdas
revolucionárias e a reconstrução do trabalhismo no contexto da redemocratização brasileira. Maceió: Edufal,
2014.
56
estudantis. Sabemos que a segunda metade da década de 1970 assistiu a uma explosão de
mobilizações estudantis importantes em todo o Brasil e um fortalecimento da esquerda
universitária, ligada a grupos de estudo, pequenas organizações políticas clandestinas voltadas
para combates democráticos e outros agrupamentos.101
Esse cenário estudantil era inclusive aberto à pluralidade e ao confronto entre
organizações. Geraldo conflui na avaliação da importância do PCdoB para este cenário,
marcado por uma forte disputa pela hegemonia no campo da esquerda, mas também com
pequenas organizações e agrupamentos correndo por fora, estes mais simpáticos à construção
do Partido dos Trabalhadores:
"O PCdoB ele tava com uma força grande na universidade então a
universidade passou a ser o seu pólo difusor e o mais importante para conseguir
ampliar sua militância. Na política o PT, acabamos fazendo por caminhos os mais
diversos, e esse grupo, só um detalhe, nesse grupo que organizava o PT mais
dinamicamente, com mais atividade, era um grupo de estudantes e de vários
agrupamentos trotskistas. Então as subdivisões dentro do PT sempre foi uma
característica da sua fundação." (Geraldo de Majella)
Passemos ao depoimento do sindicalista Adelmo dos Santos. Adelmo era dirigente do
sindicato dos radialistas, portanto, desde antes da fundação do PT, já ligado à luta sindical e
ao movimento que se desenrolava nacionalmente. Portanto, sua proximidade com a
construção do Partido dos Trabalhadores é inegavelmente maior do que a dos outros
entrevistados. Cronologicamente, Adelmo dos Santos será o primeiro a se aproximar do PT
dentre os entrevistados. Mais do que isso, pertencendo a Articulação102, participará desde o
início do PT até hoje do núcleo dirigente do Partido. Os compromissos oficiais que assume o
levam também, como veremos nos relatos que seguem, a assumir um discurso de maior
compromisso com a memória coletiva petista.
101
Um registro audiovisual importante dessa reorganização estudantil dos anos 1970 é o documentário "O
apito da panela de pressão". Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DuGZABQ0L5c. Acessado no
dia 04/10/2016.
102
O PT constituiu uma forma de organização inédita no Brasil até os anos 1980, a de tendências. O grupo que
ficou conhecido como Articulação foi montado por intelectuais e dirigentes sindicais, a maior parte deles
oriundas do grupo original do ABC e sindicalistas próximos a Lula desde os primórdios. A corrente Articulação
se instituiria como o grupo hegemônico dentro do PT desde sua fundação. Para uma análise da trajetória
histórica da Articulação Cf. COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital: o transformismo dos grupos
dirigentes do PT (1979-1998). São Paulo: Xamã,2012.
57
Em 1978 eu presidia o sindicato dos radialistas de Alagoas, e... à época, os
trabalhadores do Brasil começavam a reivindicar os seus direitos, quando nós
estávamos saindo de uma ditadura militar. E os metalúrgicos de São Bernardo do
Campo e Diadema, começaram então a colocar a... para todos, que era preciso que a
gente, é... buscasse, é... nossos direitos, que nós tivéssemos de verdade autonomia
sindical, que os trabalhadores pudessem de fato escolher o seu presidente, o seu
governador, o seu prefeito. Então nessa época, em 78, nós convidamos, eu na
qualidade de presidente do sindicato dos radialistas, convidamos o presidente do
sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, que era o presidente Luís
Inácio Lula da Silva. E ele veio fazer um debate aqui em Alagoas, que era na
Academia Alagoana de Letras, na praça Deodoro, e... tivemos muita dificuldade
para encontrar um lugar, um local para fazer esse debate, e conseguimos a Academia
Alagoana de Letras através de Dr. José Maria de Melo que era presidente naquele
ano, e a gente conseguiu levar um público expressivo para a academia, que ficou
pequena, que foi preciso colocar um carro de som na praça Deodoro. Depois saímos
prum jantar e numa conversa reservada o Lula disse que precisava a gente criar um
instrumento, uma ferramenta de luta da classe trabalhadora, e essa ferramenta era a
fundação do Partido. Foi a partir daí que eu comecei a entender que era preciso ter
esse Partido, e nós fundamos esse Partido que é o Partido dos Trabalhadores, o
maior Partido de esquerda da América Latina. (Adelmo dos Santos)
Destacamos aí a importância das greves do ABC como um exemplo de acontecimento
vivido por tabela, entendido como "[acontecimento vivido] pelo grupo ou pela coletividade à
qual a pessoa se sente pertencer"103. O depoente não viveu as greves do ABC, não fez parte de
sua construção, mas remete a ela em seu relato como forma de relacionar sua história à
história do Partido.
Adelmo dos Santos conta ainda da concorrência para prestigiar a fala de Luís Inácio
Lula da Silva. Destacamos aí também a operação da construção da memória coletiva, através
da presença de determinados personagens. Lula, como já assinalamos no capítulo anterior, era
já naquele momento a principal figura do Partido dos Trabalhadores. Até hoje, quando
registramos esses depoimentos, é ele a principal figura do Partido, depois de exercido dois
mandatos presidenciais, e parte da memória coletiva petista se constitui a partir de sua figura.
Pollack discorre que:
...a memória é constituída por pessoas, personagens. Aqui também podemos aplicar
o mesmo esquema, falar de personagens realmente encontradas no decorrer da vida,
de personagens freqüentadas por tabela, indiretamente, mas que, por assim dizer, se
transformaram quase que em conhecidas, e ainda de personagens que não
pertenceram necessariamente ao espaço-tempo da pessoa104
103
104
Michel Pollak. Memória e identidade social. p.2
IDEM.
58
Lula, pelo peso político que tem até hoje, aparecerá novamente na fala de todos os
outros entrevistados, comprovando o que afirmamos que sua imagem constitui em parte
fundamental da identidade do Partido dos Trabalhadores. O narrador ainda conta que saiu
para jantar com Lula, explicitando aí o que estaria, na sua memória individual, como um
vínculo pessoal, íntimo com esta personagem tão importante. Parte da construção de sua
legitimidade como liderança pode ser inferida a partir dessa relação íntima.
Vemos aí a iniciativa partindo diretamente do dirigente sindical, a articulação íntima e
direta com aquele que era, já na época, o principal dirigente do movimento pela criação do
Partido dos Trabalhadores. Interessante notar que o entrevistado ressalta a dificuldade em
arrumar local para realizar o encontro com o sindicalista, dificuldade que vai aparecer
também em outras partes do relato. Também registra-se o apelo que tinha a presença, à época,
do presidente do sindicato dos metalúrgicos, visto que há não só a lotação do auditório em
que foi realizado o debate como um carro de som montado para as pessoas que prestigiaram o
evento da praça Deodoro. Essa concorrência para a fala de Lula pode ser explicada por dois
fatores. Em primeiro lugar, temos o cenário da abertura política em desenvolvimento. É um
momento político de efervescência, de debates, síntese entre as correntes políticas, confrontos
ideológicos. Aliado a esse fator, em Alagoas há a concorrência também porque, dentro desse
cenário, vimos que a deterioração do milagre provoca no Estado o olhar para as injustiças
sociais, cada vez mais gritantes. Por fim, destacamos que a dificuldade em adquirir o local
pode ser reflexo da ainda existente repressão, as ainda vigentes restrições à organização
política dos trabalhadores de maneira independente. A ditadura ainda tentava calar e tutelar os
trabalhadores através de diversos meios. Adelmo foi um dos presentes nas discussões iniciais
de fundação do Partido:
Bom, primeiro eu fui participar de um encontro em São Bernardo do Campo, em 78,
com um grupo de metalúrgicos de Minas Gerais, Rio de Janeiro, bancários de Porto
Alegre, é... metalúrgicos de Santos, companheiros de Pernambuco, do Pará, eu fui
participar dessa reunião. E a partir dessa reunião em São Paulo foi que nós
começamos a discutir a avaliação do estatuto do Partido105 para que a gente pudesse
a partir de então discutir e efetivar a fundação do Partido. (Adelmo dos Santos)
Adelmo é um dos membros fundadores do Partido dos Trabalhadores e um dos
Membros da Articulação. Contudo, sabemos que esta agremiação não esgota a definição das
105
Disponível em: <http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/estatuto.pdf>. Acessado em 22/07/2016.
19:45.
59
forças políticas que construíram o PT. Passemos agora a analisar as memórias individuais em
busca de definições de quem seriam os grupos formadores do PT no Estado.
2.5 PRIMEIRO GRUPO PRÓ-FUNDAÇÃO DO PT
De acordo com os depoimentos, o primeiro grupo organizado para fundar o PT em
Alagoas foi formado basicamente por sindicalistas, funcionários públicos e militantes
próximos ao movimento estudantil. Não há na composição inicial dos dirigentes petistas
militantes ligados diretamente ao movimento de base da Igreja Católica, militantes de
movimentos rurais ou de organizações vindas da luta armada contra a ditadura:
Essa época fui eu. Depois é que nós agregamos outros companheiros, Universitá...O
Pedro Luís foi presidente do sindicato dos urbanitários; o Tutmés Airan, que foi
desembargador; o Ricardo Coelho, que é advogado, é... o companheiro Roberto
Cavalcante, que já faleceu, dos urbanitários; o companheiro Márcio Souza, que era
também urbanitários, que faleceu; é... tinha outro companheiro importante, o Zé
Gomes, que também faleceu... Começamos a partir desse pessoal, Alan Brandão,
que também faleceu; Gentil, José gentil Malta; Alice Anabuki, Mário Anabuki... Foi
a partir daí que nós começamos a discutir a questão do PT aqui em Alagoas.
(Adelmo dos Santos)
Todos os entrevistados sublinham a importância do movimento estudantil. Este
movimento vinha de um momento de efervescência nacional, com a rearticulação da União
Nacional dos Estudantes e diversas greves estudantis. A Ufal também foi palco de uma greve
estudantil. Ricardo Coelho conta que se aproximou do movimento estudantil e, logo após, do
PT, dentro desse contexto:
Eu fiz primeiro movimento estudantil secundarista mas muito pouco, porque havia
ainda uma repressão muito grande, 76,77. Aí eu comecei na escola técnica mas
muito incipiente mesmo né, não havia assim uma, nenhuma consciência de uma
grande participação. Aí passei um ano estudando pra vestibular e quando entrei na
Ufal foi que eu comecei a participar. E logo quando a gente entrou, eu entrei em
engenharia civil, e logo quando eu entrei em 79 foi logo uma grande greve. A
primeira greve do movimento estudantil aqui em Alagoas foi na engenharia civil,
então a gente, eu participei de assembleia, passeatas, etc. E depois continuei no
movimento estudantil, também no movimento de igreja, que eu era de igreja
evangélica, sem ter entrado no PT, minha entrada no PT é posterior à participação
no movimento estudantil, que já vinha acontecendo e participação no movimento de
igreja também. (Ricardo Coelho)
60
Aqui a memória do acontecimento da greve da engenharia ocupa lugar importante na
memória de Ricardo Coelho. Sua trajetória militante é elaborada tendo como marco inicial
sua aproximação com a Igreja, mas principalmente o movimento estudantil. Sua fala registra
que há na Universidade Federal de Alagoas um movimento estudantil importante, mobilizado
e conectado aos debates políticos da época.
Tutmés Airam frisa não só a importância do movimento estudantil para o cenário
político do período como sua importância como ativista. Interessante notar a afirmação de que
"O PT nasceu do curso de Direito", mostrando como teve importância para a futura
agremiação a articulação dentro da faculdade de Direito, faculdade que estava desguarnecida
da dominação Pecêdebista aludida anteriormente:
É... não... eu entrei na faculdade de Direito, né? ahn... e a faculdade de Direito, ahn...
na faculdade de Direito não havia assim, ahn... um PCdoB muito forte muito
consolidado, né? Então de alguma forma tinha um caminho mais ou menos aberto,
né?, pra outras ideias, pras outras propostas, né?, e aí, é... eu era muito ligado, eu,
Rafael Gazanel, Juca Sampaio, era muito ligado ao Juca, que, por sua vez, tinha
amizades muito fortes com o pessoal lá de Recife, né?, Como eu disse, o Jeferson
Calassa, o Jarbas "Dedão", que... hoje ele tá, salvo engano, no ministério da saúde,
enfim, não é? ah... e nós íamos muito a Recife, pessoal de Recife vinha pra cá, e aí
nós começamos a construir... O PT, na universidade, ele nasceu a partir do curso de
Direito. O PT, ele era um desconhecido, né?, e nós começamos a construir o PT a
partir do núcleo petista que nós fundamos lá no curso de Direito. E aí nós também
consolidamos naturalmente um polo de liderança dentro do curso de Direito, que foi
assim por muito tempo é... hegemônico, né? Enquanto a gente, tava lá, né?
Disputando lá, né? E era uma época muito boa, muito fértil, porque era uma onde
fazer parte do movimento estudantil implicava em, implicava em... em participar de
muito debate, não é?, era um... era um momento político muito rico, né?... nós
discutíamos política de verdade mesmo, né? num nível bastante interessante, os
debates eram intensos, particularmente aprendi muito, eu queria dizer que o
movimento estudantil pra mim foi minha melhor escola, né? aprendi bastante em
todos os sentidos, né? aprendi... fui, fui conduzido a ter um verniz intelectual para
além das discussões técnicas, né?, do curso de Direito... De alguma forma hoje, hoje
a meninada parece que tem uma opção muito clara e equivocada pelo... pelo
tecnicismo puro e simples, né?, o movimento estudantil me permitiu um
alargamento dessa visão, né?, para além das discussões técnicas um revestimento
político, né?, um compromisso político, uma visão política da sociedade e do
mundo, né? (Tutmés Airan)
Novamente, a construção da identidade petista em confronto com o PCdoB. O curso
de Direito é descrito como uma fresta. Uma pequena abertura por onde a construção do PT
pôde passar, visto que ali não havia a força do PCdoB como em outros cursos. Tutmés reforça
o impacto do movimento estudantil para a construção do PT em Alagoas. Parece-nos possível
afirmar que, se não determinante, os estudantes à época foram parte fundamental da
61
constituição do Partido dos Trabalhadores. Ingressando no Partido dos Trabalhadores, esses
ativistas, ao lado dos dirigentes sindicais, teriam uma primeira grande missão: a legalização
do partido.
Geraldo de Majella, antes de destacar a presença do movimento estudantil e da classe
média, em trecho recortado anteriormente, menciona também quem seriam os primeiros
dirigentes sindicais do PT em Alagoas. Há consonância com os nomes destacados por
Adelmo e outros depoimentos:
"Então, essa ideia que nasce lá no ABC e se espalha por São Paulo, Rio de
Janeiro, os grandes centros, quando ela chega aqui em Alagoas ela chega também
pelo movimento sindical existente naquela época, né? Que é um movimento sindical
que a gente tem que bem definí-lo, né, de resistência. Tinha o Sindicato dos
Radialistas, foi basicamente o Sindicato dos Radialistas, através do presidente
Adelmo dos Santos e o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Urbanas, que
hoje é o Sindicato dos Urbanitários, através do Pedro Luís da Silva. Então eram
esses dois sindicalistas e mais alguns outros militantes políticos que estavam nas
oposições sindicais como o caso do José Gomes da Silva, que tava na oposição
sindical dos trabalhadores da construção civil, né?, então basicamente esses, o Alan
Brandão, que era um ex-militante do PCB e ex-dirigente do Sindicato dos
Petroleiros, ele tinha sido presidente do Sindicato dos Petroleiros e um dos
dirigentes do Comando Geral dos Trabalhadores, o CGT, até o 1º de abril de 1964.O
Alan foi uma das figuras que contribuiu muito pra fundação do PT e arregimentou
muitos ex-líderes sindicais muitos ex base do Sindicato do Petróleo, e de outras
categorias que já estavam a pelo menos quinze, vinte anos quase, pelo menos vinte
anos, fora de organização sindical e muito menos de organização política. Essas
pessoas passaram a ser convidadas e convencidas a militar no PT, entrar no PT e
participar da fundação do PT. Só que tinha ao lado desses velhos dirigentes sindicais
e ex-dirigentes sindicais, e dos novos, porque o Adelmo era um na época, ele não
era, não pertencia a velha guarda do movimento sindical, muito pelo contrário, era
um jovem líder sindical, o Pedro Luís a mesma coisa." (Geraldo de Majella).
Vemos aí a existência de uma militância jovem em sua maioria, mas também alinhada
a quadros do passado sindical alagoano com Alan Brandão. Em um cenário de um movimento
sindical defensivo e acuado pela repressão, o espaço onde o PT se constituirá será sobretudo o
das oposições sindicais e do sindicalismo ligado às classes médias, como o assinalado caso
dos radialistas e dos jornalistas.
Dentre os movimentos sociais que estiveram presentes nesse momento dando suporte
à campanha de legalização destaca-se, indubitavelmente, o movimento sindical. Adelmo dos
Santos lista os principais sindicatos que participaram na fundação do PT:
62
Bom, sindicatos, nós tivemos aqui a participação decisiva para a construção do PT
do sindicato dos urbanitários, sindicato dos metalúrgicos, sindicato dos radialistas,
sindicato dos trabalhadores rurais de Craíbas, sindicato dos trabalhadores rurais de
Inhapi, sindicato dos trabalhadores rurais de... de Igreja Nova, sindicato dos
trabalhadores rurais... eu poderia até citar só esses porque na verdade naquela época
a FETAG era uma entidade que era muito pelega e tinha como um dos principais
dirigentes o Zé Benedito que estava no poder há mais de vinte e cinco anos."
(Adelmo dos Santos)
Note-se que essa listagem de sindicatos se sobrepõe ao já mencionado problema da
dificuldade financeira e de mobilização para garantir as filiações. Essa proximidade com os
sindicatos não reflete em uma maior quantidade de trabalhadores organizados. A listagem de
Adelmo nos parece mais um repasse. Tem um tom oficial, mas não reflete uma organização
em sua base.
Além destes, Ricardo Coelho também menciona a presença importante da Pastoral
Operária, no que consistiria aí uma primeira aproximação com a Igreja Católica:
Tinha os sindicalistas. Tinha o pessoal do urbanitários, sindicato dos urbanitários, o
pessoal do sindicato de asseio e conservação, o pessoal da construção civil, dos
ferroviários, o pessoal que estava ligado à Pastoral Operária, que era um grupo que
o Lula participou também e nacionalmente eles participaram desse grupo pastoral
operária e aqui eles ajudaram a fundar o PT. Até lideraram no começo e... esse
pessoal ajudou muito nessa campanha de filiação nesse primeiro momento. (Ricardo
Coelho)
Ricardo Coelho acrescenta aos sindicalistas aqueles ligados à Igreja, na organização da
Pastoral Operária. Desde o começo, sua narrativa mostra a presença da Igreja Católica na
organização do PT, o que indica que esse setor pode sim ter estado presente na construção do
PT, com menos impacto que os dirigentes sindicais e estudantes.
Em Alagoas o movimento sindical se fez presente desde o começo liderando a
fundação do PT. Ricardo Coelho sublinha que mesmo os militantes egressos do movimento
estudantil tinham o entendimento de que os trabalhadores é que deveriam ocupar os postos de
direção do Partido:
Foi, o pessoal do movimento sindical, o pessoal do movimento sindical tava
liderando, tava na direção do Partido no Estado quanto no município, inclusive
porque havia uma desconfiança aí no movimento sindical com os estudantes, eles
63
achavam que a gente não tinha a responsabilidade política nem a densidade política
pra tá ajudando a organizar o Partido, então eles foi que lideraram e a gente, numa
ideia de que eles realmente tinham que liderar, até tomando o exemplo nacional do
Lula, de Olívio Dutra, de Jacob Bittar, então eles é que ficaram à frente nesse
primeiro momento, da direção do Partido. (Ricardo Coelho)
Essa fala se encontra com o programa do PT, que afirmava o classismo e a
necessidade da liderança da classe trabalhadora. Esse entendimento era parte constitutiva do
PT. Interessante que se diga que a ideia de que os operários realmente tinham que liderar
apareça como de fácil aceitação. É de se questionar o quanto essa necessidade de construção
da identidade de Partido dos Trabalhadores não legitimava uma construção política e uma
liderança, sindicalista, mesmo que não diretamente ligada ao setor produtivo ou de baixos
assalariados. O fato éque os dirigentes sindicais assumiram a direção da organização,
conforme o processo de instauração do PT se completava, porém, já eram notórias as
candidaturas de funcionários públicos e setores médios, bem como figuras públicas vindas
dessas camadas, como Paulão, Heloísa Helena, dentre outros. Mesmo Tutmés Airam, que
inicia sua militância no movimento estudantil, seria ainda nos anos 1980 presidente municipal
do PT. O que mostra que ainda que obedecendo a essa designação, as camadas médias
estariam sempre representadas e cumprindo papel político importante dentro do PT, embora
não representando diretamente vindas do movimento estudantil, mas inegavelmente oriundas
dele. A narrativa de Ricardo Coelho ainda destaca que o movimento sindical era
predominantemente de setores produtivos, não havendo ainda a predominância de
movimentos oriundos do funcionalismo público, como se veria posteriormente:
É, naquele momento a maioria era operária. A maioria era de construção civil, a
maioria era de urbanitários, a maioria era da... era também ferroviário... e não havia
ainda muito movimento de setor público. O movimento de servidor público é um
movimento pequeno ainda, até que a constituição não permitia, né? Só a constituição
de 1988 vem permitir a questão da sindicalização do servidor público, então não
havia muitos setores, havia alguns. Outro setor que era importante mas a maioria
tava com o PCdoB era os bancários, mas mesmo assim havia alguns bancários com
a gente, mas de modo geral o movimento sindical era o mais forte e naquele
momento mais operário, mais, é...ferroviário, esse, esses grupos aí. (Ricardo
Coelho)
Portanto, esses sindicalistas serão na narrativa de todos os entrevistados vistos como o
setor ponta de lança na construção do PT alagoano. Há militância sindicalista, especialmente
64
de fora da égide do PCdoB. Notemos mais uma vez que o espaço político do PT se define
sempre relacionado ao PCdoB.
Majella, por sua vez, como dirigente de outra organização política, dará uma outra
acentuação. Destacando o que seriam, para ele, os três líderes sindicais mais importantes
nesse momento da construção do PT, dá conta de uma influência importante que estes
desempenharam na construção das Oposições Sindicais no Estado. Este fenômeno da
organização de Oposições Sindicais foi importante para a construção.
"Então esse PT que foi criado aqui em Alagoas ele é um PT completamente
diferente do que surge no ABC, do que surge até mesmo no Rio de Janeiro e em
outros centros, né?, porque esse era dada diante da realidade política que Alagoas se
encontrava, quase todos os sindicatos eles tinham sofrido a intervenção sindical por
parte da Delegacia Regional do Trabalho mas tinha alguns poucos sindicatos que
tavam retomando a direção. O Sindicato dos Jornalistas, o Sindicato dos Radialistas
e o Sindicato dos Urbanitários. O Sindicato dos Radialistas com Adelmo dos Santos,
Sindicato dos Jornalistas com o João Vicente Freitas Neto e o Sindicato das
Indústrias Urbanas o Pedro Luís da Silva. Então esses três líderes sindicais eles
conseguiram organizar e sobretudo trabalhar e dar apoio às várias oposições
sindicais que começaram a surgir no final dos anos 1970 e início dos, a primeira
metade dos anos 1980 as oposições sindicais do Sindicato de Médicos, Sindicato de
Professores, Sindicato da Construção Civil, Sindicato dos Metalúrgicos, alguns
Sindicatos de Portuários, os Portuários com várias categorias que tinham lá,
arrumadores, estivadores, os camisa-branca, os motoristas, os conferentes... Então
eram os portuários, além do próprio sindicato de portuários mesmo, da
administração do porto, você tinha todas essas outras categorias que compunham o
que se poderia chamar de um modo geral e defini-los como os portuários que eram
os trabalhadores que trabalhavam na atividade portuária, mas cada um nas suas
categorias, nas suas áreas né." (Geraldo de Majella)
Assim delimitado, fica mais precisa a visão do que seriam, para estes atores políticos,
a base militante do PT no movimento sindical. A visão construída por estes relatos é a de um
sindicalismo urbano, porém majoritariamente de classe média. Destaque aí para o Sindicato
de Portuários, com uma pluralidade de categorias interessante.
Em acordo com o depoimento de Adelmo e Geraldo nesse âmbito, tanto Alice quanto
Tutmés frisam as dificuldades colocadas para o agrupamento pró-fundação do PT em
Alagoas, inerentes à militância no Estado, mas agravadas pela hegemonia do PCdoB no
Estado, seu peso no movimento:
65
É... deixa eu ver se eu me lembro...É... tinha membros do sindicato dos jornalistas,
que era o Adelmo dos Santos; o Alan dos petroleiros; tinha, se não estou enganada,
o Pedro Luís do sindicato dos eletricitários também já se aproximou desde o início,
ele e vários membros da diretoria da qual ele dirigia; o movimento estudantil,
pessoas isoladamente, não como entidade, porque esse pessoal tava mais engajado
com o PCdoB; parlamentares, nenhum, que eu me lembre. Eram pessoas isoladas,
individuais, que foram se chegando, e a gente... professores mesmo, praticamente...
não me lembro. Professores da universidade... não me lembro de quem se
aproximou. Estudantes sim, o próprio Ricardo Coelho que na época era estudante, o
Tutmés também, o Dr. Tutmés Airam, que na época era estudante... eram pessoas
individuais não como entidade, não como representante de órgãos, coletivos, eram
indivíduos. E tivemos aproximação que era um pessoal que combatia não só os
grandes Partidos oficiais mas também tinham restrições à força do PCdoB, que o
PCdoB na época, nacionalmente, era o agrupamento mais forte do Partido, era em
Alagoas. Eram os que mais vendiam o jornal, tinham várias entidades sindicais, de
classe, nas mãos, né? Acho que se não me engano os médicos, a UNE, DCE... é, é...
se não me engano eles também tinha parlamentares, se não me engano... ou seja, o
PCdoB, em Alagoas, era extremamente forte, com um dos núcleos mais fortes do
PCdoB no Brasil.(Alice Anabuki)
Assinalemos na fala de Anabuki uma preocupação em firmar que nesse momento não
eram forças políticas, entidades políticas organizadas que se aproximavam do Partido, em sua
lembrança. A narrativa de Alice registra a presença de indivíduos, e faz questão de pontuar,
"indivíduos, não organizações". Parece-nos uma construção discursiva que chama a atenção
para um caráter espontâneo politicamente, ainda não fechado organizativamente, mas por
fazer-se.
Essencial também para a constituição de uma identidade política é a relação com um
"outro". Veremos se repetir ao longo das narrativas a presença do PCdoB como adversário do
PT dentro do espectro das organizações de esquerda. Esse "outro" específico que é o PCdoB
será pontuado nas falas a partir das divergências táticas, propostas organizativas, propostas
sindicais, articulações etc. Mais adiante exploraremos essa relação de conflito em um tópico
específico. Pollak nos dá uma precisa definição do que é, para ele, a importância do "outro"
na definição das identidades políticas:
Se assimilamos aqui a identidade social à imagem de si, para si e para os outros, há
um elemento dessas definições que necessariamente escapa ao indivíduo e, por
extensão, ao grupo, e este elemento, obviamente, é o Outro. Ninguém pode construir
uma auto-imagem isenta de mudança, de negociação, de transformação em função
dos outros. A construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência
aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de
credibilidade, e que se faz por meio da negociação direta com outros. Vale dizer que
memória e identidade podem perfeitamente ser negociadas, e não são fenômenos
que devam ser compreendidos como essências de uma pessoa ou de um grupo. Se é
possível o confronto entre a memória individual e a memória dos outros, isso mostra
66
que a memória e a identidade são valores disputados em conflitos sociais e
intergrupais, e particularmente em conflitos que opõem grupos políticos diversos. 106
Se a estratégia de imputar ao PCdoB a responsabilidade pelos obstáculos à construção
do PT é uma ferramenta política e discursiva, por outro lado não se pode negar que tanto o PT
quanto o PCB, que também se reorganizava no Estado no período, se depararam com uma
organização já consolidada e com desenvolvimento em diversos setores de movimentos
sociais do Estado:
"Mas esse início, essa partida do PT, do PCB, que já encontra o PCdoB com um
grau de organização muito maior do que esses outros partidos, inclusive o PCdoB já
com um Deputado Estadual que era o Renan Calheiros, que se elege em 1979,
Deputado Estadual, o que deu um impulso muito grande do ponto de vista político
tanto na projeção da política defendida pelo PCdoB naquela época quanto da
organização em si do Partido, né?, aqui em Alagoas. E essa organização em todos os
três partidos tinha sempre a classe média como os seus referenciais. O PT tinha
algum grau de militância de trabalhadores nas indústrias urbanas, jornalistas e tal,
mas a estudantada era essencialmente quem hegemonizava a condução do Partido
aqui em Alagoas. A mesma coisa acontecia com o PCB, o PCB é um partido que foi
organizado, tinha alguns remanescentes do movimento sindical dos anos 1960,
1950-1960, sobretudo dos anos 1960, final dos anos 1950 e boa parte dos anos 1960
que se reorganizaram mesmo, voltaram pra o trabalho mais organizado de militância
política e a nova geração, ou seja, os estudantes que passaram a entrar na militância
política e que em determinado momento assumiu a direção do trabalho de
reorganização do PCB aqui em Alagoas.
O que é que isso significa para o ambiente local na esquerda alagoana? Você tinha
um PT com força nacional, um PCdoB com muita força local porque tinha uma
organização anterior à anistia e o PCB se reorganizando e com divergências ainda
grandes no plano nacional." (Geraldo de Majella)
Os conflitos políticos entre PCdoB e PT deram a tônica da disputa na esquerda.
Acusado de dividir as oposições, o PT se viu obrigado a enfrentar uma organização política
que, se não legalizada, possuía bases mais assentadas nos movimentos sociais e maiores
reservas políticas. Dentro do MDB, o PCdoB seria um grande adversário dentro dos
movimentos urbanos e rurais.
O PCdoB, após o fracasso da guerrilha do Araguaia e da estratégia de apostar nas
mobilizações a partir do campo decidiu se reaproximar dos movimentos urbanos, no final dos
anos 1970. Para isso, construiu o jornal Movimento -- inicialmente em aliança com alguns
agrupamentos trotskistas, que abandonariam o grupo posteriormente para fundar seu próprio
106
Pollack. p. 5
67
jornal -- e iniciou a partir daí sua participação nos debates das esquerdas. Através desse
instrumento político o PCdoB polemizou com o nascente PT, com Brizola, que retornava do
exílio e principalmente com a ditadura. Mas a opção adotada organizativamente para lutar
pela democracia foi a entrada no MDB. O PCdoB apostava nesse partido como o articulador
de uma frente democrática nacional e pela defesa de uma assembleia nacional constituinte.107
Muito criticada por essa decisão, a organização cruzaria os anos 1980 inteiros dentro do
MDB, polemizando duramente com o PT, o novo sindicalismo, os trotskistas e todos aqueles
que apostavam em estratégias à esquerda fora da unidade proposta. Para o PCdoB, estar fora
do MDB era "dividir as oposições".
Aqui em Alagoas o contato entre MDB e PT seria mediado pelo peso do PCdoB, que
tinha representatividade e influência política no Estado:
... na verdade a esquerda do PMDB, que era o antigo MDB e depois PMDB, a
esquerda do PMDB era o PCdoB. Então a polêmica maior já foi com o PCdoB. Nós
tivemos uma relação de 79 até 89, uma relação de muita disputa com o PCdoB.
Assim, disputas muito acirradas. De 89 como houve a campanha do Lula, que já não
tá no título mas só pra justificar, como houve a campanha do Lula, até houve uma
aproximação melhor. Mas de 79 até 85, 86 as disputas eram muito acirradas com o
PCdoB, porque ele disputou bases sociais comuns com movimento estudantil, DCE
aqui, sindicato dos bancários, é... o que mais? Sinteal, sindicato dos professores que
tava se criando naquela época. Então, a... isso tudo tava com o PCdoB, então nós
fomos assim uma força que... tivemos grandes problemas. Com o PCB, nem tanto.
Como o PCB era uma força minoritária, naquele momento era menor, então nós,
eles se aliavam com a gente, mesmo sem grandes concordâncias eles se aliavam com
o PCdoB por questões circunstanciais em cada sindicato, em cada movimento social.
