Trabalho, Seca e Capital da Construção da Ferrovia Paulo Afonso à Fábrica de Linhas da Pedra (1878-1914) - José Cícero Coorreia
Trabalho, seca e capital da construção da ferrovia Paulo Afonso à fábrica de linhas da pedra (1878-1914) - José Cícero Correia.pdf
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTES – ICHCA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO
EM HISTÓRIA
JOSÉ CÍCERO CORREIA
TRABALHO, SECA E CAPITAL: DA CONSTRUÇÃO DA FERROVIA
PAULO AFONSO À FÁBRICA DE LINHAS DA PEDRA (1878-1914).
(Volume único)
MACEIÓ
2015
JOSÉ CÍCERO CORREIA
TRABALHO, SECA E CAPITAL: DA CONSTRUÇÃO DA FERROVIA
PAULO AFONSO À FÁBRICA DE LINHAS DA PEDRA (1878-1914).
Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação em História da Universidade Federal de
Alagoas, como requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre em História.
Orientador: Prof. Dr. Osvaldo Batista Acioly Maciel
(Volume único)
MACEIÓ
2015
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário Responsável: Valter dos Santos Andrade
C824t
Correia, José Cícero.
Trabalho, seca e capital: da construção da Ferrovia Paulo Afonso à Fábrica de
Linhas da Pedra (1878-1914) / José Cícero Correia. – 2015.
129 f. : il.
Orientador: Osvaldo Batista Acioly Maciel.
Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Ciências humanas, Comunicação e Artes. Programa de
Pós-Graduação em História. Maceió, 2015.
Bibliografia: f. 112-118.
Anexos: f. [119]-[129].
1. Alagoas – Histórias, 1878-1914. 2. Sertão alagoano – Condições sociais.
3. Gouveia, Delmiro, 1863-1917. 4. Trabalhadores – Ferrovias. I. Título.
CDU: 981.35
FOLHA DE APROVAÇÃO
Para Maurycléia
AGRADECIMENTOS
Começo meus agradecimentos pela FAPEAL que me concedeu uma bolsa que foi
fundamental para a realização dessa pesquisa. Em seguida, ao professor Osvaldo Batista
Acioly Maciel, que aceitou orientar-me em mais uma etapa da minha formação acadêmica.
Agradeço também aos professores do Programa de Pós Graduação de História da UFAL, bem
como aos amigos e colegas de sala de aula com os quais compartilhei parte desta empreitada,
sintam-se todos citados aqui. A todos os meus familiares, em especial, a José Onaldo, meu
pai, a Terezinha, minha mãe, a minha vó Aurelina, a minha tia Maria do Carmo e aos meus
irmãos Manoel Messias e Maria Poliana.
Agradeço as pessoas que trabalham nas instituições que preservam a documentação
fundamental para nossa história social, pois sem elas esta pesquisa não seria possível.
Obrigado Meire, Vânia e Sol (IHGAL); Michele (APA). Nesse momento não poderia deixar
de mencionar a minha gratidão a Caroline Fialho (PPGH-UFAL) pela presteza que sempre me
atendeu quando precisei de algum documento ou informação referente ao curso.
O sertão não é um espaço simples. A simplicidade do
sertão só a temos quando não nos aprofundamos no que o
sertão é. Quando temos o sertão como algo a conhecer,
como algo a estudar, quando o levamos a sério, com seus
ciclos etnográficos e com seus ciclos históricos,
descobrimos que o sertão não é fácil, é contraditório, é
difícil na sua arcaicidade.
Dirceu Lindoso
RESUMO
O período entre 1878 e 1914 foi o momento em que se realizaram no sertão de Alagoas as
ações mais efetivas de integração da região ao mercado mundial. A primeira iniciativa neste
sentido foi a construção da ferrovia Paulo Afonso, entre os munícipios de Piranhas-AL e
Jatobá PE. Iniciada em 1878 e concluída cinco anos depois, a obra contou com a utilização da
força de trabalho de milhares de retirantes refugiados da grande seca de 1877, que
trabalhavam pela ração diária. Entre o final do século XIX e início do XX, a região vivenciou
considerável crescimento populacional, houve também uma significativa expansão
econômica, com destaque para o cultivo do algodão e a pecuária. Acreditamos que essa
situação estrutural, aliada às vantagens econômicas garantidas pela oligarquia Malta tenham
sidos os principais motivos para mudança do capitalista Delmiro Gouveia do Recife para o
sertão alagoano. Delmiro ascendeu econômica e socialmente com o comércio de peles,
comprando-as nos interiores para exportação, principalmente para a Europa e os Estados
Unidos. Porém, quando se muda para a vila da Pedra era declarado falido. No sertão de
Alagoas Delmiro recompõe seu capital, e investe na construção de uma usina hidrelétrica e
numa indústria têxtil, a primeira inaugurada em 1912 e a segunda em 1914. Ao entorno da
fábrica ergue um núcleo fabril para alojar os operários, a maior parte desses era composta por
emigrantes refugiados da seca de 1915. O núcleo da Pedra era apresentado como um exemplo
―modelar‖ de sociedade, onde tudo e todos estavam voltados para produção de mercadorias,
inclusive mulheres e crianças.
Palavras-chave: Sertão. Seca. trabalho e ferrovia.
ABSTRACT
The period between 1878 and 1914 was the moment that took place in Alagoas hinterland of
the most effective actions to integrate the region to the world market. The first initiative in
this direction was the construction of the Paulo Afonso railway, between the municipalities of
Piranhas and Jatoba AL-PE. Begun in 1878 and completed five years later, the work included
the use of the workforce of thousands of refugees refugees of the great drought of 1877, who
worked for the daily ration. Between the late nineteenth and early twentieth centuries, the
region has experienced considerable population growth, there was also a significant economic
expansion, especially the cultivation of cotton and livestock. We believe that this structural
situation, combined with the economic benefits guaranteed by the oligarchy Malta have solid
the main reasons to change the capitalist Delmiro Gouveia of Recife for the Alagoas
hinterland. Delmiro ascended economically and socially with the fur trade, buying them in the
interior for export, mainly to Europe and the United States. However, when switching to the
village Stone was declared bankrupt. In the backwoods of Alagoas Delmiro recompose its
capital, and invests in the construction of a hydroelectric plant and a textile industry, the first
opened in 1912 and the second in 1914. At around the factory stands an industrial core to
house the workers, most of these It consisted of drought refugees emigrants 1915. The core of
the stone was presented as an example "model" society, where everything and everyone were
on commodity production, including women and children.
Keywords: backcountry. dry. work and railway.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Mercado do Derby, Recife, construído em 1899, na época subúrbio da cidade.
(Fonte: Arquivo da Fundaj 2007.) ............................................................................................ 55
Figura 2 - Seção de torcedores (Fonte: Sant‘Ana, 1996, p. 121) ............................................. 95
Figura 3 - Seção de fusos (Fonte: Sant‘Ana, 1996, p.122) ....................................................... 95
Figura 4 - Quadro de horários (Fonte: Acervo do Museu Regional Delmiro Gouveia) ........... 97
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Número de socorridos por localidade em Alagoas .................................................. 23
Tabela 2 - Cargos de direção e pessoal da administração da EEPA ......................................... 36
Tabela 3 - Número de retirantes socorridos pela administração da EFPA em 1878 ................ 38
Tabela 4 - Número de retirantes socorridos pela administração da EFPA em 1879 ................ 38
Tabela 5 - Quantidade de trabalhadores empregados em 1880 ................................................ 38
Tabela 6 - População do Sertão de Alagoas entre 1890 e 1920 ............................................... 43
Tabela 7 - População do Sertão de Alagoas no Censo de 1872 ............................................... 44
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
APA – Arquivo Público do Estado de Alagoas
BNDIGITAL – Biblioteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional
CAFM – Companhia Agro Fabril Mercantil S/A.
EFPA – Estrada de Ferro Paulo Afonso
FAPEAL – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas
FBN – Fundação Biblioteca Nacional
FUNDAJ – Fundação Joaquim Nabuco
ICHCA - Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes
IHGAL – Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas
PPGH – AL – Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Alagoas
UFAL – Universidade Federal de Alagoas
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 14
1
O SERTÃO ALAGOANO NO ÚLTIMO QUARTO DO SÉCULO XIX ................ 18
1.1 A seca de 1877 e seus desdobramentos na Província das Alagoas ............................ 19
1.2 As comissões de socorros públicos ............................................................................... 23
1.3 A Colônia São Francisco ............................................................................................... 27
1.4 Estrada de Ferro Paulo Afonso: aspectos políticos e econômicos, e justificativa
social. .............................................................................................................................. 30
1.5 Os trabalhadores da construção da Estrada de Ferro Paulo Afonso ....................... 35
1.6 Aspectos gerais do Sertão alagoano no final do século XIX e início do XX. ............ 42
2
DELMIRO GOUVEIA: TRAJETÓRIA DE VIDA E FORMAÇÃO DO
INDUSTRIAL. ............................................................................................................... 49
2.1 Delmiro Gouveia: juventude e orfandade ................................................................... 49
2.2 O Mercado dos “Derbies” no Derby ............................................................................ 53
2.3 Retornos, falência e mudança para Alagoas. .............................................................. 62
2.4 Alagoas, a Terra “Prometida” ...................................................................................... 68
2.5
A relação entre Delmiro Gouveia e a oligarquia Malta: as concessões por decretos
......................................................................................................................................... 75
3
A FÁBRICA DA PEDRA E O COTIDIANO OPERÁRIO NO SEU NÚCLEO ..... 83
3.1
A Fábrica da Pedra e o Núcleo Fabril através dos relatos de seus contemporâneos
......................................................................................................................................... 83
3.2 As origens do operariado pedrense .............................................................................. 87
3.3 O emprego de mulheres e crianças nas seções de produção da Fábrica da Pedra .. 93
3.4 A jornada de trabalho na Fabrica da Pedra .............................................................. 96
3.5 As “linhas” de coser e de conduta da Pedra ................................................................ 99
3.6 Vila operária e núcleo fabril: dois conceitos. ............................................................ 103
3.7 A funcão da educação escolar nas vilas e núcleos operários.................................... 105
3.8 Serviços essenciais e prazeres honestos ..................................................................... 108
CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 111
REFERÊNCIAS........................................................................................................... 113
ANEXOS....................................................................................................................... 120
14
INTRODUÇÃO
O uso do termo sertão na língua portuguesa nos remete a um período remoto entre os
séculos XII e XIV, era utilizada para se referir a áreas situadas dentro de Portugal, porém
localizadas longe de Lisboa, centro político e econômico do país. A partir do século XV, após
a descoberta do ―Novo Mundo‖, a palavra passou a ser usada pelas autoridades lusitanas na
América para designar extensas áreas afastadas do litoral e habitadas por nativos ―selvagens‖
e animais ferozes, descritas como terras indomadas sobre as quais as autoridades portuguesas
tinham pouca informação e controle.1
Durante todo o período colonial brasileiro a categoria continuou sendo utilizada,
preservando-lhes a significação negativa do termo original criado pelos lusitanos, ou seja, no
Brasil o termo seguiu sendo usado para designar espaços vastos, desconhecidos, longínquos e
pouco habitados. Se em Portugal o critério para se definir uma região como sertão era a
distância que essa estava de Lisboa, no Brasil o critério estabelecido foi à distância entre essa
e a costa marítima. De modo que, litoral e sertão são categorias ao mesmo tempo
complementares e opostas.
Uma região expressava o avesso da outra. O litoral significava mais do que uma
faixa de terra junto ao mar, tratava-se de espaço conhecido e delimitado, colonizado ou em
processo de colonização, embora a maioria dos habitantes se tratasse de índios e negros, era
dominado pelo branco, havia as condições favoráveis à cristandade, a cultura e a civilização.
Já sertão era sinônimo de espaços ignotos, inacessíveis, isolados, ameaçadores, dominados
pela natureza bruta, e habitados por bárbaros, infiéis, ímpios, que desconheciam as benesses
da religião, da civilização e da cultura.2
Mais de cinco séculos depois da chegada dos portugueses em terras tupiniquins,
―sertão‖ continua presente no pensamento e no cotidiano do Brasil. É uma categoria espacial
conhecida e utilizada em todas as regiões do País. É também uma categoria do pensamento
social e da cultura brasileira presente na nossa historiografia desde as primeiras tentativas de
elaboração de uma história nacional. Entre 1870 e 1940, o sertão chegou a constituir uma
categoria essencial para a historiografia brasileira, esteve presente na análise de diversos
1
Cf. AMADO, Janaína. Região, Sertão, Nação. Ponto de Vista. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n.
15, 1995, p. 148.
2
IDEM, p. 149.
15
historiadores de distintas abordagens teóricas e metodológicas.3 Todavia, esses trabalhos
desenvolvem explicações generalizantes, de modo que, o conceito de sertão é indistintamente
usado para tratar de áreas que pouco tem em comum, como o oeste alagoano, os interiores dos
estados de São Paulo e o do Rio Grande do Sul, por exemplo.
Ainda carecemos de estudos mais específicos para compreendemos à formação
histórico-social dos vários sertões brasileiros, inclusive os vários sertões do semiárido
nordestinos, que começaram a ser povoados desde o século XVI em função da caça ao índio e
da conquista dos campos para a pecuária. Mas, o povoamento se intensificou a partir do
século XVIII, incentivado pela expansão da cultura do algodão estimulada pela Revolução
Industrial.4
A princípio o objetivo desta pesquisa era analisar e discutir o que significou a
experiência industrial da Fábrica de Linhas da Pedra do ponto de vista do seu operariado.
Interessava-nos saber como a implantação de uma fábrica têxtil em pleno sertão de Alagoas
havia alterado o modo de trabalhar e viver de centenas de sertanejos, transformados de uma
hora para outra de camponês em hábeis operários. Pretendíamos identificar os mecanismos e
as estratégias utilizadas pelo fundador da fábrica, o capitalista Delmiro Gouveia, para atrair
mão de obra operária, considerando que no início do século XX predominava na região
atividade de natureza rural, como a agricultura e a pecuária. Preocupávamo-nos também saber
se houve resistências desses trabalhadores em se adaptar ao modo de viver e de trabalhar que
o setor industrial lhes exigia.
Mas a escassez de fontes para focar a experiência da Pedra de modo restrito nos
induziu a um deslocamento, ou seja, continuamos focando a experiência industrial na vila da
Pedra, mas a partir de uma abordagem mais ampla considerando o entorno social, geográfico
e espacial desta. O foco da nossa análise passou a ser o sertão de Alagoas, e para tanto foi
necessário um recuo temporal que se justifica em função de que a conjuntura da construção da
Estrada de Ferro de Paulo Afonso articula duas dimensões importantes para entendermos a
3
Cf. ABREU, J. Capistrano de. Capítulos de historia colonial e os caminhos antigos e o povoamento do
Brasil. Brasília, DF: Ed. da UnB, 1982. (113-168, 231-234) 337 p. HOLANDA, Sérgio Buarque de. Caminhos
e fronteiras. 3. ed. São Paulo: Cia Das Letras, 1994. 301 p. SODRÉ, Nélson Werneck. Formação histórica do
Brasil. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. 415 p. CUNHA, Euclides. Os Sertões. 3ª. São Paulo:
Martin Claret, 2010.
4
ANDRADE, Manuel Correia de. ―Sertão ou sertões: uma homenagem a Euclides da Cunha.‖ SILVA, José
Borzacchiello da, Eustógio Wanderley Correia DANTAS e Antônio Jeovah de Andrade MEIRELES. Litoral e
sertão, natureza e sociedade no nordeste brasileiro. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2006, p.18.
16
Pedra: um empreendimento típico do capitalismo avançado, e o impacto sobre a vida dos
moradores da região, exigindo a construção de costumes e hábitos que levam a formação de
um exército demão de obra disponível para a exploração.
Quanto às fontes utilizadas, contamos com uma documentação de natureza
diversificada: relatórios/falas/mensagens dos presidentes de província/governadores de
estado, almanaques administrativos, ofícios e telegramas oficiais, coleções de leis e decretos,
artigos de jornais, veiculados principalmente na imprensa alagoana e pernambucana,
anúncios, notícias e notas relativas à Fábrica da Pedra e aos seus operários, a cachoeira e
estrada ferro de Paulo Afonso, as seca de 1877, atas de fundações e reuniões, fotografias e
websites. Utilizamo-nos, também, de algumas biografias de Delmiro Gouveia.
Dentre as principais hipóteses que nos norteará na condução desta pesquisa
destacamos: a) o sertão de Alagoas era uma região estrategicamente importante para
integração do Brasil ao mercado mundial através do Rio São Francisco, razão pela qual se
construiu a ferrovia Paulo Afonso. b) Delmiro Gouveia muda-se do Recife para vila da Pedra
porque o Governador de Alagoas, Euclides Malta, lhe concede vantagens econômicas,
principalmente isenções de impostos na comercialização de couros e peles, contudo, a relação
clientelista entre Delmiro e a oligarquia Malta se amplia com o passar dos anos. c) O núcleo
fabril da Pedra foi montado para aliciar, principalmente, famílias pobres de origem
camponesa com intuito de transformá-las em mão de obra industrial produtiva e ordeira
através de um híbrido processo que conjugava violência física e moral com gratificações e
incentivos.
No primeiro capítulo, realizamos uma investigação preliminar a respeito do sertão
alagoano, focalizando principalmente nos processos que ocorreram na região a partir do
último quarto do século XIX. Interessa-nos analisar e compreender as especificidades
econômicas e sociais desta parte da província/estado de Alagoas. Ressaltamos aspectos como
a seca de 1877 e os seus desdobramentos, o processo de construção da estrada de ferro Paulo
Afonso enfocando principalmente as relações dos trabalhadores. Traçamos um quadro geral
dos municípios sertanejos no final do século XIX, priorizando suas vocações econômicas.
No segundo capítulo, apresentamos a trajetória de vida e a formação industrial de
Delmiro Gouveia, que atividades ele desenvolve antes de se tornar um prestigiado
comerciante de peles e couros. Como geriu seus empreendimentos mais notáveis, como o
Mercado Coelho Cintra, o luxuoso hotel no Derby e a Usina Beltrão. Apresentamos também
17
episódios da conflituosa relação entre Delmiro e a oligarquia rosista em Pernambuco.
Também frisamos a estreita ligação entre o comerciante cearense e a oligarquia maltina, da
qual ele obteve isenções impostos, concessões terras públicas, subsídios financeiros, entre
outras coisas. Além da relação com os
O terceiro capítulo concentra-se no funcionamento da Fábrica de Linhas da Pedra e
do seu núcleo fabril, esse último apresentado por alguns entusiastas contemporâneos como
exemplo ―modelar de civilização‖. Ao longo dos anos criou-se e propagou-se a ideia do
núcleo fabril da Pedra como uma sociedade harmônica, voltada exclusivamente para o
trabalho, ou seja, nega-se a contradição entre capital e trabalho. Embora, a existência de
normas rígidas dentro e fora da fábrica, assim como o uso de multas, proibições e castigos
físicos revelem que a experiência industrial da Pedra não foi assim tão idílica com muitos a
apresentam. Constatamos que a educação escolar, assim como os chamados ―prazeres
honestos‖ objetivavam desenvolver nos operários, principalmente, a obediência e a noção de
produtividade.
18
1 O SERTÃO ALAGOANO NO ÚLTIMO QUARTO DO SÉCULO XIX
Neste primeiro capítulo, realizamos uma investigação preliminar a respeito do sertão
alagoano, focalizando principalmente nos processos que ocorreram na região a partir do
último quarto do século XIX. Interessa-nos analisar e compreender as especificidades
econômicas e sociais desta parte da província/estado de Alagoas que, diferente da zona da
mata e do litoral, se encontrava afastada da influência direta da monocultura da cana-deaçúcar. Enfocamos aspectos como a seca de 1877-1879 que assolou as províncias do Norte, e
que levou milhares de pessoas a migrarem para terras alagoanas a procura de socorros. A
construção da ferrovia Paulo Afonso também nos despertou o interesse de averiguação, pois
como frisou Osvaldo Maciel, a ferrovia em solo alagoano, no último quarto do século XIX,
representou “o aparecimento de um dos principais símbolos do progresso humano e da
integração de economias regionais ao mercado capitalista mundial‖.5
No caso específico desta ferrovia instalada entre 1878 e 1883, ela possuía o objetivo
de ligar as partes navegáveis do rio São Francisco, entre as localidades de Piranhas na
província de Alagoas e Jatobá em Pernambuco. Para construção dessa via férrea foi utilizada a
força de trabalho de milhares de emigrantes vítimas da Seca de 1877 vindos das várias
províncias do Norte do Império do Brasil, entretanto, após o término da estrada alguns
permaneceram vivendo na região.6 Com relação ao sertão alagoano, elaboramos uma síntese
destacando principalmente a produção econômica e o comércio de cada município que o
compunha no final do século XIX.
Este capítulo justifica-se em função de que ele fornece um substrato econômico e
social para pensarmos duas ordens de questões que nos interessam aqui. A primeira diz
respeito a um empreendimento típico do imperialismo europeu, contribuindo para integrar
uma região distante do país ao mercado mundial. A outra diz respeito à experiência de
formação inicial de uma força de trabalho apta ao ritmo e à disciplina de trabalho capitalista.
Estas duas questões fornecem as condições iniciais para pensarmos o empreendimento fabril
na Pedra a partir de suas dimensões sociais e econômicas mais profundas.
5
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly.Trabalhadores, identidade de classe e socialismo: os gráficos de Maceió
(1895-1905). Maceió: EDUFAL, 2009, p. 72.
6
Depoimento de Pedro Campina, em janeiro de 1967, ―meu pai era trabalhador dessa estrada de ferro e vivia
como cassaco‖ SARNO, Geraldo. Cadernos do sertão. Salvador: Núcleo de Cinema e Audiovisual, NAU,
2006, p. 60.
19
1.1 A seca de 1877 e seus desdobramentos na Província das Alagoas
O período entre 1877 e 1879 foi catastrófico para grande parte da população do
Norte do Brasil,7 marcado por uma longa estiagem. A região que conhecemos hoje como
semiárido nordestino foi a mais atingida, devido à falta de chuvas, não houve colheitas, nem
plantio de alimentos, sem água e pastagem os rebanhos bovinos foram dizimados. Milhares de
pessoas morreram vítimas da fome ou de doenças epidêmicas e mais outros milhares
migraram dos seus hábitats buscando socorros em outras regiões.
As secas no Nordeste são fenômenos periódicos, porém, com ciclos e intervalos
diferentes.
A literatura especializada classifica as secas em três grupos: as parciais, as
generalizadas e as excepcionais. As parciais ocorrem num intervalo de 4 a 5 anos, as
generalizadas têm uma intermitência de 10 ou 11 anos, já as secas excepcionais parecem
obedecer a um ciclo de aproximadamente 50 anos. 8 Essas classificações decorrem
basicamente de dois fatores: o nível de abrangência e a capacidade destrutiva. Para Josué de
Castro, os efeitos de uma seca são sempre desastrosos, porém,
são de amplitude variada, conforme se trate de seca parcial, limitada a
pequena área, ou uma grande seca, abrangendo considerável extensão, ou,
finalmente, de uma seca excepcional, das que atingem de vez em quando
todo o sertão em bloco‖.9
A grande estiagem iniciada em 1877 foi sem sombra de dúvida uma seca
excepcional, com intensidade extraordinária estendeu-se até pelo menos 1879. Durante este
ciclo a economia regional desorganizou-se completamente, instalou-se em larga escala a
fome, o êxodo rural, a violência, a agiotagem, a prostituição, isso sem contar com as cifras
assustadoras de vítimas fatais,
7
No final do século XIX e início do XX, geograficamente o Brasil se dividia apenas em duas grandes regiões:
Norte e Sul. Em 1968, o IBGE, realizou a atual divisão do País em cinco grandes regiões. A partir de então, o
Nordeste passou a contar com os Estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba,
Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e o Território Federal de Fernando de Noronha, este extinto em 1988.
―Estendendo-se por uma área de mais de 1.542.000 Km², caracteriza-se o Nordeste do Brasil, como toda região
geográfica, pela influência de uma série de fatores [...] sobressaem-se os domínios físicos – estrutura geológica,
relevo, clima e hidrografia -, o meio biológico – vegetação e fauna – e a organização dada ao espaço pelo
homem‖. Cf. ANDRADE, Manuel Correia de. A questão do território no Brasil. São Paulo-Recife: Hucitec
IPESPE, 1995, p. 36.
8
CASTRO, Josué de. Geografia da fome. 5ª. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p. 200.
9
IDEM.
20
Ela [a seca] determina a mortandade de 500.000 habitantes do Ceará e
vizinhanças, ou cerca de 50% da população. Nas grandes secas em geral,
porém, a média da mortandade não costuma exceder 33%. Dos mortos de
1877 a 1879 calcula-se que 150.000 faleceram de inanição indubitável,
100.000 de febres e outras doenças, 80.000 de varíola e 180.000 da
alimentação venenosa ou nociva, de inanição ou mesmo exclusivamente de
sede.10
A seca de 1877-1879 é apontada como a que causou maiores estragos entre todas as
secas já registradas no semiárido nordestino, sendo o Ceará a província mais afetada.
Contudo, todas as províncias do Norte sofreram os efeitos do devastador cataclismo.11 Nesta
pesquisa nos interessa analisar especificamente a província de Alagoas a partir de uma
documentação de natureza oficial (relatórios, ofícios, telegramas) e em recortes de jornais da
época.
Segundo o historiador Moacir Medeiros Sant‘Ana, ―no mês de novembro de 1877
praticamente a seca ainda não havia atingido o território alagoano‖.12 Contudo, no mesmo
período alguns jornais alagoanos, como O Pão d‟Assucar, mostrava um quadro diferente. A
manchete publicada em 25 de novembro de 1877, cujo título foi ―A Seca‖, a situação na
cidade interiorana foi descrita da seguinte forma:
É por demais contristador o espetáculo que diariamente testemunhamos
nesta florescente cidade relativamente às vítimas flageladas pela horrível
seca, que desde Fevereiro do corrente ano lavra em grande escala os altos
sertões de algumas províncias do norte do Brasil. Essas infelizes vítimas em
completo estado de nudez, sem recursos pecuniários para haver os meios de
subsistência [...] este estado de coisa vai dia a dia se tornando mais
assustador, e em breve teremos de ver muitas numerosas famílias morrerem
a míngua [...] além da população desta cidade estar completamente exausta
de recursos, acresce que os gêneros de primeira necessidade vão cada dia
crescendo trezentos por cento do seu justo valor.13
Também informando sobre a cidade de Pão de Açúcar, o Jornal do Penedo publicou
no mês de janeiro de 1878, carta do seu correspondente naquela cidade, o senhor Aristarcho,
na qual descrevia o seguinte quadro:
10
MOREL apud CASTRO, 2005, p. 220.
Cf. VILLA, Marco Antonio. Vida e morte no Sertão: História das secas no Nordeste nos séculos XIX e
XX. São Paulo: Editora Ática, 2001. Ver especialmente o capítulo 2.
12
SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à História do Açúcar em Alagoas. Recife: Instituto do
Açúcar e Álcool - Museu do Açúcar, 1970, p. 171.
13
A Seca. O Pão D'Ássucar, 25 de Novembro de 1877, p.1.
11
21
Os horrores da seca, com seu aparato fúnebre, continuam entre nós cada vez
mais terríveis e assustadores. Um número considerável de emigrantes, a
quem alguns engraçados sem graça dão o apelido de - curaus -, por aqui
chega diariamente quase nus, cobertos de trapos e mortos à fome [...] As
trovoadas não têm aparecido, como é comum nestes meses. Tudo está
ressequido. Os gêneros alimentícios, quando aparecem nas feiras em
quantidade suficiente, conservam-se em altos preços. Por aqui vamos
passando na maior tristeza com relação às festanças do Natal. A seca tem
feito tudo ficar marasmático.14
A situação de penúria em que chegavam os milhares de retirantes exigia medidas
mais urgentes que dar trabalho, simplesmente. O jornal baiano, O Monitor, transcreve uma
carta do Coronel Antônio Luiz Alvares Pequeno, do Crato, onde descreve a situação dos
emigrantes da região do Cariri no mês de outubro 1877, inclusive os que, ―passam para o Rio
de S. Francisco e matas das Alagoas, verdadeiros esqueletos, a pé, seminus, com trouxas na
cabeça e os filhinhos nas costas [...] implorando pelas portas e da comissão o que comer‖.15
A situação de extrema inanição mais as doenças epidêmicas inviabilizava, pelos menos de
imediato, a utilização dessas pessoas em qualquer atividade produtiva. Antes disso, elas
precisavam garantir suas sobrevivências, era por isso que marchavam em direção ao São
Francisco e as matas alagoanas.
Se durante o ano de 1877 a migração em Alagoas era interprovincial, 16 no ano
seguinte essas começaram a ocorrer também internamente. As populações do Sertão e Agreste
alagoano começaram a deslocar-se para a Zona da Mata e o Litoral. Moacir Sant‘Ana
menciona correspondência da Câmara Municipal de Palmeira dos Índios dirigida ao
Presidente da Província datada 16 de abril de 1878, onde se evidencia esse processo, sendo
que na ocasião,
metade da população do município de Palmeira dos Índios, em apenas dois
meses dela [a seca], de meados de fevereiro ao fim de março de 1878,
transferiu-se para os munícipios de São Miguel dos Campos, Atalaia, Pilar,
Alagoas (Marechal Deodoro) e Coruripe.17
14
ARISTARCHO. ―Cidade de Pão de Assucar, 26 de Dezembro de 1877.‖ Jornal do Penedo, 10 de Janeiro de
1878, pp. 3 e 4. Grifo nosso.
15
PEQUENO, Antonio Luiz Alvares. ―Ceará.‖ O Monitor, 09 de 10 de 1877, p.1.
16
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. Dr. Francisco de Carvalho Soares Brandão, presidente da Província das
Alagoas, passou a administração da mesma Província o Sr. Dr. Thomaz do Bonfim Espíndola, 1º VicePresidente. Em 11 de março de 1878. Maceió: Typ. do Liberal, 1878, p. 4.
17
SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à História do Açúcar em Alagoas. Recife: Instituto do
Açúcar e Álcool - Museu do Açúcar, 1970, p. 171.
22
Na carta, a Câmara de Palmeira dos Índios mostrou-se preocupada com a situação,
argumentando que os que se deslocam para os munícipios açucareiros, não voltariam a tempo
de preparar suas roças casos as chuvas voltassem a cair. Ressaltou-se também que nestes
lugares ocupados com cana de açúcar as pessoas não teriam acesso a terra para cultivar seus
roçados.18 No leste alagoano (litoral e zona da mata) os emigrantes se depararam com a
secular concentração fundiária voltada para a monocultura de exportação, onde os interesses
mercadológicos sobrepõem-se aos humanitários de produzir alimentos para milhares de
famintos.
