Lagoa da Areia dos Marianos: História, Memória e Oralidade - Simone Lopes de Almeida
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
SIMONE LOPES DE ALMEIDA
LAGOA DA AREIA DOS MARIANOS:
História, Memória e Oralidade
MACEIÓ
2016
SIMONE LOPES DE ALMEIDA
LAGOA DA AREIA DOS MARIANOS:
História, Memória e Oralidade
Dissertação apresentada como requisito para a
conclusão do Curso de Mestrado em História do
Programa de Pós – Graduação em História, da
Universidade Federal de Alagoas, como requisito
parcial para obtenção do Grau em Mestre de
História.
Orientadora: Profª. Drª. Raquel de Fátima
Parmegiani
MACEIÓ
2016
A minha Mãe Eva.
AGRADECIMENTOS
Por diversas vezes repeti a mim mesma, e nos momentos mais emblemáticos dessa aventura
acadêmica cheguei a verbalizar “eu nem devia estar aqui”. Mas essas não são palavras ditas por
não me sentir imensamente grata em chegar até aqui, mas porque nesses últimos tempos refiz
meu caminho de lembranças, e entre tantas histórias repetidas nesse país, de mulher, negra e
nordestina, me somo a todas elas. Entretanto, estou me tornando Mestre em História, e essa é
ainda uma luta de muitas. Por todas elas que chegaram onde ousaram sonhar, e por todas que
também chegarão, minha gratidão.
Em cada passo dado, eu agradeço àquela que a mim dedicou o maior amor que já senti. Mãe,
se você ainda estivesse aqui, seria a criatura mais vibrante, por esse momento da minha vida.
Dela também recebi três irmãos, dos quais não conheci tamanha compreensão e paciência, por
me ausentar tanto. Obrigada, Solange, Marcelo e Marcos, também por todo amor dedicado.
De maneira especial agradeço a Bruna Fernandes, amiga e irmã. E por estar comigo nas dores
e nos amores. Quando rimos, cantamos, dançamos e declamamos poesias ao vento, como se
ninguém estivesse olhando, gratidão pelo encantamento.
Ao meu companheiro de vida, Moisés Oliveira, a quem dedico todo meu Amor, por todas as
vezes que estendo o braço, a mão que encontro ser a sua. Essa jornada acadêmica tem sua
contribuição, sou grata.
Aos meus companheiros e companheiras de curso Adriana, Ana Beatriz, Marta, Carine,
Jeferson, Zé Luiz, Simoneide, Izabela e Josian, por tornarem tudo tão bonito, sobretudo, por
não permitirem que a doença da vaidade soprasse em nosso meio, preferindo o apoio um ao
outro desde o início dessa aventura maravilhosa.
Ao professor e amigo Siloé Amorim, pelas orientações e aconselhamentos acadêmicos.
A amiga que esse mestrado me deu: Vanderli. Somos duas garotas do interior estudando na
capital. Tivemos uma vida de asfalto, carona, ônibus, suor e cansaço, mas muitas, muitas
mesmo, risadas de tudo, e conforto uma a outra.
Gratidão ao furacão Sandreana, a mulher que me apresentou a possibilidade de transcender,
quando tudo estava muito pesado.
Ao Centro de Cultura Cósmica por contribuir para minha paz interior.
Grata aos professores e professoras do Curso de Mestrado em História. Tudo foi um grande
aprendizado. Ao coordenador do Programa de Pós- Graduação em História PPGH-UFAL,
Professor Gian Carlo, pela lucidez e justiça, qualidades que se espera dos que ocupam cargos
de responsabilidade. Gratidão.
A minha orientadora professora Raquel de Fátima Parmegiani por ter acreditado neste trabalho,
sua competência e rigor acadêmico possibilitou que eu o revisse diversas vezes e por diversas
vezes fui grata, pois pude perceber qual importante é ser: ética, disciplinada e perseverante
diante da pesquisa. Sobretudo, lhe sou grata, pela cumplicidade e sororidade a me concedida.
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pelo apoio através
do Programa de Demanda Social (DS) de Apoio a Pós-Graduação (PROAP), o qual tornou-me
bolsista durante o curso.
Por fim, agradeço, sem muitas palavras, às pessoas da comunidade Lagoa da Areia dos
Marianos, cuja colaboração tornou possível este trabalho.
[...]
“é com segurança que lhes digo: para fazer história virai
decididamente as costas ao passado e vivei primeiro. Misturai-vos à
vida. À vida intelectual, sem dúvida, em toda a sua variedade.
Historiadores, sede geógrafos. Sede juristas também, e sociólogos e
psicólogos; não fecheis os olhos ao grande movimento que, perante
vós, transforma num ritmo vertiginoso as ciências do universo físico.
Mas vivei também uma vida prática. Não vos contenteis em contemplar
da orla, preguiçosamente, o que se passa no mar em fúria. No barco
ameaçado não sejais como Panurgo se sujando de puro medo, nem
mesmo como o bom Pantagruel, contentando-se, amarrado ao grande
mastro, em implorar, levantando os olhos ao céu. Arregaçai as mangas
como Frei João. E ajudai os marinheiros na faina.
E isto é tudo? Não. Não é a mesmo nada se deveis continuar separando
a vossa ação do vosso pensamento, a vossa vida de historiador da vossa
vida de homem. Entre a ação e o pensamento não há separação. Não
há barreira estanque. É preciso que a história deixe de vos aparecer
como uma necrópole adormecida, onde perpassam apenas sombras
despojadas de substância. É preciso que, ardentes de luta, ainda
cobertos de poeira do combate, do sangue coagulado do monstro
vencido, penetreis no velho palácio onde ela dormita, e que, abrindo
as janelas de par em par, reacendendo as luzes e reanimando o
barulho, acordeis com a vossa própria vida, com a vida quente e jovem,
a vida enregelada da princesa adormecida […].
Perdoai-me o jeito que tomou esta palestra. Dirijo-me, sobretudo, aos
historiadores. Se acaso eles estiverem tentados a achar que lhes falar
assim é não lhes falar como historiador, eu lhes suplico que reflitam
antes de formular essa censura. Ela é mortal.”
(Lucien Febvre1)
Lucien Paul Victor Febvre (Nancy, 22 de julho de 1878 — Saint-Amour, 11 de setembro de 1956), foi um
historiador francês.
1
RESUMO
Trata-se de um estudo sobre práticas culturais, sobretudo, as que envolvem a religiosidade local,
a partir de um estudo das memórias individuais e coletivas. A proposta parte da análise das
narrativas orais, observação participante das manifestações e exames de documentos, como
fotografias e catecismos, coletados entre os moradores de Lagoa da Areia dos Marianos, e os
praticantes dos aspectos devocionais que envolvem o tema. Nesta direção, são trazidos os
sujeitos e seus costumes, os quais formam o tecido social do lugar. Tais costumes são
encontrados principalmente no cotidiano de mulheres que têm como ofício manter o calendário
festivo religioso da comunidade, através das novenas aos santos padroeiros, nas práticas de cura
e divinatória, e cuidados com o corpo durante o pós-parto. Assim, podemos compreender como
este universo mágico-religioso interfere na vida deste lugar, contribuindo na organização, nas
formas de plantar e colher, pois a intervenção dos santos, a exemplo de São José, na crença, é
fundamental para o sucesso das lavouras, e as festas são para agradecer e retribuir como
oferendas, ou ainda são motivadas por promessas e homenagem aos mortos. A saúde vinculada
diretamente as benzenções e as consultas ao baralho, bem como, banhos e alimentos
específicos, para os que padecem de doenças espirituais, corpóreas, e para mulheres paridas.
Esses saberes são intercambiados por gerações, através da Tradição Oral, e em diversos
momentos da história humana esses costumes foram e são silenciados por não se utilizarem de
registros escritos, ou outro tipo de documentação. Assim, essa pesquisa é uma contribuição à
memória coletiva e individual das mulheres e homens de Lagoa da Areia dos Marianos e seus
conhecimentos tradicionais.
Palavras-chave: História. Memória. Oralidade. Cultura. Religiosidade.
ABSTRACT
It is a study of cultural practices, especially those involving local religiosity, based on a study
of individual and collective memories. The proposal starts with the analysis of oral narratives,
participant observation of the manifestations and examinations of documents, such as
photographs and catechisms, collected among the residents of Lagoa da Areia dos Marianos,
and practitioners of the devotional aspects that surround the theme. In this direction, the subjects
and their customs are brought, which form the social fabric of the place. Such customs are found
mainly in the daily lives of women who have as their office to maintain the religious festive
calendar of the community, through the novenas to the patron saints, in the practices of healing
and divinatory, and body care during the postpartum period. Thus, we can understand how this
magico-religious universe interferes in the life of this place, contributing in the organization, in
the ways of planting and harvesting, because the intervention of the saints, like St. Joseph, in
the belief, is fundamental for the success of the plantations, And the feasts are to thank and
reciprocate as offerings, or are still motivated by promises and homage to the dead. Health is
directly linked to blessings and consultations to the pack, as well as, baths and specific foods
for those suffering from spiritual, bodily diseases, and for women who are born. These
knowledges are exchanged for generations through the Oral Tradition, and at various times in
human history these customs have been and are silenced for not using written records or other
documentation. Thus, this research is a contribution to the collective and individual memory of
the women and men of Lagoa da Areia dos Marianos and their traditional knowledge.
Keywords: History. Memory. Orality. Culture. Religiosity.
LISTA DE FIGURAS
Figura 01
Banda de pífanos em Lagoa da Areia dos Marianos, durante os festejos da
Padroeira Nossa Senhora da Saúde. Visita as casas dos moradores da
comunidade para “tirar esmolas”..................................................................
21
Figura 02
Banda de pífanos na festa de São Sebastião durante a salva de fogos.......... 32
Figura 03
Banda de pífanos “pedindo esmolas”............................................................ 37
Figura 04
Homem levando as “esmolas” para o leilão da festa de Nossa Senhora da
Saúde............................................................................................................. 38
Figura 05
Homem “Porta Bandeira” com as “esmolas” em dinheiro para a festa de
Nossa Senhora da Saúde...............................................................................
41
Figura 06
Moradores de Lagoa da Areia dos Marianos, década de 1980.....................
43
Figura 07
Apresentação do pagode...............................................................................
48
Figura 08
Imagem da capela Nossa Senhora da Saúde, horas antes do início da festa. 50
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 14
2 CULTURA E RELIGIOSIDADE: LEITURAS E INTERPRETAÇÕES ..................... 21
2.1 A religiosidade no olhar da historiografia...................................................................... 25
2.2 Cultura e religiosidade, uma herança re(inventada)......................................................27
2.3 Festa de São Sebastião...................................................................................................... 29
2.4 Novenas de São José ......................................................................................................... 32
2.5 As novenas de maio e a festa de Nossa Senhora da Saúde ............................................ 34
3 O LUGAR: LAGOA DA AREIA DOS MARIANOS ...................................................... 43
3.1 Brincadeiras e caminhos bordados na fé ........................................................................ 47
4 NARRATIVAS SOBRE PRÁTICAS RELIGIOSAS....................................................... 50
4.1 Memória e narrativa ........................................................................................................ 50
4.2 Memória e oralidade ........................................................................................................ 54
4.3 Maria Anunciada .............................................................................................................. 59
4.4 Maria de Lourdes ............................................................................................................. 60
4.5 Rosilene Rosa .................................................................................................................... 61
4.6 Religiosidade e suas práticas ........................................................................................... 61
4.7 O cuidar entre as mulheres .............................................................................................. 69
4.8 Memória das narradoras ................................................................................................. 76
CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 80
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 83
ANEXOS ................................................................................................................................. 88
Anexo A – Ladainha de Santo Antônio - (Para os festejos de Santo Antônio) ................. 89
Anexo B – Maria, valei-nos! (Para ser cantada durante o mês de maio) .......................... 91
Anexo C – Ladainha de Nossa Senhora em latim (Para ser cantada no mês de Maio) ... 93
Anexo D – Música cantada durante o pagode (Cantada em entrevista concedida por
Toinho)..................................................................................................................................... 96
Anexo E – Fotografia: Primeira banda de pífanos da festa de Nossa Senhora da Saúde 97
Anexo F – Fotografia: Banda de pífanos durante a festa de Nossa Senhora da Saúde na
década de 1980 ........................................................................................................................ 98
APÊNDICES ........................................................................................................................... 99
Apêndice 1 – Calendário de festas em Lagoa da Areia dos Marianos ............................. 100
Apêndice 2 – Narrativa de D. Maria Anunciada ............................................................... 102
Apêndice 3 – Narrativa de D. Maria de Lourdes .............................................................. 108
Apêndice 4 – Narrativa de Rosilene Rosa Anunciada ....................................................... 114
Apêndice 5 – Entrevista com Sr. Cícero Antônio Pinto (Toinho) e D. Luzia Maria Pinto
................................................................................................................................................ 123
Apêndice 6 – Entrevista com D. Edna ................................................................................ 126
14
1 INTRODUÇÃO
Este trabalho é parte de uma reflexão para perceber a História como uma ciência capaz
de alcançar as quase imperceptíveis histórias do cotidiano. De qualquer modo, as disciplinas
sociais e humanas não são dotadas de verdades absolutas, por se tratarem do estudo de
diferentes grupos humanos e suas vastas formas de se relacionarem com o mundo e consigo
mesmas.
Por esses horizontes, acredita-se que a história de mulheres e homens considerados
comuns, cabe no florescimento da História Cultural, um alargamento que também ficou
conhecido como Nova História, em que Jacques Le Goff liderou o grupo de intelectuais
franceses nos anos de 1970, visto o aumento de estudos realizados e publicados, sobretudo na
Revista da Escola dos Annales, nascida e criada um pouco antes, por Marc Bloch e Lucien
Febvre, em 1929, que já nesse período estreou a História-Problema ou a História
Interdisciplinar.
Esse modo de enxergar a História pode ser entendido como a principal motivação que
me levou a estudar a História e a memória de Lagoa da Areia dos Marianos, a partir das
narrativas orais de alguns de seus moradores, me fazendo também enquanto observadora
participante. Embora saibamos que, existem várias formas de fazer História Oral, neste
trabalho compreendo que alguns elementos poderiam adequar-se melhor em relação ao campo
escolhido. Neste caso, a História Oral a qual me detive foi a História de Tradição Oral, que
segundo Meihy e Holanda (2007) concentram-se na memória individual ou coletiva, onde
saberes são passados de geração para geração e encontram no mito de origem explicação para
a existência do grupo ou dos fenômenos por eles vivenciados. Sem perder de vista a História
de vida, percebendo que as características compreendem que o narrador fala muito de si mesmo
e “empresta” sua história de vida para entendermos melhor um universo mais amplo.
Neste caso, as narrativas encontram-se em anexo na íntegra, e é parte fundamental para
compor o trabalho, as quais são fontes pertinentes ao que se propõe a pesquisa, auxiliando uma
leitura mais aprofundada do que foi apresentado na dissertação.
São três narrativas: a primeira, a de Maria Anunciada, benzedeira e cartomante, que tem
o ofício de cuidar da saúde do “corpo e da alma” de moradores de Lagoa da Areia dos Marianos,
que a procura com essa finalidade; a segunda narrativa é de Maria de Lourdes, rezadeira de
novenas, liderança religiosa na comunidade; a terceira, Rosilene Rosa, professora, jovem, que
vivenciou costumes simbólicos no cuidado com o corpo após o parto de suas filhas; apresento
também duas entrevistas (diálogo com perguntas e respostas): uma com D. Edna, professora
15
aposentada e zeladora da Igreja e do cemitério e por fim, anexarei o registro de uma entrevista
de uma dupla de pagodeiros: Toinho e Luzia, a qual foi utilizada no Trabalho de Conclusão de
Curso, de minha autoria, intitulado, Os ritos e as crenças que constroem o imaginário na Lagoa
da Areia dos Marianos, defendido na Universidade Estadual de Alagoas, Campi Palmeira dos
Índios, em 2014.
A metodologia utilizada nesta pesquisa é inspirada nas orientações de Walter Benjamin
(1985), que acreditava sobre a arte de narrar, que não está nos livros, e que seu principal canal
é a oralidade. O outro referencial é sobre memória-narrativa, de Ecléa Bosi (1994): Memória e
sociedade: lembranças de velhos, que consistiu na organização do que ela chama de memória
de velhos, sendo essa obra um marco na História Social de São Paulo, ao encontrar-se narrativas
publicadas sem fragmentação, “de pessoas desconhecidas”, sobre momentos importantes da
cidade, sobretudo no período da ditadura militar. Assim, Bosi pode fazer um estudo sobre a
memória individual e coletiva.
Considerei a memória individual e coletiva de Maurice Halbwachs, sem perder de vista
Walter Benjamin e Ecléa Bosi, entretecendo sobre a memória com as narrativas orais e os
desafios em fazer História Oral. Nora, Joutard, Fiurucci e as brasileiras Janaina Amado, Marieta
de Moraes Ferreira, são alguns dos autores que fazem presentes também.
Como afirma Lucien Febvre, a História é filha do tempo. É de responsabilidade do
historiador, primar pelo conhecimento da ciência histórica, desde seus primeiros passos
tradicionais, bem como o seu espírito de renovação, ou seja, o repensar, reescrever e refazer os
caminhos, mantendo a interação com os múltiplos seres humanos e suas múltiplas formas de
organização sociocultural.
A propósito, o registro das subjetividades humanas, visto pela história, rever, inclusive,
a concepção do tempo como uma linha ininterrupta, e sim, o tempo tendo suas simultaneidades,
continuidades, rupturas, ritmos e durações, sofridas pelos indivíduos e os grupos, e “são os
homens que a história quer capturar. Quem não seguir isso será apenas [...] um servidor da
erudição. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe
que ali está a sua caça” (BLOCH, 2001, p. 54).
Aliada ao tempo estão as memórias, sejam aquelas lembranças individuais, sejam as
lembranças coletivas, resultantes de uma vivência em que os sujeitos ressignificam a sua
existência, a partir dos elementos que constituíram pequenos e grandes acontecimentos. A
memória contribui para essa ressignificação, porque esses sujeitos ao refazerem o caminho,
baseado no ato de lembrar, podem reafirmar também sua identidade.
16
No Brasil, onde a multiplicidade cultural se faz presente, a oralidade tem fortalecido
essa memória e similaridades. E a História Oral tem produzido inúmeros estudos, desde a
própria tradição oral, trazendo diversas expressões culturais, presentes em comunidades
camponesas, como é o caso de Lagoa da Areia dos Marianos, e outros grupos, a exemplo dos
indígenas, quilombolas, ribeirinhos.
Assim como a oralidade de pessoas conhecidas, lideranças políticas, enfim, a História
Oral, se debruça em ouvir e organizar os mais diversos depoimentos. Sendo uma questão
importante a ser levantada, geralmente esses sujeitos e essas comunidades encontram-se na
contramão, e são considerados os silenciados e os esquecidos da história e da sociedade. Neste
sentido, a oralidade é como uma lente de aumento diante dos fatos.
Lagoa da Areia dos Marianos, tal qual outras comunidades rurais camponesas, cultiva
atividades correspondentes, como, a posse coletiva de capelas, salões para reuniões, grupos
escolares, cemitérios, campos de futebol, roçados, trabalho familiar coletivo e a produção
familiar e coletiva, quando os resultados do trabalho são repartidos entre si. No entanto, a
reciprocidade caminha para além dos modos de reprodução econômica, é quanto a sua forma
de relação com a terra, com o ambiente e com o próprio ser humano.
Em consideração à interdisciplinaridade da própria História Cultural, busquei dialogar
com nomes considerados importantes para a historiografia, tanto nos estudos voltados para a
ciência histórica em si, como para as particularidades da História Cultural, um modo específico
de compreender a História, porém não sendo “uma descoberta ou invenção nova” (BURKE,
2008, p. 15), e seus diálogos interdisciplinares, a exemplo da Antropologia e a Sociologia.
Alguns já citados, como Marc Bloch e Lucien Febvre, e mais, Peter Burke, nos possibilitando
olhar para a História, a História Cultural, ou o interesse pela cultura.
Como auxílio, para o arcabouço da pesquisa de campo e textual, fiz estudos nas obras
de Michel de Certeau e Paul Veyne. Inclusive Veyne nos diz que “tudo é histórico [...]. Nós não
alcançamos todo o devir. Escolhemos subjetivamente um aspecto para descrever, logo a história
é subjetiva. [...]. Embora a escolha de um assunto de história é livre, cabe ao historiador
entender a organização dos fatos e suas ligações objetivas” (VEYNE, 1998, p. 42-43). E Carlo
Ginzburg, cujo subsídio metodológico traz reflexões e indicações sobre o fazer historiográfico
e os modos de investigação, a partir do paradigma do saber indiciário, consistindo-me em
observar os pormenores, bem como o espaço das representações, das trocas simbólicas e
imaginário, com as contribuições de Pierre Bourdieu, Michel de Certeau e Marcel Mauss, sendo
que os elementos trazidos por estes autores falam sobre os arranjos sociais, reelaborações do
passado no presente, marcados por traços culturais. Alguns deles são a oferta e a partilha. Esse
17
princípio de reciprocidade acontece na organização do cotidiano, nos ritos, nas gentilezas e nas
festas. Assim, como se manifestam os valores simbólicos, perpassam as relações sociais,
mostrando os vínculos entre esses elementos e o modo de vida de indivíduos e grupos.
Compreendendo que a cultura e a religiosidade se mantêm na comunidade estudada, fiz
alguns apontamentos, sem perder de vista a discussão a respeito do conceito de cultura e
religiosidade popular, que o interesse e o reconhecimento se deram fora do alcance dos seus
próprios atores, vista como exótica, “autêntica” e pertencente a grupos específicos, comuns nas
camadas pobres da sociedade, e servindo, inclusive, para justificar e enaltecer os sentimentos
nacionalistas, ao mesmo tempo, se tratando das mais complexas e vultosas expressões entre
camponeses e artesãos. Recorri a Peter Burke, e também as interpretações de Roger Chartier e
de Jacqueline Hermann, o que me leva a refletir sobre as reflexões que os três trouxeram e
analisaram sobre o entendimento de cultura e da religiosidade tida como popular, bem como as
generalizações e as perspectivas ultra consensuais do termo.
[...] relembrar que os debates em torno da própria definição de cultura popular
foram (e são) travados a propósito de um conceito que quer delimitar,
caracterizar e nomear práticas que nunca são designadas pelos seus atores
como pertencendo à “cultura popular” (CHARTIER, 1995, p. 179).
Como em Lagoa da Areia dos Marianos a cultura sofre forte influência da religiosidade,
neste sentindo, faço alguns estudos sobre essas ações e como possivelmente chegaram até essa
comunidade, trazendo a devoção e o prestígio de homens e mulheres canonizados pela Igreja
Católica. Nesse caso, os estudos feitos por Laura de Mello Souza são bastante significativos
para esta pesquisa, visto tratar-se sobre a parcela significativa de Portugal, introduzindo a fé
durante o Brasil colônia, através de padres jesuítas, freiras e degradados, esses últimos
acusados, sobretudo de heresia contra as doutrinas da Igreja, e tendo o Brasil como punição
para expurgar os pecados, trouxeram consigo os ofícios, as novenas, as promessas e orações,
algumas em português e uma boa parte em latim. Essa percepção religiosa, em Lagoa da Areia
dos Marianos busca referências na memória dos velhos. As práticas religiosas sofrem influência
da religião católica tradicional: as novenas, as rezas, procissão, cantos, ladainhas, excelência,
ritos reinventados no cotidiano da comunidade através de gerações2, o que remete à pesquisa
as elucidações de Certeau (2014).
2
A celebração dos ritos é feita pelas mulheres da comunidade. Mulheres que não tiveram acesso aos livros,
analfabetas. Não foram as freiras, nem os padres. Essas mulheres replicam o que ouvem ou ouviram dos religiosos
que vez ou outra apareciam no povoado para fazer as celebrações tradicionais católicas.
18
Observei, em Lagoa da Areia dos Marianos, a capacidade de narrar histórias.
Geralmente histórias ligadas à vida de quem conta, acontecendo durante as reuniões em família
ou comunitária, a exemplo dos momentos de realização das novenas, pequenos intervalos
durante as celebrações, em que conversa-se sobre os acontecimentos do dia, ou algum fato
ocorrido a um tempo mais distante, encontrando-se nesse ambiente, velhos, jovens e crianças.
Os vestígios desses aspectos em Lagoa da Areia dos Marianos foram encontrados: no
mês de março nas novenas de São José, iniciando os rituais de plantio do milho e feijão; no mês
de maio, durante todo o mês são realizadas as Ladainhas de Nossa Senhora, tendo nas mulheres
o papel principal. A maioria das rezas é em latim (ver narrativas, nos apêndices), e são
repassadas, em sua maioria, de forma oral, umas para as outras.
Outro momento, são as celebrações de Santo Antônio, São João e São Pedro, em que as
rezas e as festas acontecem. Aqui, mais uma vez, as relações com o catolicismo tradicional é
percebido, visto que os santos homenageados são trazidos pelos europeus (jesuítas ou
degradados), mas que, ao mesmo tempo, a comunidade segue um jeito próprio de fazer suas
homenagens.
Nas ofertas das colheitas, durantes a festa de santos padroeiros, como é o caso da Festa
de São Sebastião e Nossa Senhora da Saúde, também são momentos peculiares de reinvenção
do cotidiano e dos ritos religiosos da comunidade.
Tendo como principal referência espacial Lagoa da Areia dos Marianos, uma
comunidade rural que fica entre dois municípios, Palmeira dos Índios e Estrela de Alagoas, no
estado de Alagoas, considerei as mínimas condições em encontrar documentos escritos sobre o
lugar. Neste sentido, fotografias de arquivos pessoais de pessoas da comunidade, a exemplo da
professora aposentada, Edna de Souza Nunes Tenório, ou de fotógrafos independentes, como
Antônio Jorge Ferreira. E as imersões de campo 3 , em que realizei gravação em áudio de
narrativas orais e a observação participante, a fim de registrar, em fotografias, vídeos e
anotações em caderno de campo, as diversas situações vividas durante os trabalhos de pesquisa.
Foi preciso estar presente durante as festas de santos, reuniões comunitárias, realizações
de novenas, enterros, jogos de futebol, festas familiares, além dos dias mais comuns da
comunidade, para obter as fontes necessárias.
3
No corpo do trabalho encontram-se fotografias de meu acervo pessoal, datada antes de iniciar o curso de Mestrado
em História. Devo aqui ressaltar, que tenho realizado estudos em Lagoa da Areia dos Marianos desde o período
de Graduação em História, sendo inclusive objeto de pesquisa para apresentação de Trabalho de Conclusão de
Curso (TCC), no ano de 2014.
19
Também fiz algumas considerações sobre a História Oral no Brasil, seus avanços e
desafios, tendo oportunizado historiadores criarem um grande número de depoimentos de
pessoas que foram consideradas silenciadas pela política brasileira durante a ditadura militar, e
que, a luta pela democracia, auxiliou que lideranças políticas falassem. Assim, o Brasil possui
a Associação Brasileira de História Oral e diversos estudos realizados e publicados, inclusive
aumentando as áreas e temas, para além da política.
Em relação à memória em si, enfatizei sobre a perspectiva da memória individual e
coletiva, acreditando que essa contribui para a cimentação da identidade dos sujeitos e dos
grupos aos quais eles pertencem.
Faço um diálogo entre História, memória, e oralidade, entendendo que, sem esta
discussão, seria impossível compreender o universo de Lagoa da Areia dos Marianos, porque
os sujeitos, os quais nos revelaram algumas de suas vivências, são sujeitos individuais, mas
também coletivos. São contadores de histórias, ou narradores, como Walter Benjamin nos
aponta, e suas narrativas estão repletas de conselhos, que sugerem hábitos, costumes que são
passados por gerações.
O lugar estudado compõe as representações e o imaginário imbricados no cotidiano
individual e coletivo, formando o tecido das relações sociais, da religiosidade, aos rituais na
agricultura.
A constituição de rituais, presentes nas festas de santos e no ofício das mulheres
rezadeiras de novenas, traduz o calendário festivo/religioso de Lagoa da Areia dos Marianos.
As festas são elos de organização e relações sociais, agregação de valor e reciprocidade entre
os indivíduos e a natureza, tendo em vista que as celebrações circulam a partir dos bens
cultiváveis na agricultura.
A relação com os santos permite que em Lagoa da Areia dos Marianos, a exemplo de
São José, interfira na natureza, por meio da fé, a chuva, ou a falta dela: as colheitas são
gerenciadas pela permissão dos santos.
Por meio de diversos costumes em comum são observados como podem ser vividos
conflitos e as dissoluções deles, através de complexas relações sociais, onde a tradição entra
em contraposição com os signos modernos: a energia elétrica, a internet, a telefonia celular, a
medicina convencional, em contraponto com a comunicação boca a boca, pelo dobrar dos sinos
e por meio de fogos de artifícios, a cura por meio dos benzimentos e as promessas para chover.
A leitura interpretativa das narrativas, encontradas no presente estudo, não significa
dizer que é a única interpretação possível. As narrativas podem ser fonte para diversos olhares,
sobretudo, porque elas não encontram-se presas a uma única área, tema ou momento vivido,
20
mas a história de vida está intrínseca ao que esperava de fato compreender. Por isso,
encontramos diversos assuntos, do tempo de criança, ao pequeno fato ocorrido no dia da
entrevista.
Assim, pretendo colaborar com a História, trazendo este estudo sobre Lagoa da Areia
dos Marianos, porém não abarcando o lugar em sua totalidade. Todavia, parte de sua existência
encontra-se organizada com a colaboração de alguns de seus moradores.
21
2 CULTURA E RELIGIOSIDADE: LEITURAS E INTERPRETAÇÕES
Figura 01 – Banda de Pífanos em Lagoa da Areia dos Marianos, durante os festejos da
Padroeira Nossa Senhora da Saúde. Visita as casas dos moradores da comunidade para
“tirar esmolas4”.
Fonte: Antônio Ferreira, 2011.
As reflexões que orientam este trabalho se tratam singularmente da História Cultural
enquanto abordagem teórico-metodológica, e especificamente meu principal esforço é dialogar
com a cultura e a religiosidade na comunidade de Lagoa da Areia dos Marianos a partir da
oralidade e da memória de alguns de seus moradores. Além dos depoimentos orais do grupo
estudado, me coloquei durante a pesquisa como observadora participante, estando presente em
campo em diversos momentos em que o grupo realizou práticas culturais e religiosas
individuais e coletivas, em momentos cotidianos e ou celebrações festivas. Portanto, trata-se de
4
O termo: “tirar esmolas” irei explicar mais adiante.
22
um trabalho em História Oral e com as percepções da própria pesquisadora como testemunha
de diversas situações vividas, se valendo de caderno de campo e gravações audiovisual.
Entendo que, tanto a cultura quanto a religiosidade são conceitos que motivam disputas
teóricas, políticas, juízos de valor e idealizações, e já foram e são muito discutidas no meio das
Ciências Sociais, porém, percebo que diante da pesquisa que realizei permito-me fazer também
algumas considerações a respeito.
Primeiramente, consideremos a compreensão sobre cultura5 e religiosidade, que melhor
se adequa a este trabalho:
Segundo Clifford Geertz (2008), antes de tudo, o que temos é a nossa própria
interpretação, isto em relação as nossas fontes orais, que ele chama de informante, sobre o que
eles pretendem e como produzem sua existência, que é a cultura, porém o autor também adverte
que, apesar de importante, tudo que o pesquisador produz em relação à cultura não passa disso
mesmo: interpretação, se tratando de uma escrita em terceira mão, pois somente o próprio
indivíduo ou o grupo pode falar com autenticidade e em primeira pessoa sobre sua própria
forma de vida. Assim, Geertz (2008) compreende a cultura como uma teia de significados, os
quais são tecidos pelos indivíduos e/ou grupos, e esta teia orienta o sentido da existência destes.
Logo, Michel de Certeau (2012) problematizou a cultura no plural, de modo que, este
entendimento procura dizer que não é possível a constituição de uma cultura única, totalizante,
mas diversas formas de expressão da vida humana, e uma cultura sempre está em envolvida
com a outra, nenhuma encontra-se isolada.
Assim, quando falo de religiosidade estou levando em consideração definições como a
que é proposta por Roger Chartier, compreendendo que um estudo sobre religiosidade é preciso
ficar atento aos usos e sentidos dos termos. Sendo que objetivo central é de identificar a maneira
através da qual, em diferentes tempos e lugares, uma determinada realidade cultural é
construída, pensada e lida. São as representações6 de mundo gestado e determinado por quem
às elaboram, as quais não são neutras, pois de diversas formas: impõem, justificam e procuram
legitimar projetos, regras e condutas. Dessa forma, abordar a religiosidade é levar em conta a
5
Essa definição de cultura defendida por Geertz e Certeau trata-se de um aprofundamento do conceito difundido
por Edward Tylor no século XIX, sendo que, cultura é toda realização material e imaterial de um povo, ou melhor,
é tudo aquilo produzido pela humanidade, desde objetos até ideais e crenças, independendo da questão biológica.
Embora a ideia de Tylor seja bastante atual, coube às Ciências Sociais, como a Antropologia, problematizar a
questão, sem perder, mas acrescentar, diante do que já tinha sido produzido a respeito. Ressalta-se a importância
da História Cultural abraçando também a cultura como um conjunto de realizações humanas, caracterizando-se
como base da própria História (SILVA; SILVA, 2009).
6
Representações, segundo Chartier (2002), são conjuntos de valores, discursos, e táticas sociais produzidas e
determinadas pelos grupos como forma de afirmação, ou como estratégia de ocupar determinados lugares sociais.
23
historicidade dos fenômenos religiosos construídos em variados aspectos dentro desta
complexidade histórica e também cultural (SILVA, 2004).
Primeiramente, evidenciamos que a compreensão da religiosidade tem forte ligação com
a cultura, e neste sentido, comunidades camponesas, a exemplo de Lagoa da Areia dos
Marianos, são detentoras da transmissão de conhecimentos, que são transformados em tradição
e reeditados por gerações, por atores que elaboram e efetivam saberes próprios, específicos do
lugar, como é o caso das festas de santos padroeiros e as novenas. De modo que o interesse pela
cultura, muitas vezes, nasce junto com o interesse pela religiosidade, e em movimentos
imbricados, que em diversos momentos, de tão próximos, não se precisam onde termina uma e
começa a outra. Conforme sublinhou Geertz (2008), ao interpretar a crença (religião) como um
sistema cultural, e assim, como um conjunto de práticas, que aqui estamos chamando de
religiosidade, dando o “tom, o caráter e a qualidade da sua vida, seu estilo e disposições morais
e estéticos e sua visão de mundo”, (GEERTZ, 2008, p. 66-67), dialogando decisivamente com
o entendimento de Chartier (1995).
De modo que, tanto a cultura como a religiosidade são alvos de intensas discussões na
História, quando tratadas como manifestações vindas do povo, rendendo diversas
interpretações, como a do próprio Roger Chartier (1995) trazendo inquietações a respeito,
assumindo a reavaliação do conceito de cultura popular, produzida,
como uma categoria erudita destinada a circunscrever e descrever produções
e condutas situadas fora da cultura erudita, o conceito de cultura popular tem
traduzido, nas suas múltiplas e contraditórias acepções, as relações mantidas
pelos intelectuais [...] (CHARTIER, 1995, p. 179).
A cultura popular, neste sentido, pode ser compreendida como aquela que é popular por
se tratar dos costumes de pessoas e grupos comuns, de camadas mais pobres da sociedade,
caracterizadas pelo uso da oralidade na transmissão dos conhecimentos, e detentoras de
autonomia e de representações próprias. Mas, por outro lado, o conceito ao ser “criado”, não
teve a participação desses atores, e sim, a partir das relações e interesses de um grupo de
intelectuais, que sistematizaram no âmbito da cultura letrada, da historiografia e outras ciências,
esses costumes e práticas culturais.
Não se afasta, porém, o caráter inovador. Essa atenção dada ao povo, segundo Peter
Burke (2010) possui razões específicas, sejam elas: estéticas, intelectuais ou políticas, onde as
práticas culturais de pessoas comuns, que eram vistas como coisa natural, rude e grotesca,
passaram a ser: exótica, bela e apreciável. Ele chamou de “a descoberta do povo”, o conjunto
24
desses enredos, da religiosidade, histórias de camponeses e artesãos, festas, melodias,
acompanhados do termo popular como adjetivo:
Em suma, a descoberta da cultura popular fazia parte de um movimento
primitivo cultural no qual o antigo, o distante e o popular fazia parte de um
movimento de primitivismo cultural no qual o antigo, o distante e o popular
eram igualados. [...] Esse movimento foi também uma reação contra o
iluminismo, [...] contra o elitismo, contra seu abandono da tradição acima da
razão, o surgindo naturalmente acima do planejado conscientemente, os
instintos do povo acima dos argumentos dos intelectuais (BURKE, 2010, p.
35).
É possível enxergar esse rompante na atração exercida pelos contos de origem
camponesa e de artesãos, havendo também um ensejo de voltar-se às coisas do lugar. Tendo
haver com o nacionalismo, essa é uma das razões do movimento também ter caráter político.
Os interesses defendidos por Peter Burke são, durante a Europa Quinhentista e Europa
Oitocentista, o que se refere à cultura chamada popular. Esse estudo traz inúmeras elucidações
e legados, sobretudo àqueles que estudaram e conceituaram a cultura e o que seria popular. Mas
essa herança intelectual não traz apenas luzes, mas muitos pontos que não são possíveis
enxergar, ou melhor, nem tudo pode ser como foi descrito.
Segundo Burke (2010), houve inúmeros equívocos quanto à ideia de cultura e de povo.
Em uma relação intrínseca com o pensamento de Chartier, já mencionado anteriormente. As
variações entre esses dois termos, indicadas por esses autores, estão ligadas à ideia de que povo
significa, entre tantas definições, o nome que se dá às pessoas em geral de um determinado
lugar, ou pessoas incultas e, na pior das hipóteses, que são aqueles que não produzem nada de
interessante. Para os “descobridores” da “cultura popular” permaneceu uma vasta vontade em
compreender tudo isso, mas a dificuldade em chegar a uma definição mais sóbria não os
poupou, “a cultura é um sistema de limites indistintos” (BURKE, 2010, p. 57). A diversidade
existente na cultura de muitos grupos, a exemplo dos camponeses, mostrou que a tentativa de
dar unidade, quanto ao seu modo de vida não se sustenta.
O mesmo acontece com a religiosidade, a diversas manifestações foi dado o termo
popular, e sofreu as mesmas criticas quanto à cultura popular, que, segundo Chartier (1995) é
considerada uma invenção daqueles que não se sentem ou não são parte dela, a exemplo de
intelectuais e instituições públicas ou privadas.