Mas com o PCdoB a disputa foi acirrada, difícil, com momentos até de brigas físicas
mesmo, de troca de murros, de tapas e tudo (rs). (Ricardo Coelho)
O PCdoB surgiu como uma ruptura do velho "Partidão", o PCB, ainda em meados dos
anos 1960. Tendo como ponto de partida as divergências concernentes aos rumos do
stalinismo após a divulgação dos relatórios Kruschev, a explosão confirmou-se quando da
aprovação do novo estatuto do PCB, em 1959. Dirigentes como João Amazonas e Maurício
Grabois, futuras lideranças importantes do PCdoB, acusavam o "Partidão" de abrir mão da
tomada do poder, alterando o estatuto, segundo os dirigentes do PCB, para se adequar às
107
Cf. MACEDO, Michelle Reis de. Recusa do Passado, disputa no presente. Esquerdas revolucionários e a
reconstrução do trabalhismo no contexto da redemocratização brasileira. Maceio: Edufal, 2014.
68
normas do TSE.108 No contexto da abertura política o PCdoB travou duros debates políticos
com o PT. Discordando da atuação mais crítica proposta pelo novo partido em relação à Nova
República e defendendo uma postura mais moderada, o PCdoB enfrentou-se durante boa parte
dos anos 1980 com as propostas do PT. Este forjou sua identidade política alegando
diferenciar-se dos dois partidos comunistas, o velho "Partidão" (PCB) e o PCdoB. Sobre o PT,
era comum que a organização de João Amazonas afirmasse "que não passava de um partido
'falsamente proletário'; ou ainda que o PT 'surge com a reorganização partidária promovida
pela ditadura, que veta de forma categórica a legalização do Partido Comunista do Brasil e de
outras forças de esquerda, admitindo, porém, a criação de um partido daquele tipo'..."109
Adelmo dos Santos rememora, contudo, que dificilmente o PCdoB aparecia com uma
cara pública própria, enquanto Partido autônomo, na maior parte das vezes militando
eleitoralmente como MDB:
Não, o PCdoB, ele era um Partido que tava na clandestinidade. Já foi um Partido
muito orgânico aqui no Estado de Alagoas. Muito bem estruturado muito bem
organizado. Mas eles não, não se apresentavam como PCdoB, eles ficavam debaixo
do guarda-chuva do PMDB. Eles nunca se apresentavam como membros do PCdoB.
Depois com a redemocratização do país é que eles começaram a aparecer como
Partido comunista do Brasil. (Adelmo dos Santos)
Embora nos pareça que Adelmo diminua o peso político do PCdoB, em comparação
aos outros depoimentos, por outro lado parece coerente com o que disseram outros
historiadores sobre a função de "abrigo" que o MDB exerceu para diversas organizações de
oposição à ditadura, como o MR-8 e o PCdoB:
Em suma, ao longo de sua trajetória, o MDB deu abrigo e serviu de canal de
expressão para diferentes segmentos da esquerda, de revolucionários a moderados,
de intelectuais a sindicalistas. O partido foi uma espécie de laboratório para
militantes de organizações políticas e de movimentos sociais, que à falta de outra
opção institucional usaram o MDB para expressar sua insatisfação com o regime
militar, bem como para divulgar suas propostas e popularizar suas lideranças.110
108
SALES, Jean Rodrigues. Da luta armada ao governo Lula: a história do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
p. 168
109
Idem. p. 176.
110
MOTTA, Rodrigo Patto de Sá. O MDB e as esquerdas. p. 300
69
Condizente com essa caracterização, o PCdoB poderia aparecer publicamente com a
"cara" do MDB. Mas nos parece inegável que a organização possuía peso político sim no
Estado.
Mediada por essa relação, o contato entre a direção tradicional do MDB e PT seria
muito pequeno. Desdenhados pelos figurões da política tradicional, segundo Alice Anabuki, o
PT seria em larga medida ignorado pelas forças da oposição medebista:
Não, eles nem... acho que eles nem... nem levavam o PT a sério, sabe? Até pela
composição social. Não tinha caciques, não tinha coronéis, sabe? Enfim, não tinha
os figurões da política tradicional no PT. O Mendes de Barros quando se aproximou
já foi assim, o PT já caminhando, sabe, prum outro rumo. Mas, nas origens do PT
classista nós não tínhamos... tinha assim um vereador... o nome dele... não sei o quê,
Falcão, e eu acho até que ele era também, próximo de algum setor da igreja... mas
foi uma passagem muito... muito efêmera. (Alice Anabuki)
Alice volta a afirmar a existência desse PT classista, das origens. Aqui enfim
opinamos que a repetição dessa identificação política com um PT originário seria obra de um
trabalho de enquadramento da memória, no sentido cunhado por Michel Pollack: "Está claro
portanto que a memória especificamente política pode ser motivo de disputa entre várias
organizações. Para caracterizar essa memória constituída, eu gostaria de introduzir o conceito
de trabalho de enquadramento da memória."111 O enquadramento de memória seria
produzido por historiadores, intelectuais orgânicos, pensadores, dirigentes políticos, e
construiria uma noção de identidade política solidificada, segundo Pollack uma "solidificação
do social."112
Tutmés concorda com o distanciamento entre MDB e PT, mas opina uma
interpretação diferenciada dos demais depoimentos. Para ele, o afastamento se daria
fundamentalmente por uma postura sectária da militância petista:
Na verdade, nós não tínhamos, assim, muita relação com o MDB, né? Não tinha,
não tinha assim... nada de... conversas muito frequentes, enfim.. O MDB, à época,
até por instinto de sobrevivência... o PT era muito... muito fechado... Era difícil
conviver, né? O PT não era muito adepto à lógica das alianças, né? Mesmo porque
havia também uma orientação nacional, eu não sei se... se equivocada, ou não... mas
havia uma orientação nacional no sentido de firmar sempre candidaturas do PT, pra
que o PT enfim ganhasse o máximo de visibilidade possível né? Além disso,
111
112
POLLACK, Michel. Memória e identidade social. p.7
idem.
70
obviamente, havia um certo purismo ideológico, e uma cobrança muito grande em
cima desse purismo, que nos, nos impedia de, é... (Tutmés Airan)
Tutmés critica o que seria uma postura isolacionista dos primeiros anos petistas. Essa
postura não é aludida por nenhum outro dos entrevistados. Pelo contrário, se temos uma
mudança de postura, ela é dada como uma valoração negativa por Alice Anabuki, que observa
que o PT dos anos iniciais era mais alinhado com uma postura classista. Tal postura se perdeu
e então abriu espaço para a aproximação com setores de fora do espectro ideológico inicial do
Partido.
Opinamos que dentro dos dois depoimentos se encontram enquadramentos distintos.
Seguindo André Singer, acreditamos que estamos diante de falas que são manifestações do
que o mesmo chamou de "as duas almas do Partido dos Trabalhadores".113 Para o autor, duas
distintas visões convivem até hoje dentro do Partido dos Trabalhadores, emergindo em um ou
outro momento da disputa partidária. Acreditamos que essas duas "almas", que podemos
chamar de duas identidades políticas, manifestam-se mesmo na fala daqueles fora do partido,
como é o caso de nossos entrevistados.
Para Singer, haveria o espírito do Sion -- em alusão ao colégio Sion, local da fundação
do Partido -- radical, combativo, intransigente, classista, simpático ao socialismo.114 Esse
espírito estaria presente na fala de Alice, evocando o "PT das origens". Por outro lado, haveria
o espírito do Anhembi -- em alusão ao local em que o Diretório Nacional do Partido aprovou
o programa da candidatura de 2002 de Lula115 -- conectado com ideias de governabilidade,
aceitando preceitos econômicos neoliberais e aceitando um arco de alianças mais amplo.116 A
fala de Tutmés parece encarnar esse espírito do Anhembi quando fala da necessidade de se
sair do purismo ideológico, ser menos fechado e abrir espaço para alianças.
Nesta relação com as outras organizações, Majella opina que o PT não participou das
eleições de 1982 e viu-se sem representação parlamentar por conta dos erros e escolhas da
própria organização. Traçando um comparativo entre sua antiga organização e a atuação do
PT, ele chega à conclusão de que os equívocos decisórios do Partido dos Trabalhadores
113
SINGER, André. Sentidos do Lulismo.
idem. p. 88
115
idem, p. 96.
116
idem, p. 98.
114
71
traçaram o destino do Partido. Novamente, a balança se inclina para o crescimento do Partido
somente na década de 1990, com a eleição de Paulão, primeiro parlamentar do PT em Maceió:
"Olha, nos anos 1980 o PT ficou durante toda a década de 1980 sem
nenhuma representação por exemplo na câmara municipal de Maceió. Em 1982, o
PT, eu não me recordo se o PT lançou candidato em 1982, porque eles tinham outro
entendimento... não é que não tinham, é que eles não tinham cumprido a legislação
eleitoral, havia sempre essa dificuldade de cumprir a legislação eleitoral. No caso do
PCdoB e do PCB, era diferente porque nós estávamos na clandestinidade. Nós
vivíamos numa semi-legalidade mas não tínhamos registro legal. Então nós
concorremos por dentro do PMDB. Então o PCdoB fez dois vereadores o Edberto
Ticianelli e Jarélio Viana e nós trabalhamos pra eleger o Freitas Neto. Que foi um
senhor vereador que assumiu, assim que o PCB foi legalizado, em maio de 1985, o
Freitas Neto assumiu a legenda do PCB e passou a ser o vereador do PCB. Então, aí
você já tinha uma disputa muito mais no parlamento, uma coisa muito mais
evidenciada, de disputa entre PCdoB e PCB , e o PCdoB sempre majoritário nas
suas ações porque ele contava com um Deputado Estadual que se elegeu em 1982, o
Eduardo Bonfim. Ele contava com um Deputado Federal que era o Renan Calheiros,
que se elegeu Deputado Federal em 1982. E dois vereadores em Maceió. E nós
tínhamos um vereador em Maceió. E o PT não tinha ninguém. Então, do ponto de
vista da repercussão política parlamentar, nós passamos a ter uma ação infinitamente
maior do que o PT. E o PT só vai ter um parlamentar aí na virada dos anos 1990,
não me recordo exatamente quando, na eleição do Paulão" (Geraldo de Majella)
Esse enfrentamento com o PCdoB -- e de certa forma também com o PCB -- seria
decisivo para os comunistas em detrimento da novidade que era o PT. Para o historiador e exdirigente, não restam dúvidas de que o PT ficou isolado pela inferioridade parlamentar.
Tutmés analisa esses primeiros momentos com discurso em consonância com os
outros entrevistados que fizeram parte de seu partido, frisando que o crescimento do PT deuse de forma lenta, acompanhando o crescimento do Partido a nível nacional:
É... na verdade, o grupo inicial, eu cheguei um pouquinho depois, né?, quando eu
cheguei esse grupo inicial já existia, eram intelectuais e alguns poucos sindicalistas,
né? O Mário; a Alice; o José Gentil Mota Marques, né?; a Sandra, que hoje é esposa
dele; o menino lá de Sergipe, que tá em Sergipe que chama Clímaco; o Alan
Brandão; o Pedro Luís do sindicato dos urbanitários, o Zé Gomes... a nossa sede era
ali, a primeira reunião que eu participei a sede do PT era no famoso edifício Lobão
Barreto, uma salazinha, quando eu entrei estavam todos sentados no chão, reunidos,
discutindo exatamente os caminhos do PT. Não, não foi... não foi muito fácil porque
nós tínhamos, em razão até, é... da novidade que era o PT no Estado, e em razão até
da nossa... da nossa composição inicial, nós não tínhamos muita inserção nos
movimentos sociais, né? Os movimentos sociais eram... eram basicamente, é...
conduzidos pelo PCdoB, né?, então não havia muita brecha, muito espaço, né?,
Então assim nós tínhamos que ter muita paciência pra que as ideias do PT fossem
sendo... fossem sendo abraçadas gradativamente, né?. Evidente que isso nos
angustiava muito, porque nós tínhamos pressa, né?. E pressa inclusive de ser um
Partido, do ponto de vista institucional, um Partido influente, né? E aí eu me refiro
ao espaço eleitoral, enfim, não é? Disputar eleições, se fazer um ator importante
72
dentro desse cenário, né?, e não era definitivamente, não era uma atividade muito
fácil de fazê-lo, não é? E tudo isso foi feito à duras penas, nós fomos... nós fomos
penetrando devagarzinho nos movimentos sociais até que nós, é... ficamos assim
com uma certa, com uma certa envergadura, com uma certa representatividade,né?,
e isso coincidiu com os avanços do PT a nível nacional, não é?(Tutmés Airan)
Há na fala de Tutmés uma preocupação em fixar uma ideia de novidade das ideias
petistas para o cenário alagoano. Se é verdade que o trotskismo, a organização por tendências
e o discurso da independência política da classe trabalhadora aparecem no cenário local ou
como novidades completas ou como elementos que não tinham atuação correlata no período
recente, também é necessário lembrar que o programa fundacional petista arvorava para si
uma aura de novidade. Esse discurso de novidade é pontuado já no primeiro parágrafo do
programa petista quando diz que este partido que surge é "Um partido diferente daqueles que
os poderosos nos impuseram ontem e tentam nos impor hoje. Um partido feito por nós, para
travar nossas lutas."117
O adjetivo diferença segue repetido quatro vezes no parágrafo seguinte, firmando a
proposta de uma identidade política calcada no novo:
Nosso partido é diferente porque é democrático: nele, quem manda são as bases. É
diferente porque está presente em todas as lutas do movimento popular, em vez de
aparecer apenas nas épocas de eleição. É diferente porque respeita e defende a
autonomia das organizações populares, garantia maior de sua existência como
partido dos trabalhadores. Partido de massas, amplo e aberto, baseado nos
trabalhadores da cidade e do campo, o Partido dos Trabalhadores (PT) é diferente
também por causa de seus objetivos políticos. Lutamos pela construção de uma
democracia que garanta aos trabalhadores, em todos os níveis, a direção das decisões
políticas e econômicas do País. Uma direção segundo os interesses dos trabalhadores
e através de seus organismos de base.118
Frisando que a penetração do PT se deu de maneira lenta, Tutmés registra em sua
narrativa um momento inicial de militância que não parece ter muita pompa ou holofotes. É
um movimento rotineiro, de afirmação de um programa contra um cenário social em que há a
dificuldade do regime militar, que restringe em muito a organização de esquerda, mas também
o peso social ocupado por organizações vinculadas ao MDB. Essa ocupação de espaço é, sem
dúvidas, um problema, mas também aparece na narrativa como uma afirmação de identidade,
117
Disponível em: <http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/programa.pdf>. Acessado em: 22/07/2016.
20:00
118
idem.
73
novamente aqui há o "outro", o adversário que constitui a própria subjetividade da política da
organização a partir do que ela não é. O PT, ainda na esteira na fala de Tutmés, só irá se
desenvolver no Estado após o acontecimento das Diretas Já! e suas enormes passeatas. Os
acontecimentos das Diretas são um marco nas memórias individuais de todos os
entrevistados. A partir daí é que o PT estadual começa a assistir um desenvolvimento. Tutmés
ainda opina que esse desenvolvimento é alavancado pela relevância que o PT adquire ao
longo dos anos 1980 no cenário nacional. Essa opinião é importante, no sentido de que irá se
repetir implícita ou explicitamente nas outras falas, indicando uma confluência nas memórias
que aparecem como importante para o significado das Diretas na construção partidária.
A fala de Tutmés chama atenção para uma reunião no edifício Lobão Barreto. Adelmo
dos Santos conta que essas reuniões iniciais aconteciam de maneira periódica, a depender das
necessidades:
A gente fazia reunião toda semana, né? Com a participação de companheiros do
movimento sindical, movimento popular, né? Companheiros que tinham liderança
nas suas categorias... essa reunião era feita a cada quinze dias, ou semanal ou... a
cada três ou quatro dias, dependendo da importância. (Adelmo dos Santos)
A ideia das reuniões periódicas, onde se dividem as tarefas, definem-se questões
organizativas e elabora-se política é parte da identidade das organizações de esquerda.
Adelmo segue repassando as informações dando conta de uma memória oficial petista, sem
críticas, sem maiores ponderações.
No apanhado geral desses relatos, vemos a afirmação de dirigentes sindicais como
parte do primeiro grupo pró-fundação do Partido dos Trabalhadores. Não só eles, mas também
militantes das organizações estudantis.
2.6 CAMPANHA PELA LEGALIZAÇÃO DO PT
Tendo sido escolhida como um dos nove estados para reunir o número determinado de
filiados para a legalização do Partido, a militância alagoana entusiasmada com a construção
do PT logo se viu às voltas com duros problemas. O maior deles, ao que se consta na narrativa
de todos os entrevistados, era a dificuldade financeira, que restringia ainda mais as
74
possibilidades de um agrupamento que ainda tinha que enfrentar o peso das organizações
políticas tradicionais, controladas pelas oligarquias regionais, e o peso de organizações de
esquerda já consolidadas. Nessa seara o PCdoB aparece incontestavelmente como o grande
inimigo a se superar:
Porque era uma época que nós tínhamos um desafio em Alagoas... aliás, um desafio
no Brasil, e Alagoas era parte desse desafio. Nós precisávamos legalizar o PT. O PT
tinha uma existência provisória nacional, e precisava contar com a legalização em
diversos Estados da federação e pra isso era preciso filiar, né?, pessoas ao PT, né E
eu vou te contar uma coisa, né?, não era fácil. Não era fácil porque duas eram as
dificuldades centrais, né?A primeira dificuldade de cunho material mesmo: como é
que a gente vai viajar esse Estado todo? Como é que a gente vai, é... de cidade em
cidade.... enfim, como é que a gente vai operar isso, né? Era muito... muito
complicado porque éramos todos, assim... despossuídos, né? Uma ou outra pessoa
tinha, assim, mais condições.... eu me lembro que o Juca ajudou, ajudou bastante...
quem nos ajudou bastante naquela época que inclusive provocava uma certa
discussão interna, foi o Mendes de Barros, que na época era... era procurador geral
da Assembleia Legislativa, uma figura emblemática, né, e tão emblemática quanto
polêmica, né?, mas aí nós criamos como desbravadores eu, José Gentil, né?; Juca; a
Sandra, mulher do José Gentil; o Mário Anabuki; a Alice Anabuki, né? O Alan
Brandão, que tinha sido presidente do sindicato dos petroleiros de... de Sergipe, de
Aracaju uma figura formidável. Enfim, um conjunto de companheiros, nós éramos
muito poucos à época, né? éramos mais ou menos... nós não tínhamos muitas raízes,
o PT inicialmente no Estado, ele não tinha assim, propriamente muitas raízes na
classe trabalhadora, né? Tinha um ou outro sindicalista a ele vinculado... O Pedro
Luís, que era presidente do sindicato dos urbanitário, né; tinha o Zé Gomes, que era
presidente do sindicato... que foi presidente do sindicato da construção civil... e no
mais o PT era formado pela militância estudantil e por alguns intelectuais, né?,
lideranças também do sindicato dos bancários, enfim... né? E aí nós enfrentamos
esse desafio inicial que tinha como primeiro obstáculo esse, enfim... de... obstáculo
material, né?, como fazer... e segundo né... convencer as pessoas de entrar no PT,
né?, que não era muito fácil. (Tutmés Airan)
Tutmés Airan transmite em seu relato um problema de crise financeira que também se
repetirá nos outros depoimentos. Explorando essas narrativas vemos a percepção de que o PT
se inicia aqui em Alagoas como uma aventura. Para o entrevistado, há um verdadeiro grau
zero de organização popular. O que é no mínimo curioso, visto que há tantas organizações e
grupos fazendo oposição ao projeto político do PT. O que nos parece mais acertado e preciso
é dizer que o PT não encontrava correspondente organizativo ao que se propunha como forma
de atuação dentro da realidade alagoana. A afirmação de que Alagoas era quase que uma
"terra arrasada" para a prática política de esquerda deve ser relativizada pela posição política
do entrevistado. Certamente que os Partidos Comunistas e outras organizações pensariam algo
muito diferente.
75
Na narrativa é pontuado o que se chama de uma "ausência da classe trabalhadora". É
curioso, para dizer o mínimo, que o partido que nacionalmente se definia como o Partido dos
Trabalhadores, independente politicamente da burguesia, seja definido como um partido
ausente de classe trabalhadora. Abrindo mão do financiamento empresarial, como conseguir
fundos para a organização? Nota-se aqui que o desespero organizativo diz respeito à ausência
de uma cultura política de independência organizativa e classismo, de fato. Não havia formato
organizativo correlato, tradição organizativa do tipo que o PT se propunha no Estado, e isso,
mais do que abrir espaços para a construção partidária, parece ter constituído problemas e
percalços.
Sumariando o que foi levantado até aqui, vemos que os grupos políticos que compõem
o PT podem ser resumidos nos seguintes segmentos:
- Dirigentes sindicais, como Alan Brandão, dirigente do Sindicato dos Petroleiros e
Adelmo, do sindicato dos radialistas. São sindicalistas que estão em sindicatos que não são
controlados
pelo
PCdoB
e
onde
há
vacância
política
do
MDB.
- Militância vinda do movimento estudantil, como o exemplo de nossos entrevistados.
- Funcionalismo público, como os irmãos Anabuki.
A presença de dirigentes sindicais não necessariamente se reflete em organização de
trabalhadores comuns, ordinários, de base. Também não há a presença de trabalhadores do
campo. Mesmo esse funcionalismo público é registrado apenas por algumas figuras, não um
grande contingente de trabalhadores. Com a ausência de uma base de sustentação financeira
mesmo entre os trabalhadores, esse problema de financiamento partidário parece um caso sem
solução para o ativismo do período.
Na fala, também se narra a presença de José Ibrahim, uma das lideranças sindicais
petistas do período, que "desceu" até Alagoas,119)outra personagem que habita a memória
petista.
Agregado a isso, há um problema envolvendo a desconfiança política dessas camadas
mais baixas. Percebemos nos relatos, quando remetem a esse momento de busca por adesões
ao Partido dos Trabalhadores nas zonas mais rurais, uma verdadeira desconfiança política.
Uma associação com ideias comunistas, uma demonização das ideias de esquerda. Ergue-se
119
na linguagem sindical, quando o dirigente vai até as bases é porque ele desceu, em alusão à descida da
estrutura partidária
76
um verdadeiro imaginário anticomunista, conforme a definição dada por Motta, após a
atuação de diversas organizações e mesmo do Estado brasileiro, ao longo do século XX, na
consciência popular:
Criaram-se, assim, bases para estabelecimento de uma sólida tradição anticomunista
na sociedade brasileira, reproduzida ao longo das décadas seguintes através da ação
do Estado, de organismos sociais e mesmo de indivíduos, cujo zelo militante levou à
constituição de um conjunto de representações sobre o comunismo, um verdadeiro
imaginário anticomunista.120
A ditadura militar brasileira contribuiu com esse ambiente, demonizando o PCB, as
guerrilhas, que eram rotuladas de terroristas, e toda a experiência soviética e cubana que
exercia muita influência no Brasil. A memória individual dos entrevistados levanta, por
diversas vezes, situações em que esse imaginário é evocado. Evidentemente que os
camponeses e moradores do campo não eram ativistas anticomunistas. Nos relatos o que nos
fica é mais a reprodução de representações anticomunistas por parte dessa população humilde.
Analisar como se operavam essas representações foge ao escopo de nosso trabalho.
O depoimento de Tutmés ainda sublinha o isolamento do grupo político que se
esforçava para organizar o PT:
Éramos nós mesmos! Era movimento estudantil alguns sindicalistas, alguns
intelectuais, cada um pegava o seu carro, o carro de um amigo, íamos... dividíamos o
Estado, íamos... íamos de três em três... é... dois em dois, quatro em quatro... aí, "oh,
hoje é a cidade tal", aí vamo lá, nós temos que ter hoje... e fixávamos meta, né?,
"nós temos que ter hoje tantas filiações"...Então que que a gente fazia? A gente ia de
porta em porta mesmo... Batia na porta, se apresentava... era interessante... contava o
que é que a gente tava ali, explicava o que era o PT, qual era a ideia do PT, enfim...
e no final da conversa fazia o convite pras pessoas, né?, pras pessoas serem filiadas
ao PT, né... Uma série de filiações, assim, sem muito vínculo orgânico, né? É... e fez
com que nós tivéssemos em vários municípios uma existência burocrática apenas.
Nós não tínhamos uma existência propriamente orgânica, política assim, uma
existência burocrática em muitos municípios do Estado, em vários, né? Em função
desse processo porque não havia outro meio, né? Se a gente não tinha raízes, como
fazer? Era assim mesmo que a gente fazia, né? Era penoso, dava muito trabalho,
algumas vezes nós éramos hostilizados, mas outras vezes nós éramos muito bem
recebidos. Algumas coincidências interessantes, uma vez... eu me lembro desse fato,
nós fomos à Belém, né?, que era uma cidade do interior de Alagoas, perto ali de
Palmeira dos Índios, e aí nós fomos de porta em porta, né? E uma das portas que a
120
Motta, Rodrigo Patto de Sá. p. 7. Neste trabalho, o autor analisa a construção desse imaginário evitando
reducionismos, mostrando a complexidade desse processo e a atenção para a interpretação muitas vezes
maniqueístas que analistas de esquerdas dão ao anticomunismo.
77
gente bateu, um cidadão nos atendeu, e aí foi muito legal porque o cidadão tava em
Belém, ele era um alagoano, lá da cidade, tinha voltado há dois meses, três meses, e
tinha trabalhado com Lula, né?, em São Bernardo do Campo, né?, então foi assim
uma festa, foi uma alegria, né?, é... saiu a hostilidade, e entrou assim, o
companheirismo, é... mais fraterno, né? Foi assim, muita dificuldade, não havia... é,
nós tínhamos uma existência é... legal, formal, é... mas na grande maioria das vezes
nós não tínhamos uma existência política orgânica, né?, isso foi se construindo com
o tempo, né? (Tutmés Airan)
Na continuidade do relato de Tutmés, vemos o reforço da informação de que não havia
uma existência orgânica dessa militância. Desamparados de qualquer organização mais sólida,
estavam todos entregues à dificuldade. Os trabalhadores não marchavam em direção ao PT.
Ao contrário, este é que ia em direção aos trabalhadores buscando as assinaturas de
legalização do Partido. Também não há o registro, na fala dos entrevistados, de greves locais,
mobilizações contra a ditadura ou no campo. O que havia era a monotonia da busca, de casa
em casa, por assinaturas. Muito mais determinante, seguindo o relato, do que lutas sociais, foi
a abertura política, com todas as mediações e seus limites, da ditadura. A possibilidade de
criação partidária dada pela ditadura levanta a possibilidade de legalização de novos partidos,
dentre eles o PT. O componente das lutas sociais parece faltar aos relatos. Muito distante do
lugar de memória do ABC Paulista.
Geraldo de Majella vem em uma tônica diferente. Opina que havia sim uma aliança
entre PCB e PT na construção das duas organizações no Estado. Muitas vezes esta aliança
favorecia o PT, através da abertura de caminhos, contatos políticos e possibilidades de
construção, segundo ele como forma de contrarrestar a pressão hegemonista, como assim o
chama, do PCdoB:
"Diante da ferocidade da organização e da própria intolerância do PCdoB numa
política muito ostensiva de hegemonizar e, além da hegemonia tentar deslocar
completamente as outras forças, mais do que deslocar, extinguir as outras forças,
tanto o PT como o PCB, essas duas forças passaram a se alvo do PCdoB aqui
localmente, e acho que em outros Estados também, essa hegemonia procurada à
ferro e fogo ela criou entre as três organizações uma polaridade muito grande. Então,
aonde o PCB chegava e nós não conseguíamos organizar uma base de comunistas a
gente em algum grau a gente passava para o PT. Isso aconteceu por exemplo no
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anádia onde eu fui pessoalmente lá com o Zé
Gomes, com o Stefani Lins Brito, com o Adelmo dos Santos, com a Iara Falcon, na
época era esposa do Stefani, e o José Ibrahim, que tinha sido líder sindical,
metalúrgico de Osasco, famoso líder da greve de 1968. Então fomos a outros
interiores organizar o PT. Onde não podia organizar o Partido Comunista a gente
tentava botar num outro partido de esquerda que seria o PT. Então esse tipo de
relação nós tínhamos naquele momento inicial do PT. O PT nesse ambiente, pela
facilidade que você tinha de não ter nenhum símbolo que carreasse a ira anti-
78
comunista sobretudo no interior do Estado. Diferentemente do PCdoB.O PCdoB
jamais isso aí aconteceu conosco. Nem a nossa relação com eles, muito menos deles
conosco, então do PCB com o PCdoB e do PCdoB com o PCB." (Geraldo de
Majella)
Este momento de coleta de assinaturas não aparece ausente de críticas. Ricardo Coelho
sublinha que discordava de algumas estratégias adotadas, alegando que já no período tinha
críticas ao desenrolar do processo:
Nós fizemos, nós fizemos naquele primeiro momento, contribuímos com a questão
da coleta, com algumas críticas porque... havia uma legislação muito rígida, que
tinha que ter um número xis de filiados, e a direção nacional decidiu que a gente ia
se legalizar e solicitou aos militantes que a gente fosse, é, recolher filiação, e a gente
questionava porque a filiação não tinha nenhuma debate político, era uma filiação
assim... "quem apoiava o PT, você conhece o Lula?, vai apoia?, vamo fundar o
PT...", aí o pessoal... algumas assinavam, outros não assinavam, algumas pessoas
utilizavam de outro instrumento, disseram que não era pra filiação partidária, era pra
campanha de sorteio e aí conseguiu muita filiação, eu sei que eu participei mas eu
participei com uma certa crítica nesse primeiro momento... (Ricardo Coelho)
Ricardo Coelho joga o peso da decisão da busca por filiações para a direção nacional
("e a direção nacional decidiu...") e sua narrativa caminha para uma posição de crítica ao
processo, visto como ausente de debate político, aligeirado.
No depoimento de Alice aparece a história de que algumas filiações foram feitas
alegando-se que não se tratava de filiação partidária e sim de sorteios121. Nesse momento os
relatos também começam a chamar a atenção para um problema que alegavam existir no
agrupamento que viria a fundar o PT em Alagoas: a deficiência na formação política. Para
alguns dos entrevistados essa formação política deficitária inclusive será um dos fatores a
levar o PT a cometer inicialmente alguns erros, conforme veremos mais adiante:
(Risos) Meio hilário... a gente, com a pressão da nacional para a legalização do
Partido, já que nos haviam atribuído o papel de compor o nono estado pra... pra a
legalização, a gente correu feito uns maluco pelo interior, sabe? Na época eu e a
Sandra tínhamos carro, a gente viajava pra esse interior e... inclusive a formulação
política era bastante ainda frágil, havia muita gente de base que não tinha também
clareza do Partido e... teve gente até que era do Sílvio Santos, sabe, coisas assim... É.
121
Segundo os entrevistados, era contada a mentira de que ao assinar a lista de filiação na verdade se assinava
o nome para participar do sorteio de prêmios e brindes, como em programas do "Silvio Santos".
79
Teve um senhor se eu não me engano de Inhapi... algum desses municípios do
Sertão, que ele disse: "Olha eu tô aqui, porque me mandaram vir aqui, mas eu nem
sei praquê é pra tá aqui..."; ou seja, foi assim, meio que aos trancos e barrancos.
Muito embora se o pessoal... que, tava mais na militância constante, né?, conhecesse
mais o programa do Partido. Mas como ele se ampliou com muita...com muita
velocidade, não deu pra... também você pedia atestado de idoneidade política, essas
coisas, né? Mas tinha muita gente de base e a politização ainda era extremamente
frágil. Mas enfim! Eu não me lembro se a gente conseguiu cobrir, o que... a
quantidade de municípios que a legislação pedia, mas que a gente correu por esse
Estado, nós corremos. Tentando corresponder a essa expectativa de ser o nono
Estado pra...mas acho que a gente não conseguiu. Se bem me lembro, acho que não
conseguimos. (Alice Anabuki)
Encontramos outra confluência na narrativa de Alice e Ricardo. A deficiência de
formação política, que segundo eles pesaria na construção política do PT. Um cenário de
politização da militância considerado como altamente frágil, a crítica de uma distância entre
dirigentes e sua base. Esse problema não é uma exclusividade do partido em Alagoas, sendo
destacado por Lincoln Secco como um problema que atormentou o PT durante toda sua
trajetória:
"Uma das debilidades históricas do partido foi a formação política. Isto contribuiu
para o desânimo daqueles que não puderam ou quiseram fazer carreira nas
assessorias parlamentares, executivas, sindicais ou de movimentos organizados.