No relatório de 11 de março de 1878, apresentado por Francisco de Carvalho Soares
Brandão, Presidente da Província das Alagoas, dizia-se que até aquele momento a ordem
pública se encontrava inalterável, apesar de notificar que a Província estava infestada por
excessivo número de emigrantes vindos do Ceará, Piauí e Pernambuco, ocupando
principalmente as margens do rio São Francisco. De todo modo, havia sido comunicado pelas
autoridades de Pão de Açúcar do temor de quando acabasse os alimentos fornecidos pelo
Governo cidade fosse saqueada.19 Soares Brandão pensando antes de tudo na responsável
administração dos recursos e na ordem pública, cita as medidas que tem tomado no seu
governo com relação aos retirantes.
Diversas providências tenho dado no sentido de poupar os dinheiros
públicos, bem como a de desaglomerar por meios suasórios os retirantes de
Piranhas e Pão de Açúcar; a de mandar despedir os retirantes sãos e
robustos, aconselhando-os que procurem trabalho, isto depois de fornecerlhes rações por 6 dias. O Juiz de Direito [da comarca de Penedo], em seu
relatório aconselha diversas medidas, que julga urgente, as quais, embora
acertadas, não pus em execução; porque, não disponho de força. 20
Ao final de março ―existiam em Piranhas 12.925 emigrantes, em Penedo número
superior a 3.000, e em Pão de Açúcar 1.340‖.21 Antes de completar a primeira quinzena de
abril estimava-se existir cerca de 20.000 retirantes em Alagoas.22 Houve nessas localidades
18
IDEM, p. 171.
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. Dr.Francisco de Carvalho Soares Brandão, presidente da Província das
Alagoas, passou a administração da mesma Província o Sr. Dr. Thomaz do Bonfim Espíndola, 1º VicePresidente. Em 11 de março de 1878. Maceió: Typ. do Liberal, 1878, p. 4.
19
20
IDEM, p. 18.
FALLA com que o Exm. Sr. Dr. Francisco de Carvalho Soares Brandão, Presidente da Província instalou a 1ª
Sessão Ordinária da 22ª Legislatura Provincial das Alagoas em 16 de abril de 1878. Maceió: Typographia do
Liberal, 1878, p. 13.
22
IDEM, p. 13.
21
23
um consumo extraordinário de gêneros de primeira necessidade, logo esses se tornaram
escassos. A farinha, por exemplo, teve de ser importada de outras provinciais. Diante da
situação de miséria que se alastrou entre os emigrantes e as populações locais no início de
1878, o presidente da Província, Francisco de Carvalho Soares Brandão, reorganizou os
serviços de socorros públicos através de diversas comissões locais e uma central fixada em
Maceió.23
1.2 As comissões de socorros públicos
No relatório elaborado pela Comissão Central de Socorros entregue ao presidente da
Província, Cincinato Pinto da Silva, em abril de 1879, o número de socorridos pelas
comissões alagoanas foi de aproximadamente 48 mil retirantes. E que o montante gasto pelos
Governos até março do corrente ano havia sido de 600:378$688 rs. 24 O quadro abaixo mostra
o número de socorridos por comissão:
Tabela 1 - Número de socorridos por localidade em Alagoas
Local
Nº de socorridos
Maceió
4.000
Alagoas
5.000
Pilar e Atalaia
4.000
S. Miguel
6.000
Palmeira
2.000
Coruripe
300
Penedo
6.000
Colônia S. Francisco
8.000
Pão de Açúcar
1.000
Piranhas
10.000
Paulo Afonso e Água Branca
1.000
Total
47.300
Fonte: FALLA com que Cincinato Pinto da Silva Presidente da Província instalou a 2ª sessão ordinária da 22ª
Legislatura Provincial das Alagoas em 30 de abril de 1879. Maceió: [RASURADO, rasurado], p. 5.
O quadro acima demonstra que as comissões de socorros públicos instituídas em
Alagoas para o combate a seca de 1877 foram preferencialmente estabelecidas nas localidades
onde havia o serviço de navegação a vapor. Desse modo, a assistência com gêneros
23
IDEM, p. 4.
FALLA com que Cincinato Pinto da Silva Presidente da Província instalou a 2ª sessão ordinária da 22ª
Legislatura Provincial das Alagoas em 30 de abril de 1879. Maceió: [RASURADO, rasurado], p. 4.
24
24
alimentícios e medicamentos se dava de maneira mais ágil. Segundo o historiador Frederico
de Castro Neves, algo semelhante ocorreu no Ceará, onde, ―o aproveitamento dos rios como
forma de permitir o rápido transporte de gêneros às áreas afetadas, com a construção, ainda,
de postos de armazenamento em locais estrategicamente escolhidos‖.25 Em Alagoas, os
serviços de navegação a vapor eram prestados pelas companhias Bahiana e Pernambucana. 26
Quando ocorreu à seca de 1877, já havia pelo menos uma década em que o serviço de
navegação comercial havia sido estabelecido em Alagoas. Esse fator foi fundamental para
atuação das comissões de socorros. O ofício de 22 de março 1878, nos dá um exemplo da
celeridade entre a solicitação de gêneros e a entrega desses:
S. Ex.ª o Ilm.º Presidente da Província manda acusar o recebimento do ofício
de V. Ex.ª, de 21 do corrente, sob nº 35, comunicando que, em vista das
reclamações das comissões de socorros de Pão de Açúcar e Piranhas,
seguiram ontem no vapor ‗S. Salvador‘ 200 sacos com farinha, de oitenta
litros cada um, 705 kilogramas de bolachas, 750 kilogramas de café moído,
2.250 kilogramas de açúcar. 27
Além de levar alimentos ao interior da Província, os vapores também transportavam
os emigrantes para as cidades maiores. Ou seja, quem quisesse ir para Maceió, Recife ou
Salvador, tinham suas passagens subvencionadas pelo presidente da Província.28 Augusto
Victor de Barros e Agapito de Lemos Medeiros, membros da comissão de socorros em
Penedo, em telegrama destinado a Maceió em, 26 de abril 1878, relatam que, ―seguirão ontem
68 emigrantes para Bahia no Vapor Dantas, e hoje 385 para essa cidade no S. Salvador‖.29
Os retirantes/emigrantes eram transportados e junto com eles uma relação, em que constava o
nome, a idade, o estado civil e a procedência.
25
NEVES, Frederico de Castro. ―"Os desbriamentos" e "perversão": olhares ilustrados sobre os retirantes na seca
de 1877.” Projeto História 27. 2003, p. 175.
26
RELATÓRIO lido perante a Assembléia Legislativa da Província das Alagoas no ato de sua instalação em 16
de março de 1870 pelo presidente da mesma Exm. sr.dr. José Bento da Cunha Figueredo Júnior. Maceió: Typ.
Commercial de A. J. da Costa, 1870, pp. 70/71 e 72.
27
OFICIO de 22 de março de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila das Alagoas.
Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mar. 1878. 38F. (doc. 00900-12-01-07)
[IHGAL].
28
RELÁTÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, pp. 8-9.
29
TELEGRAMA, nº 223, Maceió, 26 de abril de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca
da Vila das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 30 Abr. 1878. 135F. (doc.
00901-12-01-08) [IHGAL].
25
Ao que parece a declaração de origem [provinciana] era um item importante para
aceitação desses emigrantes nas cidades ou capitais para onde eram despachados. 30 Em
correspondência de oito de maio do mesmo ano, o Vice Presidente da Província de
Pernambuco reclamou ao Presidente da Província de Alagoas do número excessivo de pessoas
enviadas ao Recife pelas autoridades alagoanas e sugere que ao invés de mandá-los para
capital pernambucana as envie para outras regiões.
Tem causado o maior espanto terem vindo mil (!) emigrantes no vapor
[ilegível]. Morreram 7 na viagem e não sei quantos morrerão em
consequência dos incômodos dela. Peço lhe mande os emigrantes daí para o
sul, como já tinha feito, pois não tenho mais onde acomoda-los. [Assinado]
Adelino A. de Luna Freire31
Houve durante a Seca de 1877 um enorme êxodo rural. Após perambularem por
vários dias muitos sertanejos se alojaram nas cidades de maior porte e capitais, como
Fortaleza e Recife. Quando essas multidões chegavam nessas cidades geralmente se
encontravam seminuas, esfomeadas e doentes, logo passavam a pedir esmolas e vagarem
pelas ruas e praças, à medida que aumentava o número de retirantes, subia o índice de
criminalidade e prostituição.32 Frederico de Castro Neves em sua análise sobre os efeitos da
seca de 1877, no Ceará, descreve a situação de Fortaleza, que em 1877 contava com uma
população de aproximadamente 25 mil pessoas e, ―em setembro de 1878 havia 114 mil
retirantes, que transformavam Fortaleza „na metrópole da fome, capital dum pavoroso
reino‘‖.33 Outros centros urbanos viveram situação semelhante ao que ocorreu com a capital
cearense, e viram sua população inchar em pouco tempo, essas cidades logo se revelaram
impotentes diante do número de pessoas que nelas chegavam diariamente.
Em Alagoas, após o agravamento da seca nos três primeiros meses de 1878, as
autoridades políticas propuseram algumas medidas para manter essa ―multidão‖ no campo, ao
invés de enviar-lhe para cidades, que já se encontravam saturadas de desabrigados.
30
FALLA com que o Exm. Sr. Dr. Francisco de Carvalho Soares Brandão, Presidente da Província instalou a 1ª
Sessão Ordinária da 22ª Legislatura Provincial das Alagoas em 16 de abril de 1878. Maceió: Typographia do
Liberal, 1878, p. 14.
31
TELEGRAMA, 8 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila das
Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai. 1878. 120F. (doc. 00903-1202-01) [IHGAL].
32
NEVES, Frederico de Castro. A "capital de um pavoroso reino": Fortaleza e a seca de 1877.‖ Tempo 09.
2000, p. 96.
33
IDEM
26
Em três de maio de 1878, o proprietário Manoel Joaquim da Silva Leão encaminha
uma proposta ao Presidente da Província e aos membros da comissão central de socorros da
Capital, em que apresentou as condições para o recebimento, nos seus engenhos, dos
retirantes que quiserem se empregar na agricultura.34 A proposta foi aceita, ficando a cargo
das comissões de Penedo e Maceió facilitarem a condução dos retirantes aos engenhos.
Segundo o presidente da Província, José Torquato de Araújo Barros, a medida surtiu algum
efeito, ―pois saiu dos alojamentos de Jaraguá grande número de emigrantes para os
engenhos dos comendadores Manoel Joaquim da Silva e Manoel Rodrigues Leite Oiticica
para trabalharem na lavoura‖.35
Mandar os retirantes da seca, emigrantes ou locais, para outras províncias deixou de
fazer parte do receituário das autoridades políticas. As providências adotadas a partir de maio
de 1878 priorizavam a manutenção dos retirantes em solo alagoano. Nesse sentido, a ideia da
instalação de uma colônia agrícola na região ganhou força. Segundo Moacir Sant‘Ana, em 20
de novembro de 1877, o presidente da Província solicitou junto ao Ministério do Império, a
criação de tal estabelecimento nas terras da extinta Colônia Militar Leopoldina, que dispunha
de bons edifícios e de terras férteis.36 A resposta foi negativa. Argumentou-se que seria
inviável a criação de uma colônia naquela localidade devido à precariedade das estradas de
rodagem, havendo apenas uma, através de Porto Calvo, intransitável no inverno.
Para Luiz Sávio de Almeida, esse argumento não era verdadeiro, pois o real motivo
para o indeferimento na criação de uma colônia agrícola na antiga Colônia Militar Leopoldina
estava relacionado a outros aspectos; as transformações econômicas em curso, onde se revia o
papel dos vales do Mundaú e do Paraíba. De modo que, as terras de mata, em especial a área
de conjunção entre o algodão e da cana-de-açúcar, não podiam ficar fora do controle direto da
classe senhorial.37
34
OFÍCIO, de 3 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila das Alagoas.
Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai. 1878. 120F. (doc. 00903-12-02-01)
[IHGAL].
35
RELÁTÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, p. 09.
36
SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à História do Açúcar em Alagoas. Recife: Instituto do
Açúcar e Álcool - Museu do Açúcar, 1970, p. 172.
37
ALMEIDA, Luiz Sávio de. ―Índio, capital e terra: o aldeamento do Urucu.‖ Almeida, Luiz Sávio de, José
Carlos da Silva Lima e José dos Santos Oliveira. Terra em Alagoas: temas e problemas. Maceió: Edufal, 2013,
p. 221.
27
Quando enfim o Ministério do Império autorizou a criação de uma colônia agrícola,
o local escolhido foi o extinto aldeamento indígena em Porto Real do Colégio. Criada por ato
do presidente da Província em 14 de maio com a denominação de Colônia São Francisco. Na
mesma data designou-se uma Diretoria e uma Guarda civil, essa última seria responsável por
salvaguardar os celeiros que ali se estabeleceriam.38
1.3 A Colônia São Francisco
A Colônia São Francisco durou pouco tempo, apesar de ter sido pensada como uma
providência de caráter permanente. Instalada em 23 de maio de 1878, 39 dez dias após
autorização do Ministério do Império, foi extinta em 18 de dezembro do mesmo ano, também
por decreto imperial.40 Criada nas terras do extinto aldeamento em Porto Real do Colégio
tinha como objetivo reunir os milhares de retirantes da seca num só lugar, e ao mesmo tempo
lhes proporcionar ocupação, especialmente trabalhos agrícolas.41 Para dirigir a Colônia foi
nomeado o agrimensor, Manoel de Souza Braga.
Em 24 de maio de 1878, o juiz de Direito de Penedo, Candido Augusto Pereira,
depois de fazer uma visita pessoalmente à Colônia São Francisco relatou a seguinte situação:
Colégio de onde venho está com uns três mil emigrantes aproximadamente,
e o número sobe progressivamente. Sem casas que os obrigue, vivem
expostas ao tempo e nem se quer palha há para levantarem choças. O celeiro,
ao que parece ficará vazio em três dias. Quase nus os emigrantes, sem
roupas, sem cobertores, não possuem uma foice ou inchada para o trabalho
[...] O pessoal da Diretoria da Colônia não dá vazão ao serviço da
distribuição, que é feita de manhã à noite. 42
38
OFÍCIO, 14 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila das Alagoas.
Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai. 1878. 120F. (doc. 00903-12-02-01)
[IHGAL].
39
ATA da instalação da Colônia São Francisco. Porto Real do Colégio. 23 de maio de 1878. 0F2. (doc. 0090412-02-02) [IHGAL].
40
SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à História do Açúcar em Alagoas. Recife: Instituto do
Açúcar e Álcool - Museu do Açúcar, 1970, p. 172.
41
RELÁTÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, p. 09.
42
TELEGRAMA, 24 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila das
Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai. 1878. 120F. (doc. 00903-1202-01) [IHGAL].
28
A situação alarmante descrita pelo juiz de Penedo, referente ao início do
funcionamento da Colônia ao parece que se estabilizou nos dias seguintes. Orientados pelo
Diretor, os colonos construíram num lugar denominado de Alto da Palmatória, diversas
choças de palha, e divididos em turmas iniciaram suas plantações. Outros se ocuparam em
trabalhos industriais.43
O diretor Manoel de Souza Braga determinou a instalação de uma padaria e uma
oficina de sapateiro.44 Também foram criadas olarias e caieiras para fabricação de tijolos de
ladrilhos e alvenaria, telhas e cal.45 Além disso, autorizou-se a criação de duas cadeiras de
instrução, sendo uma para cada sexo. Essas medidas indicam o interesse por parte do
presidente da Província, José Torquato de Araújo Barros, em tornar a Colônia São Francisco
permanente. Segundo Moacir Sant‘Ana a pretensão do governo era transformar a Colônia de
São Francisco num ambiente destinado a produção agrícola e industrial.46
Entretanto, a fixação dos emigrantes/colonos nas terras do extinto aldeamento
indígena, em Porto Real do Colégio, oferecendo-lhes ocupações tanto em atividades agrícolas
como industriais, passou de solução a óbice. Um decreto imperial, de nº 6.918, baixado em 1º
de Junho 1878, autorizou o crédito extraordinário de 9.000:000$000 para ser utilizado no
resgate e prolongamento da estrada de ferro de Baturité, bem como na construção da estrada
de ferro de Sobral, ambas na Província do Ceará; Além disto, o decreto autorizava a
construção da ferrovia de Paulo Afonso à margem do rio São Francisco, entre o povoado
alagoano de Piranhas e o munícipio de Jatobá na Província de Pernambuco. 47 A partir de
então as ordens eram para que os retirantes fossem remetidos a Piranhas. Os serviços de
socorros deveriam cessar, de modo que os retirantes deveriam se dirigir aos trabalhos da
43
RELÁTÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, p. 09.
44
OFÍCIO, de 1 de agosto de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila das Alagoas.
Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Ago. 1878. 68F. (doc. 00916-12-03-02)
[IHGAL].
45
COLONIA DE SÃO FRANCISCO. Relatório comunicando a eliminação de vários colonos. Porto Real do
Colégio, 17 de novembro de 1878. 08F. (doc. 00925-12-03-11) [IHGAL].
46
SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Contribuição à História do Açúcar em Alagoas. Recife: Instituto do
Açúcar e Álcool - Museu do Açúcar, 1970, p. 173.
47
COLLEÇÃO DAS LEIS DO IMPÉRIO DO BRASIL DE 1878. Decreto Nº 6.918 de Junho de 1878. Rio de
Janeiro: Typ. Nacional, 1879, p. 286.
29
estrada de ferro de Paulo Afonso. 48 Essa notícia levou muitos deles a se afugentarem desses
alojamentos.
Nesse contexto, a Colônia São Francisco passou a ser motivo de divergência junto à
classe política. A análise de dois documentos produzidos num intervalo de pouco mais de um
mês revela essa dissensão. Primeiro a fala do sr. José Torquato de Araújo Barros:
Conforme tive ocasião de observar pessoalmente existe no território da
mesma [Colônia] um número crescidíssimo de casas de palha, muitas das
quais edificadas em arruamento e alguns edifícios cobertos de telha,
destinados a oficinas e outros misteres além de uma pequena capela em
começo de construção [...] Foram criadas por mim, em diversas datas
oficinas de marceneiro, carpina, sapateiro e ferreiro, que se acham providas
dos respectivos utensílios. Alguma lavoura existe criada e já se fez uma
colheita, ainda que muito considerável, de milho e feijão. 49
Já no relatório do presidente Cincinnato Pinto da Silva, referente ao curto período em
esteve na chefia da Província das Alagoas, a argumentação era de que:
A colônia estava sendo prejudicial tanto aos particulares como ao Estado. Os
retirantes tinham se tornado ultimamente por demais insubordinados e
estavam praticando assaltos e roubos, razão pela qual os habitantes do
Colégio e circunvizinhança aspiravam com ansiedade uma medida do
governo que os pusesse a salvo de incômodos e lhes restituísse a
tranquilidade. Os cofres despendiam mensalmente elevada soma com a
sustentação de milhares de indivíduos, e constrangia-me ver que sem
proveito algum para o Estado.50
Em 18 de dezembro de 1878, apenas sete meses após sua criação, a Colônia São
Francisco foi extinta. Ao que parece prevaleceu à opinião de que sua existência estava sendo
lesiva, tanto aos cidadãos como ao Estado. Os colonos retirantes foram dispersos, eles
deveriam viver á custo do próprio trabalho, mas fora dali. Aliás, as comissões de socorros
tinham recomendações expressas para empregarem os retirantes em obras públicas, de modo
48
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, p. 10.
49
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, pp. 10 e 11.
50
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. Dr. Cincinnato Pinto da Silva Presidente da Província entregou a
Administração ao Sr. Dr. José Torquato de Araujo Barros 2º Vice-Presidente em 28 de dezembro de 1879.
Maceió: Typ. Liberal, 1879, p. 12.
30
que as localidades para onde afluíam tirassem proveito, conforme trecho citado no relatório
do sr. José Torquato de Araújo Barros, esses:
Sempre deixaram alguns trabalhos. Em Piranhas foi construída uma pequena
capela no alto do morro, no Pilar o calçamento de uma rua, nesta capital
nivelamento de uma praça e auxílio na reconstrução do prédio do liceu, na
cidade de Alagoas nivelamento de algumas ruas. 51
Pensando por essa ótica, tanto o despacho para outras províncias com a criação da
Colônia São Francisco se deu pela incapacidade de absorção do grande número de pessoas em
atividades laborais, sejam essas de natureza pública ou privada. Para absorver a força de
trabalho de milhares de indivíduos vítimas da seca de 1877, necessitava-se de obras
estruturais, tal como a construção da estrada de ferro Paulo Afonso.
1.4 Estrada de Ferro Paulo Afonso: aspectos políticos e econômicos, e justificativa social.
A Estrada de Ferro Paulo Afonso foi construída entre 1878 a 1883, ligando as
localidades de Piranhas-AL a Jatobá-PE (atual Petrolândia). Sua extensão total era de 116 km,
implantados em plena caatinga.52 Segundo Estêvão Pinto essa via férrea foi instalada com
duplo objetivo: ―(a) Ligar social e comercialmente as regiões do alto e baixo São Francisco
(divididos pelos obstáculos das cachoeiras) e (b) proporcionar recursos às populações
flageladas pelas secas dos sertões da Bahia, de Pernambuco e do Ceará‖.53 A autorização
para construção da referida ferrovia partiu do Senador do Império, Presidente do Conselho de
Ministros e também Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, João Lins Vieira
Cansansão de Sinimbu.54
Para o historiador Douglas Apprato, o ato do Ministro Sinimbu tratou-se de uma
demonstração de puro altruísmo. ―Sua intenção era amparar os flagelados da seca, através
51
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, p. 11.
52
TENÓRIO, Douglas Apratto. Capitalismo e Ferrovias no Brasil. Curitiba: HD Livros, 1996, p. 105.
53
PINTO apud TENÓRIO, 1996, p. 104.
54
DECRETO nº 6.918 de 1º de junho de 1878. Abre ao Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas o
crédito extraordinário de 9.000:000$000, para o pagamento do resgate da estrada de ferro de Baturité e das
despesas não só do seu prolongamento até Canoa, mas também da construção das estradas de ferro de Sobral, e
de Paulo Afonso.
31
de uma medida duradoura, e de beneficiar uma área tão sofrida e desassistida pelos poderes
públicos”.55 De fato a documentação corrobora com a tese de que a ação do Ministro Sinimbu
foi motivada pela seca e a situação dos seus ―flagelados‖. Todavia esses mesmos documentos
demonstram que o desígnio do ministro do Império, aliás, de todo Gabinete imperial era de:
Tirar vantagem da própria desgraça, empregando com trabalhos úteis tantos
braços ociosos; estabelecer um sistema de serviço que sobre assegurar a essa
população meios de subsistência, alimente seu amor ao trabalho, mediante
razoável gratificação [...] Na escolha do serviço, cuja realização mais
contribuirá para o bem do Estado, os Ministros de Vossa Majestade não
hesitaram em preferir o da construção de estradas de ferro, que, partindo de
um porto navegável se prolonguem pelo interior, na direção de cidades e
vilas já fundadas e dos centros produtores.56
Segundo o documento, levado para a apreciação do Imperador, no qual constava a
assinatura de todos os membros do Gabinete imperial estabelecido em 5 de janeiro de 1878, a
construção de estradas de ferro tinham se mostrado um experiência eficaz em outros países,
que assim com o Norte do Império estavam sujeitos a secas.57
No caso específico da estrada de ferro Paulo Afonso, é comum a confusão entre as
justificativas e os objetivos que levaram a sua construção. O socorro aos milhares de retirantes
da seca de 1877, encontrados no interior da Província das Alagoas, foi utilizado como
justificativa para a abertura do crédito extraordinário que garantiu os recursos para execução
da obra. No tocante aos objetivos, o principal deles era interligar a rota de acumulação do
capital sanfranciscana,58 de natureza fluvial, porém, interrompida pelas cachoeiras de Paulo
Afonso. Na década de 1850 já se discutia no parlamento brasileiro quais eram os melhores
meios para contornar as famosas quedas d‘água.
Em 31 de maio de 1851, foi apresentado no Paço da câmara na cidade do Rio de
Janeiro, o projeto do parlamentar mineiro Manoel de Mello Franco (1812-1871), cuja pauta
55
TENÓRIO, Douglas Apratto. Capitalismo e Ferrovias no Brasil. Curitiba: HD Livros, 1996, p. 105.
COLLEÇÃO DAS LEIS DO IMPÉRIO DO BRASIL DE 1878. TOMO XLI. Rio de Janeiro: Typ. Nacional,
1879, p. 285.
57
IDEM.
58
O historiador Luiz Sávio de Almeida na sua proposta de analisar a formação social e econômica de Alagoas no
século XIX através de uma integração territorial de mote agroexportador, fala da existência de pelo menos cinco
rotas de acumulação de capital, são elas: a sanfranciscana, a sertaneja, a agrestada, a litorânea e a da mata. Cf.
ALMEIDA, Luiz Sávio de. ―Índio, capital e terra: o aldeamento do Urucu.‖ Almeida, Luiz Sávio de, José Carlos
da Silva Lima e José dos Santos Oliveira. Terra em Alagoas: temas e problemas. Maceió: Edufal, 2013, pp.
211/212.
56
32
era a navegação a vapor no rio São Francisco. Logo no primeiro artigo do mencionado projeto
apresentam as condições para navegação no rio São Francisco, e dentre essas, estavam a de:
Que se obriguem a ligar por meio de estrada ou estradas a navegação
interrompida pela Cachoeira de Paulo Afonso, até os lugares em que o rio se
torne de novo navegável por barcos a vapor. 59
Entre os anos de 1852 a 1854, o engenheiro alemão Henrique Halfeld, foi contratado
pelo Império brasileiro para realizar estudos técnicos em toda a região sanfranciscana. Esse
mesmo engenheiro havia fornecido dados para Mello Franco elaborar seu projeto em 1851.
Dentre as informações passadas por Halfeld ao parlamentar mineiro estava um mapa da região
e o orçamento aproximativo do custo da obra.60
As pesquisas realizadas por Halfeld foram publicadas em livro, que se tornou
importante fonte de consulta. Os políticos mineiros embasavam suas reivindicações nos dados
sistematizados pelo engenheiro germânico, é o caso, por exemplo, do deputado Teófilo Ottoni
em seus discursos,
O Sr. Halfeld verificou que das 381 léguas que há da cachoeira de Pirapora,
no centro de Minas, á foz do S. Francisco no mar, há 239 (Pirapora a
Sobradinho) onde atualmente podem sem interrupção alguma navegar
grandes vapores [...] A povoação do Vale de S. Francisco, diz o Sr. Halfeld,
segundo dados estatísticos que lhes foram presentes, da Cachoeira de Paulo
Afonso para cima, eleva-se a 971.000 habitantes. 61
Em 1868, o Ministério da Agricultura encarrega uma nova comissão comandada pelo
engenheiro civil Carlos Francisco João Krauss de realizar novos estudos na região
sanfranciscana. No ano seguinte Carlos Krauss apresentou seu relatório final, 62 ―Consiste o
meu trabalho de 122 folhas de relatório, e mais de 10 plantas em 34 folhas‖.63 O objetivo do
estudo foi de verificar a qual a opção mais viável para contornar os obstáculos que impediam
59
FRANCO MELLO, Manoel de. ―Navegação do Rio S. Francisco.‖ Correio Mercantil, 29 de Maio de 1863, p.
02.
60
IDEM
61
OTTONI, Teóphilo. ―Estrada de ferro D. Pedro II.‖ A Actualidade, 27 de abril de 1863, p. 2.
62
Não tivemos acesso a esse material no original, nossa análise se pautou na transcrição feita pelo pesquisador
Luiz Ruben F. de A. Bonfim publicada em dois volumes, respectivamente com os títulos de: Estrada de Ferro
Paulo Afonso 1882-1964 e Estrada de ferro Paulo Afonso: sua origem.
63
KRAUSS apud BONFIM, 2007, p. 17.
33
a navegação fluvial contínua entre o alto ao baixo São Francisco. Conforme o relatório do
engenheiro Krauss:
As cachoeiras de Paulo Afonso, interrompendo a navegação do rio São
Francisco, se dividem em baixo e alto São Francisco, o primeiro com 42
léguas de navegação a vapor já estabelecida e comércio florescente, durante
que o segundo, apesar da vantagem de uma navegação de 300 léguas, e de
elementos naturais de riqueza, é de comércio acanhado, em luta com
dificuldades, que não o deixam prosperar, porquanto lhe continua
vedada saída livre ao mar. A alta conveniência de abrirem-se ao
comércio universal as suas paragens, com vantagens que dali haviam de
provir ao Império. 64
Os estudos do engenheiro Carlos Krauss, assim como os de Halfeld, analisaram as
possibilidades de integração da rota sanfranciscana. As pesquisas compararam qual seria a
opção mais viável: uma via terrestre ou fluvial. A primeira poderia ser estrada de rodagem ou
férrea, e a segunda seria através de um canal.65 Segundo o relatório, interligar as parte
navegáveis do São Francisco iria contribuir para o desenvolvimento do comércio, não apenas
das Províncias de Pernambuco e Alagoas, mas também de Minas, Bahia, Goiás, Piauí, Ceará e
Sergipe. Dentre as alternativas que se analisou, o engenheiro Krauss, deu seu parecer
favorável à construção de uma ferrovia do tipo tram-road, orçada em três mil setecentos e
trinta e cinco contos de réis (3.735:000$000).66 Esse valor era aproximadamente oito vezes
menor que o estimado por Halfeld para construção de um canal lateral com 72 léguas de
comprimento e 108 eclusas, conectando Boa Vista à vila de Pão de Açúcar.67
Considerando que o objetivo do empreendimento era de ligar as partes navegáveis da
rota do Capital sanfranciscana, optou-se pelo menor trajeto. Então se definiu que a ferrovia a
ser implanta deveria iniciar em Piranhas na província de Alagoas e ir até Jatobá na província
de Pernambuco, com a extensão total de 116 quilômetros, plantados em plena caatinga.
Sobre a escolha do trajeto, o historiador Douglas Apratto Tenório vai dizer que a
houve um erro de natureza técnica e econômica. Para ele melhor teria sido, ―se a estrada
levasse seus trilhos a buscarem as férteis regiões dos Vale de Pão de Açúcar e municípios
64
IDEM, p. 18. Grifos nossos.
IDEM, pp. 20 e 39.
66
IDEM, pp. 30 e 34.
67
IDEM, p. 39.