A materialização desses fenômenos religiosos se caracteriza pelas transformações
significativas, a partir dos sujeitos e os grupos que a difundem, que não absorvem inteiramente
as “religiões oficiais”. Na maioria das vezes, esses grupos se apropriam e modificam, segundo
25
seus próprios referenciais e padrões estéticos. Esse fenômeno foi denominado por Carlo
Ginzburg de circularidade cultural. Entre suas obras, O Queijo e os Vermes, segundo Hermann
(1997), se constituiu um marco para a historiografia cultural sobre o fenômeno das
religiosidades, se tratando do cotidiano do moleiro Menocchio, que sofre perseguição e
julgamento pela inquisição. As práticas religiosas e culturais de pessoas comuns eram tidas,
pela “igreja oficial”, como diabólicas. O afastamento desse setor da vida comum se configurava
um total desconhecimento do que se passava no universo de camponeses e artesãos, por
exemplo. Isto pode explicar o papel perseguidor da inquisição.
Nessa perspectiva, são de fundamental importância os diversos filtros sociais que
recebem e reelaboram as mensagens religiosas, a partir de vivências culturais específicas e
determinadas, permitindo a identificação de formas diferenciadas de entender e viver a
experiência religiosa (HERMANN, 1997), passando a existir diversas formas de responder as
exigências do sagrado, e, sobretudo, tendo uma compreensão própria do que é sagrado,
vivenciado muitas vezes no limiar, e diversas vezes imbricado de tal maneira que não é possível
identificar onde se principia e onde se encerra o sacro e o profano.
2.1 A religiosidade no olhar da historiografia
A princípio, as ciências sociais se mantiveram interessadas na história das religiões, sem
ocupar-se em investigar as religiosidades, ou melhor, como acontecem, e qual o sentindo desses
fenômenos. Esta atenção tardia pode ser explicada pelo fato da ideia ocidental/cristã que resistiu
na dicotomia entre religião e magia. As primeiras investidas vieram de viajantes7, ao estudarem
sociedades as quais chamaram de “primitivas” ou “naturais”, inaugurando a etnologia, que seria
os estudos dessas sociedades. A “descoberta” do “outro” traria práticas e costumes para além
da ordem cristã, pois passar-se-ia a admitir a existência de outras formas de organização
coletiva.
Contudo, esses esforços, segundo Jacqueline Hermann (1997), foram importantes, pois
contribuíram para a constituição dos conceitos que estruturaram o arcabouço da disciplina sobre
7
Segundo Laplatine (1999), à medida que os europeus expandem seu domínio além-mar (a partir dos séculos XV
e XVI), explorando lugares e sociedades distantes, até então desconhecidos, eles começam a elaborar discursos
sobre esses lugares e seus habitantes. “A grande questão que é então colocada, e que nasce desse primeiro
confronto visual com a alteridade, é a seguinte: aqueles que acabaram de serem descobertos pertencem à
humanidade?” (LAPLANTINE, 1999, p. 37). A pergunta possui um caráter religioso: as pessoas dessas
sociedades teriam alma? Surgindo então duas vertentes: uma que reforça o estranhamento e recusa a tudo e todos
que não façam parte da cultura europeia e outra que se sente fascinada pelo desconhecido e parte para o estudo de
diversos povos, a exemplo, dos continentes americano e africano.
26
religião. Da mesma forma, a inclinação mais sistemática do tema levou ao entendimento de
que, sob o ponto de vista dos fenômenos religiosos, os diferentes grupos atribuem sentidos
diferentes para suas vivências religiosas, “a exemplo do sentido da experiência sagrada, da
função dos mitos, da estrutura dos símbolos e da percepção da religião como uma cosmogonia”
(HERMANN, 1997), abrindo caminho para uma abordagem historiográfica descritiva e
analítica.
No século XIX, o pensamento positivista e evolucionista reforçava a ideia que, tanto a
religião como a magia podiam ser explicadas pela ciência, seja por leis inquestionáveis, seja
por meio de forças sobrenaturais. Esses dois vieses foram marcados com o discurso
eurocêntrico ou etnocêntrico. A antropologia foi à área que de fato mais se inclinou para os
estudos tanto da cultural como da religião.
Um século depois, com a implantação do
movimento dos Annales8 na França, foram apresentadas mudanças teóricas e metodológicas
para a historiografia, e um olhar diferenciado para esses fenômenos.
Sendo uma negação à História do chamado “grandes eventos”, como as guerras, a
política e até mesmo o nacionalismo, a principal proposta oferecida pelos Annales foi a
interdisciplinaridade na pesquisa, ou seja, o diálogo da História com as outras ciências sociais.
A descoberta do “homem comum”, “como elemento fundamental no desencadeamento de
transformações históricas” (HERMANN, 1997). Quanto a religiosidade, March Bloch realizou
estudos referentes aos movimentos messiânicos, protagonizados por pessoas de vida simples,
como os camponeses, por exemplo. Já Febvre debruçou-se sobre diversos temas até então
estudados pela Antropologia, como a vida de homens como Lutero, e a experiência religiosa
desses indivíduos com o seu meio social, dando passagem ao que hoje se denomina de História
Cultural. Desse modo: “Nessa trajetória, a história das religiosidades e/ou das crenças ganhou
mais espaço que a história das religiões. Acompanhando os desdobramentos epistemológicos
nos quais a própria disciplina se viu envolvida” (HERMANN, 1997, p. 493).
Mas, como a historiografia brasileira encarou a questão da religiosidade? Ainda segundo
Jacqueline Hermann, os primeiros passos vieram do discurso positivista, o qual mantinha
aversão às religiões, enquanto instituição, se colocando de forma anticlerical. Contudo, a
história do Brasil é marcada pela presença forte da Igreja Católica fazendo parte nas decisões
políticas do Estado.
8
Movimento que teve como fundadores Marc Bloch e Lucien Febvre. Inclusive, ambos criaram uma revista e uma
escola com o nome de Annales Economique et Socialies.
27
A seguir, veremos parte de como esses elementos foram acontecendo e como
contribuíram para o nosso entendimento sobre a religiosidade brasileira na vida da América
portuguesa e os desdobramentos para as bases da nossa cultura e religiosidade.
2.2 Cultura e religiosidade, uma herança re(inventada)
As mulheres foram alvos de interesse da Inquisição portuguesa, entre os anos de 1647 a
1664. A elas pesaram os crimes contra a fé. Laura de Mello Souza (1993) apresentou para a
historiografia brasileira algumas dessas mulheres e a associação de suas histórias de vida com
os desígnios na América portuguesa. Sobre seus estudos Jacqueline Hermann declara:
[...] a autora procurou descrever e compreender as práticas mágicas utilizadas
por uma população culturalmente heterogênea e adaptada para viver em
colônia, demonstrando, a partir, sobretudo de fontes inquisitoriais, como, num
cotidiano perpassado por “discursos imbricados”, o projeto tridentino de
cristianização foi permanente adaptado, relido e por vezes totalmente alterado
no Brasil [...]. Mello e Souza não só confirma a noção de circularidade
dos níveis culturais defendida por Ginzburg, como termina por defender
a especificidade das práticas mágicas coloniais brasileiras
(HERMANN, 1997, p. 501-502).
Nascidas, em sua maioria, em famílias pobres, como castigo por ter profanado, segundo
o Santo Ofício, a fé católica, Luzia de Jesus, Francisca Cotta, Maria do Espírito Santo, Maria
da Cruz, Maria Antunes e Joana da Cruz, foram degredadas para o Brasil (SOUZA, 1993, p.
105) para expiar suas culpas, por se utilizarem do exercício da caridade, abandono de si mesmo
e o apego ao próximo, em uma época que o catolicismo era uma religião mística ou mágica
(SILVA, 2005). Àquela época, para a Igreja, essas eram qualidades para Jesus Cristo e os santos
oficiais.
Assim, Laura de Mello Souza nos indica os sinais da cultura presentes na vida
portuguesa europeia daquele período, pelo viés da vida dessas mulheres:
Apreendendo o lado mais sensível, que a vida religiosa moderna trouxera para
o cotidiano, as beatas vivenciavam-no à sua maneira, dando-lhe quase sempre
os contornos mais concretos próprios às categorias do pensamento e da cultura
popular (SOUZA, 1993, p.108).
Mas a cultura imbricada à religiosidade incomodou quanto a sua estética. Como anjos e
santos poderiam ser representados pelo povo? Como mulheres pobres e analfabetas poderiam
ser escolhidas por Deus e serem ensinadas, desde o ventre materno, a serem caridosas e se
28
dedicarem ao apostolado? Acusadas de falta de elegância, às mulheres esvanecidas restavamlhes, se não, o degredo para o inferno, para o lugar onde caminham aqueles que se deixam levar
pelo “Pai da Mentira”, e se enganam. Nesse caso, foram acusadas por duas linhas de
pensamento: de soberba, por tentarem ser próximas dos santos e ou por fazerem pactos com o
diabo.
Essas manifestações, ocorridas em Portugal, contribuíram para construir as
singularidades da cultura brasileira, “um ambiente profundamente religioso marcou a história
da formação do país” (SILVA, 2005, p. 19). As pessoas trazidas em degredo assumiram o papel
da condenação como missão de propagar sua fé. Não é à toa que Santo Antônio, São João, São
Pedro e os movimentos marianos, celebrados desde então em Portugal, são também festejados
e são devotados no Brasil.
O português, acostumado a dedicar rezas e fazer promessas aos santos
padroeiros, trouxe para cá sua devoção a estes “intercessores santificados”
(santos, anjos e mártires), através dos quais acreditava que seus pedidos
chegavam mais depressa a Deus (SILVA, 2005, p. 19).
O Santo Ofício realizou visitações à colônia brasileira, a fim de encontrar ritos que
desagravassem a fé católica, como cultos considerados pagãos. Esses elementos, que apresentei,
desde então, sob o olhar de Laura de Mello Souza, mostrou que as mulheres trazidas em
condenação nos papeis da Igreja entraram para a História como embusteiras, ao tempo em que
no Brasil, elas e outros, que cruzaram o Atlântico, contribuíram para o aculturamento da colônia
e o Santo Ofício, a partir de seus atos, “facilitaram” esse intercâmbio cultural e religioso, se
consolidando enquanto concepções pluriculturais (SOUZA, 1993, p. 56), posição que nunca se
perdeu, ao contrário, se alargou, pois o contato entre as diferentes etnias indígenas, já
“encontradas” na terra, pelos europeus, e o tráfico de homens e mulheres trazidos da África
para serem feitos escravos, entornaram a complexidade da cultura e da religiosidade.
Evidentemente que a cultura no Brasil é bem mais complexa e se torna um pouco mais
tangível quando se submete ao caráter “multiétnico” e/ou “multicultural” em que foi e é
temperada, visto os que vieram do além-mar, sejam vindos da Europa, sejam vindos da África,
sem ignorar, sobretudo, o destino distinto de cada um dos que pisaram em solo brasileiro, e
ainda o “encontro” com os habitantes da terra. Ainda assim, em todos os eventos, como
fronteiras culturais móveis, se abrem uma mudança na tríade, à medida que avançaram no
conhecimento da cultura do outro (TODOROV, 1983). E aqui, o que se pretende é interagir
com os movimentos que circulam em pequenas comunidades, a exemplo de Lagoa da Areia dos
29
Marianos, em que os rituais da fé estão imbricados na agricultura, nas danças, nas músicas, nos
rituais de parto, enfim, nos aspectos de socialização entre os habitantes desses lugares.
Essas práticas no Brasil foram se moldando e dando ares à cultura e à religiosidade
brasileira, desde a América portuguesa ao tempo atual, evidenciando que as mulheres e homens
leigos erguem capelas, rezam ofícios e novenas, encomendam as almas durante os velórios,
batizam crianças “pagãs” que estão prestes a morrer, assim como na ausência da medicina
convencional, rezam contra dores do corpo e da alma, benzem roçados, cercados e pastos para
que lavouras e animais não se percam por doenças e pragas, ou nas festas de santos, onde os
sujeitos que organizam as danças, como o pagode e a quadrilha, são os mesmos que organizam
as rezas. Estes são responsáveis em animar a vida comunitária, seja para o lazer, seja para o
ofício da fé, porém, todos esses elementos dialogam com uma característica: a organização
social do lugar.
Podemos verificar esse fenômeno no calendário9 festivo religioso de Lagoa da Areia
dos Marianos: iniciando no mês de janeiro com as celebrações ao santo São Sebastião; passando
pelas novenas a São José, em março, como prece e graça às lavouras; maio, conhecido como o
mês mariano, dedicado exclusivamente às novenas de Nossa Senhora; junho com a tríade de
Santo Antônio, São João e São Pedro; em novembro a Festa de Finados, significando uma
homenagem aos mortos enterrados no cemitério local; culminando no mês de dezembro com a
festa da padroeira Nossa Senhora da Saúde.
2.3 Festa de São Sebastião
Lagoa da Areia dos Marianos, marcada pela fé, encerra em seus rituais a memória de
seus mártires, entre tantos santos de sua devoção: São Sebastião, São José, Padre Cícero, Frei
Damião e nas tantas Marias, reconhecendo aqueles que tombaram em épocas difíceis, quando
o desfecho para algumas rixas terminava em sangue. Há tantos oratórios e pequenas cruzes que
beiram suas estradas empoeiradas sinalizando que um viajante ou um morador foi morto de
forma violenta. Como dizem Oliveira e Cordeiro (2014, p. 1): “[...] as cruzes das estradas
compõem uma economia da salvação para mortes repentinas e uma estratégia de bem lembrar
os mortos, sob uma dimensão simbólica do catolicismo popular [...]”.
9
Esse calendário festivo religioso em Lagoa da Areia dos Marianos é considerado o oficial da comunidade, ou
seja, são as novenas e festas que são realizadas todos os anos, porém é possível que haja durante o ano outras
manifestações, como as novenas realizadas em pagamento de promessas, ou velórios, enterros e ofícios para
defuntos, esses últimos costumam ser realizados sete dias após o sepultamento do morto.
30
A pequena capela de São Sebastião abriga uma história e três cruzes. Essas cruzes são
símbolo do martírio de Miguel Pinto, Chico Pinto e Zé Pinto. Miguel e Chico eram irmãos e Zé
era filho de Chico. Uma história contada no sussurro da oralidade dos mais velhos e um
imaginário que permite a construção de uma imagem heroica por gerações.
O episódio aconteceu em janeiro do ano de 1938, época de verão 10 intenso e de
farinhadas na comunidade. Alguns homens trabalhavam mexendo a massa de mandioca, no
forno a lenha, a fim de transformar a massa em farinha. Trabalho árduo e rudimentar que exigia
esforço coletivo. Naquele dia, os trabalhadores receberam uma visita inesperada de viajantes
desconhecidos, que pararam naquele lugar para descansar. Naquele tempo, a comunidade não
passava de um lugarejo em meio à caatinga, há quilômetros de distância da cidade. A situação
era estranha aos olhos dos farinheiros. E sem motivo aparente, mataram os três homens,
amedrontaram e espancaram suas esposas. Inclusive, as três mulheres estavam grávidas, porém
nenhuma perdera seus filhos, mas depois do acontecido, passaram a morar no mato, escondidas
e com medo que os forasteiros assassinos retornassem à comunidade e matassem as
testemunhas.
No imaginário de Lagoa da Areia dos Marianos, o responsável pelo massacre foi
Lampião e seus cabras, o cangaceiro que vivia nas matas do sertão. Corria notícias de que,
quando ele rondava a região, enchia o povo de temor. Até hoje os moradores que se arriscam
em falar do ocorrido, dão ao cangaceiro o feito. Em 1938, provável ano do acontecido, também
fora o ano do extermínio do bando de Lampião, sendo que o primeiro episódio aconteceu em
janeiro e o segundo em julho. Outra versão na comunidade é que esta foi uma estratégia
utilizada pelos assassinos, pois era comum atribuir a violência ao cangaço. Sendo que poderia
ter sido ocasionada pela escavação de uma cacimba que apresentou defeito, e Chico Pinto, que
foi o primeiro a ser morto, fora reclamar o serviço mal feito ao pedreiro de Palmeira dos Índios
que a construiu, desencadeando ódio deste, que veio até a comunidade para vingar-se. Outra
versão diz respeito de uma briga entre Zé Pinto e um lojista, também em Palmeira dos Índios11.
10
Esse é um acontecimento não incomum para as pessoas que habitam na região do semiárido brasileiro, onde a
lembrança é marcada por esses episódios, ou seja, quando não se lembra pela exatidão as datas, se lembra pela
intensidade das variações sazonais. Segundo Neves (2001), de 1932 a 1942 o Nordeste passou por uma seca muito
severa, caracterizando: “Mais do que uma irregularidade pluviométrica, a seca pode ser percebida a partir de então,
como um fenômeno social, [...] em que as condições de pobreza de uma parcela significativa da população que
habita o semiárido são gravemente acentuadas em momento de crise” (NEVES, 2001, p. 108).
11
Essas três versões apontam para aquilo que Pesavento (2008) introduz sobre a construção de uma narrativa
histórica: [...] que tem como meta chegar, o mais próximo da realidade possível, da verdade do acontecido. Mas
no campo da História Cultural, o historiador sabe que esse mesmo fato pode ser objeto de múltiplas versões. A
rigor, ele deve ter em mente que a verdade deve comparecer no seu trabalho de escrita da História como um
horizonte a alcançar, mesmo sabendo que ele não será jamais constituído por uma verdade única ou absoluta. O
31
Mas, se não fosse a morte não haveria a festa. Quando foram erguidas as três cruzes na
capela de São Sebastião, em homenagem aos três mortos, criou-se uma comoção e passou a ser
celebrada pela comunidade. Desde aquele verão de 1938, que a festa é realizada de forma
ritualística, com novenas, procissão, fogos e banda de pífanos. A comunidade conseguiu
ressignificar a dor, festejando com louvor, ofertando a vida, pois é comum apresentar os
resultados da colheita, além da festa significar um encontro entre parentes e amigos,
transmitindo princípios e valores durante gerações.
O fato é que o mito se criou e para ele foi construído seus rituais, pois, “em qualquer
tempo ou lugar, a vida social é sempre marcada por rituais” (PEIRANO, 2003, p. 7). A
concepção do mito de origem, dada por Eliade (1963) corresponde à explicação de como as
coisas vieram a existir. Uma explicação indireta através do exemplo de como a humanidade
chegou a ser o que é hoje, isto é, organizada em sociedade e seguindo certas regras de
convivência, referindo-se a acontecimentos do passado, atribuindo sentidos a eles, como no
caso de Lagoa da Areia dos Marianos com a criação dos festejos de São Sebastião, a partir da
chacina, sendo erguida uma capela em homenagem aos mortos.
Todo mito de origem conta e justifica uma situação nova’ – nova no sentido
de que não existia. [...] Os mitos de origem prolongam e completam o mito
cosmogônico: eles contam como o Mundo foi modificado, enriquecido ou
empobrecido (ELIADE, 1963, p. 26).
Esse encontro com o passado, de forma ritualizada, permite a contação da história, do
vivido, a partir dos signos da subjetividade, do encantamento, do heroísmo e honrarias, em
relação ao martírio. Assim, “rituais são bons para transmitir valores e conhecimentos e também
próprios para resolver conflitos e reproduzir relações sociais” (PEIRANO, 2003, p. 10).
Estabeleceu-se uma comunicação simbólica entre o passado e o presente. É comum ouvir das
vozes de beatas, excelências, exaltando o sacrifício do soldado romano Sebastião, em nome do
cristianismo, e difícil não relacionar com o martírio de Miguel, Chico e Zé Pinto12.
A contribuição do martírio à memória de Lagoa da Areia dos Marianos possui
significação, sendo que a capela de São Sebastião, hoje feita de alvenaria e em dimensão maior,
mais certo seria afirmar que a História estabelece regimes de verdade, e de certezas absolutas (PESAVENTO,
2008, p. 51).
12
Hino de Louvor a São Sebastião: Sois Mártir de Cristo / Meu santo varão. Livrai-nos da seca / São Sebastião.
Foste prisioneiro / Foste amarrado. Em um verde lenho / Foste traspassado. Soldado fiel / Guerreiro valente.
Tocado da graça / Do onipotente. Nasceste do berço / Do vil paganismo. Porém a fé santa / Nos deu o batismo.
Na glória rogai / Cantando assim. Morro por Jesus / Que morreu por mim. Foste grande na fé / Cantando vitória.
Foste com os anjos / Para eterna glória. Quando vós menino / Já vos inclinava. A religião / Que oculto amava. Na
glória rogai / Por nós pecadores. Ouvi com ternura / Os nossos clamores.
32
rompe com a monotonia do cotidiano, com seus dias de festa. A lembrança dolorosa é ritmada
pela saudade e a celebração da vida ritualizada nos festejos anuais. A seguir, podemos observar
na fotografia, a banda de pífanos formada por moradores da comunidade, em um dos momentos
da festa de São Sebastião. O grupo musical entoa diversas canções de músicas folclóricas e
hinos em homenagem aos santos de devoção da comunidade.
Figura 02 – Banda de pífanos na festa de São Sebastião durante a salva de fogos
Fonte: Arquivo pessoal Simone Lopes (2010).
2.4 Novenas de São José
Existe uma relação com a terra, o tempo e o lugar percebido no arquétipo do Santo São
José e a chegada do mês de março. Os camponeses iniciam as preces e segundo a crença, a
lavoura, durante o inverno, estará garantida pela providência divina através da intenção do
Santo.
O sinal de inverno farto se dá, quando no dia 19 de março, dia em que se homenageia o
santo, cai à chuva, que representa “o sinal do céu”, que o camponês pode plantar a semente na
terra. O primeiro grão, costumeiramente, que é plantado é o milho. Para muitos, deve-se plantar
33
mesmo no chão seco, pois se acredita que sendo plantado no dia de São José a semente
germinará.
Caso não chova, é costume da comunidade roubar a imagem do santo, isto é, na capela
ou casa que tiver a imagem, alguém a rouba e a esconde. O lugar de seu cativeiro só será
revelado quando a chuva descer sobre a terra, e os camponeses devotos devolvem a imagem ao
som de cantos, benditos e fogos de artifícios ao seu lugar de origem. Segundo os moradores de
Lagoa da Areia dos Marianos, esse ritual, que tem passado por gerações na comunidade possui
grande relevância, pois “o santo” nunca lhes faltou ao pedido.
O dia de São José é uma espécie de confirmação, um último alento. Se nos
meses de janeiro e fevereiro não chover e a natureza não oferecer nenhum
indício (um mero sinal, por mais irrisório que pareça) de que haverá chuva nas
próximas semanas resta esperar o fatídico dia que representa a porta, o acesso
a um ano de penúria. É comum se ouvir relatos na tradição oral sertaneja de
anos que ofereceram todos os sinais que apontavam para seca, mas, ao
contrário das previsões apresentaram uma abundância alvissareira,
exatamente porque no dia de São José [...] choveu, ainda que uma chuva
tímida e irregular (ALVES, 2011, p. 39).
Os santos, como é o caso de São José, tem na religiosidade importância indispensável.
Eles estão acompanhados de advogar causas ou benefícios que são capazes de oferecer ao seu
seguidor, ou vez que este lhe rogue e em contrapartida lhe ofereça algo, como uma novena em
seu louvor, por exemplo. A fé se mantém em relação à agricultura, contribuindo, inclusive, da
própria relação do camponês com a terra, nos cuidados que se deve ter na lida do roçado, ou
seja, o ritual sagrado se dar na reza e na prática:
Há um prazer fecundante que torna parceiros de uma relação amorosa o
lavrador e a terra. Eu conheço que neste enlace de afeto está o desejo de tornar
“culturalmente” culto o inculto, civilizado o selvagem, socializado e útil
aquilo que, dado pela natureza ao homem, somente parece completar o ciclo
de seu valor quando transformado de floresta em campo, de campo em terra
de lavoura, de terra de lavoura em lavoura plantada e colhida (BRANDÃO,
2006, p. 45).
A tradição acaba sendo uma persistência no imaginário, no cotidiano e na memória
camponesa. O fato de valorizarem e reproduzirem seus costumes demonstra como são sua
ligação com o tempo, no caso, as estações, onde dependem da natureza e da crença para o
sucesso, garantindo tanto o costume, quanto a comida durante todo o ano.
34
2.5 As novenas de maio e a festa de Nossa Senhora da Saúde
No mês de maio, quando o ano é chuvoso e acontece a transformação do mato seco para
o verde, são realizadas as “novenas do maio”, na Capela da padroeira da comunidade: Nossa
Senhora da Saúde, empregando o agradecimento, pois a terra está molhada e o plantio da
lavoura já aconteceu. Os bulgaris13 exalam seu perfume e enfeitam os altares nas rezas do mês
mariano.
Mas esse novenário centenário iniciou-se justamente na ausência do clero, quando são
as beatas que lideram os momentos de fé da comunidade. Intimamente feminino, “o maio”
segue seu ritual de excelências e ladainhas: são cantos demorados e pesarosos, ora em
português, ora em latim, em um português, e um latim próprio daquelas mulheres beatas de
Lagoa da Areia dos Marianos.
Um uso (“popular”) da religião modifica-lhe o funcionamento. Uma maneira
de falar essa linguagem recebida a transforma em um canto de resistência, sem
que essa metamorfose interna comprometa a sinceridade com a qual pode ser
acreditada, nem a lucidez com a qual, aliás, se vêm às lutas e as desigualdades
que se ocultam sob a ordem estabelecida (CERTEAU, 2014, p. 78-79).
As mulheres, em sua maioria, não sabem ler nem escrever, expressam-se em longas
orações e cantorias, signos de uma religiosidade específica de Lagoa da Areia dos Marianos. O
fio que se entremeia para construir se constitui nessas práticas culturais, experimentadas
cotidianamente no viver de seus habitantes. Uma das expoentes rezadeiras, Dona Maria de
Lourdes, 73 anos, desde muito jovem, participa animando as celebrações. Em sua narrativa,
podemos observar a importância da religiosidade para a comunidade: “O lugar que não
aumenta a igreja, o lugar não vai pra frente” (Dona Lourdes), e a capela como representação
da fé merecendo os devidos cuidados para a manutenção da fé e o desenvolvimento local.
Cultura, festa e religiosidade são representações impressas e tramadas no
tecido social dos que contracenam enquanto atores de seu tempo,
construindo sua história. Essa cultura, parte constituída do social, dinâmica
e plural – ora resistência ao imposto ou à modernidade, se reinventa, se
recria, desiste, persiste – deixa rastros, traços de memória por indícios e
sinais, não nos deixando órfãos da história. [...] os mutirões, as promessas
ao pé da cruz, os terços cantados, as festas de Reis, os desafios, os pagodes,
a encomendação das almas, as parteiras [...] os potes d’água [...] as farinhas
(BRANDÃO, 2006, p. 25).
13
Espécie de flor que floresce no período do mês de maio na região do agreste. Em Lagoa da Areia dos Marianos,
o mês de maio possui uma relação com as flores e com Maria. Mais adiante, na análise da narrativa de Maria de
Lourdes, falo mais a respeito.
35
Dona Lourdes aprendeu as excelências ainda criança, enquanto acompanhava a avó e a
madrinha, durante os novenários do período quaresmal e de maio, revelando a existência da
oralidade e o papel das mulheres rezadeiras da comunidade. Ela celebra com outras
companheiras: o Ofício de Nossa Senhora aos dias de sábado; as novenas da quaresma e do mês
mariano.
É notória a crença na imagem da Virgem Maria. O signo da Rosa Mística14 manifestase nas celebrações culturais e religiosas do local, sendo uma das figuras femininas mais
disseminadas no mundo católico ocidental, servindo de “mãe consoladora” para os “fracos e
oprimidos”, utilizada pela Igreja Católica na propagação da fé cristã, desde a ocupação europeia
na América portuguesa e espanhola, “a expansão e devoção permitiu a apropriação dessa
imagem, que ganhou histórias em diferentes culturas” (SOUZA, 2001, p. 77). A festa da
padroeira de Lagoa da Areia dos Marianos, Nossa Senhora da Saúde, se percebe como parte
desse movimento festivo religioso, como nos mostra D. Edna, zeladora da capela e do cemitério
da comunidade, quando nos conta sobre a origem da devoção:
A festa de Nossa Senhora da Saúde não começou a ser celebrada em capela.
Não foi em Igreja. Por que Nossa senhora da saúde chegou aqui em 1909.
Ela chegou na casa da mãe Dina. [...]. E ali se comemorava todo ano, todo
ano. E ela chegou aqui justamente nessa data, no mês de dezembro, no dia 26
de dezembro, a santa, a imagem. [...]. No dia da festa. Porque o dia de Nossa
Senhora da Saúde não é dia 26 de dezembro não, é dia 15 de novembro. Agora
pela chegada dela, trazida pelo seu Antônio Marinheiro, que era uma pessoa
que andava na estrada tangendo gado, ai trouxeram essa santa, essa imagem.
Nossa Senhora da Saúde e Nossa Senhora da Conceição. [...]. Conheceram
esse senhor que andava na estrada, tangendo gado... e começaram...[...].
Boiadeiro, falaram com ele e ele disse que trazia. Ele se comprometeu em
trazer. [...]. O que aconteceu: eles foram ficando velhinhos, ficando cansados
e entregaram Nossa Senhora da Saúde ao filho Mané Chiquinho. [...]. Aí o
que aconteceu? Quando ela entregou à santa, a imagem de Nossa Senhora da
Saúde ao Mané Chiquinha e a vó Santina, foi pra casa dele, ficou aí na casa
dele. Ai que resolveram fazer a capelinha de taipa. [...]. É. Mas eu queria um
dia descobrir qual foi o ano, porque nós nunca descobriu qual foi o ano. [...].
Aí a gente não sabe, mas ficaram fazendo a festa, aí quando foi depois se
juntou Mané Miliana, Seu Lalá, seu Aristides Lope, Luiz Vicente, até meia
noite em reunião, lá em casa, pra fazer essa capelinha. Sem ser a de barro, já
foi à outra maiorzinha um pouquinho. [...]. Era. Era esse aí. Ficou
pequeninha, a população foi crescendo, muita gente, a Lagoa da Areia foi
ficando povoada e cresceu e aí teve que aumentar. Foi quando houve a
doação do seu Gerson. Seu Gerson aumentou. Deu aquele acréscimo (Dona
Edna).15
14
15
Esse é um dos nomes dado à Maria.
Entrevista realizada em áudio a Edna de Souza Nunes Tenório, pela autora em 18 de setembro de 2016.
36
Os preparativos para a festa reúnem a comunidade e circunvizinhanças. A Igreja é
caiada, as toalhas do altar são trocadas por novas, as flores e os arranjos seguem mesmo ritmo.
Na manhã do dia 26 de dezembro, há mais de cem anos repete-se o ritual. Nas primeiras
manifestações dos raios solares ocorre a primeira salva de fogos ao som da banda de pífanos e
ao badalar dos sinos. Os pifeiros e zabumbeiros saem nas comunidades fazendo o que eles
chamam de “tirar esmolas”. Com uma bandeira, geralmente branca, a frente do grupo, segue
um morador escolhido pelo coletivo, para que o mesmo encabece a peregrinação. Para
entendermos melhor como acontecem os rituais da festa, D. Edna esclarece:
Olhe, primeiro a gente se reúne com os noiteiros. [...]. Os noiteiros são os
patrocinador. Que antigamente não existia esse nome bonito. E cada noiteiro
daquele... não hoje, viu. Eles deixavam ali uma garantia, viu?![...]. Antes da
festa. Ali já estavam ali um dinheiro que eles davam. [...]. Porque aquilo ali
ficava garantido e se faltasse alguma coisa pra cobrir, já tava ali. Pra
comprar os fogos... aquela reunião era pra isso: era pra falar sobre os
foguete, né isso? A alvorada de 6h. Aí eles vão, eles não vão pra Igreja, aqui,
ó. Eles começam aqui e tocam aqui e passam direto, visse. [...]. Eles fazem
aquele percurso assim, aí quando eles vem eles entram na Igreja [...], aí vem
por aqui, entra na Igreja, aí é a hora das lágrimas, que não tem como não
ser, na hora que eles chega. É muito bonito! Muito bonito. [...] Os vizinhos já
tão por ali tudo acordado. Num é? Já tão tudo acordado, a gente tem chegado
com o café deles. O café de 6h, 6 e meia, quando termina a salva, aí eles vão
tomar café. Ali já tá o bolo, tá a bolacha, tá tudo que eles tem direito. Não as
comidas grossas, porque é de manhãzinha. Aí chega quem? Quando eles
terminam, que todo mundo, quando eles terminam de fazer as salva dos fogos,
eles tão tocando ali, né? Aí já vai entrando as pessoas e a bandeira tá em
cima do altar. [...]. – A bandeira do dinheiro. A bandeira já está ali. Repare
quando ela sai toda enfeitada de cem reais. Não foi os noiteiros ali. Ali não é
os noiteiros. Ali é quem quiser batizar a bandeira. [...]. E aí a bandeira sai à
coisa mais linda do mundo. [...]. Sai. Enfeitada de dinheiro, meu fio, não sai
com dez conto, nem cinco não (Dona Edna). 16
É percorrida casa a casa da comunidade e alguns povoados vizinhos e em cada uma das
casas, a banda de pífanos faz uma espécie de reverência aos donos da residência, tocando e
cantando benditos, principalmente aqueles cantos de veneração à “Nossa Senhora”. Os donos
das casas, por sua vez, os recebem e ofertam sua “esmola”, com ovos de galinha capoeira, penca
de bananas, aves, abóbora, artesanatos, cabras, carneiros e ovelhas. E as doações em dinheiro
são pregadas na bandeira branca que acompanha o grupo. Segundo D. Edna, nos últimos anos,
os organizadores da festa proibiram os integrantes da comitiva da banda de pífanos tomarem
bebidas alcoólicas. Já no passado, essa era uma prática comum entre os participantes.
16
Entrevista realizada em áudio a Edna de Souza Nunes Tenório, pela autora em 18 de setembro de 2016.
37
Esta peregrinação dura até o final da tarde. A alimentação da banda de pífanos e quem os seguir
acontece sempre na residência das famílias.
Figura 03 – Banda de pífanos “pedindo esmolas”
Fonte: Antônio Ferreira, 2011.
38
Figura 04 – Homem levando as “esmolas” para o leilão da festa de Nossa Senhora da
Saúde
Fonte: Antônio Ferreira, 2011.
Existem sujeitos que representam papeis distintos durante a peregrinação para o pedido
das esmolas. Toda a comitiva é formada, prioritariamente, por homens: um grupo que forma a
banda de pífanos ou zabumbeiros; um que leva a cesta de ovos; outro que recolhe as frutas,
artesanatos e pequenos animais; um condutor da carroça puxado por um equino para transportar
esses produtos mais pesados; o fogueteiro, responsável pelos fogos de artifícios; e por último o
“bandeirante”, que segue à frente do grupo levando a bandeira e o caderno de anotações. Este
caderno é uma espécie de livro caixa, onde se anotam todas as doações em dinheiro. No final
da festa ou no dia seguinte, durante a celebração da missa17 é feita a prestação de contas. Essa
é uma divisão previamente realizada pelos organizadores da festa, podendo mudar os atores,
mas o papeis são sempre os mesmos. Segundo D. Edna, todos, exceto o bandeirante, recebem
17
Podemos observar que neste momento da festa, ou seja, na celebração da missa, aparecendo a relação da
comunidade com a “Igreja Oficial”, na presença de um celebrante, no caso um padre.
39
uma quantia em dinheiro pelo serviço. Perguntado a ela porque o bandeirante faz o trabalho de
forma voluntária, ela responde:
Só que tem um mistério aí [...]. Porque... já vem de muito tempo. Ói, só quem
não recebe é aquele que vem com a bandeira: [...]. Aquele que leva a cesta
de ovos, recebe. Aquele que leva a carroça, recebe. O que vai ajuntando os
coco, as abóbora dentro de uma carroça, ele recebe. A carroça de burro. Pra
carregar as galinha, as coisa... e... é outro que recebe...(Dona Edna). 18
Percebemos que os rituais festivos e religiosos organizam a vida social da comunidade
e refletem na organização e divisão de tarefas durante as festas. Segundo Wedig e Menasche
(2009, p. 2):
Na medida em que entende que as festas comunitárias camponesas exprimem
sua unidade e integração, [...]. Assinalamos [...] expressam-se, também, as
relações de gênero e geração, através de hierarquias em que o envolvimento
da família e da comunidade no desempenho de tarefas preparatórias da festa
toma como referência a posição ocupada por cada um [...] ocorrendo uma
divisão das esferas de intervenção de homens e mulheres, [...] projetando-se
para as festividades.
Se percebe que a maior parte dos conhecimentos adquiridos e ritualizados em Lagoa da
Areia foi construído no passado. Por conta disso, a explicação porque acontece de tal maneira
a resposta de D. Edna, por exemplo, é enfática: “Porque... já vem de muito tempo. […].Porque
quando nós alcancemos foi assim, e assim tá, e assim será”(Dona Edna).
Às dezoito horas, considerada a “hora dos anjos”, sinalizada pelo dobrar do sino da
capela, homens, mulheres e crianças se reúnem no pátio da Igreja, para a segunda salva de
fogos, seguindo a novena em agradecimento à padroeira.
No entanto, o que realmente anima a comunidade é a festa onde todos se encontram: os
mais velhos rezam e participam do leilão, os jovens se encontram para namorar, enquanto as
crianças correm e comem doces. O “grito” do leiloeiro é ouvido à longa distância, todas as
esmolas são postas em lance e compradas pelos participantes da festa, que voltam para casa
carregados, pois geralmente o valor das peças são bem acessíveis.
O final da noite, para aqueles que suportarem esperar, tem a oportunidade de assistir o
“beija dos tocadores” ou a “entrega da noite”: são os pifeiros e zabumbeiros que tocam e
reverenciam a imagem da padroeira no altar, em movimentos ritmados e precisos. Esse
momento sagra os festejos.
18
Entrevista realizada em áudio a Edna de Souza Nunes Tenório, pela autora em 18 de setembro de 2016.
40
Esses ritos se repetem há 107 anos, segundo D. Edna, e são mantidos nas lembranças
antigas dos primeiros ritualistas da festa de Nossa Senhora da Saúde. Essas lembranças se
adaptam ao conjunto das percepções do presente.