Afinal, a vida orgânica do partido vinha sendo preenchida pelos 'funcionários',
embora isto não tenha afastado o PT de sua base social, o que mudou foi o
relacionamento com ela."122
O PT delegaria a tarefa da formação, na grande maioria dos casos, a suas alas mais
radicais, aos trotskistas, organizações marxistas, tendências mais preocupadas com a
ortodoxia teórica marxista. Sempre à margem das disputas globais do partido, era uma tarefa
que "sobrava" para os trotskistas e demais correntes da esquerda. Alguns apontamentos
formais eram feitos, como a destinação de 10% da arrecadação do Partido para a tarefa e a
criação da Fundação Perseu Abramo, em 1996.123 Mas nunca se saiu completamente desse
tom marginal. A formação política do PT sempre afetou um número muito reduzido da
militância.
Alice ainda toca no ponto da ampliação do partido, vista por ela como tendo sido
desenvolvida em alta velocidade. O que parece é que a militância local atendeu a uma
122
123
SECCO. Lincoln. História do PT. São Paulo: Ateliê editora.2014p.104.
IDEM.
80
demanda que não cabia ao PT regional, e sim a uma necessidade organizativa nacional. Tal
expansão e ida ao interior, para além de constituir um espaço de vinculação orgânica com os
trabalhadores foi um processo burocrático, uma formalidade com vistas a atender a legislação
partidária vigente.
Adelmo dos Santos também coaduna com esta visão penosa da construção do partido:
Meu amigo! A dificuldade era enorme, sabe? Os caras diziam que... o que tá
acontecendo hoje diziam no passado. Se a gente queria chegar ao poder para mudar
a cor da bandeira do Brasil; que a gente ia... quem tinha duas casas a gente ia tomar
uma casa, né?; que a gente era... ia comer era... que a gente, outra questão que
botava era que a gente... era... queria tomar as terras dos trabalhadores; que a gente
queria implantar aqui uma república sindical, que nós queríamos fazer aqui
guerrilha; que nós éramos financiados por Cuba, tudo isso eles diziam... foi a maior
dificuldade.(Adelmo dos Santos)
Adelmo menciona novamente uma imagem, na consciência da população mais
humilde, de desconfiança com o que seria o projeto petista -- comunista, ou de relação direta
com o satanizado comunismo -- ligado a Cuba, à guerrilha etc. A expressão república
sindicalista124 aparece em seu discurso, conectando-se com o discurso anticomunista
empregado contra o governo João Goulart. Significativo na fala de Adelmo é o trecho em que
ele diz que " ...o que tá acontecendo hoje diziam no passado." Pensamos tratar-se aí de um
gancho importante na construção da memória política petista. Como essas entrevistas foram
realizadas em período de grandes manifestações contra o governo Dilma Rousseff, há a
tentativa, por parte do entrevistado, de criar uma conexão entre as adversidades registradas no
período da fundação do PT e as contradições políticas atuais. Esse movimento da memória é,
para nós, feito com a intenção de reforçar determinada identidade. Pollak explicita que esse
movimento acontece especialmente em situações de intenção política, com a necessidade de
reafirmar as identidades e convicções:
124
Com o avanço dos movimentos pelas Reformas de Base e o fortalecimento das organizações de esquerda,
durante o governo João Goulart, as oposições de direita, lideradas pela UDN (União Democrática Nacional),
Partido do Jornalista Carlos Lacerda, maior liderança do período, juntamente com as grandes redes de
comunicação, propagaram o mito de que o Brasil corria o risco de ser implantada uma "Ditadura Comunista"
ou uma "República sindicalista", comandada pelas organizações de esquerda e líderes sindicais. Era uma
estratégia política que mexia com o imaginário da população assustada com a polarização provocada pela
chamada Guerra Fria, e atiçada na América Latina pela reprovação com que os líderes políticos tradicionais
tratavam Cuba e o regime político ali instaurado após a revolução liderada pelos irmãos Castro e Che Guevara.
81
Gostaria de enfatizar que, quando a memória e a identidade estão suficientemente
constituídas,suficientemente
instituídas,
suficientemente
amarradas,
os
questionamentos vindos de grupos externos à organização, os problemas colocados
pelos outros, não chegam a provocar a necessidade de se proceder a rearrumações,
nem no nível da identidade coletiva, nem no nível da identidade individual. Quando
a memória e a identidade trabalham por si sós, isso corresponde àquilo que eu
chamaria de conjunturas ou períodos calmos, em que diminui a preocupação com a
memória e a identidade. Se compararmos, por exemplo, países de antiga tradição
nacional, países que são Estados nacionais há muitos séculos, com Estados nacionais
recentes, veremos que a preocupação com a identidade e a memória toma feições
bem diferentes nos dois casos. Poderíamos tomar como objeto de análise a
correlação, em períodos de longa duração, entre a rearrumação das relações entre
países em momentos de crise ou de guerra, e a crise da memória e do sentimento de
identidade coletiva que frequentemente precede, acompanha ou sucede esses
momentos.125
Tomando o caso desses relatos, podemos dizer que há uma preocupação em revisitar o
passado de maneira a afirmar o PT, justificar o presente. Estes que hoje bradam contra o
governo Dilma dizem o mesmo que se dizia quando o PT lutava para se fundar. É como se, ao
associar o inimigo atual -- O PMDB, o atual governo Temer, o PSDB e demais partidos que
se opõem ao PT, mas também aqueles que são contrários ao Partido e associam a organização
ao que se tradicionalmente entende como esquerda -- com aqueles que apoiavam o regime
militar nos anos 1980, a certeza das posições atuais do Partido estivessem asseguradas.
Aqueles que discordam do PT -- estejam em qual matriz política estiver -- necessariamente
endossassem forças políticas conservadoras, reacionárias. E como estava correto o PT no
passado, em lutar contra a ditadura, estaria agora, opondo-se a estes partidos e inimigos
políticos. A partir desta operação de igualar os adversários distintos, de distintos momentos
históricos, fortalece-se uma determinada identidade política. Operação de memória que aí
mantém a identidade coletiva intacta.
Outro depoimento de Adelmo corrobora a declaração anterior e o movimento narrativo
a que aludimos:
As... as organizações de direita, eles trabalhavam e sempre trabalharam, continuam
trabalhando contra o Partido dos Trabalhadores.Eles procuravam divisionar, colocar
para os trabalhadores, principalmente pros trabalhadores rurais, que a gente queria
implantar no Brasil uma república sindical; queria implantar no Brasil é, um, é... um
país socialista, né?, onde a gente era financiado pelo dinheiro do nosso povo, era
financiado pela CIA, isso a direita sempre colocava isso para os trabalhadores, e
muitos trabalhadores que se aproximavam da gente, a gente uma reunião numa
cidade, num sindicato numa associação... uma reunião primeiramente com
participação expressiva dos trabalhadores, nós marcávamos uma próxima reunião e
quando chega nessa próxima reunião não havia ninguém para participar, pra
125
Pollack. p.7
82
participar da fundação do Partido nem para ouvir a proposta do Partido...(Adelmo
dos Santos)
O narrador insiste na continuidade em seu relato, entre um antes e um agora: "as
organizações de direita, eles trabalhavam e sempre trabalharam, continuam trabalhando contra
o Partido dos Trabalhadores." O PT é a organização da esquerda, forjada na luta contra as
organizações de direita que "sempre trabalharam continuam trabalhando..." para sua
destruição. O atual contexto de Onda conservadora e ascensão da direita126 traria à tona forças
que já existiam nos primórdios do PT e que sempre foram suas adversárias. A identidade
política do partido está, nessa operação, reafirmada.
Visão bem diferente do peso deste imaginário anticomunista terá Geraldo de Majella.
Na opinião de um dirigente que construiu o partido que encarnava toda a rejeição ao chamado
marxismo-leninismo e seus símbolos o PT apareceria como um partido de imagem moderada
e de relativamente fácil penetração em comparação com a iconografia vermelha comunista
com suas foices, martelos e desenhos de traços duros e severos:
" Em Alagoas o PT em um certo sentido ele partia na frente porque ele tinha
uma sigla que não, tinha sigla e não símbolo, e tem um símbolo que não atraía o
anticomunismo como barreira tanto de campanha anticomunistas, você não acusava
o PT de ser mais um partido comunista mas era um partido de trabalhadores, então
isso facilitava pra você ir pro interior, para o movimento sindical, pra você recrutar
militantes no ambiente de igrejas, né?" (Geraldo de Majella)
O PCdoB, sob o guarda-chuva do PMDB, teria se protegido também dessa fúria contra
o imaginário comunista, apoiando o MDB em Alagoas, como em todo o Brasil:
"O PCdoB ele se organizou e tinha a bandeira do PMDB como um escudo
muito bom, que foi o que facilitou muito né e o PCB ficou um tempo em torno da, já
mermo na campanha, de abrir uma campanha de legalização do PCB, coisa que o
PCB só veio a tratar dessa questão nacional algum tempo depois, e nós desde o
começo a gente quis afirmar a identidade comunista aqui em Alagoas que hoje
vendo acho que não foi uma boa estratégia de comunicação. Todos os nossos
símbolos eles são símbolos que eram que causavam alguma repulsa na população de
modo que o comunismo ainda era muito forte, como ainda hoje, ainda é um, bem
126
Para uma discussão sobre a atual conjuntura, ver: http://blogjunho.com.br/reflexoes-sobre-a-ascensao-dadireita/. Acessado em 23/07/2016. 00:36.
83
diferente do passado mas ainda há uma resistência muito grande" (Geraldo de
Majella)
Claro que aqui há o peso de uma outra perspectiva, certamente muito mais atingida
pelo peso desse conservadorismo disseminado na sociedade. Porém, negar as dificuldades da
construção do PT nesses interiores parece não coadunar com os demais depoimentos. Cabe
notar ainda que o PCB também passou pelo calvário da requisição de assinaturas para
regulamentar seu partido, nesse mesmo cenário adverso que o PT se embrenhou. Em suas
memórias, Geraldo de Majella registra:
"Pelo simples fato de um cidadão se filiar ao Partido, invariavelmente essa
pessoa sofrerá algum tipo de perseguição. Representa uma grande possibilidade de
perder o emprego. Essa constatação, que demorou um certo tempo para ficar clara
nas conversas com os amigos, levou tempo, só compreendida por mim depois de
várias idas e vindas a Anadia."127
A solução por esses problemas, pelo menos da parte do que Majella registra em seus
diários, seria por meios controversos, não ortodoxos e inesperados. Se os quadros históricos
do PT nas memórias que registramos falam até de concursos fictícios para requisitar
assinaturas, Majella, em seus diários, conta até mesmo uma história, que tem ares de chiste e
misoginia, em que preenche a lista mínima de assinaturas para filiação no município de
Anadia com a assinatura de prostitutas...128
2.7 O PAPEL DA IGREJA CATÓLICA
Se o movimento operário cumpria papel de grande importância na fundação do PT,
bem como as organizações de esquerda clandestinas em combate contra a ditadura trotskistas, sobreviventes da guerrilha etc. -, também é preciso dar destaque ao papel que
cumpriram as alas progressistas da Igreja Católica, à época fortemente influenciadas pelas
ideias da teologia da libertação129, que propunha a aliança entre valores cristãos com valores
marxistas. Graças à ação de um ativismo construído por meio das comunidades eclesiais de
base, CEB's e posteriormente com a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
127
MAJELLA. Geraldo de. Cadernos de Militância, p. 195
IDEM, p. 196.
129
Sobre
a
relação
entre
Marxismo
e
teologia
da
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64451989000400002>.
17/10/2016.
128
libertação
Acessado
Cf.
em
84
(CNBB) a Igreja passaria gradativamente de sua posição inicial de apoio à ditadura para uma
postura crítica ao regime militar, agravada pela fratura econômica imposta ao país pela crise
do "milagre".
As narrativas divergem no que concerne ao papel da Igreja Católica na fundação do
PT em Alagoas. Enquanto Alice Anabuki diz que não houve absolutamente nenhuma
participação da Igreja, o que destoaria da articulação do PT nacionalmente, muito conectada
aos setores progressistas da Igreja, Adelmo dos Santos ressalta a presença da Igreja e o auxílio
que deu especialmente no interior, abrindo portas que até então seriam inacessíveis. A
impressão que temos, comparando os relatos, é de que talvez no meio urbano a Igreja não
tenha se envolvido tanto, tampouco tomado parte nas diretorias e órgãos internos, mas se fez
presente nas conversas e articulações política mais informais, mas também importantes para a
construção do Partido:
A gente foi... a igreja naquela época teve um papel fundamental. A igreja foi
fundamental na construção, na fundação do PT aqui em Alagoas. É... nós tínhamos
também um pessoal do movimento sindical que era muito bom. Movimento
estudantil. Profissionais liberais, né? A gente teve um crescimento muito bom no
Sertão graças ao apoio dado por padres franciscanos, padres que veio de
Pernambuco para fundar o PT no Sertão... eu poderia citar Inhapi, Canapí, Santana
do Ipanema, Delmiro Gouveia, é... Olho D'água das Flores, Arapiraca... enfim,
nessas cidades aí nós tivemos apoio de setores da igreja, Setores da Igreja, não toda
igreja. (Adelmo dos Santos)
Adelmo conclui o relato frisando que eram apenas alguns setores da Igreja, cremos
que até mesmo não majoritários. Adelmo inclusive analisa como a relação com a Igreja estaria
articulada também com a luta pela terra, o surgimento do Movimento Sem Terra e que
atualmente há um prefeito que veio dessa relação:
Ah sim, sim, sim. Nós tivemos não toda a igreja mas alguns padres da igreja que
ajudaram a construir tanto a CUT como o PT. Nós conhecemos um padre de
Delmiro Gouveia, que depois foi para a cidade de Santana do Ipanema, Padre José
Augusto; contribuiu... contribui muito na formação do PT e da CUT, na fundação do
PT e da CUT; conhecemos um padre daqui () poderemos chamar de Padre Luís (),
que também deu uma contribuição muito boa, para a fundação do PT; lá em Inhapi,
padres que vinham lá de Pernambuco, já que Inhapi praticamente faz fronteira com
Pernambuco, eles contribuíram muito na fundação do PT. E lá em Inhapi além da
gente fundar o PT, lá foi onde começou a primeira discussão do movimento
trabalhadores sem terra, né? A gente foi lá que começou a discussão e começaram as
primeiras ações do MST. E hoje, Inhapi, aonde foi que começou essa luta dos
85
trabalhadores e nós fundamos o PT, hoje o Partido dos Trabalhadores tem o seu
prefeito lá, José Cícero da Silva; José Cícero ele é do sindicato, participou da
fundação do PT, hoje é prefeito da cidade de Inhapi. (Adelmo dos Santos)
Corroborando a visão de Adelmo, Ricardo Coelho salienta que não toda a Igreja, mas
um pequeno setor assumiu a defesa da construção do Partido dos Trabalhadores e teve alguma
importância no seu desenvolvimento nos primeiros anos:
A...tinha, a igreja católica teve alguns segmentos, na época a Teologia da Libertação
tinha uma certa força, e ela incentivou setores da Pastoral Universitária, da Pastoral
Operária, setores de CEB's, algumas comunidades eclesiais de bairros, de alguns
bairros e alguns municípios como Cajueiro, como Atalaia, como Pilar, Viçosa... esse
pessoal tinha um movimento de comunidades eclesiais de base forte, esse pessoal
também entrou no PT e ajudou a organizar o Partido. A participação da igreja
católica naquele momento foi muito importante. (Ricardo Coelho)
No relato de ambos fica patente que o que existe de Igreja está relacionado à
organização do PT no meio rural. Nas narrativas não há registro de presença considerável da
Igreja na vida urbana. Tutmés Airan chama a atenção para a relação que setores ligados à
Igreja desempenharam no movimento universitário. Porém, sua visão parece muito mais
ligada aos movimentos urbanos e por isso não há nenhum comentário sobre a relação que a
Igreja desempenhou em cidades do interior, como aparece na fala de Adelmo dos Santos. A
fala de Tutmés se limita à relação existente entre Igreja católica e movimento estudantil:
É, na verdade, veja... essa era uma dificuldade que nós temos porque na verdade a
igreja em Alagoas nessa, pelo menos nessa época, ela não tinha muito esse papel de
destaque, entende? Não, não havia assim, como havia em outros Estados, não havia
assim um... um... uma igreja com militante... não é?, A... a grande maior parte da
igreja era a igreja conservadora, né?, fruto de bispos conservadores que passavam
muito longe por exemplo de... de um Helder Câmara, né? De um Evaristo Arns, né?
De um Pedro Casaldaliga, lá de... né?, lá do Norte, né? Não, não não... nos primeiros
tempos não foi uma igreja que tenha contribuído muito, agora é interessante que...
ela contribuiu assim, que CEB de movimento estudantil, porque havia duas
organizações das igrejas ligadas ao movimento estudantil que era a... parte das
igrejas protestantes era ABU, aliança bíblico-universitária e tinha também a parte
do... da igreja católica que era militante, bastante militante, eu me lembro que quem
nos ajudava bastante, nunca teve muita militância partidária, mas nos ajudou
bastante foi a Valéria que hoje é reitora da universidade, né? Ela era vinculada à esse
movimento de igreja, igreja católica... que, é... enfim, articulava um movimento na
universidade, né? E sempre teve muito próxima de nós, né? Não só ela como todo o
movimento, é... católico universitário, né? Também muita gente boa na época, né?
Essa foi a contribuição que a igreja deu nesse momento inicial, mas em relação aos
jovens, enfim, ao ingresso de jovens dentro do PT, do que propriamente assim à
86
uma, à uma, à uma... igreja que tivesse claro o seu papel, né?, no cenário político
alagoano. (Tutmés Airan)
Por todos esses relatos, o papel da Igreja na cidade de Maceió parece ser incipiente.
Por fim, a posição de Alice Anabuki, a mais distante da visão trazida por Adelmo dos Santos.
Para Alice não houve contato com a Igreja Católica na construção do PT:
Não, aqui, que eu me lembre, não. A principal base era o movimento sindical. Seja
sindicato dos trabalhadores rurais de Atalaia, sindicato dos trabalhadores rurais de
Inhapi, deixa eu ver que mais... se não me engano Água Branca... porque como
éramos pouco a gente dividia o Estado, quem ia pra cá, quem ia prac... que eu me
lembre era mais a base sindical, mas igreja mesmo, eu não me recordo...(Alice
Anabuki)
Poderíamos dizer que Alice, também conectada à militância urbana, subtrairia a
importância das igrejas por não estar inserida no meio rural. Mas o fato é que no parágrafo
anterior são citados vários sindicatos rurais. Então, por que Alice não recorda da presença de
setores da Igreja? Sabemos que o esquecimento também é parte do trabalho da memória.
Muitas vezes, o esquecimento não é um ato de má-fé daquele que recorda, mas um artifício da
memória para dotar de mais coesão aquilo que é narrado. Alice, talvez no ritmo de uma
narrativa que ressalta o caráter classista, independente politicamente da burguesia, operário,
subtraia de sua narração aquilo que poderia soar como contradição, justamente a presença da
Igreja Católica. Como afirma Pollack, toda memória é seletiva.130 Portanto, o esquecimento
de Alice tem relação com uma identidade que subtrai a importância da Igreja por uma
operação de coerência interna do relato.
2.8 OS NÚCLEOS
Desde o surgimento do PT seu funcionamento era intentado através do que a militância
política chamava de núcleos de base131. Segundo Secco, estes tinham menos relação com as
células dos Partidos comunistas e assemelhavam-se muito mais às estruturas das comunidades
eclesiais de base. O autor também aponta que para muitos sindicalistas os núcleos serviam
como ferramenta para limitar a influência das organizações de esquerda e eram muito
distintos a depender do local em que a célula era instalada:
130
Pollack. ver página.
Cf. Lincoln SECCO, em um boletim da época, os núcleos eram definidos como "a veia por onde passa a vida
do PT" APUD SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Editora Ateliê, 2011. p.78.
131
87
Os núcleos do PT não eram uma herança das células comunistas e nem das seções
socialistas. Em parte eles mimetizaram as CEBs e foram a expressão política de uma
organização popular originalmente religiosa. Isto se comprova pela mistura de
círculos de estudos, discussões e organizações de ações locais que substituíam
muitas vezes carências da população.132
Os núcleos serviram também durante largo período como uma ferramenta de controle
das bases sobre a direção; serviram como entrave a processos de burocratização, eram espaços
de debate, emissão de opiniões, polêmicas e escoamento de ideias. Porém, engana-se quem
pensa que os núcleos cumpriram um papel prioritário na organização do PT.
Secco chama atenção para o fato de que a direção do PT, utilizando-se do argumento
da legalização do Partido, já que a legislação eleitoral não permitia a existência de núcleos de
base e sim outras instâncias, trabalhou para a sua dissolução. Os núcleos nunca organizaram
mais do que 5% do Partido.133
Por outro lado, se permanentemente travaram-se debates sobre a natureza dos núcleos
e sua importância, eles nunca desapareceram completamente. Com funcionamento irregular,
seguiu como foco de debate importante até o terceiro congresso 134, após o qual foi definhando
politicamente.
Correlata aos núcleos estava a proposta dos conselhos populares. Os conselhos seriam
órgãos de poder que se instaurariam nos bairros e cidades mais distantes para auxiliar os
governos do PT, resguardar seu programa e manter a firmeza ideológica dos princípios
petistas. Em um país de dimensões continentais como o Brasil e com as inúmeras
possibilidades de desvio do programa petista de seu curso rumo a um viés mais conservador,
os conselhos guardariam a função de: "apresentação de reivindicações; mecanismo de
consultas; tomada de decisões; controle da implantação de políticas públicas; e fiscalização da
execução dessas políticas."135
132
SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Editora Ateliê, 2011.p.78
O panorama em 1980 era mais ou menos o seguinte: "Alguns documentos aludiam a 626 núcleos em todo o
país outros a um número um pouco menor. De toda maneira, eles englobavam 28 mil filiados. Em 1982 havia
cerca de mil núcleos." SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Editora Ateliê, 2011.p. 80.
134
CF, IDEM,p. 86
135
IDEM, p.90.
133
88
Abordando os núcleos de base, e resgatando a consideração de Anabuki sobre o
fracasso da experiência dos núcleos, vemos que aqui há também interpretações
consideravelmente divergentes. Tutmés, em sua fala, revela mais questionamentos e ceticismo
à experiência dos núcleos de base:
Absolutamente residuais. Não tinham assim... Mesmo porque o PT como um todo
não tinha essa, esse enraizamento, em consequência os seus núcleos não tinham, é...
muita existência viva, né? Pulsante, né? A gente tentava, tentava, tentava, mas
esbarrava sempre na falta de enraizamento inicial que a gente tinha, né? E isso tudo
era muito novo, também, né? Fazer política desse modo era uma novidade muito
grande, né? Precisava, inicialmente precisava até entender como é que era, né? Mas
a ideia era, a ideia sempre... a ideia inicial era essa, né?, fazer a política a partir de
núcleos, né? Núcleo dos bancários; núcleo dos urbanitários... Na prática isso aqui no
Estado, aqui em Maceió pouco aconteceu, né? Pouco aconteceu. Acho que a grande
virada do PT foi efetivamente a partir da... da eleição de Ronaldo Lessa e Heloísa.
Aí sim o Partido ficou, assim, com cara e jeito, né?, no PT que a gente sempre
sonhou em construir, né? Até então, era uma luta, né? A luta pra implantar uma
novidade, uma luta inicial pela legalização, como eu já narrei, né? Enfim, pra
encorpar o Partido, foi sendo encorpado, né?, a partir das Diretas Já! (Tutmés Airan)
A palavra "enraizamento" pode nos fornecer uma pista interessante dentro da memória
construída por Tutmés. Ela se entrelaça com outros relatos no sentido em que há a
transmissão da ideia de que ainda que houvesse a presença de dirigentes e lideranças sindicais
não havia a presença de número expressivo de trabalhadores de base dispostos a construir a
organização. Não há ainda a força política que se creditará ao futuro da organização no
Estado, onde o PT é uma agremiação que participa das Eleições, toma parte nos governos.
Esse futuro mais interessante do ponto de vista político será jogado para depois das Diretas.
Em todas as falas há um contraste na memória sobre a experiência petista dos anos 1980 e
aquela posterior ao movimento das Diretas até a entrada nos anos 1990. O Partido só
começaria a se desenvolver significativamente, dentro da narrativa de Tutmés, após a
experiência das Diretas e o crescimento eleitoral do Partido ao longo dos anos 1990. Esta
visão vai aparecer em outros relatos.
Retomando a visão sobre os núcleos, o que vemos sim nessa fala é um tom
desacreditado da proposta petista de organização por núcleos de base aqui no Estado. Alice
Anabuki e Adelmo dos Santos falam sobre o funcionamento dos núcleos com um tom mais
positivo. Embora esse tom positivo seja mais vago, apenas registrando a existência de núcleos
na capital e no interior, sem muitos detalhamentos:
89
Ah, vários. Tinha Inhapi, tinha Atalaia... tinha em... Santa Luzia... Santa Luzia...
Santa Luzia... hum... tinha Palmeira dos Índios, Arapiraca... é, tinha vários
municípios, sim. (Alice Anabuki)
Haviam, haviam... havia... os núcleos de bairros, núcleos por categorias... esses
núcleos eles participavam os filiados do PT... nós tínhamos, é... o núcleo dos
urbanitários, núcleo radialistas, núcleo dos rodoviários, núcleos dos ferroviários,
núcleo da construção civil, núcleo da universidade... ou seja, a gente tinha, cada
categoria tinha os núcleos, que era uma espécie de... era um fórum de discutir a
questão das categorias, a questão dos bairros, era importante sim... (Adelmo dos
Santos)
Havia também, haviam... em muitas cidades, núcleos dos sindicatos... sindicatos
rurais de Delmiro Gouveia, Craíbas, Inhapi... sindicato, ahn, é... Palmeira dos Índios,
lembro perfeitamente disso... cidade de Campo Alegre, Campo Alegre, né...
também... existiam esses núcleos nas categorias, dos sindicatos, que eram
reconhecidos pelo Partido... no começo foi assim..." (Adelmo dos Santos)
Embora Adelmo e Alice enumerem alguns núcleos partidários, a visão de Tutmés de
que os núcleos eram absolutamente residuais parece fazer mais sentido com o que foi de fato
a organização por núcleos, que nunca teriam congregado nacionalmente mais do que 5% da
militância partidária.136
2.9 A COMPOSIÇÃO INICIAL DO PT
O PT desde seu surgimento agruparia dirigentes e militantes oriundos de fora do
proletariado. Estudantes, trabalhadores do setor de serviços, funcionalismo público,
trabalhadores rurais. O PT era um Partido que, ao passo que se constituía buscando o
trabalhador produtivo como prioridade, era socialmente diverso. Vimos que Alagoas
acompanhou essa identidade nacional. Embora nesses primeiros anos tenha tido uma
dinâmica ainda muito lenta de desenvolvimento.
Concluímos este capítulo constatando que a formação do Partido se dá em torno de
três segmentos sociais: Os dirigentes sindicais; os militantes oriundos do movimento
estudantil; militantes que trabalhavam no funcionalismo público; e intelectuais.
Em um nível secundário, temos a presença de setores de esquerda católica e dirigentes
de sindicatos rurais. A partir destes grupos sociais o PT foi se formando em Alagoas.
136
SECCO. p. 82.
90
Por fim, dois problemas que vão acompanhar o partido dos trabalhadores nesse
primeiro momento precisam ser tomados aqui como uma problemática nacional da
agremiação. O primeiro deles é o problema das finanças. Diversos trechos dos relatos
apontam para uma escassa possibilidade financeira do PT. Esse fato se altera somente no final
dos anos 1980. Isso se deve à ausência do que vai se constituir como a principal fonte de
renda de manutenção do PT: as verbas vindas dos mandatos e o fundo partidário. Lincoln
Secco debruça-se sobre o problema:
"O PT sempre foi dependente do fundo partidário e das contribuições
estatutárias. As receitas próprias derivadas de venda de material, doações e
arrecadações em eventos também foram importantes. Como a legislação proibiu que
os sindicatos colaborassem com o partido, as finanças oficiais originavam-se mesmo
dos cargos de confiança e dos parlamentares. É evidente que ninguém pode ser
inocente e esquecer que os partidos brasileiros usam o chamado "caixa 2" e que
recebem contribuições não contabilizadas num montante significativo. Com o PT
provavelmente não seria diferente, embora no caso dos outros partidos uma parte
também significativa é dirigida ao enriquecimento pessoal de líderes partidários". 137
Excetuando o ano de 1989, marcado por uma forte eleição presidencial que alçou o
nome de Lula à possibilidade da presidência, as finanças partidárias sempre vieram
majoritariamente desse setor destacado por Secco.138
Esse caráter confuso, aparentemente tão raquítico e disperso, também não é uma
exclusividade do PT alagoano. A adversidade de penetrar nos rincões, interiores e territórios
do Brasil profundo desconhecidos da militância de classe média, universitária, sindicalista e
majoritariamente urbana foi um problema de todo o país. Ainda conforme Lincoln Secco:
"Em seus anos primaveris aqui narrados a formação do PT parece errática. É
que o partido nasceu num solo histórico caracterizado pela dispersão, pelas lonjuras
fatigantes, pelas dificuldades de comunicação e por violências assustadoras. Impor
uma direção política coerente e única foi uma tarefa difícil e incompleta. Diante
dessa complexidade o historiador muitas vezes se limita a multiplicar os exemplos
quando se espera dele o ensaio de conclusões. É que aquele partido que buscava sua
vez e voz na vida brasileira só começaria a ser ouvido depois da ameaça de uma
verdadeira revolução democrática que de 1984 a 1989 sacudiu o país, embora não o
suficiente."139
137
SECCO, Lincoln.História do PT.São Paulo: Ateliê editora. 2011. p. 106.
Idem.
139
Idem, p. 76.
138
91
Sendo assim, o PT em Alagoas acompanha esse desenvolvimento errático aludido pelo
historiador. Mas guardadas as devidas proporções, o crescimento, que de fato se observará no
Estado também após o período de lutas democráticas assinalado, operará de forma muito
menor no Estado.
92
3 CAPÍTULO 3 - DAS ELEIÇÕES DE 1982 ÀS DIRETAS JÁ!
Neste capítulo analisaremos duas grandes intervenções políticas do PT na realidade
brasileira. A intervenção do PT em 1982, nas eleições municipais e sua participação na
campanha das Diretas Já. Simultaneamente, seguiremos acompanhado o Partido em Alagoas
através da memória individual de alguns dos militantes que estiveram engajados nestes
momentos.
A escolha destes dois momentos políticos não é fortuita. As eleições de 1982
representaram um movimento importante no contexto da abertura, e a frustração do PT
alagoano em não tomar parte desse processo será observada. Em signo oposto ao dessa
frustração está o fenômeno das Diretas. Investigaremos o que significou para o Partido
regionalmente o movimento cívico de grandes proporções que questionou a transição proposta
pelo regime militar.
3.1 AS ELEIÇÕES DE 1982
No ano de 1981 o PT aparecia como um Partido organizado em 21 Estados, e no ano
seguinte lançaria candidato a governo em todos eles, exceto Alagoas. Se assinalamos que em
sua formação estavam como linhas dominantes o "novo sindicalismo", as alas progressistas da
Igreja Católica e as organizações clandestinas de esquerda, cada Estado iria ter uma "cara"
própria e uma formação diferente. No Acre, por exemplo, foi fundamental a ação da
militância seringueira ligada à figura de Chico Mendes. Em alguns Estados a presença do
Partido era muito forte nas cidades do interior, em outros Estados, a presença era
predominante na capital e se espalhava para o interior a duras penas.
Podemos considerar que a primeira grande prova de fogo para o Partido dos
Trabalhadores foram as eleições de 1982. O PT lançaria candidatos em diversos municípios
de país e cumpre assinalar que distintas avaliações surgiriam deste processo, a depender da
posição de cada tendência e agrupamento dentro do PT.
O fato é que a eleição de 1982 não provocou muitas mudanças no cenário polarizado
entre a ARENA, cuja tradição era mantida pelo novo PDS, e MDB, cujo sucessor era o
PMDB. Nas disputas para a Câmara Federal o PT emplacou 8 parlamentares, cifra que foi
93
considerada decepcionante para a maioria dos entusiastas do Partido.140 O mérito do PT
estaria na conquista de sua estruturação em quase todos os Estados, exceto Alagoas. 141 Tal
fato é de vital importância para nossa pesquisa e avaliaremos melhor o porquê desta falha
organizativa em Alagoas no próximo capítulo.