65
34
vizinhos ao invés de atravessar uma zona árida e despovoada‖.68 Ao que parece, quando
Tenório sugestiona que houve um erro econômico, está pensando numa economia local ou
regional restrita a área de sua implantação. Todavia, a prioridade não era essa, o próprio
engenheiro Carlos Krauss justifica em seu relatório. Confira no trecho que segue:
Levantaram-se, contudo, vozes contra Piranhas: umas a favor de Entre
Montes e outras, propondo Pão de Açúcar [...] eu também desejaria lugar
mais espaçoso, que permitisse satisfazer melhor a todos os interesses, sejam
locais, sejam gerais, mas, no presente caso trata-se em primeiro lugar de
socorrer a lavoura de vinte mil léguas quadradas do alto São Francisco
circunstância que obriga a reduzir a despesa de transporte dos seus produtos
ao mínimo atingível [...] não é possível atender as reclamações, que, aliás,
não passam de ser o fruto de mesquinho interesse local. 69
Para Krauss se a via férrea iniciasse numa localidade situada mais abaixo, no leito
alagoano, do rio São Francisco iria acrescentar maiores despesas. Sua preocupação no
documento não era nem tanto com o custo total da obra, que obviamente seria maior, sua
principal apreensão era de que se aumentasse o percurso total da estrada consequentemente
haveria acréscimo no frete de todos os gêneros que por ela circulassem.70
Entre os términos dos trabalhos de Krauss e o início da construção da ferrovia Paulo
Afonso se sucederam dez anos. Dois fatores foram fundamentais para que a obra efetivamente
começasse: à volta do partido Liberal, em 05 de janeiro de 1878, à chefia do Gabinete de
Ministros do Império e o enorme contingente de retirantes da seca de 1877 existentes na
província de Alagoas. A ferrovia Paulo Afonso fez parte do que o pesquisador, José Wayne
de Freitas Sousa denominou de projeto Pompeu Sinimbu,71 em que previa o emprego da mão
de obra dos desvalidos das secas para a execução de grandes obras públicas,
preferencialmente nas estradas de ferro.
68
TENÓRIO, Douglas Apratto. Capitalismo e Ferrovias no Brasil. Curitiba: HD Livros, 1996. Op. cit., pp.
105/6.
69
BONFIM, Luiz Ruben F. de A. Estrada de ferro Paulo Afonso: sua origem. Paulo Afonso: Graftech, 2007,
pp. 27 e 28.
70
IDEM, p. 29.
71
Este consistiu inicialmente na proposta defendida pelo senador Pompeu [senador cearense, Tómas Pompeu de
Sousa Brasil] em 1869 de utilizar a mão de obra disponível durante as secas para realização de obras públicas.
Essa proposta foi implantada durante a seca de 1877-1879 e nas secas seguintes. Com ascensão do visconde de
Sinimbú a presidência do Conselho de Estado a proposta ganhou status de projeto. O Projeto Pompeu Sinimbú
não previa [...] a iniciativa particular e as obras empreendidas eram executadas pelos comissários de socorros que
empregavam trabalhadores desvalidos, cujo pagamento maior era feito com ração [...] O Projeto Pompeu
Sinimbú teve como alvo não o socorro aos desvalidos das secas, mas a utilização da mão de obra disponível.
Essa mão de obra não era nem escrava nem de regime de meação: era assalariada. Cf. SOUSA, José Weyne de
FREITAS.Política e seca no Ceará: Um projeto de desenvolvimento para o Norte (1869-1905). São Paulo:
(Doutorado em História Economica) - USP, 2009, pp. 151/152/153.
35
1.5 Os trabalhadores da construção da Estrada de Ferro Paulo Afonso
Quando os emigrantes da seca de 1877 começaram a se avolumar em terras
alagoanas, logo se sugeriu empregá-los na construção da projetada via férrea. O Jornal do
Penedo, em 07 de setembro de 1877, publicou em primeira página que:
Em Paulo Afonso e Piranhas, segundo cálculos aproximados, orçam por
mais de 3000 os emigrantes existentes. Esse grande número de indivíduos
convertidos em operários, bem podia empregar-se no nivelamento do
terreno da futura via férrea de Jatobá ou Paulo Afonso, que, em época não
muito remota, será uma realidade, e teríamos assim começado os primeiros
fundamentos desse ingente monumento de nossa porvindoura opulência.
Bastará para consegui-lo que as nossas Comissões de Paulo Afonso e Pão de
Açúcar, de comum acordo com a de Pernambuco, em Piranhas e Tacaratu,
mediante instruções do Exmo. Sr. Presidente da dita Província, ponham em
execução essa ideia, enviando-se para ali pessoa profissional que inicie os
trabalhos pelo traçado do Sr. Engenheiro Krauss, aceito pelo Governo. 72
O periódico, que era editado na cidade de Penedo e que se definia como: órgão do
comércio e da lavoura do baixo S. Francisco, e do Partido Conservador do Sul das Alagoas,
assumiu neste aspecto uma bandeira içada pelos liberais. O pensamento de transformar as
vítimas da seca em operários era um discurso entoado pelos liberais, seja no parlamento ou
fora dele, é o caso, por exemplo, do engenheiro André Rebouças, que na ocasião da seca de
1877, numa postura crítica ao funcionamento (auxílio direto) das comissões de socorros
públicos, se pronunciou dizendo que: ―Se quereis sinceramente socorrer a nossos irmãos do
norte, mandai dar-lhes TRABALHO e SALÁRIO‖.73
Em junho do ano seguinte ao pronunciamento do influente engenheiro, chegou a
Alagoas uma comissão de engenheiros, encarregada dos estudos finais para a construção da
estrada de ferro Paulo Afonso. E logo se ordenou uma remessa de retirantes que estavam na
Colônia São Francisco irem para Piranhas, ponto inicial da obra. Mas, os retirantes reagiram à
ordem evadindo-se dos alojamentos.
72
73
S/título. Jornal do Penedo, 07 de Setembro de 1877, p. 1. Grifos nossos.
REBOUÇAS apud CÂNDIDO, 2011, p. 190.
36
Esses infelizes tão habituados se achavam á ociosidade, que muitos se
afugentaram dos alojamentos quando tiveram notícia de que iam se
empregar nos trabalho da estrada de ferro. 74
Apesar do debandar de muitos, vários outros foram levados a Piranhas para os
trabalhos iniciais da estrada de ferro Paulo Afonso. Em 19 de julho de 1878, foram enviados
no vapor Gonçalves Martins 94 retirantes,75 no dia seguinte embarcaram mais 78, no vapor
Conde Edu.76 É interessante observar que nessas listas, diferentemente das que eram enviadas
quando os retirantes eram destinados ao Recife e Salvador, não constava a procedência.
Enquanto isso, na capital alagoana realizava-se grandes festejos pela chegada da
comissão de engenheiros, dirigida pelo engenheiro Reinaldo von Kruger. 77 Essa comissão foi
organizada depois que a Secretaria de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras
Públicas, baixou a Portaria com as instruções para os estudos finais e a execução da obra. 78 A
Portaria foi composta de cinco capítulos e 44 artigos. No primeiro capítulo do referido
documento tratou-se da direção e do pessoal estrada, inclusive dos vencimentos e atribuições.
Tabela 2 - Cargos de direção e pessoal da administração da EEPA
CARGO
VENCIMENTO
1 engenheiro em chefe
1 primeiro engenheiro
3 chefes de seção
4 engenheiros de 1ª classe
5 engenheiros de 2ª classe
6 condutores de 1ª classe
6 condutores de 2ª classe
2 desenhista
1 feitor
1 pagador
1 guarda livros
1 almoxarife
1 amanuense
com o vencimento anual de .....
idem...
cada um com o vencimento anual de...
idem...
idem...
idem...
idem...
idem...
com o vencimento anual de...
idem...
idem...
idem...
idem...
VALOR
12:000$000
8:400$000
6:000$000
4:800$000
3:600$000
3:000$000
2:400$000
2:400$000
3:600$000
3:600$000
3:600$000
2:400$000
1:800$000
Fonte: SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DA AGRICULTURA, COMÉRCIO E OBRAS PÚBLICAS.
Instruções a que se refere a Portaria de 19 de Junho de 1878. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1878, p. 2.
74
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a administração da
Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente da mesma Província Afim de tomar
assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878. Maceio: Typ. do Liberal, 1879, p. 10.
75
LISTA dos retirantes que embarcaram no vapor Gonçalves Martins no dia 19 de Julho de 1878. (doc. nº 00907
12-02-05) [IHGAL].
76
LISTA dos retirantes que embarcaram no vapor Conde Edu no dia 20 de Julho de 1878. (doc. nº 00907 12-0205) [IHGAL].
77
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. A construção da Estrada de Ferro de Paulo Afonso: Fotografia e
História. Maceió: IHGAL, 2012, p. 36.
78
SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DA AGRICULTURA, COMÉRCIO E OBRAS PÚBLICAS.
Autoriza os estudos definitivos e construção da estrada de ferro Paulo Afonso, nas Províncias de Alagoas e
Pernambuco. Instruções a que se refere a Portaria de 19 de Junho de 1878. Rio de Janeiro: Typografia Nacional,
1878, p. 3.
37
Segundo a Portaria, os cargos acima seriam (e foram) preenchidos através de
nomeações. O engenheiro em chefe foi nomeado diretamente pelo Ministro da Agricultura,
Comércio e Obras Públicas. As demais funções também foram nomeadas pelo ministro,
porém, sobre a proposta do engenheiro em chefe.79 Quanto aos trabalhadores dos canteiros de
obra, são dedicados quatro artigos da referida Portaria que nos interessam diretamente:
Art. 22. Nos trabalhos da estrada serão de preferencia empregados, segundo
sua aptidão e a natureza do serviço, os habitantes das províncias do Norte
que estiverem sofrendo os efeitos da seca, e como tais sejam socorridos pelo
Estado.
Art. 23. Além da alimentação fornecida pelo Estado, concederá o engenheiro
em chefe a cada um dos operários de que trata o artigo antecedente, uma
gratificação diária de 200 a 800 rs. Segundo mérito de cada um.
Art. 24. Para a execução do art. 22, o presidente da província ou as
autoridades locais enviarão ao engenheiro em chefe uma lista do pessoal
válido, que puder ser aproveitado nos trabalhos.
Art. 27. O engenheiro em chefe poderá admitir nos trabalhos, para serviços
especiais, operários de classe diversa da mencionada no art. 22. Neste caso
poderá arbitrar-lhes o salário completo por que forem ajustados, excluída a
alimentação, dar-lhes transporte, e fazer qualquer adiantamento razoável. 80
A utilização da força de trabalho dos retirantes foi fundamental para construção da
ferrovia Paulo Afonso. Sem ela não haveria mão de obra suficiente para levar a obra adiante,
pois a lei nº 641 de 26 de junho de 1852,81 proibia o uso de mão de obra escrava na instalação
e manutenção das estradas de ferro brasileiras. Conforme o pesquisador Davi R. Bandeira da
Silva, ―o trabalho era bastante árduo. A disciplina requeria obediência e pontualidade.
Exigia-se eficácia e regularidade‖.82 No final do século XIX, não era fácil encontrar
trabalhadores livres com esse perfil.83 Numa estratégia para atrair força de trabalho dos
retirantes da seca, em tese ―trabalhadores livres‖, as comissões de socorros foram extintas,
79
IDEM, p. 3.
IDEM, p. 5/6.
81
BRASIL. Decreto nº 641, de 26 de junho de 1852 . Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1853, p 6.
82
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. A construção da Estrada de Ferro de Paulo Afonso: Fotografia e
História. Maceió: IHGAL, 2012, p. 50.
83
EISENBERG, Peter L. Modernização sem mudanças - a industrialização acucareira em Pernambuco
(1840-1910). Trad. João Maia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 212. Embora o nível reduzido dos salários
indicassem uma relativa abundância de mão de obra [...] A inconstância dos trabalhadores rurais livres era
notória; os ex-escravos e os muladeiros, especialmente, recusavam empregos fixos. Nas cidades e centros
urbanos menores ‗os emancipados recusavam-se ao trabalho e preferiam a vida erradia‘, ou trabalhavam somente
poucos dias por semana, ‗caso pudessem ganhar o suficiente para o resto da semana‘.
80
38
sendo que os celeiros passaram a concentrar-se em Piranhas. A partir de então, os retirantes
passaram a ser socorridos pela administração da Estrada de Ferro Paulo Afonso.
Tabela 3 - Número de retirantes socorridos pela administração da EFPA em 1878
MESES
JULHO
AGOSTO
SETEMBRO
OUTUBRO
NOVEMBRO
DEZEMBRO
TOTAL
Nº DE
TRABALHADOR
ES SOCORRIDOS
14
255
227
382
940
1.181
2.999
Nº DE PESSOAS
PERTECENTES ÀS
FAMÍLIAS DOS
TRABALHADORES
ADULTOS MENORES
572
793
1.315
224
937
1.161
INDIGENTES
AVULSOS,
VIÚVAS,
ÓRFÃOS,
CEGOS ETC.
493
578
1.071
TOTAL
14
255
227
382
2.229
3.489
6.596
Fonte: Quadro de retirantes socorridos pela adimnistração superior da Estrada de Ferro de Paulo Afonso no período de 26 de
Julho de 1878 a 29 de Fevereiro de 1880. EFPA, (Cx. 2217) – APA.
Tabela 4 - Número de retirantes socorridos pela administração da EFPA em 1879
MESES
JANEIRO
FEVEREIRO
MARÇO
ABRIL
MAIO
JUNHO
JULHO
AGOSTO
SETEMBRO
OUTUBRO
NOVEMBRO
DEZEMBRO
TOTAL
Nº DE
TRABALHADOR
ES SOCORRIDOS
1.345
1.554
1.571
2.286
2.318
2.004
2.060
1.873
1.570
2.204
2.169
1.662
22.616
Nº DE PESSOAS
PERTECENTES ÀS
FAMÍLIAS DOS
TRABALHADORES
ADULTOS MENORES
1.094
915
1.349
1.018
2.700
2.235
3.829
2.840
3.857
2.503
3.543
2.199
3.160
2.084
2.974
1.517
2.316
1.129
2.518
986
1.988
728
1.784
687
31.112
18.841
INDIGENTES
AVULSOS,
VIÚVAS,
ÓRFÃOS,
CEGOS ETC.
627
680
911
2.218
TOTAL
3.981
4.601
7.467
8.955
8.678
7.741
7.304
6.364
5.015
5.708
4.885
4.133
74.787
Fonte: Quadro de retirantes socorridos pela adimnistração superior da Estrada de Ferro de Paulo Afonso no período de 26 de
Julho de 1878 a 29 de Fevereiro de 1880. EFPA, (Cx. 2217) – APA.
Tabela 5 - Quantidade de trabalhadores empregados em 1880
Ano de 1880
DE JANEIRO A JUNHO
DE JULHO A DEZEMBRO
TOTAL
Nº TOTAL DE
TRABALHDORES
MÉDIA MENSAL
6.356
11.001
17.357
1.057
1.833
Fonte: Relatório dos trabalhos da Estrada de Ferro de Paulo Afonso – 1881, EFPA, 1878/1890. (Cx. 2217) – APA.
39
Em dois anos e meio foram empregados na construção da via férrea 42.972
trabalhadores. Segundo Davi R. Bandeira da Silva, ―a Estrada de Ferro Paulo Afonso foi
construída nas caatingas adversas com o auxílio da mão de obra sertaneja, constituída em
sua maioria por retirantes da seca, porém, sem trabalho escravo‖.84 Para Evelina Antunes F.
de Oliveira essa versão é contestável, mesmo que na documentação não haja registro de
trabalho servil, ao descobrir que no trabalho pesado, nos trilhos ou na alimentação do trem,
predominavam pessoas negras, a pesquisadora de interroga, ―teriam sido realmente
contratados regularmente estes „ex-escravos‟?‖85
Nesta discussão é necessário distinguir o trabalho servil institucionalizado de práticas
escravistas. Na documentação que consultamos averiguou-se a utilização de castigos físicos
contra os trabalhadores. Em ofício de 21 de fevereiro de 1879, destinado a subdelegacia de
Polícia de Piranhas pelo secretário do Engenheiro em chefe, Manoel do N. Alves Linhares,
solicitando o recolhimento do cadáver de um trabalhador morto em decorrência dos excessos
punitivos.
fui informado de que ontem, 20 do corrente foi pelo feitor Lapa, no serviço
do Cipó, espancado o trabalhador Lourenço de Tal, mandando-se lhe ao
mesmo tempo aplicar cinco dúzias de bolos, agora por último que o dito
trabalhador em consequência do castigo recebido havia falecido. 86
No relatório da EFPA enviado ao subdelegado de Piranhas informando o que havia
acontecido com o trabalhador Lourenço de Tal, alegou-se que esse foi morto por que ameaçou
de morte seu feitor. O documento afirma que:
Lourenço, sendo operário da estrada, foi despedido do serviço pelo auxiliar
Thomaz Caetano Lapa por ser surpreendido em reincidência de furto no
armazém de víveres da Estrada, estabelecido no Alto do Cipó: dias depois
apresenta-se a Lapa pedindo [para] ser admitido para não morrer de
fome, o que foi concebido por compaixão: passados os tormentos da fome
esqueceu-se Lourenço bem depressa de suas promessas e continua a dar se a
novos furtos, sendo sempre coibido por Lapa, que o ameaçou de prisão,
causa está por que possui-se de furor contra Lapa a ponto de querer mata-lo,
para o que esperou por várias vezes armado de espingarda, o que não levou a
efeito por ter sido Lapa prevenido por várias pessoas [...] indo o engenheiro
residente de serviço Jorge Desmarais ao acampamento do Alto do Cipó,
84
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. A construção da Estrada de Ferro de Paulo Afonso: Fotografia e
História. Maceió: IHGAL, 2012, p. 13.
85
OLIVEIRA, Evelina Antunes F. de. ―Nos trilhos da história de Piranhas: um ensaio sobre a Estrada de Ferro
Paulo Afonso.‖ ARAÚJO SÁ, Antônio Fernando de e Vanessa Maria Brasil. Rio Sem História? Leituras sobre
o Rio São Francisco. Aracaju: FAPESE, 2005, p. 235.
86
Oficio nº 7 de 21 de fevereiro de 1879. EFPA, (Cx. 2217) – APA. Grifos nossos.
40
Lapa deu-lhe parte [...] ordenou este engenheiro a prisão de Lourenço e sua
imediata apresentação ao sr. Subdelegado. Querendo Lapa efetuá-la
Lourenço resiste e acomete furiosamente contra Lapa, o que deu lugar a uma
luta da qual resultou sair Lourenço com várias contusões que asseguram-me
ser ligeiras, e bem prova o fato de ter trabalhado, depois disto.87
O tipo de castigo, ―cinco dúzias de bolos‖, mais o fato de ter trabalhado depois disto
indica um tipo de violência associada ao trabalho escravo. Outro ponto que chama atenção no
relatório é o fato de Lourenço de Tal furtar alimentos reiteradamente, isso sugere que o que
recebia enquanto trabalhador ―livre‖ na estrada de ferro era insuficiente para alimentação dele
e de sua família. Sobre o aspecto da readmissão - que no caso específico de Lourenço era sua
segunda - Lapa justifica as readmissões dizendo: ―que muitos outros, despedidos por várias
vezes, tornaram-se por último excelentes operários‖88. É importante frisar que quando se deu
o ocorrido havia pouco mais de seis meses do início obra. Isso demonstra alta rotatividade de
força de trabalho, talvez por isso nos registros conste avantajado número de trabalhadores
empregados na obra nos dois primeiros anos.
Segundo Davi Roberto, em fevereiro 1880 houve uma mobilização grevista por parte
dos trabalhadores da estrada. Motivada pela falta de distribuição dos mantimentos, contudo,
logo que as reivindicações foram atendidas pelas autoridades, os trabalhadores retornaram aos
serviços.89 Em setembro do mesmo ano, o trabalhador Firmino Vicente Ferreira, foi preso e
remetido a capital sob a alegação dupla de portar arma de fogo no canteiro de obra e de aliciar
os trabalhadores da ferrovia para abandonar o serviço.90
Além dos retirantes da seca, vieram para construção da Estrada de Ferro Paulo
Afonso operários contratados na Corte. Esses trabalhadores tinham tratamento distinto, as
passagens (de vinda) eram custeadas diretamente pelo Ministério da Agricultura, Comércio e
Obras Públicas e seus vencimentos começavam a contar a partir de seus embarques no Rio de
Janeiro. Mesmo com essas ―regalias‖, alguns deles fugiam dos serviços. Em meados de
fevereiro de 1879 o Engenheiro em Chefe, Reinaldo von Kruger, enviou um ofício e uma lista
ao delegado de Penedo informando o nome alguns de trabalhadores que evadiram dos
serviços da ferrovia ―clandestinamente‖, e que provavelmente teriam partido de canoa para
87
Documento nº 4 de 22 de fevereiro de 1879. EFPA, Cx. 2217 – APA. Grifos nossos.
IDEM.
89
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. A construção da Estrada de Ferro de Paulo Afonso: Fotografia e
História. Maceió: IHGAL, 2012, p. 50.
90
Estrada de Ferro Paulo Affonso. Piranhas, Escritório Geral em 6 de setembro de 1880. EFPA, Cx. 2217 –
APA.
88
41
Penedo, para que nesta cidade pudessem pegar algum vapor com destino a Maceió ou a
Bahia.91 Abaixo os nomes que constavam na lista:
José Maria Gomes, português, Joaquim Tavares, idem, José Pereira da Silva,
idem, Antonio Antunes, Antonio Carlos, português, João Fernandes Lima,
idem, Antônio da Silva, idem, Luiz Marcello Leal, pardo, brasileiro, Emílio
Rodrigues da Cruz, pardo, idem, João da Cunha Ferreira, português. 92
Chama atenção o número de portugueses contratados como mão de obra
especializada. Provavelmente contratados coletivamente, pois segundo as folhas de
pagamento do mês de janeiro de 1879, organizada pelo secretário Manoel N. Alves Linhares,
os operários que evadiram das obras da Estrada de Ferro Paulo haviam trabalhado 18 dias
cada.93 O fato de terem fugido juntos indica que esses trabalhadores mais especializados
partilhavam de interesses em comum, atitudes partilhadas que podiam eventualmente
significar algum nível de consciência de classe.
Em suma, na construção da Estrada de Ferro Paulo empregou-se milhares de
retirantes da seca de 1877, obrigados a labutar em troca de alimentos para si e para seus
familiares, e também operários qualificados, inclusive de procedência estrangeira. Em ambos
os casos, o Governo Imperial foi o agente pagador.
Já se discutiu anteriormente nessa pesquisa qual foi o principal propósito para
construção da via Estrada de Ferro Paulo, ou seja, interligar a extensa rota fluvial
sanfranciscana. Esse desígnio se sobrepunha a ideia de uma ferrovia construída para fomentar
o desenvolvimento local da economia por onde passou os trilhos. Todavia, uma vez
implantada pelo Governo Imperial, a ferrovia possibilitou, em seu perímetro, iniciativas como
as do capitalista Delmiro Gouveia, implementadas no início do século XX.94
91
Estrada de Ferro Paulo Affonso. Piranhas, Escritório Geral em 11 de fevereiro de 1879. EFPA, Cx. 2217 –
APA.
92
IDEM.
93
Nota de alguns trabalhadores que vieram do Rio de Janeiro. Está conforme ás folhas de pagamento do mês de
janeiro de 1879, elaborada pelo Secretário Manoel do N. Alves Linhares, EFPA, Cx. 2217 – APA.
94
A Geografia Econômica explica suficientemente a presença de Delmiro Gouveia na vila sertaneja de Água
Branca, em outubro de 1902, quando o alto comerciante precisou abandonar a capital pernambucana. Trocando a
metrópole do Nordeste pela antiga sede de um Baronato alagoano, Delmiro Gouveia julgou-se não apenas bem
protegido contra qualquer perseguição vinda de Pernambuco, mas também em estar bem situado para continuar o
seu grande negócio de peles. A facilidade dos transportes atraiu-o, porém, ainda mais para perto da cachoeira de
Paulo Afonso, levando-o a fixar-se na desconhecida estação ferroviária da Pedra, entre Piranhas e Jatobá. Cf.
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 97.
42
1.6 Aspectos gerais do Sertão alagoano no final do século XIX e início do XX.
O uso do termo sertão na língua portuguesa remete a um período remoto entre os
séculos XII e XIV. A princípio se referia as áreas mais distantes de Lisboa dentro do próprio
território que viria a ser o Estado de Portugal. A partir do século XV, com as expansões
marítimas do Estado português, a palavra passou a ser empregada para ―nomear espaços
vastos, interiores, situados dentro das possessões recém-conquistadas ou contíguos a elas
sobre as quais pouco ou nada sabiam‖95. Em terras brasileiras, no começo da colonização
portuguesa, mas também no início do século XIX, o termo era utilizado de maneira recorrente
nas crônicas e relatos dos viajantes.96
Conforme Janaína Amado, ―sertão‖ foi uma categoria construída pelos colonizadores
portugueses, carregada de sentidos negativos, como sendo o local onde habitavam os
―selvagens‖, indivíduos sem preceitos políticos, jurídicos e religiosos. No Brasil, a concepção
de sertão foi forjada em oposição à de litoral, porém são complementares, ―sem seu principal
referente (litoral, costa), „sertão‟ esvazia-se de sentido, tornando-se ininteligível, e viceversa‖.97 Dentro desta ótica dualista, o litoral representava a civilização e a cultura, enquanto
o sertão era o lugar da natureza bruta, habitado por ―bárbaros‖, hereges e infiéis.
Além de categoria espacial, sertão é também uma categoria do pensamento social e
da cultura brasileira.98 Historiadores de distintos enfoques teóricos e metodológicos
dedicaram espaço ao estudo do sertão em seus respectivos estudos sobre a formação social
brasileira.99 Todavia, esses trabalhos desenvolvem explicações gerais sobre a formação do
Estado e da Nação brasileira, de modo que, o conceito de sertão é utilizado para tratar de áreas
tão distintas quanto, por exemplo, o oeste alagoano e o interior do Estado de São Paulo.
95
AMADO, Janaína. Região, Sertão, Nação. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995. (141-145)
p. 147.
96
MIRANDA, Luiz Francisco Albuquerque de. O deserto dos mestiços: o sertão e seus habitantes nos
relatos de viagem do início do século XIX. História vol. 28 nº. 2. São Paulo, 2009. (621-643).
97
AMADO, Janaína. Região, Sertão, Nação. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995. (141-145)
p. 149.
98
IDEM.
99
Ver por exemplo, ABREU, J. Capistrano de. Capítulos de historia colonial e os caminhos antigos e o
povoamento do Brasil. Brasília, DF: Ed. da UnB, 1982. (113-168, 231-234) 337 p. HOLANDA, Sérgio
Buarque de. Caminhos e fronteiras. 3. ed. São Paulo: Cia Das Letras, 1994. 301 p. SODRÉ, Nélson
Werneck. Formação histórica do Brasil. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. 415 p. CUNHA,
Euclides. Os Sertões. 3ª. São Paulo: Martin Claret, 2010.
43
Do ponto de vista historiográfico, que visa à compreensão do particular em sua
relação com o todo, em que é fundamental as delimitações de tempo e espaço, a produção
ainda está em fase inicial. De modo que, ainda carecemos de estudos para compreendemos os
vários sertões brasileiros, inclusive os diversos sertões do semiárido nordestino.100
No início do século XX, o sertão de Alagoas contava oito municípios: Paulo Afonso
(atual Mata Grande), Água Branca, Piranhas, Pão de Açúcar, Santana e Belo Monte, Palmeira
dos Índios e Traipu. Os dois últimos tinham apenas parte do seu território situado na zona
sertaneja alagoana, porém, do ponto de vista da produção material se assemelham mais ao
sertão do que a zona agrestada. No final do século XIX e início do XX, o sertão alagoano
passou por um período de expansão econômica e populacional.
Tabela 6 - População do Sertão de Alagoas entre 1890 e 1920
MUNICÍPIO
Paulo Afonso
Água Branca
Piranhas
Pão de Açúcar
Santana
Belo Monte
Palmeira dos Índios
Traipu
TOTAL
Período
1890
8.072
6.968
3.497
11.848
10.525
2.034
15.910
13.342
72.196
1900
11.170
10.848
3.523
14.334
17.110
10.126
22.237
19.413
108.761
1920
21.516
20.361
3.476
21.812
40.234
8.177
39.271
20.355
175.202
Fonte: MARROQUIM, Adalberto Afonso. Terra das Alagoas. Roma: Editori Maglione & Strini. Succ E Loescher, 1922.
Em trinta anos a população do sertão alagoano mais que duplicou. Observa-se um
percentual de crescimento demográfico maior que o observado para o Estado no mesmo
período, que passou de 511.440 para 978.748 habitantes.101 O ritmo de crescimento
populacional foi mais intenso se comparado ao que se verificou nas duas últimas décadas do
Império brasileiro.
100
ANDRADE, Manuel Correia de. ―Sertão ou sertões: uma homenagem a Euclides da Cunha.‖ SILVA, José
Borzacchiello da, Eustógio Wanderley Correia DANTAS e Antônio Jeovah de Andrade MEIRELES. Litoral e
sertão, natureza e sociedade no nordeste brasileiro. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2006. 13 - 22.
101
População nos Censos Demográficos, segundo as Grandes Regiões e as Unidades da Federação - 1872/2010.
Disponível em: <www.censo2010.ibge.gov.br. /sinopse/index.php?dados=4&uf=00> Acesso em 28 jan. 2015.
44
Tabela 7 - População do Sertão de Alagoas no Censo de 1872
1872
MUNICÍPIO
Nº DE HABITANTES
LIVRES
ESCRAVOS
Paulo Afonso
Água Branca
Pão de Açúcar
Santana
Palmeira dos Índios
Traipu
TOTAL
5.189
5.730
9.010
8.735
17.022
12.439
58.125
4.862
5.399
8.601
8.453
13.611
11.721
52.647
327
331
409
282
3.411
718
5.478
CIDADÃOS
VOTANTES
não informado
247
1.287
720
1.425
1.139
4.818
Fonte: Almanak Administrativo da Província das Alagoas para o ano de 1878, contratado por Amintas & Filho (sétimo ano).
Maceió. Typographia Social, 1878.
Em todos os municípios, exceto Palmeira dos Índios - cujo percentual de escravos
chega a quase 20% da população, a porcentagem de habitantes escravos é menor que 10% das
suas respectivas populações. Sobre esse aspecto da escravização do negro no sertão o
eminente historiador Dirceu Lindoso, vai falar que:
no Grande Sertão, não houve, como sistema, a escravidão de negros
comprados nos portos da Costa d‘África. Os negros que chegaram ao sertão
eram negros fugidos da destruição do Quilombo dos Palmares, negros que,
depois de 1694, fizeram pequenas comunidades quilombolas no agreste de
matas secas [...] A moral da escravidão não penetrou no Grande Sertão, que
teve sempre poucos negros, mas negros de quilombos, e depois de 1888,
negros livres.102
Segundo Lindoso, ―o sertão desconheceu a escravidão negra da cana de açúcar‖.103
Isso por que nos sertões nordestinos, e dentre eles, o sertão alagoano prevaleceram às
fazendas de gado, o cultivo do algodão, do milho, do feijão, dentre outras culturas de ciclo
vegetativo curto.