É preciso que esta reconstrução funcione a partir de dados ou de noções
comuns que estejam em nosso espírito e também no dos outros, porque elas
estão sempre passando destes para aqueles e vice-versa, o que será possível
somente se tiverem feito parte e continuarem fazendo parte de uma mesma
sociedade, de um mesmo grupo. Somente assim podemos compreender que
uma lembrança seja ao mesmo tempo reconhecida e reconstruída
(HALBWACHS, 2003, p. 39).
A festa da padroeira representa um marco na fé da comunidade, está presente o acúmulo
de um ano de trabalho, as somas da chuva, da seca, da saudade dos que partiram e estão longe
e não podem, naquele momento, estarem reunidos com os seus. O auto natalino reúne essa
gente. E nesse mesmo altar são ofertados os ganhos de um ano de trabalho. Os frutos que
encheram a mesa são dádivas no altar da irmandade, em oferta ao leilão de Nossa Senhora da
Saúde.
A imagem que segue traz o homem que carrega a bandeira que acompanha a banda de
pífanos no pedido das “esmolas”, a caracterização da bandeira trazendo as cédulas de dinheiro
corresponde àqueles que “batizaram” a bandeira, são aqueles que fazem questão de serem os
primeiros a fazerem as doações em dinheiro para a festa. Assim, podemos compreender as
posições sociais nos papeis representativos dos sujeitos diante dos festejos da padroeira: aqueles
com certo “poder” aquisitivo fazem suas doações em dinheiro e as expõem na bandeira, os mais
pobres fazem doações da colheita da roça.
A bandeira do dinheiro. A bandeira já está ali. Repare quando ela sai toda
enfeitada de cem reais. Não foi os noiteiros ali. Ali não é os noiteiros. Ali é
quem quiser batizar a bandeira (Dona Edna).19
19 19
Entrevista realizada em áudio a Edna de Souza Nunes Tenório, pela autora em 18 de setembro de 2016.
41
Figura 05 – Homem “Porta Bandeira” com as “esmolas” em dinheiro para a festa de
Nossa Senhora da Saúde
Fonte: Antônio Ferreira, 2011.
A devoção mariana movimenta grande parte do calendário festivo religioso da
comunidade, seja pela própria fé, seja porque a imagem trazida pelo boiadeiro de estrada em
1907 represente, enquanto mito de origem20, o povoamento do lugar, pois até o momento, não
se consegue fazer uma narrativa sobre ele antes desse período. Esse fenômeno devocional traz
o acúmulo das gerações, entrando em pauta de reuniões familiares quando o ente da casa morre
e então é decidido o “destino” da organização e dos cuidados com a imagem da padroeira, como
nos relatou D. Edna:
Eu vim abraçar essa... é uma missão, pode crer, minha filha que já vem de
família, entregar nas mão de qualquer pessoa, não. Já vinha de mamãe, eu no
dia que fizeram a reunião na casa da mamãe pra dizer como as coisas iam
ficar, Nossa Senhora entrou, porque ela é um patrimônio muito forte na nossa
vida, principalmente da família Pinto. [...]. A reunião quando ela faleceu.
Houve a reunião e ai Nossa Senhora, entrou nessa reunião, como era que ia
ficar, quem ia ficar com a chave, ninguém queria. Nós não fizemos uma
reunião em comunidade, só a comunidade familiar ali, sabe? Ela já cuidava.
20
Ver página 28, sobre o mito de origem.
42
Quando Nossa Senhora chegou, ela ficou no berço dessa família, ela não foi
pra outro lugar. Aí, por isso que eu abracei e disse e digo, vou defender até
morrer, enquanto eu tiver viva, pode me bater dentro da Igreja, não me
importa não, eu vou defender Nossa Senhora de unhas e dente, porque ela faz
parte da nossa família, ela é a padroeira da nossa comunidade. Mas como
qualquer um é acolhido numa comunidade, ela foi acolhida por essa
comunidade, então não podemos largar ela assim à toa. Nossa Senhora da
Saúde! (Dona Edna). 21
Alguns sujeitos assumem maiores responsabilidades, como é o caso de quem fica como
zelador ou zeladora das capelas. Percebemos que há sempre uma família que toma a frente,
como na Festa de Nossa Senhora da Saúde. Esses cuidados estão sob o comando da família de
Dona Edna, que foram os mesmos que receberam a imagem da santa em 1907. E a capela de
São Sebastião é de responsabilidade dos parentes dos três homens assassinados em 1938. Cabe
aos demais habitantes contribuir com essas famílias, mantendo o calendário, a exemplo de Dona
Lourdes, que está à frente das rezas e quando se aproxima o tempo das festividades, outras
pessoas dividem algumas tarefas. Essas práticas, as gerações vão tomando parte e construindo
o sentimento de pertença, dialogando seus saberes ritualizados nas festas, nas novenas, e no
cotidiano dos dias mais comuns.
21
Entrevista realizada em áudio a Edna de Souza Nunes Tenório, pela autora em 18 de setembro de 2016.
43
3 O LUGAR: LAGOA DA AREIA DOS MARIANOS
Figura 06 – Moradores de Lagoa da Areia dos Marianos, década de 1980
Arquivo pessoal de: Edna de Souza Nunes Tenório
A comunidade Lagoa da Areia dos Marianos situa-se entre dois municípios, pois foi
dividida há vinte e quatro anos, quando o povoado Bola, que pertencia ao município de Palmeira
dos Índios22 foi emancipado no dia 05 de outubro de 1992, tornando-se também um município,
passando a se chamar Estrela de Alagoas23. Tal divisão tornou Lagoa da Areia dos Marianos,
seguindo em direção ao poente, à direita, pertencente ao município de Palmeira dos Índios, logo
a esquerda está sob os domínios do jovem município de Estrela de Alagoas. Distante dezoito
quilômetros das duas cidades, encontra-se na transição entre o agreste e o sertão alagoano
22
É um município brasileiro do estado de Alagoas. É a quarta maior cidade do estado e está localizada no agreste
alagoano. O município conta com aproximadamente 73.666 habitantes e está situado a 136 km da capital, Maceió.
Na economia, o município dispõe de modesto comércio, agricultura e pecuária. Produz,
principalmente, pinha, caju, manga e leite (IBGE, 2010).
23
É um município brasileiro do estado de Alagoas. Sua população estimada em 2004 era de 16.729 habitantes. A
emancipação foi crescendo entre a população e foi concretizada com a criação do novo município, que recebeu o
nome de Estrela de Alagoas em 5 de outubro de 1989, e emancipação em 5 de outubro de 1992. O primeiro prefeito
tomou posse no dia 1 de janeiro de 1993, data da instalação do município. 80% da população encontram-se na
zona rural. A economia é baseada na agricultura familiar e pequenos estabelecimentos agropecuários (IBGE,
2010).
44
(IBGE, 2010). No Posto de Saúde da Família e aos cuidados dos Agentes de Saúde da
comunidade, Lagoa da Areia dos Marianos possui cerca de 800 famílias.
Atualmente encontramos na comunidade: três capelas (São Sebastião, Nossa Senhora
da Saúde e Nossa Senhora Aparecida), um cemitério, que é utilizado também pela população
da redondeza e um campo de futebol. Em relação ao acesso às políticas públicas, possui: duas
escolas municipais, com ensino básico, um Posto de Saúde, com um enfermeiro e um médico
atendendo uma vez por semana e dois agentes de saúde comunitária. Algumas casas já dispõem
de internet, há um pequeno comércio com uma padaria, um mercado e dois armazéns vendendo
algumas mercadorias, e alguns bares. O acesso se dar principalmente através de transportes
alternativos.
A maioria da população tem como ocupação a agricultura, cultivando o roçado de feijão
(Phaseolus vulgaris) e milho (Zea mays) e a produção de frutas, como pinha (Annona
squamosa) e castanha de caju. A maioria dos cargos nos espaços públicos, como é o caso das
escolas, os funcionários são de outras localidades, sobretudo das cidades de Palmeira dos
Índios. Aqueles que são da comunidade, e os pequenos comerciantes locais, mantêm, além
dessas ocupações, o trabalho na agricultura.
O trato na terra, em brocar, arar para receber a semente, são os primeiros atos do ritual
do roçado. Quando é tempo de xaxar a lavoura, juntam-se nos batalhões, os compadres e
comadres, em trocas solidárias e ou pagamento em baixa quantia monetária. Acunham24 suas
enxadas, para o xaxado, que é o ajuntamento da terra com a enxada no pé do caule da lavoura
(milho, feijão etc), com poucos dias de nascido.
Quando chega o tempo da colheita, a exemplo do feijão de arranca25, são espalhados os
pés ainda com as vagens no terreiro exposto ao sol para secar. Toda casa da comunidade possui
um vasto terreiro, onde o feijão passa por todo processo de secagem, até chegar ao ponto da
batida ou fase da debulhação.
Reúnem-se à camaradagem, vizinhos, compadres e comadres num círculo ao redor d'um
monte de bajem, batendo com um pau que chamam de fueiro e ao mesmo tempo chutando-as
para virá-las. No mesmo ritmo da batida do fueiro e os movimentos de pés, sincronizadas com
as pancadas, cantam versos improvisados, como forma de suavizar a labuta. Depois vem o
peneirado na peneira ou arupemba, sacudindo os grãos para o ar e aparando com muita
habilidade o produto e deixando o vento levar as palhas.
24
Ato de colocar um cabo feito de madeira na enxada.
O Phaseolus é conhecido popularmente por feijão de arranca, porque quando está pronta para a colheita a planta
é arrancada da terra por completo, colocada pra secar ao sol e só depois são retirada as sementes das vagens.
25
45
Encontramos outras formas de lidar com a produção da roça: quando está a semente
pronta para bater e tirá-la da casca, não sendo mais usado o fueiro, mas uma máquina batedeira
de sementes, de pequeno porte, pertencente à associação comunitária ou de particulares.
Contudo, observei que como no outro momento, há sempre uma ajunta de pessoas se ajudando
nesse trabalho, mesmo com a chegada do maquinário. E no caso do peneirado da semente,
continua sendo um ofício manual e das mulheres.
Lugar de pouca água, traz na memória grandes secas26, embora carregue o nome de
Lagoa à representação concreta do lugar, faz alguns anos que não consegue encher-se, ficando
nas lembranças dos tempos que a lagoa nas invernadas rompia seus paredões de tanta água,
sendo de boa qualidade para se consumir.
Aqui e ali, as narrativas são tomadas pela lembrança sobre a presença ou a ausência da
água, nas leituras que fazem do seu espaço de vida, sendo a subjetividade manifestada quando
se fala deste elemento enquanto registro simbólico:
As coisas era muito difícil pra gente. A gente carregava água de longe. Eu
passava tempos, carregava água sargada, que não tinha água nesse tempo.
Cuidava de tudo assim, como fosse pra baixo. As águas não tinha, como hoje
(Maria de Lourdes) 27.
A moradora da comunidade Maria de Lourdes considera que nos tempos atuais as águas
são mais frequentes, porém o que observamos é que, em relação ao tempo passado, hoje a
maioria das casas possui reservatórios hídricos, como cisternas, e existem dois poços artesianos
coletivos, auxiliando na manutenção do consumo das famílias, apresentando uma mudança
significativa na vida do povoado.
A importância da água não se resume apenas às necessidades físicas, ela se amplia e se
transforma em representação do lugar. É bom quando tem água, e a sua falta torna a vida mais
difícil, refletindo no cotidiano, na relação com o ambiente, nas resistências e nas lutas para que
não falte o elemento principal para os trabalhos no roçado, sendo pertinente o cuidado com as
fontes, e as promessas ao Santo São José28 29.
26
Lagoa da Areia dos Marianos encontra-se na região brasileira de clima semiárido. O Semiárido tem como traço
principal as frequentes secas que tanto podem ser caracterizadas pela ausência, escassez, alta variabilidade espacial
e temporal das chuvas (SUDENE, 2016).
27
Entrevista a Maria de Lourdes da Silva gravada em áudio, pela autora em outubro de 2015.
28
Já nos referimos com mais detalhes no primeiro capitulo como se dá essa relação da comunidade com o Santo
São José.
29
Dirceu Lindoso (2005), ao fazer um estudo sobre a cultura alagoana, chamou “a gente do lugar de anfíbia”, cuja
caracterização agrária é influenciada pelo signo das águas, seja quanto sua presença, quanto à ausência, na Política,
na Economia e na Literatura. A influência das águas está em muitos lugares. Lindoso relembra que, em Alagoas,
povoados e engenhos possuem nomes com íntima relação com a água: riachão, poço, ribeira, lagoa e rio, sendo
inclusive o nome da velha capital, da província e da comarca e hoje do estado, Alagoas e na região do agreste e
46
Assim, observamos que em Lagoa da Areia dos Marianos, há em sua diversidade
cultural, uma capacidade de produzir, um jeito próprio de ser, notadamente no vínculo com a
terra, com os ciclos da natureza e a convivência com esses fenômenos. A relação com a água,
seja quando ela está disponível e até na falta dela, a religiosidade, a vida, a morte, são presenças
permanentes, que revelam seus traços culturais.
Há uma construção cultural relacionada à partilha, de um “nós” que se contrapõe ao
individualismo e uma reafirmação de projetos comunitários, por meio das relações de trocas
solidárias, não apenas em bens materiais, mas em esperança, conforto um ao outro nas
adversidades. Dona Lourdes não deixa de lembrar-se dessas ocasiões, em que reparte o que tem
e também recebe:
Aí eu me lembro da Eva, pra mim estou vendo ela me dando melancia, me
dando taco de bolo. Trazendo bolo pra qui, que ela fazia bolo e trazia. Aí,
meu Deus a Eva? A Eva uma pessoa tão boa, acabá foi simbora num
instante...
Eu me lembro das risadas que nós dava, ela conversando mais eu e nós dava
cada risada! Nós duas ali (risos). Vem em quando eu estou me lembrando.
Mas isso é da vida, né? A gente vive, mas não sabe até quando. Se acostumar.
E tem que rezar pela aquela pessoa. Deus tome de conta, dê um bom descanso
e a gente sabendo que um dia a gente também vai (Dona Lourdes).
Pela observação participante em Lagoa da Areia dos Marianos sou impulsionada a
utilizar outros discursos, além do paradigma relacionado aos bens materiais, mas
especialmente, pela riqueza dos sujeitos potenciais, que se encontram numa rede de
solidariedade, a reciprocidade, a qual está baseada na dádiva, ato de dar, de receber, de retribuir,
e de ajuda mútua, onde o ato de dar não significa mera troca, mas todo um simbolismo presente,
reforçando valores humanos, além dos valores econômicos envolvidos (MAUSS, 1974).
As representações que permeiam em Lagoa da Areia dos Marianos constituem parte do
seu arcabouço cultural, fazendo parte do cotidiano e da identidade dos seus moradores,
enquanto personagens e fontes dessas histórias, relacionadas e passadas oralmente, cimentando
papeis sociais e ideais, como força reguladora da vida individual e coletiva, onde se manifesta
uma relação de parceria, um sistema de valores construídos, principalmente, através das
relações de convivência:
sertão, cidades, distritos, vilas e povoados carregam também as alcunhas. Reparemos: Lagoa dos Porcos, Lagoinha,
Lagoa do Mourão, Lagoa do Serrote, Lagoa do Canto, Lagoa do Xexéu, Lagoa da Melancia, Lagoa do Rancho,
Lagoa do Exu, Lagoa da Coroa, Lagoa da Areia do Ciríaco, Riacho Fundo, Riacho Santo, por fim, Lagoa da Areia
dos Marianos. Para a região canavieira, no auge dos engenhos, e ainda hoje, para as usinas do setor sucroalcooleiro,
as águas são dominantes ou é “promessa num chão seco de sertão, que de repente se enlameia, nas primeiras águas,
em barreiros. [...] as águas sem luxúria de abundância, sem domínio ecológico” (LINDOSO, 2005, p.16), ao tempo
em que em regiões sertanejas, as chuvas são aguardadas, pois são irregulares.
47
Essa construção de sentido é ampla, uma vez que se expressa por palavras
discursos/sons, por imagens, coisas materialidades e por práticas, ritos,
performance. [...] comporta crenças, mitos, ideologias, conceitos, valores, é
construtor de identidades e exclusões, hierarquiza, divide, aponta semelhanças
e diferenças no social. Ele é um saber-fazer que organiza o mundo, produzindo
a coesão ou o conflito (PESAVENTO, 2008, p. 43).
Nesse mesmo sentido, a ajuda chega sempre primeiro. Há situações em que a
individualidade deve ser quebrada: quando algum comunitário está passando por dificuldades,
adiantando imediatamente um punhado de farinha, feijão, sal, uma barra de sabão, para aliviar
as necessidades da vizinhança, que se encontra necessitada. Pode-se afirmar que em Lagoa da
Areia dos Marianos, as desigualdades sociais são reais, contudo encontram formas de resolvêlas por iniciativas próprias de solidariedade30.
Os nomes próprios costumam ser esquecidos, são alcunhas peculiares que identificam
alguns sujeitos: Gogoia, Badi, Bita, Tita, Rereco, Ricoisa, Tivil, Sufi, Inofe, Gandi, Oliço,
Benoni, Lave, Bilia, Zé Zufina, Zé Guilé, Quinhento, Cáqui, Gurdinha. Pois, na camaradagem,
são os apelidos que constituem os personagens e suas representações.
3.1 Brincadeiras e caminhos bordados na fé
Nas narrativas sobre as festas se percebe que os sujeitos que organizam as danças, como
o pagode e a quadrilha, são os mesmos que organizam as rezas. Estes são responsáveis em
animar a vida comunitária, seja para o lazer, seja para o ofício da fé, porém, todos esses
elementos dialogam com uma característica: a organização social do lugar.
O pagode, por exemplo, originário das comunidades camponesas, é uma dança muito
popular no Brasil (ALMEIDA, 2014). Trata-se de um ritual, que em Lagoa da Areia dos
Marianos, é uma atividade realizada pelos moradores, mas também conhecido por outros povos,
como “pagode de aterro” ou samba. É uma espécie de sapateado, onde homens e mulheres
30
É possível lembrar de iniciativas diversas entre agricultores e famílias do sertão, [...]frequentemente praticadas
nos anos 1960 e 1970. Nos dias de “adjuntas/mutirões”, ao “quebrar da barra”, já se podia ouvir o retinir ritmado
de martelos afiando enxadas. Eram poderosas armas que, nas mãos de compadres e comadres e “parceiros”, logo
mais se juntariam, ao nascer do sol, para a grande batalha da limpa do mato na roça vizinha. Não eram máquinas
humanas. O trabalho duro no coração do semiárido ia, aos poucos, tornando-se prazeroso e com tempero de
ingredientes naturais e espontâneos como as narrativas de causos, a partilha de experiências vividas, o contemplar
da lavoura projetando o futuro. E o que dizer dos momentos em que as famílias trocavam entre si produtos? [...]
dos grupos que se juntavam para colheita do milho ou para a debulha do feijão? O que dizer das tantas parteiras
ajudando a vida viver? Das rezadeiras, lá onde a medicina raramente ia? [...] (ANCHIETA, 2004, p. 33).
48
dançam em pares ou em rodas, e está relacionada à construção de casas na comunidade em
regime de mutirão31.
Era comum o piso das casas ser finalizado com a “pisada do pagode”. Com o passar dos
tempos, isso foi se tornando uma “brincadeira”, como dizem os mais velhos, na comunidade.
Lá tudo aquilo que é lazer costumam chamar de brincadeira.
Figura 07 – Apresentação do pagode
Fonte: Arquivo pessoal de Edna de Souza Nunes Tenório.
O pagode representa parte das relações em comum entre os moradores de Lagoa da
Areia dos Marianos, seja na construção das casas, seja em momentos de festa. No caso, da
fotografia (Figura 07), a imagem é de uma apresentação da dança na década de 1980, em um
evento promovido pela Prefeitura Municipal de Palmeira dos Índios, na sede da antiga
Fundação de Assistência Cultural e Educacional de Palmeira dos Índios (FACEPI)32, assim,
31
O mutirão, como forma de trabalho recíproco, foi frequentemente utilizado na realização de tarefas agrícolas
específicas, tais como o preparo da terra, o plantio ou a colheita, e ainda hoje é empregado ocasionalmente em
construção de casas, entre camponeses que não dispõem de recursos para contratar carpinteiros e pedreiros. Estes
trabalhos em grupo são sempre realizados em condições extremamente difíceis, embora os compadres, parentes e
vizinhos que participam da preparação do barro e cobrem em movimentos rítmicos as paredes de pau-a-pique,
recebam comida e bebida durante o dia todo. O esforço de trabalho é sempre acompanhado por música e danças e
geralmente termina em brincadeiras animadas (FORMAN, 2009, p. 161).
32
Órgão público voltado para o ensino na época, tinha forte influência da Igreja Católica. Hoje, é a Secretaria
Municipal de Educação que assume as atividades.
49
quase que desapareceram os mutirões para pilagem das casas, e foram se formando grupos que
se reúnem em apresentações culturais em algumas ocasiões de festas.
Atualmente, em Lagoa da Areia dos Marianos, o pagode não é representado por um
grupo fixo. Existem várias pessoas que têm o pagode como uma festividade, e assumindo um
compromisso em manter a tradição, ou seja, os grupos se formam em épocas específicas, como
nas festas juninas ou em apresentações escolares. Percebem-se esses aspectos na narrativa de
Seu Toinho e D. Luzia, pagodeiros da comunidade. Os mesmos fazem uma relação do pagode
com a reza:
Luzia - Sabe quem gosta de cantar as cantiga do pagode? A Betinha mais o
Mano, a Betinha sabe, é o mermo que papai!
Toinho - E porque ela não bota pra cantar?
(Luzia dá com ombros)
[...] Ói, eu gosto de correr atrás, eu num sabia nada de negoço de festa [...]
agora o pessoal me procuraro eu tô de dento, por quê? Porque eu quero ver
o negoço desenvolver, quero ver o negoço subir, animar as coisas. [...] (Seu
Toinho).33
Nesse cenário, as pessoas se relacionam, construindo amizades, namoros, casamentos,
ou desfazem laços em brigas em meio à embriaguez da cachaça. Porém, é no pagode, que seus
adeptos se realizam como pessoas protagonistas. Seu Toinho, em sua fala, nos revela essa teia
de relações:
Ah! Tinha, aí num faltava não, dançava, dançava, dançava, aí quando a gente
parava, aí o caba ia lá dento e trazia um litro, aí aqueles dançarino, cada um
tomava um gole, mas num era pra ficar doido não, aí suado. O suor pingando,
aí depois da bebida, infinhava o pagode! aaaaaaaah! Minha fia o pagode
naquela época, começava sete hora e ia pra sete do dia, aí um rojão
pesado!(Seu Toinho).34
Num contexto festivo e religioso, os personagens envolvidos a exemplo de D. Luzia é
que, tanto canta como dança, caracterizando uma herança de seu pai que também cantava e
rezava. Tanto as músicas como a coreografia são repassadas oralmente. O casal é chamado
frequentemente para as escolas da comunidade para ensinar a arte às crianças e aos jovens. A
valorização do pagode, enquanto expressão de coletividade cultural se compreende pela
transmissão por várias gerações, carregando a história do lugar, sua memória e identidade.
33
34
Entrevista a Antônio Cícero Pinto (Toinho) e Luzia Pinto, em áudio, pela autora, em dezembro de 2013.
Entrevista a Antônio Cícero Pinto (Toinho) e Luzia Pinto, em áudio, pela autora, em dezembro de 2013.
50
4 NARRATIVAS SOBRE PRÁTICAS RELIGIOSAS
Figura 08 – Imagem da Capela Nossa Senhora da Saúde, horas antes do início da festa
Fonte: Antônio Ferreira, 2011.
4.1 Memória e narrativa
Os desafios lançados pela pesquisa sobre a cultura e a religiosidade em Lagoa da Areia
dos Marianos trouxe a luz inúmeros estudos, onde a oralidade é pano de fundo, pois muito
dessas práticas foram encontradas a partir dos intercâmbios orais35. Foi o que Ginzburg, por
exemplo, percebeu ao realizar uma pesquisa sobre magia no século XVI, ao conhecer nos
arquivos da Inquisição italiana um dos personagens mais notáveis da História Cultural:
Menocchio, o moleiro, que narrou seu entendimento sobre Deus e a Igreja, uma compreensão
muito peculiar que indicava ser parte da visão de alguns artesãos e camponeses de sua época.
Com extrema habilidade narrativa ele revelou pormenores deste pensamento,
fascinando os inquisidores que, consequentemente, ouviram e registraram a fala de Menocchio,
deixando uma vasta documentação, a qual Ginzburg teve acesso.
Menocchio tentou comunicar essas “coisas” aos seus conterrâneos: “Eu ouvi
ele dizer que no princípio este mundo era nada, que a água do mar foi batida
como a espuma e se coagulou como um queijo, do qual nasceu uma infinidade
de vermes; esses vermes se tornaram homens, dos quais o mais potente e sábio
35
Chamo de intercâmbios orais, os saberes acumulados por gerações e passados oralmente.
51
foi Deus e os outros lhe dedicaram obediência... tratava-se de um testemunho
muito indireto, até mesmo de terceira mão: Povoledo estava relatando o que
um amigo lhe contara oito dias antes (GINZBURG, 2006, p. 97).
Os caminhos percorridos, tanto da cultura quanto da religiosidade, compreendem
contextos, leituras, temas e intenções que marcam o pensamento e a escrita da História, se
revelando na tentativa de compreender o passado, recuperando sua necessidade interna, o das
subjetividades, rompendo com a tradicional História linear, ininterrupta e documentada.
É preciso despedaçar o que permitia o jogo consolante dos reconhecimentos.
Saber, mesmo na ordem histórica, não significa reencontrar ‘e, sobretudo não
significa reencontrar-nos’. A história será efetiva na medida em que ela
reintroduzir o descontínuo em nosso próprio ser. Ela dividirá nossos
sentimentos; dramatizará nossos instintos, multiplicará nosso corpo e o porá
a si mesmo [...]. É que o saber, não é feito para compreender, ele é feito para
cortar (FOUCAULT, 2015, p. 27).
A História reduzida a discursos, documentos, monumentos e temporalidades se
dissolve, e objetos históricos tradicionais já não se sustentam diante do óbvio, das estruturas
reconfortantes e seguras do tradicionalismo. As veias abertas pela História Cultural ascendem
à descoberta do simbólico. Foucault foi filiado ao movimento dos Annales e defendia a
Arqueologia do Saber, preocupado em não explicar o real, em não assumir verdades absolutas,
dirigindo-se a abordagem desperta nas sutilezas de cada indivíduo.
Ora, por uma mutação que não data de hoje, mas que, sem dúvida, ainda não
se concluiu, a história mudou sua posição acerca do documento: ela considera
sua tarefa primordial, não interpretá-lo, não determinar se diz a verdade nem
qual é seu valor expressivo, mas sim trabalho no interior e elaborá-lo; ela o
organiza, recorta, distribui, ordena e reparte em níveis, estabelece séries,
distingue o que é pertinente do que não é, identifica elementos, define
unidades, descreve relação (FOUCAULT, 1989, p.7).
Nesse viés, a memória como fonte atribui significados para o presente, este que é
indissociável em relação ao passado, contribuindo decisivamente para o registro histórico do
lugar, onde pessoas cotidianamente constroem seus mundos, vivem, trabalham, se emocionam,
sofrem, são felizes e se percebem, ou não, como sujeitos do processo histórico.
Algumas memórias, ou o modo de lembrar, podem encontrar-se tanto de forma
individual, como coletiva (HALBWACHS, 2003). Ambas, uma vez manifestadas nas pessoas
e nas coisas, estão repletas de representações. Essas vivências são significativas para uma
reflexão histórica, a partir da perspectiva coletiva e privada do cotidiano.
52
Desse modo, embora o tempo seja um elemento fundamental da História, em relação à
memória, ele sofre idas e vindas quando a fonte é fundamentada na História Oral, por exemplo.
O tempo é intangível, como Alfredo Bosi (1992) indagou e afirmou sobre o que são datas, além
de pontas de icerbs, cujo sinal, alerta o navegador sobre o que pode conter nas profundezas.
Diante disso, mergulhar nas águas da memória pode significar bem mais que uma História
linear. Neste caso, o tempo é vivência.
A memória é a recomposição das lembranças, que podem modificar ou reafirmar os
significados do vivido. A memória é residual e encontra valores, culturas, modos de vida,
representações, enfim, uma gama de elementos que, em sua pluralidade, constituem a vida das
comunidades humanas (DELGADO, 2003, p. 13), podendo ser fundamental para a construção
e reafirmação das identidades. Muitas referências são guardadas na memória e são narradas por
gerações, para que esses valores identitários não se percam nos hiatos do tempo.
Quando Maurice Halbwachs atribui à memória um sentido coletivo, ele está dizendo
que o ser humano possui uma pluralidade em si, pois nele reside o mundo de muitos, suas
interpretações refletem suas vivências, seus encontros com o outro. E neste sentido:
Porque a memória dos outros venha assim a reforçar e completar a nossa,
como dizíamos, é preciso que as lembranças desses grupos não deixem de ter
alguma relação com os acontecimentos que constituem meu passado. Cada
um de nós pertence ao mesmo tempo a muitos grupos, mais ou menos amplos
(HALBWACHS, 2003, p. 98).
A memória é dinâmica, é movimento, interage com as gerações, construída pelos
indivíduos e pelos grupos, mas segundo Pierre Nora (1993), a memória deixa de existir quando
trancada, resumida a documentos, de forma estraçalhada, cabendo aos arquivos cuidar da
memória e não das pessoas, dos grupos, em sua mais ampla diversidade. Neste caso, a
historiografia não pode, de nenhum modo, prender a memória. Cabe interpretá-la.
Considerando todos esses argumentos, acrescentam-se, para o avivamento da memória,
os sons, os cheiros, as cores e os sabores, nos quais somos levados a sentir e são capazes de
nos levar a alguma lembrança.
Não basta um esforço abstrato para recriar impressões passadas, nem palavras
exprimem o sentimento de diminuição que acompanha a impossibilidade.
Perdeu-se o tônus vital que permitia aquelas sensações, aquela captação do
mundo. Quando passamos na mesma calçada, junto ao mesmo muro, o ruído
da chuva nas folhas nos desperta alguma coisa. Mas a sensação pálida de
agora é uma reminiscência da alegria de outrora. Esta sombra tem algo
parecido com a alegria, tem o seu contorno: é uma evocação (BOSI, 1994, p.
84).
53
Ecléa Bosi (1994) chamou de memória-trabalho o ato de lembrar. Diferente do sonho,
é trabalho, pois encontra-se em atos antigos. A pessoa que experimentou algo em um dado
momento da vida, no presente, certamente não possui as mesmas impressões, sendo a memória
capaz somente de trazer fragmentos do vivido, e mesmo em pedaços. Recordar exige esforço,
estímulo, por isso, lembrar não é reviver, é trabalho.
As inspirações teóricas de Bosi em Memória e sociedade: lembranças de velhos (1994)
vieram de Bergson e Halbwachs. O primeiro enxergou a memória como algo espiritual,
filosófico e até ilusório; o segundo relativizou esse sentido e deu à memória um papel social.
É em Halbwachs que a obra de Bosi encontra maior precisão. Foram nas narrativas de velhos
que a obra desenhou-se, ganhou corpo textual. A memória de pessoas que viveram em
determinado período, como o da ditadura militar, trouxe elementos, até então, não revelados
pela historiografia tradicional. O envolvimento de Bosi com a História e a Sociologia dialogou
com a Psicologia, que é a formação da autora, na perspectiva de que a memória transita entre
o mundo das ciências e cumpre o papel de antídoto do esquecimento total do vivido.
Assim como a memória, as narrativas possuem a capacidade de preservar com um
elemento maior: o de transmitir as heranças que podem fundamentar identidades, seja através
da oralidade ou da escrita. Contar histórias é uma prática presente antes de a humanidade
conhecer a própria escrita. Já se narravam, através dos desenhos nas paredes das cavernas, o
cotidiano de passagens de um determinando grupo, por um determinado lugar, histórias de lutas
por comida ou disputa de espaços com outros seres.
Contar histórias é uma arte, conforme Ecléa Bosi (1994), e a sociedade moderna tem
perdido esse hábito, que tem como expoente a oralidade, e o mundo da tecnologia tem
distanciado as pessoas umas das outras. Essas impressões estão sob a égide de Walter
Benjamin, que se debruçou sobre a arte da narrar.
Neste sentido, os saberes tradicionais se colocam em risco e a escrita perde seus
melhores recursos, quando se afastam das experiências, que são transmitidas pelas gerações
boca a boca. Trata-se de uma defesa ao narrador. Se para Bosi os velhos são detentores de
experiências, Benjamin (1985) chama de sabedoria, e quem tem sabedoria poder aconselhar,
transmitir, ensinar e intercambiar as experiências. O narrador retira da experiência o que ele
conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros e incorpora as coisas narradas à
experiência dos seus ouvintes (BENJAMIN, 1985, p. 2001).
Substancialmente, as experiências contribuem para a evocação da memória através das
narrativas. Uma história leva a outra história, caminhos que se entrecruzam, personagens que
54
se encontram e se separaram. Sem vivências, as histórias não surgem. Bosi (1994) propõe o
exemplo de Sheerazade, a contadora de história de As mil e uma noites, que conquistou seu
ouvinte, o rei, pela criatividade, entretecendo uma trama que a livrou da morte. O que isso nos
sugere? “Quando Sheerazade contava, cada episódio gerava em sua alma uma história nova,
era a memória épica vencendo a morte em mil e uma noites” (BOSI, 1994, p. 90). As narrativas
revelam segredos, criam outros, ensinam, fazendo as coisas se perdurarem.
Os interesses da historiografia com as narrativas pressupõem o registro do tempo ido, a
partir das falas de pessoas, sejam elas desconhecidas, ou não, pessoas com histórias notáveis.
Os melhores narradores são aqueles que deixam fluir as palavras na tessitura de um enredo que
inclui lembranças, registros, observações, silêncios, análises, emoções, reflexões, testemunhos
(DELGADO, 2003, p. 22). Assim, o registro da memória tem nas narrativas um aporte, neste
caso, as narrativas produzidas pela metodologia da História Oral.
4.2 Memória e oralidade
Entre as novidades apresentadas pela História Cultural, marcada pela valorização do
indivíduo, trazendo outros objetos e fontes, penetrando no mundo do imaginário e do simbólico
(JOUTARD, 2000, p. 33-34), surgiram outras metodologias, como a História Oral, propondo
e desenterrando lembranças que se apagavam, e abriam feridas que permaneciam escondidas
ou fechadas (FIORUCCI, 2010, p. 7). A História Oral, compreendida como instrumento de
investigação, traz a fala de pessoas que não estão em evidência no cenário da História Oficial.
As narrativas orais se articulam entre memória e História, o tempo vivido e o simbólico
ou subjetivo. Encontram-se, sobretudo, na lembrança dos sujeitos, e as gerações introduzem
palavras, coisas e ações através da oralidade, os ritos, as crenças e os ofícios são assimilados
intensamente ou superficialmente pelos grupos. De modo que, os estudos sobre História Oral,
não se tornaram, uma escola histórica, mas trouxeram muitos autores para esse campo,
adotando-a ou investigando-a, em ambos os sentidos como metodologia. A saber, os anos de
1970, afloraram esses estudos. No centro do debate, nos Estados Unidos, por exemplo, estavam
homossexuais, mulheres e negros; na Europa, o cotidiano de trabalhadores operários.
A força da história oral, todos sabemos, é dar voz àqueles que normalmente
não a têm: os esquecidos, os excluídos [...]. Que ela continue a fazê-lo
amplamente, mostrando que cada indivíduo é ator da história. [...]. É preciso
ir além [...] dar a palavra – amplamente – aos analfabetos e ao mundo da
pobreza extrema: todos os que tiveram esta experiência conhecem a qualidade
de certos diálogos, a justeza do tom e a riqueza dos testemunhos. [...] tudo
55
que é humano é nosso, e é preciso fazer recuar as fronteiras (JOUTARD,
2000, p. 53).
A América Latina experimenta suas próprias realidades, políticas, sociais e culturais.
Tem sido assim, também, em relação à História Oral. Desde o México, com as narrativas sobre
a Revolução Mexicana, a partir da memória de seus personagens e protagonistas, ao Brasil,
com os testemunhos de líderes, sobre os acontecimentos políticos, durante a ditadura militar e
a democracia.
Semelhante aos historiadores dos Estados Unidos e da Europa, os anseios de
historiadores brasileiros em relação à História Oral buscou ouvir e registrar o depoimento
daqueles que foram silenciados, aqui a princípio, por motivos, sobretudo, políticos. O avanço
tecnológico favoreceu a colheita dessas narrativas, até então tudo era feito a partir da própria
audição do pesquisador, que ao ouvir o depoente fazia o registro. Essa nova forma, ou seja, o
de gravar a voz de alguém, alterou, inclusive, o modo de ver e fazer História Oral, ganhando
um debate a respeito dos métodos mais apropriados. O que se pode dizer é que com a chegada
de gravadores, inaugura um alargamento de arquivos orais.
A Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir de 1970, criou o Programa de História Oral,
ligado ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC).
Inclusive, o CPDOC contém cerca de mil entrevistas, mais de cinco mil horas de gravação. São
vozes de lideranças políticas brasileiras, que viveram a ditadura militar e o início da
democracia.
Só em 1990, a História Oral passou a ter mais visibilidade, ganhando estudos e
publicação no meio acadêmico, colaborando com a criação da Associação Brasileira de
História Oral (ABHO), em 1998, e depois a inauguração da Revista de História Oral.
Esses incentivos se consolidam em uma ampliação de estudos e pesquisas em História
Oral. Todavia, cabe avaliar e discutir sobre os aspectos que levam e como são realizados os
trabalhos na área. É possível aprofundar cada vez mais e encontrar novos sujeitos, novos
episódios da vida, para além dos acontecimentos em evidência, mas, histórias de pequenos
lugares, pessoas comuns, universos cotidianos.
A experiência em História Oral culmina com a necessidade de a memória interagir com
o presente. O passado faz parte de uma rede de linguagem, por isso que o eixo principal da
História Oral é o narrador. Este que elabora a partir de sua subjetividade uma história, a qual
ele está nela e outros também. Uma subjetividade motivada pela vivência coletiva. Tanto que
o conceito de realidade ou verdade já não é a melhor saída para a compreensão do passado
contado através da oralidade.
56
Sob certa compreensão, a História Oral enfrenta desafios provenientes, sobretudo, do
universo da fonte em questão, de natureza humana e sua relação com o outro, percebendo que
as narrativas orais são a partir da memória de alguém. Aí se encontra um dos labirintos
causadores da peleja, pois a própria memória possui a capacidade de esquecer (JOUTARD,
2000, p. 34), criando outros cenários. Assim como também suscitam outras emoções ao avivar
lembranças, interferindo na contação das histórias.