No terreno das vitórias para o executivo o PT vencia a prefeitura de Diadema e de
Santa Quitéria, no Maranhão. A vitória de Diadema tem relação com a militância do ABC e a
importância política do movimento sindical que transfere-se para o PT. O Prefeito Gilson
Menezes porém terminaria retornando ao PSB, seu Partido de origem, após conflitos com a
direção do Partido dos Trabalhadores, ancorado em discordâncias na condução da Prefeitura.
Em Santa Quitéria a situação não foi muito melhor: o candidato eleito, Manoel da Silva
Costa, ingressara no PT apenas por não ter conseguido espaço no PDS e se desfiliaria do PT
apenas um ano depois de eleita, sem muitas concordâncias ideológicas com o Partido.142
Pressionados pelo que era avaliado como uma derrota, dentro do desempenho eleitoral,
o PT elegeu como tema central de seu II Congresso Nacional o balanço das eleições de 1982.
Voltando-se contra o perfil construído até então pelo programa do Partido, baseado nos ideais
do socialismo e da independência de classe, a ala mais conservadora do Partido optou por
uma feroz crítica, culpabilizando este perfil pelo baixo desempenho eleitoral. Estas discussões
se seguiriam dentro das fileiras do Partido dos Trabalhadores e dividiriam o Partido entre os
militantes de esquerda considerados mais "radicais" e a direção majoritária do PT, que se
agruparia como a tendência chamada "articulação dos 113", composta por sindicalistas
"autênticos" e intelectuais próximos a Lula e estes sindicalistas:
Diante do balanço derrotista das eleições de 1982, os setores mais conservadores do
Partido passaram a se chocar com o perfil de campanha eleitoral adotado, suas claras
referências classistas e o seu diálogo com o socialismo, em função da pecha de
'radical' comumente explorada pelos adversários, que repelia a classe média e um
amplo setor explorado pouco politizado. Lemas como o 'vote no 3 que o resto é
burguês' e 'trabalhador vota em trabalhador' começaram a sofrer os primeiros
questionamentos. E o resultado do acirramento produziu a iniciativa dos chamados
sindicalistas de criar a articulação dos 113,uma tendência organizada que aglutinou
o grupo dos sindicalistas mais influentes no PT e os setores moderados do Partido
(principalmente os ligados à igreja) para se enfrentar com a ala esquerda e os grupos
140
Cf. REIS, na disputa dos governadores o PDS venceu por pequena folga, com 12 representantes contra 9 do
PMDB. Na Câmara federal o PDT faria 23 deputados, o PTB treze o PDS 235 e o PMDB 200 REIS, Daniel Aarão.
Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. p.140.
141
NETTO, José Paulo. Pequena História da ditadura brasileira. São Paulo: Cortez, 2014, p.234.
142
SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Editora Ateliê, 2011, p.54
94
revolucionários - sempre se apresentando para aglutinar em torno de si os 'petistas
independentes' como aqueles que 'vestem a camisa do Partido' e não os que possuem
suas organizações para 'impor ao PT suas teses. 143
Esta posição obviamente não é nem nunca foi unânime. Afinal, para um Partido recém
criado, o resultado era realmente interessante. Para muitos analistas, as expectativas iniciais
do PT é que eram ambiciosas demais.144 Cumpre lembrar que nas eleições de 1982, o PT se
deparava concretamente com seus adversários dentro do campo da esquerda. Os Partidos
Comunistas acusavam a criação do PT de "dividir as oposições", estando fora do MDB;145 o
socialismo moreno de Brizola, que aparecia como alternativa para muitos trabalhadores
através de simbologias que resgatavam o ideário trabalhista146 e o próprio MDB que era ainda
o principal Partido de oposição.
Vemos então que as eleições de 1982 serviram para acirrar os conflitos internos dentro
do PT, forjando a tendência "articulação dos 113", na verdade desde o princípio o grupo mais
forte e articulado dentro do PT. Se os conflitos de interesses e visões de mundo distintas
sempre existiram, começaram a se mostrar mais claramente para todo o conjunto de militantes
do Partido dos Trabalhadores. A Articulação lançaria então um manifesto em 1983 declarando
suas intenções frente ao PT e no terceiro encontro nacional do PT (III ENPT) em 1984 se
firmaria como direção política majoritária do Partido.
3.2 A AUSÊNCIA NAS ELEIÇÕES DE 1982 EM ALAGOAS
O PT não consegue o número mínimo de filiações para obter o diretório Estadual e
com isso não participa das eleições em 1982 dentro do Estado de Alagoas. O balanço que
cada um dos entrevistados faz sobre o fracasso diverge em alguns pontos específicos, mas
todos concordam que foi danoso para o Partido não participar das eleições e uma perda
política importante nesse primeiro momento. Todos concordam com a frustração que se
143
CHAGAS, Juary. Nem classe trabalhadora, nem socialismo - O PT das origens aos dias atuais. São Paulo:
Sundermann, 2014. p.86
144
"O PT elegeu oito deputados federais, 12 estaduais e 117 vereadores em todo o país, além de alcançar
importantes votações para os governos dos estados, destacando-se a votação de Lula, embora derrotado, para
o governo do Estado de São Paulo." REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à
constituição de 1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. p. 511-512
145
REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de
Janeiro: Zahar, 2014. p. 508
146
O jornal Em Tempo, órgão da corrente Democracia Socialista, travou diversas polêmicas com Brizola e seu
socialismo moreno, dentro do contexto destes embates pela influência do movimento operário.
95
abateu sobre a militância. Adelmo opina que há inclusive um componente ideológico nesse
fracasso:
...a gente tinha que ter dezenove cidades para ter o diretório Estadual. A gente
conseguiu esse índice, só que perdemos, fomos barrados no tribunal regional
eleitoral que alegava que nossa documentação não tava completa. Acho que foi mais
por questões ideológicas mesmo. E a gente não fez, em 80, não participou das
eleições em 82, mas participamos das eleições seguintes, e até hoje nós estamos aqui
em Alagoas. (Adelmo dos Santos)
Observa-se a insistência de Adelmo em um componente ideológico externo ao PT para
legalizar o Partido. O dirigente político afirma que o índice foi obtido, mas o Partido dos
Trabalhadores foi barrado no Tribunal Regional Eleitoral por questões ideológicas. Adelmo,
reiteradamente opinando que havia adversários ideológicos anti-petistas, apazigua em sua
memória o fracasso do partido, transferindo a responsabilidade dessa derrota em um "outro",
um inimigo do PT. Ricardo Coelho discorda da avaliação de Adelmo e afirma que o número
mínimo de assinaturas não conseguiu ser obtido. Ele afirma que mesmo não abrindo o
diretório os militantes do PT deram apoio a outras candidaturas alinhadas aos interesses
populares:
Infelizmente não, porque havia uma exigência de um, de organizar um mínimo de
diretórios, se eu não me engano eram vinte na época e nós não conseguimos
organizar os vinte diretórios, organizamos só dezesseis, e por isso o Partido de 82,
em 82 o Partido não participou das eleições aqui em Alagoas, eu acho que só quatro
Estados, não me lembro bem, não teve participação do PT, foi aqui, Roraima e o
Acre, não o Acre já houve, alguns Estados lá do norte e... um... Mato Grosso, mas de
modo geral é... Alagoas não participou de modo geral não, Alagoas não participou
das eleições de 82, o PT, alguns... alguns militantes foram apoiar candidatos
chamados da Frente Popular dentro do PMDB, que eram ligados ao PCB, ao PCdoB
ou que eram de esquerda independente como Ronaldo Lessa, Selma Bandeira que
tinham vindo de outras organizações de esquerda da época da ditadura e... a maioria,
uma boa parte, também não apoiou ninguém, defendeu voto nulo. Mas nós não
participamos das eleições de 82 foi uma das nossas grandes frustrações, aqui em
Alagoas na criação do Partido foi não ter participado das eleições de 82. (Ricardo
Coelho)
Vemos um choque entre memórias individuais claro. Não há convergência entre as
avaliações. Enquanto Adelmo credita a uma conspiração ideológica a não regulamentação do
Partido, Ricardo Coelho afirma que simplesmente não se efetivou a constituição do mínimo
96
de diretórios efetivados, o que não impediu que diversos militantes construíssem
individualmente candidaturas do PCB e do PCdoB, o que revela que essa rivalidade acirrada
no movimento narrada anteriormente poderia ser suspensa em nomes de alianças episódicas.
Curiosamente, Alice Anabuki, quando questionada se a militância do PT participou de
alguma outra campanha, para algum candidato de outro Partido, responde apenas que "não,
não", e disse que: "... a gente sempre se manteve um pouco fiel à política de independência de
classe." Aqui opera mais uma vez um esquecimento que corrobora com a visão do Partido
"classista", "puro ideologicamente". Mantendo-se fiel à independência de classe, na memória
de Alice o PCB e o PCdoB, ligados ao MDB não poderiam ter sido apoiados. Mais uma vez, a
coerência narrativa é mantida em nome de uma identidade política.
O depoimento de Adelmo dos Santos, porém, encontra-se com o de Ricardo Coelho
em diversos pontos. Divergindo da narrativa apresentada por Alice de que os militantes
petistas não se engajaram em nenhuma campanha eleitoral:
É, em 82 a gente, é... não conseguiu, é, legalizar o Partido junto à justiça eleitoral.
Eram necessários quinze... dezenove diretórios municipais para que a gente pudesse
fazer a convenção e a partir daí tivesse condições para disputar as eleições. Não foi
possível, o TRE disse que a gente não seguiu a legalização, que exigia várias, várias
condições para que o Partido fosse legalizado. Então, como não houve a legalização
a gente, o Partido se diluiu em várias candidaturas, passou a apoiar várias
candidaturas à deputado estadual da época. Eduardo Bonfim, Selma Bandeira, é...
Mendonça Neto, Ronaldo Lessa e cada um seguiu seu destino. Então nós apoiamos
candidatos que naquela época tinham, estavam em confronto com os militares e nós
estávamos começando a sair do regime totalitário, essa foi a razão por qual o Partido
não participou das eleições, em função disso aí do TRE. (Adelmo dos Santos)
Curioso que o argumento de Adelmo dos Santos é contraditório com o que se
acreditava na época tratar-se da abertura política proposta pelos militares. Uma das
observações levantadas pela esquerda -- especialmente aquela que estava sob o guarda-chuva
do MDB -- era a de que a criação de novos partidos "dividiria as oposições". Nesse sentido, é
contraditório que o TRE tenha proibido a criação do PT, já que esta divisão enfraqueceria a
classe trabalhadora.147
Ricardo Coelho faz o balanço dessa experiência de frustração, apresentando um tema
que vai se repetir no balanço final do PT, a baixa capilaridade no movimento operário, além
147
MOTTA, Rodrigo Patto de Sá. O MDB e as esquerdas. p. 299.
97
do já mencionado embate com o PCdoB nos movimentos urbanos. Vem à tona também uma
outra problemática, a inexperiência dos ativistas no trato com a legalidade:
A avaliação é que nós vivemos um... uma pouca representatividade política, aqui no
Estado, nós não conseguimos, não havia em Alagoas, um grande movimento
sindical organizado, então, de trabalhador, então nós não conseguimos, é... nos
enfronhar bem dentro desse movimento e onde havia movimento mais de classe
média, que era movimento sindical mais de classe média, que era médico,
engenheiro, bancário, outros segmentos, o PCdoB era muito forte aqui no Estado. O
fato do PCdoB ser muito forte aqui em Alagoas prejudicou a nossa participação em
82. Agora também houve incompetência nossa, parte legal nós não tínhamos muita
experiência. Os sindicalistas não tinham experiência nessa parte legal, ata de
convenção, filiação, isso houve uma incompetência também. Agora, o fato do
PCdoB ser muito forte em Alagoas também nos prejudicou. (Ricardo Coelho)
Nesta fala, Ricardo sumariza três elementos que dificultaram essa legalização:
a) A incompetência no trato legal;
Diferente da avaliação de Adelmo, aqui aparece um elemento prático-organizativo
básico. Sem experiência política para além da vida sindical, os dirigentes teriam cometido
erros no processo que inviabilizaram a legalização do Partido.
b) A ausência de bases operárias;
Repete-se elemento que analisamos no capítulo anterior: o PT alagoano não possuía a
capilaridade que tinha entre os Trabalhadores de outras regiões do país. Esse elemento
objetivo, dentro da narrativa, seria um empecilho quase que determinante à construção do
Partido.
c) A força do PCdoB;
Ainda nessa estruturação de memória a partir do outro que era o PCdoB, a memória de
Ricardo Coelho traz novamente para consideração a força desse Partido no Estado e sua
rivalidade com o PT. Esses enfrentamentos nos parecem importantes para a constituição da
identidade do Partido dos Trabalhadores no Estado.
3.3 OS EMBATES NA ELEIÇÃO DE 1982
Não é por não ter contado com a presença do PT que as eleições de 1982 não foram
travadas sob um clima intenso de polarização e acirramento. A divisão entre PSD e PMDB se
98
mostrava em toda a imprensa alagoana. O Jornal de Hoje registrava no dia 01 de outubro do
ano eleitoral entrevista com Renan Calheiros, à época Deputado, em que este se dizia
preocupado com a corrupção eleitoral:
"Continuando a discorrer sobre o que lhe foi dado verificar em alguns
municípios interioranos, o parlamentar oposicionista adiantou que 'há candidatos que
ao chegar as localidades, mandam chamar prefeitos e vereadores, passando a
oferecer tentadoras propostas financeiras, objetivando seduzi-los para um
comportamento que de maneira alguma se compatibiliza com os ideais que devem
presidir o ato eleitoral'".148
Sob um clima de forte uso de aparato de poder político e financeiro por parte das
forças alinhadas ao regime, a cobertura da mídia ia cada vez mais registrando, ou mesmo
contribuindo para um clima de vitória acachapante do PDS. A capa do Jornal de Hoje do dia
18 de Outubro exibia em garrafais: "PMDB NA PIOR" e "Maceió não promete grande
vantagem a oposição". 149
Foi sob esse clima que o PT tomou a decisão de apoiar o PMDB no pleito. O Jornal de
Hoje dedicou uma pequena nota à posição do Partido, marcando a vinda do dirigente nacional
Hélio Doyle e a posição de Adelmo dos Santos, a nota, com o título "Oposição tem apoio ao
PT para todos os cargos em Alagoas", registra a decisão após reunião do Partido:
"Embora conseguindo formar 25 diretórios, o PT teve 16 deles sujeitos a
sindicâncias pelo Tribunal Regional Eleitoral, que concluiu pela impugnação das 13
atas que registravam a criação de idêntico número de diretórios, devido a falhas na
formação da diretoria.
"O radialista José Adelmo dos Santos, também presidente do Sindicato dos
Trabalhadores de Empresas de Rádio-difusão, declarou que a visita do sr. Hélio
Doyle serviu para definir oficialmente a posição do Partido diante das eleições em
nosso Estado. Para ele, o apoio aos candidatos do Partido do Movimento
Democrático Brasileiro não é apenas uma saída, mas a única existente no
momento."150
A matéria, porém, seria desmentida em outro veículo de comunicação. Em matéria do
Jornal de Alagoas do dia 06 de Novembro é publicada uma pequena matéria com
esclarecimento de Hélio Doyle de que na verdade o que houve foi a liberação para que a
148
Jornal de Hoje. 01/10/82. p. 3
Jornal de Hoje. 18/0/82. p.1
150
Jornal de Hoje. 01/11/1982. p. 3
149
99
militância petista votasse como melhor lhe aprouvesse. Respondesse individualmente pela
decisão de votar em branco ou no PMDB, mas estando a agremiação se colocando fora de
qualquer campanha da oposição. Essa decisão é interessante por apontar que o voto em branco
era sim uma possibilidade decisória que passava pela cabeça da militância de esquerda
naquele momento político. É que no período é muito forte o sentimento de votos nulos,
brancos e forte a pressão sobre os indecisos, que dariam o voto que a grande imprensa chama
de "Cabeça de Camarão."151 Na capa do Jornal de Hoje do dia 05 de novembro vinculou-se
matéria com violenta crítica ao voto em branco e nulo, com o título "Voto em branco ofende o
eleitor brasileiro".152 Prova de que a abstenção e o não comparecimento eleitoral atingia a
legitimidade do regime. Na matéria, o dirigente nacional petista se posiciona:
"Na condição de membro da Comissão Executiva Nacional eu me manifestei
claramente contra o apoio do PT de Alagoas ao PMDB ou a seus candidatos, assim
como contra o PT pregar a anulação do voto nas eleições por não ter apresentado
candidatos. Disse que o PT alagoano deveria se concentrar no esforço para se
viabilizar legalmente no Estado e que cada militante, como o Partido não tem
candidato, não deveria assumir a responsabilidade por sua posição diante das
eleições, seja lá qual fosse. Frisei que a decisão deveria ser tomada pelo PT de
Alagoas, estando eu apenas manifestando a opinião do comitê eleitoral unificado
nacional, que poderia ser ou não acatada."153
Curioso que, mesmo não tendo candidatos lançados para a disputa eleitoral no Estado,
não foi o partido poupado de críticas. Aos balanços que se seguiram apontando a derrota da
Oposição e da esquerda, sobrou até mesmo para o PT, em coluna de Isnard Vieira que
caracterizava o Partido como uma agremiação fundada por trotskistas da Convergência
Socialista e, atribuindo peso político irreal à tendência trotskista, apresenta os sindicalistas
Lula e Jacó Bittar como joguete e mera fachada para atrair operários para o radical partido de
forte viés ideológico.154 Após analisar que os votos oriundos das CEB's foram debandados
para alimentar as candidaturas do PMDB e que os trabalhadores não se alinharam ao
radicalismo petista, o colunista sentencia:
151
Jornal de Hoje. 05/11/1982. p.1
Idem.
153
Jornal de Alagoas. 06/11/1982. p.3.
154
Jornal de Alagoas. 03/12/1982. p. 3
152
100
"É necessário, portanto, que as lideranças do Partido dos Trabalhadores
tenham a necessária humildade para reconhecer os enganos cometidos. Que façam a
sua autocrítica, atividade tão salutar que sucede as derrotas da esquerda radical. Que
se convençam, de uma vez por todas, que a grande deficiência dos comunistas,
sempre foi e será a sua notória incapacidade de avaliar as reais aspirações do povo
brasileiro."155
Esse é apenas um indicativo do conservadorismo que atingia a construção das
esquerdas em Alagoas.
3.4 RELAÇÃO
COM
AS
ORGANIZAÇÕES
E
GRUPOS
DA
DIREITA
TRADICIONAL
As figuras tradicionais também não tiveram muita aproximação com o PT. Aqui os
motivos ficam mais claros. Primeiro, havia, por óbvio, a postura radical do PT frente à
política da época. Por outro lado, há nas narrativas o elemento do desdém por parte dos
políticos tradicionais frente à proposta do PT:
Não...! O pesso... veja, não era um movimento de base massivo, mobilizado,
organizado... os Partidos de centro-direita, direita, nunca, (risos), nunca se
molestaram com a existência do PT. O PT não era uma força. O PT... pra esse
pessoal, a referência era a força eleitoral, o PT não era uma referência de força
eleitoral. Participava das eleições, é... municipais, assim, no sentido de, no sentido
de... como diz né...? não eram assembleias legislativas, era vereadores, era um ou
outro candidato, sem expressão eleitoral. Nunca incomodou, nunca incomodou.
Nunca sofremos represálias... Até porque o pessoal achava que o PT era muito...
meio exótico, meio petulante, pedante. Porque nessa ocasião o PT não... não, não
fazia da eleição a questão central, entendeu? Era mais a organização de base, era
mais a política de fortalecimento do Partido pela nucleação, que foi uma experiência
muito positiva, construir um Partido por organizações de base que eram os núcleos
de base. O grande problema que talvez tenha levado à derrota dessa experiência foi
porque os núcleos não tinham poder. Ele era instâncias de base para organização,
para discussão das políticas do Partido, mas eles não eram instâncias de decisão. As
decisões eram sempre os diretórios, os encontros municipais, estaduais e nacionais.
(Alice Anabuki)
Vemos que Alice além de mostrar em sua fala que a militância era vista como
irrelevante pelos políticos tradicionais ainda é acrescentada a problemática dos núcleos.
Ricardo Coelho aponta que as aproximações que houve por parte de um campo
político mais conservador foram absolutamente residuais. Como exemplo ele cita a figura de
Mendes de Barros:
155
Idem.
101
Olhe, teve alguns segmentos da direita que... não sei porquê cargas d'água
simpatizaram com o PT e com o Lula. A gente teve uma figura muito tradicional
daqui que depois ficou conhecida como "Marajá-mor", que era o Mendes de Barros,
que na campanha do Collor de 89, o Collor elegeu com o combate aos marajás, e
exemplificou o Mendes de Barros, porque era procurador da assembleia, como
"Marajá-mor" daqui de Alagoas. E ele em 84, não sei porquê cargas d'água, se
aproximou da gente. Queria apoiar o PT, ajudou a organizar o PT aqui no Estado. E
antes a... setores, ou, por exemplo o... a família Sampaio, que era do Geraldo
Sampaio, o filho do Geraldo Sampaio, o Jucá Sampaio, se aproximou também, só
que o Juca se aproximou mais à esquerda, porque ele tava, é..., como é... rachando
com a família politicamente e eles vieram nos ajudar, nos ajudar de alguma forma.
A... a... de modo geral, a nossa aproximação mais com a... alguns setores mais
conservadores se dava sempre em disputas eleitorais segmentadas. Por exemplo,
DCE; a gente lançou uma chapa algumas vezes e alguns setores da direita, que eram
contra o PCdoB naquele momento, vieram nos apoiar. Mas nada assim muito
sistemático. A não ser essa aproximação do Mendes de Barros, a direita nunca nos
viu com bons olhos aqui não, nem circunstancialmente. (Ricardo Coelho)
Por fim, a longa fala que se segue, de Tutmés Airam, antecipa um balanço da
experiência desses anos de PT ao mesmo tempo que revela uma concepção de movimento,
que, conforme já aludido, seria "fechada", "sectária":
Não, na verdade nos primeiros momentos a direita achava que o PT era uma
excentricidade, que não tinha o menor futuro, me compreende? Coisa de... de
menino, é... menino sonhador, veio de universidade, né? Coisa de um bando de
padre, é... meio doido lá do... coisa de um punhado de sindicalistas que, bom, mais
cedo ou mais tarde vão perceber que não tem futuro nenhum, né? Então o PT, assim,
não chegava a, ao menos aqui no Estado, não chegava a incomodar as elites, né? Era
visto como uma excentricidade, né? Depois, não. Depois que a gente foi ganhando
musculatura, né?, nós fomos incomodando e... já éramos vistos de outro modo, né?
Já éramos vistos como um dos atores do processo político, né?, em Alagoas, né? E aí
os embates começaram a surgir, não só por conta da realidade alagoana mas, enfim,
por conta da realidade nacional, né? Sobretudo da realidade nacional, né? Nos
impusemos, né? Campanha, as campanhas que participamos, né? Veio a campanha
de Lula, depois veio a segunda, a terceira, né? E eram campanhas assim ahn... as
campanhas do PT, é... iniciais, enfim... não só pra presidência, mas, eu me lembro, o
quanto nós vibramos quando nós elegemos os nossos primeiros deputados federais,
né? Porra, aquilo ali era um sonho, né? Deputada Bete Mendes, que era atriz;
deputado Airton Soares, que era advogado; Deputado José Eudes, lá do Rio de
Janeiro. E tudo era muito bonito, muito romântico, né? Porra, e os companheiros
eles, eles cumpriam um papel muito interessante no parlamento, né? Muito
interessante... Pra não falar das campanhas presidenciais... As campanhas
presidenciais eram muito, muito ricas. Ricas no sentido de, assim, ideologicamente
muito fortes... Nós acreditávamos muito naquilo que dizíamos, né? Aí, isso tudo
acabou gerando frutos aqui no Estado né, o Paulão inicialmente tinha muita
resistência é, a fazer política partidária, entendeu essa necessidade... Cabou entrando
no PT, não é? O Judson, também, é... que tinha resistência à lógica partidária,
acabou se convencendo da necessidade de construir uma alternativa política, né? E
aí o Judson era um cara que tinha raízes na igreja; na igreja conservadora, né? mas
ele por conta da presença dele, da habilidade dele, conseguiu trazer parte dessa
102
igreja pelo menos pra ficar na órbita assim, é... dos simpatizantes, enfim. E aí as
coisas foram melhorando até que nós elegemos os primeiros deputados estaduais,
né? Os primeiros vereadores em Maceió... e desaguássemos enfim na campanha de
Heloísa Helena. Mas era tudo muito difícil. Eu me lembro que teve um cara que teve
uma participação muito interessante, Fernando Barreiros. Fernando Barreiros é um
médico, um médico conceituado, né?, aqui em Alagoas... ele, ele... é um cara da
igreja... ligado à hierarquia da igreja católica, né? Tinha pronto acesso à igreja, né?
E era um cara, assim, que não tinha, vamos dizer, uma sólida formação petista, mas
era um cara assim, muito aberto pra aprender, pra crescer politicamente, né? Ele
tinha um prestígio social enorme rapaz, ele teve... ele foi candidato a deputado, é...
dentro do PT ele foi candidato a deputado federal e o cara teve 16.000 votos. Sem
comprar um voto, só na base do... de visitar as pessoas, de conversar, de discursar,
enfim... É, mas o PT era alguma coisa tão estreita, certo? Era nessa época tão
sectário que tratava muito mal o Fernando, né? E o Fernando porra, cansou,
terminou saindo, né? Por causa do nosso sectarismo, um sectarismo, assim, mais ou
menos estudantil,né? E achávamos, na época, eu menos, eu tinha sempre uma
posição muito mais de conciliação, mas muita gente achava o Fernando um burguês,
um pequeno-burguês e dentro dessa perspectiva o Fernando não tinha nada de
petista, não tinha nada que tá no PT. Esse estreitismo nos dificultou bastante, né?
Nos dificultou bastante. Interessante que depois o tempo passou e o PT saiu, assim
de um estreitismo muito grande pra enfim admitir nas suas fileiras gente como
Delcídio, né? Saiu de um, eu diria que saiu de um extremo a outro, né? Não, não
encontramos um meio termo, mas aí veio a discussão da governabilidade, da
importância da governabilidade, enfim, né? E o Partido que não podia nos primeiros
tempos, era muito refratário à receber as pessoas no seu ninho, né? Foi... passou a
ser muito generoso pra recebê-las, né? Nos primeiros momentos, primeiros tempos o
cara pra aderir ao PT ele tinha que ter muita convicção porque cobravam... cobravase muito, muita retidão ideológica, né? Com a proposta, os compromissos, enfim,
não é? Como o PT sempre foi movido dentro da lógica de tendências, né?, às vezes
fratricida, né? Muitas vezes fratricida, o cara entrava assim ficava meio tonto, né? O
que diabo é isso, uma briga dessas, todo mundo é petista, mas a maior briga interna,
né? E aí pra o cara se acostumar dentro dessa lógica, desse debate e até pra entender
diferenças entre uma tendência ou outra era difícil, né? Isso assustava muito as
pessoas, né? As pessoas boas que podiam ter contribuído mas que se afastavam do
PT pela própria lógica do seu funcionamento, né? (Tutmés Airam)
A citação é longa, mas ilustrativa do que significa essa mudança do PT. Abandona-se
uma visão excêntrica, a especificidade do que seria a construção petista para a constituição de
um Partido viável eleitoralmente. Singer argumenta que as duas almas, o espírito do Sion e o
espírito do Anhembi, vivem em conflito e compatibilização, convivem, por assim dizer,
dentro do Partido dos Trabalhadores. Sendo assim, a fala de Tutmés, também à luz do atual
momento, de denúncias de corrupção após as delações de Delúbio Soares 156, constrói em sua
memória uma ponderação ao exagero do que foi a abertura a essas alianças, em uma
156
Delúbio Soares foi tesoureiro do PT e um dos pivôs do escândalo do Mensalão. O Mensalão foi o nome
como ficou conhecido o esquema de desvio de verbas, supostamente comandado pelo Partido dos
Trabalhadores, conforme denunciado do Deputado Roberto Jefferson. Desde esta denúncia o PT sempre esteve
nos holofotes das investigações da imprensa sobre corrupção e desvio de verbas. Para um bom jornalismo
político, construído através de perfis políticos e investigação ponderada sobre o tema da corrupção e como os
sucessivos escândalos alteraram o cotidiano do PT e de seus dirigentes Cf. WERNECK, Humberto (org.)Vultos da
República: Os melhores perfis políticos da Revista Piauí. São Paulo: Cia das letras, 2010.
103
repactuação com o espírito de Sion. Entretanto, aqui nota-se a presença de uma adesão a um
projeto político mais aberto, mais disposto a alianças, crítico da atuação petista do passado.
Marcos Nobre aponta que há no Brasil uma Cultura Política conciliatória, pregadora do
aliancismo, que se instituiu na transição para a Nova República, batizada por ele de
Pemedebismo, em alusão ao maior Partido da política brasileira atual (PMDB) e sua dinâmica
de construção de hegemonia a partir de acordos cupulistas suprapartidários. Essa Cultura
Política teria contaminado, ao longo dos anos 1990, todos os grandes Partidos, incluso o PT.
Pensamos que a fala de Tutmés é reflexo dessa Cultura Política:
Sua forma primeira e mais precária foi a unidade forçada contra a ditadura
militar (1964-1985), que veio a repercutir de maneira importante na maneira como
se deu o processo de redemocratização. Nos anos 1980, o partido que detinha a
liderança absoluta do processo político, o PMDB, impôs como indispensável a união
de todas as forças “progressistas” para derrotar o autoritarismo. Com exceção do PT,
todos os partidos participaram da eleição indireta de janeiro de 1985, no chamado
Colégio Eleitoral, controlado pelas forças da ditadura. Tancredo Neves foi eleito
presidente. Morto em abril do mesmo ano sem ter sido empossado no cargo, deixou
no cargo o seu vice, José Sarney, quadro histórico de sustentação da ditadura militar,
indicado pelo PFL (em 2007, a sigla mudou o nome para DEM). Mesmo com
Sarney na presidência, o “progressismo” continuou a representar a ideologia oficial
de uma transição morna para a democracia, controlada pelo regime ditatorial em
crise e pactuada por um sistema político elitista.
A primeira crise enfrentada por essa blindagem se deu durante a Constituinte,
quando essa unidade forçada deu de cara com movimentos e organizações sociais,
sindicatos e manifestações populares que não cabiam nos canais estreitos da abertura
política. Sob o comando do chamado Centrão, bloco suprapartidário que contava
com maioria de parlamentares do PMDB, o sistema político encontrou uma maneira
de neutralizá-los, apostando na ausência de uma pauta unificada e de um partido (ou
frente de partidos) que canalizasse as aspirações mudancistas. Nasceu aí a primeira
figura da blindagem do sistema político contra a sociedade. A esse processo de
blindagem dou o nome de pemedebismo, em lembrança do partido que capitaneou a
transição para a democracia.157
A fala de Tutmés parece representar um reflexo dessa Cultura Política do
pemedebismo. Tal aceitação tácita do pemedebismo viria de anos de acomodação lulista no
poder. Parte da sociedade teria absorvido essa Cultura Política como a única forma possível
de se fazer política no país:
Seria possível resumir o diagnóstico em uma formulação ambivalente. Tanto o
“neoliberalismo” do período FHC como o que se chama de “lulismo” são figuras do
157
NOBRE, Marcos. Choques de Democracia. São Paulo: Companhia das letras. 2013.p. 6.
104
pemedebismo, são configurações mais avançadas dessa cultura política
inerentemente conservadora. Mas são também momentos e figuras da construção do
social-desenvolvimentismo que se cristalizou a partir do segundo mandato de Lula.
Se a própria consolidação do social-desenvolvimentismo só se deu acoplada a certa
instrumentalização do pemedebismo, isso acabou levando também a tornar o
pemedebismo algo de “normal” e “aceitável”, algo de “justificável” em vista da
conquista de avanços sociais.158
Outro elemento político interessante nessa fala é que o avanço político do Partido no
Estado se dá a partir de exemplos eleitorais. A vida política é igualada às campanhas
eleitorais, em um processo que mostra como o PT passou de um partido radical, de
contestação à ordem, a um partido acomodado a esta. Na convivência entre o Sion e o
Anhembi, o último parece ter levado a melhor na maior parte do tempo.