Vejamos logo mais de maneira pormenorizada uma síntese da situação econômica do
sertão alagoano no final do século XIX. A consulta aos almanaques administrativos da
Província (e depois Estado de Alagoas) publicado a partir da década de 1870 nos permitiu
averiguar a dinâmica econômica desses municípios.
102
LINDOSO, Dirceu. O Grande Sertão: os currais de boi e os índios de corso. Brasília: Fundação Astrogildo
Pereira (FAP), 2011, p. 41/43.
103
IDEM, p. 43.
45
No Município de Palmeira dos Índios, o principal produto agrícola era o algodão
produzido em grande quantidade e exportado já descaroçado e ensacado para as praças de
Maceió, Pilar, São Miguel e Penedo. Havia alguns engenhos de açúcar onde se produzia
principalmente rapaduras para serem vendidas nas feiras do sertão. Destacava-se também a
criação de gados, com destaque para tipo vacum.
O comércio era desenvolvido, especialmente na sede do Município e na povoação de
Olhos d‘ Água do Accioly, onde se encontravam vários estabelecimentos de fazendas, secos e
molhados, além disso, nestas localidades ocorriam importantes feiras.
No que se refere à indústria contava apenas 4 fábricas de cal (caieiras), 5 fábricas de
curtir couros, 2 padarias e 10 engenhos de fabricar açúcar, contava também 6 máquinas para
descaroçar e prensar algodão. No que diz respeito aos ofícios eram: 14 sapateiros, 2 alfaiates,
1 cabelereiro, 10 ferreiros, 5 funileiros, 3 ourives, 2 marceneiros, 1 relojoeiro e 1 seleiro.104
O Município de Santana do Ipanema, além do algodão, produz também mamona e
milho. Porém, sua principal fonte de riqueza estava na criação de gados de toda espécie,
havendo em seu território avultado número de fazendas. Existiam na sede do Munícipio e no
Poço das Trincheiras diversas casas de negócio, na feira se comercializava gado, peles,
couros, sola, algodão em rama, legumes, sal, água ardente e carne seca. A indústria se
restringia as máquinas de descaroçar algodão, ao todo 6 máquinas, e a 1 padaria. Havia
também 9 artistas.105
Existiam em Traipu boas casas de negócios que mantinham relações comerciais com
as praças de Penedo e da Bahia. O ramo industrial mais florescente era o do preparo da carne
seca de gado, exportado em grande quantidade para Penedo, Propriá e outras localidades do
baixo São Francisco. Esse ramo industrial decorria da eminencia do Município na criação de
gado. O gado também era negociado vivo, de Traipu saiam numerosas boiadas para os
mercados do norte do Estado. No seu solo fértil cultiva-se algodão em larga escala, além
deste, o milho, o feijão, o arroz, e a mamona também eram cultivados.
104
Almanak Administrativo Estado de Alagoas para o ano de 1891, Editor proprietário Antonio Alves. (ano XX)
Maceió. [ilegível], 1891, p. 149 a 164.
105
IDEM, p. 520 a 529.
46
Traipu contava com 4 alfaiates, 2 ferreiros, 2 funileiros, 2 marceneiros, 2 ourives, 3
sapateiros, 1 seleiro, 1 tanoeiro e 3 professores de música.106
No Município de Belo Monte cultiva-se algodão e cereais, especialmente o arroz que
ali era abundante. Em seu território existia importantes fazendas onde se criava o gado vacum,
lanígero, muar e suíno. O comércio contava com pequenas casas de negócios: duas lojas de
fazendas e três vendas de secos e molhados. A indústria se resumia a 4 máquinas de
descaroçar e enfardar algodão. Entre os profissionais, existiam: 1 alfaiate, 2 carpinteiros, 1
ferreiro e 2 marceneiros.107
Em Pão de Açúcar, principalmente na sede do Município havia intenso movimento
comercial, inclusive importações de mercadorias estrangeiras e de outros Estados brasileiros.
Os comerciantes locais se abasteciam nas praças de Penedo e da Bahia e os revendiam nas
suas casas de comércios. Para essas praças exportava-se em considerável escala o algodão,
maior fonte de riqueza agrícola do município comercializado em rama. Também se exportava
feijão, milho, arroz, mamona, couros, sola e peles miúdas curtidas e em cabelo.
A pecuária era importante na economia do município, com importantes fazendas de
gado vacum, lanígero e caprino. De Pão de Açúcar exportava-se grandes boiadas para o
abastecimento de diversos mercados do Estado, inclusive para a Capital. Além do gado vivo,
exportava-se a carne seca semanalmente para as feiras de Propriá e Penedo.
Havia na sede do Município 4 alfaiates, 4 ferreiros, 3 ourives e 1 médico, o Dr.
Antônio Militão de Bragança. Contava também com 4 padarias, 2 farmácias e 1 tipografia,
nesta era editado o periódico semanário O Trabalho, publicado aos domingos.108
O Município de Piranhas após o estabelecimento da navegação a vapor no baixo São
Francisco, em agosto de 1867, se transformou num entreposto para os sertões de Pernambuco,
Bahia e demais regiões. Ali terminavam as jornadas por terra para os que desciam, e as
viagens por água dos que subiam. Devido a essa posição estratégica com relação à
navegabilidade do São Francisco, desenvolveu-se na localidade importante incremento
comercial. Entretanto, o povoado não crescia na proporção de sua importância mercantil, pois
sua topografia não oferecia condições de crescimento.
106
IDEM, p. 571 a 580.
IDEM, p. 409 a 414.
108
IDEM, p. 265 a 275.
107
47
Na maior parte do território de Piranhas o solo é estéril e árido, constituído de
rochedos de granito e penhascos inacessíveis. Devido a essas condições naturais as atividades
agrícolas eram ínfimas, havendo apenas algumas plantações de algodão e pequenos roçados
de mandioca, arroz, milho e feijão nos poucos lugares onde é possível a atividade agrícola.
Porém, havia alguma criação de gado bovino, muar e lanígero em diversas fazendas.
O comércio de Piranhas dependia da compra de produtos que desciam do alto sertão,
como couros, peles e gado. Havia lojas de fazendas, miudezas, armazéns de secos e molhados
que abasteciam o consumo local e de outros municípios mais centrais de Alagoas,
Pernambuco e Bahia. A indústria se restringia a curtumes de couro e peles, ao fabrico de
cigarros, uma fábrica de telhas e tijolos, uma padaria e pequenas oficinas de ferreiro,
funileiro, marcenaria, alfaiates e sapateiros. Há também 5 pedreiros, 1 ourives, 2 fogueteiros,
2 carpinas e 1 tanoeiro.109
No Município de Paulo Afonso (Mata Grande) a maior fonte de riqueza advinha da
criação de gados, havendo nele importantes fazendas. Apesar de localizado em pleno sertão, a
natureza lhe concedeu o inestimável legado de uma zona fértil, um verdadeiro ―oásis‖ no
meio no meio sertão. A serra de Mata Grande dilata-se por uma extensão de 4 léguas, em toda
a serra desde da base até seus pontos mais elevados, existe em todos os tempos e estações
uma vegetação soberba, viçosa e abundante.
O algodão era o principal produto agrícola, cultivado em larga escala, mas também
se plantava mandioca, feijão milho e outros legumes, como a cana de açúcar utilizada na
região para fabricar rapaduras. O comércio era realizado especialmente na sede do Munícipio
onde se encontravam casas bem surtidas de fazendas, onde se negociavam secos e molhados,
ferragens, drogas e outros artigos. No que se refere à indústria, havia apenas 4 engenhocas de
fazer rapaduras, 2 padarias e 3 máquinas de descaroçar algodão. Havia também 5 alfaiates, 7
ferreiros, 3 marceneiros, 4 sapateiros, 2 ourives e 1 funileiro.110
A denominação do Município de Água Branca se originou de uma fonte de água
puríssima de cor esbranquiçada, situada numa serra de mesmo nome, com cerca de 4 a 5
léguas de extensão, e coberta de verdejante mata onde havia terrenos propícios às atividades
109
Almanak Administrativo Estado de Alagoas para o ano de 1891, Editor proprietário Antonio Alves. (ano XX)
Maceió. [ilegível], 1891, p. 489 a 497.
110
IDEM, p. 469 a 477.
48
agrícolas. Lá se cultivavam o algodão, a cana de açúcar, a mandioca, o feijão, o milho e
outros legumes. O café também era produzido ali.
Existia no final do século XIX diversas e boas fazendas de criação de gado bovino,
lanigero e caprino, sendo inclusive Água Branca um dos municípios que mais contribuía para
o erário público com dízimo de gado. Em Várzea do Pico, um dos mais importantes povoados
do município, havia nas terças feiras uma grande feira, onde se comercializava gado bovino,
animais cavalares e muares, couros, peles e outros gêneros que desciam do alto sertão, além
de fazendas, miudezas, charque, sal, vinho, água ardente, cereais, e tudo mais que afluíam do
próprio sertão ou do litoral.
A indústria se resumia a uma padaria e uma fábrica de cigarros, havia no Munícipio
1 alfaiate, 1 fogueteiro, 1 funileiro, 2 sapateiros e 2 marceneiros.111
No final do século XIX havia no sertão de Alagoas destacava-se o cultivo do algodão
e a pecuária. A construção da estrada de ferro Paulo Afonso, entre 1878 e 1883, ligando o
baixo ao alto São Francisco demonstra a importância da região na integração da economia do
País ao mercado mundial.
Acreditamos que a vinda de Delmiro Gouveia para Alagoas, especificamente para a
vila da Pedra, no munícipio de Água Branca, tenha sido motivada pela condição estrutural
montada na região desde o século anterior. Para esta questão será dedicado um capítulo
exclusivo, o seguinte.
111
IDEM, p. 386 a 394.
49
2 DELMIRO
INDUSTRIAL.
GOUVEIA:
TRAJETÓRIA
DE
VIDA
E
FORMAÇÃO
DO
Neste capítulo, procederemos a uma investigação sobre a trajetória do capitalista
Delmiro Gouveia. Não pretendemos realizar mais uma biografia entre as tantas já
existentes.112 O objetivo é rastrear quais foram às condições políticas e econômicas em que
desenvolveu suas atividades de comerciante e industrial, principalmente nos estados de
Pernambuco e Alagoas. Exploraremos suas relações com a oligarquia rosista em Pernambuco
e a maltina em Alagoas. Na parte final do capítulo se verificar as concessões do governo de
Alagoas a firma Iona & Cia., e pela Companhia Agro Fabril Mercantil S/A, empresas que
Delmiro sócio majoritário.
2.1 Delmiro Gouveia: juventude e orfandade
Delmiro Augusto da Cruz Gouveia nasceu em 1863, em Ipu, no Ceará. Era o
segundo filho de um relacionamento extraconjugal entre Delmiro Porfírio de Farias e Leonila
Flora da Cruz Gouveia. Ele, comerciante de animais de montaria e cargas pelo interior
nordestino; ela, filha de um rico proprietário rural de Pau d‘Alho, Pernambuco. Quando
Porfírio Farias conheceu Leonila, ele já era casado e pai de cinco filhos, todavia, convenceu-a
a fugir com ele para o interior do Ceará, onde passaram a residir numa fazenda de parentes,
local onde nasceram os dois filhos do casal: Maria Augusta e Delmiro.113
Em 1868, após a morte do pai de seus filhos, na Guerra do Paraguai, Leonila mudouse com suas duas crianças para Goiana, em Pernambuco. Segundo Félix Lima Júnior, ―ao ter
ciência da morte do companheiro, Leonila Flora, isolada e sem recursos, deixa o Ceará e a
bordo de um vapor volta a Pernambuco‖.114 Mas não procurou a família, pois segundo o
autor, como de costume na época, ela havia sido excomungada.
112
―Não é grande a literatura acadêmica acerca de Delmiro Gouveia. Seu nome aflora com mais frequência em
ensaios, crônicas e romances do que em trabalhos de maior rigor científico. O predomínio pertence aos biógrafos
e cronistas‖. Cf. MAYNARD, Dilton Cândido Santos. ―Delmiro Gouveia e as alternativas para o
desenvolvimento da região do São Francisco.‖ Sá, Antônio Fernando de Araújo e Vanessa Maria Brasil. Rio sem
histórias? leituras sobre o Rio São Francisco. Aracaju: FAPESE, 2005. 241-259 (p. 241).
113
LIMA JÚNIOR, Félix. Delmiro Gouveia: o Mauá do Sertão alagoano. Maceió: Departamento Estadual de
Cultura / Federação do Comércio do Estado de Alagoas (Coleção Vidas e Memórias), 1983, p. 18.
114
IDEM, p. 18.
50
Sem o apoio dos familiares e com dois filhos para alimentar, em 1872, Leonila migra
para o Recife, levando consigo suas crias. Na capital pernambucana empregou-se como
doméstica na residência do Dr. José Vicente Meira de Vasconcelos, um jovem advogado e
professor de Direito da Faculdade do Recife. Além do emprego, Vicente Meira assumiu o
papel de preceptor dos filhos de Leonila. Conforme Tadeu Rocha, ele foi quem alfabetizou
Delmiro Gouveia, “foi quem lhe botou nas mãos a cartilha de ABC‖.115 Em 6 de outubro
1878, já no leito de morte, Leonila casou-se com Vicente Meira, e no dia seguinte faleceu.
Aos 15 anos, órfão de pai e mãe, Delmiro Gouveia decidiu se virar por conta própria.
Depois da morte de sua mãe o jovem ficou sem nenhum parente na capital pernambucana,
pois sua irmã, Maria Augusta, já havia se casado no ano anterior e mudado para Fortaleza.
Ainda em 1878, Delmiro começou a trabalhar como cobrador na Brazilian Street
Railways Company, concessionária que administrava o sistema de transporte ferroviário no
Recife. Nesta companhia, chegou a exercer a função de Chefe de Estação em Caxangá. Em
1881, aos dezoito anos, passa a trabalhar como ―Caixeiro Despachante‖ na firma Joaquim
Duarte Simões. No ano seguinte passou a condição de ―Ajudante de Despachante‖, tendo
como endereço a Rua da Vitória, n. 12.116 Nessa atividade, fez contatos com as firmas
exportadoras de peles e algodão com sede no Recife, para as quais desempenhava a função de
intermediário comercial.
Delmiro logo percebeu a potencialidade do comércio de courinhos (peles de caprinos
e ovinos). Conforme depoimento de Adolpho Santos, ele disse: ‗Não há dúvida! O negócio é
excelente e vou dedicar-me a ele‘.117 E dedicou-se, transformando-se no principal
intermediário entre os produtores de peles (de cabras e ovelhas) e couros (de boi) espelhados
pelos sertões nordestinos e as firmas exportadoras de peles e algodão - Herman Lundgren e
Rossbach Brothers.118
Essa atividade exigia muitas excursões pelo interior nordestino. Numa dessas viagens
pelo interior de Pernambuco, Delmiro conheceu sua futura esposa, Anunciada Cândida de
Melo Falcão, na cidade de Pesqueira, com quem se casou em agosto de 1883. Após o
115
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 34.
IDEM, p. 40.
117
SANTOS, Adolpho. ―Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.‖ Revista do Arquivo
Público de Pernambuco, 1994, p. 11.
118
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
187.
116
51
matrimônio, volta com sua esposa para o Recife, onde passou a residir na Rua São João, no
Bairro São José, posteriormente, quando já dispunha de certa riqueza acumulada no comércio
de peles, adquiriu uma chácara em Apipucos, a qual denominou de ‗Vila Anunciada‘,119 nesta
construiu um suntuoso palacete120 e foi morar com sua esposa. Todavia, permaneceu ligado ao
comércio de peles.
Trabalhou também para o grande curtume Keen Sutterly & Co., da Filadélfia (EUA),
e tornou-se gerente de sua filial no Recife, após voltar de viagem de negócio que fez ao EUA,
em 1892. Mas sua gestão foi curta, pois devido a problemas financeiros no seu país de origem
o grande curtume suspendeu suas atividades no Brasil.121
Nessa época Delmiro Gouveia já era reconhecido oficialmente com comerciante
recifense. Havia inclusive sido sócio-proprietário de uma firma para comprar e exportar
courinhos, aberta em sociedade com o inglês Clément Levy. Conforme relatou Tadeu Rocha,
em pesquisa realizada na Junta Comercial de Pernambuco, essa firma denominada de Levy &
Delmiro foi estabelecida em 26 de julho de 1891, tendo sido constituída para:
negociarem em courinhos e outro qualquer gênero que lhe convier. O capital
da firma era de oitenta contos de réis (80.000,00), dividido igualmente entre
os dois sócios, e a duração seria de três anos. Ao sócio Levy cabiam os
serviços de escritório e relações bancárias; a Delmiro, as compras e a
fiscalização do armazém, situado no Largo da Assembleia, n. 2, bairro
peninsular do Recife.122
A parceria com o inglês Levy Clement acabou antes do prazo previsto, em fevereiro
de 1893. Com a dissolução da sociedade Delmiro ficou com todo o ativo da empresa. 123
Delmiro conhecia bem o mercado de couros e peles, e não tardou em abrir uma nova empresa
para atuar no ramo.
Também em parceria, desta vez com Antônio Carlos Ferreira da Silva, diretor
gerente do Banco de Pernambuco e profundo conhecedor das operações de câmbio, fundou a
119
MENEZES, Olympio de. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais, 1963, p. 32.
120
Neste prédio, funciona atualmente a sede do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco
(FUNDAJ), esta instituição preserva importante acervo documental sobre a trajetória de Delmiro Gouveia. Cf.
ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. A presença de Delmiro Gouveia no Acervo da Fundação Joaquim
Nabuco. Recife, 2007.
121
MENEZES, Olympio de. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais, 1963, p. 50.
122
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 44.
123
IDEM, p. 45.
52
firma Delmiro & Cia., com sede na Rua do Brum, nº 24. 124 A Delmiro & Cia., logo absorveu
os negócios de Ernesto Kant, um francês, exportador de peles que se rendeu a feroz
concorrência do cearense.125 Além dos negócios de Kant, a Delmiro & Cia incorporou
também os ex-funcionários do francês, Luís Bahia, Leonello Iona e Guido Ferrário, os
incluindo como sócios.
Para o pesquisador Davi Roberto B. da Silva, a escolha dos sócios de Delmiro se
dava por dois motivos: ele ―considerava importante estabelecer firmas com sócios, tanto pelo
capital financeiro que esses podiam agregar, quanto por serem especialistas nas áreas em
que atuavam.‖126 Ao mesmo tempo, confiava muito no trabalho dos seus sócios a ponto de
ausentar-se por diversas vezes em viagens pela América do Norte e Europa.
No final da última década do século XIX, Delmiro Gouveia era um homem rico e
prestigiado. Estava seguro no monopólio na exportação de couros e peles no comércio do
Recife, apelidado de ―Rei das Peles‖. Em 1898 chegou a presidir a Associação Comercial de
Pernambuco. Era um nome de projeção no meio comercial e social do País. A esta altura não
desejava mais ―mourejar‖ a frente dos negócios, ―mas dirigir homens capazes, que sob sua
orientação desenvolvessem seus planos e capitais”.127 Firme em seu propósito dissolveu a 1º
de maio do corrente ano a firma Delmiro & Cia., e com o Capital desta organizou vários
outras, da quais se tornou comanditário.128
Como sócio comanditário, ou seja, aquele que entra numa sociedade com o Capital,
mas que não participa diretamente da administração do negócio, Delmiro Gouveia ampliou e
diversificou a natureza dos seus empreendimentos. Entre 1898 e 1899 organizou as firmas:
Silva, Cordeiro & Cia., Fiúza & Cia., Gouveia & Cia. e Cunha e Gouveia. 129 Neste momento
também houve um maior estreitamento entre Delmiro Gouveia e a classe política
pernambucana, manifestado através de favores e encalços.
124
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, p. 35.
MAYNARD, Dilton Cândido Santos. O Senhor da pedra: os usos da memória de Delmiro Gouveia (19401980). Recife: (Tese de Doutorado em História) UFPE, 2008, p. 20.
126
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. Ousadia no Nordeste: a saga empreendora de Delmiro Gouveia.
Maceió: FIEA, GIJS, 2007, p. 36.
127
MENEZES, Olympio de. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais, 1963, p. 57.
128
IDEM.
129
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. Ousadia no Nordeste: a saga empreendora de Delmiro Gouveia.
Maceió: FIEA, GIJS, 2007, p. 48/49.
125
53
Neste período os interesses econômicos de Delmiro Gouveia e o projeto político de
consolidação da Oligarquia Rosa e Silva 130 no Estado de Pernambuco começaram a colidir.
Declaradamente assumiu ―oposição‖ ao grupo de Rosa e Silva, aproximou-se do grupo
político oposicionista ao oligarca e ao Partido Republicano Federal radicado na capital
pernambucana. Dentre os membros mais destacados desse grupo encontravam-se José
Mariano, Gonçalves Maia, Phaelante da Câmara e Coelho Cintra. 131 Este último foi prefeito
do Recife entre 1896-1899.132 Foi na gestão dele que Delmiro firmou os contratos para
construção de um grande mercado no bairro da Estância, nessa época subúrbio da cidade, nos
terrenos que outrora faziam parte do hipódromo do Derby. 133
2.2 O Mercado dos “Derbies” no Derby
Ironicamente o Mercado do Derby, cujo nome oficial era Mercado Coelho Cintra, se
tornou objeto de disputa política na capital pernambucana no final do século XIX. Em 1898, o
então prefeito do Recife, José Cupertino Coelho Cintra recebeu uma proposta da empresa
Fiúza & Cia para aberturas de novas ruas e a execução de algumas obras, incluindo uma
Escola Municipal e um novo mercado nos terrenos do Derby,134 na época zona periférica da
cidade. O Jornal do Recife noticiou a proposta como uma oferta valiosa. 135 O novo mercado
foi aprovado unanimemente pelo Conselho Municipal do Recife em março do mesmo ano. 136
O contrato previa o privilégio de exploração comercial do empreendimento por 25 anos, e
mais a isenção de impostos municipais por tempo igual após sua inauguração, 137 depois desse
período o recinto passaria para o poder público municipal.
130
Francisco de Assis Rosa e Silva, político hábil, cuja conversão ao republicanismo no início da década de 1890
lhe permitiu a legitimação no nível nacional e a dominação política no seu Estado (1896-1911). Rosa e Silva
consolidou o poder em Pernambuco construindo uma rede rigorosamente disciplinada, com base no controle
coronelista de municípios rurais; e a sua máquina política administrava Pernambuco da capital do Estado ao
passo que ele governava, in absentia, da sua residência permanente no Rio de Janeiro. Cf.: LEVINE, Robert.
―Pernambuco e a Federação Brasileira, 1889-1937.‖ CARDOSO, Fernando Henrique, et al. O Brasil
republicano, v. 8: estrutura de poder e economia (1889-1930). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, p. 140.
131
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
197.
132
http://www.recife.pe.gov.br/pr/galeria/ Acesso em 03 de fev. 2015.
133
Jornal do Povo, 22 de abril de 1899, p. 2.
134
Jornal do Recife, 09 de Fevereiro de 1898, p. 2.
135
Idem.
136
Jornal do Recife, 23 de Março de 1898, p. 2.
137
Clausula 19ª do Contrato. Jornal do Recife, 24 de Março de 1899, p. 2.
54
Em agosto do corrente ano, as obras do ―novo mercado‖ já se encontravam bastante
adiantada. Os redatores do Jornal do Recife, após fazerem uma visita ao estabelecimento a
convite de um dos seus proprietários, relatam o seguinte:
tivemos anteontem, a convite do Sr. Coronel Napoleão Duarte, o prazer de
visitar o grande e elegantíssimo edifício que sob sua imediata direção se está
construindo na Capunga, na vasta área até então ocupada pelas
arquibancadas do Derby Club. A impressão que nos causou a visita foi a
mais grata possível [...] É bastante vasto, extraordinariamente ventilado e
perfeitamente dividido. Podemos sem medo errar afirmar aos nossos
condescendentes leitores que virá a ser o edifício mais grandioso de
Pernambuco.138
Antes mesmo de sua inauguração, no princípio de 1899, o Mercado do Derby já
despertava o interesse da sociedade recifense. Era tratada como uma obra monumental para os
padrões da época. Conforme descreveu Francisco Magalhães Martins:
Sua área media 129 m de comprimento, por 28 de largura, com 18 portões e
112 janelas e venezianas. No centro, erguia-se um pavilhão superior, do qual
se observava todo o movimento. O mercado, dividido em muitas seções,
contava com 264 compartimentos, servidos de balcão de mármore, dispostos
em forma de três ruas paralelas. As cobertas laterais dos dois corpos
principais do edifício eram suspensas por quatro linhas e várias colunas de
ferro, e a coberta central, elevada e suspensa sobre tesouras, era servida por
ventiladores de renovação de ar, dando luz à parte interna. Chafarizes e
torneiras distribuíam água por todo o prédio, com perfeito sistema de esgoto.
Em frente à fachada principal, havia uma área ajardinada. Todo o pátio, a
leste do estabelecimento, era aproveitado por um velódromo, com a extensão
de quatrocentos metros. Existiam dependências, no lado, destinadas a uma
luxuosa hospedaria e a vários jogos, bares, divertimentos. 139
Para alguns pesquisadores o Derby foi a versão pioneira de um shopping center no
Brasil.140 Pois era ao mesmo tempo um centro comercial, inclusive de artigos sofisticados, e
também de lazer. ―Vendia-se, durante o dia e até a alta noite, nos dias movimentados –
sábados, por exemplo – desde gêneros alimentícios triviais até artigos finos, importados
138
Jornal do Recife, 31 de Agosto de 1898, p. 2.
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 56/57.
140
Cf. ALVES, Sérgio. ―Empreendorismo pioneiro e inovação organizacional no limiar do século XX: uma
análise do legado de Delmiro Gouveia.‖ DIÓGENES, Eliseu, Sérgio ALVES e Davi Roberto Bandeira da
SILVA. Delmiro Gouveia entre o mito e a realidade: seus empreendimentos e sua contextualidade no
tempo e no espaço. Maceió: EDUFAL, 2014, p. 195; Ver MAYNARD, Dilton Cândido Santos. ―O coronel dos
coronéis.‖ Revista de História (2006): 1-4.
139
55
diretamente do estrangeiro‖.141 Para vender os gêneros de primeira necessidade mais barato
que seus concorrentes no Derby eliminaram-se os intermediários.
Figura 1 - Mercado do Derby, Recife, construído em 1899, na época subúrbio da cidade. (Fonte: Arquivo da Fundaj 2007.)
Além de extinguir os intermediários, os proprietários do Mercado do Derby
contavam com a isenção de impostos na comercialização das mercadorias. Dessa forma,
poderiam vender os produtos por preços menores do que os que se praticavam na praça, sem
que seus lucros fossem comprometidos. A partir do segundo trimestre de 1899, o Jornal do
Recife passou a publicar os boletins diários dos preços dos produtos praticados no Mercado
São José142 e no Derby numa mesma coluna.143
Afora a confrontação de preços entre os mercados, lia-se no periódico, anúncios do
tipo: ―Mercado Coelho Cintra no Derby – A farinha de ótima qualidade é vendida de 1$700 a
2$000. Há gelo durante o dia e à tarde todos os jornais‖.144 Neste mesmo dia outro anúncio
do Derby foi publicado na folha recifense:
Mercado Coelho Cintra no Derby – vende-se carne de ótima qualidade, e até
às 11 horas, a 800 rs. 900 rs. O quilo, e em quantidade suficiente para suprir
141
LIMA JÚNIOR, Félix. Delmiro Gouveia: o Mauá do Sertão alagoano. Maceió: Departamento Estadual de
Cultura / Federação do Comércio do Estado de Alagoas (Coleção Vidas e Memórias), 1983, p. 62.
142
SECRETARIA DE SERVIÇOS PÚBLICOS DO RECIFE. Histórico dos Mercados. Disponível em:
<http://www.recife.pe.gov.br/pr/servicospublicos/csurb/mercados.html> Acesso em: 11 de Fev. 2015.
143
Jornal do Recife, 11,16, 20, 21, 23, 24, 25, 26 de Maio; 6, 8, 9, 11, 23, 28 de Junho; 11, 12, 14, 16 de Julho de
1899. Desta última data em diante nos boletins só constava os preços dos produtos no Mercado São José.
144
Jornal do Recife, 16 de Maio de 1899, p. 2.
56
o público. Também vende-se farinha, de ótima qualidade feijão, milho,
arroz, carne de charque, bacalhau, peixe, camarão, verduras, frutas e outros
gêneros. Há pela manhã bondes de bagagem, sendo o primeiro às 05h30min
e o segundo as 6h30mim.145
Durante cerca de três meses os anúncios do ―Mercado Coelho Cintra no Derby‖
estiveram constantes no Jornal do Recife, até que na segunda metade do mês de julho esses
cessam. Ao que nos parece à descontinuidade das propagandas do Derby no periódico foi
motivada pelas disputas políticas envolvendo os membros da oligarquia rosista e sua
oposição, no final da última década do século XIX.
Em 1899, sucedendo José C. Coelho Cintra, assumiu a administração do Recife
Esmeraldino Olímpio de Torres Bandeira, membro da oligarquia rosista. A atuação da nova
gestão colidiu com os interesses comerciais de Delmiro, principalmente em relação ao
Mercado do Derby. O primeiro conflito decorreu de uma divergência em torno da legalidade
da comercialização de carnes verdes no novo mercado. 146 Depois houve a apreensão dos 400
sacos de farinha na Estação Central, por ordem do Prefeito.147 Em outro momento a contenda
se deu por conta da abertura de uma valeta para o escoamento das águas da chuva pela
prefeitura nos terrenos das ruas novas abertas no Derby. 148
Segundo os biógrafos Francisco Magalhães Martins e Olympio de Menezes, foram
os incidentes entre Delmiro e o prefeito do Recife, Esmeraldino Bandeira, que o motivou a ir
ao Rio de Janeiro para falar com o Conselheiro e vice-presidente da República Rosa e Silva, a
fim de remover óbices criados com os incidentes e evitar novos desentendimentos. 149 O
encontro foi facilitado por um amigo em comum, o deputado Cornélio da Fonseca, e ocorrido
na residência do vice-presidente.
Após ―mútuas recriminações e aborrecimentos‖ decidiram fazer uma trégua. Para
tanto Rosa e Silva exigiu que Delmiro envia-se um telegrama para seus amigos no Recife para
145
Idem, p. 3.
Jornal do Recife, 24 de Março de 1899, p. 2.
147
Jornal do Recife, 11 de Maio de 1899, p. 2.
148
Jornal do Recife, 26 de Maio de 1899, p. 2.
149
Cf. MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1963, p. 58; Ver MENEZES, Olympio de. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife:
Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1963, p. 85.