Neste caso, verdade e mentira não se encontram em jogo, mas na capacidade de
recriação do passado, com os fatores subjetivos, ou seja, as representações e o imaginário dessa
memória, e sua relação intrínseca com o sujeito inserido no hoje. Sendo assim:
A matéria da História Oral é o presente. Não o presente instaurado por um
pensamento ―físico ou por uma mentalidade científica que, objetificando a
temporalidade (tempo dominante de todos os tipos de poder), consegue
esvaziar inteiramente as dimensões sociais e singulares do presente. Nessa
concepção generalizada, que invade também o cotidiano, o passado ―já
aconteceu‖, portanto, não pertence mais ao mundo do modificável, e até
mesmo do realmente passos-para-o-presente (CALDAS, 2013, p. 52).
Sabendo desses pressupostos, a memória como fonte do conhecimento oral, ancorada
no passado, se faz oportuno ver o lugar e seus sujeitos, escutar suas histórias, respeitando os
caminhos e as trincheiras, que ora são postos pela memória do narrador, pois a área
efetivamente irrigada pelas experiências vividas é a memória, que se frutifica em saberes.
A História Oral serve como um caminho para o contato com os detentores desses
conhecimentos, ou seja, os narradores que coincidem com a intenção acerca do trabalho de
pesquisa, o qual se debruça o investigador. O que garante unidade e coerência às entrevistas
enfeixadas é a repetição de certos fatores que, por fim, caracterizam a memória coletiva
(MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 28). Aqui diz que o narrador não se encontra só, mas à sombra
de outras almas. Entre tantas versões sobre a memória, mas especificamente neste sentido das
experiências narrativas, diz-se:
A memória é composição, fluxo rítmico de anexação e criação, momento
narrativo, momento textual: determinada ordem ― colhida‖, ― escondida‖,
certa maneira de ler e dizer, de refletir posições, de rever, de reencenar a
experiência com e no vivido: é a relação; é a ficção segunda de uma vivência
entre as ficcionalidades do mundo social; é a maneira singular de dizer e
ordenar essas ficcionalidades; específica maneira de desdobrar o imediato do
presente enquanto tempo; a memória é relação; como o momento textual não
é nem passado nem narrativa definitiva; é momento do sujeito que se traduz
em ordem narrativa, em ordem de palavras; tempo enquanto singularidade
narrativa é elemento que se desdobra numa lógica de procriação similar ao
cantar, ao recitar, ao sonhar (CALDAS, 2013, p. 64).
57
Logo, esse estilo de História Oral inaugura algumas singularidades caracterizadas pela
valorização dos aspectos intangíveis, das experiências narradas, trazendo pressupostos
epistemológicos, como a colaboração e os aspectos do texto produzido (BARBOSA, 2006).
Em meados de setembro de 2011, a revista Carta Capital perguntou a Meihy quem é o
autor da História Oral, o entrevistado ou quem pública? ―É um trabalho feito em colaboração,
disse ele. São duas pessoas envolvidas em um processo, o qual gerará um produto que só é
possível com a existência de ambos.
É preciso ter a compreensão de que a existência do colaborador modifica
complementarmente a forma como se enxergam os depoimentos orais, ou seja, a pessoa deixa
de ser apenas um objeto a ser estudado e passa para ser um parceiro fundamental na construção
da narrativa, aliás, ele é dono ou dona da sua narrativa, a qual juridicamente tem o pesquisador
como responsável, porém ambos atuam para o resultado do trabalho.
Os narradores da História Oral são aqueles que Walter Benjamin temia estar se
extinguindo do mundo da contação de histórias, aquele cuja narrativa envolvia a sua vida, o
outro e trazia ensinamentos. A entrevista não se trata de um jogo de perguntas e respostas, nem
se quer precisa ter precisão em dizer “o que me trouxe aqui foi...”, mas, “me conte sobre você,
sobre sua vida”. O contato traz a intimidade necessária, e o narrador, por sua vez, vai se
revelando numa conversa, onde a linha temporal, os espaços físicos e da memória, é ele ou ela
que os trazem. É preciso respeitar isso, porque a construção textual vai exigir uma pontuação
que se aproxime ao máximo do que o narrador quis dizer, cada frase é um mundo de
informações e reflexões profundas, por isso uma vez transcrita a conversa, começa o trabalho
de pontuação e interpretação, embora interpretar se faz todo tempo, pois a imersão em campo
fervilha os sentidos do investigador.
Desse modo, é importante ressaltar que, embora, a História Oral compreenda o universo
das palavras faladas e se comprometa com toda essa discussão realizada anteriormente e
mesmo se caracterizando uma metodologia de pesquisa, existem diferentes formas de fazê-la,
ou seja, quanto às variações de gênero. Assim sendo, compreende-se: a História Oral de vida,
a História Oral temática e a Tradição Oral.
Segundo Meihy e Holanda (2014), histórias de vidas admitem a pessoa do narrador e
as narrativas são frutos da sua memória, permitindo que as fantasias, as mentiras, as distorções,
os sonhos, os lapsos e os silêncios façam parte do universo narrador, pois lidam diretamente
com as subjetividades que envolvem a trajetória de vida desta pessoa. No caso da História Oral
temática, exige a existência de um questionário, onde o pesquisador o segue como orientação
58
para realizar perguntas, a fim de obter respostas precisas sobre um determinado assunto. Por
fim, a Tradição Oral, também tem a ver com os aspectos relacionados à memória, porém sua
relação é intrínseca à memória coletiva, que envolve a vida de grupos, seus rituais perpassados
por gerações.
Compreendemos que esta pesquisa em Lagoa da Areia dos Marianos, embora tenha a
História Oral em si, enquanto metodologia, e dialogue com a história de vida, se fundamenta,
sobretudo no gênero da Tradição Oral, a qual Meihy e Holanda (2014) consideram como a
forma mais bonita de fazer História Oral, pois se caracteriza por meio da inserção de campo,
enquanto observador participante, descrever o cotidiano de um grupo, que encontra no mito de
criação uma forma de explicar sua existência e/ou uma prática inerente a sua vida.
Presentes nos grupos ágrafos, onde os saberes são repassados oralmente, não significa
dizer que essa seja a única possível, mas as formas vitais desses grupos são as que mais
interessam aqueles que optam por esse modo de fazer História Oral. Podendo ser estudado:
Noções de tempo, lógica da estrutura de parentesco, soluções de alimentação,
e ordenamento social, critérios de tratamento da saúde, visões da vida e da
morte, bem como a organização do calendário e dos processos de celebração
– rituais e demais cerimônias (MEIHY; HOLANDA, 2014).
Os grupos considerados mais fechados ou sociedades urbanas também podem ser de
interesse da Tradição Oral, principalmente aquelas que, embora estejam inseridas em aspectos
modernos, contrapõem-se e desviam-se de padrões vigentes.
Enfim, a História Oral, de toda forma, compromete-se com o outro, se baseia nas
histórias contadas do saber camponês em volta do fogo, as mais recentes lutas políticas e sociais
de homens e mulheres. Uma proposta possível na vivência empírica com sua fonte
colaborativa, dialogando com os conhecimentos daquela pessoa, daquele grupo, e contribuindo
na formulação de novos conhecimentos históricos, até então não registrados.
Seja um fato, sejam as formas ritualísticas de uma comunidade, seja um ofício, podem
ser ensaiados e propostos para a História Oral.
A pesquisa em História Oral, considerando os gêneros que a perseguem, entre elas as
principais: História Oral temática, Tradição Oral e História de vida, busca intercambiar
experiências através do contato humano, do reconhecimento da fala, as quais são as fontes das
narrativas. Independente da forma utilizada, há na História Oral, segundo Benjamin (1985)
experiências relatadas, presentes no acervo da memória do narrador, transmitindo conselhos e
conhecimentos. Pela memória se embaralha tempos e espaços, embora não signifique a
impossibilidade de reconstituir um passado ou uma prática, pois em nenhum momento da vida,
59
seja de um indivíduo ou um grupo, a História é uma linha ininterrupta. Existem os nozes,
provocando e construindo a memória individual e coletiva.
A leitura interpretativa que segue é das narrativas de três mulheres de Lagoa da Areia
dos Marianos: Maria Anunciada, Maria de Lourdes e Rosilene Rosa. Através da história de vida
e da Tradição Oral, busquei explicar os fenômenos constitutivos da religiosidade e das práticas
tradicionais vividas por essas mulheres, dialogando diretamente com os conhecimentos e as
práticas da comunidade.
4.3 Maria Anunciada
O motivo da participação de Maria Anunciada cooperando com sua narrativa neste
trabalho, compreende sua relação com os moradores de Lagoa da Areia dos Marianos. Sua
ocupação de benzedeira e cartomante a torna muito presente na vida da comunidade. Para a
cura das dores, seja do corpo, como para os padecimentos da alma, constantemente buscam-se
os seus cuidados, isso, para pessoas de muitos lugares, principalmente das redondezas, mesmo
não admitindo que a busquem, uma vez que, a procura seja discreta, para que não sejam
percebidos frequentando sua casa.
O trabalho de campo exige que o pesquisador saiba lhe dar com determinadas situações,
assim como, saber olhar múltiplos lugares e personagens que possam ser colaboradores, sujeitos
que interagem com a trama, a qual está sendo investigada. É nessa condição que se encontra
Maria Anunciada. Aqui sua memória, e experiência de vida, da benzedeira e cartomante se
somam para o entendimento do espaço social em que os moradores de Lagoa da Areia dos
Marianos circulam. O exercício foi deixá-la de forma autônoma, isto é, dona de sua fala, por
isso, a transcrição 36 em sua totalidade, para depois, realizar uma leitura, sem fechamentos,
aberta para outros diálogos.
Para melhor interpretar o depoimento de Maria Anunciada, se fez necessário ouvi-la
pacientemente, suas expressões faciais, gestos, respiração, risos, que formam um conjunto de
narrativa complexa e instigante, podendo também ser compreendido como uma catedral de
símbolos, desde a memória da infância à mulher, carregada de lapsos e lembranças que trazem
parte de sua vida e do seu pensamento.
No final deste trabalho se encontra a Narrativa na integra. “Mantemos o “texto transcriado” da entrevista para
que os que quiserem pluralizar as interpretações [...] aqui [...] exerço somente determinada leitura, não a verdade,
a realidade ou a tradição; não aquilo que o entrevistado acredita visivelmente, ou sua “comunidade” pensa as coisas
que diz, mas como eu vivencio, penso, vejo, sinto, degusto, relaciono e leio estas palavras, imagens e histórias:
aqui é onde estará a minha leitura, aqui sou tão somente um “interprete” (CALDAS, 2001, p. 50).
36
60
A casa de Maria Anunciada exala o cheiro de incenso, de folhas e raízes; as imagens de
santos cristãos pregados nas paredes, sinalizam as marcas de sua religiosidade. O ambiente da
casa produz, segundo Bonazzi (2006, p. 236), “uma atmosfera favorável, para colher
depoimentos orais”, sendo um lugar, em que ela se sente à vontade, pois está cercada de
recordações e representações que suscitam a sua lembrança, constitui seu presente, que tem luz
no passado.
A intenção não foi abarcar toda a história de Lagoa da Areia dos Marianos ou estabelecer
um nível de verdade à narrativa. O que se busca, como nos coloca Caldas (2001, p. 54) é
interpretar e buscar a multiplicidade de sentidos, aquilo que amarra a vida e está presente na
oralidade. Sendo que interpretar é refletir sobre as experiências, os signos, as falas e as
memórias, é diálogo “não de aceitação, mas de desdobramento, de enriquecimento de sentidos
e significados”. Cabe-nos dialogar com o depoimento de Maria Anunciada, que se colocou
como colaboradora da pesquisa.
O momento em que se passa esse diálogo trata-se de um encontro delicado e decisivo,
que tem a ver com o mundo, a individualidade de quem está se submetendo a participar desta
empreitada, ou seja, é o sujeito o qual nos inclinamos para colher sua narrativa. As trocas de
palavras estabelecidas são muito importantes, pois implicam em um alargamento de
informações, de confiança e de compreensão, entre o historiador e o colaborador de sua
pesquisa, em que às vezes, só essa relação elucida certas falas que se encontram nublada, como
esclarece o antropólogo Wagner Gonçalves da Silva (2000, p. 45), sobre o trabalho de campo
e textos etnográficos em religiões afro-brasileiras, onde: “O conhecimento é apresentado em
forma de parábolas, de mitos, de casos aparentemente sem sentido imediato”. Da mesma forma
em que Walter Benjamin (1985) diz que, a arte de narrar, metade está em evitar explicações,
pois as histórias podem trazer outros enredos como: uma moral ou um aprendizado.
4.4 Maria de Lourdes
Maria de Lourdes da Silva, que nasceu em Lagoa da Areia dos Marianos, Palmeira dos
Índios, Alagoas, em 1942, reside, desde então, na comunidade. Aos 73 anos construiu sua vida
em meio às rezas, o roçado, o casamento, a criação dos filhos, as doenças, convivência na
comunidade, e seu protagonismo, como liderança, animando as festas e novenas de santos. A
sua narrativa aparenta ser muito simples, contudo é sofisticada, quando interpreta o que dar
sentido as suas vivências, poetizando, musicalizando e sacralizando suas práticas.
61
Ela fala de um tempo em que as escolhas eram difíceis, onde a escassez de água deixava
a vida “pra baixo” 37. As poucas águas e inapropriadas para o consumo humano presentes no
imaginário das mulheres do semiárido38, elas que são responsáveis por abastecer a casa com
água para assuntos domésticos, realizando inúmeras e longas caminhadas com potes de barro
sobre a cabeça em busca de água. Tempo de escola, casamento e o legado para as netas, faz da
narrativa de Maria de Lourdes um enredo de saberes orais pertencente ao conhecimento
feminino de Lagoa da Areia.
4.5 Rosilene Rosa
Rosilene Rosa da Silva Pereira é a mais jovem das narradoras deste trabalho. Está casada
com Leandro Justino Pereira. O casal tem duas filhas: Graciele e Maria Eloíza. A busca por
práticas tradicionais da comunidade de Lagoa da Areia dos Marianos propiciou o seu
depoimento, a partir de sua experiência com a maternidade. Ela que é pedagoga e o marido,
professor de matemática, possui uma singular representação dentro do universo cultural da
comunidade: os sinais de vivência nos costumes do lugar.
4.6 Religiosidade e suas práticas
Maria Anunciada traz em sua fala a condição vivida pela família em que a mulher é
“responsável” pela manutenção da casa. No caso sua mãe, somou-se a um número significativo
de mulheres brasileiras que trabalham e é arrimo de família.39:
Fui crescendo, fiquei sem pai só com mãe. Vivia sozinha com Deus,
primeiramente Deus, porque ela tinha que trabalhar pra gente sobreviver,
então a gente vivia. Ela trabalhava a semana todinha, eu vivia sozinha. Mas
o que eu fazia, eu passava a semana cuidando dos meus dois irmãos
pequeninhos (Maria Anunciada).
Ali não há lamento, nem constatação resignada? A fala de Maria Anunciada, emprega a
ela, a mãe e aos irmãos um aspecto de sobrevivência, seguindo de um outro aspecto: “a gente
37
Expressão utilizada por Maria de Lourdes durante a entrevista.
Segundo o Ministério da Integração (2005), a região semiárida é caracterizada por possuir chuvas irregulares e
longas estiagens, sendo que a média anual é de 600 a 800 milímetros, alto índice de evaporação, tendo como bioma
predominante a caatinga, além de sua delimitação geográfica e política. O semiárido é dividido em agreste e sertão,
sendo o agreste a região intermediária entre zona da mata e sertão. O sertão é considerado a região com menor
densidade pluviométrica e clima mais seco.
39
No último CENSO de 2010 somavam-se 42% dos lares brasileiros “chefiados” por mulheres.
38
62
vivia”. Viver, não seria pleno? O que não cabe em ambientes medíocres da sobrevivência. Teria
Maria Anunciada a compreensão disso? Como em as virtudes do ser humano proclamada por
Sócrates, filósofo ateniense, considerado o fundador da filosofia Ocidental (469-399 a.C.), que
pregava a vida simples, o que para ele consistia ali, a plenitude de viver, “quanto menos desejos
você tem, mais perto está dos deuses” (PLATÃO, 2009). A despretensão teria lhe dado aspecto
de sobriedade, a qual Maria Anunciada faz questão de revelar. Da mesma maneira, suas
vivências aguçavam seu imaginário no tempo em que era criança:
Já do sábado eu começava, preparar tipo... um altar, procurar flores, pra
butar ali, e eu achava, eu encontrava. Eu comecei fazer uns pedacinho de
panos enroladinhos, achando que era um montinho de criança, de gente. E eu
tinha dia que eu sentia assim, tá doente, esse tá doente. Então eu pegava os
raminhos e ia benzer aquela bonequinha (Maria Anunciada).40
Esses elementos representativos, do altar, dos santos e das pessoas, compõem uma
complexa trama ritualística. Esse povoamento de signos, ao mesmo tempo brincante, tomava
conta do seu cotidiano, o que mais tarde seria de fato seu ofício: rezar em pessoas com ramos
de folhas verdes e aconselhá-las por meio da consulta das cartas do baralho.
Essa forma de entender o mundo e construí-lo, a partir de bonequinhos de pano e altares,
só foi substituído quando tornou-se adulta e descobriu-se em um universo preconceituoso e de
desigualdades. Maria Anunciada adquiriu o temor de não ser aceita na sociedade, e transformarse em motivo de escárnio: “Ah! Eu num vou fazer isso mais não, pruque o pessoal vai mangar
de mim” (Maria Anunciada). Esse sentimento estava acobertado, provavelmente, pelo estigma
de: mulher negra e sensitiva, que a tornava “diferente”, perante os outros, e os olhos dos outros
não enxergariam a alteridade presente nela, mas somente a diferença, dada como inferior,
portanto, desigual, não aceita, não apreciada. Por isso o medo de ser mangada41, de tornar-se
zombaria. Não obstante, esses receios dão lugar às percepções mais profundas, as quais não
permitem que ela abandone as práticas das rezas e dos cuidados.
Em relação as suas práticas, encontramos em sua narrativa aspectos que dizem respeito
à percepção mágico-religiosa, da mesma maneira, mágico-religiosa-natureza, como um campo
ligado ao sistema simbólico, atribuídos por Bourdieu (2005), assim também, como na tradição
40
Entrevista realizada a Maria Anunciada, em áudio pela autora em junho de 2015.
Essas práticas no Brasil sempre foram reprimidas de forma violenta. Provavelmente esse seja o principal motivo
de Maria Anunciada temer represália e não somente mangação. Em Alagoas, particularmente, o episódio de 1912,
conhecido como o Quebra-Quebra, Quebra de Xangô ou Operação Xangô, caracterizado pela violência, quando
diversos terreiros foram invadidos e “pais e mães de santo e membros do culto sofreram violência e humilhações”
(SANTOS, 2014). Evidentemente, que os motivos que desencadearam o Quebra de Xangô não foram puramente
intolerância religiosa, mas política também, tendo como justificativa nos jornais da época, que faziam oposição ao
governador Euclides Malta, associando-o aos terreiros de Xangô (SANTOS, 2014).
41
63
da cultura popular brasileira, a partir da utilização de elementos míticos e mágicos, como diz
Maria Anunciada em uma das suas orações:
[...] chegou um momento de eu no mês de janeiro, muito gado, eu dento dum
terreno e jogar uma bituca de cigarro e o mundo de fogo. E o mundo encheu
de fogo mia fia! Foi só me ajoelhar: Deus é o pai do fogo e o fogo é filho de
Deus, Deus pode com o fogo e o fogo não pode com Deus. Entre o fogo e o
perigo está nosso senhor Jesus cristo. (Maria Anunciada)
Nesse sentido, o fogo representa unidade de poder: ao mesmo tempo sagrado para as
práticas religiosas, tanto cura quanto destrói. Nos altares se ascendem velas para iluminar
caminhos, pedir uma graça, ou durante o dia de finados para dar luz à passagem dos mortos. O
mesmo fogo incendeia cercados de gados e roçados durante os verões mais severos em Lagoa
da Areia dos Marianos.
Esse episódio do fogo, em particular, contribuiu para uma decisão. E “nasceu”, então,
Dona Anunciada, a benzedeira e cartomante. De certo modo, podemos afirmar que os temores
e os questionamentos foram se dissipando e ela foi aceitando seu “dom”, como ela mesma
confirmou:
Fiquei, fui rezando, fui rezando... Quer saber de uma coisa? Eu num vou me
esconder de Deus, não vou mais, seja feita a vontade de Deus. Não a minha,
e vou enfrentar e comecei benzendo. Comecei benzendo e as pessoas foram
me procurando (Maria Anunciada)
Essa aceitação do certo “dom”, em práticas divinatórias e benzenções, aparece dentro
de vários universos religiosos no Brasil, marcado pelo sincretismo, que tem herança portuguesa,
influências indígenas e das religiões de matriz africana. O conhecimento sobre plantas
medicinais, sobretudo por mulheres, desde o Brasil colônia, favorece àqueles que não dispõem
de recursos para serem atendidos pela medicina tradicional. Logo, a procura pelas benzedeiras,
se torna uma alternativa, segundo a pesquisadora Vanda Cunha Albieri Nery (2006),
alimentados pela crença de que corpo e alma são uma só parte de algo muito maior e até
desconhecido, presente na natureza, nas folhas, nas águas e no fogo. Esses elementos naturais
são sagrados e contribuem nas práticas de cura.
Percebemos que Maria Anunciada possui saberes relacionados à circularidade cultural
defendida por Ginzburg, ligados ao universo mágico-religioso, contudo, ela defende que seu
ofício não possui nenhum vínculo com o que ela chama de “outro lado”, embora diz
compreender que existem pessoas que “necessitem” fazer este tipo de trabalho:
64
E seio que tem pessoas que precisa, precisa porque tem pessoas que precisa
do outo lado pra se ajudar, precisa, é porque cada um segue o seu caminho
que Deus dá. Vamos dizer, se você é uma pessoa que tem esse lado e o meu
não dá, quer dizer, que por causa de mim vai deixar de seguir? Não! Vá em
frente. Luta! Deus te deu porque sabe que você pode! Eu não pude. Se ele me
deu foi aquele lado, mas o seu foi aquele, então você vai dizer: Ah! Eu vou me
esconder por trás da porta, vá em frente, vá em frente. É... Gente, olhe, nós
somos... Cada um é cada um... E só Deus sabe tudo, e num é porque nós queira
não, Simone! Né não, quem somos nós? Mas nós tem que obedecer, tem que
obedecer (Maria Anunciada).
. Esse “se ajudar”, na crença popular, que dizer que o indivíduo que tem certos dons,
não pode ignorá-los, pois pode sofrer com doenças físicas e espirituais. A cura e o anseio da
cura, o passado e o futuro estão refletidos na religiosidade assumida e praticada no presente.
Além da cura pela benzedura, Maria Anunciada também faz consultas através da prática
divinatória, com cartas de baralho42. A realização é antes da cura pela reza, que tem a intenção
de saber que problemas acarretam seu paciente, assim, saberá que tipo de cura precisa.
Em uma pequena mesa, logo abaixo de uma janela, coberta com um pano branco, em
um canto reservado da casa, ela pede para o consulente sentar-se à sua frente e cortar as lâminas
do baralho em duas partes. Ali, são dados conselhos sobre saúde, dinheiro, família, amizade,
vida amorosa. Ela fala sobre acontecimentos do passado, que influenciam no presente e no
futuro; sobre forças ocultas, pessoas que convivem com o consulente, sobre aquelas que
desejam o mal e o bem. Para essa prática ela responde que:
[...] de todo canto eu tenho curado. As cartas também, eu boto as cartas, eu
boto as cartas, nunca, graças a Deus. Meu Deus! Nunca chegou um pra dizer:
Maria Anunciada você me levantou um falso ou uma mentira. Não! [...]. Se
tem uma coisa que eu posso ajudar, eu ajudo, se eu vejo que não posso eu
digo: Aqui eu num posso nada. Se eu vejo que eu tenho força de defender de
um problema perigoso, eu ajudo, se eu vejo que não posso ói, fico quetinha.
E minha vida é essa mia fia. A minha vida é essa (Maria Anunciada).
A compreensão que temos em relação à Maria Anunciada é que, nesse percurso de
benzedeira e cartomante, ela submeteu sua vida ao ofício, vivendo cotidianamente com essa
Essa prática com as cartas do baralho é, para Maria Anunciada, parte da consulta. Primeiro ela faz o “jogo”
depois a benzedura, pois assim ela saberá qual problema tem a pessoa, seja espiritual ou corpóreo. Na ocasião em
que colhi seu depoimento fui acompanhada com Moisés Oliveira, antropólogo. O mesmo tem experiência com a
Antropologia Visual e estaria me auxiliando com os equipamentos audio-visuais para a entrevista. Ao finalizar as
gravações ela se ofereceu para colocar as cartas para Moisés e disse que eu poderia ficar observando para saber
como ela fazia o ritual, mas não gravasse o interior da conversa. Assim fiz. E pude perceber os detalhes da consulta,
que se basearam em aconselhamentos: como lhe dar com determinadas situações e pessoas, ao tempo em que
também advertiu sobre saúde, trabalho e relacionamentos amorosos, e de amizades. Vez ou outra foi interrompida
pela filha que lhe chamava para o almoço, e ela pedia para não ser importunada. Por fim, ela disse “você é forte,
você é dele” (com Moisés), apontando para um quadro na parede com a imagem de São Jorge.
42
65
prática envolvente. Cabe-nos buscar alcançar suas histórias e suas realidades, como pensa e
como enxerga o mundo, pois, os rituais de cura e as consultas divinatórias encontram-se
ajustadas a sua vida e a vida daqueles que a procura. Para ela, não existe explicação óbvia, tudo
é mistério divino, dado a ela, e o que lhe cabe é obedecer e entregar-se ao seu dom, que também
é seu ofício.
Essa relação da vida atrelada a um ofício religioso pertence ao universo feminino de
Lagoa da Areia, dado ser as mulheres condutoras de benzimentos, rezas de novenas,
encomendações de almas, organização de festas de santos, entre outros. Maria Anunciada
pertence ao universo de cuidadora, pois sua prática contribui diretamente com a saúde das
pessoas.
Não muito distante está Maria de Lourdes, outra narradora, que embora não participe da
mesma prática de Anunciada, emprega na sua vida, a religiosidade carregada de valores, ideais
e conceitos individuais, que, ao mesmo tempo, dialogam e se constituem nas relações sociais
do lugar em que elas circulam.
Maria Anunciada faz suas rezas em casa, pois exige uma particularidade com cada
pessoa a qual atende, já Maria de Lourdes, exerce seu ofício com a participação do coletivo. As
novenas exigem a participação da comunidade, visto que são ambientadas, geralmente, nas
capelas. A constituição da Igreja em si (prédio), codifica os sistemas de (re)organização dos
indivíduos em Lagoa da Areia dos Marianos. Ali, se reúnem para as rezas, para as discussões
da vida em comum, sistematizam parte do cotidiano, celebram a vida através do batismo das
crianças, bem como a morte, quando o ambiente serve de lugar de despedida, dos parentes antes
de serem sepultados.
Maria de Lourdes, desde cedo, se encarregou das rezas comunitárias, “nós mocinha
nova. Nós rezava na igrejinha” (Maria de Lourdes), referindo-se a ela e a companheira, aliás,
uma sucessão de mulheres rezadeiras de novenas. Ela tem em memória: “Madrinha Ninha”,
“Luzia Rosa”, “Tia Santa”, “Noemia”, “Leriana, “Cumadre Bilú”, Olindina, Edna, cujo
ofício são transferidos por geração, cujo conhecimento é pela oralidade.
Maria de Lourdes, há muitos anos, participa desses ritos, revela que aprendeu as rezas
ainda criança, enquanto acompanhava a avó e a madrinha durante os novenários do período
quaresmal, revelando o recurso da oralidade para a continuidade do papel das mulheres
rezadeiras.
Essas mulheres, das quais Maria de Lourdes é uma, encarregam-se das novenas
natalinas, quaresmal, do mês mariano, Santo Antônio, São João e São Pedro, assim como
devotam-se em excelências durante os velórios.
66
Os cânticos voltados à Maria são os mais recorrentes e dedica-se um mês inteiro de
devoção, compreendendo um rito presente na Europa no século XV (DAMINO, 1961) em
países cristãos do hemisfério setentrional43. Escolhido pelos devotos, por tratar-se de um mês
florido, tendo Maria algumas designações como referência: “flor dos campos”, “lírio do vale”,
“rosa mística”, “vaso de perfumes”, e “cínamo aromático”, presentes nos catecismos,
principalmente ligados ao credo cristão/católico, em que busca a doutrinação de fieis.
Essa atenção à Maria está compreendida em alguns cânticos do mês mariano, em Lagoa
da Areia dos Marianos, como é o caso da oração da Salve Rainha44, que é dado a ela o título de
mãe, rainha e consoladora dos que se encontram em aflição:
Salve oh Rainha, mãe universal,
por vós neste vale vai seu paraíso.
Vós sois gozo e riso, dos desconsolados
e dos degradados doçura e vida.
Vem oh mãe querida nossos corações,
numa de aflição e de amargura.
Oh Mãe de ternura olhos piedosos,
Jesus amoroso para nós volvei.
Benigna escutai ohVirgem Maria,
Oh mãe doce pia os afetos nossos.
Também nesta ocasião, os cânticos são entoados em latim. Embora na Liturgia Cristã
haja uma ordem e um calendário para certos cantos e orações, em Lagoa da Areia dos Marianos,
as mulheres organizam seus rituais, a partir de uma compreensão própria, a exemplo do canto
“Regina Coeli”45, que pertence ao Período Pascal da Igreja Católica. Este é cantado por elas
todos os dias durante o mês mariano, após o canto da “Salve Rainha”.
No tocante a Maria de Lourdes, as rezas e o convívio na capela são prazerosos, “sou tão
feliz, tão feliz no mundo. Eu acho que tem gente que acha assim, acha assim, que eu sou tola,
né? De andar assim, andar rezando” (Maria de Lourdes). Esse estado de contentamento só
opõe-se quando ela, por conta da idade, não consegue seguir de forma autônoma. A velhice traz
consigo essa falta de independência, tendo que esperar por alguém que possa contribuir em sua
43
Sendo que no hemisfério meridional, onde situa-se o Brasil, sabe-se que as variações sazonais encontram-se em
outro ciclo natural, contudo as rezas são realizadas.
44
Segundo a Enciclopédia Católica, de 1913, escrita por Hugh Thomas Henry, atribui-se a oração monge Hermano
Contracto, tendo escrito por volta do ano 1050. Como um pedido de favor à “Virgem Maria”, pois
a Europa passava por catástrofes naturais, epidemias e guerras.
45
Regina Celle letra, aleluia/ Guia que meruiste, portarei aleluia/ Ressurequesix/ Sixcondixsis, aleluia/Orai pro
nobis/ Nobis Deus, aleluia.
67
locomoção. “Só não fui sexta-feira, porque a menina tava na escola, tava aí com os negócio de
um trabalho, eu não quis ir. Porque não tinha ninguém desocupado, aí eu não fui” (Maria de
Lourdes), declara.
Percebe-se que Maria de Lourdes luta diariamente para manter sua altivez, tanto na vida
familiar quanto no convívio comunitário. Lembrando que Bosi (1994, p. 80), também sobre
isso, destacou: “Durante a velhice deveríamos estar ainda engajados em causas que nos
transcendem, que não envelhecem, e que dão significados a nossos gestos cotidianos. Talvez
seja esse um remédio contra os danos do tempo”. É nesse compasso que ela se mantém.
É verificado também, na sua participação na Escola de Jovens e Adultos46, em que as
aulas não se separam do cotidiano familiar, das rezas, além de ser terapêutico, acolhedor, e
energizante, o que lhe afasta da penúria causada pela solidão:
Tá ali os negócio que eu estou fazendo [...]. Aí chego bem feliz, [...]. Aí eu
acho bom, porque eu tomo meu remédio, pra não ficar dentro de casa, pro
canto, aí eu vou pra lá. Levo o meu remédio e água e tomo lá. Tá ali os meu
caderno, tu quer ver? (risos). Aí minha fia eu acho tão bom! (Maria de
Lourdes).47
É para Emily48, a neta, que Maria de Lourdes pretende deixar como herança um caderno
com as anotações das rezas, como mesmo explica:
Pra Emily. Porque ela é quem reza o ofício mais eu, vez em quando. Ela quem
ajuda no catecismo dos meninos. Catequista, a Emily! E canta no coral! Aí
eu vou fazer de tudo, pras rezas de maio, pra copiar, mode dá a ela, pra ela
aprender (Maria de Lourdes).49
Sendo que durante toda sua vida, enquanto rezadeira de ofício e novena, ela aprendeu e
contou com a técnica de memorizar as diversas orações e cantos: “Quando eu vejo uma reza e
eu não sei, quando eu escuto uma reza e me agrada, acho bonita, ai eu pego, vou... e, e decoro
todinha” (Maria de Lourdes). Volta-se aqui para a questão da poética, da beleza presente, aos
olhos de Maria de Lourdes, nas canções entoadas para a demonstração da fé. Que para ela e sua
geração, a oralidade (fala) serviu, porém ela consegue enxergar no registro (escrita), a
46
Trata-se de um programa do governo federal de alfabetização para jovens e adultos que se encontram fora da
chamada idade escolar. A estes são ofertadas aulas, geralmente, no período noturno ou em horas em que não
estejam trabalhando.
47
Entrevista a Maria de Lourdes da Silva, em áudio, pela autora em outubro de 2015.
48
Emily tem treze anos e está sendo preparada para ser catequista da comunidade, já iniciando aulas com as
crianças.
49
Entrevista a Maria de Lourdes da Silva, em áudio, pela autora em outubro de 2015.
68
importância para que outras mulheres, a exemplo de sua neta, sintam-se motivadas a
continuarem com a tradição.
Maria de Lourdes iniciou já na velhice seus estudos no ensino formal. Percebemos nela
que a preocupação com o escrito foi um estímulo para ir à escola aos 70 anos. O ambiente, além
de ser socializador, lhe possibilita a alfabetização, embora já tenha estudado quando criança,
pelas mãos de parentes mais próximos.
No entanto, os novos métodos de ensino causam-lhe estranheza, e, sobretudo
desconfiança sobre o aprendizado das crianças nos últimos tempos. A forma como conheceu as
letras nas cartilhas, que ela chama de abc, é velha conhecida de muitos brasileiros:
Quando eu fui pra escola, não era professora não, era o cumpadi Olave da
Tia Elisa. Quando a gente aprendia o abc e ia ler um livro, já sabia muitas
coisas. Que o abc era soletrado. Não era como nessas escolas, que os menino
passa a vida todinha e não aprende nada (Maria de Lourdes).50
Esse método de soletração a que ela se refere é da metade do século XIX, marcado por
estudos voltados para a escolarização da sociedade brasileira. Caracterizados, sobretudo, pelo
debate em relação ao tempo necessário para a alfabetização. Sendo o ensino primário e a
profissionalização da docência, além dos conteúdos, o maior interesse. Esse último voltado para
além da própria alfabetização, contendo uma carga moral, cívica e religiosa.
O apoio didático-pedagógico estava justamente no que foi mencionado por Maria de
Lourdes: as Cartas do abc, as Cartilhas Escolares Portuguesa e as Cartilhas Escolares Nacionais.
Segundo Corrêa (2012), esse fato de lembrar-se das cartas ou cartilhas do abc é recorrente, há
diversos trabalhos de caráter bibliográfico e principalmente literário, em que escritores
enfatizam a respeito, uns com saudade, outros com temor, considerando a rigidez dos
professores no passar dos ensinamentos.
Ainda é importante ressaltar, para entendermos, como um método do século XIX é
citado por Maria de Lourdes: o Brasil reeditou com poucas modificações exemplares, a Carta
do abc, até os anos 50, do século XX. Contendo valores morais, orações da doutrina cristã,
noções de aritmética, leitura e escrita, com algumas ilustrações, nem sempre contextualizadas
com a vida de crianças e jovens, que recebiam aprendizado escolar a partir desse material.
Provavelmente, Maria de Lourdes se referira à forma de aprendizado através do método
mais comum atualmente, que é o alfabético, sendo que as Cartas do abc adotaram o método
fonético. Quando ela recita uma das chamadas lições do abc, assemelha-se a um canto: “A
50
Entrevista a Maria de Lourdes da Silva, em áudio, pela autora em outubro de 2015
69
preguiça é a chave da pobreza! O que não ouve conselhos raras vezes acerta!”. As formas de
ensino atuais evidentemente causam estranheza para aqueles que frequentaram a escola ou
outras formas institucionais de ensino, porém, embora diferentes, é inegável o aprendizado,
pois os dois métodos citados, mesmo com toda carga política e ideológica contida, não deixam
de cumprir a principal tarefa que é ensinar a ler e escrever as crianças, os jovens e até mesmo
os adultos. Além dos estudos do professor Corrêa e do pernambucano Landelino Rocha,
houveram outros, porém, esses dois foram os mais influentes, sendo que Landelino Rocha foi
responsável pelo Livro de Leitura ou Carta do abc para uso da infância, predominante nas
regiões Norte e Nordeste do país.
4.7 O cuidar entre as mulheres
Na segunda seção deste trabalho já expus sobre as práticas solidárias observadas em
Lagoa da Areia dos Marianos. Neste instante, reafirmo esses conceitos, agora, nas atividades
das mulheres, tomando as narrativas de Maria Anunciada, Maria de Lourdes e Rosilene Rosa.
São falas marcadas pela memória, de ações em que mulheres saíram em auxilio à outra, sendo
o costume do lugar, que em alguns casos começou cedo, ainda na infância: “Eu pequena, eu
sozinha, mas, preste atenção, eu pequena, mas uma pequena que eu queria tá ajudando, queria,
gostava muito de servir, não olhava meu tamanho” (Maria Anunciada). A condição de estar só
e/ou cuidar de outra pessoa, “obrigou” Maria Anunciada a tomar atitudes “costumeira” a
adultos, embora tivesse a consciência de que era uma criança, aliás, ela possuía uma extrema
compreensão disso, ao dizer: “não olhava o meu tamanho”, sabia também que era capaz de
cuidar de si mesma e de outro.