3.5 O PT E A CUT EM ALAGOAS
O âmbito sindical também era palco de uma forte luta contra o PCdoB no Estado.
Estes possuíam a hegemonia no movimento, dando pouco espaço para a construção do PT.
Tutmés tenta lembrar essa disputa, ressaltando a dificuldade que era construir movimento
sindical nesse período em Alagoas:
O movimento sindical, ele era basicamente, é... hegemonizado pelo PCdoB,
né? Quer dizer, nós não tínhamos muito... nós não tínhamos muito acesso, não. É...
só algum ou outro, assim, nós temos uma base, que era a base lá dos urbanitários, do
presidente Pedro Luís, nós tínhamos uma base também lá no... no... é... na
construção civil, e nós tínhamos uma base nos bancários. Pronto, era o que a gente
tinha. Todos os outros sindicatos ou eram sindicatos pelegos ou eram ligados ao
PCdoB, né? Nós não tínhamos uma base sindical muito forte, não. Isso também foi
um problema na nossa... no nosso nascimento, porque dificultou nosso
enraizamento, né? Quando você se constrói em cima de bases sociais o enraizamento
se dá de forma muito mais fácil, né? Quando não... vislumbra-se muita dificuldade
pelo caminho. Mas nós não tínhamos muita base, não. Eu... o PT, ele nasceu pouco,
digamos, pouco orgânico no Estado, né? Mas foi vencendo isso tudo, se construindo,
né?, até que se consolidou tanto quanto, né?
Não, a CUT já era assim, eu acho que a CUT, a ideia da CUT já era uma
coisa mais simples de viabilizar, né? Porque havia, assim, alguns sindicatos em
Alagoas assim, bastante combativos, não é? Mas eu posso traçar um paralelo,
porque, também havia uma disputa, é, de controle nacional das centrais, né?
Inicialmente a gente disputava sempre com o PCdoB, né? PCdoB tinha lá a ideia de
central, deles, que não era na CUT, né? É, só que a CUT, ela se afirmou em Alagoas
pela sua extraordinária força nacional, né? Porra, a CUT era, sempre foi muito forte,
né? Ahn... E a CUT era meio assim, porra, pra nós era até assim meio mitológica,
né?, porra, porque os caras todos que a gente admirava, né?, fruto das lutas sindicais
que até levaram à construção do PT, pô, os caras todos eram da entidade, pô, então,
porra, simplesmente a gente ficava assim, é... entusiasmado né, pô. Você ter um
158
Idem. p.27
105
dirigente sindical como o Lula, como... é, como... Lula não, porque Lula
propriamente nunca foi ligado muito à CUT, Lula foi pra tarefa propriamente
partidária, mas aí tinha Jair Menegheli... Depois você teve Vicentinho, né? Tudo
uma coisa... Então a força nacional da CUT acabou entrando a CUT em Alagoas,
né? Mas fazer política sindical em certa medida é mais fácil do que fazer política
partidária,né? Os obstáculos são menores porquê a luta é menor, né? A luta é menor.
Mas vivemos assim, dificuldades semelhantes, né? Porque a gente tinha vamos
dizer, entre aspas, né?, um grande inimigo e o grande inimigo, na disputa aqui, na
hegemonia era o PCdoB absolutamente consolidado, né. (Tutmés Airan)
Mais uma vez o embate com o PCdoB e a crítica à falta de enraizamento do Partido
dos Trabalhadores no que deveria ser sua base nos setores assalariados. Ricardo Coelho dá
mais detalhes de quais eram as bases operárias do PT e da CUT nos anos 1980:
Olhe, o que a gente tinha na, quando a gente foi organizar o PT na década de 80...a
gente tinha, como eu falei, urbanitários, que era o mais forte, construção civil, é...
radialistas, alguns setores não todos, alguns diretores, não todos e... urbanitários,
construção civil, radialistas, ferroviários nós tínhamos influência forte e algumas
coisas soltas assim, como alguns diretores do sindicato dos bancários... Esse
primeiro momento, realmente, é... a gente tinha poucos sindicatos, e, também além
de ter poucos sindicatos, esses sindicatos não tinham tanta força, a não ser
urbanitários, tinham uma força considerável porque CEAL e CASAL eram duas
empresas estatais e havia uma maior liberdade pro movimento sindical nas três
estatais. A construção civil era muito pouco, os ferroviários apesar de ser uma
empresa estatal também, a gente tinha pouca influência... Mas eu sei que o
movimento sindical naquele tempo ainda era um pouco incipiente. Você há de
convir que a gente vinha de uma ditadura, havia tido uma perseguição muito grande
à esquerda e à segmentos dos movimentos sindicais, então, o movimento sindical
estava se reconstruindo naquele momento e... até por força de influência da igreja
católica essa reconstrução. Mas o que a gente pode dizer é que por força dessa nossa
primeira participação no movimento sindical, em 80, na segunda década de, na
segunda metade de 80, aliás, na segunda metade de 80 a gente ajudou a construir
vários sindicatos: químicos, correios, é.. que foi mais?, o... o pessoal, depois o
pessoal dos servidores públicos, previdência, é... como é... os servidores públicos
federais, os empregados do setor do SESC, SENAI, que é o SENALBE, então a
gente, esse primeiro momento de acúmulo, junto com a conjuntura, junto com a
mudança da constituição permitiu o surgimento de vários sindicatos no nosso
campo. Até porque várias pessoas saíram do movimento estudantil e foram trabalhar
e levaram essa experiência para construir sindicatos, como aconteceu com os
químicos, etc. Então, esse primeiro momento eu posso dizer que foi um momento de
acúmulo de forças, importante, que depois propiciou o surgimento de um
movimento sindical muito mais forte aqui em Alagoas. E depois que foi liberado a
questão do movimento sindical do servidor público nós demos um salto de
qualidade. (Ricardo Coelho)
Questionado sobre os principais inimigos que a CUT travava para se consolidar no
Estado, Ricardo Coelho foi ao encontro de outros que já haviam salientado o peso do PCdoB
e ressaltou o papel que esta agremiação teve como adversária do PT e da CUT:
106
Ah, quem a CUT... a CUT enfrentava... o nosso maior enfrentamento era, de um
lado era com os pelegos que vinham, ainda da época do PTB que tavam nos
sindicatos como o sindicato do comércio, sindicato de alfaiataria, alguns sindicatos
mais segmentados e, do outro lado o PCdoB. O nosso grande embate tanto no
movimento estudantil como no movimento sindical era com o PCdoB. O PCdoB
tinha sindicatos fortes como bancários, associação dos professores que depois foi o
Sinteal. é... médicos, etc., engenheiros, e esse pessoal polarizou muito contra a gente
porque não queria a criação da CUT nesse momento.(Ricardo Coelho)
Alice Anabuki reitera a dificuldade da disputa que existia com o PCdoB e como a
proposta da CUT foi saldada justamente por se contrapor tanto ao sindicalismo de resultados
quanto ao sindicalismo ligado aos PC's:
Teve, ela teve. A CUT, me lembro, só... claro, sempre com um pessoal que era
oposição não só aos grandes Partidos tradicionais, mas sobretudo ao PCdoB... então
a CUT ela conseguiu canalizar, mobilizar o pessoal que fazia oposição, do campo da
esquerda, ao PCdoB, que aqui era muito forte. O PCB era praticamente inexistente,
a não ser através de umas figuras, né, históricas, mas o PCB aqui, na minha
lembrança nos anos 80 o PCB não era uma força política, era o PCdoB. Era o
surgimento da UNE, era o soerguimento do DCE, era o PCdoB. O PCdoB tinha uma
forte base social, principalmente em organismos de classe média. Era muito forte, o
PCdoB. Então aqueles que faziam oposição ao PCdoB, eles vieram tanto pro PT
quanto pra CUT. (Alice Anabuki)
Dentro dessa disputa, Alice Anabuki narra o quão significativa foi a vitória do
sindicato dos bancários para a construção da CUT, uma vitória em composição com o PCdoB,
o que mostra que essa disputa não se dava somente através de enfrentamentos diretos, mas
também com acordos e compromissos entre ambas organizações:
Sim, logo depois. Logo depois não, minto... mas ou menos em... 85,8, por aí, eles
tomaram um sindicato expressivo aqui, o pessoal do PCdoB, com gente do PT, que
foi o sindicato dos bancários. Foi assim, foi um evento significativo para Alagoas,
porque o sindicato dos bancários sempre esteve na mãos dos pelegos. Então foi um
grande marco no movimento sindical no Estado, foi o PT e o PCdoB, numa
composição, ganhar as eleições do sindicato dos bancários. E era a CUT né... era a
CUT. (Alice Anabuki)
A CUT em Alagoas, a partir dos relatos, estrutura-se com muita força no emergente
sindicalismo do funcionalismo público urbano à medida que o PCdoB diminui seu espaço.
Interessante notar esse movimento, talvez constituindo aí uma solidificação maior do PT no
Estado, com o fortalecimento desse setor.
107
Passando à narrativa de Adelmo dos Santos, vemos o depoimento deste que se fez
presente desde os primeiros passos da CUT:
A fundação da CUT aqui foi muito difícil no começo. A gente participou do
encontro da CONCLAT em São Paulo. CONCLAT era a conferência nacional das
classes trabalhadoras. Eu me lembro que foi em Santos. Num prédio inacabado do
sindicato dos comerciários. E a gente lá nesse CONCLAT tirou uma comissão
nacional para criar a CUT, né? Isso foi em 80. Que a CUT foi fundada antes do PT.
E a gente marcou para 82, criar a central única dos trabalhadores, só que antes em
80... 1980, 82, alguns segmentos, alguns setores do movimento sindical, eu poderia
destacar Joaquim Andrade dos Santos, Joaquinzão, presidente do sindicato dos
metalúrgicos de São Paulo, juntamente com a federação das indústrias de São Paulo,
eles postergaram até 82, não fundar a central única dos trabalhadores. E a gente, né,
nós provocamos um... fomos pra luta e fundamos a CUT à nível nacional em 1982,
me lembro, vinte e três de agosto de 1982, no velho estúdio da Vera Cruz, aonde
Mazzaropi fazia seus filmes... e lá nós criamos a central única dos trabalhadores, aí
depois criamos as centrais nos Estados. (Adelmo dos Santos)
Adelmo Ressalta o impacto mais direto do regime militar na organização dos
trabalhadores, o clima político da época:
Aqui, por exemplo, eu diria a você que a gente tinha a federação dos
trabalhadores das indústrias que ficava ali perto do mercado público, o presidente
era o José Rodrigues Filho. Nós procuramos, marcamos uma reunião lá na federação
das indústrias. Marcamos pras 20 horas, convocamos alguns sindicatos, quando
chegamos lá as portas da federação estavam fechadas. Ele não permitiu que a gente
ficasse lá a reunião pra discutir a fundação da central única dos trabalhadores. Essa
foi a dificuldade enorme... poucos sindicatos naquela época, é... se dispunham a... se
colocavam pra fundar a CUT... é, a gente, tinha, naquela época também tinha uma
divisão muito grande com a CGT,né, a CGT era a central geral dos trabalhadores,
que tinha à frente o pessoal do PCdoB, né? PCdoB, que rivalizava com a gente. A
gente tentou fundar a CUT, e a CGT... e o PCdoB querendo fundar a CGT. Mas a
gente, eu lembro que... sindicatos, poucos, foram à essa reunião. Depois foi que a
gente começou a gente, é... ganhar sindicatos, fazendo oposições sindicais, aí a
partir daí a gente começou a achar que a própria CGT, que era do PCdoB,
reconheceu que a central única dos trabalhadores era aquela que mais agregava, era
a que mais reunia trabalhadores... que iam a greve, que faziam greve, né, que
rompiam, que passavam por cima da CLT, que não acatavam as decisões do
ministério do trabalho, que na verdade naquela época o ministério do trabalho tinha
a finalidade de impedir que os trabalhadores se organizassem livremente, e a gente
não aceitava isso, o governo intervinha nos sindicatos, a gente criava comissão
paralela e a gente organizava mesmo assim os trabalhadores e a gente conseguia...
foi a partir daí, foi com essa luta, foi com essa mobilização que a gente conseguiu
criar a central única dos trabalhadores aqui em Alagoas. (Adelmo dos Santos)
Ah, sim. A CUT foi o seguinte, quando a gente veio, quando nós fomos pra
participar da CONCLAT, que foi ali em São Bernardo do Campo, lá com os amigos
do instituto... estúdio da Vera Cruz... aonde o Mazzaropi fazia os seus filmes, é...
nós fomos para esse encontro e lá ficou definido que a gente iria criar a comissão
provisória, CUT, pró-CUT nos Estados. E aqui nós marcamos uma reunião para o
palácio do trabalhador, que fica aqui... aqui... na elevada. Nós marcamos uma
reunião pra oito horas lá, falamos com o presidente da federação que era o José
108
Rodrigues Filho, quando foi oito horas tava tudo fechado. A gente não conseguiu
nessa primeira reunião marcar a comissão pró-CUT. Mas com o tempo os sindicatos
começaram a se fortalecer, começaram a lutar, né? Em busca de melhores condições
de trabalho, salariais, aí logo adiante a gente conseguiu fundar a CUT aqui em
Alagoas. (Adelmo dos Santos)
Aqui temos mais uma vez a afirmação do confronto entre PCdoB e PT, dessa vez
alicerçado através do confronto entre CTG e CUT.
Vemos portanto que estes anos iniciais do PT são de fato penosos e eivados de
dificuldades. Seria apenas com as lutas democráticas do final da segunda metade dos anos
1980 que as coisas melhorariam para o Partido de Lula no Estado.
3.6 AS DIRETAS JÁ
O PT nem bem terminava de lidar com as eleições de 1982 e as consequências em que
implicaram sua atuação e já se viu diante de outro grande desafio político. As Diretas Já,
grande movimento cívico reivindicando eleições diretas para presidente e questionando a
ditadura militar em seu âmago.
Considerado o maior movimento político da história da república159, começou em
1983, lento, mas no ano de 1984 atingiu proporções de massas em todo o país. Parte do
sucesso do movimento esteve na grande articulação unitária que se constituiu entre diversos
agentes políticos. Embora divergissem em alguns aspectos, a maioria de seus participantes e
Partidos políticos convergiam no aspecto central: a necessidade de eleições diretas para os
órgãos executivos.
As Diretas Já representaram um curto-circuito na transição pactuada pensada pelos
militares. A mobilização popular foi impulsionada pelo descontentamento no plano
econômico, a situação de penúria dos trabalhadores e a consequente divisão burguesa com os
rumos do Brasil:
No Brasil, o fator detonador foi o impacto da crise econômica deflagrada pela crise
da dívida externa. Em dois anos, entre 1982 e 1984, o crescimento da inflação e do
desemprego abriram uma crise social que incendiou o mal-estar no proletariado e
provocou uma séria, ainda que minoritária, divisão burguesa, arrastando a classe
159
"Na reta final, houve comícios de 300 mil pessoas em Belo Horizonte (24 de fevereiro), 250 mil em Goiânia
(12 de abril), 200 mil em Porto Alegre (13 de abril). Os maiores reuniram 1 milhão de pessoas, no Rio de Janeiro
(10 de abril), e 1,5 milhão, em São Paulo, no comício de encerramento, em 16 de abril." REIS, Daniel Aarão.
Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
109
média para o campo da oposição à ditadura. Essa nova relação de forças se traduziu
em um isolamento político do governo que inviabilizou o projeto da transição. 160
A convocação feita pelo PMDB conclamando a população a tomar as ruas pela
bandeira da eleição presidencial direta surpreendeu o regime. O chamado foi obedecido
massivamente e provocou uma divisão no partido do regime, impossibilitando que Maluf e
Andreazza mantivessem o controle sobre o colégio eleitoral.
A principal cisão no movimento era a existente entre os Partidos políticos e
organizações de cunho ideológico revolucionário e aquelas organizações com identificação
mais próxima ao liberalismo. Enquanto aqueles tendiam à defesa de rupturas mais radicais e
enfrentamentos com o regime militar, estas se inclinavam mais para os pactos e negociações
com o governo Figueiredo. Longe de atrapalhar o movimento, esta divergência acabou por
conferir um caráter menos personalizado a apenas algumas figuras do movimento, embora
Ulysses Guimarães, Teotônio Vilela e Leonel Brizola (PDT), dentre outros, tenham ocupado
importante papel de destaque nos comícios e manifestações, e sim um caráter mais amplo.
Soma-se a essa amplitude a presença de organizações muito distintas da sociedade civil como
a União Nacional dos Estudantes (UNE), que havia sido refundada no congresso de Ibiúna em
1979, a OAB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dentre outras. Cabe
mencionar que a posição do PT era ideologicamente a de não fazer nenhum acordo com a
ditadura, Lula sendo portanto um dos expoentes vistos como mais radicais do movimento das
Diretas. Emblemático dessa postura é seu discurso de 21 de Março de 1984:
Quando se fala em público, assume-se o compromisso moral com o povo, que não
pode ser traído com conchavos e negociatas. Estão falando em conchavos e
negociações por baixo do pano. Não adianta, porque o povo nas ruas vai passar por
cima de quem ficar na frente.161
Enquanto Ulysses aliava-se a setores sociais a outra ala do PMDB dividia-se na
proposta de negociação com o PDS. Comandada por Tancredo, essa ala buscava a negociação
e a chegada à presidência. Concordamos com Arcary:
160
ARCARY, Valério. O Martelo da História: Ensaios sobre a insurgência da revolução contemporânea.São Paulo:
Editora Sundermann. 2015. p. 158-9.
161
DELGADO, Lucília de Almeida Neves. "Diretas-Já: vozes das cidades." IN: Revolução e democracia (1964...)
Ferreira, Jorge & Reis, Daniel Aarão. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 2007.p., 415
110
Aliás, o que merece ser considerado excepcional no processo das Diretas não é que
Tancredo tivesse conspirado com a ditadura, mas que Ulysses e Montoro tenham
convocado a mobilização de massas contra Figueiredo. A desconfiança da
participação popular foi o padrão da conduta política da burguesia brasileira. Só a
obstinação da alta oficialidade das Forças Armadas na defesa obtusa do regime,
quando uma nova relação de forças interna e internacional o deixou obsoleto, pode
explicar a decisão in extremis de Ulysses e Montoro de resolver apelando à
mobilização de massas.162
O jornal Gazeta de Alagoas de 11 de Abril de 1984, dia seguinte à grande
manifestação da Candelária, exibiu em sua capa foto da Avenida Presidente Vargas tomada de
manifestantes e matéria que destacava a pluralidade do movimento:
Foram cinco horas e meia de concentração pública, a que estiveram presentes muitos
artistas famosos, dirigentes, políticos como o presidente do PMDB, Ulysses
Guimarães, o presidente do PT, Luís Inácio Lula da Silva, 'Lula', o jurista Sobral
Pinto, que emocionou a grande multidão quando, ao encerrar seu discurso citou a
Constituição da República, em cujo primeiro artigo diz que 'todo o direito emana do
povo e em nome dele será exercido'. E os governadores Franco Montoro, Tancredo
Neves, José Richa e Gerson Camata. 163
O Jornal Gazeta de Alagoas ainda menciona o momento em que Fafá de Belém cantou
a música "Menestrel das Alagoas", em homenagem ao alagoano Teotônio Vilela e o discurso
de enceramento do governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola.
A mesma edição da Gazeta, porém, esgrimia em seu editorial críticas às greves que
ocorriam no país e aos líderes Franco Montoro e Tancredo Neves. Chamava o movimento
paredista à responsabilidade frente aos impasses da transição democrática e questionava a
condução dos governos pemedebistas de São Paulo e Minas Gerais:
Enquanto o sr. Franco Montoro e sua medíocre equipe de auxiliares se resumem após um ano de governo inexpressivo -a culpar as administrações anteriores pelos
descalabros que ocorrem em São Paulo, o sr. Tancredo Neves usa, em Minas Gerais,
os mesmos métodos que condenava, empregando ameaça de medidas legais para
demover ao trabalho os mestres.164
Além da união entre as já mencionadas organizações sociais e proeminentes figuras
políticas, o engajamento de importantes personalidades da intelectualidade e da cultura deram
162
ARCARY. Valério.O martelo da história: Ensaios sobre a urgência da revolução contemporânea. São Paulo:
Editora Sundermann. 2015 p. 159.
163
Gazeta de Alagoas. 10/04/1984. p.1
164
idem. p.2
111
fôlego e força ao movimento. Nomes de proeminência nacional como Chico Buarque, Maitê
Proença, Lygia Fagundes Telles, Oscar Niemeyer, Alceu Valença, Paulinho da Viola, Maria
da Conceição Tavares, Francisco Weffort, apenas para citar alguns, aderiram ao
movimento."165
O Dia da votação da Emenda Dante de Oliveira, nome do parlamentar do PMDB que
deu entrada na emenda, foi acompanhado com profunda atenção em todo o país.
Os
telejornais foram proibidos de transmitir imagens ao vivo da votação e mesmo uma marcha
que fora planejada para chegar em Brasília no dia da votação fora cancelada. 166 A comoção
nacional porém não se fez menor apesar desses contratempos. Uma grande vigília foi armada
em Brasília acompanhando a votação e em todo o Brasil placares improvisados eram
montados, as votações eram acompanhadas por boletins de imprensa e todos permaneceram
ligados ao que acontecia no congresso nacional.
A disputa institucional, porém, terminaria derrotada. A emenda Dante de Oliveira,
proposta que estabeleceria o voto direto, foi vitoriosa, mas não atingiu o número necessário
para chegar à maioria absoluta do quórum, não sendo portanto aprovada devido à ausência certamente política, em sua maioria - de 133 deputados.167
Mesmo com a emenda derrotada o PDS se viu acuado com a formação da Aliança
Democrática, uma unidade constituída entre o PMDB e políticos saídos do PDS que fundaram
um novo Partido, o Partido da Frente Liberal (PFL). A coligação formada para a disputa
presidencial era encabeçada por Tancredo Neves do PMDB e José Sarney do PFL, que se
grassariam vitoriosos e, com a súbita morte de Tancredo, Sarney assumiria o poder e
consolidaria a transição para a Nova República.
A postura do PT seria a de boicote ao Colégio Eleitoral, diante da derrota da emenda
Dante de Oliveira, duramente criticada pelo PMDB, Partidos comunistas - que à época ainda
atuavam dentro do PMDB - e organizações e entidades da sociedade civil engajadas na
campanha a favor da coligação de Tancredo e Sarney no colégio eleitoral. O PT alegava não
concordar com uma transição pactuada entre as elites:
165 165
DELGADO,Lucília de Almeida Neves. "Diretas-Já: vozes das cidades". IN: Revolução e democracia (1964...)
Ferreira, Jorge & Reis, Daniel Aarão. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 2007. p.419
166
IDEM, p. 424
167
foram 298 votos a favor, contra 65 e três asbtenções. REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil:
do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. p. 145
112
A promessa de não legitimar o Colégio Eleitoral foi cumprida. No dia 6 de maio de
1984 o Diretório Nacional divulgou para a imprensa uma nota esclarecendo que o
PT não participaria do colégio eleitoral, e conclamando os participantes do Comitê
Suprapartidário a perseverar na campanha pelas diretas, a despeito da decisão do
Congresso.168
Esta postura não se daria sem, como quase todas as posições políticas do PT, disputas
internas, polêmicas públicas entre dirigentes e militantes do Partido e cisões. Alguns
parlamentares petistas desobedeceram à orientação partidária e compareceram ao Colégio
Eleitoral.169
Iniciado como um movimento de defesa das eleições diretas, a campanha pelas diretas
já se tornaria gradativamente muito mais do que isso, se tornaria o grande símbolo das lutas
por democracia no país, pela redemocratização e demonstração de força da população contra
o regime militar. A campanha das Diretas Já foi na prática um escoadouro de todas as
insatisfações políticas com o regime militar e também econômicas: a insatisfação com a
inflação, as consequências do fracasso do "milagre", desemprego e arrocho salarial.
Ainda que não tivesse iniciado e nem sido o principal protagonista do movimento, o
PT foi uma das expressões das mudanças e lutas contra a ditadura de todo o período que
corresponde ao final dos anos 1970 e anos 1980, tendo a campanha das diretas expressado um
grande batismo de fogo para o Partido que sem dúvida conquistou o protagonismo das ruas,
destacando-se nas manifestações e crescendo sua importância e influência a cada comício.
Em meio às transformações pelas quais passava o país, o fim do bipartidarismo, o
ascenso operário e surgimento da Central Única dos Trabalhadores como expressão
organizativa do "novo sindicalismo", a falência do regime econômico militar e toda a
explosão cívica no país, surgia um Partido de esquerda sem nenhum alinhamento com a antiga
URSS, crítica do comunismo stalinista e seus PC's e intentando constituir-se como
representante política da classe operária. Era o PT irrompendo como agente social na História
política de nosso país.
168
COELHO, Eurelino. Uma esquerda para o capital: o transformismo dos grupos dirigentes do PT (1979-1998).
São Paulo: Xamã,2012. p.81
169
cf. Lincoln Secco, compareceram ao colégio Eleitoral os parlamentares Beto Mendes (SP); Airton Soares (SP)
e José Euder Freitas (RJ).
113
3.7 A CAMPANHA DAS DIRETAS JÁ! EM ALAGOAS
Inegavelmente a campanha das Diretas Já! foi um marco para a construção política das
esquerdas no país. Aqui em Alagoas constituiu-se uma grande universidade, na esteira do que
acontecia nacionalmente. Atos grandes, massivos e de ampla unidade progressista tomaram as
ruas de Maceió. O PT dentro desses atos constituiu uma grande oportunidade de crescimento,
com a abertura dada para a esquerda na nova cena política. Algumas das falas tentaram dar a
dimensão dos atos e comícios que tomaram as ruas de Maceió:
Era muita gente cara... Era muita gente. Foi um comício que a gente fez acho que na
Pajuçara, Ponta Verde era aberto, juntava gente. Era assim, uma frente, né?, muito
ampla, todo mundo queria as diretas, né? Então não tinha muita dificuldade, né?, era
só você propagandear. A tese por si só já... já justificava, né, não precisa... não
precisava de grandes argumentos, né? E, e contava também a seu favor um
engajamento muito forte de artistas, de intelectuais, né? E um artista quando vem
prum comício, dependendo do artista ele por si só já é uma atração, né? Eu lembro
que eu, num desses comícios inclusive eu falei em nome do PT estadual. Nesse
comício estava... Pelo PT nacional veio o companheiro Olívio Dutra. Que à época
era, acho que era... salvo engano, se o instinto não me trai era governador do Rio
Grande, não sei se já era governador do Rio Grande... Mas era um cara assim, de
destaque, né? Dentro do PT. Gaúcho mesmo, daqueles gaúcho bem gaúchão, né?
Uma coisa muito bonita, viu? Ali valeu a pena. Não passou, mas enfim, era uma
coisa inevitável, mais cedo ou mais tarde ia ter que acontecer, né? E aconteceu, né?
(Tutmés Airam)
As Diretas Já representaram para a construção do Partido dos Trabalhadores um
acontecimento constituinte da identidade política Petista. Em todos os relatos identificamos
nos atos massivos das Diretas uma viragem na atuação política no Estado. É que a partir das
Diretas o Partido cresce nacionalmente, e essa alavancagem auxilia o PT estadualmente. No
cenário nacional é inegável o destaque político do Partido dos Trabalhadores:
Para o PT, a campanha foi de extraordinária importância. De um lado, porque o
partido a assumiu desde o início, engajando-se nela com grande decisão e
entusiasmo, Assim, quando ela cresceu, e se tornou maciça, foi o PT que mais se
beneficiou com os dividendos políticos daí advindos, embora outros políticos e
lideranças, mesmo aderindo num segundo momento, também tenham se projetado,
ou consolidado sua projeção, através da campanha. 170
170
REIS FILHO, Daniel Aarão. O Partido dos Trabalhadores: Trajetórias, metamorfoses, perspectivas. p. 512-13.
114
Desse modo, o PT cresceu em visibilidade e potência política nacionalmente, e assim
também se deu em Alagoas. As Diretas foram uma grande provação política para o Partido se
consolidar nacionalmente, ao mesmo tempo que permaneceram na identidade política do
Partido como um de seus acontecimentos constitutivos.
Contribuiu para a efervescência da luta das Diretas o duro cenário social alagoano do
ocaso da ditadura:
A segunda metade da década de 70 e a década de 80 foram marcadas por um estado
de crise econômica crescente, com breves momentos de retomada de crescimento e
alguns instantes ilusórios -- a exemplo dos anos de 1986 e de 1987, em que foi
implementado o Plano Cruzado. No final da década de 80, registraram-se altas taxas
de inflação, de 1000% em 1988 e de 2000% em 1989. 171
Para Ricardo Coelho o crescimento do PT mais efetivo se daria no momento posterior
às Diretas. O movimento em si foi profundamente hegemonizado, à esquerda, pela força
política do PMDB e seus agrupamentos internos, como o PCdoB. Mesmo assim, o PT
conseguiu aproveitar o espaço disponível para crescer em suas bases e alargar sua militância:
Olha, a campanha das Diretas já! aqui no Estado ela começa tímida, porque o
PMDB num primeiro momento não tinha jogado muita força no começo, no final de
1983, começo de 1984, mas logo depois ela cresce exatamente pela força do PMDB,
entrando. PCdoB entra com PMDB, e isso deu uma grande alavancada na campanha
das Diretas já! aqui. Nós tivemos uma participação importante do PT, mesmo sendo
ainda um Partido pequeno, nós tivemos intervenções importantes, ainda
conseguimos mobilizar muitos estudantes, alguns trabalhadores, mas a nossa base
cresceu muito aqui no movimento estudantil, aqui na Ufal, e a gente teve uma
participação boa. Agora, é... tivemos problemas porque, com o controle do PMDB
na campanha, o PMDB deu muito o tom das Diretas Já! e o PMDB preparou mais
ou menos aqui o espírito de setores, segmentos importantes de movimentos sociais
aqui, de movimentos políticos, para que se não passasse no colégio, não passasse a
emenda das Diretas, fosse para o colégio eleitoral. Tanto é que foi uma grande briga
no dia das votação da, das diretas no congresso nacional da emenda Dante de
Oliveira, porque nós do PT queríamos, quando soubemos que não passou a gente
queria sair numa grande mobilização, chamar a população e o PMDB e o PCdoB
acomodando para tentar de alguma forma já criar o espaço, o campo político para
um apoio ao candidato do PMDB dentro do colégio eleitoral. Mas a campanha foi
boa, agora com esse clima e sempre dominada pelo PMDB. Na época o PMDB tinha
figuras mais democráticas, mais populares como Zé Costa, Mendonça Neto, Moura
Rocha, Eduardo Bonfim era do PCdoB na época, Renan... então esse pessoal
monopolizou muito o discurso da esquerda aqui em Alagoas. (Ricardo Coelho)
171
ALMEIDA, Leda Maria. Rupturas e permanências em Alagoas: o 17 de julho em questão. p. 85.
115
O conflito entre PMDB/PCdoB e PT segue até as Diretas. Mesmo na decisão do que
fazer após encerrada a votação da Emenda Dante de Oliveira a memória individual registra
uma querela política. Mas há sobretudo o registro de que as Diretas representam um marco de
crescimento para o PT.
Mas é fato que à época o PMDB ocupou no Estado o papel de liderança nas Diretas. A
imprensa noticiou iniciativas dos parlamentares pemedebistas em diversas frentes. No jornal
do dia 19 de Abril de 1984, a menos de uma semana de votação, a Gazeta de Alagoas veicula
matéria em que a liderança feminista, a vereadora Kátia Born e outras dirigentes do
movimento de mulheres vão à Brasília com delegação de ativistas pelas Diretas:
No ponto alto da manifestação -- um comício pró-diretas na rampa do Congresso
Nacional -- Taís Normandes falou em nome da delegação de Alagoas, afirmando
que 'nós que viemos da terra de Teotônio Vilela, aqui estamos para reafirmar que a
mulher alagoana também exige as diretas já e que esse direito do povo é
inegociável'. Denunciou a emenda do Governo como 'tentativa de iludir a nação' e
afirmou que 'estaremos lá em Alagoas, realizando manifestações e fazendo uma
vigília cívica no dia 25, quando o Congresso Nacional votará a Emenda Dante de
Oliveira."172
Taís Normandes, presidente da União de Mulheres de Maceió, é acompanhada no ato
por lideranças feministas do PMDB, dos partidos comunistas e também do PT, conforme a
matéria:
Às 18 horas começou o ato em frente à rampa do Congresso. O clima era de muito
entusiasmo, como relatou de Brasília, Taís Normande. 'A platéia eram as caravanas
de mulheres de todos os Estados que lá estavam. Havia parlamentares, ativistas,
personalidades como D. Lucy Montoro, mas a grande maioria das delegações era de
mulheres do povo, donas de casa, operárias, aposentadas, professoras. Havia muita
animação, apesar do cansaço. A toda hora eram gritadas palavras de ordem,
denunciando o Governo Figueiredo e o regime militar, exigindo as diretas já'. 173
Mas não era só em Brasília e com representações nacionais que o PMDB se destacava,
em unidade com o PT. Também nas pequenas cidades do interior eram convocadas
manifestações e comícios. A campanha pelas diretas tomou todo o país. Na mesma edição do
172
173
Gazeta de Alagoas. 19/04/2016.