146
57
que não fizessem, nos jornais oposicionistas, comentários sobre a questão do Derby e outras,
para não tomarem caráter político.150
Mas a trégua pouco durou. Delmiro foi advertido pelos seus amigos do Recife de que
um sujeito de alcunha Sabe-Tudo havia embarcado para Capital Federal, a mando de
Esmeraldino Bandeira, com o propósito de assassiná-lo. Após saber disso tentou se encontrar
novamente com Rosa e Silva, e mais uma vez procurou o deputado Cornélio da Fonseca para
intermediar o encontro. O Conselheiro se recusou de imediato, além disso, declarou ter se
arrependido de receber Delmiro em sua casa.
Na tarde do dia 17 de junho, na Rua do Ouvidor, Delmiro encontra-se com o
Conselheiro Rosa e Silva com quem tenta falar, mas é ignorado. Aborrecido diante da
descortesia do vice-presidente tacou-lhe algumas bengaladas defronte da Chapelaria Watson,
onde adentrou para se abrigar-se.151 O fato foi notícia nos vários tabloides cariocas.152
No jornal carioca, A Notícia, Delmiro explica as razões que o levaram ao Rio de
Janeiro para falar com Rosa e Silva:
Um choque entre meus interesses comerciais, na qualidade de
proprietário do Mercado da Estancia, no Recife, e os interesses políticos
do prefeito daquela cidade, chamou sobre mim as prevenções da política
partidária do Dr. Rosa e Silva, a que (sic) aquele prefeito é filiado.
[...] Entendi que o melhor seria vir eu ao Rio falar pessoalmente com o Dr.
Rosa e Silva e solicitar os seus bons ofícios no sentido de terminar-se uma
luta de que eu não poderia tirar resultados práticos.153
Noutro artigo publicado dois dias depois desse primeiro, no mesmo tabloide, se diz
ser homem honrado, orgulha-se de nunca ter desonrado lar algum, e que apesar de ter nascido
nas ―baixas camadas‖, consegui com a força do seu trabalho se tornar um dos primeiros
industriais da América do Sul. E que contribuía para o desenvolvimento do País, ao aumentar
as fontes de riqueza da nação. Em mensagem direta ao Conselheiro Rosa e Silva, diz: ―Um
homem que tem a seu favor serviços feitos a sua terra e que tem uma vida imaculada,
150
LIMA JÚNIOR, Félix. Delmiro Gouveia: o Mauá do Sertão alagoano. Maceió: Departamento Estadual de
Cultura / Federação do Comércio do Estado de Alagoas (Coleção Vidas e Memórias), 1983, p. 78.
151
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 58.
152
A Notícia, 19, 20 e 21 de Junho de 1899; Gazetas de Notícias, 18, 20 e 21 de Junho de 1899.
153
GOUVEIA, Delmiro. A Notícia, Rio de Janeiro, 19 de junho de 1899, p. 3. Grifos nossos.
58
trabalho sob os mais verdadeiros princípios da honra, pode, com vantagem, enfrentar-se com
o Dr. Rosa e Silva‖. 154
Para Maria Isaura Pereira de Queiroz, no seu elucidativo estudo, O Coronelismo
numa interpretação sociológica, Delmiro Gouveia foi uma figura ímpar do coronelismo. Para
a autora, ele foi o exemplo mais cabal do indivíduo que ascendeu ao coronelato mediante a
aquisição de bens de fortuna no comércio.155
A história do coronel Delmiro Gouveia evidencia a importância dos bens de
fortuna na aquisição de posição socioeconômica e de influência política,
fator superior ainda à integração numa parentela. Sua fortuna lhe permitiu
prescindir desta, tanto na ascensão social quanto a manutenção de sua
posição econômico-política.156
Delmiro chega a essa posição socioeconômica capaz de influenciar nos rumos da
política local ou até mesmo regional, na década seguinte à Proclamação da República. A sua
ascensão era percebida por parte da classe política pernambucana como uma ameaça, talvez
por isso tenham ocorrido as ―perseguições‖ no Mercado do Derby, e não por uma questão de
zelo ao erário público. Após as bengaladas no vice-presidente, algumas matérias foram
publicadas no Jornal do Recife a pedido do Partido Republicano, nas quais questionam a
índole e a origem da fortuna de Delmiro.
Em doze anos fez Delmiro uma fortuna cuja avaliação varia de três a quatro
mil contos!
Qual brasileiro neste vasto e opulento país, que em tão curto prazo, fazendo
correr suor da testa por trabalho honrado, conseguiu tão surpreendente
resultado?
Qual foi o negociante aqui no Rio, no Pará, ou nas milagrosas regiões da
Amazônia conseguiu em especulações comerciais e naquele prazo fortuna
semelhante?
O fato consumado aí esta: Delmiro de estacionário na Casa Amarela, da
Companhia de Trilhos Urbanos do Recife a Apipucos é hoje grande
capitalista e atreve-se a afrontar a opinião, dizendo-se benfeitor de sua pátria,
levantando o comércio de courinhos e construindo o Mercado da
Estancia.157
154
GOUVEIA, Delmiro. A Notícia, Rio de Janeiro, 21 de junho de 1899, p. 3.
PEREIRA DE QUEIROZ, Maria Isaura. ―O Coronelismo numa interpretação sociológica.‖ CARDOSO,
Fernando Henrique, et al. O Brasil republicano, v. 8: estrutura de poder e economia (1889-1930). Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, p. 194.
156
IDEM, p. 196.
157
Jornal do Recife, 28 de Junho de 1899, p. 1. Grifos originais.
155
59
O texto continua em tom de ironia explicando como Delmiro ascendeu no mundo dos
negócios:
E a opinião vai saber como tem sido feito o comércio de courinhos e outros
negócios em que Delmiro se tem empenhado.
Tomando o cajado e as alpercatas de pastor percorreu todo o sertão do estado
e afugentou para Paraíba e Alagoas todos os pequenos animais, desde o
quan e a lontra até a cabra e o carneiro, onde eram esfolados, entrando
depois para sair neste porto livre de direito, como mercadoria dos estados
vizinhos!
O algodão, que frutifica no estado, a vara de condão de Delmiro faz passar
os capulhos para os estados vizinhos e depois de certas operações volta ao
estado, para passar livre de direito, entrar nas fábricas estrangeiras. Esta
verdade tem sua prova na Recebedoria e na Associação Comercial onde feita
a estatística dos produtos do estado, a Paraíba e Alagoas cada de per si
exportam mais courinhos e algodão do que o vasto estado de Pernambuco a
quem Delmiro tanto tem beneficiado!158
Na edição de 12 de julho, do referido jornal foram publicadas duas outras matérias
com os respectivos títulos: Delmiro - o Industrial! ; O aventureiro Delmiro. Nessas as críticas
à origem do patrimônio de Delmiro, assim como os questionamentos a sua índole continuam.
Sendo que desta vez focalizou-se nos empreendimentos mais recentes do capitalista. Veja
abaixo parcial transcrição das matérias:
Delmiro – o industrial!
Delmiro diante do Conselheiro Rosa e Silva quis crescer e a oposição
pretendeu apresentar no seu seio o maior capitalista!
Delmiro levantou-se como homem sem educação, e qualquer que seja a
posição a que tenha de chegar, a sociedade não lhe concede distinções.
E assim levantado, como o jogador, que se atira a todas as aventuras para
fazer fortunas, tentando a fraude, chegou a tolíssima ostentação de ambição e
de vaidade, dizendo-se o primeiro industrial da América do Sul.
A indústria está visível a todos os olhos.
É notável esta operação comercial, comprar por mais do que qualquer
outro, vender por menos e acusar na caixa os lucros da transação.
E quem procurar esses lucros encontrará na qualidade de moeda!!
Fazer passar mercadoria do Estado para os estados limítrofes, alterar as guias
de transito e livre do fisco fazê-las sair em Pernambuco.
Onde estão os lucros mencionados na caixa?
Na defraudação da fazenda pública.
Feita assim a fortuna começou entrar na colheita dos proveitos, atirando-se
primeiramente contra a moralidade social.
Abriu a vida concupiscência, atacando a honra de uma, atirando-se sobre a
de outra e reduzindo a miséria a muitas, que choram a desgraça levadas pelas
158
IDEM.
60
promessas do Lovelace, que inculca bem feitor do povo, mas que não
respeita as virgens do povo, jogando contra a sua pobreza.
Para Delmiro o Mercado da Estancia e a Usina Beltrão são abismos, que hão
de devorá-lo, sem que a sua ruina inspire a menor compaixão.
E os pródromos desse fim já observamos.
Como todos, que se atiram a serviços que não conhecem, os espírito do
primeiro industrial deslumbrou-se, imaginando os lucros fabulosos de um
mercado opulento, de uma casa de hospedaria, que rivalize com o melhor
hotel em magnifico luxo e ainda mais a criação de um bairro para perpetuar
seu nome.
E nessa banca apostou o jogador!
Lá está consumindo no Mercado da Estancia uma fortuna [...] A Hospedaria
representa outra grande goma, que nem mesmo recebendo em grande
número Imperadores, Príncipes, Chefes de Estado e argentários de todas as
nações poderia dar pequeno lucro de seu negócio.
No meio dessas dificuldades, que se agravam pela restauração do movimento
da Usina Beltrão – Delmiro já caminhou para os estabelecimentos de crédito
e por hipoteca da Usina Beltrão levantou o capital de duzentos contos de
reis.
E assim vendo o primeiro industrial da América do Sul, que a noite leva às
mãos a cabeça em surda contemplação do seu fim e de dia mobiliza-se em
ostentações de espalha fato por sua riqueza, os dois palhaços políticos [José
Mariano e Martins Júnior] se ajustaram, para ter no seu dinheiro, proteção
eleitoral no momento que se aproxima.
E Delmiro foi à última arma da atirada sobre o Conselheiro Rosa e Silva não
atingindo o golpe desfechado.159
O aventureiro Delmiro
Um conhecido aventureiro, ambicionando celebridade que o dinheiro ganho
por forma assombrosa não lhe daria; transformou-se em um Erostrato de
uma nova espécie e tentou ombrear-se. Pedindo satisfações de espadachim,
ao notável homem público que, pelo seu reconhecido talento e elevado
critério ascendeu a uma das posições mais salientes da República, sendo
eleito por quase aclamação para ocupar o segundo grau da suprema direção
dos seus destinos.
Recordemos os antecedentes.
Ainda não se obliteraram da memória dos nossos concidadãos os recentes
fatos do mercado da Estancia onde o Sr. Delmiro quis criar embaraços à boa
gestão dos negócios municipais, furtando-se ao pagamento de tributos que
não lhe haviam sido dispensados na concessão feita pelo Dr. Coelho Cintra,
quando Prefeito desta Capital.
O Dr. Esmeraldino Bandeira, espírito esclarecido e justo, empenhado em
reerguer, com máxima solicitude, o crédito abalado da administração
municipal, não podia consentir tal esbulho aos cofres municipais e tomou as
medidas administrativas necessárias para que não desse com preterição da lei
e sem clausula expressa no contrato, elasticidade desejada ao monopólio que
tem de explorar o Sr. Delmiro.
Irritado com estas medidas postas em prática sem ostentação com fito único
de acautelar os interesses do município, o Sr. Delmiro procurou embuçar-se
no manto da filantropia falando a pobreza e atribuindo a tais providências a
159
Jornal do Recife, 12 de Julho de 1899, p. 1. Grifos originais.
61
permanência da carestia dos gêneros de primeira necessidade e
comprometer-se, como meio de atrair a concorrência a seu estabelecimento,
a vendê-los a preço inferior ao de então.
Todos sabem que, como titular de concessão do Mercado da Estância, goza
S.S. de isenções de certos impostos municipais e nestas, condições poderá,
como meio de obter segura freguesia de futuro, revelar do aluguel os que ali
quiserem negociar o retalho com gêneros de primeira necessidade.
Possuidor de uma fortuna posto que suspeita de criminosa, não faria falta
momentânea a percepção destes lucros a S. S. que nutria esperanças de
sobejas compensações futuras pela frequência que imaginava seu
estabelecimento iria ter.
Eis, pois, o móvel do procedimento que teve, franqueando gratuitamente aos
que ali quisessem exercer seu ramo de negócio.
Quem conhece a atividade com que o Sr. Delmiro procede em suas
explorações, ri-se do desplante com que, assumindo os foros de pai da
probesa (sic) refere-se a seus sentimentos filantrópicos.160
O fato das matérias serem publicadas em nome do Partido Republicano demonstra
que a questão era, sobretudo, de natureza política. A figura de Delmiro ameaçava a
consolidação da oligarquia rosista, principalmente por sua invocação junto às classes
populares. Ou seja, rótulos como: o bem feitor do povo, o pai da pobreza, pesava numa
disputa eleitoral. Aquele que viria a ser conhecido como o ―Coronel dos coronéis‖161, mesmo
não sendo político, tinha muita importância na cena política recifense e pernambucana. O
jornalista Plínio Cavalcante, que foi contemporâneo de Delmiro, escreveu:
O prestígio [...] desse grande comerciante tornava-se, dia a dia, mais real e
valioso. A sua permanência ali era uma ameaça à situação política de então.
Delmiro Gouveia poderia, de uma hora para outra, fazer ir pelos ares toda a
máquina política do capitão-mor [Rosa e Silva] daquela feitoria republicana.
Eliminá-lo seria precipitar os acontecimentos, lançar, no ânimo do povo
oprimido, o rastilho de uma revolução. Ao invés da força, seria mais
oportuna a fogueira da Inquisição. Destruída a causa, cessaria o efeito. E foi
assim que tocaram fogo no Derby.162
Na madrugada do dia 2 de janeiro de 1900, o Mercado do Derby, foi parcialmente
incendiado. Pela manhã, no mesmo dia, o Governador Sigismundo Gonçalves ordenou a
prisão de Delmiro, do administrador Napoleão Duarte, os principais empregados e
negociantes do estabelecimento, alegando que esse era um procedimento padrão empregado
160
Idem.
JANOTTI, Maria de Lourdes Monaco. O coronelismo: uma política de compromissos. São Paulo:
Brasiliense, 1984, p. 77/78.
162
PLÍNIO CAVALCANTI APUD LIMA JÚNIOR, 1983, p. 63.
161
62
em casos de incêndios, acrescentado que sua ação era necessária, pois o mercado da Estancia
seria em alguns anos incorporado ao patrimônio municipal, e por isso as autoridades,
municipais e estaduais, tinham interesse legal na conservação do mesmo.163
O misterioso incêndio no Derby gerou muitas especulações sobre quem teriam sido
os responsáveis; Delmiro acusava ter sido a polícia a mando do Governador, o ato faria parte
das perseguições que vinha sofrendo do poder oficial, para o Governador e seus aliados. Uma
outra versão afirma que Delmiro ateou fogo no recinto para receber o seguro, uma vez que
havia boatos de que o capitalista se encontrava falido. As trocas de acusações, assim como as
defesas, foram publicadas nos jornais recifenses durante quase todo o mês janeiro.164
Segundo Sérgio Alves, ―Delmiro arrenda o que restava do mercado e viaja mais
uma vez para Europa‖.165 O Jornal Pequeno, do Recife, deu a seguinte notícia: ―seguiu ontem
para a Europa, no vapor Médoc, fugindo as perseguições do governo do Estado, o coronel
Delmiro Gouveia‖.166 A intenção do capitalista cearense era ficar longe de Pernambuco por
algum tempo, contudo, os seus negócios na terra de Joaquim Nabuco permaneciam ativos,
sendo administrados pelos seus sócios, com quem mantinha constante correspondência.
2.3 Retornos, falência e mudança para Alagoas.
Na Europa era informado sobre o que se passava em Pernambuco, tanto na economia
como na política. Ao que nos parece, mesmo vivendo distante, o nome de Delmiro continuava
envolvido nas disputas partidárias no Recife, a ponto dele solicitar da Europa a publicação de
uma correspondência, no jornal A Província, em que se dirigi diretamente ao governador
Sigismundo Gonçalves, dizendo que:
Pensava que, longe de Pernambuco e procurando por todos os meios afastarme das lutas partidárias e da política vil e baixa que se faz nessa terra, estaria
livre das misérias de v. exc. Enganei-me e mais uma vez fui torpemente
caluniado e grosseiramente insultado por v. exc. num acervo de infâmias que
não merece o nome de discurso e numa porção de tolices a que não chamarei
163
Jornal do Recife, 06 de Janeiro de 1900, p. 1.
Jornal do Recife, 06, 09, 11 e 19 de Janeiro de 1900; A Província, 05, 09, 12 e 13 de Janeiro de 1900.
165
ALVES, Sérgio. ―Empreendorismo pioneiro e inovação organizacional no limiar do século XX: uma análise
do legado de Delmiro Gouveia.‖ DIÓGENES, Eliseu, Sérgio ALVES e Davi Roberto Bandeira da SILVA.
Delmiro Gouveia entre o mito e a realidade: seus empreendimentos e sua contextualidade no tempo e no
espaço. Maceió: EDUFAL, 2014, p. 196.
166
Jornal Pequeno, 31 de Janeiro de 1900, p. 2.
164
63
de artigos. Se eu aí estivesse, v. exc. não teria a afouteza [atrevimento] de
dizer o que disse ou que mandou dizer pelos seus prepostos inconscientes
[...] São miseravelmente ultrajados os com o sem motivo caem no desagrado
de v.exc. e eu paguei o tributo que pagaram o venerado barão de Lucena
e muitos outros caracteres empeçonhados pelo seu ódio ou a sua
inveja.167
A correspondência de Gouveia chama a atenção para um aspecto: à sistematicidade
das chamadas perseguições, pois segundo o próprio, ele não teria sido o único a sofrer os
encalços da política do governador Sigismundo Gonçalves. Para Edgard Carone, durante a
Primeira República, período em que as oligarquias atingem o ápice, houve em alguns estados
muitos conflitos entre os vários grupos oligárquicos até que um sobressaísse aos demais no
domínio do estado.168 Essa parece ser a situação vivida em Pernambuco na virada século XIX
para o XX, antes que oligarquia Rosa e Silva predominasse.
No final de 1900, Delmiro retornou da Europa, e no mesmo dia, poucas horas depois
de desembarcar no Recife, foi atingido na perna por um tiro, disparado acidentalmente pelo
revólver do sócio da Gouveia & Cia., coronel Napoleão Duarte, enquanto conversavam nas
dependências do Hotel do Derby. Apesar do susto, o ferimento foi de natureza leve, sem
hemorragia ou fraturas, a bala foi extraída e logo Delmiro se achava em boas condições. 169
A natureza incidental do acontecimento foi posta em dúvida por Delmiro,
aparentemente esse foi o motivo para ele solicitar o distrato da empresa Gouveia & Cia.,
proprietária dos terrenos e dos edifícios do Derby. Delmiro que era ao mesmo tempo sócio
majoritário e credor, e por isso, exigia a quitação do passivo da empresa antes da sua
dissolução.170 A dívida da Gouveia & Cia., com Delmiro era de mais de mil contos de réis.171
Após a dissolução litigiosa da sociedade com o coronel Napoleão Duarte, Delmiro
transferiu as propriedades do Derby para cinco bancos, como parte da quitação de uma dívida
que havia contraído em nome da firma Silva Cordeiro & Cia., Vejamos nas palavras do
próprio Delmiro, como foi que ele adquiriu esse débito:
167
GOUVEIA, Delmiro. Publicações solicitadas: Ao dr. Sigismundo Gonçalves. Lucerne – Suíça, 02/07/1900.
Correspondência publicada no jornal a PROVÍNCIA em 15 de Agosto 1900, p. 2. Grifos nossos.
168
CARONE, Edgard. A Primeira República (1889-1930) Texto e Contexto. 3ª. Rio de Janeiro: DIFEL, 1976,
p. 66.
169
A Província, 22 de Dezembro de 1900, p. 1.
170
GOUVEIA, Delmiro. Publicações solicitadas: uma explicação. 26/12/1900. A Província, 27 de Dezembro de
1900, p. 1 e 2.
171
GOUVEIA, Delmiro. A quem interessar possa. A Província, 29 de Dezembro de 1900, p. 2.
64
Sai daqui para Europa em fevereiro de 1900 tendo deixado meus negócios na
melhor ordem e a Usina Beltrão prestes a funcionar.
Em setembro do mesmo ano recebi telegrama de amigos meus, que
compunham a firma Silva, Cordeiro & Cia., pedindo meu auxílio, pois
sentiam em dificuldades.
Imediatamente telegrafei aos bancos daqui oferecendo-lhes minha garantia
em favor dessa firma, e os Bancos exigiram a hipoteca da propriedade
Derby, o que se fez, embora sem as formalidades legais.
Em dezembro do mesmo ano cheguei da Europa e procurando conhecer o
estado da firma Silva, Cordeiro & Cia., verifiquei não ser possível cumprir
ela as obrigações contraídas, estando eu, por conseguinte, comprometido
com minha garantia.
Procurei, então, reunir os cinco credores de Silva, Cordeiro & Cia., que eram
os Bancos do Recife, Pernambuco, Popular, London Brazilian e London
River Plate e a seus respectivos gerentes claramente lhes demonstrei e provei
o que acabo de referir e ainda mais, que a hipoteca feita em meu nome era
completamente nula.
Depois de demorada discussão a respeito, na qual se convenceram da
arguida, lhes declarei que não me aproveitaria disto para fugir da
responsabilidade que tomara e prontifiquei-me a entregar-lhes a propriedade
em questão pelo valor estimado na hipoteca, dando-me os bancos a quitação
da dívida de Silva, Cordeiro & Cia., cujos débitos me transferiam,
garantindo eu, em pagamento o resto da mesma dívida. 172
No texto, Delmiro coloca-se como se tivesse partido dele a proposta de negociação
com os bancos, o que é pouco provável, dificilmente numa transação desse tipo a iniciativa
parta do devedor. Sobre a transação envolvendo as propriedades do Derby, o jornal A
Província, de 15 de fevereiro de 1901, deu a seguinte nota:
Foi ontem lavrada no cartório do tabelião Cintra Lima a escritura da
transação feita pelo sr. coronel Delmiro Gouveia com o London Bank, River
Plate Bank, Banco de Pernambuco, Banco Popular e Banco do Recife dos
terrenos e edifícios de propriedade Derby, inclusive o elegante mercado da
Estância.
Os bancos efetuaram o negócio pela quantia de mil e duzentos contos de
réis.173
Na negociação Delmiro transferiu todo o patrimônio da extinta Gouveia & Cia., para
os bancos, além disso, ele ficou com uma dívida no valor de seiscentos e sessenta mil
novecentos e quarenta réis, e mais os juros, nos mesmos bancos.174 Esse compromisso seria
honrado em duas letras iguais, respectivamente, em março e setembro de 1902, o aceite das
172
GOUVEIA, Delmiro. Os bancos do Recife e London and River Plate na concordata de Cunha & Gouveia.
Recife, 12/09/1902, A Província, 13 de Setembro de 1902, p. 1 e 2.
173
A Província, 15 de Fevereiro de 1901, p. 1. Grifos nossos.
174
BAHIA, Luiz. Publicações solicitadas: ao público. Recife, 22/08/1902. A PROVÍNCIA, 24 de Agosto de
1902, p. 1.
65
letras ficou com firma Cunha & Gouveia e o sacado a firma Silva Cordeiro & Cia, 175. Em
ambas as empresas Delmiro Gouveia era sócio comanditário.
Conforme Adolpho Santos, Delmiro antes de ir para Europa reorganizou a sociedade
comercial Silva, Cordeiro & Cia. A empresa passou a contar com o seguinte quadro: sócios
solidários: Antonio Carlos Ferreira da Silva, chefes dos armazéns, Manoel Cordeiro de
Carvalho, também chefe dos armazéns, e Luiz Bahia, chefe dos escritórios; e mais outros dois
ficaram como sócios interessados,176 (possivelmente esses eram os italianos, Guido Ferrário e
Leonelo Iona). Essa firma foi organizada por Gouveia, em 1898, com a finalidade de
comercializar couros e peles.177
Após negociar com os bancos, reorganizar a Silva, Cordeiro & Cia., seguro de que
esta estava nas mãos de pessoas competentes, o Rei das Peles, viaja novamente para Europa.
Segundo relata Adolpho Santos, Delmiro escolheu a Itália para viver, mais precisamente na
cidade de Nápoles, onde podia contar com a ―amenidade do clima‖ e os carinhos de uma
condessa.178 Desta vez passou quase um ano sem retornar ao Brasil. Enquanto isso, a firma da
qual era sócio comanditário passava por sérias dificuldades.
Neste momento os interesses econômicos de Delmiro se voltavam exclusivamente
para a comercialização de couros e peles, isso ocorreu depois que ele passou por experiências
mal sucedidas noutros ramos. Além dos empreendimentos no Derby, Delmiro também
investiu capital no ramo açucareiro.
Em nome da firma Cunha & Gouveia adquiriu grande quantidade de ações da Usina
Beltrão,179 da qual se tornou seu acionista majoritário. Segundo Félix Lima Júnior, a gestão da
Usina Beltrão, se tratou do primeiro fracasso na vida empresarial do capitalista. Para o autor,
175
BAHIA, Luiz. Publicações solicitadas: ao público. Recife, 22/08/1902. A Província, 24 de Agosto de 1902, p.
1.
176
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.‖ Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 20.
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 65.
177
SILVA, Davi Roberto Bandeira da. Ousadia no Nordeste: a saga empreendora de Delmiro Gouveia.
Maceió: FIEA, GIJS, 2007, p. 48.
178
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 19 e 20.
179
A Usina Beltrão, pertencia á Cia Industrial Açucareira, organizada em 31 de julho de 1891, com sede e foro
na Capital Federal [Rio de Janeiro], e capital de 4.000.000$000, em ações de 100$000. ―Tratava-se,
evidentemente, de uma das muitas sociedades surgidas durante o encilhamento [...] Funcionou a usina em grande
e bem construído prédio entre Olinda e Recife.‖ Cf. LIMA JÚNIOR, Félix. Delmiro Gouveia: o Mauá do
Sertão alagoano. Maceió: Departamento Estadual de Cultura / Federação do Comércio do Estado de Alagoas
(Coleção Vidas e Memórias), 1983, p. 59.
66
o déficit de rendimentos no ramo do açúcar decorreu ―do elevado custo de instalações, como
também não apareceu à produção que se esperava para seu funcionamento‖.180
Outros pesquisadores atribuem o insucesso no refino de açúcar a dois outros fatores:
o baixo poder aquisitivo do povo nordestino [na época se denominava nortista], podendo esse
apenas consumir o açúcar bruto, do tipo mascavo, por ser mais barato, além disso, dizia-se
que o paladar dos nordestinos não estava acostumado ao açúcar cristalizado. 181
Para Edvaldo Nascimento o motivo que levou a Usina Beltrão (Cunha & Gouveia) a
bancarrota foi o boicote das oligarquias pernambucanas produtoras de açúcar, que há séculos
produziam e também exportavam o açúcar quase in natura. Segundo o autor, os produtores se
negaram a fornecer açúcar para refino na Usina Beltrão porque temiam a concorrência de
Delmiro, cujas experiências demonstravam um ―olhar diferente‖ de como atuar no mundo dos
negócios.182 Embora o próprio Delmiro tenha assumido publicamente o porquê do seu
fracasso com relação à Usina Beltrão, ―compreendi que não estávamos habilitados para tal
indústria, por motivo que não cabe aqui declarar‖183
O biógrafo Félix Lima Júnior, afirmou que quando realizava sua pesquisa sobre ―O
Mauá do Sertão Alagoano‖, colheu depoimentos que sustentavam que a usina, ou melhor, a
refinaria Beltrão nunca funcionou enquanto foi gerida por Delmiro. Conforme os
depoimentos:
a usina jamais funcionou e nunca vendeu açúcar em tabletes, como projetou
Delmiro, isso porque o grande industrial não efetuou, antecipadamente,
contratos de fornecimento com os usineiros. Na hora H, eles, que não viam
com bons olhos a iniciativa, recusaram-se a vender açúcar. Justifica-se o
fracasso de Delmiro. Ele entendia de couros e não de açúcar. 184
Entendendo ou não do ramo de açúcar, com ou sem boicote das oligarquias
produtoras pernambucanas, a atuação de Delmiro Gouveia no setor açucareiro foi um
fracasso, os seus biógrafos são inânimes quanto a essa questão. É neste seguimento também
180
Idem, p. 60.
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 64.
182
NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. Delmiro Gouveia e a educação na Pedra. Maceió: Viva Editora,
2013, p. 62.
183
GOUVEIA, Delmiro. Os bancos do Recife e London and River Plate na concordata de Cunha & Gouveia.
Recife, 12/09/1902, A Província, 13 de Setembro de 1902, p. 2.
184
LIMA JÚNIOR, Félix. Delmiro Gouveia: o Mauá do Sertão alagoano. Maceió: Departamento Estadual de
Cultura / Federação do Comércio do Estado de Alagoas (Coleção Vidas e Memórias), 1983, p. 60.
181
67
que pela primeira vez se registra uma falência de uma empresa da qual fazia parte Delmiro, a
Cunha & Gouveia.185
Delmiro Gouveia voltou da Europa para tentar levantar sua firma a Silva, Cordeiro &
Cia., que segundo seus sócios passava por uma ‗situação insustentável‘. 186 Tanto os sócios
solidários, como os interessados eram pessoas reconhecidamente competentes e conhecedoras
do mercado de couros e peles. Entretanto, isso era insuficiente diante da retração pela qual
passava o mercado de ―courinhos” naquele momento.
Quando retornou ao Recife da Europa, Delmiro percebeu que a situação da Silva,
Cordeiro & Cia. era de fato insustentável. Numa tentativa de evitar a falência desta, assim
como ocorreu com a Cunha & Gouveia, ele vai aos credores e propõe uma concordata, na
qual pagaria vinte e um por cento (21%) do valor da dívida,187 mas a proposta foi recusada. O
Banco do Recife, um dos credores, protestou o pagamento o das letras e, requereu a falência
da Silva, Cordeiro & Cia., que foi consumada pouco tempo depois. Com a falência os
credores obtiveram menos que dez por cento (10%) do valor oferecido na concordata, ou seja,
com a liquidação de todo o patrimônio da empresa saldou-se apenas (2%) do valor total da
dívida.188
É provável que na iminência da bancarrota, os proprietários Silva, Cordeiro & Cia,
tenham transferido (o que se configuraria em fraude) parte do seu ativo para terceiros, de
modo que pudesse recuperar futuramente. Embora, o que acabamos de apontar seja de difícil
comprovação devido à falta de fontes, há indícios de que isso tenha ocorrido. A constituição
da empresa Iona & Krause por pessoas do ciclo próximo de Delmiro, é um desses.