O costume do cuidado se estende a outras mulheres de Lagoa da Areia dos Marianos, e
se afirma entre elas quando se trata de assuntos maternais, sendo comum durante o parto ser
acompanhada por outra mulher mais experiente, como: suas mães, as irmãs mais velhas,
geralmente mulheres que já haviam passado pela mesma experiência. Da mesma forma, após o
parto, durante as primeiras semanas de vida da criança, permanecendo na casa da mulher parida,
cuidando dos afazeres domésticos, ou ajudando a cuidar das outras crianças, Maria Anunciada
narra o episódio51 que a iniciou como cuidadora:
51
Presente em um recorte na narrativa de Maria Anunciada apontando para os sinais. Jaques Ravel, quando se fez
autor do prefácio da obra de Giovanni Levi (2000, p. 25), Herança imaterial: trajetória de um exorcista no
Piemonte do século XVII, aponta para o resgate de acontecimentos minúsculos, compreendendo e modulando a
trajetória, onde se deposita uma grande história. Ele se refere à escolha de Levi, em contar sobre um pequeno lugar,
Santena, uma comunidade camponesa, na Itália, onde o regular, o cotidiano e o vivido são notáveis para o fazer
historiográfico. Nesse sentido, Ravel chama de os “cansaços de Clio” (LEVI, 2000, p. 12), que apontam para
70
Uma senhora ganhou nenê, ficou muito doente. Num era que nem hoje que
tinha quem cuidasse. E eu fui até ela, pequeninha, naquele tempo criança não
tinha esse direito de chegar perto de uma pessoa adulta e dizer nada, né?
Mais eu cheguei:
- Dona Maria a senhora tá precisando de alguma coisa?
Ela falou:
- Anunciada mia fia você não pode me ajudar.
Eu disse:
- Posso, Dona Maria, eu vou lhe ajudar, eu vou lhe ajudar.
Ela tinha a criança, ela não tinha amamentado e ela tava com as mama cheia
e muita febre, vermelha. Eu disse:
- Falei, a senhora deixa eu lhe ajudar, pra senhora ficar boa?
Ela disse:
- Mia fia você tem coragem?
Eu disse:
- Tenho! Tô aqui pra lhe ajudar.
Fui, tirei tudo, desmamei. Ela me deu a água, eu lavei minha boca e disse:
- Mais tarde eu quero vê a senhora.
Ela tava com uns três dias que ela não dormia. Essa tarde, ela dormiu à tarde
todinha. Chegou à noite, depois ela pegou a criança botou pra amamentar,
não teve mais problema.52
Esse ato consiste em retirar o leite quando a mulher parida encontra dificuldade em
amamentar. Geralmente a outra mulher que está como cuidadora faz o desmame com a própria
boca. A prática do cuidado entre as mulheres, segundo Alves (2011): “destaca-se um
protagonismo da mulher nos espaços e tempos sagrados, sendo receptáculo em si do simbólico
[...] a relação entre as mulheres em momentos de nascimento, expressando uma espécie de apoio
mútuo”. 53 Assim, as formas tradicionais adquirem e conferem uma série de significados,
fundamentadas nos ritos de passagens, sendo as transformações sofridas pelo corpo. Existindo
ritos que são construídos e realizados após o parto, durante o resguardo, ou puérpera.
A experiência de Rosilene Rosa dialoga diretamente com este universo do parto
transcendente, cujo momento marca o tempo em que a mulher descobre os segredos que só
então pertencia às mães. Observa-se em sua narrativa a preocupação em contar, sem perder a
ênfase na importância dada à prática da comunidade. Sem ingenuidade, ela presume o valor de
sua narrativa e inicia sua fala dizendo:
outros rumos, daqueles, que parecem não ser um grande acontecimento, mas o é, sendo que uma das premissas
está no campo das narrativas. O cotidiano é um instrumento importante, cujas consequências para a produção da
História não são poucas (LEVI, 2000, p. 10). E voltando-se para Maria Anunciada, quando em sua narrativa diz:
“Fui, tirei tudo, desmamei. Ela me deu a água, eu lavei minha boca”. O despojamento com que fala nos faz refletir
sobre o extraordinário no cotidiano.
52
Entrevista realizada a Maria Anunciada, em áudio pela autora em junho de 2015.
53
A experiência das mulheres contém sempre a experiência de outras mulheres e esta experiência vem
sendo transmitida oralmente, por gestos, olhares e narrativas. As mulheres foram e são construídas com
palavras. Neste processo de construção identitária, a imaginação e a justiça são instrumentos
possibilitadores de narrativas (MENEGHEL et al, 2013, p. 113).
71
Devido aos costumes da nossa comunidade, desde as nossas avós ou
bisavós [...]. Vou falar um pouco do parto, dos cuidados que as
mulheres têm com a puérpera, logo após o parto. Já começa desde a
maternidade. Antes era em casa, até minha mãe há vinte poucos anos
atrás, pela dificuldade de transporte pra ir à maternidade, as mulheres
ganhavam, por assim dizer, em casa, paria em casa e do modo mais
tradicional, que é o parto normal (Rosilene Rosa).
As próprias condições econômicas e sociais “obrigaram” as mulheres a desenvolverem
métodos para ajudar outras mulheres a parir, transformando-se, segundo Rosilene, em uma
tradição em preparar a futura mãe para receber o filho, os cuidados com o corpo, e as percepções
posteriores ao parto.
É nesse período, em que o costume recomenda, que outra mulher cuide e ensine à jovem
mãe. Essa repassadora do conhecimento deve ser alguém que já passara pela mesma
experiência. Nesse caso, há a necessidade de uma pessoa experiente para confirmar o ritual,
uma detentora de conhecimentos específicos nas práticas do cuidado com o corpo da mulher no
período. Os mecanismos envolvem desde os primeiros momentos, seja o parto em casa e/ou na
maternidade:
Minha mãe foi comigo, me acompanhou logo após o parto. Na enfermaria, e
um cuidado que a gente ver que se diferencia das outras, o jeito que é tratada
na maternidade, ou mesmo no hospital. Era a questão do banho, que não
podia, não podia lavar o cabelo, não podia tomar banho do corpo todo.
Então, ela me orientou para não tomar banho, só quando chegar em casa e
lavar o cabelo, como dizem. Só me banhar. Teve esse cuidado. Esse foi o
primeiro ponto que eu achei importante, que é um costume delas (Rosilene
Rosa).
As mudanças acontecem a partir do momento em que a mulher não pari mais em casa,
e sim na maternidade, onde os costumes não são praticados, mas, para que os ritos não
deixassem de acontecer, as mães ou sogras, acompanham o parto, para que não se quebre o que
elas chamam de resguardo, pois é nesse resguardo que reside dentro do contrato, à saúde da
mulher e a não realização desse resguardo, acredita-se que haverá sequelas para sempre em sua
vida.
Considerando que a eficácia do ritual (STRAUSS, 1975) dos cuidados possui seu efeito
dentro do ritual, fora dele não há restrições, tendo visto, por Rosilene, que algumas mulheres
não seguem essas práticas. O ritual possui regras, proibições, e a eficácia reside justamente na
proibição.
72
Existe no Brasil uma Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares, que
aponta para a saúde a partir dos conhecimentos tradicionais, a exemplo, do trabalho de mulheres
que cuidam de outras mulheres quando estas irão parir e após o parto:
Com efeito, observa-se que no Brasil a assistência à parturiente se caracteriza
por altos índices de intervenções, destacando o fato de que no ano 2000 o
número de cesáreas chegou a 38% do total de partos, em 2008 o país foi
considerado um dos líderes mundiais em cesarianas, com taxas que variaram
de 32% em 1994 para 52% em 2013. [...]. No contexto da atenção à saúde
materna, a assistência ao parto configura-se por práticas pautadas no modelo
biomédico; propõe a institucionalização da mulher e o excessivo número de
procedimentos, distanciando-se do modelo humanista [...]. No Brasil, a
maioria dos hospitais e maternidades não oferece espaço para uma prática
centrada nas necessidades da parturiente, visto que a capacidade técnica e o
poder social de agir legitimamente em nome da ciência impõem os critérios
de lidar o corpo da mulher, impingindo um tipo de violência simbólica que a
despersonaliza (SILVA, et al, 2005, 108-109).
Existe, portanto, uma Lei (Lei nº 11.108), que recomenda a presença de uma
acompanhante à gestante no momento do parto, evidenciando o suporte da doula54, que consiste
em:
[...] dispor de um suporte emocional, apoio físico, suporte de
informações e apoio as decisões, redução da ansiedade, sustento
psicossocial, proteção emocional, encorajamento e diminuição do
estresse, intervenções preventivas e promoção da segurança, confiança,
encorajamento e calma (SILVA, et al, 2016, p. 109).
Em relação à Rosilene, sua mãe a acompanhou e o resguardo ao qual foi submetida é
chamado de “resguardo meio aberto”, significando que aconteceram algumas exceções, a
começar pelo fato do parto ter sido na maternidade e ter sido por cesárea. O “resguardo fechado”
é aquele em que as mulheres da comunidade, após o parto, ficavam praticamente
incomunicáveis com o mundo exterior, como conta Rosilene:
54
Do grego: mulheres que servem. Essa [...] função na assistência ao parto começa a aparecer no Brasil nos últimos
anos, embora já seja usada há muito tempo em países do mundo todo. [...] "doula" indica aquela que dá suporte
físico e emocional à parturiente. Antigamente era comum a futura mãe ser assistida ao longo do trabalho de parto
por outras mulheres mais experientes, vizinhas, parentes, mulheres que já tinham filhos e já haviam passado por
aquilo. Conforme o parto foi sendo tratado como assunto médico, os eventos foram ocorrendo basicamente em
hospitais e maternidades, com a assistência de uma equipe especializada: o médico obstetra, a enfermeira obstetriz,
a enfermeira ou auxiliar de enfermagem, o pediatra. Cada um com sua função bastante definida. Ficou uma grande
lacuna: quem cuida do bem estar físico e emocional daquela mãe que está dando à luz? Essa lacuna pode [...] ser
preenchida pela doula ou acompanhante do parto. Apesar de ser uma função antiga, é paradoxalmente, hoje em
dia que uma acompanhante de parto se torna imprescindível. O ambiente mecanizado de grandes hospitais e a
presença de grande número de pessoas desconhecidas tende a fazer aumentar o medo, a dor e a ansiedade na hora
do parto. Se o parto é também um momento emocional e afetivo, é de apoio igualmente emocional e afetivo que
uma mulher precisa (ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DOULAS).
73
As mulheres depois do parto ficavam dentro do quarto, os ouvidos tapados,
não saíam pra nada, dentro do quarto, pois era um resguardo muito fino,
muito fino mesmo, só saía depois de quinze dias do quarto (Rosilene Rosa).55
Aqui o fator biológico das mulheres obedece a lógicas culturais específicas, quando
referem-se às relações sociais estabelecidas, o corpo, ou melhor, o cuidado com o corpo,
transborda numa produção de sentidos, da geradora da vida, que agora descansa após nove
meses de gestação, mas também tem a ver com ideais de identidade e de gênero, em relação à
mulher e os seus rituais de passagem, onde nesses ritos contêm regras, crenças e costumes.
Que eu acho muito importante, acho não, é importante a gente ter esses
cuidados e permanecer vivo, esses costumes, essas tradições. Não só eu como
minha filha, quero um dia passar para as minhas filhas também, se Deus
quiser, quero passar isso, pra isso não se perder (Rosilene Rosa).56
Nesse sentido, para além dos círculos biológicos, mas de cultura socialmente construída,
por definição cultural, a mulher nasceu para ser mãe, essa não é sua escolha, é seu destino,
mesmo quando a criança, se quer compreenda certos fatores, como matrimônio, maternidade, e
assim por diante. A ela já é dada a condição de receber os ensinamentos.
Percebe-se que, as identidades de gênero, ou “o masculino e o feminino são
culturalmente demarcados”, a menina será mãe, inevitavelmente. Dentre tantos processos
reservados pela natureza, a incorporalidade feminina absorve com muita força essa posição de
gênero dentro do universo patriarcal da comunidade. Com efeito, o corpo feminino, enquanto
materialidade, está aberto para inscrições culturais.
Considerações feitas pela antropóloga Silvia Martins (2003), no trabalho etnográfico
com as mulheres Kariri-Xocó, uma etnia presente no estado de Alagoas, às margens do Rio São
Francisco, encontramos aspectos em comum à narrativa de Rosilene. A autora considera que a
partir do “contexto e aspectos fenomenológicos, simbólicos, políticos e culturais”, e da
“incorporação” da subjetividade feminina Kariri-Xocó, é possível observar o quanto os códigos
culturais “ditam” e confeccionam certos rituais sobre o corpo. Esses aspectos são identificados
na narrativa de Rosilene em Lagoa da Areia dos Marianos, que se “prende” às crenças: “esses
costumes, essas tradições, [...] não se perder” (Rosilene Rosa), não só pensando nas filhas
como detentora do “poder” da maternidade, mas como garantia e resistência dos costumes.
Os rituais de nascimento, que contam com a solidariedade entre as mulheres, unindo-as,
nos saberes com os cuidados com a mãe, a criança e os fazeres domésticos, especificam
55
56
Entrevista realizada a Rosilene Rosa da Silva Pereira, em áudio, pela autora, em dezembro de 2015.
Entrevista realizada a Rosilene Rosa da Silva Pereira, em áudio, pela autora, em dezembro de 2015.
74
domínios estabelecidos e dados às mulheres, sendo uma tarefa de mulher para mulher. Nesse
caso, os homens são dispensados, são “assuntos femininos”, “coisas de mulher”, como relembra
Rosilene:
Então a gente veio pra casa, ela ficou comigo, permaneceu comigo quinze
dias, em casa, dia e noite, não só pra ter o cuidado com a alimentação e com
os cuidados com a casa, mas também para me ajudar com o neném (Rosilene
Rosa).57
Esses laços de generosidade, as quais as mulheres são afetadas nesse período de gravidez
e parto, foram vistos na passagem bíblica do Livro de Lucas (Lc, 1- 56), quando Maria visita
sua prima Isabel, que espera dar à luz a João Batista, permanecendo com Isabel três meses. De
Nazaré até as montanhas de Judá são mais de 100 quilômetros (MESTERS E LOPES, 1998),
O ato de acolher a condição da outra é muito revisitado em Lagoa da Areia durante as novenas
do mês de maio, refletido nos cantos e nas leituras de catecismo ou bíblica, se tratando do
encontro entre as duas mulheres em um momento comum da vida humana: se visitando para se
ajudar. As palavras de Isabel, dirigidas a Maria até hoje, fazem parte do salmo mais conhecido
e mais rezado da América Latina, que é a Ave Maria. 58
Herdeiras de rituais domésticos, nesse caso, as mulheres em Lagoa da Areia dos
Marianos crescem no meio desses saberes e aprendem umas com as outras compreendendo,
portanto, que são construções com base em processos de resistência tais potencialidades
existentes. Segundo Rosilene:
A gente tem que seguir, é como eu falo sempre para as meninas, quando
começa quatro ou cinco mulheres conversando sobre o parto, sobre como foi,
como não foi, “olha eu fiz assim, assim, me senti bem”. Eu creio assim,
57
Idem.
58 “Alguns dias mais tarde, Maria foi apressadamente às terras montanhosas da Judeia, à vila onde Zacarias
morava, para visitar Isabel. Quando Maria saudou a prima, o menino de Isabel saltou no seu ventre, e Isabel ficou
cheia do Espírito Santo.
Com grande contentamento, Isabel exclamou, dirigindo-se a Maria: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é
o filho que estás a gerar. Grande honra é esta, a de ser visitada pela mãe do meu Senhor! Quando me deste a tua
saudação, no momento em que ouvi a tua voz, o menino saltou de alegria dentro de mim! És feliz por teres crido
que Deus cumpriria as coisas que te foram ditas.
E Maria respondeu:
“Oh, como eu louvo o Senhor! E quanto me alegro em Deus, meu Salvador! Porque reparou na sua humilde
servidora, e agora, por todas as gerações, serei chamada bendita de Deus. Pois ele, o Deus santo e poderoso, me
fez grandes coisas. A sua misericórdia estendesse para sempre a todos os que o temem. Como é poderoso o seu
forte braço! Como faz fugir os orgulhosos e os arrogantes! Arrancou os príncipes dos seus tronos e exaltou os
humildes. Fartou os famintos com coisas boas e mandou embora os ricos de mãos vazias. Socorreu o povo de
Israel, que o serve! Não esqueceu a sua promessa de se mostrar compassivo. Porque prometeu aos nossos pais,
Abraão e seus filhos, ser misericordioso com eles para sempre.”
Maria ficou com Isabel cerca de três meses e depois voltou para casa”.
75
quando a gente tá num ambiente, tem que seguir aquele jeito, aquele regime,
como dizem, o resguardo fechado, ou meio aberto, como dizem, “ah pode
comer isso, pode comer aquilo”. Mas acho que cada um tem que seguir o seu
regime, tem que seguir aquele jeitinho, aquele costume, eu acho que isso é
que vale (Rosilene Rosa).59
A troca entre mulheres, em conversas cotidianas, se desdobra nas próprias práticas, e
interage com o reconhecimento coletivo para a eficácia simbólica do ritual (STRAUSS, 1975),
ao revelar que existe um regime próprio que se difere do hospitalar e quando diz que o regime
correto é aquele que é realizado pelas mulheres da comunidade.
Existe uma base de confiança entre as mulheres mais jovens em relação as mais velhas.
As experiências de vida contribuem para essa conexão entre elas. Os ensinamentos, o cuidado
com o próprio corpo e com a criança recém-nascida.
Esse meio de transmissão possui um poderoso elixir, cujo teor reside na complexidade
do cotidiano, que, em se tratando de Rosilene Rosa fortaleceu seus laços femininos, sendo ela
pedagoga e praticante da ciência do educar formal, considera os costumes e ensinamentos das
matronas60, no caso sua mãe, como o ensinamento que deve permanecer vivo na comunidade.
Mais uma vez apela-se, aqui, para a eficácia simbólica presente nos rituais.
Certos momentos, como o do parto, por exemplo, vivenciá-lo em casa possui
originalidade, familiaridade e sossego, pois a mulher está entre as mulheres de sua confiança,
além de: “é rudimentar, é natural e é bonito, porque foi em casa” (Rosilene). Compreendendo
essas circunstâncias, além de sua natureza orgânica, possui sua beleza, e sua poética.
O tempo da medicina convencional modifica o fazer, traz novos olhares e recomenda
não praticar os costumes, se contrapondo aos códigos femininos, incorporados a partir de
vivências e transformados em um patrimônio cultural e simbólico entre gerações de mulheres.
Rosilene sobre isso confere: “hoje em dia tudo está diferente”. Teria o aparato hospitalar o
poder de assegurar a essas mulheres um parto humanizado?
Alguns processos demarcam o corpo feminino e a cesárea contribui para a fragilização
quanto à integralidade proferida pela maternidade. “só sabe ser mãe quando tiver um parto
normal”, dizia a mãe de Rosilene, e mais: “que você vai sentir toda dor, você vai sentir mesmo
a criança nascer, chorar” (Rosilene Rosa). Compreendendo que existe, além dos fenômenos
corporais biológicos, toda a carga simbólica de ser mãe. O corpo sente, se contorce em dor,
isso está ligado a uma naturalização da ideia de ser mãe.
59
60
Entrevista realizada a Rosilene Rosa da Silva Pereira, em áudio, pela autora, em dezembro de 2015.
Mulher casada. Mulher de idade madura, respeitável pela idade e pelo procedimento.
76
Sobretudo esse ínterim refere-se aos cuidados com o corpo, a mulher parida encontrase predisposta a enfrentar fraquezas da mente. O cuidado que protege é o mesmo que a enjaula,
uma vez que a isola do mundo externo. São quarenta e cinco dias em pleno repouso, com banhos
e alimentação específica, jejum de sexo, e ouvidos tapados. O descumprimento leva a “quebra
do resguardo”, um dano para toda a vida. O temor ao corpo doente, a loucura, interferindo
diretamente no seguimento dos cuidados.
A narrativa de Rosilene Rosa, se emparelha à vida de outras mulheres. Há vozes de uma
comunidade, de mulheres que se reúnem para cuidar umas das outras e trocar suas vivências.
Um relato de si, cheio de sua mãe, de sua avó, de sua sogra. Uma voz que sai pluralizada,
“grávida” de alteridade e carga de saberes.
4.8 Memória das narradoras
A “recriação” do passado tem nas pessoas idosas um abrigo que pode ser investigado,
cuja experiência constitui-se de histórias vivas, inclusive quando buscam repor sua energia e
seu protagonismo. A memória da sociedade, a qual Ecléa Bosi (1994) se refere, em que os
velhos quando diminuem ou perdem sua efetividade operante cabe-lhe a função de lembrar e
de ser memória da comunidade, como podemos perceber na narrativa das duas Marias: Lourdes
e Anunciada.
No domínio das lembranças dos velhos residem as narrativas das histórias de outrem, e
enquanto se ocupam, reconstroem, contam, revisitam essas saudades, e se apoderam de sua
própria história, quando a morte se faz presente, mas se torna lembrança. Percebemos:
Todas as histórias contadas pelo narrador inscrevem-se dentro da sua história,
a de seu nascimento, vida e morte. E a morte sela suas histórias com o selo do
perdurável. As histórias dos lábios que já não podem recontá-las tornam-se
exemplares. E, como reza a fábula, se não estão ainda mortos, é porque vivem
ainda (BOSI, 1994, p. 89).
Seguir refazendo os costumes, enquanto uns desaparecem. Maria de Lourdes se lembra:
“a Eva uma pessoa tão boa, acabá foi simbora num instante”, (Maria de Lourdes) uma vez que
o mundo só acaba para quem morre, e mesmo assim, esses se tornam lembranças. Fazem parte
das narrativas, são peças de uma existência, a qual refletem em ações do presente, da vida, das
coisas que foram construídas em conjunto, risos, trocas, celebrações, desde o pedaço de bolo
dado como agrado à amizade, ao momento do adeus. Resignada com o sofrimento, e esperando
77
a outra vida, “Feliz daquele que sofre com paciência. Quem não sofre não tem salvação. Então
eu não tenho medo de sofrer” (Maria de Lourdes), justifica o sofrimento no presente.
A fala mantida sobre o passado se consiste na memória, nela há uma percepção de
tempo, como lembra-nos Bosi (1994, p. 56) que, “o instrumento decisivamente socializador da
memória é a linguagem”. Dessa maneira, não será possível construir uma narrativa sem o
trabalho exaustivo da fala, e como ela se anuncia.
Se tratando, por exemplo, de Maria Anunciada, o que se percebe é que ela possui certa
confiança de que a sua fala dirá sobre sua imagem e sobre o universo que a rodeia. E na
construção da mulher cartomante e benzedeira está presente uma memória que reúne os efeitos
causados na abertura do seu estado sensitivo. Quando tomou forma adulta, as brincadeiras
foram substituídas não só pelo trabalho, mas pelos questionamentos, sobre de onde vinham as
vozes, sensações inexplicáveis em seu interior:
Ah! Meu Deus, eu tô doida, oxe! Porque eu tô assim? Que isso meu Deus, que
conversa aqui? Eu tô sozinha...? Até que um dia eu dei uma carreira com
medo. Eu dei uma carreira. Corri pra casa. Eu tava varrendo os terreiro,
corri pra casa. Falei: meu Deus, será que eu tô ficando doida? Não, agora
não meu Deus (Maria Anunciada).61
A memória de Maria Anunciada está marcada por diversos momentos em que ela recorre
à compaixão divina, para dar conta do misto causado, fazendo-a desconfiar, se o que lhe
acontecia tratava-se de um dom celestial dado por quem ela mesma chamava de “Divino Pai
Eterno”, ou, eram sensações esquizofrênicas, pensamentos e impulsos que lhe eram impostos
por forças externas desconhecidas.
Desse modo, o que aqui fazemos é identificar e compreender como são construídas as
memórias, que são responsáveis pelo sujeito do presente, que no âmbito das representações,
como destaca Chartier (2002, p. 17), tentamos através de nossos discursos, justificar e legitimar
nossas práticas. O que nos faz crer que Maria Anunciada se impõe, pela concepção de que sua
luta, seu trabalho e o fato de estar quase sempre sozinha, forjou a mulher que hoje tornou-se.
Quanto a Maria de Lourdes, a lembrança que a persegue é a da jovem com obrigações
domésticas que a impedia de praticar o seu ofício com mais afinco, pois as ocupações com a
casa, os filhos e o marido tomavam-lhe muito tempo. À mulher são “dadas” culturalmente e
socialmente, muitas tarefas, as quais independem do seu querer. Por ser mulher, em uma época
e um lugar, onde o discurso da emancipação feminina não se conhece, pelo menos é o que nos
indica Maria de Lourdes, em uma fala penosa e poética:
61
Entrevista realizada a Maria Anunciada, em áudio pela autora em junho de 2015.
78
Quando eu comecei a rezar, ainda era nova, sabe? Depois que eu casei, a
gente para um pouco, porque tem muito o que fazer. Tem os filhos, vai pra
roça, aí chega enfadado. Era pra costurar, era pra remendar, era pra dá de
comer, ir pra roça, ajeitar os filhos. Aí a gente se passava e quando ía dormir,
não tinha nem mais coragem de ir rezar (Maria de Lourdes).62
As labutas diárias suprimiram diversas vezes as forças para fazer aquilo que lhe era tão
caro e o que também era um lazer e um prazer. Tendo a mente não suportado ao corpo cansado,
faltou-lhe a consciência e Maria de Lourdes foi internada no Hospital Escola Portugal
Ramalho 63 , onde permaneceu lá por um período, sendo diagnosticada incapaz do convívio
social. Neste hospital puseram-lhe um rosário sem motivo aparente, talvez na tentativa de
humanizar a loucura.
Vivendo em um espaço restrito e quase sem comunicação efetiva com os outros e com
o mundo, restou-lhe as contas do rosário: “eu pegava o rosário lá, ai largava o pau a rezar, lá,
no, no... hospital. Rezava, rezava, rezava...” (Maria de Lourdes). Criando mecanismos com o
mundo transcendente, a partir do que aprendera desde menina, Maria de Lourdes rezava.
A sua atitude nos lembra Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), não porque ela tenha
criado obras de arte, mas como o Bispo, que foi internado na Colônia Juliano Moreira, ambos
se mantiveram pela capacidade criadora, intelectiva para reproduzir e reorganizar seu dia a dia.
Ele criou mais de mil peças com materiais do cotidiano64. Ambos, movidos pela fé, numa busca
incessante pela razão que contém uma poética65 surpreendente, criando representação/imitação
na rotina. Os remédios para manter o humor sob controle, no caso de Maria de Lourdes, tiravamlhe a lucidez, dada apenas pelo ato de concentrar-se nas orações repetidas, durante a reza do
rosário. Ela sacralizava seu cotidiano para manter-se sã. Ambos buscaram o encontro com o
divino. Um na reza, o outro na arte. Recriando singularidades para representar o mundo para
viver e suportar as duras penas do internato.
Quando voltou ao convívio da família e da comunidade, Maria de Lourdes manteve-se
nas atividades sacras e a seu modo foi constatando as transformações ocorridas nas formas de
62
Entrevista a Maria de Lourdes da Silva, em áudio, pela autora em outubro de 2015
Hospital psiquiátrico. Existe desde 1956. Localizado em Maceió. O Hospital-Escola Portugal Ramalho é o único
nesta categoria no estado de Alagoas que é público.
64
Nascido em Japaratuba, Sergipe, em 1909. Arthur Bispo do Rosário é considerado um louco e um gênio. Na cela
de um Hospital Psiquiátrico, com agulha e linha, bordou estandartes com fragmentos de tecido. As linhas azuis,
desfiava dos velhos uniformes dos internos, e objetos tais como canecas, pedaços de madeiras, arame, vassoura,
papelão, fios de varal, garrafas e materiais diversos, obtinha em refugos na Colônia Juliano Moreira, onde
encontrava-se internado (MUSEU Bispo do Rosário Arte Contemporânea, 2015).
65
Para os gregos clássicos a poética designa criação criadora, fabricação ou ação de fabricar, tem a ver com
produção, ou ação, poesis, geralmente aplicada a poesia e a outras artes (ARISTÓTELES, 1992).
63
79
organizar as rezas na capela, pertencente agora a oficialidade da Igreja Católica, onde segundo
ela, o padre responsável pela celebração das missas vem mudando os costumes da comunidade:
E o padre não quer dizer missa não! Se for uma de finado, pra ele vim dizer!
Hum, vem não! Só se arrumar, dois ou três finados, pra ele dizer uma só. [...]
Mas, como a gente tinha costume, pra’quele finado que morreu, que
completou mês, não vem não.
- Pode tirar o cavalinho da chuva que eu não venho de jeito nenhum (Maria
de Lourdes).66
As mulheres de Lagoa da Areia dos Marianos exercem o ofício da reza das novenas e
animam a espiritualidade da comunidade, inclusive utilizando-se da oralidade, para
reproduzirem e construírem seus métodos para essa finalidade, tendo a ausência do clero
fortalecido esses saberes, mas as contradições sociais e culturais geram os dilemas,
fragmentando esses conhecimentos acumulados por gerações. A imposição da mudança no
costume pode originar fraturas irreparáveis, como a não realização de ritos centenários, uma
tragédia no interior daquilo que foi compreendido e contratado coletivamente.
A presença da igreja oficial, segundo Maria de Lourdes, deve ser para fortalecer a
religiosidade existente, e não o contrário. Essa imposição tem esvaziado a capela de Nossa
Senhora da Saúde, nas raras celebrações da missa, e no ano de 2015, a festa também não
aconteceu, pois segundo os moradores, a interferência do padre na forma de celebrar, proibindo
a banda de pífanos, por exemplo, impossibilita a realização dos festejos da padroeira, mas por
outro lado, a de São Sebastião, onde o clero não interfere, por se tratar de uma capela erguida
para falecidos e promessa, continua sendo frequentada por muitos moradores e comunidades
circunvizinhas.
Finalmente, as narrativas formam o exercício da comunicabilidade, (re)criando
linguagens, expressões, formas, conteúdos e jeitos de fazer, movimentando e problematizando
o que está posto e ordenado por uma maioria. O que eu quero dizer é que, essas três narradoras,
apresentadas neste trabalho, de certo modo, subvertem a ordem de um campo estabelecido,
confortável e convencional. A Ciência Histórica tem tentado alcançar por meio destas narrativas
uma História capaz de se encontrar com práticas complexas em meio à complexidade da vida.
66
Entrevista a Maria de Lourdes da Silva, em áudio, pela autora em outubro de 2015
80
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Chegar ao término de um trabalho de pesquisa, não significa dizer que todas as
perguntas foram respondidas. Seria leviano não considerar os questionamentos que deixaram,
por inúmeras razões, de serem feitos, ou ainda os que surgirão, tornando o campo e a abordagem
estudada ainda mais instigante.
Ao pesquisar os aspectos culturais e a religiosidade na comunidade Lagoa da Areia dos
Marianos, apoiada na oralidade como apreensão da sua memória, me colocou frente a alguns
desafios, visto que as investigações da ciência histórica encontram-se alicerçadas em fontes
documentais confiáveis, e sem dúvida, minha escolha mostrou-se extremamente desafiante,
assim que iniciei a investida de campo. Eu poderia ter trilhado por um momento ou um fato
histórico considerado importante para o país, onde eu pudesse investigar fontes em arquivos
públicos e até privados ou mesmo um elemento da cultura mais conhecido, a partir de alguma
abordagem pouco estudada, enfim, haveria e há sempre outros caminhos.
Contudo, sempre me foi cara aquelas obras cujo lugar, pessoas, costumes se tornaram
notáveis, pelo fato de ter sido motivo de estranhamento de algum estudioso, seja da História ou
de outra área das Ciências Humanas. Qual sentimento de maravilha fui tomada ao conhecer
obras tais como, O Queijo e os Vermes, de Carlo Ginzburg, ou Herança imaterial: trajetória
de um exorcista no Piemonte do século XVII, de Giovanni Levi, ou ainda, Guilherme Marechal,
ou o melhor cavaleiro do mundo, de Georges Duby, cujos protagonistas e tramas nos aguçam
os sentidos, tanto para os pesquisadores da História, como aqueles que a consomem. Eu ainda
acrescento D. Alice, Sr. Amadeu, Ariosto, Abel, Antônio, D. Brites. D. Risoleta, os quais,
tiveram suas experiências narradas em Memória e sociedade, lembranças de velhos, de Ecléa
Bosi.
Embora meu trabalho seja extremamente despretensioso, em relação a esses grandes
vultos que acabo de citar, posso dizer sem sombra de dúvidas: foram inspiração e vão continuar
sendo.
Este estudo me colocou em contato com diversos autores que contribuíram,
significativamente, tanto em aportes teóricos, como metodológicos. Minha maior preocupação
sempre foi ser mais fiel possível aos anseios da História Cultural, quanto a sua característica
interdisciplinar, tanto que estudei Literatura, Filosofia, Antropologia, Sociologia etc, a fim de
compreender o universo de Lagoa da Areia dos Marianos, resultando em um trabalho
preocupado com a historiografia, mas, com um texto onde deixei escapar certo lirismo. Com
81
esta particularidade, minha pretensão foi deixar o texto agradável à leitura. Sempre primei por
leituras de qualquer área, cuja composição tenha um pouco de delicadeza.
Baseada no modo empírico da pesquisa, colhi as narrativas de três mulheres, com vidas
diferentes, mas que se entrecruzam pelo menos em um aspecto: a busca por algo para além da
matéria, ou seja, elas buscaram transcender, seja pelo mágico-religioso, sejam nos lapsos de
lucidez, seja na manutenção do resguardo para manter-se sã. Elas tiveram suas dores e
redenções, partidas e chegadas, contos e cantos, de buscas e entregas, individuais, porém dentro
de uma pluralidade cultural, social e religiosa, as quais pertencem não só a elas, mas as gerações
de Lagoa da Areia dos Marianos.
As narrativas são representações da existência de Maria Anunciada, Maria de Lourdes
e Rosilene Rosa, as quais estão inseridas dentro de um sistema simbólico, ou seja, tem uma
veiculação com outros sujeitos de Lagoa da Areia dos Marianos. Pude compreender que a
religiosidade é parte fundamental para a eficácia desses valores simbólicos, tais como, a
consulta das cartas do baralho para diagnosticar problemas relacionados a doenças corporais e
da “alma”, ou a manutenção do calendário festivo religioso da comunidade, de novenas e festas
de santos, a culinária, os banhos e o repouso, nos cuidados do corpo.
Todavia, essas práticas culturais são também históricas, inseridas em um tempo e
espaço, sendo construídas e transformadas por sujeitos históricos. Um exemplo neste trabalho
é Rosilene Rosa, que desempenha um importante papel de mediadora simbólica, entre tradição
e modernidade, ela que é pedagoga, e mantém as práticas de resguardo após o parto, como lhe
ensinou sua mãe.
Lagoa da Areia dos Marianos não produziu “heróis nacionais”, também não está no
calendário dos feriados, nem possui facilidades de localização no mapa do Brasil, mas construiu
uma identidade, bordada com um jeito próprio de ser e de relacionar coletivamente.
A memória, todavia, é patrimônio de Lagoa da Areia dos Marianos e a História Cultural,
nesse sentido, nos coloca à disposição de metodologias e instrumentos que auxiliam na
investigação e a oralidade é a ferramenta que possibilita a construção de um trabalho desta
natureza.
As surpresas nas pesquisas de campo nos tomam como uma aventura deliciosa. A
princípio parece mais simples e seria, se não houvesse o Outro. Mas se ele é o principal motivo
que nos desperta e nos lança a investigação? Então, descobrimos que aquelas práticas sejam na
roça, nas relações familiares, de vizinhança e de fé, são de uma complexidade a qual é preciso
novos olhares e flexibilidade para refazer o caminho sempre que preciso.
82
Me encontrei diversas vezes diante de pessoas que tinham muito a dizer e que produzem
inúmeras práticas que foram iniciadas por seus pais ou avós e que aprenderam os vendo fazer.
Vi mulheres que não sabem ler e nem escrever e cantam durante três horas seguidas em latim.
Vi em suas palavras o medo da seca, que expulsou da comunidade tantos parentes. Mas também,
a alegria de pisar o pagode, e o festejar aos santos de sua devoção.
Tentei distinguir os cheiros, as texturas, as imagens e os sons que produzem muitos
efeitos, além daquilo que queremos ver, ouvir e sentir e, assim, poder entregar este trabalho que
não é só meu, mas de cada colaborador desta pesquisa.
Frequentemente, as mais vivas recordações afloravam depois da entrevista,
na hora do cafezinho, na escada, no jardim, ou na despedida no portão.
Muitas passagens não foram registradas, foram contadas em confiança, como
confidências. Continuando a escutar ouviríamos outro tanto e ainda mais.
Lembrança puxa lembrança e seria preciso um escutador infinito.
(ECLÉA BOSI, 1994, p. 39)
83
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88
ANEXOS
89
ANEXO A
Ladainha de Santo Antônio - (Para os festejos de Santo Antônio)67
Salve, oh! Antônio,
ouvir os rogos meu.
A misericórdia
alcançar de Deus.
Sois vida e doçura
dos vossos devotos.
Esperança certa
dos seus firmes votos.
Salve, Oh! Antônio,
atender os brados.
Destes filhos de Eva
tristes degredados.
Gemendo e chorando
pelos céus noturnos.
Vivendo nos vales
deste cruel mundo.
Voltai vossa face
Com olhar propício
Sobre os brasileiros
No santo exercício
Depois que acabarmos
67
Transcrito do caderno de músicas da Capela de Nossa Senhora da Saúde.
90
A vida presente,
Mostrai nossa alma
ao Onipotente.
Para merecermos
de Cristo também.
Gozar das promessas
para sempre amém.
91
ANEXO B
Maria, valei-nos! (Para ser cantada durante o mês de maio)68
Maria, valei-me
Aos vossos devotos,
Vinde, socorrei-nos!
Vosso amor se empenha,
Ó Virgem da Penha,
Penha donde emana
A Fonte vital!
Salve, Mãe de Deus!
Rainha Suprema
Sobre os Anjos seus!
Sois Mãe de concórdia,
De misericórdia;
Vida e doçura,
Esperança sois!
Ó Mãe do Senhor,
Excelsa Maria!
Ó Trono de amor,
Salve! Ouvi os brados
Que nós, degredados,
Da triste Eva filhos
Vimos suspirar!
Gemendo de dor,
68
Idem.
92
Chorando de mágoa,
Pedindo a Deus favor:
Neste vale triste,
Onde a pena existe,
De lágrimas cheias,
De miséria e ais.
Ouvi, eia pois,
Nossa Advogada!
Mostrai quanto sois
Olhos piedosos,
Misericordiosos!
A nós, degradados,
Terna Mãe, volvei!