Idem.
116
jornal, um pouco abaixo da reportagem anteriormente citada, há uma matéria falando da
convocação de uma manifestação em Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas:
O vereador João Rosa, líder do PMDB na câmara municipal de Palmeira dos Ìndios,
explicou que o comício pró-diretas será realizado na Praça da independência, no
centro da cidade, e começará às 18 horas com um show de artistas locais. Em
seguida falarão líderes políticos e representantes de organizações populares e
democráticas de Alagoas.174
Sim, o PT cresceu dentro da campanha das Diretas. Mas não foi sua principal
liderança. Este papel coube ao PMDB. Em São Paulo, o governador Franco Motoro liberava
as catracas do metrô para ampliar as manifestações e engrossava os comícios com discursos
em moções. Junto a isso, o destaque dado pela imprensa, como o Jornal Folha de SP e
revistas de grande circulação como a Veja, ajudava também a engrandecer os protestos.
Mas no contexto geral, o PT se fortalecia. Mesmo derrotada a Emenda Dante Oliveira
no Congresso comícios seguiram acontecendo, como o comício no Ceret - Centro Recreativo
do Trabalhador na Zona Leste de São Paulo, comícios gigantescos em diversas capitais, o
comício de 26 de Junho na Praça da Sé, o ato de 31 de Julho na Assembleia legislativa de São
Paulo, dentre outros.175
Nesse ínterim as questões se deslocaram para a questão do Colégio Eleitoral e a
participação ou não do PT, polêmica que dividiu o partido. No fim, a campanha das Diretas
acabou sendo útil também para que o PT se organizasse internamente, organizando
congressos, reuniões nacionais como o Encontro Nacional Extraordinário realizado em
Diadema nos dias 12 e 13 de Janeiro de 2015176, dentre outras iniciativas.
Alice vê o momento das Diretas com muita simpatia. Lembra que Lula chegou a vir
para comícios na Pajuçara e que os atos eram massivos:
Ah, Pegou fogo! Foi muita mobilização, foi muita participação, eu acho por conta do
peso do PT em nível nacional, sabe? E é claro que os tempos também eram outros.
Você já não tinha mais aquele... o rigor do regime militar, ou seja, já se respirava
novos ares, já se tinha passado pelo movimento da anistia ampla, geral e irrestrita...
ou seja, já havia um certo acúmulo de experiência de lutas democráticas, e o PT
174
Idem.
SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Ateliê editora. 2011 p. 115
176
Idem. p. 116.
175
117
evidentemente, ele... ele surgiu como uma inovação, com capacidade de aglutinar os
setores mais da esquerda. Então, nesse sentido, a participação nas Diretas Já!, o
próprio Lula como é... é, oriundo do movimento sindical combativo, né? Com
setores combativos da igreja... ou seja, isso contagiou nacionalmente, portanto
Alagoas também. Então foi muito... Lula que aqui acho que no processo das Diretas
Já!, se bem me lembro... um comício eu tenho certeza, ele fez, lá ná... acho que na
pajuçara. Mas o Lula mesmo acho que ele passou aqui duas vezes... passou duas
vezes... e antes dele ir fazer o grande comício do Pacaembu, lá em São Paulo, o
pessoal lá já tava aglomerado organizado, mobilizado, o Lula saiu daqui direto pra...
pro comício, pra manifestação no Pacaembu... aí, foi dinâmico, foi forte.(Alice
Anabuki)
Também na narrativa de Alice há o sentimento de que devido ao peso do PT a nível
nacional há um respaldo da atuação petista em nível local. Repete-se esse caráter reativo em
relação ao resto do Brasil. A identidade política não só passa aqui pelo acontecimento das
Diretas, mas também relembra a personagem de Lula, que esteve aqui no Estado. Além disso,
ressalta que houve sim muito espaço de visibilidade para o PT, que cresceu muito no período:
Muita, claro! Muita, muita gente! O PT é, nesse período ele já era um Partido de
massa. Ele já era um Partido de massa. Não era um Partido apenas de... de, de
figuras tradicionais, sabe?, dos coronéis do Sertão, sabe? Já não era mais aquela
base, voto de cabresto, não, já era aquela coisa mais moderna. O pessoal também já
tinha um certo acúmulo de experiência de lutas democráticas, né? A luta pelo fim da
ditadura militar; a luta pela anistia ampla, geral e irrestrita; a criação, a refundação
da UNE... a, sabe? A retomada dos DCE's... já havia um certo acúmulo de
experiências... então o PT nesse sentido eles é, o movimento sindical também,
combativo, então foi uma convergência de vários fatores que propiciou o
fortalecimento do PT. Então as Diretas Já!, nossa! Foram assim uma coisa massiva,
massiva... massiva. Assim, muita simpatia... Era um Partido de massa. Coisa que foi
inédito na história dos Partidos políticos no país. (Alice Anabuki)
Mais uma vez o reforço do ineditismo do PT, o reforço de que o PT era uma absoluta
novidade na vida política. De fato, o PT representava sim uma oxigenação para o movimento
de massas no Brasil. Sua composição heterogênea tinha comum o berço das lutas e
mobilizações do final da ditadura. Se é exagero ver no Partido um marco zero das
mobilizações no Brasil e um ponto de superação com a prática militante dos comunistas, que
à época estavam ainda no MDB, por outro lado é também equivocado não reconhecer o peso
político que o Partido político desempenhou nas manifestações:
O surgimento do PT em 1980 era uma expressão da reorganização da esquerda e dos
movimentos operários, estudantil e popular. O impulso de uma onda de ascenso de
lutas, que começou em 1978/1979, foi poderoso o bastante para radicalizar uma
118
parcela da burocracia sindical, atrair uma parcela dos líderes populares articulados
pela Igreja Católica, e favorecer o reagrupamento de algumas organizações
marxistas, todas com algo próximo de mil ativistas, embora na maioria jovens, para
um projeto político legal comum: CS (Convergência Socialista), OSI (Organização
Socialista Internacionalista), DS (Democracia Socialista), MEP (Movimento de
Emancipação do Proletariado), PRC (Partido Revolucionário Comunista), entre
outras menores. Essas forças criaram um partido de esquerda sui generis para os
anos 1980: um partido operário independente da burguesia, ainda que reformista. 177
Adelmo dos Santos coloca-se como alguém muito por dentro de todos os processos.
Enquanto falava-se que não havia contato direto entre o MDB, a essa altura da narrativa,
PMDB,e o PT em outras narrativas, Adelmo confessa que chegou a receber a visita de
Teotônio Vilela em sua casa para discutir a atuação nas Diretas. Comenta ainda que estava em
São Paulo quando viu o início do movimento das Diretas:
Ah... a campanha das Diretas Já! eu me lembro perfeitamente disso. Eu estava em
São Paulo por acaso, no sindicato dos bancários, que era presidido pelo companheiro
Luís Gushiken, e tinha um clássico: Palmeiras e São Paulo. Dezesseis horas da tarde
e nós távamos em frente ao Pacaembú, mais ou menos trezentos companheiros,
começando a defender as eleições diretas. E a partir daí a gente começou, foi o
primeiro Partido no Brasil a ir às ruas pra defender as eleições diretas. Eu me lembro
que em frente ao Pacaembu um grupo de trezentos companheiros começaram a
gritar por liberdade, começaram a gritar para que a gente pudesse escolher o
presidente do Brasil, governadores e prefeitos, nas capitais. (Adelmo dos Santos)
Quando a campanha começou a tomar conta do país aqui em Alagoas muitos
setores ligados ao poder econômico, usineiros, latifundiários, também abraçaram
essa, essa bandeira das diretas, né? Lembro perfeitamente que certo dia eu recebi a
visita em casa do senador Teotônio Vilela "pai", eu era presidente do sindicato dos
radialistas, pra participar de uma reunião pra gente discutir as eleições diretas. O
senador Teotônio Vilela "pai" era senador pela ARENA e dizia pra nós que era
preciso naquele momento unir forças para que pudéssemos sair do Estado de
exceção para garantir a democracia e, não só ele, mas muitas pessoas que hoje
combatem o PT naquela época se juntaram ao PT e à outras organizações para que a
gente pudesse ter as eleições diretas. E aqui em Alagoas não só, mas todo o Brasil
nós conseguimos esse feito que fez com que a gente hoje possa viver realmente
numa democracia. (Adelmo dos Santos)
Apesar da rivalidade nos movimentos sociais de base, Adelmo admite agora a unidade
das Diretas. Essa unidade é reafirmada através da elaboração de uma lista de forças e
segmentos sociais presentes nas mobilizações.
177
ARCARY.Valério. O martelo da História: Ensaios sobre a urgência da revolução contemporânea. São Paulo:
Editora Sundermann. 2015 p. 162.
119
Olha, havia muitas forças políticas, até antagônicas... elas participaram da, da
campanha das Diretas aqui em Alagoas, né. Tinha... o pessoal do PMDB, MDB na
época, né?, religiosos, estudantes, líderes sindicais, líderes do movimento popular...
né? companheiros que vieram do exílio na época, com a anistia, até pessoas que do
setor do açúcar, pessoas do açúcar... pessoas que em 64 lutaram, lutaram contra os
trabalhadores, lutaram pra derrubar João Goulart em 64, essas pessoas também
estavam lutando pelas Diretas. (Adelmo dos Santos)
Geraldo de Majella corrobora com a visão de um movimento plural e dinâmico,
comportando diversas forças:
A participação nas Diretas é... Como as Diretas ela tinha uma característica muito
ampla, né?, e atendia a todos o espectro, ela atendia ao PCdoB, atendia ao PCB,
atendia ao PT, ao PDT...ao PMDB, também, todos os partidos que estavam aqui,
tinham interesse. Nesse momento das Diretas o Collor já tava no PMDB e já era
Governador de Alagoas com o apoio do PCdoB, do Renan, do Djalma Falcão, do
grupo majoritário do PMDB, né? O PSB tinha sido fundado saído de dentro do
PMDB, Ronaldo Lessa... Então, o PMDB, o PDT, o PCB, O PCdoB, o PT, o PSB,
esses partidos... eles trabalharam em conjunto nas Diretas além do papel
desempenhado pela sociedade civil, os sindicatos, CUT, as outras centrais sindicais,
os movimentos populares, a OAB teve um papel interessante aqui com o, acho que o
presidente era o Marcelo Lavener, ou já era o Nabor Bulhões, não me recordo muito
bem, mas tava entre o Marcelo Lavener e o Nabor Bulhões, a OAB teve um papel
importante, inclusive a vigília da votação das Diretas do 25 de Abril de 1987, 1988,
sei lá, quando aconteceu a votação da Emenda Dante de Oliveira ela, essa vigília
aconteceu na porta da OAB, então foi bastante movimentada (Geraldo de Majella)
O Jornal de Alagoas do dia 12 de Abril de 1984 cobre a reunião dos parlamentares do
PMDB para avaliar os trabalhos da campanha das Diretas no Estado e a posterior criação de
um Comitê composto por diversas organizações. A matéria dá muito destaque ao peso político
dos parlamentares e ativistas do PMDB:
Com maciça participação de políticos, representantes de entidades comunitárias,
sindicais, estudantis e democráticas de Alagoas, além de várias personalidades, o
Comitê Político Unificado do deputado Eduardo Bonfim, vereador Edberto
Ticianelli e vereadora Jarede Viana realizou no último final de semana o 1º Encontro
de Avaliação da ação dos três parlamentares nas lutas do povo. 178
A matéria segue destacando a inauguração da sala que servirá de base ao comitê.
Destaca a presença de lideranças do PT e do PCdoB, como Alberto Saldanha, liderança
178
Jornal de Alagoas. 12/04/1984
120
estudantil, o jornalista Ênio Lins dentre outras lideranças importantes na campanha das
Diretas no Estado:
"Compareceram a abertura, entre outros, o conselheiro Geraldo Sampaio, o
presidente da OAB, Macelo Lavénere, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores
Rurais de Santana do Ipanema, José Vieira, o representante da FETAG, Francisco
Souza, o vice-prefeito de São Miguel, Rinaldo Soares, o presidente do PT de
Alagoas, José Antônio; o jornalista Ênio Lins, representando a comissão estadual
pela legalidade do PC do Brasil, o presidente da União Estadual de Estudantes de
Alagoas, Alberto Saldanha, e vários outros políticos. Após a inauguração da sala,
vários dos presentes usaram a palavra e houve um coquetel". 179
A matéria prossegue ilustrando a participação de representantes políticos do interior
do Estado e encerra com a composição de uma comissão organizadora. Cremos que essa
matéria é importante para visualizarmos o que aparecia para a sociedade civil como os setores
sociais à frente da campanha das Diretas, suas principais lideranças:
No domingo, as atividades do Encontro de Avaliação começaram pela manhã, no
auditório da Reitoria da UFAL. Além dos políticos do Comitê e outros do Interior,
participaram dos trabalhos os representantes das entidades sindicais, estudantis e
democráticas, e mais 71 delegados do Interior (destacando-se uma delegação de 22
operários de São Miguel dos Campos), além de caravanas dos bairros da Ponta da
Terra, Tabuleiro, Ouricuri, Jacintinho, Poço, Pinheiro, Bebedouro e Vergel.180
Por fim, a composição do Comitê Unificado, conforme a mesma matéria:
Assim, a partir de domingo, o Comitê Unificado passa a ser composto, além do
Deputado Eduardo Bonfim e vereadores Edberto Ticianelli e Jarede Viana, dos
vereadores Anísio Amorim (Murici), Mirta Correia (Quebrangulo), Gabriel Correia
(operário de Rio Largo), Ricardo Alves (Cajueiro), João Rosa (Palmeira dos Índios),
Telmo Henrique (Porto Calvo), Zoroastro Freitas (Coqueiro Seco), Cliuton Santos
(Pão de Açúcar) e Sílvio Gomes (Joaquim Gomes).181
Daí se vê que muitas das referências vêm do PMDB e do PCdoB, ocupando o PT um
papel muito diminuto como liderança do processo no Estado. Diferentemente de em outros
179
idem.
Idem.
181
Idem.
180
121
locais, em Alagoas o PT não aparece com grandes quadros acompanhados pela mídia
impressa.
Apesar de toda a unidade, foram poucos os empresários que compuseram o
movimento com efetividade e subiram aos palanques.182 Da parte da imprensa, apenas a Folha
de S. Paulo, como jornal de grande circulação, apoiou o movimento, ainda assim quando este
já se encontrava desenvolvido e controlado. Majella, porém, registra em Alagoas a
participação de um importante empresário da comunicação:
"Teve um elemento aí importante que muita gente esquece mas quem tava no
bastidor e é minimamente honesto haverá de reconhecer o papel desempenhado pelo
empresário Geraldo Sampaio. Porque o Collor, como governador, ele apoiou, mas a
TV Gazeta aqui era Globo, então a TV Gazeta não tava na campanha das Diretas.
Como a Globo não estava na campanha das Diretas. Mas a TV Alagoas que acho
que era SBT, o empresário Geraldo Sampaio colocou à disposição da campanha das
Diretas a TV Alagoas. Então ele como empresário, do ponto de vista empresarial,
não era uma boa atitude essa do ponto de vista empresarial, do ponto de vista
político foi ímportantíssimo pra todos nós, porque você tinha programas com
bastante audiência na TV Alagoas que nós íamos para a televisão fazer campanhas
abertamente pelas Diretas, fazer cobertura dos comícios, entrevistar as figuras, a
vinda por exemplo aqui do Tancredo Neves. O Tancredo foi recebido na casa do
empresário Geraldo Sampaio. O Brizola, Arraes, todo mundo que teve aqui na
campanha das Diretas tinha cobertura da TV aqui de Alagoas. Então esse é um
momento em que dali a campanha, ela chegou a trinta e poucas mil pessoas , pelo
cálculo daquela época, se você for pesquisar no Jornal de Alagoas, o Jornal de
Alagoas, estampou manchete principal uma foto grande na primeira página do
comício da Pajuçara. O comício pelas Diretas na Pajuçara. E esse comício contou
com o apoio pela TV Pajuçara, de outras rádios e de todas essas organizações, e cada
um dos partidos procurou mobilizar as suas lideranças, movimentos populares etc. E
participar da coordenação, porque a coordenação da campanha das Diretas era
suprapartidária. Um grupo muito grande que reunia na OAB, tinha a OAB como o
centro da mobilização e até mesmo de concretude, a OAB como não tinha sigla
partidária, nunca teve uma sigla partidária definida, tanto é que o presidente podia
ter simpatia ou não por um partido ou outro mas de modo geral a constituição neutra
e que tava empenhada na campanha das Diretas. Então a OAB teve um papel
também muito importante nisso."(Geraldo de Majella)
Mas essa unidade não se deu sem divisões internas nos projetos e propostas para
condução do movimento das Diretas. Arcary destaca três posições em disputa dentro do
CNPD (Comitê Nacional Pelas Diretas): "a proposta de greve geral levantada pela CUT, a
proposta de extensão de dois anos do mandato de Figueiredo apresentada por Brizola com
eleições presidenciais em 1986, e a proposta de participação no Colégio Eleitoral defendida,
182
Cf. ARCARY. Valério. O martelo da história: ensaios sobre a urgência da revolução contemporânea. São
Paulo: Editora Sundermann. 2015 p. 165.
122
finalmente, por Ulisses Guimarães, Franco Montoro e Tancredo Neves."183 Tais posições
refletiriam as pressões sociais e deslocamentos ocorrendo na base do movimento.
Essa divisão ganhou as ruas, espaços de comunicação e instrumentos de todas as
classes e segmentos políticos. Na Gazeta de Alagoas de 10 de Abril de 1984 é publicada
matéria em que o Vereador Lamenha Marreco desafia o PCB e o PCdoB e acusa os partidos
de usurparem o caráter original das Diretas. Segundo a liderança alinhada ao regime estes
partidos teriam mudado o caráter das manifestações para algo mais próximo a ideais
socialistas, instando os comunistas a construírem suas próprias mobilizações:
não participei das manifestações das Diretas porque os comunistas tomaram 'bigú'
no que não dizia respeito a eles". Esta declaração foi feita pelo vereador Jorge
Lamenha Marreco, quando perguntado sobre a sua ausência dos comícios
promovidos pela oposição neste Estado a favor das eleições diretas para presidente
da República. Marreco, continuando em sua resposta, faz um desafio aos membros
do Partido Comunista em Alagoas: 'que façam um comício comunista, pedindo a
legalização do seu partido, para testar o prestígio nesse Estado'." 184
O PT não foi poupado da indignação de Marreco. Continuando a diatribe, o
parlamentar atacou o que ele chamou de partido trabalhista:
Sou a favor das Diretas, esta é uma causa que devemos defender', afirma o edil, que
se declara contrário a uma paralisação nacional para que todos possam acompanhar
a votação da emenda Dante de Oliveira. 'O Partido Trabalhista não deveria ter
cogitado isto. Um partido dos trabalhadores não poderia pedir para que os
trabalhadores parassem suas atividades. O país já tem muitos feriados e satificados;
isto custa muito à uma nação.'185
Sem dúvida este não é um ataque isolado, dentro da imprensa de todo o Brasil, à
proposta de greve geral do Partido dos Trabalhadores. Na mesma edição do jornal há outros
pequenos ataques. Em uma pequena nota, da seção "Registro", nota essa intitulada "Recuo",
consta a seguinte mensagem:
183
ARCARY. p. 167
Gazeta de Alagoas. 10/04/1984
185
idem.
184
123
O recuo dos subversivos e inocentes úteis que pretendiam promover uma greve geral
no país, no dia da votação da emenda das Diretas, confirmam antigo dito popular
nordestino: 'não há boi ladrão, há cerca frouxa'". 186
Na véspera do dia da votação ocorreu uma grande manifestação pelas Diretas na
cidade de Maceió. O jornal Gazeta de Alagoas do dia 24 cobriu a chegada de caravanas de
mais de 35 municípios de todo o Estado para a manifestação com participação popular e de
diversas instituições, como a Universidade Federal de Alagoas, que prometeu a passagem da
"tocha acadêmica" e outras intervenções:
'Essa será sem dúvida a maior festa cívica já ocorrida em Alagoas', garantiram
Messias de Souza e Eduardo Davino, coordenadores do Movimento Teotônio Vilela,
sobre a passeata pró-diretas que será realizada hoje às 16 horas. É pra dar um
exemplo do êxito que a iniciativa pode alcançar, eles afirmaram que '35 municípios
do Estado já confirmaram que estarão presentes ao ato, com grandes caravanas. 187
A matéria prossegue afirmando a presença de associações de direitos humanos,
sindicatos e outras entidades, como um atestado do caráter plural do movimento.
No dia seguinte, a cobertura da manifestação afirma a presença de mais de vinte mil
manifestantes, que caminharam por mais de 4 horas ao longo das ruas do Centro da Cidade,
muito apoiados pela população nos prédios que os recebia com chuvas de papel picado. Os
comerciantes fecharam mais cedo seus estabelecimentos, o trânsito da cidade, conforme a
matéria, foi modificado para facilitar o acesso á manifestação e até mesmo alguns ônibus
circularam gratuitamente. Ao final, o ato concentrou-se na frente da Assembleia Legislativa,
que teve as suas atividades encerradas mais cedo.188
Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil.'
Estas foram as palavras de ordem que explodiram da boca de mais de 20 mil pessoas
que participaram da passeata, realizada ontem a favor das eleições diretas para
presidente já. Acompanhados de longe por policiais da Polícia Civil do Estado, os
manifestantes percorreram diversas ruas do centro de Maceió, exibindo centenas de
cartazes e faixas pedindo a aprovação da Emenda Dante de Oliveira.
Os estudantes do curso de Arquitetura da Universidade Federal de Alagoas
surgiram no meio da multidão conduzindo o que eles denominaram de 'o minhocão
das diretas', nas cores verde e amarelo.189
186
idem.
Gazeta de Alagoas. 24/04/1984
188
Gazeta de Alagoas. 25/04/1984.
189
idem.
187
124
O Jornal de Alagoas também cobriu a manifestação do dia 24. Entrevistando a
liderança política de Eduardo Bonfim, cobrindo mais uma vez a manifestação ressaltando a
pluralidade de setores da sociedade civil e contribuindo para construção de um forte
sentimento de unidade cívica, a matéria também coloca as figuras do PMDB/PCdoB como
centro político. A matéria também cobre algumas das palavras de ordem utilizadas na
passeata:
Caravanas de várias cidades demonstravam a participação e interesse do povo
do Interior em favor das diretas já, cuja emenda definindo seu restabelecimento será
votada hoje, na Câmara Federal, num clima de grande expectativa dos políticos,
autoridades governamentais e de praticamente todos os brasileiros.-- Queremos
escolher nosso presidente... Chega de autoritarismo... Temos o direito de participar
das decisões do nosso país... A hora é esta, vamos mostrar nossa força, união e dever
cívico de defender os interesses nacionais... Democracia e participação... É isto que
queremos... O país não pode ser entregue a um pequeno grupinho, somos uma
Nação...
"Frases como essas e muitas outras eram vistas em cartazes, faixas ou mesmo
cantadas em forma de corinho durante o percurso da maior manifestação pública
dos últimos tempos em Maceió. A passeata, como estava prevista, teve como local
de concentração a Praça Montepio, na sede da OAB-Alagoas.190
As manifestações terminaram com um acordo que derrotou a Emenda Dante Oliveira.
O PT se retirou do colégio eleitoral e o governo Figueiredo, mesmo politicamente derrotado,
manteve-se no poder, embora combalido. A transição efetivou-se de maneira negociada,
mantendo muito do antigo regime ainda sobrevivente dentro do acordo político surgido para o
pós-ditadura.
3.8 O BALANÇO POLÍTICO DA CAMPANHA DAS DIRETAS JÁ!
O resultado da construção da campanha das Diretas foi, para a esquerda, a
possibilidade de crescer no Estado, derrotar o regime e abrir espaço político para tirar a
ARENA do poder. Ricardo Coelho fala que o resultado eleitoral imediato à campanha das
Diretas foi a chegada ao poder, no âmbito estadual, do PMDB:
190
Jornal de Alagoas. 25/04/1984.
125
Ela foi, foi importante, ela foi, teve um impacto importante. Inclusive ela criou bases
para que o PMDB lançasse candidato a governador na eleição de 86. O PMDB tava
fortalecendo para lançar ou o Zé Costa ou o Moura quando ele foi tomado pelo
Fernando Collor. Fernando Collor entrou no PMDB no final de 85 e foi candidato
em 86. Mas eu acho que o grande impacto da campanha das Diretas aqui em
Alagoas foi exatamente fortalecer esse campo do PMDB. Nós ficamos muito à
deriva e o, naquele momento Ronaldo Lessa surgia como uma força importante, ele
era Deputado Estadual e ele tinha um projeto político mais... mais majoritário e ele
se lançou governador e nós tivemos que entrar, o PT foi apoiá-lo porque o PT não
tinha força para lançar um candidato a governador aqui. (Ricardo Coelho)
Essa identificação entre crescimento nacional e crescimento local do PT, que aparece
também em outras falas, reaparece aqui. Ainda seguindo a fala de Ricardo Coelho, vemos
uma avaliação do crescimento petista após a atuação do Partido nas Diretas. O PT encerra os
anos 1980 como uma força política real no Estado, capaz de entrar na disputa pelo poder:
Cresceu, o PT cresceu. O PT começou a ter visibilidade. O PT participou da
campanha das Diretas, o PT ganhou, a gente ganhou a eleição do DCE aqui, a gente
conseguiu organizar alguns sindicatos mais importantes como o sindicato dos
químicos, a gente cresceu na nossa base social lá nos urbanitários, e então a gente
teve um crescimento significativo, a CUT ajudou muito também, o surgimento da
CUT foi 83 e a organização da CUT aqui... Então em 86 nós já estamos legalizados,
nós participamos das eleições com candidatos a Deputado Federal, à Deputado
Estadual... apoiamos o Ronaldo Lessa para governador. Não disputamos as eleições
majoritárias, mas a nossa participação nas eleições de 86 já foi uma participação
mais importante. Nós tivemos um candidato à Deputado Federal chamado Fernando
Parreiros, que foi um candidato que vinha da igreja, movimento da igreja, teve uma
participação significativa. Lançamos cinco candidatos à Deputado Estadual, o mais
votado foi um rapaz da... do movimento agrário de Craíbas o Florisval, que teve
1.900 votos, e eu tive, eu fui candidato a Deputado Estadual naquela eleição e eu
tive 1.860 votos, bem próximo dele. Então nós podíamos ter eleito um Deputado
Federal, por quê? Porque, Estadual aliás, porque a nossa coligação ela teve um
puxador de votos muito forte que foi o Sabino Romariz que era do PDT e nós
ficamos na segunda suplência. O Florisval ficou na segunda e eu fiquei na terceira
suplência com a diferença pequena nós poderíamos ter eleito um Deputado Estadual
naquela eleição já.(Ricardo Coelho)
Esse crescimento local tem direta relação com a moralização nacional pela qual
passava o Partido. Para Valério Arcary esse fortalecimento do PT deve-se também à ousadia e
intransigência da oposição feita à ditadura, através também da CUT e da proposta de ações
radicalizadas, o que valeu um aumento de seu peso político:
Foi no calor dos noventa dias de luta que o PT (Partido dos Trabalhadores), a CUT
(Central Única dos Trabalhadores) e Lula conseguiram aumentar sua audiência e
credibilidade política. E foi porque o PT decidiu não esperar mais e tomou a
iniciativa de ir para as ruas, em 27 novembro de 1983 no Pacaembu, em São Paulo
126
(reunindo cerca de 25 mil militantes), que o governador Montoro, temendo ser
ultrapassado pela esquerda, tomou a iniciativa de chamar o primeiro comício para o
dia 25 de janeiro de 1984.191
Em um cenário de inflação de mais de 100% ao ano, o núcleo paulista do MDB
comandado por Ulysses e Montoro responde à iniciativa do PT e convoca o povo para as ruas.
A presença massiva -- ao todo contabilizaram-se 5 milhões de pessoas nas ruas de todo o país
-- surpreendeu a todos. Acentuou-se também aí sua divisão.
Vemos que as Diretas funcionam para todos os entrevistados como um marco. A partir
daí o PT começa a ser uma força política de respeito no Estado. Tutmés Airam concorda que
as Diretas foram uma campanha política importantíssima para a consolidação do PT. Sua
avaliação é que a pauta, por ser ampla e capaz de aglutinar diversos interesses políticos,
facilitou o fortalecimento da esquerda:
É... Bom, eu diria que foi um... era um movimento assim... plural, né? Plural,
aglutinou muita gente, inclusive gente que não era nem de esquerda, meramente,
vamos dizer, democrática, né? Porque era um pleito muito simpático, né?, não era
difícil, é, você convencer as pessoas que... que as diretas era alguma coisa, assim,
muito razoável, né? Então uma coisa que contagiou muito... As reuniões eram
sempre muito amplas, muito... muito... muito entusiasmadas, né? Porque a coisa foi
ganhando um volume tal que contagiava a todos, né? E nós fomos... Eu me lembro
que no dia, no dia lá da aprovação, da desaprovação das diretas nós fizemos um ato
na porta da antiga ordem dos advogados do Brasil, né?, isso todos nós unidos, carro
de som, enfim, transmitindo ao vivo, a sessão, ouvindo lá o voto dos senhores
deputados, né? E havia assim, é, muita esperança, mas uma esperança que era ao
mesmo tempo, eu diria que uma esperança meio cética, né? Porque se fazia as contas
e se percebia que talvez não desse pra passar, né? E foi efetivamente o que
aconteceu... Muita tristeza, muita gente chorou, foi, assim, no final foi um
desalento, né? Mas, é, acho que foi uma coisa muito boa porque unificou todo
mundo, né? Acho que o movimento democrático-popular saiu, se fortaleceu muito,
não é? Tanto que isso acabou sendo, assim, um divisor de águas na eleição
municipal que veio, né? Que foi a eleição que, surpreendendo todo mundo, né?, que
efetivamente não era assim, o candidato favorito, né? Surpreendendo todo mundo, o
Ronaldo Lessa ganhou a eleição, né? Na eleição de dois candidatos fortes, a eleição
do Téo Vilela e entrou o Zé Bernardes. E aí, é... a câmara também municipal deu um
salto de qualidade enorme, não é? Muita gente boa, né?, sendo vereador. E isso
permitiu que o PT ganhasse uma outra dimensão no Estado, né?, porque nós tivemos
a candidata a vice-prefeito que acabou sendo assim um destaque absoluto na
campanha, pela performance dela, né? Performance pessoal muito boa, né?(Ricardo
Coelho)
191
ARCARY.Valério. O martelo da história: ensaios sobre a urgência da revolução contemporânea. São Paulo:
Editora Sundermann. 2015 p. 166.
127
Mais uma vez, ressalta-se o crescimento do Partido a partir dos anos 1990. Em quase
todas as falas destaca-se a atuação do Partido após a década de 1980. No caso específico aqui,
a atuação de Heloísa Helena192. É como se fosse ponto comum que o Partido tivesse dado um
salto representativo após a década de 1980.
Tutmés assinala que o crescimento após o movimento das Diretas se deu
acompanhando o movimento de crescimento que o Partido teve no país inteiro,
acompanhando o espaço de um cenário nacional mais aberto e propício ao crescimento da
esquerda, em sua visão:
Foi. Foi a partir daí. A partir daí. E a gente aqui também coincidindo com o
crescimento e a consolidação do PT no Brasil como um todo, né? E aí vieram as
célebres campanhas do Lula, né? A mais bonita delas que foi a de 88, né? Foi uma
campanha belíssima, né? Os comícios eram, assim, coisas emocionantes, não é? E já
naquela época, não é, vamos dizer, há alguma coisa que surgia de novo no horizonte
político, né? Irradiou o Brasil todo, né? Crescemos nacionalmente e crescemos aqui,
né? E deixamos de ser uma coisa de alguns poucos, né? Idealistas, né? Pra ser
realmente uma legenda que também em Alagoas teve que ser uma legenda levada a
sério, né? Protagonista da cena política, né? Então é isso. As diretas possibilitaram
esse salto de qualidade. (Tutmés Airam)
O discurso de Tutmés e de Ricardo joga para a década de 1990 o crescimento petista.