A Iona & Krause foi organizada no Recife após a falência da Silva, Cordeiro & Cia.,
para atuar no comércio de couros e peles. Conforme Adolpho Santos, os membros da
organização comercial foram ―Lionelo Iona, antigo interessado da firma falida, e Jonh
Krause, corretor de câmbio. Guido Ferrário e Luiz Bahia ficaram como interessados do novo
grupo‖.189 Percebe-se que os sócios da nova empresa são pessoas que a muito trabalhavam
185
A PROVÍNCIA, 25 de Setembro de 1902, p. 1.
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.‖ Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 21.
187
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 54.
188
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 22.
189
IDEM.
186
68
com Delmiro, que evidentemente como comerciante falido não podia figurar nos quadros
legais da empresa.
O biógrafo Tadeu Rocha, na sua minuciosa pesquisa sobre ―O pioneiro de Paulo
Afonso‖, compulsou o contrato de formalização da firma Iona & Krause e fez a seguinte
constatação: ―Nos termos do art. VIII da escritura de constituição desta firma, Delmiro era o
„árbitro único em toda a vigência do contrato, obrigando-se os sócios desde já a se
submeterem a sua decisão nos termos do Código Comercial‖.190 De certa forma Delmiro
continuava exercendo a função de sócio comanditário como fizera nos empreendimentos
anteriores.
Acreditamos que o motivo que levou Delmiro Gouveia a mudar do Recife para o
Sertão alagoano tenha sido de ordem econômica, sua atividade mais lucrativa, a
comercialização de couros e peles estava sendo mais bem acompanhada pelo fisco
pernambucano. Pouco tempo após a chegada do comerciante cearense a pequena Vila da
Pedra essa se tornou o epicentro do comércio de peles no Nordeste. É provável que os
produtores (ou pelo menos, a maioria desses), que lhes fornecia courinhos quando Delmiro
operava na capital pernambucana continuaram a lhes fornecer na Vila da Pedra. As
exportações de couros e peles passaram a ser realizadas pelo Porto de Jaraguá, situado na
capital alagoana. Além disso, Gouveia contava com o apoio da Oligarquia Malta.
No nosso entendimento a imputação de um processo no qual o acusava de rapto e
defloramento da jovem Carmélia Eulina Gusmão, futura mãe dos seus três filhos,191 contribui
para a saída (de certo modo, apressada) de Delmiro do Recife. Contudo, ao contrário do que
afirmam alguns de seus biógrafos, esse fato teve pouca importância para escolha do Sertão
alagoano como o local de sua morada.
2.4 Alagoas, a Terra “Prometida”
Apesar de ter chegado oficialmente falido em Alagoas, o coronel Delmiro Gouveia
sempre gozou de muito prestígio junto aos chefes políticos do Estado e ao coronelato.
190
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 55.
Durante todo o mês de outubro, ―O caso da menor Eulina‖ estampou as páginas dos tabloides recifenses; A
Província, 04, 05, 11, 18 de Outubro de 1902; Jornal Pequeno, 03, 09, 20 de Outubro de 1902; Jornal do Recife,
14 e 15 de Outubro de 1902.
191
69
Também em solo alagoano suas relações com a classe política foram fundamentais para
implantação de seus empreendimentos. Em Alagoas Delmiro obtive isenções, subsídios e
concessões, sem os ―favores‖ dos governantes alagoanos, dificilmente o capitalista cearense
teria se tornado o ‗Rei do Sertão‘,192 é provável, que sem esses ele sequer teria se tornado o
―Senhor da Pedra‖.193
Quando Delmiro Gouveia mudou-se para Alagoas, no final de outubro de 1902,
Euclides Malta194 era o Governador, estava apenas no começo do longo período de domínio
político da oligarquia Malta. Oligarquia de caráter familiar controlada pelo próprio Euclides
Malta, que exerceu três mandados a frente do Executivo estadual. Conforme Hildebrando
Menezes, quando Delmiro chegou a Alagoas ―lhe proporcionou generosa acolhida o seu
amigo Governador Euclides Malta, que o admirava por sua capacidade realizadora‖.195 O
biógrafo Francisco Magalhães Martins aponta outro motivo: ―O Estado de Alagoas, já sob o
domínio dos Malta, acenava-lhe com maiores vantagens. Eram mínimas as taxas de
exportação lá cobradas sobre couros e peles‖.196 Nas terras caeté, controlada pela oligarquia
maltina,197 o cenário era promissor para o ―Rei das Peles‖. Alagoas. 198
Além de contar com o apoio do principal mandatário da oligarquia Malta, no Estado
de Alagoas, Delmiro também teve boa aceitação pela maior parte dos coronéis da região.
Quando ocorreu o episódio de sua prisão, em 1904, na estação de trem de Pedra por um
destacamento policial de Pernambuco - em função do processo que respondia naquele Estado
192
SANT'ANA, Moacir Medeiros de. Pequena História de Delmiro Gouveia, o "Rei do Sertão". Maceió:
Coleção - NOVAS ALAGOAS - 2 - Imprensa Oficial, 1961.
193
MAYNARD, Dilton Cândido Santos. O Senhor da pedra: os usos da memória de Delmiro Gouveia (19401980). Recife: (Tese de Doutorado em História) UFPE, 2008
194
Euclides Vieira Malta nasceu na vila de Mata Grande, em 1861, filho de proprietários agrícolas no sertão.
Estudou os primeiros anos em Maceió e, em seguida foi para o Recife, onde se bacharelou em Direito. Logo
cedo ingressou na vida pública, atuou como promotor de justiça em Atalaia, em seguida começa a ocupar cargos
políticos: foi deputado provincial e estadual, constituinte, conselheiro municipal, intendente de Penedo, deputado
federal, senador da República e, governador estadual em três ocasiões. Foi a principal liderança da chamada
oligarquia maltina, que durou quase uma década e meia a frente do Executivo em Alagoas. Cf. TENÓRIO,
Douglas Apratto. Metamoforses das oligarquias. Maceió: EDUFAL, 2009, p. 75 e76.
195
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, p. 50.
196
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 68.
197
As oligarquias diferenciam-se por matizes: naquelas como as do Ceará, Alagoas, Mato Grosso e outros
Estados pobres, o processo está ligado mais diretamente ao predomínio familiar e grupal: Maltas, Aciolis,
Ponces, os grupos Álvaro Machado e Rosa e Silva – governam pessoalmente ou através de pessoas da sua
confiança; partido é sinônimo de controle pessoal. Já noutros Estados, onde a máquina governamental é mais
complexa, o partido representa poder controlador e distribuidor, mas as exigências estatais, o manejo das
posições e o fortalecimento e variedade dos grupos, fazem haver equilíbrio maior entre o individual e o coletivo.
Cf. CARONE, Edgard. A Primeira República (1889-1930) Texto e Contexto. 3ª. Rio de Janeiro: DIFEL, 1976,
p. 66.
198
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, p. 50.
70
pelo rapto da menor Eulina Gusmão – levado para cidade de Jatobá de Tacaratu, os coronéis
da região liderados pelo cel. Ulysses Luna formaram uma comitiva com dezenas de homens
armados, cercam a cadeia de Jatobá e só baixaram a guarda quando Delmiro foi solto, o
acompanhado em cortejo até a vila da Pedra.199
O capitalista Delmiro Gouveia foi desde cedo integrado ao coronelismo no sertão
alagoano. Segundo Francisco Magalhães:
Delmiro Gouveia aporta em Penedo, onde foi recomendado ao Cel. José
Antônio da Silva Costa, da firma Peixoto & Cia. Tinha que dali seguir para
Água Branca, onde encontraria com o Cel. Ulisses Luna, senador e
prestigioso chefe da política alagoana. Este lhe daria a prometida ajuda e
proteção.200
A relação de Delmiro com os coronéis locais se ampliou ao longo dos 15 anos em
que residiu no sertão de Alagoas. O cel. Ulisses Luna, de Água Branca; o cel. Manoel
Rodrigues da Rocha, de Santana do Ipanema; os filhos da baronesa de Água Branca: dr.
Miguel Torres, Luiz Torres e Antônio Torres; cel. José Rodrigues Lima (que depois se
tornaria seu desafeto sendo inclusive apontado como um dos mandantes do seu assassinato),
cel. Aureliano Menezes, de Jatobá (PE), todo esses fizeram parte do ciclo de amizade de
Delmiro depois que ele se instalou no sertão alagoano. Não resta dúvida de que Delmiro
Gouveia foi um coronel importante, ―uma espécie de elemento socioeconômico
polarizador‖.201
Era reconhecido entre os seus pares como alguém com ―a capacidade de fazer
favores‖,202 essa capacidade evidenciada no cel. Delmiro Gouveia derivava da sua riqueza.
Para Maria Isaura P. de Queiroz, no seu ensaio clássico, o que fundamentava a estrutura
coronelística era a posse de bens de fortuna. A autora argumenta que
na estrutura coronelística, somente indivíduos bem aquinhoados de fortuna
herdada ou adquirida tinham possibilidades de fazer favores e granjear
clientela [...] A fortuna era a base real de todo este edifício, fosse ela oriunda
simplesmente do comércio de mercadorias de qualquer tipo ou proviesse de
199
Jornal Pequeno, 1904, p. 2.
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 69. Grifos nossos.
201
PEREIRA DE QUEIROZ, Maria Isaura. ―O Coronelismo numa interpretação sociológica.‖ CARDOSO,
Fernando Henrique, et al. O Brasil republicano, v. 8: estrutura de poder e economia (1889-1930). Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, p. 173.
202
PORTO apud QUEIROZ, p. 196.
200
71
grandes plantações, criação de gado ou lavras variadas. A fortuna abria todas
as portas.203
O coronel Delmiro Gouveia é citado por Queiroz, como o exemplo, mais elucidativo
do indivíduo que fez parte do coronelismo devido somente ao seu poderio econômico. O
coronelismo é um fenômeno historicamente datado, sem existência antes e nem depois da
Primeira República. Na definição do historiador José Murilo de Carvalho, ―o coronelismo é
um sistema político, uma complexa rede de relações que vai desde o coronel até o presidente
da República, envolvendo compromissos recíprocos‖.204 Para o autor, o coronelismo tratou-se
de um sistema político nacional, baseado em barganhas entre o governo e os coronéis.
Em Alagoas, o cel. Delmiro Gouveia foi provavelmente o indivíduo que obteve mais
vantagens econômicas com essa política de barganha entre os coronéis e os governadores. A
primeira dessas foi aquisição do imposto de exportação de peles miúdas através de contratos
com o Estado, inicialmente firmado com a empresa Iona & Krause, sociedade constituída em
Pernambuco, da qual Delmiro era apenas ―árbitro‖, mas que, com a mudança do comerciante
para Alagoas, essa instalou sua sede no bairro de Jaraguá na capital alagoana. Segundo o
relatório, de março de 1907, do Secretário dos Negócios da Fazenda do Estado de Alagoas,
Francisco Pontes de Miranda, o contrato com a firma Iona & Krause foi positivo no que diz
respeito à arrecadação estadual.205
Essa regalia quanto aos impostos de exportação de peles continuou após a dissolução
da Iona & Krause. Esse privilégio ficou para a firma Iona & Cia., sociedade constituída em
dezesseis de março de 1907, por Leonello Iona e Delmiro Gouveia. 206 Em 1916, o funcionário
da Recebedoria Central do Estado, Bonifácio M. Silveira informou a Secretaria da Fazenda
203
PEREIRA DE QUEIROZ, Maria Isaura. ―O Coronelismo numa interpretação sociológica.‖ CARDOSO,
Fernando Henrique, et al. O Brasil republicano, v. 8: estrutura de poder e economia (1889-1930). Rio de
Janeiro: Bertrand Brasil, 2006, p. 197.
204
CARVALHO, José Murilo de. “Mandonismo, Coronelismo, Clientelismo: Uma DiscussãoConceitual.”
Dados 40.2 (1997): p. 1.
205
A diferença para mais de Rs. 1:521$237 sobre a exportação de peles miúdas provem do contrato que o Estado
fez com a firma lona & Krausé (sic) para a cobrança deste tributo pela quantia anual de Rs. 15:000$000. Este
contrato terminou em 31 de Dezembro do ano passado. ESTADO DE ALAGOAS. Relatório apresentado ao
Exmo. Sr. Bacharel Euclides Vieira Malta, Governador do Estado de Alagoas, pelo Secretário dos Negócios da
Fazenda, Dr. Francisco Pontes de Miranda, no dia 30 de março de 1907. Maceió: Typografia e Papelaria de
Tavares Irmão & Cia., 1907, p. 25.
206
O contrato de constituição da Iona & Cia foi registrado na Junta Comercial de Alagoas, em 4 de maio de
1907. Ver. ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 151.
72
que, ―em virtude do contrato assinado pela firma Iona & Cia., perante essa Secretaria, a 12
de julho de 1910, nada posso adiantar relativamente ao imposto sobre peles miúdas”.207
A Iona & Cia., firma cuja finalidade era ―comprar e vender de conta própria gêneros
de produção do país‖,208 se tornou uma das prosperas firmas do comércio de Alagoas.
Ocupava-se principalmente da exportação de peles de cabra, carneiro e couros de boi feitos
pelo porto de Jaraguá, ―ponte de entrada do capitalismo”209 em Alagoas. Para isso organizou
um sistema no qual contava com compradores em quase todas as localidades dos sertões do
Nordeste, além disso, possuía agentes e filiais nas capitais e principais cidades nordestinas.210
Adolpho Santos, que a partir de 1908 ocorreu de ir residir na vila da Pedra, onde passou a
trabalhar de contador nos escritórios de Delmiro, descreve que:
As compras peles se estendiam por uma vastíssima zona de operações, que
abrangiam o interior de Pernambuco até as fronteiras da Paraíba e Ceará,
inclusive, ao norte; Sergipe e Bahia, ao sul, e mais o Estado de Alagoas.
Havia a labuta constante dos comboios e mais comboios animais a sair e a
entrar, quase diariamente, e que faziam o transporte da mercadoria das
agências esparsas para o ponto concêntrico destes raios de ação, a Pedra. [...]
Para o serviço de transporte, a organização da Pedra possuía uma tropa
composta de mais de duzentos burros, fortes, bem tratados, e o respectivo
corpo de almocreves, sendo, além disso, utilizados diversos comboios à
frente.211
Na vila da Pedra, as peles eram todas reunidas nos armazéns onde eram beneficiadas,
imunizadas e classificadas, de acordo com os parâmetros dos curtumes estrangeiros. 212 Depois
desse processo a mercadoria era embalada em fardos, e transportadas de trem até Piranhas, de
207
ESTADO DE ALAGOAS. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado de Alagoas, no dia 15
de abril de 1916, pelo Governador do Estado, Dr. João Batista Accioly Junior. Maceió: Typ. A Vapor da Casa
Ramalho, 1916, p. (87) 121.
208
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 150.
209
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Trabalhadores, identidade de classe e socialismo: os gráficos de
Maceió (1895-1905). Maceió: EDUFAL, 2009, p. 50.
210
MARROQUIM, Adalberto Afonso. Terra das Alagoas. Roma: Editori Maglione & Strini. Succ E Loescher,
1922, p. 130/131.
211
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.‖ Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994), pp. 29 e 30.
212
Em janeiro de 1967, o cineasta Geraldo Sarno pesquisando para elaboração do roteiro do filme: Coronel
Delmiro Gouveia, colheu alguns depoimentos de pessoas contemporâneas de Delmiro na vila da Pedra [esses
depoimentos só foram publicados no ano de 2006]. Um senhor que na época da entrevista contava com 67 anos,
conhecido como Pedro Campina, diz ter trabalhado no tratamento de peles nos armazéns da Pedra, e descreve
com se dava o processo: ―Eu trabalhei no armazém de peles e trabalhei na espicha. A pele era espichada [...]
depois dela espichada, quando ela tava enxuta, se arrancava ela, botava no sol. Ela vinha com aquela terra no
cabelo. Se pegava aquela pele, se botava no sol e se passava uma escova, escova de raiz, uma raiz de um mato
que eles faziam uma corda. Passava bem polido, tirava toda terra, tirava todo sal, quando acabar dobrava‖.
SARNO, Geraldo. Cadernos do sertão. Salvador: Núcleo de Cinema e Audiovisual, NAU, 2006, p. 61.
73
onde seguiam pelo rio São Francisco até o Atlântico, e deste até o porto de Jaraguá, 213 de onde
eram exportadas para a Europa e os Estados Unidos. 214
Obteve Delmiro Gouveia junto ao Governo de Alagoas, os direitos sobre exportação
de peles, através de hasta pública, pagando-lhe um valor fixo anualmente. De certa forma, o
fisco alagoano não era lesado com a prática, pois recebia pelas exportações, os prejudicados
de fato eram os estados vizinhos cuja produção de peles evadia de suas divisas sem que fosse
tributada. Não é por acaso, que de vez em quando se noticiava nos jornais apreensões de
contrabando de peles pertencentes ao coronel Delmiro Gouveia. 215 É provável que também
tenha sido em função do comércio de couros e peles miúdas, que Delmiro tenha escolhido
residir na pequena vila da Pedra.
A vila da Pedra (sede do município de Delmiro Gouveia) era desde o final do século
XIX um entreposto comercial para os negociantes dos sertões de Alagoas, Pernambuco e
Bahia. É o que nos diz Moreno Brandão, no jornal Correio Paulistano, ao noticiar sobre a
morte do seu fundador,
Faleceu recentemente nesta capital, o coronel Manuel Francisco Corrêa
Telles, que contava com 85 anos de idade.
Nos tempos áureos de sua mocidade, o coronel Corrêa Telles fundou a
localidade denominada Pedra, por onde, posteriormente, passaram os trilhos
da Estrada de Ferro de Paulo Afonso e onde se estabeleceu uma estação da
mesma via acelerada.
Apesar da aridez de uma localidade de nome tão expressivo e simbólico,
ela foi sempre um centro de convergência de pessoas, que, trazendo de
remota hinterlandia produtos da lavoura ou da indústria pastoril,
demandavam terrea (sic) obscura para dali seguirem de trem de ferro para as
margens do S. Francisco.
Vindos de pontos adjacentes às duas margens do mediterrâneo brasileiro,
por ali passavam nos comboios da E. F. Paulo Afonso muitos
negociantes, que destinavam se ao alto sertão de Alagoas, de
Pernambuco e da Bahia.
213
O serviço puramente financeiro e o bancário de vendas cambiais, os faturamentos em moeda estrangeira, e a
centralização dos serviços contábeis do negócio, se processavam no escritório central da firma Iona & Cia., em
Jaraguá; inclusive os que eram concernentes às filiais de Paraíba e Ceará, que prosperavam, também. Cf.
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994), p. 30.
214
O jornal alagoano Gutenberg, na sua seção comercial, publicou entre 1907 e 1909, a informação de diversos
despachos de caroço de algodão, mamonas, couros salgados, peles de cabras e de carneiros, realizados pela firma
Iona & Cia., para Liverpool, Nova York, Hamburgo.
215
Ver O Paíz, 25 de agosto (p. 4) e 28 de setembro de 1909, p. 5; Jornal Pequeno, 03 de setembro (p. 3) e 28 de
outubro de 1909, p. 2.
74
Apesar desse transito incessante, a Pedra teve uma existência muito
retardatária até o momento em que ali chegou o industrial Delmiro Gouveia
com o propósito de criar indústrias adaptadas ao meio e para as quais ele
deveria utilizar o potencial de que Alagoas tire tão grande orgulho.
Delmiro modificou tudo ali.216
A vila da Pedra, mesmo antes da chegada de Delmiro, já era um ponto de confluência
para os comerciantes dos sertões de Alagoas, Pernambuco e Bahia. Delmiro Gouveia com sua
visão capitalista aguçada enxergou as potencialidades do vilarejo e nele se instalou,
ampliando o tráfego comercial (principalmente o de couros e peles) que já existia, e
posteriormente, com o auxílio do Estado, implantará a famosa Fábrica de Linhas da Pedra e o
seu núcleo fabril (sobre a Fábrica e o núcleo veremos mais adiante).
Segundo o biógrafo Olympio de Menezes teria sido na vila da Pedra, transformada
no centro das suas atividades, que Delmiro Gouveia viveu a fase mais ousada e construtiva de
sua vida.217 Lá comprou várias propriedades rurais,218 além disso, o Governo Estadual
concedeu a firma Iona & Cia., terras devolutas localizadas no Munícipio de Água Branca. 219
Em Alagoas, Delmiro Gouveia obteve todas as condições favoráveis para continuar
com suas atividades agroexportadoras,220 com as quais acumulou capital, principalmente com
o monopólio do comércio de couros e peles.221
No início da segunda década do século XX, Delmiro Gouveia resolveu empregar
parte do seu capital, até então de natureza mercantil, no setor industrial. Para tanto, continuou
obtendo privilégios da classe política alagoana.
216
BRANDÃO, Moreno. O fundador obscuro de uma localidade futurosa. Correio Paulistano, 02 de maio de
1930, p. 2. Grifos nossos.
217
MENEZES, Olympio de. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife: Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas
Sociais, 1963, p. 128.
218
Em outubro de 1908, Delmiro solicitou do Cartório de Paulo Afonso [atual Mata Grande] uma relação das
suas propriedades registrada naquele cartório. Após reportar aos livros, o Tabelião Público, Manoel Benedito
Gonçalves Torres, elaborou uma relação com 22 propriedades em nome do suplicante. Cf. ROCHA, Tadeu.
Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, p. 148; Ver também o Diário Oficial de
Alagoas, 23 dezembro de 1939, p. 8 e 9.
219
DECRETO nº 499, de 29 de setembro 1910. Coleção de Leis e Decretos do Estado de Alagoas promulgados
em 1910. Maceió: Typ. Vapor do livro comercial, 1913.
220
Sobre essa questão, ver PRADO JÚNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. 43ª. São Paulo: Brasiliense,
2012, especialmente o capítulo A República Burguesa (1889-1930).
221
Entre 1901 e 1918, a participação (em %) de couros e peles no total da receita das exportações brasileiras
sempre esteve acima de 4,2%, inclusive no mesmo período suas cifras foram superiores ao açúcar e ao algodão.
Cf. SILVA apud SINGER, p. 387.
75
2.5 A relação entre Delmiro Gouveia e a oligarquia Malta: as concessões por decretos
A partir de 1910, Delmiro Gouveia acena sua intenção em realizar investimentos no
ramo da agroindustrial. Isso o levou a estabelecer uma nova relação com a oligarquia Malta,
representada novamente pelo governador Euclides Malta, no seu terceiro mandato. Num
intervalo menor que um ano, o Governador Euclides Malta baixou três decretos, nos quais faz
importantes concessões à firma Iona & Cia., fundamentais para implantação dos projetos
industriais, ou melhor, agroindustriais do coronel Delmiro Gouveia. Vejamos abaixo o teor de
cada um deles:
DECRETO DE Nº 499, de 29 de Setembro de 1910
Concede a Iona & Cia. ou empresa que organizarem, as terras devolutas
situadas entre os lugares denominados <Vai e Vem> <Fazenda do Burnil>,
<Riacho do Talhado> e <Burraco>, no município de Água Branca, afim de
serem aproveitadas no cultivo de algodão, cereais e forragens por meio de
serviços de irrigação montados pelos sistemas mais aperfeiçoados, e isenta
dos impostos municipais e estaduais os maquinismos e materiais importados,
e concede uma bonificação [40% nos direitos estaduais sobre exportação]
aos produtos agrícolas obtidos nas mesmas terras. 222
O governador Euclides Malta justificou a doação das terras públicas do sertão do
Estado para a empresa de Delmiro dizendo que essas terras estavam localizadas nas zonas
estéreis do Estado, se encontravam em condições precárias de uso, além disso, a concessão
também visava proteger as populações ali existentes dos efeitos das secas. Os concessionários
deveriam estabelecer de 18 em 18 quilômetros nos terrenos beneficiados, chafarizes para o
abastecimento gratuito de água potável as populações circunvizinhas, para o uso doméstico. 223
Provavelmente pensando mais uma vez na população, que poderiam pegar água para
uso doméstico nos chafarizes da empresa concessionada, o Governo do Estado se
comprometeu a solicitar do Governo Federal isenção de impostos sobre o material importado
para implantação de um sistema de irrigação. A população até então desprotegida poderia se
sentir segura, pois as obrigações do contrato vigorarariam por quarenta anos.224
222
DECRETO DE Nº 499, 29 de setembro 1910. Coleção de Leis e Decretos do Estado de Alagoas
promulgados em 1910. Maceió: Typ. Vapor do livro comercial, 1913, p. 97.
223
IDEM, 97/98.
224
IDEM, 98.
76
Não passou nem dois meses a Iona & Cia. foi congratulada com mais uma concessão
por decreto. O Decreto nº 503, de 30 de Novembro de 1910,
Concede aos srs. Iona & Cia., ou empresa que organizarem, a isenção, por
dez anos, de impostos estaduais para importação dos maquinismos
necessários a fundação de uma fábrica destinada à confecção de redes, linhas
simples ou em carretel ou novelos que pretendem montar neste Estado, bem
como os de exportação dos produtos da mesma fábrica a contar da data de
sua instalação. 225
Esse dois decretos se tornaram lei após o Congresso Legislativo do Estado deliberar
os 27 decretos do Governador Euclides Malta baixados entre junho de 1910 a abril de 1911.
Todos os atos foram reunidos e aprovados na Lei nº 633, de 09 de junho de 1911. 226 Do total
de vinte sete decretos aprovados, onze se tratavam de concessões à iniciativa privada, na
maioria desses não havia o detalhamento da concessão, identificadas apenas como ―diversos
favores”. Contudo, as duas concessões feitas a Iona & Cia., foram bem pormenorizadas.
Poucos mais de um mês após os primeiros decretos se transformarem em lei, a
empresa do comerciante/coronel Delmiro Gouveia foi contemplada com mais um benefício do
Governo do Estado de Alagoas, através do Decreto nº 520, de agosto de 1911, que no seu
artigo primeiro, decreta:
Fica concedido a Iona & Cia., ou empresa que organizarem o direito de se
utilizarem, pelo espaço de noventa (90) anos, da força hidráulica produzida
em terrenos de sua propriedade situados nos municípios de Água Branca e
Piranhas, deste Estado, para transformarem-na em energia elétrica que
poderão conduzir em fios ou cabos de alta e baixa tensão, para qualquer
parte do território alagoano, aproveitando-a em todas as indústrias e
fornecendo-a como força motora a todas as fábricas existentes e as que
possam de futuro ser montadas quer nesta Capital, quer na zona do S.
Francisco ou em outra qualquer do Estado [...] Os concessionários poderão
estender os fios ou cabos condutores de eletricidade por quaisquer terrenos
de propriedade do Estado ou de particulares, construir casas para estação de
transformadores à margem da faixa de terra em que passarem as mesmas
para o que gozarão do direito de desapropriação por utilidade publica. 227
225
DECRETO DE Nº 503, 30 de novembro de 1910. Coleção de Leis e Decretos do Estado de Alagoas
promulgados em 1910. Maceió: Typ. Vapor do livro comercial, 1913, p. 127.
226
LEI nº 633, de 09 de junho de 1911. Coleção de Leis e Decretos do Estado de Alagoas promulgados em
1911. Maceió: Typ. Vapor do livro comercial, 1913.
227
DECRETO DE Nº 520, 12 de agosto de 1911. Coleção de Leis e Decretos do Estado de Alagoas
promulgados em 1910. Maceió: Typ. Vapor do livro comercial, 1913, p. 82.
77
Para o governador de Alagoas, Euclides Vieira Malta, o aproveitamento da força
hidráulica na geração de eletricidade nos municípios de Água Branca e Piranhas iriam
concorrer para o desenvolvimento material do Estado. Segundo o Governador a exploração de
energia elétrica naqueles municípios seria fácil, consequentemente a empresa responsável pela
exploração poderia repassar energia a preços mais módicos para as indústrias, e também
estimularia a implantação de novas indústrias. 228
Além da justificativa de que a utilização da energia elétrica contribuiria para o
desenvolvimento industrial, havia outra de caráter mais ecológico, para o governador Euclides
Malta,
o fornecimento de madeiras extraídas das matas para combustível das
máquinas movidas a vapor tem concorrido para o empobrecimento das
nossas riquezas florestais, produzindo a escassez dos elementos vegetais
protetores do solo e mais danosas modificações atmosféricas com as grandes
estiagens nas zonas já desprovidas da proteção das matas.
Considerando que a exploração da força hidráulica, geradora de força motriz
elétrica, substitui economicamente o combustível vegetal e concorre para
evitar as devastações florestais tão prejudiciais à regularidade das nossas
estações.229
No referido decreto de 12 de agosto 1911, o Governo do Estado se obrigaria a dar
aos concessionários a isenção de todos os direitos estaduais e municipais relativos a presente
concessão e obrigava-se a encaminhar os pedidos de isenção dos impostos federais sobre a
importação dos mesmos materiais.230
A análise dessas concessões é primordial para se compreender a relação entre o
Estado e o industrial Delmiro Gouveia, cuja historiografia comprometida com os interesses
liberais burgueses nega existir. De maneira, que prevalece o discurso da doutrina do Estado
liberal/abstencionista apregoada pelos os ideólogos do capitalismo, segundo a qual o Estado
não devia intervir no campo econômico. Embora, essa tese sempre foi contestada pela a
concepção marxista, a qual afirma que, o Estado representativo moderno terá no seu governo
nada mais que um comitê que administra os negócios comuns à classe burguesa. 231
Entre as concessões angariadas pela firma de Delmiro, a da Cachoeira de Paulo
Afonso, para fins de geração de energia elétrica foi a mais polêmica, objeto de discussão
228
IDEM.
IBIDEM.
230
IBIDEM.
231
MARX, Karl e Friedrich ENGELS. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Escala, 2009, p. 56.
229
78
inclusive na câmara federal.232 Em Alagoas se travou um verdadeiro duelo entre os jornais; A
Tribuna e o Jornal de Alagoas, esse último contou com o apoio da imprensa carioca,233 no
debate sobre a constitucionalidade do ato do governador Euclides Malta. 234 Apesar das
contestações, a Iona & Cia. assegurou a concessão.
Conforme relatam seus biógrafos, Delmiro Gouveia objetivava gerar energia elétrica
e fornecer a todo Nordeste a partir das quedas d‘água da Cachoeira de Paulo Afonso, para
execução desse projeto contaria com a participação do capital estrangeiro. Antes mesmo de
adquirir a concessão, Delmiro já negociava com um grupo de investidores norte-americanos
que visitaram a vila da Pedra, a Cachoeira de Paulo Afonso e as regiões adjacentes entre
1909/10.235 Adolpho Santos afirma que a visita merece destaque, pois alterou os hábitos dos
pedrenses, segundo o autor o importante acontecimento se tratou da
Chegada de um grupo de cidadãos americanos, se bem me lembro vindos de
Washington, que organizado de engenheiros, cientistas e, o chefe, um
milionário à porfia de negócios fabulosos ao modo pelo qual eles se fazem
na sua nação. Não é possível, nem mesmo necessário, nomear todos; porém,
para não fugir a minudências, declino o nome do homem de negócios – Mr.