Depois de acabar
O cruel desterro,
Dignai-vos mostrar
Jesus infinito,
Que é Fruto bendito
Desse feliz ventre,
Ó Mãe de Jesus!
93
ANEXO C
Ladainha de Nossa Senhora em latim (Para ser cantada no mês de Maio)69
Kyrie, eleison.
Christe, eleison.
Kyrie, eleison.
Christe, audi nos.
Christe, exaudi nos.
Pater de caelis Deus, miserere nobis
Fili, Redemptor mundi, Deus, miserere nobis
Spiritus Sancte Deus, miserere nobis
Sancta Trinitas, unus Deus, miserere nobis
Sancta Maria, ora pro nobis
Sancta Dei Genitrix, ora pro nobis
Sancta Virgo virginum, ora pro nobis
Mater Christi, ora pro nobis
Mater divinae gratiae, ora pro nobis
Mater purissima, ora pro nobis
Mater castissima, ora pro nobis
Mater inviolata, ora pro nobis
Mater intemerata, ora pro nobis
Mater amabilis, ora pro nobis
Mater admirabilis, ora pro nobis
Mater boni consilii, ora pro nobis
Mater Creatoris, ora pro nobis
Mater Salvatoris, ora pro nobis
Virgo prudentissima, ora pro nobis
Virgo veneranda, ora pro nobis
69
Idem.
94
Virgo praedicanda, ora pro nobis
Virgo potens, ora pro nobis
Virgo Clemens, ora pro nobis
Virgo fidelis, ora pro nobis
Speculum justitiae, ora pro nobis
Sedes sapientiae, ora pro nobis
Causa nostrae laetitiae, ora pro nobis
Vas spirituale, ora pro nobis
Vas honorabile, ora pro nobis
Vas insigne devotionis, ora pro nobis
Rosa mystica, ora pro nobis
Turris Davidica, ora pro nobis
Turris eburnea, ora pro nobis
Domus aurea, ora pro nobis
Foederis arca, ora pro nobis
Janua caeli, ora pro nobis
Stella matutina, ora pro nobis
Salus infirmorum, ora pro nobis
Refugium peccatorum, ora pro nobis
Consolatrix afflictorum, ora pro nobis
Auxilium christianorum, ora pro nobis
Regina angeloru, ora pro nobis
Regina patriarcharum, ora pro nobis
Regina prophetarum, ora pro nobis
Regina apostolorum, ora pro nobis
Regina martyrum, ora pro nobis
Regina confessorum, ora pro nobis
Regina virginum, ora pro nobis
Regina sanctorum omnium, ora pro nobis
95
Regina sine labe originali concepta, ora pro nobis
Regina in caelum assumpta, ora pro nobis
Regina sacratissimi Rosarii, ora pro nobis
Regina pacis, ora pro nobis
Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi,
parce nobis, Dómine.
Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi,
exáudi nos, Dómine.
Agnus Dei, qui tollis peccáta mundi,
miserére nobis.
V. Ora pro nobis, sancta Dei Génitrix.
R. Ut digni efficiámur
promissiónibus Christi.
Orémus.
Concéde nos fámulos tuos, quæsumus, Dómine Deus, perpétua mentis et córporis sanitáte
gaudére: et gloriósa beátæ Maríæ semper Vírginis intercessióne, a præsénti liberári tristítia, et
ætérna pérfrui lætítia.
Per Christum Dóminum nostrum.
Amen
96
ANEXO D
Música cantada durante o pagode
(cantada em entrevista concedida por Toinho)
Rosa amarela olha ela como cheira,
rosa amarela moça bandoleira,
vem que eu quero te amar.
Ana vem cá, minha donzela querida,
que me vou tornar voltar.
Vou me tornar voltar pela força pesarosa,
pra meu botão de ouro, para me era gozar.
Não posso andar a pé,
só posso em carro embarcado,
naquela velocidade, lá pra cima do Sertão.
Não tenho embarcação,
mas tenho um carro Chevrolet,
uma máquina de pé, dois automóvel e um caminhão.
97
ANEXO E
Fotografia: Primeira Banda de Pífanos da Festa de Nossa Senhora da Saúde
Arquivo pessoal de: Edna de Souza Nunes Tenório.
98
ANEXO F
Fotografia: Banda de Pífano durante a Festa de Nossa Senhora da Saúde na década de
1980
Arquivo pessoal de: Edna de Souza Nunes Tenório
99
APÊNDICES
100
APÊNDICE 1
Calendário de festas em Lagoa da Areia dos Marianos
Festas/Celebrações
O que acontece
Festa do “Arlindo” ou
do “Alto de Pedra”
Salva de fogos,
banda de pífanos,
“esmola”, leilão,
novena, missa e
procissão
Salva de fogos,
banda de pífanos,
leilão, novena,
missa e procissão
Novenas,
procissões, vigílias
e jejum
Novena
Festa do Mártir São
Sebastião
Semana Santa
Novena de São José
Novenas de Maio
Novena de Santo
Antônio
Novena de São João
Novena de São Pedro
Festa da Mãe Rainha
Festa de Finados
Novena em
homenagem a
Maria (Ofício,
excelências,
ladainhas, flores e
velas)
Novena nas
capelas, fogueira
nas casas das
famílias
Novena nas
capelas, fogueira
nas casas das
famílias
Novena nas
capelas, fogueira
nas casas das
famílias
Salva de fogos,
banda de pífanos,
leilão, novena,
missa e procissão
Caiação de
catacumbas,
visitação ao
cemitério,
acendimento de
velas e missa
Grupo
organizador
Comissão
comunitária
Comissão
comunitária
Período/datas
11 de janeiro
18 de janeiro
Comunidade
Católica
Famílias
pagadoras de
promessas
Mulheres
rezadeiras
19 de Março
Comunidade
Católica
13 de junho
Comunidade
Católica
23 de junho
Comunidade
Católica
29 de junho
Todo o mês de
maio
Comunidade
Católica
Comunidade local
e circunvizinhança
02 de novembro
101
Festa da Padroeira
Nossa Senhora da
Saúde
Legião de Maria
Movimento Mãe
Rainha
Cultos
Futebol
Salva de fogos,
banda de pífanos,
“esmola”, leilão,
novena, missa
Reuniões,
recitação do
Rosário de Maria e
orações diversas
Peregrinação da
imagem da Mãe
Rainha a casa das
famílias
Orações, leituras
bíblicas
Jogos amistosos,
torneios e
campeonatos
Comissão
comunitária
26 e 27 de
dezembro
Legionários
Aos domingos
Famílias da
comunidade
Diariamente
Famílias
protestantes
Diretoria do time
de futebol CSA
Aos domingos
102
APÊNDICE 2
Narrativa de D. Maria Anunciada
Maria Anunciada, benzedeira e cartomante.
Ao tempo da entrevista: junho de 2015.
Eu pequena, eu sozinha, mas... preste atenção, eu pequena, mas uma pequena que eu
queria tá ajudando... queria... gostava muito de servir, não olhava meu tamanho, mas tudo que
eu queria fazer coisa boa, pensava muito nas coisa boa.
Fui crescendo, fiquei sem pai só com mãe. Vivia sozinha com Deus, primeiramente
Deus, porque ela tinha que trabalhar pra gente sobreviver, então a gente vivia. Ela trabalhava a
semana todinha, eu vivia sozinha. Mas o que eu fazia, eu passava a semana cuidando dos meus
dois irmãos pequeninhos.
Quando era do sábado, eu ia preparar um lugarzinho tipo um altar, já do sábado eu
começava, preparar tipo um altar, procurar flores, pra butar ali, e eu achava, eu encontrava. Eu
comecei fazer uns pedacinho de panos enroladinhos, achando que era um montinho de criança,
de gente. E eu tinha dia que eu sentia assim, tá doente, esse tá doente. Então eu pegava os
raminhos e ia benzer aquela bonequinha (riso).
Quando eu benzia ai eu dizia:
- Ah! agora aqui ela está bem.
Butava lá. No dia de domingo nove horas era uma obrigação dentro de mim, pegava
aquele montinho de bonequinha, eu mesma fazia as bonequinha, de todo jeitinho, mas pra mim
tava bem, eu aquelas bonequinha. Tem o meu irmão, outro mais velho do que o Severino, butava
dento do que ele fazia, carrinho de criança brincar, uns carrinho pequenininho, eu botava
tudinho, arrumava trocava a roupa, que era pra ir pra missa.
Era uma obrigação dentro de mim, eu levava pra missa, quando chega lá, olhe mia fia,
eu fiz uma altar de pedra, mas depois que eu fiz o altar de pedra ficou tão bonito! Eu ia pra o
rio, pra beira do riacho Traipú, num sei se ocê viu falar o Traipú, mas eu achava cada pedra,
parecida com a imagem, que não queria deixar ela lá, eu tinha que trazer aquela pedrinha, eu
tinha o lugarzinho certo pra eu colocar ela. E ali eu procurava flor que terminava, olha você,
num tinha diferença de um altar mais lindo do mundo!
Tudo bem. Passava a semana, eu fazer minhas obrigação, mas no sábo de tarde eu ia lá
no lugarzinho varrer alimpar, domingo levar pra missa.
103
Passou-se foi crescendo, trabalhando, muito nas casa das pessoa, aí, não pude fazer
aquela obrigação, mas peguei outra, outra, uma devoção que tinha que assim: eu ter um
momento assim de meia hora de oração, contra, assim de joelho, chegava aquele horário eu
tinha que fazer, ficar de joelho pedindo a Deus força.
Até que um dia eu falei assim:
- Meu Deus como eu queria conhecer o divino pai eterno, como eu queria conhecer, meu
divino pai eterno, pra eu saber como é o pai eterno.
Eu olhava pra o sol e dizia:
- É o sol, divino pai eterno é o sol.
Tudo bem. Quando eu fiquei moça, já tava moça feita, aí comecei, olhava as coisas
assim, Aí começava, vim na minha mente o que eu fizesse, como eu fizesse, que eu ajudasse,
não escolhesse a quem ajudar quem precisasse eu fizesse. Mas eu dizia assim:
- Ah! Meu Deus, eu tô doida, oxe! Porque eu tô assim? Que isso meu Deus, que conversa
aqui? Eu tô sozinha...?
Até que um dia eu dei uma carreira com medo. Eu dei uma carreira. Corri pra casa. Eu
tava varrendo os terreiro, corri pra casa. Falei:
- Meu Deus, será que eu tô ficando doida? Não, agora não meu Deus!
Aí passou. Quando foi depois, já foi vindo mais forte, foi vindo mais forte.
Uma senhora ganhou nenê, ficou muito doente. Num era que nem hoje que tinha quem
cuidasse. E eu fui até ela, pequeninha, naquele tempo criança não tinha esse direito de chegar
perto de uma pessoa adulta e dizer nada, né? Mais eu cheguei:
- Dona Maria a senhora tá precisando de alguma coisa?
Ela falou:
- Anunciada mia fia você não pode me ajudar.
Eu disse:
- Posso, Dona Maria, eu vou lhe ajudar, eu vou lhe ajudar.
Ela tinha a criança, ela não tinha amamentado e ela tava com as mama cheia e muita
febre, vermelha. Eu disse:
- Falei, a senhora deixa eu lhe ajudar, pra senhora ficar boa?
Ela disse:
- Mia fia você tem coragem?
Eu disse:
- Tenho! Tô aqui pra lhe ajudar.
Fui, tirei tudo, desmamei. Ela me deu a água, eu lavei minha boca e disse:
104
- Mais tarde eu quero vê a senhora.
Ela tava com uns três dias que ela não dormia. Essa tarde, ela dormiu à tarde todinha.
Chegou à noite, depois ela pegou a criança botou pra amamentar, não teve mais problema.
Passou. Depois já aparecia diferente o que eu fizesse. Fui crescendo comecei. Quando
foi um dia eu já grande, um senhor bebo, chegou bebo em casa deu um murro numa criança,
mais ou menos desse tamanho assim, e o menino começou a gorpar sangue, aí eu cheguei falei
assim:
- Seu Fernando porque o senhor fez isso? Com seu fio? Fernando pai, Fernando Filho.
Porque o senhor fez isso com seu filho? Faça isso não!
Ele aí, ele quis engrossar. Aí eu disse:
- Não! Eu só tô lhe dando um conselho. Venha aqui meu fio, venha aqui.
Aí cheguei pus a mão nas costas dele, aí rezei a oração de ataia sangue. Nunca tinha
visto! Mais Deus tocou em mim. Deus tocou e eu digo pra qualquer pessoa, a oração. Pus a mão
nas costas da criança e comecei a rezar, e ele foi parando aquelas gorpada de sangue, foi
parando, foi parando, depois deixei ele dormindo e fui me bora.
Cresci, me casei, passei a mãe. Ser mãe de família.
Chegou um momento de uma senhora sozinha pra ganhar neném, só se achou eu e ela.
- Meu Deus, o que é que eu faço meu Deus! Mas, se tais comigo, não me deixa sozinha!
Não fiquei sozinha (risos) era pra ajudar e estava aqui. Não! Não, temia nada! Pedia
força a Deus!
Passou, depois quando eu fiquei moça, aí eu digo:
- Ah! Eu num vou fazer isso mais não, pruque o pessoal vai mangar de mim... ôpa!
Ver o pensamento de mudar. Eu num vou fazer isso mais não, porque o pessoal vai
dizer, vai mangar de mim e eu num vou gostar.
Tudo bem. Ah! Mas num foi assim não, chegou um momento de eu no mês de janeiro,
muito gado, eu dento dum terreno e jogar uma bituca de cigarro e o mundode fogo. E o mundo
encheu de fogo mia fia! Foi só me ajoelhar:
- Deus é o pai do fogo e o fogo é filho de Deus, Deus pode com o fogo e o fogo não
pode com Deus. Entre o fogo e o perigo está nosso senhor Jesus cristo.
De joelho, quando foi com pouco o fogo fuuu... parou. Aí força de Deus. Força e fé de
Deus. Fiquei, fui rezando, fui rezando...
Quer saber de uma coisa? Eu num vou me esconder de Deus, não vou mais, seja feita a
vontade de Deus. Não, a minha e vou enfrentar e comecei benzendo. Comecei benzendo e as
pessoas foram me procurando.
105
Fui pra o Rio, lá foi que eu ajudei muitas pessoa, voltei pra minha terra, porque eu sabia
que na minha terra precisava muito. Só tem uma coisa, não gosto de nada de Xangô, não gosto
de nada de corte, não gosto de nada de encruzilhada.
Mia filha, num tem não. As coisas de Deus, olhe! As coisas é ruim, quando você aprende
as coisas errada, você vai buscar por livro, você vai aprender coisa que, né? Num agrada a Deus.
Não sou contra, também a ninguém, cada um meu filho tem a sua estrela que é dada por Deus.
Né por que queira não, é tudo vem, olhe! Não vem as coisas que seja do diabo não, que diabo
não pode com nada, num é? Mais cada cá carrega a sua cruz, cada cá carrega sua cruz. Num
digo nada aí, cada um é seu jeito ou é um trabalho. Ou tem uns que você sabe, que muitas coisas
precisa, precisa porque hoje a metade das coisas hoje, você ta vendo que tá partindo só do mal.
Só o mal que tá insistindo muito dirruba tudo, então outra coisa mais pesada que esse, que tá
aqui derruba aquele.
Olhe eu cheguei no Rio de Janeiro. Eu passei pra uma tendinha fazer umas compras,
quando eu voltei, eu vi uma... um cepo, tinha um cepinho, duas moleta ali, eu olhei quando eu
olhei, eu falei:
- Eita! Isso aqui é um despacho pro seu Pascal.
Era o meu patrão no Rio, ele é presidente de todo o Banco do Brasil. Ele lá. Quando eu
vim passando eu falei:
- Noé! Ali tem um despacho e é pra seu Pascal.
AÍ o filho dele tava mais Noé, Noé foi falou pra ele, pra João Mauro, ele falou:
- Aonde Dona Anunciada? Aonde é? Vamos me mostrar!
Eu falei:
- Na entrada da sede, olhe do lado esquerdo que tem.
E ele foi e encontrou. Quando ele chegou lá disse:
- De fato aqui.
Ali e ele foi procurar e encontrou.
Olhe meus fios, eu tinha levado daqui pra o Rio, eu tinha levado daqui pra o Rio um
Santo Ileno que eu ganhei de presente, e se eu disser a você que esse Santo Ileno doze horas o
braço dele torou... (riso). O bracinho dele torou. O que foi isso? Foi uma força que veio. Não
pode pegar em mim, num foi? Tirou ele.
E seio que tem pessoas que precisa, precisa porque tem pessoas que precisa do outo lado
pra se ajudar, precisa, é porque cada um segue o seu caminho que Deus dá. Vamos dizer, se
você é uma pessoa que tem esse lado e o meu não dá, quer dizer, que por causa de mim vai
deixar de seguir? Não! Vá em frente. Luta! Deus te deu porque sabe que você pode! Deus te
106
deu porque sabe que você pode! Eu não pude se ele me deu. Foi aquele lado, mas o seu foi
aquele, então você vai dizer: Ah! Eu vou me esconder por trás da porta, vá em frente, vá em
frente. É... Gente, olhe, nós somos... Cada um é cada um... E só Deus sabe tudo, e num é porque
nós queira não, Simone! Né não, quem somos nós? Mas nós tem que obedecer, tem que
obedecer.
E justamente como eu tava dizendo a você, e ele foi o que falei pra ele, ele achou. Foi
um trabalho muito forte e ele foi e achou. Sete colherzinha de pó de ouro pra desmanchar aquilo
ali, se não a fazenda, óia! Tinha ido água abaixo. Mas Deus, Deus viu que eu não podia entrar
ali, mas amostrou pra que eu podia cuidar, pois é.
É por que agora eu não tenho um papel grande que foi escrevido assim, de momento,
que vem da minha mente. Eu não estou com ele porque pessoas me pediu ele, pra você ver até
onde chega, e né porque eu queira não, agora vem aquilo ali e eu vou, mando se você tiver
comigo escreve isso aqui assim, assim, assim, que depois mia fia vão ver longe.
Peça a Deus, ói, eu peço a Deus por mim e por tudo eu num tenho, eu num tenho assim
negócio assim deu, ódio não guardo, ódio de ninguém, num tenho raiva não, não mora isso
assim dento de mim, não,não, não, não, me faz mal faz., ah! Eu vou rezar por aquilo, tais
precisando meu irmão! Num é ódio não, num é ódio não minha fia, nós tem ói, ói. Pra nós
querêamar a Deus, nós tem que ser, ói, tem que se libertá mesmo, é pra se libertá, é pra se
libertá. Ói, tem momento assim, que eu recebo cartas do divino pai eterno, que todo mês eu
recebo da Aparecida do Norte e de Goiás, meu filho, todos os meus assunto, meu Deus, vem
ali, e quando eu vou ler aquilo ali, parece que vive aqui comigo, e quem é, filha? Deus (risos)
Deus todo poderoso, num é?
Eu estou aqui, mas ele sabe as coisas que eu gosto, quer dizer que se vem assentada
aquilo ali tão direitinho, em cima do que eu penso, em cima do que eu faço, Deus, né? Vem da
Aparecida do Norte a mesma coisa, todo mês eu recebo, todo mês.Todo mês.
Sou muito feliz! Digo a você, na hora que Deus me levar, que for o momento que eu
vejo um daqueles sofrido, que chegou na minha casa e hoje é feliz, e Deus me levar eu vou
muito feliz. Eu disse aqui um dia, se Deus tivesse me levado nesse dia como o médico disse,
ah! Pra mim minha, não sentia dor (risos), quero o melhor pra mim e pra todos.
Então é ele quem vai dominar, num é nada ruim, porque eu sei que o dono de tudo é
Deus, Deus é vivo, então é dono de tudo, né”? Se ô, uma coisa ruim, promete uma coisa ele dá
e toma, e eu não quero nada, porque ele dá e toma. Eu quero que me dê e aumente a mim e a
todos.
107
E fui mia fia, e hoje estou aqui. Muita gente, é, muita gente, muita gente, muita gente,
muita gente! Mas graças a Deus eu sou feliz, porque já três vezes que eu também morri também
de emoção.Porque as pessoas chega, quando chega que me abraça que é aquela felicidade
grande, a minha pressão sobe demais. Já duas vezes fui pro hospital, e o médico disse:
- Maria Anunciada... Cê num vai aguentar essa emoção.
Mas eu estou aqui seja feita a vontade de Deus, na hora que ele me levar eu estou aqui,
pelas coisa boa eu to feliz (risos).
Às vezes eu digo assim... as meninas diz:
- Mamãe! Já tá no tempo da senhora parar...
- Como eu vou parar mia fia? Como que eu vou parar? Não! Deus é quem vai saber
quando é o momento de eu parar... Deus vai saber, agora eu não...
Às vezes eu fico pensando tanto, que é muita coisa, num é fáci não, não é faci, olhe não
é faci , não é faci, mas, de todo canto, ói, eu digo a você de todo canto, de todo canto eu tenho
curado. As cartas também, eu boto as cartas, eu boto as cartas, nunca, graças a Deus. Meu Deus!
Nunca chegou um pra dizer:
- Maria Anunciada você me levantou um falso ou uma mentira.
Não! Se uma coisa...
(Uma voz de alguém vindo da cozinha a chama.)
Ói, se é, pera aí! Não! Num chame não!
Se tem uma coisa que eu posso ajudar, eu ajudo, se eu vejo que não posso eu digo:
- Aqui eu num posso nada.
Se eu vejo que eu tenho força de defender de um problema perigoso, eu ajudo, se eu
vejo que não posso ói, fico quetinha.
E minha vida é essa mia fia. A minha vida é essa.
108
APÊNDICE 3
Narrativa de D. Maria de Lourdes
Maria de Lourdes da Silva.
Viúva, rezadeira de novenas, ofícios e ladainhas.
Ao tempo da entrevista: outubro de 2015.
As coisas era muito difícil pra gente. A gente carregava água de longe. Eu passava
tempos, carregava água sargada, que não tinha água nesse tempo. Cuidava de tudo assim, como
fosse pra baixo. As águas não tinha, como hoje.
Até quando eu casei, depois eu fiquei aqui e essa Igreja era pequena e o pessoá querendo,
querendo fazer, fazer tudo pra aumentar aqui, a Lagoa da Areia. Aí eu disse:
-Se não aumentar a Igreja, não aumenta.
O lugar que não aumenta a Igreja, o lugar não vai pra frente, não. Se não aumentar a
Igreja. E a Igreja ali miudinha.
E a rezar, eu comecei a rezar assim, eu ia, a gente ia pra casa de nossa madrinha Ninha,
que era nossa vó, rezava o maio, rezava a quaresma. Aqui era difícil o pessoá rezar. Só quem
rezou um tempo aqui foi a Tia Santa, a Luzia Rosa e então teve um tempo que quem rezou foi
a finada Noêmia, depois ficou a Leriana.
Teve um tempo que eu lutei com a cumade Biliu, do João Rosa. Nós duas, nós mocinha
nova. Nós rezava na igrejinha. Até quando a gente ia rezar e não sabia direito, ficava gaitando,
né? Dando risada. Porque não sabia.
Quando é depois aumentou a Igreja. Que quiseram aumentar. Já tava casada. Aí
aumentaram, ficou mais melhor. A gente ficou rezando o maio. Nunca perdi o maio. Fiquei
rezando o maio todinho, ainda hoje eu rezo. Ainda hoje a gente vai. A gente reza quatro hora
da madrugada o Ofício de Nossa Senhora, ali no São Sebastião, quatro hora da madrugada,
mais a Lia o oficio, o maio todinho, todo dia, eu rezo o maio. Rezo de noite e rezo bem cedo
(risos), dois maios.
Mas graças a Deus, pra mim, sou tão feliz, tão feliz no mundo, que sei não! Agradeço
tanto a Deus. Eu acho que tem gente que acha assim, acha assim, que eu sou tola. De anda
assim, andar rezando, andar pra missa.
Nest’ante cheguei da missa, fui sozinha, as meninas não foram, digo, eu vou, fui pra
Canafístula mais o Henrique. Vou. Só não fui sexta-feira porque a menina tava na escola, tava
109
aí com os negócio de um trabalho e a gente num, eu não quis ir, porque não tinha ninguém
desocupado, eu não fui.
Tá ali os negócio que eu estou fazendo com a Vanessa. Mas aqui de baixo só tá indo eu.
Aí chego bem feliz, mas daqui só tava indo eu, essas outra são lá do alto.
Aí eu acho bom, porque eu tomo meu remédio, pra não ficar dentro de casa, pro canto,
aí eu vou pra lá. Levo o meu remédio e água e tomo lá.
Tá ali os meu caderno, tu quer ver? (risos). Aí minha fia eu acho tão bom!
Sinto. Sinto muita saudade, saudade da Eva. Quem vem aqui, que eu me lembro é a Lete
do finado João Leriano. A Lete vem aqui, que ela tá morando ali. A Lete chega aqui:
- Lourde?
- Oi? Entre pra cá!
Ela entra, aí pega a conversar. Aí eu vou pra legião ou pra missa, aí pega e olha o relógio
avexada, já deu hora! Aí eu digo:
- Mulher deixa de avexo!
E ela começa e vai lá com pouco vai simbora.
Aí eu me lembro da Eva, pra mim to vendo ela me dando melancia, me dando taco de
bolo. Trazendo bolo pra qui, que ela fazia bolo e trazia. Aí, meu Deus a Eva? A Eva uma pessoa
tão boa, acabá foi simbora num instante...
Eu me lembro das risadas que nós dava, ela conversando mais eu e nós dava cada risada!
Nós duas ali (risos). Vem em quando eu to me lembrando. Mas isso é da vida, né? A gente vive,
mas não sabe até quando. Se acostumar. E tem que rezar pela aquela pessoa. Deus tome de
conta, dê um bom descanso e a gente sabendo que um dia a gente também vai.
Eu sou bem satisfeita. O meu coração, minha natureza aqui, não tem mágoa nenhuma,
não tem mágoa nenhuma, é limpa! Não tenho mágoa de ninguém, sabe? Já houve muitas coisas,
mas eu passei por cima, assim ó. Não tenho! Não carrego rancor, não comigo! Não tenho! Tudo
pra mim tá bom, tudo pra mim tá certo. Não tenho coisa pra que eu tenha desgosto. Que se
passa na vida da gente, mas aquilo ali é de quem é vivo. Quem vive no mundo é pra sofrer.
Feliz daquele que sofre com paciência. Quem não sofre não tem salvação. Então eu não tenho
medo de sofrer.
Rezar, eu rezo, sempre vou pra Igreja. Agora eu não vou muito porque tô indo pra escola.
Na segunda rezo o ofício, seis hora ali no São Sebastião, só eu só e a Emily ou mais a Tita. Aí
depois que nós rezamos o ofício, que nós bate o sino, aí vem os home do terço, rezar.
Aqui eu rezo de sábo, sexta-feira não reza porque a menina não reza. Se eu não for ela
não vem, a Edna, que não tem com quem vim.
110
Ontem mesmo rezamos o ofício. Vem assim, a Lenilda e a Zezinha, a menina da Edna.
Tanto mais ela, como com a Lia eu rezo, com as duas e eu ainda rezo em casa.
Eu peço a Deus força a Deus, pra mim e pra todos...
Quando eu comecei a rezar, ainda era nova, sabe? Depois que eu casei, a gente para um
pouco, porque tem muito o que fazer. Tem os filhos, vai pra roça, ai chega enfadado. Era pra
costurar, era pra remendar, era pra dá de comer, ir pra roça, ajeitar os filhos. Ai a gente se
passava e quando ia dormir, não tinha nem mais coragem de ir rezar.
Mas depois, com tudo isso, eu peguei a rezar novamente. Os filhos foi ficando mais
maior, ai eu fui rezando.
Da vez que eu adoeci e fui pra o Portugal Ramalho. Adoeci da cabeça. Botaram um
rosário em mim. Não fui eu que botei não, botaram! Mas eu tinha aqui dentro do quarto.
Botaram um rosário aqui.
Quando eu tava mais melhor um tiquinho, eu pegava o rosário lá, ai largava o pau a
rezar, lá, no, hospital. Rezava, rezava, rezava...
Quando foi uma vez as meninas vieram olhar pra mim, eu disse que já tava boa.
Perguntaram a dôtora. A dôtora perguntou:
- Tá boa?
Eu disse:
-Tô, tô e quero ir mim bora pra minha casa, e eu quero ir com as meninas: a Enaura e a
Rosa.
Oxe! Levaram um monte de coisa. Levaram fava, carne de porco assada, fava verde.
Não quero nada disso ai não, quero ir mim bora. Pelejaram pra eu comer e eu não quis. Ai
viemo pra casa. Ainda fui umas três ou quatro viagens buscar remédio, lá, pra tomar. Ainda
hoje tomo. Eu fiquei meia fraca da cabeça [...].
Fomos pra Garanhuns, o médico passou um comprimido [...], mas acho muito caro o
remédio. Muito cara a passagem, eu tinha que sair cedinho. Passei um monte de dificuldade por
aí.
Mas era uma agonia tão ruim no mundo! Ai eu peguei novamente a rezar e graças a
Deus desapareceu tudo. Eu não podia ver ninguém e se falasse comigo eu dava má resposta.
Era tão... não sei cuma... aquela coisa ruim. Mas, com isso não bota eu pra traz não! Com tudo
isso, eu durmo, mas quando é na hora, vamos rezar, tamo aqui, tamo aqui mesmo!
Rezo novena da Mãe Rainha todo dia 18. Tiraram a missa. Agora tem um padre aí que
não quer dizer missa, quer dinheiro, só quer dinheiro. Eita padre da... Não quer nem batizado,
nem casamento na Igreja. Ai ficou ruim agora.
111
E o padre não quer dizer missa não! Se for uma de finado, pra ele vim dizer! Hum, vem
não! Só se arrumar, dois os três finados, pra ele dizer uma só. Mas, como a gente tinha costume,
pra’quele finado que morreu, que completou mês, não vem não.
- Pode tirar o cavalinho da chuva que eu não venho de jeito nenhum.
As reza de maio é tudo uma só, né? A cumadi Olindina tinha elas copiada, agora eu não
tenho elas copiada. Mas quando ela tinha eu rezava e ainda rezo. Quando ela tirava eu
acompanhava. Agora que eu vou ajeitar, pra botar, pra mandar copiar, pra eu entregar as
meninas, sabe? Pra Emily. Porque ela é quem reza o ofício mais eu, vez em quando. Ela quem
ajuda no catecismo dos meninos. Catequista, a Emily! E canta no coral! Ai eu vou fazer de
tudo, pra as rezas de maio, pra copiar, mode dá a ela, pra ela aprender. Porque a gente tira de
ano em ano, né? Elas tem copiado tudo, mas eu não tenho e elas nunca copiaram num caderno
pra mim. Mas quando elas traz, é de velho né que eu sei.Eu vou em cima, mais elas! Agora
sozinha, pode ser que eu reze, mas pode ser que eu erre, que tem umas que eu não sei.
Quando eu vejo uma reza e eu não sei, quando eu escuto uma reza e me agrada, acho
bonita, ai eu pego, vou e decoro todinha.
Elas gostam muito deu porque eu, sabe? Chego lá e eu falo, ai ficam tudo animado!
- Oh! Agora animou, porque você chegou!
Também no dia que eu não vou a menina diz:
- Eita! Tia Lourdes... eu senti tanta falta da senhora.
Ai pergunta:
- Por que não veio?
Ai eu digo:
- Porque tava fazendo, assim, assim, assim...
- Mas rapaz, e foi, foi?
- Foi. Mas tô aqui, que querem? Vamo pra frente! Vamo rezar, vamo cuidar!
Fizemo uma gincana. Foi na escola! Eu dancei, visse? Assim mesmo com as perninhas
doentinha, fui e dancei. Dancei forró, outras dançaram com a laranja aqui ó [...] dançaram com
a laranja assim na testa.
Quando eu fui pra escola, não era professora não, era o cumpadi Olave, da Tia Elisa.
Quando a gente aprendia o abc e ia ler um livro, já sabia muitas coisas. Que o abc era soletrado.
Não era como nessas escolas, que os meninos passa a vida todinha e não aprende nada. Com o
abc, já sabia de muitos nomes:
112
A preguiça é a chave da pobreza!
O que não ouve conselhos raras vezes acerta!”
O amor a Deus é o princípio de toda sabedoria!”
Sem Religião não há justiça e sem justiça não há liberdade!
A Religião tem por pedestal a humanidade!
Vale mais adormecer sem ceia do que acordar com dívidas!
A instrução é adorno do rico e a riqueza do pobre!
É vergonhoso dizer aquilo que não é decente fazer!
A perseverança vence todas as dificuldades!
A fome dá ao pobre o direito sagrado de importunar o rico!
Hoje em dia não sei como aprende. Não assoletra! Ai eu quero ver! Como é que a pessoa
vai dizer o nome sem assoletrá? Ai nós dizia:
- Pré-pre-guei-gui-c-a ça, preguiça, é a che-a-cha-ve-ve, chave, da p-o-po-be-e-be-z-aza, da pobreza.
Assim né? Ai dizia os nomes tudinho. Mas, soletrando! Ai eu pergunto, ai diz:
- Ah vó esse eu não sei não!
Há um Deus lá no céu!
E a luz Deus quem fez!
E a luz vem do Sol!
Eu não vi o meu pai.
O meu pai me fez ler!
Eu sei ler de co!
[...]
Paulinho mastigou pimenta.
Evinho chupou araçá.
Isabel comeu só mangaba.
Rufino almoçou bolacha.
Carlota almoçará biscoito.
Fernandes escreveu errado.
Guilherme fará careta.
Francisco ficou sozinho.
Vicente ficou lá treinando.
[...]
É porque eu tô por fora, né? Nunca mais vi o abc.
A preguiça é a chave da pobreza!
O que não ouve conselhos raras vezes acerta!”
O amor a Deus é o princípio de toda sabedoria!”
Sem Religião não há justiça e sem justiça não há liberdade!
A Religião tem por pedestal a humanidade!
Vale mais adormecer sem ceia do que acordar com dívidas!
A instrução é adorno do rico e a riqueza do pobre!
É vergonhoso dizer aquilo que não é decente fazer!
A perseverança vence todas as dificuldades!
113
A fome dá ao pobre o direito sagrado de importunar o rico!
C-a-ca, c-e-c, c-o-co, c-u-cu, era assim, tudo de arto, aquela zuada sabe!
E a reza do maio é, a ladainha né?
Kyrie eleison
Christe eleison
Kyrie eleison.
Christe, audi nos
Christe, exaudi nos.
Pater de coelis Deus,
Fili Redemptor mundi Deus,
Spiritus sancte Deus.
Sancta Trinitas unus Deus.
Sancta Maria,
Sancta Dei genitrix,
Orai po nobis.
Assim né?
114
APÊNDICE 4
Narrativa de Rosilene Rosa
Rosilene Rosa da Silva
Casada, duas filhas, pedagoga, leciona no Ensino Básico.
Ao tempo da entrevista dezembro de 2015 tinha 32 anos.
Devido aos costumes da nossa comunidade, desde as nossas avós ou bisavós [...]
Vou falar um pouco do parto, dos cuidados que as mulheres têm com a puérpera, logo
após o parto. Já começa desde a maternidade. Antes era em casa, até minha mãe há vinte poucos
anos atrás, pela dificuldade de transporte pra ir a maternidade, as mulheres ganhavam, por assim
dizer, em casa, paria em casa e do modo mais tradicional, que é o parto normal.
Eu fui concebida de parto normal e quando eu engravidei da minha primeira filha o meu
desejo era ter ela normal. O parto ser normal. Só que devido muitas complicações, não ter
passagem, como os médicos falam, não ter dilatação, foi feito uma cesárea.
Minha mãe foi comigo, me acompanhou logo após o parto. Na enfermaria, e um cuidado
que a gente ver que se diferencia das outras, o jeito que é tratada na maternidade, ou mesmo no
hospital. Era a questão do banho, que não podia, não podia lavar o cabelo, não podia tomar
banho do corpo todo. Então, ela me orientou para não tomar banho, só quando chegar em casa
e lavar o cabelo, como dizem. Só me banhar. Teve esse cuidado. Esse foi o primeiro ponto que
eu achei importante, que é um costume delas.
Antes, como ela dizia, já era assim. As mulheres ficavam num quarto, pariam em casa,
com a ajuda de uma parteira da comunidade, que até hoje existe uma, e é muito raro ter parto
em casa.
As mulheres depois do parto ficavam dentro do quarto, os ouvidos tapados, não saiam
pra nada, dentro do quarto, pois era um resguardo muito fino, muito fino mesmo, só saía depois
de quinze dias do quarto.
E sendo assim, por ela me acompanhar e eu queria, eu sempre quis que ela fosse me
acompanhar no parto, pela questão também da gente sentir-se protegida, é a mãe da gente, né?
E é uma forma dela passar um pouco do conhecimento que ela já sabe pra gente.
Que eu acho muito importante, acho não, é importante, a gente ter esses cuidados e
permanecer vivo, esses costumes, essas tradições. Não só eu como filha, mas quero um dia
passar para as minhas filhas também, se Deus quiser, quero passar isso, pra isso não se perder.
115
Então a gente veio pra casa, ela ficou comigo, permaneceu comigo quinze dias, em casa,
dia e noite, não só pra ter o cuidado com a alimentação e com os cuidados com a casa, mas
também para me ajudar com o neném.
Logo quando cheguei em casa, ela ficou tomando conta da neném, deu banho, por ser
cesáreo, as mulheres falam que tem esse costume de não pegar peso, não levantar-se sozinha.
E a gente conversava, passava horas conversando, que a gente fica muito em casa, não sai muito,
nem faz nada, nem deixam a gente fazer nada, nem pegar peso, nem pegar na criança. Ela dizia
que a mulher de resguardo, o trabalho dela era dar de mamar, se alimentar, para dar de mamar
a criança e descansar, ela sempre dizia isso, não deixava eu fazer mais nada.
E tem uma questão muito importante, depois disso, que cuidava da neném e não deixava
eu dar banho, é a alimentação. A alimentação Ave Maria! Não é toda comida que a gente pode
comer, não é todo tipo de comida, comida carregada.
Muitas hoje, de já está perdendo esse costume, de não se importar, que já vem lá da
maternidade, pois já se dar todo tipo de comida, não tem problema e a pessoa não tem nada.
Quando chega em casa, a mãe ou alguém que já cuidava e fez o mesmo da maternidade, já teve
problema. Então, por isso, por essa tradição, por esse costume, a gente tem que seguir.
É como eu falo sempre para as meninas, quando começa quatro ou cinco mulheres
conversando sobre o parto, sobre como foi, como não foi:
- Olha eu fiz assim, assim, me senti bem.