Esse crescimento é exemplificado com o aumento das possibilidades eleitorais. A partir das
Diretas, o PT assume a forma que viria a adquirir ao longo dos anos 1990, entrando de vez
nas disputas. Também é a partir daí que o PT começa a metamorfosear-se em direção ao
espírito do Anhembi mencionado por André Singer. O PT entraria em uma nova fase, uma
fase mais flexível, taticamente,eaté entrar no comando do Estado, em 2002.
Alice Anabuki, com discurso mais alinhado às críticas comumente feitas pela esquerda
do PT, assinala que esse crescimento se deu, em sua opinião, com o progressivo abandono das
bases programáticas que geraram a fundação do Partido dos Trabalhadores:
192
Professora da Universidade Federal de Alagoas, foi dirigente política do Partido dos Trabalhadores no
Estado. Ocupou a vice-prefeitura no mandato de Ronaldo Lessa (1992-1996), foi Deputada Federal, candidata à
Prefeita de Maceió. Senadora e uma das lideranças políticas do Movimento do 17 de Julho, contra o Governo
Suruagy. Posteriormente rompeu com o PT e ajudou a fundar o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), no qual
concorreu à Presidência da República. Atualmente compõe, juntamente com outras lideranças dissidentes do
PT, Como Marina Silva, A Rede Sustentabilidade (REDE).
128
Cresceu muito! Se bem que eu também passei praticamente oito anos fora logo
depois. Eu fui fazer o mestrado, e... logo em seguida fiz o doutorado... militei em
São Paulo nessa época. E nesse período, quando eu voltei do doutorado, né, depois
de sete, oito anos, o PT já tinha... já tinha mudado bastante a sua composição social.
E... não só localmente, regionalmente, mas no plano nacional o PT, com a
participação das campanhas presidencias, a... esse programa classista, a... a insígnia
da, do governo dos trabalhadores ele já haviam sido abandonados... sabe? Já se
insinuava com bastante força uma política de alianças com outros Partidos, mais...
eu não posso lhe falar desse período que me ausentei. E quando eu voltei não tive
interesse... aliás, já em 93, nas campanhas, acho que era a segunda campanha pra
presidente, eu já achava que o PT se distanciava das suas origens programáticas.
(Alice Anabuki)
Mais uma vez, o enquadramento da memória de um PT das origens. A avaliação de
Alice a respeito da experiência é petista, embora ela pontue que há o esfacelamento do projeto
original, em sua visão, sob as bases do projeto implementado pela Articulação:
Eu acho que foi extremamente positivo, porque foi um Partido com base social,
coisa que não havia Partido com a base social como o PT teve. É... ele teve um, um
viés classista muito positivo também. Ele também tinha uma política de organização
pela base que era a política de nucleação. Isso foi uma experiência muito boa para
organizar a militância. E também uma referência na independência de classe
inclusive nas campanhas eleitorais, no... nas insígnias de um governo dos
trabalhadores. Nesse sentido o PT, ele... ele gerou expectativas muito positivas,
tanto que também várias correntes da esquerda também se integraram no PT. Mas...
o esfacelamento das correntes de esquerda criou o paradoxo que foi o fortalecimento
da Articulação, né? Nessa aproximação de uma visão mais social-democrata, de uma
visão mais eleitoreira, parlamentar... o PT criou expectativa também para esses
setores. Classista, mas ainda elegendo o campo parlamentar como prioridade nas
lutas, nas conquistas... mas foi um embate, o tempo todo era um embate interno.
Então nesse sentido ele foi positivo. Foi um Partido com um viés de esquerda capaz
de articular a esquerda radical, revolucionária, reformista, e... com uma prática de
organização pela base, acho que esse foi o grande mérito do PT. Mas com calendário
eleitoral da democracia representativa, isso jogou o PT pro espaço, eu acho. O PT
foi obrigado, pra alcançar cadeiras no parlamento ele foi obrigado a se abrir. E no
que ele se abria pros... pros oportunistas, pros eleitoreiros, ah!, o programa também
ia pro espaço, claro. Mas aí depois do período que me afastei não posso lhe dizer,
militei mais em São Paulo (). (Alice Anabuki)
Adelmo dos Santos nota que mesmo o anticomunismo que havia sido apontado
arrefecera, diante do crescimento do Partido, quando perguntado se as Diretas haviam
atrapalhado ou ajudado a construção do Partido:
Não, pelo contrário, ajudou muito, né? O PT com as Diretas, nós começamos a ter...
aí já não havia mais aquela perseguição no interior do Estado pra fundar um Partido
político, né? Antes já tinha... As pessoas já aceitavam o PT como um Partido
político, antes era o Partido da besta-fera, antes a gente ia mudar a bandeira do
129
Brasil, como eles dizem hoje... antes a gente ia tomar terras de quem tinha pra dar
aos trabalhadores, eles diziam que quem tinha duas casas a gente ia tomar uma e ia
ficava com... com, com, com o Partido... tudo isso eles pegavam, né?, com as lutas
das Diretas, já o quadro já começou a melhorar e aí começou a ter um pouco de
inserção no movimento, principalmente no interior do Estado. (Adelmo dos Santos)
Percebemos então que, ainda que com eventuais discordâncias, todos os entrevistados
concordam com o impacto da campanha das Diretas e sua importância para a construção local
do PT. É como se o evento operasse, na memória política de todos, como um verdadeiro
marco da construção do Partido no território alagoano. Somente a partir da intervenção nas
Diretas o PT veria uma alteração na sua inserção política e maior crescimento.
A partir das narrativas, podemos concluir que para os entrevistados é indubitável que o
PT cresce politicamente após a atuação na campanha pela aprovação da Emenda Dante de
Oliveira, ao passo que entra de vez no jogo eleitoral, sendo uma força política de peso
considerável na sociedade alagoana. O debate classista, no entanto, é abandonado. Abra-se a
visão voltada para a disputa eleitoral após a hegemonia da Articulação nos debates internos.
O PT, com as Diretas, consegue se firmar no debate político local. Constrói para si um
espaço de maior inserção através do sindicalismo e o fortalecimento da CUT, fortalecimento
esse muito preenchido pelo sindicalismo do funcionalismo público, bem como as
participações eleitorais, que vão aumentar o peso político do PT no Estado. As Diretas
representam não só um acontecimento de memória na identidade política do PT, mas são
realmente um ponto de virada na força política da organização no Estado. Amparada pelo
desenvolvimento nacional do Partido, o PT encerrará os anos 1980 com uma nova localização
política, capaz de disputar a presidência em 1989 e entrando os anos 1990 como uma força
real no Estado de Alagoas.
130
4 CAPÍTULO 4 - AS ELEIÇÕES DE 1989.
Cumpre mais uma vez retornarmos ao tema da transição para melhor compreendermos
o significado das eleições de 1989. Como primeiro espaço de disputa política para o executivo
depois de décadas, é importante entender como se pavimentou o caminho para a arena em
que, no segundo turno, encontravam-se Collor e Lula.
Para autores como Codato, a política de transição foi iniciada pelos militares, e não
pelo movimento de massas. Tendo as forças populares contribuído apenas na aceleração dos
acontecimentos, no seu desenvolvimento e não exatamente na sua origem, o autor também
observa que os militares iniciaram essa transição mais por conta de disputas e interesses
internos do que por súbito surto democrático.193
Estes conflitos teriam se agudizado, para o autor, com a volta ao poder de uma facção
até então marginalizada desde o período de Costa e Silva à frente do executivo. Este retorno
ao centro político ocorreu em 1974, com Geisel. O agrupamento teria então estabelecido
como grandes tarefas a estabilização do regime, afastando os setores repressivos das decisões
executivas, afastando esses setores da política global; igualmente, teria esse setor assumido
como tarefa uma maior estabilização do regime, através de uma maior liberalização das
instituições. O objetivo, aqui deixando claro, não seria instaurar uma forte democracia no
país, mas apenas um regime mais estável e com menos sobressaltos, maior controle dos
movimentos e da população, nos dizeres de Codato, "tornar a ditadura menos conservadora
politicamente."194
De acordo com essa leitura, o período que vai da Campanha das Diretas até as eleições
de 1989, passando pela nova Constituinte e pela eleição indireta via Colégio Eleitoral,
instauraria o que ficou conhecido como Nova República. Esse é o momento em que o PT se
fortalece em todo o Brasil como Partido político.
A partir dessa leitura, o autor conclui que o que se forma no Brasil é um regime onde
as Forças Armadas ainda conservam muito poder e influência no aparato estatal. Tanto é
assim que, derrotada a proposta de transição trazida no bojo do debate da Emenda Dante de
193
CORDATO. Adriano. Uma história política da transição brasileira: da ditadura à democracia. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n25/31113.pdf. Acessado em 07/10/2016
194
idem.
131
Oliveira, situação e oposição ao regime estabelecem uma conciliação e montam o novo
governo, com o beneplácito das FFAA:
"Os militares não transferiram todo o poder ao partido do governo (Arena, depois
PDS). Eles conservaram posições estratégicas no aparelho do Estado e sua
capacidade de vetar certas iniciativas dos políticos civis em temas constitucionais e
institucionais, como se viu na década de 1980 (a comparação com o caso argentino
fala por si). A conciliação promovida pela elite política foi tão ampla que, uma vez
derrotada a alternativa para a transformação do modelo político pela via eleitoral, em
1984, tanto representantes do regime quanto opositores do regime formaram o
primeiro governo civil, após a aprovação das Forças Armadas"195
A "política de abertura" consistiria então em um processo de liberalização de regime,
de maior espaço político, mas não necessariamente de fim do Regime Militar e instauração de
uma plena democracia. Não estava inscrito no plano dos militares, não necessariamente dada
a instituição de um governo democrático.196
O culminar dessa transição seria o Governo Sarney (1985-1990), no caso um governo
que, ainda que representado por um político da sociedade civil, mantinha os traços
autoritários. Este cumpriu então a função de ocultar o autoritarismo e transitar com mão de
ferro para uma democracia anti-popular e com ainda muitas marcas de rejeição à participação
das classes mais baixas.
Com a derrota da Emenda Dante de Oliveira, o debate desloca-se para o Colégio
Eleitoral. A figura de Tancredo Neves cresce no período. Enquanto Ulysses Guimarães, líder
das caravanas pela democracia, era celebrado como um político que apostava nos comícios e
manifestações de massa, Tancredo se fortalecia como um político bom de negociação e capaz
de fazer escolhas corretas. E foi assim, buscando alianças e aproveitando-se de brechas no
PDS, que Tancredo derrotou Maluf -- seu desastroso rival, envolvido em escândalos de
corrupção por sua passagem na administração de São Paulo e atual Deputado Federal -- na
disputa das eleições indiretas.197 Tancredo angariou o apoio de Geisel, criou o Partido da
Frente Liberal (PFL), dividindo o PDS e organizou a Aliança Democrática, profunda frente
política que englobava de trabalhistas do PTB à comunistas do PCB. Não teve o apoio do PT
na vitória de 480 à 180 votos contra Maluf.
195
idem.p.10.
Ainda de acordo com Cordato, é curioso que essa transição se dê com um fortalecimento do executivo e
com acréscimos de autoritarismo, onde a demissão do ministro do Exército Sylvio Frota funcionou como lance
político decisivo. Cordato, idem.
197
Cf. SCHWARZ. Lília. & STARLING, Heloísa Murgel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das letras.
2015. p.606
196
132
Por ironia da política, Tancredo piorou gravemente de saúde e faleceu abruptamente,
após internação. Seu sucessor foi José Sarney, político oriundo de velhas oligarquias do
Nordeste, imagem também atrelada ao pior do regime militar: autoritarismo, truculência,
mandonismo, patrimonialismo e atraso político. Mas foi no seu governo, não por seus
méritos, que foi promulgada a Constituição mais emblemática desse período da democracia
brasileira, a chamada Constituição Cidadã.198 Embora guarde contradições -- manutenção da
estrutura fundiária desigual, autonomia relativa dos militares em diversas questões
problemáticas, dentre outros -- o legado mais regressivo de todo este debate foi sem dúvidas a
divisão do PMDB em duas alas, uma delas compondo um grande centro político que
estabeleceria relação fisiológica com o regime de tão forte alçada que chegou a receber o
nome de "Pemedebismo"199. O PMDB tornou-se o grande fiel da balança de todos os
governos posteriores, sempre estando na situação política e garantindo a famigerada
governabilidade aos presidentes eleitos, o que acarretava um círculo de vícios, trocas de
favores, negociação de cargos e ministérios e apoderação da máquina pública de maneira
burocrática e retrógrada. É aí que se efetiva o que Marcos Nobre define como Pemedebismo:
" A característica mais geral dessa correlação de forças pemedebista da
década de 1980 é sua orientação para impedir transformações profundas,
especialmente em um momento em que uma reorientação radical do padrão de
sociedade do país se impunha. Em um modelo político como esse, leva a melhor
quem tem maior poder de veto, o que inclui posições estratégicas sólidas,
encasteladas no Estado, ocupação eficiente da mídia, com colonização do debate
público, poder de fogo para chantagear a política pública do momento, ou uma
combinação desses elementos.
Essa é figura primeira do pemedebismo, aquela consolidada na década de
1980: uma cultura política dotada de mecanismos de administração de conflitos que,
dado seu peculiar sistema de vetos, se caracteriza por travar mudanças profundas,
mesmo que tenham se tornado urgentes, prementes em vista de problemas
estruturais postos a descoberto. Também o processo constituinte e o próprio texto
constitucional resultante espelharam à sua maneira a cristalização dessa dominância
pemedebista. Se, a partir dos anos 2000, com todas as transformações legislativas e
de interpretação jurídica por que passou, a Constituição Federal de 1988 terminou
por se tornar base e referência para um novo modelo de sociedade, diferente do
nacional-desenvolvimentismo, essa não foi a visão que predominou no momento de
sua promulgação. Ao ser promulgada, a Constituição Federal de 1988 não se
apresentou primeiramente como uma saída para os impasses de um nacional
desenvolvimentismo
já caduco, mas antes como sua cristalização.
O texto constitucional foi, a princípio, o resultado do brutal descompasso
entre um sistema político elitista e conservador e uma maciça, variada, inédita e
organizada mobilização popular, nos anos 1980, especialmente visível no período da
198
Com mais de 250 artigos, foi a maior constituição da história do país até aqui, arregimentando para a sua
discussão figuras fundamentais da política brasileira como Plínio de Arruda Sampaio, Lula, José Serra, Fernando
Henrique Cardoso, dentre outros. Cf. idem. p. 610
199
NOBRE, Marcos. Imobilismo em movimento: Da abertura democrática ao Governo Dilma. São Paulo:
Companhia das letras. 2015. p.20
133
Constituinte. O emblema do pemedebismo dominante no período constituinte foi o
chamado Centrão, enorme bloco suprapartidário que, de fato, determinou como
nenhum outro o processo e seu resultado final. Essa é a primeira figura consolidada
do pemedebismo tal como se constituiu na década de 1980." 200
É aí que se mantém o nó da dominação política. Esse Centrão cumprirá o papel de
manutenção das forças que comungam da construção de um novo pacto político de
dominação. As reivindicações populares se verão órfãs até a consolidação do PT como
representante de um polo dessas lutas e demandas das classes subalternas:
"Na ausência de um polo com legitimidade e respaldo para concentrar e
unificar as novas reivindicações populares sob a homogeneidade de um programa
político coerente — como veio a ser o pt (Partido dos Trabalhadores) após a eleição
de 1989 —, o processo constituinte sob a égide do pmdb e do Centrão impôs-se à
fragmentação das reivindicações de transformação. Na ausência de um programa
político unificado no campo popular e com a dominância da fragmentação
hierarquizada do pmdb, o objetivo primordial de cada movimento social passou a ser
conseguir inserir no texto constitucional o tema que lhe concernia mais diretamente,
sozinho ou em aliança heterogênea com outros grupos. Mas, de qualquer maneira,
em uma lógica bastante fragmentária." 201
Lincoln Secco também irá tecer comentário de tom crítico ao formado "Centrão". No
entanto, reconhecerá que apesar do caráter conservador da maioria de seus parlamentares a
Assembleia Constituinte, acuada pela pressão política dos movimentos sociais mobilizados na
época, terminará por aprovar uma Constituição com alguns poucos momentos abertos aos
anseios populares e com pontos que significam vitórias das lutas dos anos 1980, apesar de
manter os traços de autoritarismo do período ainda não totalmente findado:
"A Assembleia Nacional Constituinte galvanizou as esperanças radicais da
sociedade que se viram canalizadas institucionalmente por uma constituinte
congressual e não exclusiva. A formação do 'centrão', grupo majoritário de
deputados que resistiam às mudanças, acabou por criar uma Constituição que, entre
outras mazelas, manteve a tutela militar sobre o poder civil." 202
4.1 O EMBATE LULA X COLLOR E O PAPEL DA MÍDIA
As eleições de 1989 também foram importantes por marcar, a nível da disputa para o
executivo federal, a entrada de um novo instrumento político: a televisão. A mídia operou
200
Idem.
Idem.
202
SECCO, Lincoln. História do PT. São Paulo: Ateliê editora. 201. p. 128.
201
134
com todas as forças para demonizar a candidatura de Luís Inácio. A Rede Globo utilizou, às
vésperas do segundo turno a imagem de uma ex-namorada de Lula, acusando-o de
supostamente ter a incitado a praticar um aborto. A notícia, em um Brasil recém saído de um
período militar, caiu com uma bomba. No meio do pacote ainda houve a escandalosa
manipulação do debate realizada pela Rede Globo e o sequestro do empresário Abílio Diniz
por um grupo guerrilheiro que -- misteriosamente -- apareceu diante das câmeras trajando
camisetas do Partido dos Trabalhadores.203
A Rede Globo foi durante todo o período uma aliada do Regime Militar. Apoiada
pelas Forças Armadas, a emissora pode crescer seu império de comunicação e estabelecer-se
como uma presença cativa no lar dos Brasileiros. Seus noticiários, onde o Jornal Nacional
figura como maior expoente, tornaram-se elementos decisivos em debates políticos. Nas
eleições de 1989, primeiras eleições para presidente desde a década de 1960, os brasileiros
conviveram com a presença e a influência ideológica da emissora da família Marinho.
Manipulações de debates, antecipações, estáticas posteriormente desmentidas tornaram-se
corriqueiras ao longo da campanha.204
A presença da Rede Globo como elemento fundamental do debate político só
aumentou a medida que se aproximava a votação do segundo turno. Lula e Collor tiveram sua
imagem e personalidade exaustivamente exploradas pela mídia. Avelar aponta dados sobre a
cobertura da mídia na acirrada campanha de segundo turno:
" A intensificação da cobertura pela TV foi crescente: em 06/12/89, entre as
eleições de primeiro e segundo turnos, uma pesquisa divulgou os seguintes números:
"a Rede Globo, pelo Jornal Nacional, dedica 87% do seu noticiário político à
sucessão. O Jornal da Rede Manchete, 92%, e o Jornal Bandeirantes, 92%". Estes
números vieram acompanhados de uma grande controvérsia sobre o modo como as
redes de televisão dão maior espaço a um candidato ou outro. Um relatório da
DENTEL (Departamento Nacional de Telecomunicações), divulgado em 08/12/89,
aponta o favoritismo da Rede Globo para Fernando Collor de Mello: ele teria
78,55%mais tempo de divulgação no noticiário político, se comparado ao do seu
concorrente Lula, no período de 27/11 a 06/12/89. No programa "Eleições 89", por
exemplo, transmitido pela Globo, em 03/12/89, Collor foi contemplado com um
tempo de 22 minutos e 2 segundos, e Lula, nada" 205
203
Cf.
AVELAR.
Lúcia.
As
eleições
na
era
da
televisão.
Disponível
em:
http://www.scielo.br/pdf/rae/v32n4/a05v32n4.pdf. p.2. Acessado dia 07/10/2016.
204
" Nas campanhas eleitorais durante a transição política, seu papel foi em alguns momentos dramático, em
vista da pretensão de substituir a apuração oficial dos votos, transmitindo os resultados de equipes da
televisão contratadas para trabalharem no âmbito das juntas apuradoras, adiantando-se aos resultados finais e
que necessariamente não coincidiam. Nestas ocasiões, ela teve de se retrair e se recompor quanto ao seu real
papel de transmissora dos resultados finais." Avelar. Idem. p. 8
205
idem. p.9
135
É difícil delimitar se o perfil das coberturas eleitorais feitos pela mídia, em especial
Rede Globo, foram imparciais ou favoreceram algum candidato. O que ficou marcado no
debate público posterior às eleições foi o que ficou considerado como uma manipulação por
parte da emissora da família Marinho das imagens do debate final no segundo turno. De
qualquer forma, o elemento da imagem foi largamente explorado por ambos os candidatos.
Lula, como candidato vinculado ao movimento sindical e com larga experiência de trato e
diálogo com a população mais humilde teve reconhecida desenvoltura frente às câmeras.206
Collor, por sua vez, através de assessoria especializada desenvolveu também sua imagem de
gestor e homem de sensibilidade, através de slogans e frases de efeito que apelavam para a
emoção dos eleitores. Mais do que a importância atribuída a temas que eram sem dúvidas
parte das preocupações dos brasileiros, como a inflação, o preço dos alimentos, o desemprego,
a dívida pública, dentre outros, o que funcionava como eixo ordenador dos debates era a
disputa por uma imagem pública de estadista equilibrado e capaz de resolver os problemas.
Os candidatos tornavam-se então imagens. Suas atribuições pessoais, sua capacidade de falar
com intimidade e segurança com a população ganhavam o centro do debate político. Collor
vendia a imagem de "caçador de marajás"; Lula, a de representante dos povos subalternos
dentro do embate de classes que atravessava o país. Estas imagens representavam interesses
políticos maiores e mais profundos, evidentemente. Collor, o gestor neoliberal, prometendo
aumentos exponenciais do salário mínimo através do enxugamento da máquina pública,
extirpação da corrupção, eficiência como gestor e afastamento de figuras como Sarney e
outros elementos que considerava ligados à "velha política". Com essa postura Collor acenava
para uma nova elite econômica, a elite do capital financeiro, dos interesses privatizantes, das
novas doutrinas econômicas afastando-se dos ideais estatistas do período militar; Lula, como
representante dos trabalhadores, também buscava se afastar de velhas imagens, no seu caso da
esquerda e de velhos ideais comunistas. Seu discurso valorizava o vocabulário da cidadania e
responsabilidade social, justiça e equanimidade, afastando-se da iconografia comunista
soviética, mas principalmente afastando-se também dos ideais estatistas do regime militar,
entulho do qual Collor também fazia questão de se desvencilhar, embora estivesse
irrepreensivelmente ligado devido a trajetória política inicial, como prefeito de Maceió
indicado pelos militares, dentre outros cargos públicos.
206
idem. p. 10.
136
O fato é que Fernando Collor ganhava os holofotes da política nacional como o
salvador que a população precisava. Vinda de sucessivas decepções e do fracasso do planos
Cruzado I e II, com a hiperinflação batendo a porta de todos os brasileiros, seu discurso de
"caçador de marajás e as promessas de colocar a economia em ordem cativaram a maioria dos
eleitores, caracterizados pelo próprio candidato como a "nação de descamisados". O fato é
que seu discurso sobre os "marajás" era na verdade uma hipérbole oportunista para imputar
aos funcionários públicos e servidores a conta da crise econômica. Uma forma espalhafatosa
de mostrar um pendor maior para a iniciativa privada.
Mas não foi só na política nacional que Collor teve empurrões da mídia. Em Alagoas
os órgãos de mídia jogaram apoio ao candidato desde o primeiro turno. Em chamada de capa
na véspera do Jornal de Hoje, era exibida a frase "Eleição em Alagoas: Collor e os outros". O
jornal aqui chama a responsabilidade dos eleitores para eleger um candidato "da terra" e quase
acusa os votos em outro candidato como votos ressentidos e pessoais:
"Por isso, em Alagoas, o pleito está dividido entre Collor e os outros. Ou se vota em
Collor ou não se vota em Collor. Para não votar, o eleitor nem examina os prós e os
contras. Exceção para aqueles que tem ideologia. Não quer saber se o seu
escolhido, estranho à terra, merece confiança, se seu discurso, na prática, é
verdadeiro."207
Segundo o jornal, o voto contra Collor é ideológico, contra a terra, rompe com o
sentimento de unidade constituído entre os habitantes de Alagoas. Expediente político de
jogar para os outros a pecha de aferrados a conjuntos de ideias e não aos problemas reais.
Diga-se de passagem que o argumento ganha autoridade em um período de Guerra Fria (em
seu ocaso), e demonização do comunismo operada à décadas dentro do regime militar:
"Vota contra Collor, quase sempre, por haver sido frustrado em interesses
pessoais ou numa pretensão qualquer. Se dispensa ao exame da conduta do seu
preferido, na sua área de atuação, no seu campo anterior de atividade.
Assim se elege um Presidente da República, votando contra alguém."
O voto contra Collor é um voto contra. Não se concede ao adversário político a
dignidade sequer de proponente de ideias contrárias. É uma diminuição completa do outro. A
207
Jornal de Hoje. 13/11/1989. p.1
137
imagem de Collor como o "Candidato de Alagoas" e a depreciação do candidato Lula ganha
acento quando se anuncia o segundo turno. Em nova capa do jornal, agora no dia 20 de
novembro, está estampado que "Collor de Mello leva Alagoas para a disputa final pela
presidência":
"Collor afirmou que pode até mesmo trocar o seu candidato a vice-presidente,
o mineiro Itamar Franco, se este for o desejo do PSDB de fazer aliança com o PRN.
No entanto, o partido do senador Mário Covas não parece disposto a formar
qualquer acordo com o partido de Collor, a julgar por nota oficial que fez divulgar
ontem em vários jornais do país."208
Dias depois, o jornal publica os resultados oficiais da eleição no Estado:
"Em números absolutos Collor obteve 682.989 votos, mais do que o triplo da
votação de seu adversário., que obteve 214.890 votos em todo o Estado. Em nenhum
município Lula conseguiu superar a votação de Collor, mas ficou bem perto em
Canapí, terra da família Malta, à qual pertence Rosane Malta, esposa de Collor, e
Palestina. No primeiro a diferença entre os dois foi de apenas 120 votos, e no
segundo a diferença foi de 151 votos.
"O número de votos brancos e nulos foi bem maior que no primeiro turno, e
isso explica-se pelo momento decisório e pela diminuição considerável do número
de candidatos. Se no primeiro turno era fácil o eleitor se confundir com uma lista de
21 candidatos, agora foi bem mais fácil, votar com apenas dois nomes na cédula de
votação. O percentual de votos brancos foi de 1,59%, o que significam 19.309 votos,
e os nulos foram 47.422 votos, um percentual de 3,92% do eleitorado do Estado." 209
O cenário em Alagoas era de muita expectativa. À época, Alagoas contava com 1
milhão 272 mil e 398 eleitores, segundo o Jornal de Hoje210. Dentro de um contexto acirrado,
a mídia local também desempenhava papel de legitimar o candidato Fernando Collor. A partir
da vitória eleitoral, o Jornal de Hoje seguia a sua cobertura, iniciando os resultados da
apuração comemorando a vitória do jovem candidato:
"Os primeiros resultados finais das urnas apuradas apontam para uma vitória
estrondosa do ex-governador Fernando Collor em Alagoas, sobretudo no interior do
Estado, onde até ontem no final da tarde ele não tinha perdido para nenhum outro
candidato, em nenhum município alagoano. O segundo lugar no Estado continua
208
Jornal de Hoje. 20/11/11989. p.1
idem.
210
Jornal de Hoje. 15/11/1989
209
138
indefinido, assim como em todo o país, dando uma boa votação para Mário Covas,
do PSDB, e acirrando a disputa entre Lula, do PT, e Brizola, do PDT." 211
A aposta do jornal na figura de Mário Covas como o segundo lugar das eleições se
mostrou fracassada. Mas há o reconhecimento da disputa entre Lula e Brizola. Diga-se de
passagem que esse desdém pelo PT não é compartilhado por outros analistas. Sílvio Leite,
colunista de Brasília com espaço no mesmo jornal opina que as eleições, em um forte clima
"anti-partido", "anti-governadores"212, dentre outros "anti". Só o PT e o PSDB, para o autor,
sobreviveriam à hecatombe partidária. E elogia o Partido de Lula:
"O Partido dos Trabalhadores -- nunca é por demais repetir -- é o único de
militância verdadeira, autêntica, coerente. Daí essa ascenção, eleição a eleição, além
de pouco desgaste, menos desconfiança, enfim, maior projeção e conquistas de
camadas, até então discriminatórias. A pujança conseguida nas eleições municipais
do ano passado, aumentou nesta campanha presidencial." 213
Curiosa também é a cobertura de O Jornal de Hoje à segunda vinda do candidato Luís
Inácio por Alagoas. O veículo registra que ele teve uma passagem rápida, uma pequena
brecha entre o seu comício em Recife, muito mais significativo inclusive por coincidir com a
ida de Brizola à capital Pernambucana. Depois de registrar que a equipe eleitoral do PT nem
sequer passou em Alagoas, o jornal afirma que a caminhada do candidato acontecerá no
horário da tarde, um péssimo horário, segundo os coordenadores locais de campanha, mas o
único possível na agenda do ex-metalúrgico:
"A chegada de Lula em Maceió está prevista para as 14 horas e para não
atrasar a programação os coordenadores de sua campanha no Estado decidiram não
incentivar a ida de pessoas ao aeroporto e não fazer carreata. A concentração será na
praça dos Martírios a partir das 14 horas, de onde sairá a caminhada pelas principais
ruas do centro. Reconhecem os líderes dos partidos que integram a Frente, que o
horário é inconveniente, uma vez que as pessoas estão ocupadas e por isso mesmo
não programaram comício".214
211
Jornal de Hoje. 17/11/1989. p.1
idem.p.2
213
idem.
214
Jornal de Hoje. 06/11/1989. p.5
212
139
Ainda assim, os representantes da campanha acreditavam que Lula faria um breve
discurso no calçadão do comércio. Mas fica a impressão lendo a matéria de que Alagoas não
era uma prioridade de campanha, e sim um destino de passagem em meio ao percurso
nordestino do candidato. Outra matéria do mesmo jornal, porém, complementa que a
caminhada sairá sem o candidato e encontrará com ele na praça da Catedral. O comício, que
era atividade descartada em semanas anteriores foi incluído como atividade de campanha. A
matéria diz ainda que:
"Esta é a segunda vez que Lula vem a Maceió em sua campanha. Ele foi o primeiro
candidato a fazer comício na Capital alagoana (no Calçadão do Comércio) e ficou
entusiasmado pela representatividade de sua candidatura, demonstrada pelo número
de pessoas que o acompanhou em carreata, desde o Aeroporto dos Palmares até o
Centro da Cidade."215
Curioso que mesmo com o impacto positivo e com o registro de que por aqui se
iniciou a campanha do Candidato ainda assim se faça uma passagem tão rápida, curta e sem
muito corpo a corpo com os eleitores. Poderia aí estar um indicador de que Alagoas não seja,
dentro do cenário eleitoral, uma prioridade petista.
O comício porém, pela cobertura do mesmo jornal, foi muito grande. Se as passeatas
das Diretas, de cinco anos atrás, foi coberta pela mídia como uma atividade, na sua
culminância, na passeata do dia 24, como uma atividade que contou com mais de 20 mil
pessoas, o Jornal de Hoje registrou no comício de Lula no centro da cidade cerca de 15 mil
presentes. O que significa dizer que uma ampla atividade, cívica e republicana, como ficou
definida, suprapartidária, com diversas entidades, contou com apenas cinco mil atividades a
mais segundo registro da imprensa. Em rápida entrevista para o citado meio de comunicação,
Lula diz não acreditar na passagem do candidato Sílvio Santos ao segundo turno, visto por ele
como um instrumento de Sarney. A matéria também registra que ele pensa que Collor também
não irá para o segundo turno, embora não haja nenhuma citação explícita do candidato petista
sobre o ex-governador de Alagoas. A matéria encerra com os votos de uma aliança entre Lula
e Brizola, seu principal adversário à esquerda no pleito:
215
Idem.