Moore, e outro membro da ilustre comitiva – engenheiro Stewart, que foi o
último a regressar e era boníssimo camarada. Este engenheiro percorreu toda
a zona ribeirinha do rio São Francisco, a partir de Piranhas a Jatobá,
visitando ambas as margens da caudal e muitas vezes se internando algumas
léguas pelo sertão a fim de estudar e tomar apontamentos em relação a tudo
que interessava no vale sanfranciscano. Com ele andavam, conduzindo
instrumentos portáteis de precisão, alguns caboclos destemidos e
conhecedores da região. Feita essa viagem de exploração científica, voltou a
Pedra de onde regressou para os Estados Unidos.
[...] No dia imediato à chegada, e já tendo visitado as cataratas da Paulo
Afonso, formou-se a mesa redonda na casa de Delmiro com ele os da
comitiva, servindo de intérprete na conversação um engenheiro brasileiro.
232
Ver A Tribuna, 23 de Agosto de 1911, p. 3.
A proposito da concessão da Cachoeira de Paulo Afonso, ultimamente feita pelo governo de Alagoas. A
Tribuna, brilhante vespertino carioca, publicou em sua edição do corrente o seguinte editorial: O correspondente
telegráfico do Jornal do ―Commercio em Maceió‖ transmitiu a notícia de uma concessão feita pelo governo a
uma firma particular, a qual encheu de pasmo e admiração a todo mundo, não só pela monstruosidade do seu
lado moral, como pela audácia com que atenta para o patrimônio da União [...] Foi ela arrendada à firma Iona &
C., sem existência legal e objetiva, segundo a opinião do ―Correio da Manhã‖, porque é uma firma fantástica e
sem idoneidade alguma; uma firma de cavação, moldada no gênero as Societé Franco-Brésiliene. Jornal de
Alagoas, 01 de setembro de 1911, p. 1.
234
A Tribuna, jornal apoiador do Governo de Euclides Malta, em seus artigos defendia a legalidade do ato,
enquanto o Jornal de Alagoas, órgão oposicionista, acusava que a concessão da Cachoeira de Paulo Afonso era
inconstitucional, o principal argumento era de que o rio S. Francisco por percorrer vários estados era de
incumbência da União essa decisão. Em ambos periódicos, renomados juristas brasileiros publicaram seus
pareceres sobre a questão.
235
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 73. Ver também MENEZES, Olympio de. Itinerário de Delmiro Gouveia. Recife: Instituto
Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1963, pp. 129 e 130.
233
79
Essa conferência durou toda a manhã; depois do almoço, as conversações
continuaram no escritório até quase à noite.
Muitas particularidades da conferencia ficaram em sigilo e delas jamais
pude ter conhecimento; eram segredos profissionais e não foi possível
devassa-los. Mesmo porque Delmiro também concordava que ‗o segredo é a
alma do negócio‘.
De qualquer forma, cheguei a saber que se tratava da fundação de uma
poderosíssima empresa, a se construir com capitais americanos e
brasileiros, para empreender o aproveitamento e a exploração do vale
do rio São Francisco, - a industrialização da energia hidroelétrica da
Cachoeira de Paulo Afonso e um vasto plano agrícola industrial
conexo.236
Para que a parceria entre o capital internacional e a firma de Delmiro Gouveia
efetivamente se concretizasse, o rei das peles deveria obter dos governos de Alagoas, Bahia e
Pernambuco as condições legais, ou seja, as concessões, privilégios, isenções, essas eram a
condições para vinda do capital americano.237 Em menos de dois anos, através da Iona & Cia.,
Delmiro obteve do governo de Euclides Malta todas as concessões, privilégios e isenções
acordadas, como vimos analisando todas via decreto. Como num jogo de xadrez os ―lances‖
foram paulatinamente armados no tabuleiro, após a concessão da Cachoeira de Paulo Afonso
tudo se encaminhava para o xeque mate, mas esse não aconteceu, melhor dizendo, a parceria
com os americanos não vingou.
Alega-se que os americanos recuaram porque o governador de Pernambuco, general
Dantas Barreto, eleito em 1911, após mais uma década de dominação da oligarquia rosista,
recusou-se a conceder licença para instalação de uma rede elétrica em solo pernambucano, 238
a qual ligaria cachoeira de Paulo Afonso ao Recife. Segundo Francisco Magalhães Martins,
em audiência que teve com Dantas Barreto, Delmiro ouviu: ‗O negócio que o sr. propõe é tão
vantajoso para o Estado que deve envolver alguma velhacaria!‘. 239 Embora a tese de que os
236
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994), pp.32/33. Grifos nossos.
237
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 74.
238
Essa é a versão mais aceita em entre os estudiosos da vida de Delmiro Gouveia, ver, por exemplo; SANTOS
(1994), ROCHA (1963), MENEZES (1963), MARTINS (1963), MELLO (1998), MAYNARD (2005), SILVA
(2007), entre outros.
239
BARRETO apud MARTINS, 1963, p. 75.
80
gringos tenham se retirado após a negativa do general Dantas Barreto seja a mais aceita,
pesquisas mais recentes apresentam outras interpretações.240
A recusa do Governador pernambucano e o recuo dos capitalistas estadunidenses ao
projeto de eletrificação do Nordeste proposto por Delmiro devem ser analisados dentro de um
contexto político específico: o movimento salvacionista.241
As ‗salvações‘ foram movimentos políticos que se estenderam por vários Estados do
país, principalmente nos do Nordeste e Norte, entre os anos de 1910 e 1912, durante a
presidência do general Hermes da Fonseca (1910-1914). Os movimentos desencadearam a
derrubada das oligarquias situacionista e a ascensão de grupos oposicionistas em muitos
estados, no Nordeste a onda salvacionista caracterizou-se ―por seu aspecto urbano e pela
violência presente nos conflitos de ruas envolvendo populares, Exército e elementos da
Polícia Civil‖.242 Entre a segunda metade de 1911 e o primeiro semestre de 1912, as cidades
de Recife,243 Maceió244 e Salvador245 foram palco de violentas manifestações.
Acreditamos que a instabilidade política, principalmente nas capitais nordestinas,
tenha sido o real motivo para os investidores yankes não firmarem contrato com o
capitalista/coronel Delmiro Gouveia para gerar e comercializar eletricidade a partir da
Cachoeira de Paulo Afonso. Após o recuo do capital estrangeiro, Delmiro redefiniu seus
projetos, de modo que, as concessões que já havia angariado do Governo de Alagoas pudesse
ser exploradas economicamente, principiando pela última que lhe foi concedida, através
decreto nº 520 de agosto de 1911.
Decidiu o capitalista cearense aproveitar a força das águas da cachoeira de Paulo
Afonso, num empreendimento mais modesto, uma pequena usina hidrelétrica para fornecer
luz e força a uma fábrica têxtil que iria implantar em pleno o sertão alagoano.
240
Nesse
Sobre essa questão ver SILVA, Davi Roberto Bandeira da. ―A Usina de Angiquinho - o legado de
empreendimento pioneiro.‖ DIÓGENES, Eliseu, Sérgio ALVES e Davi Roberto Bandeira da SILVA. Delmiro
Gouveia entre o mito e a realidade: seus empreendimentos e sua contextualidade no tempo e no espaço.
Maceió: EDUFAL, 2014. (217-294), pp. 243-245.
241
PEREIRA, Flávia Borges. Salvações no Nordeste: Política e Participação Popular. Cotia: Ateliê Editorial,
2011.
242
IDEM, p. 31.
243
IDEM, pp. 45-51.
244
TENÓRIO, Douglas Apratto. Metamoforses das oligarquias. Maceió: EDUFAL, 2009. Ver especialmente,
o capítulo: A queda dos Malta e o quebra-quebra dos terreiros.
245
BACELAR, Jonildo. Bombardeio de Salvador em 1912. 14 de janeiro de 2015. 30 de 03 de 2015
<http://www.historia-brasil.com/bahia/bombardeio-salvador.htm>.
81
momento Delmiro parece ignorar a iminente queda do oligarca Euclides Malta, 246 aliado
histórico do capitalista/coronel, e por intermédio da firma Iona & Cia., solicita de empresas
europeias os projetos, das quais compra os materiais para construção da usina e a montagem
da fábrica, para isso vai pessoalmente a Europa.247
Entre o planejamento e o início das realizações decorreram poucos meses, a usina
hidrelétrica conhecida como Angiquinho, cuja potência era de 1.500 hp (horse power),
começou a operar em 26 de janeiro de 1913. E a fábrica têxtil foi inaugurada em 6 de junho
de 1914.248 A essa época a oligarquia Malta já havia caído. Contudo, o então industrial
Delmiro Gouveia continuava obtendo privilégios dos governantes do Estado de Alagoas.
O decreto de número 716, de 4 julho de 1914, em que o governador do Estado de
Alagoas:
Torna extensivo os favores (sic) de que trata o art. 1º do Decreto n. 503, de
30 de Novembro de 1910, à importação de algodão de superior qualidade e
outros artigos de matéria prima que não tenham similares no Estado para a
manufatura de linhas de carretel da Fábrica de linhas pertencente à
Companhia Agro Fabril Mercantil, representada pelos Srs. Iona & Cia. 249
Apenas alguns meses depois, o governador baixa o decreto de número 737, de 10 de
dezembro de 1914, pelo qual:
Concede um auxílio de cinquenta contos de réis (50:000$000) à firma Iona
& Cia, negociantes industriais neste Estado, pelo serviço executado mesmos
na construção de uma estrada de rodagem com cinquenta e seis (56) léguas
de extensão entre os municípios de Vitória e Água Branca. 250
Ambos os decretos foram aprovados pelo congresso estadual e se tornaram leis, vale
ressaltar que esses foram baixados pelo governador Clodoaldo da Fonseca, eleito com a
promessa de salvar o Estado de Alagoas das mãos da oligarquia maltina. O fato é que as
246
TENÓRIO, Douglas Apratto. Metamoforses das oligarquias. Maceió: EDUFAL, 2009. Ver especialmente,
o capítulo: A queda dos Malta e o quebra-quebra dos terreiros.
247
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963, pp. 104/105.
248
A Fábrica da Pedra, assim como, o funcionamento do núcleo fabril construído ao seu entorno, serão
analisados mais adiante, no próximo capítulo.
249
DECRETO N. 716, de 4 de julho de 1914. Coleção de Leis e Decretos do Estado de Alagoas promulgados
em 1914. Maceió: Typ. A Vapor da Casa Ramalho, 1920, p. 27.
250
DECRETO N. 737, de 10 de dezembro de 1914. Coleção de Leis e Decretos do Estado de Alagoas
promulgados em 1914. Maceió: Typ. A Vapor da Casa Ramalho, 1920, p. 47.
82
oligarquias se metamorfoseiam, mas seu DNA permanece, garantindo os interesses da classe
dominante conservados.
Enfim, o comerciante, o coronel e o industrial Delmiro Gouveia tanto em
Pernambuco como em Alagoas obteve vários benefícios políticos, esses foram fundamentais
para seus empreendimentos capitalistas. Subvenções fiscais, concessões públicas, auxílio
financeiro, entre outros. No próximo capítulo analisaremos o funcionamento da Fábrica de
Linhas da Pedra juntamente com o núcleo fabril instalado para abrigar os trabalhadores desta.
83
3 A FÁBRICA DA PEDRA E O COTIDIANO OPERÁRIO NO SEU NÚCLEO
Neste capítulo analisaremos o funcionamento da Fábrica de Linhas da Pedra e o seu
núcleo fabril, esse último apresentado por alguns entusiastas contemporâneos como exemplo
―modelar de civilização‖. Ao longo dos anos criou-se e propagou-se a ideia do núcleo fabril
da Pedra como uma sociedade harmônica, voltada exclusivamente para o trabalho, ou seja,
nega-se a contradição entre capital e trabalho. Embora, a existência de normas rígidas dentro e
fora da fábrica, assim como o uso de multas, proibições e castigos físicos revelem que a
experiência industrial da Pedra não foi assim tão idílica com muitos a apresentam.
Exploraremos uma série de questões relacionadas à experiência industrial na Pedra,
empregaremos a abordagem historiográfica cujos conceitos e categorias sãos os mais
apropriados para desnudar os aspectos contraditórios do modo de produção capitalista: o
Materialismo Histórico.251 A nossa análise concentra-se nos primeiros três anos de
funcionamento do complexo industrial, período em que esteve sob a administração direta do
seu fundador.
Para tanto, é imprescindível que aprofundemos alguns aspectos, tais como, qual a
procedência da força de trabalho (mão de obra operária) utilizada na Fábrica da Pedra? Como
esse se compunha segundo os critérios de sexos e idade? Como era a rotina desses operários
dentro da fábrica? E fora, dela o que faziam os operários? Houve emprego de outros
instrumentos afora as máquinas para adaptação/assimilação dos trabalhadores ao labor fabril?
3.1 A Fábrica da Pedra e o Núcleo Fabril através dos relatos de seus contemporâneos
Inaugurada em 6 de junho de 1914, a Fábrica de Linhas da Pedra é, segundo Philip
Gunn252 um dos mais conhecidos estabelecimentos industriais brasileiros. A famosa
fábrica,253 e o seu núcleo fabril foram montados num lugarejo do sertão alagoano denominado
251
BARROS, José D'Assunção. Teoria da História: Os paradigmas revolucionários. 2ª. Vol. III. Petropólis:
Vozes, 2011, pp. 15-154.
252
GUNN, Philip e Telma de Barros CORREIA. “A industrialização brasileira e a dimensão geográfica dos
estabelecimentos industriais.” R. B. Estudos urbanos e regionais 7.1 (2005): 17-53, (p. 22).
253
ANDRADE, Manuel Correia de. O Nordeste e a questão regional. São Paulo: Ática S.A, 1988. p. 35.
84
de vila da Pedra,254 na época pertencente ao município de Água Branca. O seu fundador, o
capitalista Delmiro Gouveia, é reconhecido com um dos pioneiros da industrialização no
Brasil, ao lado de nomes como, Luiz Tarquínio, Herman Lundgren, Francisco Matarazzo,
Jorge Street, Robert Simonsen, é também considerado um dos mais importantes
empreendedores brasileiros no século XX.255 Os empreendimentos industriais na vila da Pedra
atraíram muitos visitantes ―ilustres‖ desde os primeiros anos de atividade.
Entre os visitantes havia médicos, políticos, engenheiros, religiosos, jornalistas e
intelectuais vindos de várias localidades do País. Esses visitantes através da imprensa (escrita)
foram os primeiros a difundirem uma apreciação laudatória sobre o complexo fabril da Pedra.
Segundo Telma de Correia:
A imagem de Pedra, construída por observadores letrados da época,
subvertia tudo o que costumava ser associado ao Sertão. Com escolas, seus
operários limpos e bem vestidos, o aspecto asseado de suas ruas e
habitações, a luz elétrica, as formas regradas e modernas de lazer e uma vida
para o trabalho, Pedra surgia como expressão inequívoca de progresso.256
A ideia predominante entre esses visitantes era de que através das iniciativas do
coronel Delmiro Gouveia, no sertão de Alagoas, localizado a centenas de quilômetros do
litoral, florescia um núcleo onde toda gente pensava em trabalhar e produzir.257 Para Oliveira
Lima, que visitou a vila da Pedra em 1917, o núcleo da Pedra era um exemplo modelar de
organização social, ―um ambiente de paz, trabalho e progresso‖.258 No conceito [ou
preconceito mesmo] que se tinha do sertão, fundamentado principalmente na leitura dos
Sertões de Euclides da Cunha,259 predominava a representação de um espaço de natureza
agressiva e delirante. Mas, a ―Pedra de Delmiro‖ era um contraponto, uma prova cabal de que
era possível ―civilizar‖ os interiores do País.260
254
A vila da Pedra ficava localizada onde atualmente está a sede do município de Delmiro Gouveia. Ver LIMA
JÚNIOR, Félix. Delmiro Gouveia: o Mauá do Sertão alagoano. Maceió: Departamento Estadual de Cultura /
Federação do Comércio do Estado de Alagoas (Coleção Vidas e Memórias), 1983, pp. 283-288.
255
MARCOVITCH, Jacques. ―Delmiro Gouveia.‖ MARCOVITCH, Jacques. Pioneiros e empreendedores: A
saga do desenvolvimento no Brasil. Vol. 3. São Paulo: EDUSP, 2012, pp. 125-158.
256
CORREIA, Telma de Barros. “Delmiro Gouveia: a construção de um mito.” Cadernos de Estudos Sociais
12 (1996), p. 39.
257
TIGRE apud MELLO, 1988, p. 95.
258
LIMA, Oliveira. A Itália e Guerra. Diário de Pernambuco, 06 de setembro de 1917, p. 3.
259
CUNHA, Euclides. Os Sertões. 3ª. São Paulo: Martin Claret, 2010.
260
LIMA apud MELLO, 1988, p. 102.
85
Alguns afirmavam que a vila da Pedra tratava-se de um ―Oásis num deserto‖. O
médico, professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e membro da Academia
Brasileira de Letras, Antônio Austregésilo, escreveu uma carta que foi publicada no jornal
Correio da Pedra com o referido título, onde o autor se refere ao núcleo da Pedra como:
a transmutação das ânsias do progresso de um homem cuja atividade e cujo
empreendimento merecerão as bênçãos de todos os brasileiros, por que foi
ali, como reza a sincera e dolorosa inscrição na cruz ereta no lugar em que se
deu seu bárbaro assassinato, o evangelizador dos sertões, o desbravador de
almas incultas, as quais proporcionou pão, ensinamentos, fé, direitos, amor,
a confiança no trabalho honesto e salutar.
Tudo na Pedra respira ordem e labor. O casario branco, simétrico e limpo; a
atividade operária, movendo máquinas curiosas e magnificas; o
desdobramento da sagacidade sertaneja em aprendizado rápido e eficiente; a
alegria e o bem estar do operário que se cultiva progressivamente; (...) as
forças para a movimentação das complicadíssimas entrosagens da fábrica; a
luz, a higiene, o desenvolvimento rápido da vila; tudo, tudo denuncia turgor
[sic] vital da obra grandiosa de Delmiro Gouveia.
Salve, salve mãos benditas que transformaram o rincão inóspito e desolado
do sertão das Alagoas em apiário humano feliz e onde vivem a alegria, a
saúde e o trabalho em perene harmonia, denunciadora da capacidade e do
progresso brasileiros.261
O depoimento laudatório de Antônio Austregésilo é revelador de uma visão classista
e estereotipada. Mas que era (de certa forma ainda é) compartilhada por muitos outros. O
jornalista Assis Chateaubriand, que também visitou a vila da Pedra entre agosto e setembro de
1917, levou ao conhecimento do público as suas impressões em artigo para o jornal Diário de
Pernambuco:
Trago de Pedra, onde o senhor Delmiro Gouveia tem instalada a sua fábrica
de linhas, acionada pela força hidráulica da cachoeira de Paulo Afonso, uma
impressão, que só posso chamá-la, de verdadeiro encantamento. Sinto ainda
os olhos ofuscados daquela claridade luminosa, da palpitação febril daquela
colmeia no seio estéril de um sertão inexorável (...) O senhor Delmiro
Gouveia realiza um processo de integração social admirável, debuxando um
quadro de civilização industrial e pacífica, de amor ao trabalho, de
disciplina, que é um contraste com a indisciplina, o nomadismo e o
misticismo da vida sertaneja.262
261
AUSTREGÉSILO, Antônio. Oasis num deserto, Correio da Pedra, 11 de fevereiro de 1923, p.1.
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. Diário de Pernambuco, 10 de setembro de 1917, p. 3.
Grifos nossos.
262
86
A imagem de que a fábrica e o núcleo fabril da Pedra era um ambiente ―harmônico‖,
sem contradições entre a classe detentora dos meios de produção e a classe trabalhadora tem
sua origem nos depoimentos desses visitantes. Os proprietários263 e dirigentes da fábrica
sabiam da importância da opinião desses visitantes ilustres para propagandear os seus
empreendimentos. As excursões eram realizadas geralmente em comitivas, 264 e em alguns
casos a própria fábrica as custeavam. A experiência da vila da Pedra significava para os
membros ou representantes da incipiente burguesia industrial brasileira um ―precioso
exemplo‖.265
Em novembro de 1918, o Jornal de Alagoas após visitar a vila da Pedra a descreve
como um grande núcleo industrial, de organização modelar, uma obra monumental. Segundo
a manchete,
Logo à primeira vista, um dos aspectos mais surpreendentes da Pedra é a
ordem, a disciplina modelar com que tudo ali se move, obedecendo
sistematicamente às leis que tem valor de oráculos, a que todos se curvam,
cumprindo estritamente os seus dispositivos soberanos. Dir-se-ia um grande
e poderosíssimo exército destinado às lutas pacíficas do trabalho, tal é a
exatidão rigorosa, o respeito disciplinar com que a autoridade é acatada,
como se um verdadeiro milagre divino houvesse cooperado para
transformação completa do instinto bronco e rebelde do sertanejo que
naquelas inóspitas regiões de outrora, sem vestígios de civilização, ignorava
inteiramente a mais rudimentar organização social.
Só mesmo um milagre. E esse milagre foi obtido pelo gênio industrial de
Delmiro Gouvêa (sic).266
Mais uma vez ressalta-se a disciplina, o respeito incondicional as autoridades e a
aptidão dos operários, sertanejos que antes do ―milagre‖ do capitalista Delmiro Gouveia
viviam a margem da chamada ―civilização‖. Muito do que se sabe sobre a fábrica da Pedra e
do seu núcleo fabril neste período inicial derivam dessas matérias jornalísticas, elas lançam as
bases para uma versão historiográfica267 que ainda é predominante.
263
A Fábrica da Pedra pertencia a Companhia Agro Fabril Mercantil S/A, empresa de capital aberto, com sede
na cidade de Recife, constituía no ano de 1912, os estatutos da empresa foram publicados no Jornal do Recife,
em 26 de junho de 1912, p. 3.
264
Jornal de Alagoas, 26 de novembro de 1918, p. 1; Jornal de Alagoas, 05 de julho de 1925, p. 3; Correio da
Pedra, 22 de julho de 1925, p. 3; Correio da Pedra, 27 de setembro de 1925, pp. 1 e 2.
265
LIMA APUD MELLO, 1988, p. 102.
266
Jornal de Alagoas, 26 de novembro de 1918, p. 1.
267
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963. Ver especialmente o
capítulo XXVI: O reformador social; MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e
Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963, pp. 97-102; LIMA JÚNIOR, Félix. Delmiro
87
Nessa vertente historiográfica nega-se aos operários/as a qualidade de sujeitos,
omitisse a relação conflituosa entre capital e trabalho, de modo que, ignoram-se as condições
materiais de vida, desvalorizam-se os hábitos e costumes seculares de um povo em detrimento
de um processo ―civilizatório‖. Na oposição dessa historiografia ―hegemônica‖ destacam-se
os trabalhos da pesquisadora Telma de Barros Correia,268 é a autora quem elabora a análise
mais crítica sobre o que representou a Fábrica da Pedra e seu núcleo operário, esse último nas
palavras da autora tratou-se de ―um equipamento de arregimentação, fixação e controle do
trabalhador‖,269 de maneira que, assim se conseguiria o máximo de sobrevalor.
3.2 As origens do operariado pedrense
A procedência dos operários da Fábrica da Pedra era bem diversificada. Conforme
Adolpho Santos, ainda na construção da fábrica e no soerguimento do núcleo, ―se misturavam
operários vindos de toda parte onde chegava a notícia da grande obra‖.270 Também nessa
época chegaram ali alguns trabalhadores especializados vindos da Europa para montagem das
máquinas, enquanto isso, os naturais apenas acompanhavam espantados aquela agitação.
À medida que subiam as paredes da fábrica, também se construíam as casas para o
operariado. Ainda segundo Adolpho Santos, ―foi mandado vir de diversas fábricas de
diferentes estados para inaugurar a Fábrica da Pedra e praticar a iniciação dos naturais do
munícipio de Água Branca e dos outros vizinhos‖.271 Sobre essa questão da mão de obra
operária, Dona Virgínia Bezerra Lima, que trabalhou na casa de Delmiro, em entrevista
concedida ao cineasta Geraldo Sarno diz que:
Depois que [Delmiro] fez a fábrica não tinha ali... Não tinha operário, não
tinha quem soubesse trabalhar em negócio de fábrica. Ele chamou gente de
Gouveia: o Mauá do Sertão alagoano. Maceió: Departamento Estadual de Cultura / Federação do Comércio do
Estado de Alagoas (Coleção Vidas e Memórias), 1983, pp. 192-210; MENEZES, Hildebrando. Delmiro
Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, pp. 77-93; NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do.
Delmiro Gouveia e a educação na Pedra. Maceió: Viva Editora, 2013. Ver especialmente o capítulo III:
‗civilização‘ e educação na Pedra, pp. 139-209; GONÇALVES, Alberto Cosme. Delmiro Gouveia: Era uma
vez no Sertão... 2ª. Ribeirão Preto: sn, 2013.
268
CORREIA, Telma de Barros. “Delmiro Gouveia: a construção de um mito.” Cadernos de Estudos Sociais
12 (1996): 25-62; CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas:
Papirus, 1998.
269
IDEM, p. 11.
270
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 35.
271
IDEM, p. 36.
88
longe, Penedo, Propriá, esses lugares que tinha fábrica, viu, chamou
operários pra vir ensinar o pessoal daqui trabalhar. Veio muita gente de
Propriá, veio muita gente pra ensinar a trabalhar. 272
Faltando pouco mais de um mês para inauguração da fábrica, a Companhia Agro
Fabril Mercantil manda publicar no Jornal de Alagoas anúncios informando a contratação de
operários e operárias peritos nas diversas especialidades da indústria têxtil, além dos
especialistas, também se contratava crianças de ambos os sexos para fazer caixinhas e outros
serviços delicados.273 Os anúncios orientavam que:
os operários que se propuserem entrar nos serviços dessa Companhia
precisam desde já se comprometer a estar em Pedra na primeira semana de
junho deste ano, quando começarão os trabalhos, ou antes, desta época.
Na Pedra o clima é saudável, a Fábrica é espaçosa, e nela o ar é renovado de
modo a não prejudicar a saúde dos operários.
A Companhia dá ‗gratuitamente‘ aos seus operários casa limpa e higiênica,
água e luz elétrica, sendo os seus ordenados tão ou mais compensadores do
que atualmente pagam quais quer outras Fábricas congêneres. 274
Porém, adverte que só serão aceitas pessoas de bom comportamento, e alerta de que
é absolutamente proibido o uso de bebidas alcoólicas. Para o operário contratado a
Companhia adiantaria o necessário para o transporte até Pedra, além disso, garantiria a
manutenção do mesmo até normalização dos trabalhos, esses valores seriam descontados
depois, diretamente dos seus ordenados.275
A inauguração da Fábrica de Linhas da Pedra se deu em 6 junho de 1914, na ocasião
os trabalhos ficaram sob orientação de técnicos ingleses contratados em Glasgow. 276 Quatro
meses após o início oficial de suas atividades a Fábrica da Pedra continuava necessitando de
mão obra operária, divulgando na imprensa pernambucana, o seguinte anúncio:
COMPANHIA AGRO FABRIL MERCANTIL
Precisa de famílias operárias
272
LIMA apud SARNO, 2006, p. 75.
Jornal de Alagoas, 24; 25 e 26 de abril de 1914, p. 3.
274
IDEM.
275
IDEM.
276
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 36.
273
89
A fábrica de linhas da Pedra (estado de Alagoas) precisa de famílias
operárias habilitadas para o serviço de fiação e que se possam dar boas
referencias.
A fábrica é situada no sertão do estado de Alagoas, em lugar saudável e
a companhia fornece gratuitamente aos operários casa, luz e água,
pagando salários não inferiores aos das outras fábricas. 277
A oferta de moradia ―gratuita‖ com água encanada e luz elétrica foi utilizada
reiteradamente nos anúncios de contratação de operários. Essas regalias oferecidas pela
Companhia funcionavam como estratégia para aliciar operários especializados. Ao que
parece, a tática foi bem sucedida. Conforme depoimento de Ulisses de Souza Bandeira, antigo
funcionário da Usina de Angiquinho, em entrevista ao cineasta Geraldo Sarno, em 1967, com
o funcionamento da fábrica ―vieram alguns operários de Paraíba, de Maceió, de
Pernambuco, do Recife‖.278
A contratação de operários com experiência no setor têxtil em centros urbanos
maiores tinha como principal objetivo iniciar os habitantes sertanejos nos segredos dessa
indústria. A respeito dessa questão, Adolpho Santos comenta que:
[...] ali se constituía, na prática dos seus diferentes misteres, uma escola
técnica de trabalho onde os operários, cada qual em suas seções, se
preparavam eletricistas, mecânicos, fiandeiros, tintureiros, chauffeurs e
tantas outras atividades.
A maioria do operariado era brasileiro, recrutado na população bronca do
sertão bravio, o qual, recebendo os ensinamentos do Chefe e dos
profissionais contratados para amestrá-lo, tornara-se dentro de pouco tempo
hábil no manejo de todos os aparelhos e de toda maquinaria. 279
Em setembro de 1917, após fazer uma visita à vila da Pedra, o jornalista paraibano
Assis Chauteubriand revela em artigo publicado no Diário de Pernambuco, que a força de
trabalho empregada na Fábrica da Pedra, pelo menos naquele momento, tinha procedência
bastante diversificada, segundo o jornalista:
há ali o sertanejo destemeroso; fanáticos de padre Cícero; emigrados do
arraial destruído de Canudos; uns vagos operários urbanos com tendências
impulsivas dos habitantes das grandes cidades, meia dúzia de alemães,
ingleses, suíços todos os tipos, uma multiplicidade de elementos
277
A Província, 04, 05, 06, 07 e 08 de outubro de 1914, p. 2.
BANDEIRA apud SARNO, 2006, p. 97.
279
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 37.
278
90
heterogêneos, assimilados, amalgamados, unificados graças a processos que
modificam consideravelmente as condições fundamentais da existência
individual de quase todos.280
A observação do jornalista Assis Chauteubriand quanto a heterogeneidade na
procedência dos operários de Pedra pode ser confirmada em outras fontes. Contudo, os
operários de Pedra eram, em sua maioria, originários dos sertões nordestinos. O grosso do
operariado compunha-se de retirantes da seca 1915.281 Mas também, era comum encontrar
criminosos refugiados, ―muitas vezes, chegaram na Pedra criminosos pedindo proteção;
Delmiro recebia-os, amparava-os e punha-os para trabalhar como se estivessem numa escola
correcional, reformadora de caráter”.282 Esses egressos da sociedade chegavam a Pedra por
indicação de algum amigo de Delmiro, mas também havia os que iam até o industrial por
conta própria.