Eu creio assim, quando a gente tá num ambiente, tem que seguir aquele jeito, aquele
regime, como dizem, o resguardo fechado, ou meio aberto, como dizem:
- Ah!Pode comer isso, pode comer aquilo.
Mas acho que cada um tem que seguir o seu regime, tem que seguir aquele jeitinho,
aquele costume, eu acho que isso é que vale.
Então muitas comidas não podia comer, ela era quem fazia a comida para mim, e dizia:
- Oh! vai ter que comer toda comida, que tem que dá muito leite pra criança.
E realmente fez efeito. Não sei foi o jeito que ela fez, ou cuidou de mim, que foi a mãe
dela que cuidou dela, daquele jeito e ela queria fazer igualzinho.
Uma comida tão sem gosto, sem colorau, não podia por colorau, coentro, pimentão.
Carne só de boi, cebola, uma cebola branca, um tipo de cebola que tem, é próprio pra mulher
de resguardo. Não podia comer farinha, dizia que era muito quente e ela resseca o intestino da
mulher, da mulher de resguardo e feijão, também, porque podia dar gases e a gente com gases,
também passa pra criança. Café também. Ai era só chá, se fosse café, só com leite. Chocolate
116
ou achocolatado, também não, também fazia gases e também com a criança também. Porque
tudo que a gente se alimenta a gente passa através do leite, alimentação.
Aí tudo isso, essas outras comidas que diziam ser carregadas, camarão, tinham um peixe
que nem pensar. Teve um dia de sexta-feira que a mãe não come carne dia de sexta, ela nem
come, nem mata, nem dar pra ninguém, não mata criação nenhuma, nem oferece pra ninguém
na mesa dela, se não tiver peixe é só um ovinho, só.
Então tem um tipo de peixe, já específico pra resguardo, é um peixe branco... sardinha
branca... eu não tô lembrada... peixe fresco? Fidalgo? Um peixe pra mulher de resguardo, ou
pessoa que passou por cirurgia, pode comer a vontade. Ou se não, ela fazia uma sopinha e eu
comia. Ela tem uma comida... tinha uma comida que ela fazia e eu gostava muito, muito. Até
ela fez pra minha irmã, que eu disse:
- Não mãe é muito gostosa! Quando eu tiver de resguardo a senhora tem que fazer essa
comida.
Ela fazia todo dia e eu comia o dia todinho. Ela colocava carne de boi sem colorau. A
carne de boi uns pedacinhos na panela de pressão só com alho e cebola, alho, cebola e tempero,
só. Cozinhava, depois tirava a pressão, colocava batatinha, macarrão e arroz, não colocava,
caldo knoor nada, e alho, bastante alho e eu comia tanto, tanto, ela dizia:
- Coma mesmo que é pra dá muito leite.
E eu não sei se era o jeito dela fazer, o que era ela dizia, só sei que realmente dava. Só
que a gente comia, tinha outras comidas, cuscuz não comia pois ressecava, cuscuz amarelo de
milho, tinha mais, cuscuz branco, cuscuz de arroz com leite, agora leite com café... foi tempo
de caju que foi em novembro, muito suco de caju com bolacha a tarde, aquelas simpatia, comia
tanto, meio dia e acerola... não... acerola podia, também, tem alguns sucos que não pode,
abacaxi nem ver e sentir o cheiro.
Teve um dia que alguém, trouxe, ou chegou aqui um pescada de de latinha, quem trouxe
foi meu marido o Leandro, Ave Maria! Ela brigou tanto, que não podia nem abrir, nem sentir o
cheiro, da pescada enlatada, pois é ruim mesmo no negócio. Pronto, essas eram as comidas.
Tinham outras também, mas que ... um arroz de leite, um arroz branco, uma carninha de boi
assada, na brasa, no óleo não podia comer não.
Quinze dias o resguardo, aquele resguardo bem, como eu disse agora, fechado, não
podia por o pé no chão, eu passei tanto tempo com a chinela, que depois do resguardo eu meu
Deus do céu eu não sei nem mais ficar sem sandália, com o pé no chão que eu gosto, não podia.
Pra tomar banho, saia da cama, na chinela, ia pra o banheiro, com a chinela, quando eu voltava
com a chinela molhada, ela fazia questão de enxugar e depois colocar no meu pé.
117
Pra se levantar, por ser cesárea, ela me levantava, ela tinha todo aquele cuidado mesmo,
e sim! Banho, com água morna até quinze dias, depois de quinze dias, ai toma banho da cabeça,
porque era o resguardo fechado, aí ficava mais leve o resguardo, ai tomava banho de água fria,
aí era só banho de água fria, mas se quisesse tomar banho de água quente, tem gente que toma
até...ave graças a Deus, agora vou tomar banho de água fria, já não aguentava mais e ficava um
resguardo mais ameno, e o resguardo mesmo é até quarenta e cinco dias, dizem, e segundo ela,
a gente conversava muito, muito, muito, quarenta e cinco dias o resguardo, de alimentação, de
namoro também, é! E tem mulheres que é até sessenta dias, dizem que é sessenta dias, não, que
assim mata o véio (risos).
Assim eu acho importante seguir, porque é uma coisaque você a mãe da gente, cuida da
gente com tanto carinho, sabe? A gente, não é desfeita, eu acho tão bonito e acho ainda tão
bonito, que eu vou passar isso pra minhas filhas. Tanto a comida, como o cuidado que deve ter.
A Maria Eloíza, essa minha menina, ela machucou os meus seios, ela cuidou, e botava, e pegava
óia, dizem que é bom, eu sei que é muito bom a entrecasca da banana, aí eu comia a banana e
pegava a entrecasca e colocava, ficava sequinho, quando ia dá de mamar lavava, aí feria de
novo, ficou ferido mesmo, mas ela cuidava mesmo.
O cuidado com a criança é muito interessante, que com sete dias, a criança, o sétimo
dia... é a criança não podia sair do quarto, nem a criança e nem a mãe até quando caísse o
umbigo, também não podia sair do quarto e também não podia tomar banho, ou seja, no dia que
caísse ela não saia do quarto e não tomava banho. E tem umas mulheres que tem um costume,
existe ainda, que agente tem conhecimento, de colocar um monte de bagaceira no umbigo do
menino pra curar, cair, e uns bota terra, outros bota óleo de comida, graça a Deus, isso não
aconteceu comigo e nem com as minhas irmãs, aminha mãe não fez esse tipo de coisa. Ela tinha
o jeito dela, mas chegar ao extremo não chega, graça a Deus, a gente sempre usou o álcool, que
é próprio pra curar o umbiguinho da criança, ela usou...
Ela teve uma dificuldadezinha na fralda descartável, que ela usou na minha irmã, mas
não foi muito, sabe, que quem mais cuidou foi a minha irmã, a Leide, mas na minha ela teve
algumas dificuldades, porque era ela sozinha, que cuidava mais da minha menina. Aí ela disse:
- Eita!Eu não sei fazer isso não.
Aí as vezes eu dizia:
- Pois coloque aí mulher a de pano mesmo.
Aí, ela colocava com muita facilidade, e fazia um negocinho e botava a roupinha, aí eu
óia! A senhora sabe, né?
118
E assim o jeito de dá banho, teve duas vezes, tem uma maneira de dá banho na criança,
se não souber entra água no ouvido ou no nariz, duas vezes que a neném ficou... entrou água e
ficou sem respirar, mas ela achou um jeitinho, tão direitinho, ajeitar... botar pra frente e deitar
na... num instante voltou e eu fiquei aperreada, e ela dizia:
- Sai Lene, sai, sai, que eu ajeito, e ajeitou.
Assim, a facilidade dela ter tido, passado por nove partos e saber o jeito de lidar, eu
depois me senti abestalhada, o meu Deus do céu, uma mulher tanto filho, e eu ainda ficar
aperreada, na hora.
Ela dizia:
- Eu não disse a você pra sair de perto que eu ajeitava!
E é um jeito que ela tem de pegar a criança, dá banho, e me ensinava:
- Olha faz assim e quando eu não tiver faça assim.
Eu não arriscava não, dá banho sozinha, eu dava banho, mas ela sempre olhando, que
eu tinha medo. Mãe, vai que na hora e eu não saber ajeitar como a senhora sabe, e ajeitou e
massageou e a criança voltou. Mas foi rapidinho, graça a Deus. E outras coisas que tem, a gente
se sente segura com a mãe da gente, eu já cuidou de várias crianças, pela experiências que elas
tem, pelo menos a minha, nove crianças, nove partos, não é brincadeira não. Aí ela, quando a
criança estava chorando, chorando...
-Óia, isso é dor de barriga, é cólica.
- Como é que a senhora sabe?
- Porque olha a criança, quando tá trocada, tá com a barriga cheia, e ainda tá chorando,
ou é dor de barriga...
Porque a única maneira da criança dizer o que sente é no choro e nas fezes, no cocô, e
o cocô tranquilo e a criança chorando, isso é dor de barriga, vou fazer uma massagem, e fazia
a massagem e ajeitava, balançava.
E quanto mais a gente, a mãe se aperreia, mais a criança, é verdade, se a gente fica
preocupada, aquilo passa pra criança, e eu fiquei perguntando, pesquisando umas com as outras
e realmente é assim, aí um médico disse, quando a criança tiver com cólica, chorando muito,
olha tem criança que o médico falou que passa de três dias com cólica, a gente vai dá um
remedinho, vai pra o posto, vai pra o médico, mas se a mãe tiver assim... tem criança que é a
noite todinha, por isso que tem mãe que as vezes nem quer ter menino por conta disso, porque
realmente é muito complicado essas horas agente fica aperreado, o primeiro, e passar a noite
chorando, dá de mamar, não é, a gente fica aperreada, aí dizem que passa pra criança.
Ela tomava de conta de tudo, nesses casos assim ela dizia:
119
- Me dê pra cá!
E ajeitava e balançava, eu dava de mamar, eu me sentia aliviada, pela experiência dela
mesmo, cuidava como se fosse um filho dela e eu gostei muito muito. E eu disse:
- Ói, quando eu tiver todos os partos eu espero que a senhora esteja sempre comigo, pelo
amor de Deus...
E eu presenciando aquilo e eu aprendendo, pra passar pra minhas filhas e se Deus quiser,
permaneça isso vivo na nossa comunidade, isso tem que perpetuar, eu acho importante.
As visitas, nos primeiros quinze dias eu só podia ficar dentro do quarto, e as visitas iam
pra o quarto. Tem uma tradição, tem o pé de cama, o pessoal chama, que se faz com álcool,
apitú, a cachaça, com tempero, umas ervas, e a mãe preparou dois pé de cama, que era muita
visita aqui e logo no começo, as pessoas não vinham logo de início, porque elas sabem e
reconhecem que os três, primeiros, ou quatro dias é novinho ainda.
Tem gente que não gosta de visitara mulher de resguardo, assim novinho, mas depois
foi chegando, as visitas, aí pronto, tomava o pezinho de cama, sempre tem a lembrancinha, traz
pra criança, pra mãe não traz nada não, mas pra criança traz, traz a lembrancinha, sempre, todas
as visitas tem que vim com alguma coisa. Teve até o meu avô, que ele veio e não trouxe não, aí
botou:
-Toma aqui, que é pra neném.
Aí eu disse:
- Tá bom.
Era muito brincalhão ele e pra mãe, ser besta.
- Esse aqui é pra neném, guarde que é pra criança, guarde.
E sempre as pessoas traziam.
E tem também, além do pé de cama, tem a questão, que faz pras pessoas que vem visitar
e que a gente convida, tanto vem visitar como tem aqueles que a gente convida, aquela pessoa,
aquela pessoa bem íntima da gente, amigo, mesmo, pra comer o famoso pirão, é o pirão da
mulher de resguardo, então é capão, tem que ser, capão, se cozinha, faz o pirão, e a minha mãe
e a minha sogra tomaram de conta, Esperdita, tomou conta dos pirão e sempre vinha bastante
gente, um grupinho, é isso as visitas. Tanto vem quanto a gente convida, pra comer o pirão e
no pirão tem que ter o pé de cama também, sempre o pé de cama.
O parto normal eu não tive a experiência, minha mãe teve e a gente conversou muito.
Em casa a gente fica tão isolada do mundo, a gente não tem com quem conversar, de vez em
quando que um chega de visitar, mas logo vai embora, que sabe que a gente que tá de menino
novo tem que está de repouso. Eu conversava com a mãe, muito, muito mesmo, ela teve nove
120
filhos, oito foram em casa, normal e o último foi na maternidade, mas foi normal também. Teve
umas complicações, por isso ela teve que ir a maternidade. Esse nono parto eu estava com ela.
Ela já tinha uma parteira, que morava na região, era meio distante. Quando a mulher se
aperreava para ter o menino, começava a sentir as dores do parto, iam chamam essa mulher.
A minha mãe conta que ela morava muito distante e quem ia buscar sempre era meu pai
e minha vó, em busca dessa parteira. Ela hoje em dia já é falecida, mas ainda hoje existe, o
nome dela é Maria, ela ainda existe na região. Há quatro anos atrás ela fez o parto da filha dela,
as pressas. Eu percebi na visita após o parto que, a gente que tá acostumado a ir à maternidade,
percebi o jeito que ela fez, é rudimentar, é natural e é bonito, porque foi em casa. A criança tava
bem, a mãe também estava bem, com a experiência da parteira, tudo ocorreu bem graças a Deus.
Hoje em dia os médicos não aconselham o médico fazer o parto em casa, devido às
consequências que pode acarretar, hoje em dia tudo está diferente de há vinte anos atrás e nem
é tanto tempo assim, e hoje se tem essa imagem do parto normal em casa, no cuidado, na
higiene. Eu digo isso no sítio, em casa, sem o auxílio, todos os equipamentos que tem em um
hospital.
Eu dizia:
- Oh! Mãe de cesárea a gente não sente nada, sedada.
Aí ela dizia:
- Olhe eu vou dizer a você: você não sabe o que é ser mãe.
E eu dizia:
- Oxe! E a menina, essa coisa mais linda!?
Ela disse:
Uma mulher só sabe ser mãe quando tiver um parto normal, que você vai sentir toda
dor, você vai sentir mesmo a criança nascer, chorar, vai passar por todo processo, o que é
realmente um parto.
- E eu vou fazer o quê, se não deu certo? Não foi possível ter o parto normal?
- Pois é, eu tive nove e todos normais.
- Mas teve algumas complicações?
- Em alguns teve. Teve um que demorou mais que os outros.
Ela passou o dia inteiro sentindo dores e a parteira lá do lado. Teve outros que não
demorou muito, quando a parteira chegou ela já tinha tido a nenê, aí a parteira já foi cuidar,
fazer outros preparos. Teve até uns inusitados, a parteira não estava e ela sozinha, a sogra dela
saiu que não aguentava ver, mas nessa hora saiu, ela teve sozinha, mas deu tudo certo.
121
Teve um que desse parto a mãe parou de fumar, quando ela teve o nenê e ficava só
dentro do quarto, as janelas todas fechadas, quinze dias dentro do quarto, colocava os capuchos
de algodão no ouvido, pra não ouvir nada, ai ela disse que o meu pai, poucas horas depois dela
ter o neném estava fumando e longe, ela sabia que depois do parto tem um resguardo até de
fumo também, ai ela sentiu uma vontade tão grande de fumar, aí ela:
- Ô Zé, me dá um traguinho desse cigarro, pra eu fumar um pouquinho.
- Oxe Rosa! Tais tonta?
- Homi me dê logo.
Só estavam eles dois, nem a mãe nem a parteira estavam. Ela bem, o menino bem, aí ela
pegou o cigarro e deu umas três tragadas, diz ela. Ela disse que começou a passar mal, ficar
zonza, uma agonia, um assobio na cabeça, timmmm. Ai eu disse:
- Mas mãe, porque a senhora fez isso?
Ela disse:
- Me deu uma vontade, pense na vontade!
Foi preciso meu pai chamar a parteira. Quando ela a parteira chegou e ela contou, deu
um gato tão grande!
- Você tá doida!? Você quer morrer!?
Ela dizia que por ter esses costumes, da mulher ter todos esses cuidados, porque por ser
em casa e normal, aquele cuidado, aquele aparato todo, as parteiras já são preparadas. A mulher
perde muito sangue, tem muita hemorragia, em principalmente parto normal, que fica por vários
dias, tanto normal quanto cesárea, a mulher fica muito fraca, por perder muito sangue e por
fazer muito esforço.
E por que os capuchos de algodão? Pra não ouvir nada, tudo que você ouvir e por está
se sentindo sozinha, você está apta a tudo e eu vivenciei isso. Fica atenta a tudo, a qualquer
movimento, qualquer som você fica atenta, então as mulheres colam o algodão no ouvido.
Porque muitas vezes a gente escuta, fulana quebrou o resguardo, é por qualquer coisa, é por
qualquer comida, ou porque não pode levantar sozinha, não pode andar no sol, não pode
namorar tão cedo, tem que demorar uns quarenta e cinco dias, por conta desse resguardo, não
pode quebrar esse resguardo.
Eu presenciei esta questão do silêncio, mas minha mãe não colocou o capucho de
algodão no meu ouvido, mas ela não deixava eu assistir, eu fui pra o computador, ela não
deixou.
- Oxe, mas por quê?
- Olhe, porque você vai ouvir as notícias e isso fica na cabeça da gente.
122
E eu no meu pensamento que era besteira. Quando ela saía eu ligava a televisão, mas
você fica pensando nas coisas. Você fica alheia a tudo, você se isola, aquele cuidado, até o jeito
carinhoso de cuidar da gente. Eu gostei.
Teve um momento que eu fiquei sozinha, e eu fiquei pensando, pensando... e eu
conversando com a mãe e ela dizia que é porque a mulher fica fraca, isolada e fica pensando
coisas, a cabeça fica vazia, sem nada pra fazer, você fraca, então tudo que ver ou ouve, coloca
na cabeça.
Uma pessoa quebrou o resguardo porque o marido dela bebia, um dia chegou em casa
bêbado e chegou um caba pra matar ele, a mulher viu e se assustou, nunca mais ela ficou do
jeito que era antes. Ela quebrou o resguardo, ficou desorientada da cabeça.
Resguardo é uma coisa fina! Tem que saber cuidar de uma mulher de resguardo. Por
isso, pensa muita coisa. Aí minha mãe dizia:
- Pare de pensar e vá cuidar do seu menino!
Ela que teve nove resguardos e muita experiência pra contar.
123
APÊNDICE 5
Entrevista com Sr. Antônio Cícero Pinto (Toinho) e D. Luzia Maria Pinto
(Casados, dançadores de pagode, animadores das festas de santos padroeiros na comunidade
Lagoa da Areia dos Marianos. Ao tempo da entrevista ele (Toinho) dezembro de 2013 tinha 60
anos e ela (Luzia) 59 anos).
Toinho – Nos começo era... Ave Maria! Vinha uns cantor da Serra das Pia, passava na casa do
Zé Pifânio, do Nego da Marculina, pra do Avaristo, pra casa do pessoal. Era uma tradição
mermo, era tradicional. Mas depois foi ficando esse povo mais veio, o mais veio foi farrapiando,
aí ficou os mais novo, ai se esquecero, ai eu que fiquei mais, eu a Luzia o Detude, o
cumpadeTivil.
Luzia – Cumade Toinha.
Toinho – Cumpade Zezinho, só o zomi né? Até porque não tinha muita mulé né? É, ficou eu,
Detude, cumpadeTivil,cupade Zezim, o Ozório fazia também, fazia um pagode. Aí dizia, têm
um pagode acolá, aí nóis ia lá pá acabá o pagode!
Pesquisadora – Oxente porque?
Toinho – Num sei quando, começava di novo, depois nóis voltava di novo, até quando dançava
o pagode, era...(risos) quando nóis chegava na porta...
Pesquisadora – Aí vocês eram profissionais, eles achavam era?
Toinho – Era, a primeira vez que aconteceu isso foi na casa do Oliço. Chegamo na casa do
Oliço, aí dissero:
- Ói, tem um pagode de primera.
Aí eu disse:
- Nóis vamo!
Aí desceu eu, cumpade Tonho Rosendo, a Luzia, uma turma. Quando descemo, alí onde mora
o Bastião, acabosse o pagode, (coçou o olho sorrindo), cabosse o pagode aí pronto.
- Má rapaz, cadê o pagode, acabo-se o pagode?
- Acabou-se o pagode.
Aí pronto.
- Cadê o pagode?
- Rapaz acabou-se o pagode. Vamo voltar, vamo voltar.
Quando cheguemo na casa do Bastião, começaro de novo, aí voltemo de novo, até quando
agente tomava.
124
Pesquisadora – Aí o que é que rolava, no pagode além da dança e da música, tinha uma pitu?
Toinho – Ah! Tinha, aí num faltava não, dançava, dançava, dançava, aí quando agente parava,
aí o caba ia lá dento e trazia um litro, aí aqueles dançarino, cada um tomava um gole, mas num
era pra ficar doido não, aí suado. O suor pingando, aí depois da bebida, infinhava o pagode!
aaaaaaaah! Minha fia o pagode naquela época, começava sete hora e ia pra sete do dia, aí um
rojão pesado!
Pesquisadora – E vocês gostavam naquela época?
Toinho – Só não gosto mais porque tô fraco.
Pesquisadora – E você, Luzia?
Luzia – Acho mais melhor que a dança, acho mais bonito, o pagode é bonito!
Toinho – [...] A maior, a maior consideração que nem a menina lá a-a-a-a, nora do Cidoinventou
aí umas coisas, inventou, inventou e chamava mais recado e recado e mais recado e eu ia,
quando chegava cadê o pessoal num querem dançar não. Um diretor, um coordenador em
Palmeira, nóis rodemo umas quinheta vez, dancei quase uma hora mais e a Luzia e os caba tudo
(cruzou os braços) e a mulé:
- Minha gente por Nossa Senhora.
Vinha até um reportagem de Maceió, vinha um pessoal de Maceió pra filmá [...]
- Se interesse que é pra vocês! [...]
Luzia – Antigamente isso era muito bonito.
Pesquisadora – Quando é que vocês começaram a dançar, que foi o pai de vocês que ensinou,
né?! É-é-é-é-é-e eles diziam de onde tinha surgido essa dança?
Toinho – Meu pai mermo, nunca dizia não, nunca disse não.
Pesquisadora – Nunca disse mesmo, nem o seu, Luzia? Já cresceu vendo aquela dança!?
Luzia – Ele falava muito de reizado, do reizado ele dizia, e dançava também.
Pesquisadora – Ah! Seu pai dançava?! Qual o nome do seu pai?
Luzia – Antonio Manuel de Souza
Pesquisadora – Ah! é mesmo? Seu Antonio Rozendo era cantador, era?!
Luzia – É, meu pai cantava.
Pesquisadora – Eu conheci ele rezando muito.
Luzia – E cantava também no pagode, né não toinho?!
Toinho – Nunca vi uma geração tão desanimada como essa... [...] Ói, São João não teve
brincadeira, em nenhum canto, quadrilha, não teve quadrilha, pagode, ensaio, nada! Não teve!
Não! só tem alguma coisa. [...] Ói, eu gosto de correr atrás, eu num sabia nada de negoço de
festa [...] agora o pessoal me procuraro eu tô de dento, por quê? Porque eu quero ver o negoço
125
desenvolver, quero ver o negoço subir, animar as coisas. Agora você corre atrás, ele corre atrás,
eu corro atrás, só querem na boca. Ói, eu ia arrumar um poço artesiano aqui, um caba me
garantiu que o Jota Duarte ia trazer a máquina [...] eu vou nada, ainda bem que aqui nóis temo
um vereador trabalhador, pela primeira vez nóis temos, eu acho que vai ser um cara bom.
Pesquisadora – Vem cá, vocês sabem me contar as partes do pagode, se ele se divide como é
se tem entrada...?
Toinho – Não é diferente da quadrilha, não num tem entrada nenhuma não!
Luzia – Pra entrar é a valsa.
Toinho – Porque se você não começar com a valsa num entra ninguém não, têm que pegar de
surpresa, os cantador lá cantando, aí você tem que pegar de surpresa [...], avisa ao tocador, aí
pagode! Aí ninguém sai mais não.
Pesquisadora – Qual é o sinal pra mudar o ritmo?
Toinho – Não, o sinal pra mudar o ritmo, assim, ele tá cantando o pagode, e valseia menino
valseia (cantando), aí de repente o menino faz ôôô, aí o pagode aí os caba, aí começa o pagode,
pá, pá, pá (levanta-se canta e sapateia).
Luzia – Sabe quem gosta de cantar as cantiga do pagode? A Betinha mais o Mano, a Betinha
sabe, é o mermo que papai!
Toinho – E porque ela não bota pra cantar?
Luzia dá com ombros.
Luzia – Mas uma coisa assim também é bom as pessoas se reunir pra cantar as duas pessoa.
Toinho – Ói pra você ter uma ideia, se alguém tivesse interessado [...] catecismo da reza
ninguém quer rezar mais [...]
Luzia – A mãe sabia tudo na cabeça rezava tudo de có.
126
APÊNDICE 6
Entrevista com D. Edna
(Dona Edna é professora aposentada. Zeladora da Capela Nossa Senhora da Saúde e do
Cemitério São Francisco. Ao tempo da entrevista, 18 de setembro de 2016).
Edna – A festa de Nossa Senhora da Saúde não começou a ser celebrada em capela. Não foi
em Igreja. Por que Nossa senhora da saúde chegou aqui em 1909. Ela chegou na casa da mãe
Dina. Isso...
Pesquisadora – E foi?
Edna – Foi... ela chegou na casa da mãe Dina, que era a avó da mamãe, né? E do Seu Chico
Reimundo. Você sabe onde ficava? Alí onde é do Cáqui, hoje. Era a casa. A casa dessa mãe
Dina e do meu avó Chico Reimundo. Era meu bisavô.
Pesquisadora – Era seu avô?
Edna – Da minha mãe. Meu bisavô, né?!E ali se comemorava todo ano, todo ano. E ela chegou
aqui justamente nessa data, no mês de dezembro, no dia 26 de dezembro, a santa, a imagem.
Pesquisadora – Ah! No dia da festa?!
Edna – No dia da festa. Porque o dia de Nossa Senhora da Saúde não é dia 26 de dezembro
não, é dia 15 de novembro. Agora pela chegada dela, trazida pelo seu Antônio Marinheiro, que
era uma pessoa que andava na estrada tangendo gado, ai trouxeram essa santa, essa imagem.
Nossa Senhora da Saúde e Nossa Senhora da Conceição. Você lembra da festa de Pilões? Nossa
Senhora da Conceição?
Pesquisadora – Nada.
Edna – Pois é... Filho da mãe Dina. Maria Calicô.
Não veio só a Nossa Senhora da Saúde. Vieram duas: Nossa Senhora da Saúde e Nossa Senhora
da Conceição. Chegou elas duas aqui nesta data: dia 26 de dezembro de 1909. Tá com 107 anos!
Pesquisadora – E porque trouxeram?
Edna – Conheceram esse senhor que andava na estrada, tangendo gado...e começaram...
Pesquisadora – Boaideiro?
Edna – Boiadeiro, falaram com ele e ele disse que trazia. Ele se comprometeu em trazer essas,
santas, essas imagens e quando chegou foi essas aí. Eles celebravam, eles faziam a festa na
porta da casa deles. Todo ano eles faziam.O que aconteceu: eles foram ficando velhinhos,
ficando cansados, e entregaram Nossa Senhora da Saúde ao filho Mané Chiquinho, que é o pai
da mamãe e entregaram Nossa Senhora da Conceição pra Pilões, a outra filha, também dela,
127
dessa Mãe Dina mai o Chico Reimundo, que lá casou-se com alguém dos Calicô, ela era casada,
e ficou Maria Calicô, a festa de Maria Calicô. Porque já foi, casou com a família Calicô e já foi
se misturando. E todo ano a gente ia pra festa de Abilio Calicô. Ói, Abílio Calicô, comemorada
com essa Santa Nossa Senhora da Conceição, depois mudou pra São Sebastião, mas antes não
era ele não o padroeiro de lá.
Pesquisadora – Então a primeira foi Nossa Senhora da Conceição?
Edna – ... Da Conceição... Não era bem ali mesmo no centro, era mais pra lá um pouquinho,
mas era Nossa Senhora da Conceição. Vindo na mesma época. Aí o que aconteceu?Quando ela
entregou a santa, a imagem de Nossa Senhora da Saúde ao Mané Chiquinha e a vó Santina, foi
pra casa dele, ficou aí na casa dele. Ai que resolveram fazer a capelinha de taipa, é que fala?
Pesquisadora – É.Como foi construída, foi a comunidade?
Edna – Não, foi ele mesmo Chico Reimundo. Que aqueles terrenos era tudo dela, essas terras
aí. Onde hoje está a Igreja era dele mesmo. Ele mesmo não pediu a ninguém, ele mesmo fez a
capelinha ali. Tá vendo?! Aí botaram... Nossa Senhora da Saúde...
Pesquisadora – Como é o nome dele?
Edna – Chico Reimundo. Francisco Raimundo, mas chamavam Chico Reimundo e a mãe Dina
era a esposa dele. Com certeza era a rezadeira, nera? Era a mãe Dina. Aí fizeram. Dois anos,
minha fia, construíram, de taipa, pequenininha. Mas tinha uma vizinha, uma vizinha que era a
finada Maria Rosa. Luzia Rosa. Que amarrava as cabras dentro da Igreja, todo inverno. Né uma
véia sem vergonha?
Pesquisadora – Luzia Rosa, é? Era o que dele?
Edna – Eu não sei. Eu sei que era parenta dele. Era tudo família. Sabe quem é o Roque?Era a
irmã dele essa disgramenta. Essa Luzia Rosa. O que é que ela fazia? Não tinha onde botar a
cabra, aí ela amarrava e botava dentro da Igreja. Todo inverno. Ai caia. Derrubava.
Pesquisadora – Derrubava a Igreja! Amarrava nas ripas.
Edna – Nos frechá, chamava. Amarrava nos frechá. Dois anos aconteceu isso. Sabe o que ela
fazia mais?! Ela arrancava as varinhas pra fazer fogo em casa. Aí quando ela... dois anos
aconteceu isso. A finada Luzia Rosa. Isso aí era a Luzia Rosa. Aí, minha filha quando foi no
tempo, não pode passar do tempo, quando ela caiu dois anos, aí eles foram, se reuniram fizeram
uma reunião em casa, a família, aí construíram... derrubaram a pequenininha, miudinha e
fizeram uma maiorzinha, e foi aquela que a gente já foi alcançando. Quando fizeram a capelinha
começaram a fazer a festa ali onde a gente conhece.
Pesquisadora – Então, assim que construíram já começou a festa?
128
Edna – É. Mas eu queria um dia descobrir qual foi o ano, porque nós nunca descobriu qual foi
o ano.
Pesquisadora – Que construíram a capela?
Edna – A capela. Aí a gente não sabe, mas ficaram fazendo a festa, aí quando foi depois se
juntou Mané Miliana, seu Lalá, seu Aristides Lope, Luiz Vicente, até meia noite em reunião, lá
em casa, pra fazer essa capelinha. Sem ser a de barro, já foi a outra maiorzinha um pouquinho.
E a medição daquele terreno ali é seis de frente com zera a lagoa.
Pesquisadora – Fechando pra lagoa?
Edna – Isso. A lagoa nessa época, Simone, ela enchia muito, ela não ficava lá em baixo que
nem é hoje. Ela abrangia bem perto ali da Igreja, ficava bem perto. Era muita água, se chovia
naquele tempo, hoje não chove mais. Então... aí o Chico Raimundo foi quem doou esse
pedacinho.
Pesquisadora – Como é o nome dele?
Edna – Chico Reimundo. É o mesmo. Era o dono. A doação foi dele. Doou não, não fez nada.
Aí a medição é essa. O que der... 9, 8, 6, aqui de metro, 6 metro aqui na frente. Zero à lagoa. A
primeira foi essa, agora só que não fizeram documento. Não fizeram documento
Pesquisadora – Era o terreno da Igreja?
Edna – Era. Era esse aí. Ficou pequeninha, a população foi crescendo, muita gente, a Lagoa da
Areia foi ficando povoada e cresceu e aí teve que aumentar. Foi quando houve a doação do seu
Gerson. Seu Gerson aumentou. Deu aquele acréscimo. Eles chegaram por ali, ficaram por ali,
tomaram conta de tudo, e hoje a Santa não tem nada. Ela não tem. Só tem a... E não passaram
documento, nem o passado e nem o futuro. Não tem documento. Tu sabe onde era as comidas...
a Concília que relata isso. Tu sabe onde era a comida dos tocador? Na casa do pai Zarias.
Pesquisadora – Sempre era lá.
Edna – Quando começou a festa, era na casa da mãe Dina. Com certeza era na casa da mãe
Dina, debaixo de um pé de mandacaru, a Rosa do Quim me contou essa história, que se lembra
muito bem quando ia pra festa e o que tinha na festa era uma bacia de cocada, embaixo do pé
de mandacaru. A comida era lá pra cima, pra os Marianos, os Marianos gostam muito de festa.
Eles abraçavam. E as primeiras rezadeiras daqui sabe quem foi? Como era o nome da mulher
de Mané Pinto? Finada Maria Rosa, néra? A primeira mulher de Mané Pinto. A tia Serva e a
Tia Irmênia, antes de Leriana, esse povo ai, era essa mulher, viu. Primeira rezadeira.
Pesquisadora – A Maria Rosa, é?
Edna – É. Maria Rosa, tia Irmênia e tia Serva. Ispie que nomes! Aí vem quem? Depois disso
aí? A vó Santina. A tia Irmênia você não alcançou não?
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Pesquisadora – Não.
Edna – A vó Santina é a mãe da mamãe, né?
Pesquisadora – D. Santina eu lembro.
Edna – Então, pois é, ela fez parte disso aí. Uma das mais novas. Casadas, né?Essa banda de
pífano que apareceu é tudo de uma família só. Tudinho! É tudo filho do Mané Chiquinho. Neto
do vô Chico Reimundo.
Pesquisadora – Tá. Daquela fotografia que a senhora...
Edna – Isso...
Pesquisadora – Eu tenho aquelas fotos que tem no meu trabalho, aquela grandona na minha
casa.
Edna – Mas tem aquela descendo com as bananas?
Pesquisadora – Tenho.
Edna – Tio João Rosa era uma pessoa tão presente, mas Tio João Rosa com o tempo, óia...
ficou valendo nada, só dormia.
Pesquisadora – Ficou velhinho?
Edna – Ficou velhinho. Mas ele era tocador de pífano, viu?!
Pesquisadora – Agora ok, já entendi esse contexto histórico. Vamos para os rituais, né? Pra
gente entender os rituais: como é que acontece a festa? Já deu pra entender como começou?
Edna – Mas já era o tempo de vocês, não é não?
Pesquisadora – Não, mas como era, sempre foi desse jeito? Leilão...
Edna – Nunca mudou.
Pesquisadora – Ah! Conte, então pra gente.
Edna – Nunca mudou...
Pesquisadora – Como era, começa e como termina. Como se eu não conhecesse. Conte como
se nós nunca tivéssemos vistos a festa da Lagoa da Areia. Tipo: se a senhora tivesse contando
pra alguém que nunca tivesse visto, o que é que a senhora dizia? Pra gente saber como é que
acontece.
Edna – olhe, primeiro a gente se reúne com os noiteiros.
Pesquisadora – Quem são os noiteiros?
Edna – Peraí. Eu quero deixar isso bem claro: durante esses 107 anos que se comemora a
chegada de Nossa Senhora da Saúde aqui, com essa festa, com essa noveninha aí, nunca houve
reunião em Igreja, nós não gostamos disso, Igreja não ficou pra fazer reunião. Sempre a gente
se reúne na casa de um dos noiteiros, daquele que mais aparece na história. Né isso? Então,
começa por aí. A gente quando é perto, reúne os noiteiros... você quer os atuais, é?
130
Pesquisadora – Não. Quem é? Que figura é essa? Não nome, mas quem é os noiteiros?
Edna – Os noiteiros são os patrocinador. Que antigamente não existia esse nome bonito. E cada
noiteiro daquele... não hoje, viu. Eles deixavam ali uma garantia, viu?!
Pesquisadora – Antes da festa?
Edna – Antes da festa. Ali já estavam ali um dinheiro que eles davam.
Pesquisadora – D. Edna, então quem não tem dinheiro não pode ser noiteiro, né?
(risos)
Edna – Depois dá, né? Não...
(risos)
Era no tempo deles. O tempo de Mané Luis, de Valdemar do Luis, desse pessoa, do seu Lalá,
desse tempo... até acho que papai chegou desse tempo: de fazer a reunião na casa de um deles,
tomando café, conversando, aquela coisa gostosa, sabe? Aquele papo assim, sei lá, gostoso
demais. E ali acontecia. Porque aquilo ali ficava garantido e se faltasse alguma coisa pra cobrir,
já tava ali. Pra comprar os fogos... aquela reunião era pra isso: era pra falar sobre os foguete, né
isso?
Pesquisadora – A senhora percebe a necessidade de cada um querer fazer uma festa mais
bonita, de garantir uma noite bonita, quando era da responsabilidade dele?
Edna – Como assim?
Pesquisadora – Tipo: eu quero que todo mundo veja que na minha noite teve uma festa bonita...
Edna – Mas aqui só foi sempre um.
Pesquisadora – Ah! Todos assumiam uma noite só?
Edna – Nunca, nunca, foi mais de um.
Pesquisadora – A festa é uma noite só.
Edna – Só é uma noite. Agora os
Pesquisadora – Vários noiteiros pra uma noite?
Edna – Só uma noite. Só uma noite só. Tá vendo? Tudo isso, e era muito bonita e maravilhosa.
Agora no outro dia a missa. Tanto batizado no mundo, minha fia, que a Igreja não cabia. Logo
era pequena, né? Não tou falando dessa não. Aí ali eles fazia aquela reunião. Ali eles debatiam
o que ía acontecer. Tudo, tudo, tudo... ali tinha os problema, ali tinha as dificuldade, ali tinha
as crítica... pensa que nunca houve não? Muitas! Você imagina. É comunidade, né? Ai acontecia
a festa. Sempre, sempre com aquilo ali. Era o carrinho de pipoca, era... teve um ano que houve
um barco... foi tanta chuva no mundo que acabou a festa. Foi... de tanta chuva, os barcos cheio
de água.
Pesquisadora – Aqueles barquinhos de cordas, né?
131
Edna – É...
Pesquisadora – Mas vamos entender: acordei no 26 de dezembro, aí pronto, de manhã,
amanheceu o dia, dia 26, aí o que é que acontece?