140
"Para o candidato da Frente Brasil Popular, que fez um comício em Maceió para
cerca de 15 mil pessoas, o fato de estarem, ele e o candidato do PDT, Leonel
Brizola, muito próximos na disputa eleitoral não inviabiliza uma aliança no segundo
turno, que ele acredita, vira quase que automaticamente. É verdade que essa
proximidade acirra o clima de disputa, e neste momento eles são adversários,
lutando por uma vaga no segundo turno, mas a partir do resultado do primeiro turno
ele acha que, automaticamente, os dois candidatos estarão juntos, um apoiando o
outro que conseguir passar."216
Mas se pegarmos a cobertura de outros jornais da época sobre o mesmo comício,
vemos desmentida a matéria do Jornal de Hoje. Enquanto o outro jornal avisava que não
haveria carreata, o Jornal de Alagoas cobre que não só houve a recepção no aeroporto como o
comício na praça D. Pedro:
"A greve dos trabalhadores nas empresas de transportes urbanos da Capital não
prejudicou a manifestação de apoio à candidatura de Lula, que foi recepcionado no
aeroporto Campo dos Palmares, ontem, às 17h, por uma grande multidão, que o
acompanhou em carreata até o centro da cidade. Na praça D. Pedro II, Lula falou
para um público estimado em 30 mil pessoas.
"Aclamado por todo o itinerário, o candidato petista veio acompanhado do seu vice,
Paulo Bisol, do presidente nacional do PCdoB, João Amazonas, e de lideranças do
PSB, partidos que formam com o PT a Frente Brasil Popular."217
No dia 11 de Dezembro de 1989, Lula esteve pela única vez no segundo turno em um
último comício. Às vésperas do debate eleitoral, Lula se diz confiante para desmascarar
Collor. O Jornal de Alagoas do dia seguinte cobre a vinda do candidato e o impacto político
de sua passagem pela Capital de Alagoas:
"Num discurso de 35 minutos, Lula atacou Collor de Mello, domingo, na Praia de
Pajuçara, no showmício que contou com Djavan e Chico Buarque de Holanda,
grande público.
"O showmício da Frente Brasil Popular não teve nenhum esquema de segurança,
porque as polícias Militar e Civil do Estado estão em greve por melhores salários,
mas tudo transcorreu em clima pacífico, mesmo com algumas bandeiras de Collor
sendo acenadas em meio aos petistas por seus partidários, antes de subir ao
palanque, Lula conversou com os integrantes da Frente Brasil Popular sobre a
situação crítica em que se encontra o Estado."218
216
Jornal de Hoje. 09/11/1989. p.5
Jornal de Alagoas. 09/11/1989. p.1
218
Jornal de Alagoas. 12/12/1989. p.1
217
141
Lula passou ao segundo turno após uma apertada disputa com Leonel Brizola.
Terminou derrotado no segundo turno por Collor, que obteve 44% dos votos válidos. Foi uma
campanha com forte apoio dos aparelhos de mídia e de empresas de todo o Brasil, porém.
Com as estratégias que já aludimos anteriormente. Mesmo derrotado, estava feito: Lula era a
principal liderança das esquerdas no Brasil, embora não isolado, com figuras como Brizola e
Luís Carlos Prestes ainda possuindo larga influência, e o PT tornava-se o principal partido de
oposição à esquerda do governo Collor e seu sucessor, FHC.
O resultado eleitoral surpreendeu o PT. Pouco antes, o partido havia realizado o seu VI
Encontro Nacional, entre os dias 16 e 18 de Junho de 1989 em São Caetano. Ali foi
elaborado um Plano de Ação de Governo que prometia a suspensão do pagamento da dívida
externa, menciona o socialismo 46 vezes e promete ataques ao capital monopolista.219 Mas o
partido pensa principalmente nas futuras eleições como um momento para dialogar com a
população e elaborar um discurso amplo.
4.2 O FORTALECIMENTO DO PT
Em uma eleição que contou com candidatos do PMDB (Ulysses Guimarães) ao PCB
(Roberto Freire), passando por figuras como Maluf, Mário Covas e outros, a pequena
coligação composta pelo PT e seus aliados PCdoB (agora aliados, depois de muito tempo de
polarização, como vimos) e PSB o crescimento de Lula se deve também ao contexto de
mobilizações, greves e enfrentamentos políticos. Destaca-se aí a repressão aos operários da
CSN em 1988,greves em fábricas importantes como a Manesmann, dentre outros eventos.
Sobrevivendo ao ataque ideológico forte da reação, Lula seguiu até o final da campanha em
disputa com o candidato Collor, estando em empate técnico a disputa até a semana final, onde
a fundamental incursão da Globo decidiu o pleito.
É a partir desse marco que os relatos colhidos em nossa pesquisa começam a apontar
para um crescimento do PT realmente significativo no Estado. A partir desse fortalecimento
no campo eleitoral nacional o PT começa também a se fortalecer em território alagoano:
" Nos anos 80 o partido era fraco. Eu digo a você que nos anos 80 nós não
conseguimos legalizar na década de 80... 82, () nós não conseguimos legalizar o
partido época, não. Como eu disse a você, a gente teve que (...) Ronaldo Lessa,
Selma Bandeira, (...) PMDB (...). Depois quando o partido começou a disputar as
219
SECCO. Lincoln. História do PT. São Paulo: Ateliê editora.2011. p. 133
142
eleições para prefeito nas capitais, o candidato foi Ronaldo Lessa, o vice foi Heloísa
Helena, foi que o partido começou a deslanchar, foi que o partido começou a
realmente ser.... ser muito influente, ser uma força política no Estado de Alagoas, foi
a partir dessa... fizemos deputado, senador, fizemos deputado federal, estadual,
fizemos prefeito, vereadores, na capital, foi a partir daí que o partido começou a
crescer, chegou a virar... virou a senadora da república, foi a Heloísa Helena."
(Adelmo dos Santos)
Adelmo, de forma imprecisa, colocando inclusive Ronaldo Lessa como um candidato
do PT, o que ele nunca foi, começa a destacar nas disputas eleitorais da cidade uma maior
inserção do PT. Destaque inclusive para a figura de Heloísa Helena, que cresceria muito nas
lutas contra o governador do PSDB Divaldo Suruagy nos anos 1990 e cresceria em escala
nacional quando rompeu com o PT para fundar o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e
disputar a presidência em 2006.
Tutmés Airam também vê na atuação de Heloísa como vice-prefeita um ponto de
virada na trajetória do PT no Estado:
"Heloísa, né? Que foi a vice do Ronaldo, né? E pela atuação dela como vice-prefeita
que catalisou muito as coisas assim pra o fortalecimento da... não só da aliança de
esquerda que se formava né, mas, propriamente até do PT. E coincidiu também com
um dado muito importante, e isso precisa ser registrado, que foi o ingresso de uma
parte significativa da militância do PCdoB, né?, que rachou porque, enfim, o PCdoB
resolveu pragmaticamente apoiar pro governo do Estado Fernando Collor e o preço
dessa decisão política foi, acabou sendo um racha tremendo, né?, na
legenda."(Tutmés)
Então, jogando para os anos 1990 o que seria o crescimento do PT, dentro dessa
narrativa, está aqui também mais uma vez o conflito com o PCdoB, desta vez através da
ruptura narrada por ambos os militantes, que dá conta de uma entrada de muitos filiados do
PCdoB ao PT. Esse deslocamento é mencionado por Tutmés quando questionado sobre o
cenário de crescimento do Partido dos Trabalhadores no Estado. Vemos que essa polêmica
nunca deixou de ser uma tônica nas relações, e mesmo o crescimento do Partido é registrado
após a perda desses ativistas do PCdoB para a nova -- agora já não mais tão nova -organização:
"... E, essa parte muito significativa dos militantes, alguns militantes
históricos do PCdoB acabaram dentro do PT, né? E deu ao PT uma... Fortaleceu o
PT do ponto de vista sindical, né? Porque até então a gente não tinha, assim, grande
143
penetração em alguns sindicatos, enfim, né?, e fortaleceu o PT como um todo, né?
Tinham pessoas importantes, lúcidas: Thomaz Beltrão; a própria Heloísa que era
área de influência do PCdoB, na época, na universidade; Edberto Ticianelli, tinha
sido um combativo vereador aqui em Maceió, né?; o Mário Agra, que hoje tá no
PSOL, né?, é dirigente do PSOL. Enfim, um pessoal, uma galera muito boa,
inclusive do movimento estudantil. Não sei se... Fortaleceu o PT, né?, fortaleceu
bem o PT, a postura do PT dentro da aliança de centro-esquerda também foi muito
boa, administrativamente se destacou bastante, não é?, e aí a gente foi se
fortalecendo, né? Deixamos de ser, assim, um partido... um partido inexpressivo do
ponto de vista eleitoral e até mesmo do ponto de vista de base sociais, né?, pra ser
um já protagonista, né? Eu acho que foi aí a grande virada, foi uma virada que
começou, que teve como mote o movimento das diretas. " (Tutmés Airam)
Claro que dentro desse contexto não poderia faltar a relação com as campanhas de
Lula, especialmente a de 1989. Tutmés se emociona ao narrar o que foi a experiência de
"1988":
" Foi. Foi a partir daí. A partir daí. E a gente aqui também coincidindo com o
crescimento e a consolidação do PT no Brasil como um todo, né? E aí vieram as
célebres campanhas do Lula, né? A mais bonita delas que foi a de 88, né? Foi uma
campanha belíssima, né? Os comícios eram, assim, coisas emocionantes, não é? E já
naquela época, não é, vamos dizer, há alguma coisa que surgia de novo no horizonte
político, né? Irradiou o Brasil todo, né? Crescemos nacionalmente e crescemos aqui,
né? E deixamos de ser uma coisa de alguns poucos, né? Idealistas, né? Pra ser
realmente uma legenda que também em Alagoas teve que ser uma legenda levada a
sério, né? Protagonista da cena política, né? Então é isso. As diretas possibilitaram
esse salto de qualidade." (Tutmés)
O passado "idealista", de "alguns poucos" era deixado pra trás em função de uma
legenda que passava a ser "levada a sério", "protagonista". Sendo as diretas a campanha que
proporcionou, para o narrador, esse salto de qualidade, a campanha de 1988 aparece como a
culminância de toda a luta dos anos 1980. Toda a canalização do partido é eleitoral, reforcese. Não há menção ao crescimento de lutas urbanas, movimento estudantil, sindical. O que se
valoriza é a trajetória institucional na maior parte do relato.
Mas a campanha de 1989 tinha, nos discursos de Lula e nos documentos oficias de
campanha, outro sentido. Se as diretas foram para muitos a culminância das indignações com
a ditadura, a insatisfação social e econômica de grande parte da população canalizadas para a
luta pela democracia, houve um esforço consciente por parte da direção nacional do PT de
fazer da candidatura de Lula um momento de disputa contra o Governo Sarney que
contemplasse todos os movimentos sociais. A candidatura de Lula era sempre acompanhada
144
de um chamado pela luta popular, como na "Carta Aberta ao povo Brasileiro" lançada em seu
5º encontro Nacional:
" Vamos garantir os direitos do povo na Constituição. Vamos sair às ruas para
impedir que Sarney permaneça no poder por mais de quatro anos. Vamos às ruas
para lutar pelos direitos dos trabalhadores, pela estabilidade, pelas 40 horas, pelo
direito à moradia, pela reforma agrária, contra o pagamento da dívida externa.
Trabalhar pela candidatura de Lula é lutar pela conquista desses direitos. O PT
conquista cada vez mais a confiança do povo porque tem sido coerente, tem acertado
em suas previsões, não se deixou enganar pelo Colégio Eleitoral nem pelo Plano
Cruzado . O PT tem dado provas de firmeza na luta sindical junto à CUT, no
movimento popular e na atuação corajosa e limpa de seus 16 deputados na
Constituinte."220
Sistematizando nossas reflexões, o gráfico a seguir mostra de forma mais precisa o
crescimento do PT no Estado após a eleição de 1989. Vemos que as afirmações dos
entrevistados de que os anos 1990 foram mais pujantes e de maior dinâmica partidária não são
equivocados:
Gráfico 1 – Número de Filiações do PT Obtidas por Ano no Estado de Alagoas de 1981 a 2016.
220
Disponível em : http://novo.fpabramo.org.br/sites/default/files/5.perseu8.documentos.pdf. Acessado dia
06/10/2016.
145
Gráfico sistematizado com base nos dados221 disponíveis no Portal Brasileiro de Dados Abertos
<http://dados.gov.br/> Acesso em 15 de Setembro de 2016. Elaboração: Wibsson Ribeiro Lopes.
É somente em 1995, depois do ano eleitoral, que vemos um verdadeiro salto no
número de filiados no Estado. Antes disso, identificamos dois períodos de crescimento
elevado. O primeiro dele é no ano de 1985, com a quase quintuplicação no número de
filiações, provavelmente um saldo político da campanha das Diretas. Depois, no ano de 1988,
provavelmente com o forte clima de preparação para a disputa eleitoral de 1989, haja visto
que a candidatura de Lula já havia sido anunciada em 1987, no 5º encontro.
Muitas são as avaliações, dentre os nossos entrevistados, sobre o porquê desse baixo
crescimento. Geraldo de Majella atribui ao caráter estudantil da organização, a preocupação
com temas internacionais e a falta de lastreamento e preocupação com as questões locais
como principal causa desse crescimento irregular:
"Eu creio que a própria forma como o PT se organizou, era um partido de estudantes
essencialmente, hegemonizado por estudantes e radicalizado. Então a discussão
entre a derrubada do General Jaruzelski na Polônia era muito mais importante do
que discutir como estávamos vivendo na situação política de Alagoas, estávamos
vivendo os trabalhadores da Cana-de-açúcar, ou do Porto, ou dos metalúrgicos, etc.
Então, se gastava horas discutindo a questão internacional, que é importante, não
221
Três casos do banco de dados encontravam-se com as informações corrompidas e foram retirados dos
dados
146
tem como negar, mas não era pra se discutir tanto tempo. Isso é um exemplo que
pode ser até caricato, passados tantos anos, mas quem viveu aquela época sabe o
quanto de energia que se desprendia nessas discussões quase que estéreis e o quanto
de luta interna se fomentou em torno de questões que não tinham nenhum indicador
prático aqui pra Alagoas. Por exemplo. Então você tinha essa discussão em São
Paulo? Tinha. Você tinha essa discussão nos congressos da UNE? Tinha. Mas você
tinha coisas mais concretas de como resolver problema estudantil, resolver
problemas de organização de estudantes em tal Estado tal, local, situação da
oposição sindical em determinados momentos de Belo Horizonte, de São Paulo, Rio
de Janeiro, ou aqui em Alagoas, mas quando você tinha esse grupo de dirigentes e
de estudantes naquela época tanto no diretório de Maceió quanto no Diretório
Estadual, se polarizava em torno dessa discussão. Como eram vários grupos de
origem trotskista, a discussão internacional acabava prevalecendo diante de questões
locais que eram questões importantes. Não quer dizer que não era pra ser discutido
não, você podia discutir aquilo lá em meia-hora, uma hora, mas você tinha horas,
dias discutindo isso, meses, e sem nenhuma importância do ponto de vista da
organização partidária. Então o PT não cuidou da sua organização. Ele tinha um
grande capital que era não ter o anticomunismo como seu opositor, não tinha
símbolo como a foice e o martelo, era um partido com um nome fantástico, nome
dos trabalhadores, nascido no meio dos trabalhadores, com um apelo de classe
média muito grande, que podia também chegar nos outros trabalhadores, das várias
categorias aqui de Alagoas, sem grandes problemas. Só que quem tava dirigindo não
tinha essa percepção. Essa é a minha leitura de porque o PT não cresceu tanto ou
cresceu efetivamente de maneira sustentável na década de 1980, por exemplo. Não
sei se essa é a melhor interpretação mas é a que eu tenho no momento." (Geraldo de
Majella)
Majella credita talvez exageradamente a importância dos ideais trotskistas no Estado, e
ainda assim apresenta uma visão caricata das organizações. Exagerada também é a imunidade
da organização ao anticomunismo, já que como vimos o Partido sofre diversos ataques da
imprensa e das elites. Mas parece acertada, por tudo que vimos, a caracterização do PT aqui
no Estado como "um partido de estudantes essencialmente, hegemonizado por estudantes e
radicalizado." Diversos outros trechos dos depoimentos atestam esse caráter. O PT em
Alagoas foi um Partido majoritariamente de classe média urbana. Esta foi a principal face do
Partido no Estado. Seu crescimento esteve lastreado pelas possibilidades organizativas que
essa localização de classe lhe fornecia. Daí que o crescimento do Partido tenha dado saltos de
qualidade principalmente com as conquistas parlamentares, a partir delas o Partido registra
um maior número de adesões e filiações. Organizando em séries de cinco anos fica melhor
ainda a visualização deste salto:
Gráfico 2 – Total das Filiações do PT Obtidas no Estado de Alagoas – 1981 a 2016 – Serie Temporal
de 5 anos.
147
Gráfico sistematizada com base nos dados222 disponíveis no Portal Brasileiro de Dados Abertos
<http://dados.gov.br/> Acesso em 15 de Setembro de 2016. Elaboração: Wibsson Ribeiro Lopes.
Vemos que a partir do intervalo entre 1985 e 1990 as filiações vão no mínimo
duplicando em quantidade. Creditamos essa virada principalmente as intervenções
parlamentares, que saltam de qualidade com a vice-prefeitura de Heloísa Helena e, pouco
antes, a campanha eleitoral de Lula em 1989.
Ricardo Coelho avalia que houve erros durante esse período que justificariam esse
baixo crescimento. Para ele, o PT se constituiu como um Partido de fora, de uma realidade
distinta da alagoana. O PT alagoano não soube aproveitar, em sua visão, a força do
movimento do campo, tradicional em Alagoas. A avaliação também é positiva, mas esses
aspectos são sublinhados:
Olhe, o balanço é que o Partido, ele surge com influência de... do meio externo, com
influência de São Paulo, do movimento de São Paulo Minas, Rio Grande do Sul...
Mas Alagoas é um Estado muito conservador. Um Estado agrário, um Estado com
usineiros, com grandes latifúndios...Então não havia bases sociais muito fortes para
o surgimento de um Partido como o PT com uma proposta alternativa, uma proposta
de independência de classe, uma proposta de organização dos trabalhadores para a
construção de um projeto político. Então eu acho que, esses fatores, e além da falta
de uma tradição histórica de luta de esquerda aqui em Alagoas, que era muito
incipiente, não permitiram que a gente crescesse como cresceu em outros Estados.
Como cresceu na Bahia, como cresceu em Pernambuco, inclusive, até em Sergipe. É
lógico também tivemos alguns problemas de lideranças políticas, nossas lideranças
políticas não tinham grande formação, o pessoal do movimento estudantil sem muita
experiência também prejudicou a nossa participação nesse momento, esse momento
inicial. Eu acho que depois de 86 acho que a gente vem criar corpo, criar força mais
a partir dessas experiências que vêm. Agora, as experiências iniciais não foram boas.
A minha avaliação é que deixaram a desejar, mas que foram fruto das nossas
limitações que a gente tinha naquele momento. Éramos muito novos, apenas uns
222
Três casos do banco de dados encontravam-se com as informações corrompidas e foram retirados dos
dados
148
estudantes, e a gente assumiu o PT, a gente, eu assumi a direção municipal do PT
em 85; o Tutmés, a estadual em 87. Então, a gente muito jovem terminou assumindo
a direção do Partido pela falta de experiência política, de capacidade política de
outros companheiros. E a gente também não tinha isso, e fomos fazendo da forma
que a gente teve condição de fazer. (Ricardo Coelho)
Além do ponto de que uma direção muito jovem assumiu a condução do PT, Ricardo
Coelho, concordando com afirmação dada também por Alice Anabuki, fala sobre a carência
de formação política como um fator importante para analisar os erros iniciais na construção
do PT:
Acho que há erro. Primeiro erro foi a falta de formação política. Nós não, talvez até
Estado
1980/1990
1991/2000
2000/2016
S/
Data
Total
por não tê-la, né?, a gente não priorizou a formação política. Organização de base,
como o PT tem a ideia do núcleo de base, naquela época os núcleos eram uma das
propostas principais do PT, até por influência das CEB's, então, nossa ideia de criar
núcleos... nós criamos muito poucos núcleos aqui. Nós não tivemos formação, nós
não tivemos núcleo... e também, nós não tivemos.. também até porque nós éramos
muito pobres, a verdade era essa (risos), a gente não tinha condição de... até de
viajar era difícil pra ir pro interior, pra poder... Então, nós não tivemos força política,
mobilidade para uma construção que é, que o momento exigia, o momento de uma
construção de um Partido como esse exigia, ela nos faltou. Nos faltou eu acho que,
os nossos grandes problemas além do problema conjuntural de Alagoas e estrutural,
que era não ter uma grande tradição de esquerda no começo de história, não ter um
movimento agrário forte, já que nós éramos tão agrários na nossa economia, tão
agrária, nós não tínhamos, deveríamos até ter uma resposta do movimento agrário,
que não tínhamos. Então, o PT surge aqui mais por influência de fora de que por
as... necessidades políticas daqui de Alagoas. (Ricardo Coelho)
As condições materiais são diversas vezes retratadas pelos entrevistados.
Ricardo Coelho volta mais uma vez ao tema. Estas condições materiais estariam
sanadas também com as eleições parlamentares, já que as verbas de gabinete possibilitariam
uma estrutura sustentável para a agremiação. Ricardo Coelho também opina que o PT foi um
partido pensado "de fora", ou seja, aquilo que constituía a realidade alagoana não se
coadunava com o que ele chama de as "necessidades políticas" do Estado. Certo ou errado, é
fato que o PT não se aproximou do campo como em outros locais, estando distante do mesmo.
Uma outra forma de visualizarmos a discrepância em tamanho do PT alagoano com
outros Estados, além do caráter diminuto da organização, é através da visualização
apresentada pelo seguinte gráfico:
TABELA 3 - Número de Filiações do PT Obtidas Regiões Nordeste e Sudeste de 1981 a 2016.
149
Alagoas
Bahia
Ceara
Maranhão
Minas Gerais
Paraiba
Pernambuco
Piaui
Sergipe
Espirito Santo
Rio de Janeiro
Rio Grande do Norte
São Paulo
Região Nordeste
737
3187
10163
19949
6277
20059
1233
5607
28472
61374
3469
7043
6935
13933
1718
6574
1161
4502
Região Sudeste
5716
7396
14935
104116
1695
4496
79921
90948
9020
78483
73262
30679
135337
26473
49234
24954
15032
3
256
178
97
721
957
767
54
0
12947
108851
99776
37616
225904
37942
70869
33300
20695
17927
21247
10517
290311
96
477
43
1318
31135
140775
16751
462498
Tabela sistematizada com base nos dados223 disponíveis no Portal Brasileiro de Dados Abertos
<http://dados.gov.br/> Acesso em 15 de Setembro de 2016. Elaboração: Wibsson Ribeiro Lopes .
É claro que devemos fazer a ressalva de que Alagoas é um pequeno Estado, com um
menor número de Eleitores que muitos outros. Mesmo assim, na comparação com Estados
pequenos com Sergipe, vemos o raquitismo da organização. Apenas depois das décadas de
1990 e no século XXI o PT alagoano vai ter um número de filiados mais próximo ao de outros
Estados do Nordeste, mas ainda assim manterá a lanterna na quantidade.
O próximo gráfico compara os números de filiados apenas na região nordeste:
Gráfico 4 – Número de Filiações do PT Obtidas na Região Nordeste por Estado de 1981 a
2016.
223
Os casos registrados como S/ Data são aqueles que as datas informadas no banco de dados encontram-se
equivocadas, ilegíveis ou não informadas.
150
Gráfico sistematizada com base nos dados disponíveis no Portal Brasileiro de Dados Abertos <http://dados.gov.br/>
Acesso em 15 de Setembro de 2016. Elaboração: Wibsson Ribeiro Lopes.
Vemos assim a baixa quantidade de filiados em Alagoas, com oito mil filiados a
menos que Sergipe, em 2016.
Este outro gráfico comparativo, por sua vez mostra a organização quinquenal de
número de filiados:
151
Gráfico 7 – Número de Filiações do PT Obtidas nas Região Nordeste e Sudeste por Estado de 1981 a
2016.
Gráfico sistematizada com base nos dados224 disponíveis no Portal Brasileiro de Dados Abertos
http://dados.gov.br/> Acesso em 15 de Setembro de 2016. Elaboração: Wibsson Ribeiro Lopes.
224
Para a elaboração deste gráfico foram desconsideradas as filiações que não apresentavam dados relativos a
data de filiação pois as mesmas não poderiam ser adicionadas as sereis temporais elencadas, tais filiações
152
Por fim, a imagem a seguir mostra a distribuição dos filiados no Estado de Alagoas.
Note-se a grande concentração na Capital, Maceió, e a desigual e diminuta distribuição na
zona rural:
Figura 1 - Distribuição dos filiados do Estado de
Alagoas.
Fonte: Figura esquematizada com base nos dados225 disponíveis no Portal Brasileiro de Dados Abertos
http://dados.gov.br/> Acesso em 15 de Setembro de 2016. Elaboração: Wibsson Ribeiro Lopes.
Vemos assim comprovada a visão de um partido fortemente concentrado na capital do
Estado. Porém, se diminuto em outras cidades, ainda assim é incontestável sua disseminação
pelo interior e por todo o território alagoano, ainda que, frisamos, diminuto
podem ser observadas na tabela 4. As três series temporais escolhidas 1980-1990, 1990-2000 e 2000-2016,
foram elencadas por apresentarem momentos distintos do Partido dos trabalhadores na politica nacional.
225
Para a elaboração deste gráfico foram desconsideradas as filiações que não apresentavam dados relativos a
data de filiação pois as mesmas não poderiam ser adicionadas as sereis temporais elencadas, tais filiações
podem ser observadas na tabela 4. As três series temporais escolhidas 1980-1990, 1990-2000 e 2000-2016,
foram elencadas por apresentarem momentos distintos do Partido dos trabalhadores na politica nacional.
153
5 CONCLUSÃO
O evento das Diretas tem vultuosidade. A partir dele, há uma abertura na visão da
memória petista. As massas ganham as ruas. O velho regime militar se enfraquece. O PT
aparece como uma força política viável. Vimos que o PT alagoano foi organizado, em seus
primeiros passos, por sindicalistas e estudantes, funcionários públicos e intelectuais. Depois,
as portas se abririam para que o Partido assumisse sua forma atual. As Diretas ocupam, na
memória de todas as nossas fontes, uma força impressionante. É a partir das Diretas que o PT
assume espaço político, enfim.
Esse espaço político se amplifica com as Eleições de 1989. O PT é alçado pelos temas
nacionais. Ganha relevância, peso político na cidade. Aumenta seu número de filiados, obtém
parlamentares, ganha militância das bases do PCdoB. A partir daí, o Partido se estrutura como
a direção das esquerdas em Alagoas.
Em contraste, os tempos de legalização do Partido são vistos como terríveis.
Despolitização, escassez econômica. Mas também são os tempos do "PT das origens"
evocado por Alice Anabuki, do classismo. São tempos que Tutmés Airan caracteriza como
"puristas". Tempos em que não há alianças, há uma visão "muito fechada".
Vimos como, para Ricardo Coelho, a explicação para esse momento do PT, sem
enraizamentos, estaria na ausência de uma classe trabalhadora organizada. Operação de
enquadramento de memória. Vários outros intelectuais e dirigentes construirão esta
explicação. Neste raciocínio, a razão da inexpressividade do PT em Alagoas, segundo vários
de seus dirigentes, como Paulo Fernando dos Santos (Paulão), ex-dirigente sindical e
deputado federal, estaria na própria constituição econômica do Estado de Alagoas. Sem uma
classe operária forte, a grande base social do PT, o estado não veria o Partido ter o mesmo
desempenho que em outros estados de maior industrialização. Da mesma forma, a ausência de
distribuição de renda não poderia construir uma classe média forte, a outra parte da
fundamental base social que constitui o PT na maior parte dos estados.
Sem essa classe operária, o que seria o PT? Sindicatos, principalmente de funcionários
públicos, depois da fundação da CUT. Os mandatos parlamentares, a partir do crescimento
eleitoral nos anos 1990, que se dá com o paulatino abandono do espírito de Sion e a
aproximação do que será, em 2002, o espírito do Anhembi.
154
São os tempos de adaptação ao Pemedebismo. Tempos em que o PT passa a entrar na
Cultura Política de blindagem do sistema político, conduzida pelo "centrão" e pelo PMDB.
São tempos de adaptação à ordem.
Assim, a memória política do PT alagoano é contraditória, como toda identidade
política. Há o resgate das Diretas Já! com brilho nos olhos, a lembrança das grandes
caminhadas com admiração. Mas a história do Partido no estado parece significativa apenas
quando das eleições e do crescimento eleitoral. Alice Anabuki se afasta do PT de Alagoas
nesse período e, quando volta ao Estado, não mais se considera da agremiação. Os demais
vivem todo esse processo. Narram a monotonia do PT antes das Diretas, mas a trajetória que
vislumbram é a de um fortalecimento político que só será questionado no cenário atual, de
Impeachment e ódio ao governo Dilma.
O PT em Alagoas será um PT de Movimento Estudantil, de sindicalismo de classe
média e oposições sindicais. Mais à frente, um PT de sindicalismo de servidorismo público e
parlamentares. Essas serão as bases em que o Partido estará assentado em Alagoas. Não há os
batalhões pesados da classe operária. Não há fortes setores produtivos em caráter
significativo, mas sim residual. Este é o PT de Alagoas.
À luz de todas as informações que temos, podemos retomar a citação do dirigente político
Paulão, utilizada na introdução deste trabalho:
Você não consegue ter uma esquerda forte se não tem bases sociais forte,
uma classe média e uma classe trabalhadora fortes, se não tem uma distribuição de
renda razoável." Explica o deputado ao questionar: "Como foi criado Alagoas?
Alagoas foi separado de Pernambuco, que vivenciava a luta contra a escravidão,
os ventos da revolução francesa, a visão industrial da Inglaterra, da Holanda, da
França. E quem cria Alagoas? A elite pernambucana atrasada, que pega as
melhores terras de Pernambuco e cria o Estado. Nosso problema é de nascedouro,
vem de formação.226
Essa interpretação que condena o PT a um apagamento político devido à formação do
Estado de Alagoas encontra-se, após a exposição de todos os argumentos que levantamos até
aqui, em uma posição inválida. Vimos que as lideranças políticas do Estado apostaram na
construção de candidaturas e lideranças alicerçadas nos movimentos urbanos de classe média.
Vimos também a auto-crítica de dirigentes sobre a não aproximação com os movimentos do
226
Jornal Gazeta de Alagoas. Maceió, 14 de fevereiro de 2010.
155
campo, tão fortes e tão constitutivos no Estado. Vimos também a crítica de Ricardo Coelho e
Alice Anabuki sobre a carência na formação política, um problema apontado por Lincoln
Secco como uma dificuldade nacional do Partido. Mais ainda, vimos desde o começo que o
PT teve que disputar seu espaço com o PCB, o PCdoB e com a organização do MDB e
posterior PMDB no Estado. O tempo todo houve disputa política para a construição da
organização e vemos agora que sem essa disputa não se entende a identidade política das
esquerdas no Estado. Não obstante todas estas questões, ainda há a crítica feita por Ricardo
Coelho, corroborada em alguns outros momentos da dissertação por outros depoimentos, de
que o PT foi pensado como um Partido para o Sudeste, pouco ligado às questões próprias do
Nordeste e de Alagoas. Como vemos, são muitas as questões e problemáticas que podem se
resumir às escolhas e decisões tomadas pelas lideranças do PT dentro de uma conjuntura dada
pela existência de outras organizações e pela força política do setor do agro-negócio. Mais do
que a interpretação determinista e conservadora dada pelo dirigente petista, pensamos que esta
interpretação é mais adequada para se visualizar historicamente o PT, inclusive abrindo
espaço para que trabalhos futuros explorem ainda mais detidamente os problemas, visto que
este trabalho, dado o pioneirismo, apenas faz apontamentos iniciais e amplos.
É nesse cenário que concluímos nossa dissertação, como uma contribuição a uma
história que não é só a das vozes que ecoaram nesse trabalho, nem é só a daqueles que
construíram o PT. É parte da história de Alagoas e do nosso Brasil, parte da vida de uma
organização política que surgiu carregando o sonho e as esperanças de milhares de pessoas. É
a história de pulsões que ainda se fazem presentes na nossa sociedade
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