Edna – Sim, as salvas, né? Na alvorada, né, que fala. A alvorada da manhã. Ele já se posiciona
ali no Lourival, naquela curva ali dá uma parada... é os tocadores, já vem avisando. Aí quando
chega ali eles ficam naquela posição tudinho...
Pesquisadora – O salva é antes da festa começar?
Edna – 6h da manhã
Pesquisadora – É antes das esmolas?
Edna – É... a chegada do dia 26. A Igreja já está aberta...
Pesquisadora – 6h da manhã?
Edna – 6h da manhã. Ele já chega, já dão um aviso ali com os birrinhos, aí eles tiram ali a
alvorada deles. O nome é alvorada, né?.
Pesquisadora – Ou salva de fogos também?
Edna – Não, mas é a alvorada deles. A alvorada de 6h. Aí eles vão, eles não vão pra Igreja,
aqui, ó. Eles começam aqui e tocam aqui e passam direto, visse. Sabe onde eles vão fazer a
volta? Lá na Tita, do seu Aristides.
Pesquisadora – Eles andam o pátio da Igreja.
Edna – Eles fazem aquele percurso assim, aí quando eles vem eles entram na Igreja...
Pesquisadora – D. Edna, mesmo sem plateia, de manhãzinha, eles cumprem esse ritual?
Edna – Ninguém! De manhãzinha...
Pesquisadora – Eles cumprem esse ritual?
Edna – Isso. E no ano que eles não fizeram, nós botamo eles pra trás. Porque quando nós
alcancemos foi assim, e assim tá e assim será. 6h a alvorada. Aí eles vem, ficam aqui, aí depois
vão tudo pra lá. Agora já tão indo da casa da Concília, já tão desobedecendo.
Pesquisadora – Já tão com preguiça.
Edna – Tá. Aí eles vão, aquela coisa... tudo certo, tudo bonitinho... aí vem por aqui, entra na
Igreja, aí é a hora das lágrimas, que não tem como não ser, na hora que eles chega. É muito
bonito! Muito bonito. Eles sozinho. Os vizinhos já tão por ali tudo acordado. Num é? Já tão
tudo acordado, a gente tem chegado com o café deles. O café de 6h, 6 e meia, quando termina
a salva, aí eles vão tomar café. Ali já tá o bolo, tá a bolacha, tá tudo que eles tem direito. Não
as comidas grossas, porque é de manhãzinha. Aí chega quem? Quando eles terminam, que todo
mundo, quando eles terminam de fazem as salva dos fogos, eles tão tocando ali, né? Aí já vai
entrando as pessoas e a bandeira tá em cima do altar.
132
Pesquisadora – Que bandeira é essa?
Edna – A bandeira do dinheiro. A bandeira já está ali. Repare quando ela sai toda enfeitada de
cem reais. Não foi os noiteiros ali. Ali não é os noiteiros. Ali é quem quiser batizar a bandeira.
Pesquisadora – Todo mundo contribui, não é só os noiteiros da festa, né?
Edna – Não... é todo mundo. Aí quem chega primeiro o Dorge. O Dorge chega com cem, eu
chego com cem. Edjauro chega com cem. Douglas chega com duzentos, Luis Lopes chega com
cem. E aí a bandeira sai a coisa mais linda do mundo. Ai toma o café, bota a bolsinha na mão e
todo mundo segue a jornada do dia. Todo mundo.
Pesquisadora – A bandeira já sai enfeitada?
Edna – Sai. Enfeitada de dinheiro, meu fio, não sai com dez conto, nem cinco não.
Pesquisadora – E vai aumentando lá no dia...
Edna – Ela passa o dia todinho com aquele dinheiro.
Pesquisadora – Tem gente que mesmo sendo noiteiro, mas também vai batizar a bandeira?
Edna – Bota. Se quiser, bota, se não quiser... porque não existe... agora na gestão atual não
estão mais deixando aquele dinheiro como antigamente. Esse daí é o dinheiro dele. Mas nós
não. Nós só somos comunicados... eu só comunico a alguém e a eles mesmo, se faltar dinheiro
pra cobrir as despesas. Aí a gente chama atenção pro que tá faltando e eles dá, mas graças a
Deus...
Pesquisadora – Como é feita a escolha... porque a bandeira ela é carregada, não é isso? Como
é feita a escolha da pessoa pra carregar a bandeira? Eu acredito seja um orgulho, não é? Um
orgulho pra pessoa carregar a bandeira.
Edna – Era o Zé Chiquinho. Na época deles era o Seu Aristides. Seu Aristides e minha fia, era
o da bandeira. A gente ta vendo ele com aquela bandeira, menina. Mas não tem nada não. A
gente deixa... num é?! Mas bebiam que só a desgraça. Agora ninguém bebe um um.
Pesquisadora – E é?
Edna – Tem as recomendações na saída: levanta o dedinho... se chegar aqui fedendo a cachaça
não recebe um centavo.
Pesquisadora – Esses quem são?
Edna – Esses são os de hoje.
Pesquisadora – A banda de pifo?
Edna – É. A banda. Não pode beber. Porque se beber como é que pode? Principalmente o da
bandeira, né? Aí sai... era o Zé Chiquinho... o Chiquinho saiu. Agora é o Ciço e Seu Ciliro. E o
Toinho e Seu Ciliro. Tem o caderno de anotação: se você der um centavo vai pra’li. Eu tenho
meio mundo aí de caderno. Se você quiser ver, minha fia, é lindo os caderno.
133
Pesquisadora – A senhora tem eles aqui?
Edna – Tenho... Aí óia... agora era o Zé Chiquinho, mas tá com dois anos... um ano só que é o
Ciço e Seu Ciliro e o Toinho da Ozora. O Bastião com os ovo...
Pesquisadora – A cesta dos ovos?
Edna – É... a bolsa, a bolsinha dos ovo... o Ciço e o Seu Ciliro é o atual, com a bandeira do
dinheiro...
Pesquisadora – O nome é esmolas, não é isso?
Edna – É... Eu acho tão pesado esse nome de esmola...
Pesquisadora – É... mas tem um significado... a senhora ver como, acha que é como?...
Edna – ajuda, contribuição, oferta, sei lá, qualquer coisa assim, mas depois vocês procuram o
nome. A gente não tá vendo é só o rascunho...
Pesquisadora – Tá certo.
Edna – Onde nós tava mesmo?
Pesquisadora – Aí eles saem na comunidade...
Edna – Sim... eles saem, mas ainda tem outro com a caixa de foguete...
Pesquisadora – Ah! Tem o guardador de foguete?
Edna – Tem!!!
Pesquisadora – A senhora consegue ver que mesmos esses meninos que estão carregando a
bandeira pela primeira vez, ou que carregam os ovos ou os foguetes... antes de carregar já
acompanhavam o pessoal?
Edna – Já!
Pesquisadora – Não é uma pessoa que não entende. É sempre alguém que fica por ali...
Edna – Ah! Com certeza! Eles querem. Só que tem um mistério aí; só quem não recebe é o da
bandeira.
Pesquisadora – Por que?
Edna – Porque... já vem de muito tempo. Ói, só quem não recebe é aquele que vem com a
bandeira: Ói, eu, o Toinho, os patrocinador e os noiteiros. Aquele que leva a cesta de ovos,
recebe. Aquele que leva a carroça, recebe. O que vai ajuntando os côco, as abóbora dentro de
uma carroça, ele recebe. A carroça de burro. Pra carregar as galinha, as coisa... e... é outro que
recebe...
Pesquisadora – O do foguete, o que carrega?
Edna – Não... o do foguete não. Mas ele recebe o que a gente dá. Tá vendo? Que é ou o Tonho
do Riacho Fundo ou um Branquinho da Lagoa do Canto. Eles sabem que a gente dá alguma
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coisa e vem. A gente pra não deixar eles desgostoso, a gente também contribui. Não é de graça,
aquilo ali.
Pesquisadora – E é um envolvimento não só da Lagoa da Areia, pelo que eu tou percebendo.
Existem outras comunidades acabam se juntando nessa hora.
Edna – Se juntando e eles gostam.
Pesquisadora – Eles passam em outras né?
Edna – Eles fazem nas comunidade dele e ao mesmo tempo vem pra cá no dia 26 até convidado
por [...]
Pesquisadora – A banda passa em outras comunidades?
Edna – Passa! Sabe porque não tá passando mais? Porque não dá tempo em outras comunidade.
Pesquisadora – Por que é um dia só pra isso,né?
Edna– Em Lagoinha dos Tonheiro é feito no dia 25 a tarde. Tá com três anos que acontece isso.
Porque a população cresceu, né? As residências, tem muitas agora construída... e o pessoal
reclamando e não traz o presente do leilão, porque no dia foi tocá. Num passou lá. Aí, num ano
nós mandamos os daqui, os da Lagoa da Areia. Não tinha uma banda enorme aqui? Acabou
agora, porque eles morrero. Ía pra Alagoinha. Aí a gente recebeu reclamação, porque no dia 26
bota os bons e no dia 25 de tarde bota esses povo que não vale nada. Aí foi uma queixa tão
grande! [...] Queria os bom também, que é os menino de Pernambuco. Os tocador de pífano.
Não é daqui, é de Pernambuco. É o Ivo e o Zé Maria.
Pesquisadora – Eles vem só tocar?
Edna – Vem só pra tocar. Mas todo mundo ama essa Nossa Senhora, né? Aí nós vem todo
mundo pra cá. E aí a gente tem que receber a todos, né isso? Aí no outro dia, meia noite, nove
horas da noite, oito se reza... já tou deixando coisa atrás... quando é seis, cinco e meia eles tão
chegando aqui.
Pesquisadora – Da noite? E a comida? Eles comeram aonde?
Edna – Eles saíram de manhã pra salva, aí vão pegar as esmolas, aí, eles vão almoçar, né? Eles
comem no caminho? Nove horas é a hora do almoço.
Pesquisadora – Nove da manhã?!
Edna – Nove da manhã.
Pesquisadora – Eles almoçam cedo, né?
Edna – É nosso café da manhã.
Pesquisadora – Aquele reforçado, né?
Edna – Reforçado! Daqueles... você sabe como é que é né? Minha fia, já foi em tanta casa
nesse mundo... mas nesse último ano foi na casa da Chica do Mané. O almoço nunca vai deixar
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de ser, enquanto ele for vivo, na casa do Toinho e a janta na casa do Germano. Todo ano. E era
na casa da Gandi, e era uma briga infeliz, e ninguém quis mais. Depois na casa do Bastião, mas
do mesmo jeito correro. Ninguém aguenta a Gandi, né? Aí quando eles volta...
Pesquisadora – O almoço é de meio dia, né D. Edna?
Edna – O almoço é de meio dia na casa de Toinho. Meio dia, uma hora... porque nunca chega
na hora certa, né?
Pesquisadora – D. Edna, mais gente acompanha a banda de pífanos?
Edna – Muito, mulé! É uma agonia! É um monte de gente! Não sei como é que vão? Não sei
não como é tanta gente, viu. Por isso que tem que ser muita coisa na hora do almoço e janta. Aí
quando é cinco horas, depois dessa jornada todinha que eles fazem, eles vão chegando... aqui
tá um silêncio, que a gente pensa que não tá acontecendo nada, mas quando dá cinco horas, eles
vem fazendo esse resto aqui, né? Fazendo de casa em casa, até chegar na...
Pesquisadora – Aí eles chegam seis horas e vão pra salva.
Edna – As seis horas já tão acontecendo as salva. Cinco e meia eles chegam. Cinco e meia eles
tão chegando. Aí é a hora dos fogos, né? Uma hora de salva, né? Aí, ao sair dali, vão pra casa
tomar banho, procurar a casa onde tão alojado pra tomar banho, os de fora, né? e vão tomar
café. O último café foi na casa do Bastião, que a Olindina adoeceu, aí não pode fazer, aí o
Bastião foi quem deu. Quando eles chegam, aí é na hora da novena. Vamos para a novena de
oito horas. Você tava o ano passado, trasado?
Pesquisadora – Tava.
Edna – E o que era que tinha? Pra ver se você tava mesmo?
Pesquisadora – Como assim o que era que tinha?
Edna – Nesta última festa, na hora da novena, qual foi a novidade?
Pesquisadora – Não lembro, D. Edna...mas eu estava...
Edna – Você tava não.
Pesquisadora – Na última?
Edna – Mas no terço você não tava. Na novena. O que é que você viu há mais, ali?
Pesquisadora – Tinha alguma coisa relacionada... Tinha uma tecnologia que eu não lembro o
que era. Lembra, Moisés?
Moisés – Não sei se eu tava.
Pesquisadora – Tava... tinha uma tecnologia...
Edna – Pra começo de história... na Igreja nesse dia, nesse ano de 2014...
Pesquisadora – Era alguma coisa num vaso... deixa eu lembrar.
Edna – Não. Você não veio não.
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Pesquisadora – Vá, conte aí, então.
Edna – A Igreja muito cheia, a Igreja cheia. A novena, a última novena de Nossa Senhora da
Saúde foi acompanhada por teclado e violão.
Pesquisadora – A novena?
Edna – Tinha um homem... na festa tinha um homem de .... Ele disse que nunca viu uma coisa
daquela na vida dele. D. Menina, pelo amor de Deus... o Neném no teclado, o Neném meu.
Ladainha, salve rainha, tudo ele acompanho com o teclado e o Jardileno no violão e eu e D.
Lourde e o povão. Você sabe, né?
Pesquisadora – E quem teve a ideia de colocar os instrumentos musicais esse ano?
Edna – Eu. Eu. Quem é que ia fazer nada? Aí eu ensaiei com eles, D. Lourdes, que era quem
reza, né? Eu mais D. Lourde e nós no microfone. Eu tenho raiva daquilo, mas ainda bem que
só saiu dentro de casa, dentro da Igreja. Não saiu lá fora. Eu só me lembro de Lagoa do Canto.
Aí minha filha foi muito bonito! E no outro dia... aí quando termina ali, todo mundo faz a sua
referência do altar, lá no santíssimo e vamos para o leilão.
Pesquisadora – Depois da novena é o leilão, né? Mas vamos entender a novena. A novena tem
os cânticos certos, eles sempre seguem aqueles mesmos cantos...
Edna – Não tirou nada. E ai de mim se tirar.
Pesquisadora – Sim. Aí o que é que tem?
Edna – Primeiro a ejaculatória, se chama ejaculatória... (em latim) Uma coisa em latim, viu.
Começa por aí. Motinha ama essas coisas. Ele gosta de coisas véias. Depois das jaculatória, aí
vem a ladainha (em latim). A ladainha, né? Em latim também. Só que nós fala a nossa língua,
porque ninguém vai falar, porque nem todo mundo entende. E eu também. Depois da ladainha
vem o salve rainha, depois da salve rainha... sabe qual é a salve rainha? Ladainha e salve rainha?
(cântico) Essa é a salve rainha. Depois da salve rainha, aí vem o quê, o hino do padroeiro, Nossa
Senhora da Saúde. Depois disso é o canto final, todo mundo beijando, e vivas e mais vivas... e
aí é onde começa o melhor.
Pesquisadora – Aí tem o beija, no final da novena.
Edna – É. No final. Aí o pessoal tudinho que tão ali, vão até o altar e é o tempo de beijar.
Pesquisdora – D. Edna, eu observei o seguinte: os homens são os primeiros a beijar. A senhora
tem alguma informação porque começou a beijar?
Edna – Eu não sei porquê isso. Por que eles têm essa condição, hein?
Pesquisadora – Pode passar meia hora e nenhuma mulher levanta-se da cadeira esperando o
homem beijar.
Edna – Mas já estão passando na frente.
137
Pesquisadora – Já estão?!
Edna – Já.
Pesquisadora – Ah! Importante.
Edna – É pra não se misturar. Mas eu já ouvi muito quando eu chegava: primeiros os homens.
Mas repare.
Pesquisadora – O que a senhora acha disso?
Edna – Eu não sei, Simone. Eu não posso apontar, porque tanto faz como tanto fez, mas cada
um tem... eu já encontrei assim e eu num vou desfazer e eu tenho uma pessoa ao meu lado que
eu trago ela como uma mestra e eu respeito demais até e se chama Maria de Lourdes. Defeito
todo mundo tem, mas eu num olho. Eu sou uma pessoa que eu não olho os defeitos da pessoa.
Quero saber das qualidade que elas tem. Os defeito a gente passa por cima e vai embora. Eu
respeito muito, todo dia eu peço a Nossa Senhora pela saúde. Eu tou vendo ali um pedaço da
mamãe. Se eu tirar... óia, minha fia, tem dia que eu me faço. Me esqueço das coisas, mas ela
não esquece não. Toda vez que a gente termina de fazer a adoração do santíssimo sacramento
a gente tem aquela palavra que diz assim: graças e louvores se dê a todo momento, ao santíssimo
e digníssimo sacramento três vezes. Ali já é o final. Né isso? Mas ela tem que cantar (cântico).
E quem inventou foi Bastião. O inventor disso foi Bastião:
- Vamos dar um boa noite a Jesus!
Aí ela começou. E no dia ... as vezes eu me faço que me esqueço, quando eu tou cantando já aí
eu...vou fazendo a bença de Nossa Senhora, aí ela entra com o boa noite meu Jesus, mas repara
pra D. Lourdes. Aí é por isso que eu digo, eu não posso tirar nada, mas antes ela bota. Óia
aquele negócio que diz assim: Oh meu Jesus, perdoai-me e livrai-me do fogo do inferno...
Pronto, basta isso, não é isso?
Levai as almas todas para o céu. Socorrei principalmente, aquelas que
mais precisarem da vossa infinita misericórdia.
Eu já vi na televisão esse negócio aí. Aí já vem:
ô minha virgem santíssima, vós não perguntais que eu viva e nem morra
em pecado mortal; pecado mortal não ei de morrer, que a virgem
santíssima há de nos valer. Há de nos valer na maior aflição, minha
virgem santíssima tenha de mim compaixão.
Ô mulher já tá bom até de mais, D. Lourdes ainda vem:
- Jesus manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.
A D. Lourdes botou:
138
- Abençoai o Santo Papa, o bispo diocesano e todo clero.
E nós tamo lá:
- Abençoai as nossas famílias e dai-nos a paz.
D. Lourdes botou outra emenda:
- Jesus, Maria e José... viu!
Óia que jaculatória comprida:
Jesus, Maria José, nossa família, vossa é.
Isso é o terço da família. É o terço da família, isso aí. Mas ela já emendou isso aí:
- Jesus, Maria, José, nossa família vossa é.
Três vez, viu. Ela diz:
- Nossa Senhora da Saúde.
Nós responde:
- rogai por nós.
Primeiro mistério... [risos] a anunciação do anjo à Nossa Senhora... Pai nosso que estás no céu,
aí aqui vem umas Ave Maria, toda vez a gente diz isso.
Pesquisadora– A cada mistério a jaculatória...
Edna–É..tem que sair todinha.Quando é agora ela já inventou no ofício. Vem, terminou o
ofício. Tem o oferecimento:
Senhora Maria santíssima, confiai nossa proteção à vossa santíssima
sombra...
Não tem?
Vós como mães singular na fé da infinita misericórdia. Encomenda
minha alma, meu corpo na vossa paixão para quem celebrou o ofício
da vossa puríssima conceição. Atividade nos alcançai a vossa graça e
o ofício da alma e do corpo. Deus como Pai, Espírito, Espírito Santo,
para sempre sem fim, amém.
Você sabe assim também?
Pesquisadora – Eu sei essa versão.
139
Edna – Aí sabe o que é que ela diz?
Pesquisadora – Sim.
Edna – O anjo do Senhor anunciou à Maria.
(Risos)
Edna – Não, tô no ofício. Porque isso é do terço. Isso o que eu tou dizendo, né? Ela escutou na
televisão. E eu digo:
- não... a voz do Senhor anunciou à Maria.
E ela consegue: do Espírito Santo, Ave Maria e Santa Maria. Eis aqui a serva do Senhor. Ave
Maria, Santa Maria...
Isso tudo no ofício, viu?
Ave Maria e Santa Maria.
Aí vem aquela:
- E o verbo de Deus se fez carne, habitua entre nós.
Aí vem a ladainha, né?
- Nossa Senhora
- Rogai por nós.
- Santa mãe de Deus
- Rogai por nós.
- Santa virgindade...
E eu vou tirar? Eu não. A Cila fica brava com isso. Eu digo:
- Ô mulé, deixa ela fazer.
Quer dizer, quando ela vem, né? Porque hoje ela não vem mais, né? [...] Aí minha filha, tudo
isso. E eu respeito. Nós fiquemos na onde? Na missa, num foi?
Pesquisadora – Nós terminamos a novena... terminamos...
Edna – Nos fiquemo no leilão!!
Pesquisadora – Todo mundo beijou...
Edna – Isso... e nós vamos pra mesa do leilão. Essa mesa que tá aqui, muito bem forrada, linda
e maravilhosa. Aí chega os cachos de banana, e os de côco... tudo quanto é de direito Nossa
Senhora ganhou, né? E ali cerca o dono do caderno, viu?! O dono do caderno e da bandeira do
dia. Senta ali, com o carro de som... né isso?
Pesquisadora – Nem sempre teve carro de som?
Edna – Não, mas agora tem, né? Pra anunciar, porque os cabra que anunciava morrero. Foro
tudo simbora. Morreu Detude, morreu Ciço do tio João Rosa, morreu tio João Rosa, morreu
140
todo mundo... Ninguém quer gritar leilão. Quem tá gritando agora ou chama um de Palmeira
de Fora ou o próprio rapaz do carro de som grita.
Pesquisadora – Como era o grito antes do carro de som?
Edna – Antes?
Pesquisadora – É.
Edna – Dez cruzeiro me dão, né? Era... No cacho de banana! Ele gritava, ficava gritando:
- Dez mi réis de cruzeiro!
Era cruzeiro naquele tempo, néra?
- Dez cruzeiro me dão no cacho de banana pra Nossa Senhora da Saúde! Tira o mórrrdo!
Pesquisadora – O que?
Edna – O mórrrdo.
(gargalhadas)
É molde, mas você sabe a língua do agricultor como é que é, né? Mas você sabe como é a língua
do matuto, né?
- TIRE O MÓRRRDE, nesse cacho de banana!!
Juntando o dinheiro, e ele passando na festa todinha. As pessoas arrematar, como ele diz, né?
É arrematar? Como é o nome mesmo?
Pesquisadora – É.
Edna – Aí eles vão, recebe o dinheiro e anota. Até terminar o último prêmio. Aí depois a entrega
da noite, depois do leilão.
Pesquisadora – E isso todo mundo já bebeu cachaça...
Edna – Ah... minha fia, a gente já dançou... agora não, porque hoje nem tá existindo tanto isso,
né? Porque as coisas tá muito moderna. Graças a Deus que o bispo acabou com essas bandas,
né? que tinha nas festas... que coisa ridícula!
Pesquisadora – Disputando com a banda de pífanos, não é? É desigual.
Edna – Dando graças a Deus, mulé, vendendo as coisas, o povo vendendo pouco ou nada pra
começar o baile na porta da Igreja... é... dava uma dúzia por dois reais ou a caixa de ovo pra
acabare cedo e o povo. Os de que a banda vai chegando e já tava ali, né? Bem na porta da
Igreja... fez com as mão e desmancha com os pés. Vá fazer seu furdurço pra lá, mas na festa...
nem São Sebastião... os único nem Nossa Senhora da Saúde, nem São Sebastião. Nunca
aconteceu isso! Nunca! Colocar a carta pra gente arrecadar dinheiro na comunidade. Seu
Sebastião botou uma vez, mas ele não deixou também, porque ali é o percurso pra eles fazerem
durante o dia todinho. Aí nós vamo botar a carta pra fazer a coleta de dinheiro e no dia da festa
o povo vai pedir aonde? Já dei. Né isso? Por isso que...
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Pesquisadora – E o ritual deixa de acontecer? Os fogos ficam sem sentido... a caminhada dos
tocador, né?
Edna – Como é que pode, Simone? Pois é..minha filha... Aí no ano que fizeram isso... olha a
confusão! Olha a confusão! Quando eu penso que não, chego na Lagoa do Canto... ah!
- Olha aqui a carta da festa!
- O que??!! De quê, menino?
- Da festa, que dissero que era pra guardar o dinheiro dentro dessa carta?
- Pra quê?
- Pra festa de Nossa Senhora da Saúde.
Aí a mulher disse:
- Ali na Lagoa do Canto tá cheio.
Aí eu disse:
- Quem foi que botou?
- Ah nós não pode dizer não.
- Pois é. Pois um dia eu sei. Tudo bem. Mas eu num levo não, viu. Levo não, porque quando eu
cheguei já achei. E isso aí vai permanecer até o dia que Deus quiser e eu tiver por aqui e tiver
esses raminhas por aí, mas carta pra Nossa Senhora da Saúde eu não compro não.
Aí, quando eu cheguei em casa... não trusse não a carta. Pois é, minha filha, ... quando eu
cheguei em casa liguei pra responsável desse grupo pra saber se ela tinha liberado isso. Aí ela
disse:
- Não, D. Edna, de jeito nenhum.
- E como tá acontecendo isso aqui? Isso aqui nunca aconteceu e porque agora tá acontecendo?
Pois pode acabar com isso agora! Porque as coisas não vai ficar assim não. Vocês abra o olho.
Aí ela ligou pro pessoal perguntando pro grupo, né? Ainda quisero vir bater de frente comigo.
Os amigo! Meu. Num foi delas não. Pensando que tinha sido eu que tinha inventado isso.
Vieram as filha de Olindina e os filho. Tudinho vinha praqui, me pegar. Pesado. Foi pro Ciço
Antonho, aí ele disse:
- Não, não foi D. Edna não.
Mas já estava muito bem preparado pra vim bater de frente comigo. Aí foi a confusão das
desgraça. Subiro e descero... Quando foi no dia da festa de Nossa Senhora da Saúde... na hora
que terminou o leilão... tudo já preparado pra ir embora chegou quatro pessoa me prestando
conta do que tinha gasto. Mas menina, aquilo pra mim foi... que eu não sei como fiquei. Olhei
assim... eu disse:
- Porque vocês tão me mostrando isso?
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- É pra senhora ver...
- E o que é que eu tenho a ver com isso? Que vocês gastaro ou deixaram de num gastar? Eu não
tenho nada a ver com isso. Vocês sabe com quem vocês vão prestar conta disso aqui? Vá ali no
carro de som. O carro de som está no mesmo lugar. Se vocês se considera que é erraram, vocês
vão ali e peça desculpa a população todinha. A comunidade Lagoa da Areia quem deve ouvir
isso aí que vocês fizeram não sou eu não. Quem sou eu?
A outra com vinte reais, com vinte conto.
- Pra que esses vinte conto? Pra que esses vinte reais, eu perguntei. Me diga pra que é?
- É pra senhora pagar o pessoal que foi pra...
- Pagar o que, minha fia?
- Pagar o pessoal que botou essas banca aí, pa ajudar.
Eu disse:
- Não. Eu não quero seu dinheiro, sabe porque? Porque eu já fiz o que tinha que fazer. Eu já fui
em cada banquinha dessa que tá aí e disse a eles que quando eles saíssem a sujeirinha que eles
fizesse, fizesse ali, eles botasse num plasticozinho e levasse.
E já era uma ajuda suficiente pra não cobrar o dinheiro deles.
- E pra eu fazer isso aqui num vai encaixar com isso aí não. Não precisa de jeito nenhum. De
jeito nenhum, porque pra eu cobrar de vocês aí tem que todo mundo saber, porque aqui tudo às
claras. Aqui não tem nada... é transparente.
- E é?
Eu digo:
É!
Ela foi entrou. Não se conformou com o que eu disse, essa pessoa, entrou e foi parar na sacristia
onde o Zé Chiquinha tava com o caderno. E eu olhando de cá. Aí eu saí, e quando eu cheguei
lá o Zé já tava...
- Êpa! Não aceite não.
- Não?
Eu disse:
- Não. Esse dinheiro aí, a gente tem que contar a história dele se você for anotar, que veio do
grupo de casais pra isso, isso e isso, mas não foi aceito e eu não sei onde vou botar ele. Você
que tá com ele na mão. Vá naquele cofre ali e bote dentro e ela foi e botou.
Só que no mês de janeiro foi a missa da comunidade. Quando ela abriu, era a tesoureira, né?
quando ela abriu o cofre aí eu perguntei:
- Tu encontrasse vinte reais no banco?
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Ela disse:
- Encontrei.
- Pois foi aquele que você queria que eu pegasse pra limpar a parte [...] não senhora. Não é por
aí não. Não é não, minha fia, assim. Você sabe muito bem que não é. Ói, quando eu conversei
com você pra vocês fazerem a procissão de Jurema, eu disse direitinho como era que vocês
fizesse. Primeiro erro de vocês foi não convidar Pilões e foi quem recebeu vocês a primeira vez
lá. Tudinho lá. E vocês fizeram ouvido de mercador e não convidaram. Aí eu recebi a
reclamação de lá. E o pessoa da Lagoa da Areia, os casais.
- D. Edna me desculpe, mas seu povo aí não sabe fazer nada. Não sabe diminuir nem somar.
Eu fiquei, tive que ficar calada, porque eles não foram. Qual era o deles? Sair esses casais, um
ou dois e fosse lá comunicar a Pilões que fosse, levasse o padroeiro São Sebastião para a Jurema
pra vim a procissão de lá. Mas não vieram não. Eu fui à D. Diva e disse:
- D. Diva porque vocês fizeram e não convidaram Pilões. Tão bem que eles receberam vocês.
Sabe o que ela disse:
- Eu não vi ali nada.
Mas menino, isso aí me deu uma raiva tão da gota daquela mulé. Mas minha fia...
Pesquisadora – D. Edna, vou ter que ir andando, viu.
Edna – Pra onde?
Pesquisadora – Não. Pra frente.
Edna – Hum. Diga.
Pesquisadora – Aí vocês prestam conta do que...
Edna – No final, na missa. É pago... a gente ainda num sabe quanto foi e quanto num foi.
Pesquisadora – Esse dinheiro é do leilão, da esmola...
Edna – Daquela bandeira que foi colocada aquela dinheiraba... aí, o Zé Chiquinha é a pessoa
responsável por aquele dinheiro todinho ali. Guardadinho de noite, ainda. Ele faz mais ou
menos um balanço assim, claro... e no outro dia é a missa, aí... e o dinheiro da missa... missa
ninguém paga, né? Você sabe disso, né? A oferta pro padre, a última que foi paga foi duzentos
e cinquenta reais. Tá vendo? A última missa que foi paga foi esse dinheiro: duzentos e cinquenta
reais. Tirado do dinheiro do leilão, viu? Não é de oferta que cai no cofre. E esse aí quer levar é
tudo. Aí, quando é no final da missa, quando amanhece o dia,né? aí se reúne aquelas pessoas
que tava na mesa do leilão com o dinheiro e a tesoureira. Ali vão contar o dinheiro todinho, pra
quando for no final da missa, na hora dos avisos aí o tesoureiro vai, conta o dinheiro todinho,
na vista do povo e guarda. Ali vai procurar um destino.
Pesquisadora – Pra que é esse dinheiro?
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Edna – O dinheiro é pra despesa da Igreja. Aí ali vai...
Pesquisadora – Vai pro padre.
Edna – Não, o padre é só duzentos e cinquenta. Mas antes do padre... detalhe, viu: antes do
padre, da missa, na mesma noite da festa, vai sair o dinheiro dos tocador, vai sair o dinheiro dos
foguete, o dinheiro daquele pessoal que caminhou durante o dia, aquele da bolsa, tudinho da
noite, viu?! Vão se indo embora e vão recebendo o trocado deles e vão indo simbora. O que
fica aí vão no outro dia anotando o que vai saindo, né? num vai saindo? Mil e cem, que foi dos
tocador. Trinta reais daqueles meninos que vão com a bolsa, mas já que era dois dia, um dia e
meio, no dia 25 a tarde eles vão pra Lagoinha... não recebia só trinta, era cinquenta. Aquele
pessoal ali da roça, aquele pessoal dos fogos, muitos ali que recebia era de noite mesmo. Era
terminando o leilão, entregando a noite e a gente fazendo os pagamento deles. Viu? O tesoureiro
e o rapaz do leilão. Aí no outro dia era a missa, aí é quando presta conta de como ficou: era
tanto, gastou tanto, ficou tanto. Entendeu?
Pesquisadora – Essas despesas são o quê? O que é que vocês pagam com isso? Com esse
recurso? Com o que fica?
Edna – A gente guarda.
Pesquisadora – Faz uma poupança?
Edna – Tá no banco, que tem. Foi feito esse ano.
Pesquisadora – Mas antes o que é que acontecia?
Edna – Botava num canto em casa ou lá na Igreja mesmo e ali tirava...
Pesquisadora – Pagar energia...
Edna – Dificilmente saía dali. A gente deixava... porque é assim, sabe? Sabe porque a gente
tem que guardar e não gastar? Porque é esse aqui do ano passado cobrindo isso aqui. Porque se
você vai comprar trinta e sete caixas de fogos em Arapiraca... você ali não pode ficar devendo.
Tem que pagar na hora. Né isso? Aí já nesse, o do ano passado vem cobrindo o desse ano.
Pesquisadora – Como é que vocês fazem pra cobrir as despesas do ano: energia, pintar, toalha...
Edna – A pintura tem que sair daqui. A pintura, agora, por exemplo, tá vendo? A Igreja vai ser
pintada, mas já tá lá no banco. Lá tem dois mil e pouquinho, mas que foi comprado guardaroupa esse ano, foi comprado uma cômoda, foi consertado a porta que dá pra... queimou-se
umas lâmpadas, foi feita. Deu problema na energia foi preciso trocar todinho. Isso aí foi por
minha conta. Eu paguei. Eu cobri isso aí. Então ficou esse dinheiro lá. Aí foi tirado mil e ficou
mil. Tá lá. Já esperando pra que? Pros próximos fogos, ou senão pra pintar a Igreja. Mas não
vai levar tudo pra pintar a Igreja. E as outras despesas que a gente cobria: flores e muitas coisas
mais... velas caríssimas, que nós não... era aquela vela grande, né? num são caras? E outras
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coisas... é tudo, tudo, do ofertório daqui. Mas agora a Igreja não tem um centavo, porque o
padre tirou as missa. A família paga a viagem do padre: 150. Né isso? E ficava o ofertório, as
moedinhas que caia ficava ali e a gente viajava, todo ano nós estava em Palmeira com Nossa
Senhora da Saúde, fomos pra Estrela, uma festa belíssima, que Motinha convidou Nossa
Senhora da Saúde nas paradas de Estrela de Alagoas, eu nuca vi tanta coisa bonita! Nossa
Senhora num carro empurrada dentro da Igreja! Carrinho dentro da Igreja, menina! E ela toda,
assim! E ela toda de rosa, menina! Que coisa mais linda! Botaram um negócio assim nos pé
dela, como quem era um algodão com estrela e ela com a coroa na cabeça e o povo passando
mão, Simone e se benzendo, que você visse. E Motinha naquela largura, com aquele prazer
enorme. Ele tinha muita vontade de vim pra qui, pra Nossa Senhora da Saúde, ele tem um desejo
tão grande, que não vai parar, antes de morrer, não vai fazer isso mais não, coitado, já tá naquela
idade, viu. Quando foi no outro dia, Simone, na abertura da procissão, Nossa Senhora da Saúde
na frente, num carro aberto do, do... o carro era até do Aldo Lira, e ela em cima sabe? E ela em
cima do carro muito bonita, vixe santíssima, só você visse! Quando foi na chegada novamente
ela entrou, ficou lá dois dias no Bola, essa daí. É um prazer muito grande, e chega esse homem
desmantelando tudo.
Pesquisadora – Certo. Vamos voltar só um pouquinho. Da festa que nós esquecemos um
detalhe. A senhora falou na entrega da noite.
Edna – Sim. Aquela lá, que nós fica lá.
Pesquisadora – Sim. O que significa?
Edna – A entrega da noite é: Já andaram o dia todo, fizeram o movimento todinho, ai quando
termina, todo mundo todo mundo, que todo mundo vai pra casa, os tocador entra né? Os tocador
antes dele entrar, pra beijarem é a entrega da noite, ai solta foguete em homenagem a todos e
fechamos tudo com muita alegria. Ai é uma entrega a Nossa Senhora, não é isso? Agradecendo
por tudo, homenageando a todos. Aqueles foguetes é o viva, não tem muito foguete mas aqueles
fogos respondem, ne?! Aquela foguetes, é uma alegria ne?! É uma entrega, e você interpreta ai
do jeito que você quiser, sabe né, modernidade né. Nunca me disseram, uma entrega, uma
entrega. Mas no outro dia ainda tem coisa né? A missa sempre quatro horas da manha. Da tarde!
Pesquisadora – Pra os batizados?
Edna – Batizados, mas agora não tem amis não. Cabou-se tudo. Tem mais nada disso não. Aí
minha filha, é a Festa de Nossa Senhora, e se você pegasse uma pessoa mais que acompanhava
mais, você ainda ia lucrar mais, que é a Concilia.
Pesquisadora – Qual a importância de tudo isso pra senhora?
Edna – Minha filha, só em está numa beleza dessa!
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Pesquisadora – Porque a senhora resolveu se envolver?
Edna – Eu vim abraçar essa... é uma missão, pode crer, minha filha que já vem de família,
entregar nas mão de qualquer pessoas, não. Já vinha de mamãe, eu no dia que fizeram a reunião
na casa da mamãe pra dizer como as coisas iam ficar, Nossa Senhora entrou, porque ela é um
patrimônio muito forte na nossa vida, principalmente da família Pinto.
Pesquisadora – A senhora fala da reunião da sua família?
Edna – A reunião quando ela faleceu. Houve a reunião e ai Nossa Senhora, entrou nessa
reunião, como era que ia fica, quem ia ficar com a chave, ninguém queria. Nós não fizemos
uma reunião em comunidade, só a comunidade familiar ali, sabe. Ela já cuidava. Quando Nossa
Senhora chegou, ela ficou no berço dessa família, ela não foi pra outro lugar, ai por isso que eu
abracei e disse e digo, vou defender até morrer, enquanto eu tiver viva, pode me bater dentro
da Igreja, não me importa não, eu vou defender Nossa Senhora de unhas e dente, porque ela faz
parte da nossa família, ela é a padroeira da nossa comunidade. Mas como qualquer um é
acolhido numa comunidade, ela foi acolhida por essa comunidade, então não podemos largar
ela assim à toa. Nossa Senhora da Saúde! Agora a Igreja onde ela hoje está ai já é uma história
mais aprofundada, né?