Com relação aos retirantes das secas, o jornalista Hildebrando Menezes, que foi
diretor e redador chefe do jornal Correio da Pedra, rememora em 1927 nas páginas do
referido jornal o que aconteceu em Pedra no ano de 1915:
a seca fazia estertorar o sertanejo na penosa agonia da fome, a Pedra
transformou-se sob a direção do pranteado morto [Delmiro], num oásis
para patrícios infelizes. A vila operária ficou nessa época de amarguras
circulada de barracas, onde uma multidão se agitava já alegre, graças ao
alimento que lhe era fornecido a chegada e depois de descanso, o trabalho
que lhe permitia viver sem as amarguras dos dias anteriores. 283
Algumas décadas após a publicação do artigo no jornal Correio da Pedra, o jornalista
Hildebrando Menezes lança a biografia intitulada ―Delmiro Gouveia: vida e morte‖. Na
referida obra o autor cita o episódio da seca de 1915, que segundo ele foi precendida pelo
capitalista cearense no ano anterior:
Em 1914, as chuvas não permitiram a colheita total [...] Delmiro, experiente,
previu a seca de 1915. ‗No ano vindouro, não pingará‘, dizia ele na
linguagem própria do meio. E se previniu para a tragédia que foi, nos sertões
280
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. Diário de Pernambuco, 10 de setembro de 1917, p. 3.
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
229.
282
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.” Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): p. 37.
283
Correio da Pedra, 12 de outubro de 1927, p.1.
281
91
nordestinos, a seca intensíssima daquele ano, guardada na lembrança dos
sertanejos como uma das mais fatídicas.
Na casa em que primeiro morara [sic], Delmiro fizera construir grandes silos
de tijolo e cal e os mandara encher de milho e feijão, produtos de mais
consumo do sertanejo, especialmente o sertanejo pobre.
Tangidos pela seca de seus pobres lares, chegavam à Pedra, às dezenas,
diariamente, infelizes vítimas do flagelo, procedentes do Ceará, da
Paraíba, de Pernambuco, de todos os Estados nordestinos enfim, à
procura de alimento. Eram, sem exagero, frangalhos humanos, tão
esgotados e maltrapilhos chegavam.
Para atender a todos como possível, Delmiro mandou construir no campo
grandes barracas, onde eles pudessem repousar, e durante oito e mais
dias, conforme as condições de cada flagelado, fazia alimentá-los
fartamente e, logo que restaurados, colocava-os nos serviços da
empresa.284
A seca de 1915 que assolou grande parte dos sertões nordestinos, colocou boa parte
de sua população na condição de retirantes. Milhares de camponeses que dependiam do
cultivo da terra para sobreviver foram obrigados a migrarem de suas localidades. Já
desprovidos de tudo, exceto da sua força de trabalho, eles caminhavam por vários dias em
busca de alguém que lhes porpocionasse um lugar para poder ganhar seu sustento. A escritora
Raquel de Queiroz no romance ―O Quinze‖ 285 retrata a saga do vaqueiro Chico Bento e sua
família (esposa e cinco filhos), que depois de muitas privações e fatalidades pelo sertão
cearense chegam a Fortaleza, onde Chico Bento irá trabalhar na construção de um açude por
um tempo, mas logo depois pega o que restou da família e vai para São Paulo a procura de
trabalho.
Segundo o historiador britânico, Eric Hobsbawm, a dificuldade social e econômica
era uma das arma mais eficiente para desprender o homem de seu passado sócio-histórico,
obrigando-o a abandonar o seu lugar e o seu modo de vida tradicional para ingressar no
trabalho fabril. Isso por que em condições normais de sobrevivencia as pessoas não eram
atraídas para as novas ocupações típicas de uma econômia industrial.286
No caso específico da Fábrica de Linhas da Pedra, mesmo situada no sertão, a seca
de 1915 desempenhou importante papel na captação da força de trabalho.
284
Conforme
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, p. 78.grifos
nossos
285
QUEIROZ, Raquel de. O Quinze. Versão em e-book. São Paulo: José Olympio, 1984.
286
HOBSBAWM, Eric J. A Era da Revoluções, 1789-1848. 25ª. São Paulo: Paz e Terra, 2012, p. 91.
92
depoimento de Ulisses de Souza Bandeira: “em 1915, naquela grande seca, quando chegou
aqueles pessoal de Paraíba e Pernambuco mesmo, aqueles flagelados, ele [Delmiro]
arranjou serviço pra todo mundo, [...] na Fábrica”.287 Lauro Góes, que foi funcionário da
fábrica nesta época, relata que:
Na seca de 1915, Delmiro atendeu toda uma multidão de famintos que
chegaram à Pedra a procura de trabalhos e alimentos. Vários – a maioria –
ficaram na localidade como operários da Fábrica e outros seguiram a sua
caminhada, mas ajudados pela direção da empresa, com uma pequena ajuda
para viagem. Nessa época o número de operários elevou-se a quinhentas
pessoas.288
Diante dos depoimentos acima, surge outra questão, que é como a fábrica conseguiu
absorver a força de trabalho de centenas de retirantes? Considerando que essa já se encontrava
em operação quando da ocorrência da seca.
No seu depoimento, Bandeira revela uma das estratégias que possibilitou essa
absorção, citando como exemplo o que ocorreu no setor de encarretelamento onde,
[...uma] moça trabalhava com seis fusos, ou com três fusos, e quando chegou
esse povo, em 1915, ele [Delmiro] botou cada um para trabalhar com um só
fuso. Disse que era melhor dar trabalho às outras todas, cada uma com um
fuso, do que umas ganhando dinheiro e outras morrendo de fome.289
A lógica utilizada por Delmiro, em 1915, durante a seca na contratação de retirantes
para sua fábrica revela que ele se baseava numa economia moral vista de cima. Embora, até o
final de 1914 a Fábrica da Pedra mandava publicar na imprensa pernambucana a contratação
de famílias operárias.290 Isso demonstrava, entre outras coisas, a necessidade de mão de obra
por parte da fábrica.
Em 1915 formou-se ao entorno da fábrica um enorme exército de reserva de mão de
obra, composto de centenas de homens, mulheres e crianças sertanejos refugiados da seca.
Assim como no final do século XIX, a seca retirou de milhares de pessoas todos os seus os
meios de produção, restando-lhes apenas a força de trabalho, que como vimos no primeiro
capítulo foi utilizada na construção da ferrovia Paulo Afonso.
287
BANDEIRA apud SARNO, 2006, p. 91.
GOÉS apud CORREIA, 1998, p. 229.
289
BANDEIRA apud SARNO, 2006, p. 92.
290
A Província, 04, 05, 06, 07 e 08 de outubro de 1914, p. 2.
288
93
3.3 O emprego de mulheres e crianças nas seções de produção da Fábrica da Pedra
Ainda no século XIX, com o desenvolvimento da Revolução Industrial iniciada na
Inglaterra, houve um admirável desenvolvimento tecnológico na produção de mercadorias, a
maquinaria atenuava a importância da força muscular na realização do trabalho. Uma das
consequencias dessa mecanização no sistema produtivo, foi a utilização de maneira intensiva
do trabalho feminino e infantil. Conforme analisou Marx:
A máquina, tornando inútil o trabalho muscular, permite empregar
operários de pouca força física, porém, cujos membros são tanto mais
flexíveis quanto menos desenvolvimento têm. Quando o capital se
apoderou da máquina, o seu grito foi: trabalho de mulheres, trabalho de
crianças! A máquina, meio poderoso de suavizar os trabalhos do homem,
converteu-se em seguida em meio de aumentar o número de assalariados.
Obrigou, sob a vara do capital, a todos os membros da família, sem distinção
de idade nem de sexo.291
Pela incorporação de uma massa considerável de mulheres e crianças ao processo
produtivo, a máquina conseguiu finalmente romper a resistência que o trabalhador do sexo
masculino e adulto fazia ao despotismo do capital, por exemplo na fase da manufatura. Com a
exploração da mão de obra de mulheres e crianças o capital ampliou assombrosamente seu
domínio sobre o trabalho.
Marx elaborou seu instrumento de análise no século XIX, observando o mundo do
trabalho na Inglaterra de então, país pioneiro na utilização da maquinaria, contudo, seu
arcabouço teórico se mostrou consistente para se compreender a lógica de exploração do
capital industrial onde quer que esse se desenvolvesse.
O historiador Luiz Sávio de Almeida, num curto texto onde realiza uma sintética
análise sobre a mulher na indústrial têxtil em Alagoas para o início do século XX,
fundamentado nos dados censitários de 1920, dirá que: ―na medida em que surgem nas
Alagoas os primeiros nucleamentos operários, automaticamente se tenha uma organização
em que se realiza a exploração da mão de obra feminina e do menor‖.292 Essa observação
291
MARX, Karl. O Capital. Trad. Gabriel Deville. Bauru: EDIPRO, 2008, p. 134. Grifos nossos.
ALMEIDA, Luiz Sávio de. ―Breve reflexão sobre a mulher na indústria têxtil: Alagoas - 1920.‖ Almeida,
Luiz Sávio de. Notas sobre poder, operários e comunistas em Alagoas. 2ª. Maceió: EDUFAL, 2013, p. 87.
292
94
geral feita para o conjunto das indústrias têxtis alagoanas, também é comprovada
empiricamente para a Fábrica de Linhas da Pedra.
Em julho de 1915, uma comitiva formada por jornalistas, engenheiros e políticos,
inclusive o governador de Alagoas, João Batista Acioly e o ministro da Agricultura, José
Rufino Bezerra Cavalcanti, visitou a vila da Pedra afim de conhecer a majestosa cachoeira de
Paulo Afonso e a fábrica de linhas.
Na ocasião, quando os excursionistas visitaram as instalações da fábrica observam
que nesta ―se acham empregados cerca de 500 operários, homens, mulheres e meninos‖.293
Um ano e pouco depois, outra comitiva composta por jornalistas, fotográfos e autoridades
políticas, a exemplo o governador de Pernambuco, Manuel Borda, realizou nova excursão
pelo interior do seu estado. Na ocasião, os visitantes foram informado de que na fábrica de
linhas, “trabalham 1500 operários - 400 crianças de ambos os sexos, 400 homens e 700
mulheres”.294
A citação acima revela a predominância da força de trabalho feminina e infantil na
produção da Fábrica de Linhas Pedra, o percentual de mão de obra feminina e infantil é
superior a 70% , ou seja, dos 1500 operários 1100 eram mulheres e crianças. Segundo Ulisses
Bandeira empregava-se, ―menino pequeno, assim de seis anos, oito, tudo ia etiquetar carretel.
E o mais, um varria, outro fazia outra coisa, ele [Delmiro] empregava tudo, dava ganho a
todo mundo‖.295
Como na maioria das grandes indústrias, a produção na Fábrica de Linhas da Pedra
era departamentada, algumas seções eram ocupadas quase que exclusivamente por mulheres e
crianças, como desmontram as fotos abaixo:296
293
Jornal de Alagoas, 04 de agosto de 1915, p. 1.
Diário de Pernambuco, 28 de agosto de 1916, p. 2.
295
BANDEIRA apud SARNO, 2006, p. 92.
296
Não obtivemos detalhes relativos ao ano ou período em que as fotos foram realizadas, porém com base em
aspectos como enquadramento e disposição dos sujeitos; pela luminosidade e por alguns aspectos de ordem
técnica, avaliamos não ser descabido que as imagens façam parte do primeiro quarto do século XX.
294
95
Figura 2 - Seção de torcedores (Fonte: Sant’Ana, 1996, p. 121)
Figura 3 - Seção de fusos (Fonte: Sant’Ana, 1996, p.122)
O jornal Tribuna do Povo, editado no Recife por Antônio Bernado Canellas, um dos
principais articuladores do movimento operário brasileiro nas primeiras décadas do século
XX, publicou em agosto de 1918, a seguinte matéria: Os horrores da Pedra – Uma carta.
Conforme a matéria, na fábrica da Pedra,
96
[...] As mulheres, nos seus períodos naturais, não são
respeitadas e vão para o trabalho sob o chicote dos vigias.
Crianças de 8 anos, entre as quais muitas meninas fracas e
anêmicas, são obrigadas a trabalhar das 6 da manhã às dez da
noite. Nos fins de semana lhes é pago o salário de 1$800 a
3$000, pois as multas, rebaixamentos e descontos consomem a
diária com que são enganadas. [...] na Pedra, estão submetidos a
mais horrorosa escravidão.297
O aproveitamento da força de trabalho de mulheres e crianças permitia aos
capitalistas nivelar por baixo os salários pagos ao conjunto do operariado. Desse modo,
reduziam-se os custos de produção, o que lhe conferia uma maximização dos lucros. Além
disso, havia também a questão da disciplina, bem mais fácil de ser imposta a mulheres e
crianças. Conforme o historiador Eric Hobsbawm, ―nas fábricas onde a disciplina do
operariado era mais urgente, descobriu-se que era mais conveniente empregar as dóceis (e
mais baratas) mulheres e crianças‖.298
3.4 A jornada de trabalho na Fabrica da Pedra
O emprego da eletricidade possibilitou que na Pedra em alguns momentos os
operários trabalhassem alternadamente durante os três turnos, distribuídos em quatro turmas.
Num passado recente esses operários, maioria procedente da zona rural, tinham suas jornadas
de trabalho determinadas pelo ritmo da natureza, ou seja, trabalhavam de sol a sol, e na
fábrica passaram a trabalhar também a noite! Pois, como indica Tadeu Rocha, ―a fábrica
trabalhava de segunda-feira ao sábado, em três turnos de 8 horas‖.299
Os dados demonstram que esse manejamento rotativo da força de trabalho ocorreu
em momentos excepcionais. Arno Pearse, Secretário Geral da The International Federal of
Master Cotton Spinner‟s and Manufacturer Association, de Manchester, na Inglaterra, esteve
no Brasil entre março e setembro de 1921. Após visitar a vila da Pedra, onde conhece as
instalações da fábrica de linhas, em seu relatório publicado em forma de livro, expõe que:
297
Tribuna do Povo, Os horrores da Pedra: Uma carta, Recife, 10 de agosto de 1918, p. 2.
HOBSBAWM, Eric J. A Era da Revoluções, 1789-1848. 25ª. São Paulo: Paz e Terra, 2012, p. 92.
299
ROCHA, Tadeu. Delmiro Gouveia: O pioneiro de Paulo Afonso. 2ª. Maceió, 1963.
298
97
Em condições normais a fábrica de linha para costura trabalha dois turnos e,
quando o comércio estava bom, até três turnos. Atualmente [1921], 600
operários estão trabalhando dez horas por dia ao preço normal de salários de
1$800 por dez horas.300
O jornalista Mário Melo também visitou o núcleo da Pedra, em agosto de 1916, e
registrou que: ―A fábrica funciona dia e noite, exceto nos domingos. Os operários estão
divididos em três turmas e não trabalham mais que 8 horas por dia‖.301 O jornalista afirmou
que nesta época trabalhavam na fábrica cerca de 1500 operários, sendo que a produção diária
era estimada em 100.000 carretéis de linhas. Essa produção, que era aproximadamente 6
vezes superior a do primeiro ano de funcionamento,302 era realizada com apenas o dobro de
operários, isso significa dizer que aumentou a exploração da mais valia de cada operário.
O quadro abaixo demonstra de que modo se dava a distribuição das turmas de
operários:
Figura 4 - Quadro de horários (Fonte: Acervo do Museu Regional Delmiro Gouveia)
300
PEARSE, Arno. Brazilian Cotton. Manchester: Taylor Garnett Evans & Co, 1921, p. 37. (tradução).
MELO apud MELLO, 1998, p. 96.
302
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 150.
301
98
O quadro acima se refere a um dos momentos de expecionalidade, em que houve
aumento pela procura por linhas de coser no País. Não conseguimos rastrear com precisão o
período em que a escala do documento acima foi fixada, embora, é plausível que a mesma
tenha sido utilizada na época em que Delmiro Gouveia administrava o seu negócio. Adolpho
Santos afirma que a fábrica da Pedra foi pioneira na implantação da jornada de trabalho de 8
horas diárias no Brasil, segundo ele,
O corpo de operários chegou a atingir, na quadra do movimento máximo, a
dois mil indivíduos de ambos os sexos que trabalhavam dia e noite, da
segunda ao sábado. Mas as necessidades de descanso eram respeitadas,
porque Delmiro sabia que o homem extenuado por um trabalho constante
precisa descançar, sob pena de não ser útil a produção, visto como um
organismo humano para manter-se em equilibrio tem de refazer-se após as
canseiras. Antes mesmo que existissem as leis trabalhistas atuais [1947] do
País, já o trabalho na Pedra se fazia na base de oito horas de jornada e, para
cumprir essa orientação, foram organizadas três turmas a dois turnos de
quatro horas de serviço cada uma, possibilitando o movimento
ininterrupto.303
Para Santos, a implantação da jornada de trabalho de oito horas diárias, assim como
o descanso semanal se deu simplesmente pela boa vontade de Delmiro Gouveia com relação
ao seu operariado. Sobre essa questão temos outro ponto de vista, até porque para que uma
fábrica funcione nos moldes dos apresentados por Santos é preciso mais do que vontade de
fazer funcionar, ou seja, era necessário dispor de condições adequadas, tais como;
eletricidade, maquinário, manutenção satisfatória, e etc. Além disso, a fábrica deveria contar
com uma força de trabalho absolutamente refém do seu assalariamento.
O Depoimento para um estudo biográfico, de Adolpho Santos foi escrito numa
conjuntura política de consolidação dos direitos trabalhistas no País. É muito provável que o
momento tenha influenciado a sua memória com relação ao trato de Delmiro com seus
operários. Na nossa análise verificamos motivações distintas das exposta por Adolpho Santos
que justificam a rotação de mão de obra operária.
O rodízio dos operários em turnos e turmas diferentes permitia a fábrica da Pedra
funcionar durante as 24 horas do dia, de modo que, o tempo de inatividade das máquinas
reduzíasse ao mínimo possível. Assim recuperava-se de maneira mais ágil o investimento
realizado no capital constante, composto principalmente pelos edifícios e pelas máquinas.
303
SANTOS, Adolpho. “Delmiro Gouveia: depoimento para um estudo biográfico.‖ Revista do Arquivo
Público de Pernambuco (1994): 43. (p. 36).
99
Essas últimas se depreciam de duas maneiras, tanto pelo uso quanto pela falta dele, conforme
Marx:
A depreciação material das máquinas apresenta-se sob um duplo aspecto.
Por uma parte depreciam-se pelo seu emprego e por outra pela sua inação,
como uma espada se enferruja na bainha. Só pelo uso se gastam utilmente,
mas também se gastam em vão pela falta de uso, e por isso se procura
reduzir o tempo de inação; sendo possível, se faz trabalhar de dia e de
noite.304
O trabalho industrial se efetua com outra noção de tempo. O tempo da natureza que
determinava o rítmo das tarefas, rotineiramente utilizado em atividades rurais, foi substituído
pelo tempo da civilização do capital. Segundo Edward Thompson com o advento da
Revolução industrial, a partir da segunda metade do século XVIII, o relógio se torna objeto
importantíssimo. O historiador inglês afirma que na Inglaterra
ocorria uma difusão geral de relógios portáteis e não portáteis no exato
momento em que a Revolução Industrial requeria maior sincronização do
trabalho. [...] O pequeno instrumento que regulava os novos rítmos da vida
industrial era uma das mais urgentes dentre as novas necessidades que o
capitalismo industrial exigia para impulsionar seu avanço.305
Na Pedra, após a instalação da fábrica o tempo passou a ser orientado pelo tocar de
uma estridente sirene. Assis Chauteubriand observa que, a quatro léguas de distância, ouvia-se
―a sereia que apita no alto da fábrica‖.306 A entrada e a saída da fábrica, a troca de turmas, as
pausas para as refeições, assim como, o horário de recolhimento noturno dos moradores do
núcleo, tudo era pautado pelo soar da sirene. O controle do tempo na vila da Pedra após a
instalação da fábrica era tão importante que, segundo o Coronel José Abílio, entrevistado por
Geraldo Sarno, em 1967, os vigias andavam todos armados e ―com relógio no pescoço”.307
3.5 As “linhas” de coser e de conduta da Pedra
304
MARX, Karl. O Capital. Trad. Gabriel Deville. Bauru: EDIPRO, 2008, p. 135.
THOMPSON, Edward P. ―Tempo, disciplina de trabalho e capitalismo industrial.‖ Costumes em comum:
estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Cia. das Letras, 1998, p. 279.
306
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. Diário de Pernambuco, 10 de setembro de 1917, p. 4.
307
ABÍLIO apud SARNO, 2006, p. 49.
305
100
Na fábrica da Pedra a produção de linhas era realizada de maneira departamentada,
composta por vários setores, tais como; o de fiação, de torcedores, de fusos, de dínamos, entre
outros. Exigia-se dos operários o máximo na confecção das mercadorias, seguindo as normas
que se produzisse com o máximo de eficácia eficiência.
Segundo o jornalista Hildebrando Menezes, autor de uma das biografias de Delmiro
Gouveia, ―os operários que se mostrassem indolentes, vagarosos ou indisciplinados eram
prontamente afastados‖,308 pois na Pedra todos deveriam produzir o máximo e atender as
exigências do patrão. Quando entrou em funcionamento, na segunda metade de 1914, a
fábrica lançou no mercado regional uma primeira versão do seu produto, a linha em carritel,
ainda sem etiqueta e mal fabricada. A linha vendida não causou boa imprensão, somente
alguns meses depois é que se alcança uma mercadoria satisfatória. Conforme Menezes, nesse
período ―Delmiro demitiu vários técnicos, considerados incapazes‖.309
Mandou escrever nas paredes da fábrica para que todos soubessem o seguinte aviso:
Quem manufatura nunca está fazendo bem feito demais. Por mais
minunciosa e bem cuidada, nunca a fabricação é suficiente e completa.
Nunca se conseguirá ser tão asseiado quanto se deveria ser. Jamais se poderá
dizer que o produto é irrepreensível ou livre de defeitos. Enfim, todos os dias
deve-se se cuidar do melhoramento do produto. Não seguindo esses
conselhos tudo baqueará.310
O fragmento acima foi retirado de uma reportagem do Jornal de Alagoas, o mesmo
que dois anos depois publicaria alguns anúncios sobre a Fábrica de Linhas da Pedra, onde
destacam-se os fatores que contribuiram para a qualidade e o preço dos produtos:
O público consumidor satisfaz-se em adquirir um artigo perfeito, por um
preço barato.
Essa perfeição é o resultado de muitos anos [de] contínuo esforço da nossa
parte e de excelência comprovada da matéria prima empregada na
fabricação de LINHAS DA PEDRA, que é o melhor algodão Seridó.
Essa modicidade de preço advém do fato de dispormos de instalações
elétricas próprias na Cachoeira de Paulo Afonso e razoavél mão de obra.
Outro fator importante, é que o operáriado que faz nossas linhas todo ele
sabe ler e escrever! Cada operário tem consciência do que está fazendo!
Na vila da Pedra, o Trabalho e a Instrução andam sempre de mãos dadas,
e que, com o Asseio e o Conforto dispensados aos operários concorre (sic)
para o acabamento perfeito das nossas linhas.
308
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, p. 74.
IDEM, p. 79.
310
Jornal de Alagoas, 29 de abril de 1923, p. 3.
309
101
Não é milagre: é a consequencia natural de vários fatores inteligentemente
combinados. Tanto isso é verdade que a CIA. AGRO FABRIL
MERCANTIL garante a perfeição dos seus produtos.311
Observasse que há um enorme contrassenso entre o que estava escrito nas paredes da
fábrica para os operários e técnicos e o que era propagandeado nos anúncios estampados na
imprensa. Na fábrica os operários trabalhavam sob rigorosa fiscalização. Aplicavam-se multas
pelas menores faltas, faziam-se severas repreensões e, além delas, punições outras mais
rigorosas. Eram esses os verdadeiros fatores que garatiam com que todos trabalhassem em
regime de atenção especial e procurassem realizar as tarefas sob seu cargo com a possível
perfeição e rapidez.
Ulisses Bandeira, também entrevistado pelo cineasta Geraldo Sarno em 1967,
quando perguntado sobre a existência de fiscais auxiliando Delmiro, responde: ―Tinha muitos!
Tinha uns fiscais aí pirrões, né. Tinha um João Dita, esse era um perigoso. Nem o operário
não podia nem falar um com outro, na própria seção, na hora do serviço, nem ir na outra
seção num é”.312 Conforme Hildebrando Menezes, ―Delmiro [...] determinava ao seus fiscais
que velassem pela fiel observância das normas estabelecidas. Eles eram vigias da vila e
exerciam, de acordo com permissão do Governo do Estado, funções policiais‖.313
Delmiro, auxiliado por capangas e vigias, regulamentava o trabalho e a vida privada
dos operários com suas próprias ―leis‖, de modo que, nem a polícia nem a justiça interferiam
nas suas decisões.314 Na edição de número vinte e quatro (24) do jornal operário A Semana
Social, editado em Alagoas por Antonio Canellas entre março e novembro de 1917, o
periódico expõem com mordacidade que é contrário ao governo estadual enviar emissários
para Pedra a fim de capturar os assassinos do cel. Delmiro Gouveia, pois
Nós achamos que o governo estadual não tem o direito de punir quem matou
o cel. Delmiro visto ter francamente consentido que o mesmo cel.
transformasse as suas propriedades industriais num feudo – verdadeiro
Estado dentro deste Estado – e nunca ter procurado defender as vítimas do
regime feudal reinante nessas propriedades industriais. [...] o governo
estadual temia o cel. Delmiro. E por temel-o nunca usou para com ele das
disposições do Código Penal. Quem fosse vítima dos castigos do senhor
feudal da Pedra, não tinha outro remédio se não conformar-se. Mas nem
311
Jornal de Alagoas, 03; 04; 05; 06 e 07 de junho de 1925, p. 1. (grifos originais).
BANDEIRA apud SARNO, 2006, p. 98.
313
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, p. 84.
314
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
254.
312
102
todos se conformam. Foi provavelmente o que se sucedeu com os que o
mataram.
Portanto, o governo que não fazia justiça às vitimas do cel. Delmiro não tem
absolutamente o direito de punir que fez justiça por suas próprias mãos. 315
Na vila da Pedra, Delmiro exercia autoridade descomunal não apenas sobre os
operários, mas sobre todos os moradores do núcleo. O supremo domínio do patrão tornava
desnecessário a existência de uma cadeia na localidade. Esse aspecto impressionou o
jornalista Assis Chateubriand, que relata:
Em Pedra não existe uma prisão, uma sala, um quarto do qual possa se dizer:
aqui é a cadeia local. Ali não há crimes. O cadastro da polícia não registra
um só, para semente. Quando o operário comete uma falta grave, passível de
punição severa, e é um recidivo, incorrigivel, é expulso da comunidade
operária.316
Falar que em Pedra não havia uma prisão é uma grande ironia, o próprio núcleo era
uma espécie de presídio, onde somente permaneciam aqueles que se submetiam ao regime de
trabalho e a rígida disciplina imposta dentro e fora da fábrica. ―Os regulamentos e as punições
em Pedra eram estendidos a todos, fossem ou não moradores do núcleo ou empregados da
fábrica”.317 Os vigias estavam autorizados a multar qualquer um que fosse apanhado
cometendo atos de ―incivilidade‖, como por exemplo, cuspir ou jogar papel no chão. Um
outro exemplo: o homem que fosse encontrado no interior de sua residência com chapéu na
cabeça ou sem camisa também era multado. 318
No núcleo fabril da Pedra eram proibidos também a prostituição, o jogo de azar, a
caça de animais. O consumo de bebidas alcóolicas era regrado. O operário ou operária que por
ventura fosse trabalhar sujo era multado. Se alguma criança filha do operariado faltasse a
aula, era aberta uma sindicância para averiguar os motivos da falta, caso constatasse que o
motivo não era sério, o pai ou a mãe eram multados.319 Segundo Telma de Barros Correia,
315
A Semana Social: coletânea / Osvaldo Maciel (Org.). Fac-símile. Maceió: EDUFAL, 2013, p. 108.
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. Diário de Pernambuco, 10 de setembro de 1917, p. 3.
317
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
260.
318
MARTINS, Francisco Magalhães. Delmiro Gouveia: Pioneiro e Nacionalista. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1963, p. 98.
319
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. Diário de Pernambuco, 10 de setembro de 1917, pp. 3
e 4.
316
103
Delmiro assumia funções que, tradicionalmente , competiam aos chefes de familia.
Transferia para si parte da responsabilidade que era atributo do pai – as vezes
compartilhada com filhos mais velhos – de zelar pela reputação das mulheres, de
decidir a ocupação dos filhos, de arbitrar os conflitos domésticos e de estabelecer
alianças matrimoniais. 320
Conforme a autora, esse tipo de intervenção praticada por Delmiro no núcleo da
Pedra era exercitada por outros construtores de núcleos fabris. Isso representava uma
redefinição e redução da autoridade marital e paternal no interior da hierarquia familiar dos
operários: ―no caso de núcleos fabris como Pedra, as possibilidades de resistência dos chefes
de família a essa autoridade paterna eram reduzidas diante da conjunção de amplos
mecanismos de controle e subordinação do trabalhador”.321
O fundador do núcleo da Pedra era ao mesmo tempo: empregador, dono das casas,
do cinema, fornecedor de água, energia e possivelmente da lenha,322 uma vez que os operários
viviam cercados por arame farpado. As lojas, o correio e a feira existiam por sua iniciativa,
permissão e até mesmo patrocínio. As professoras, o médico, o dentista, os músicos da banda
tinham um lugar na vida social de Pedra graças a sua iniciativa.323 Essa interdependência
somada a sua riqueza explica a autoridade descomunal de Delmiro sobre todos e tudo no
núcleo fabril Pedra e suas adjacências.
3.6 Vila operária e núcleo fabril: dois conceitos.
É comum na bibliografia que tematiza a fábrica da Pedra e a vida de Delmiro
Gouveia, certa confusão entre os conceitos de vila operária e núcleo fabril. Embora ambos
consistam de aglomerações isoladas, construídas para abrigar operários em torno de uma
indústria ou de um conjunto de indústrias, existe peculiaridades que distinguem dois
equipamentos. As vilas operárias eram empreendimentos situados nas cidades, geralmente
320
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
258.
321
IDEM
322
A lenha era um item de suma importância para manutenção das unidades domésticas. Sobre essa questão ver
LOPES, José Sergio Leite. A tecelagem dos conflitos de classe na cidade das chaminés. Brasília/São Paulo:
Marco Zero/EDUNB, 1988, pp. 124 e 125.
323
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
261.
104
edificadas nos seus subúrbios ou áreas rurais próximas. Em regra geral as construções se
limitavam apenas a moradias, onde os moradores eram selecionados pelo dono da fábrica.
Já os núcleos fabris eram empreendimentos mais isolados que vilas operárias, e se
encontravam longe das cidades. Esse afastamento levava necessariamente à existência de
outras atividades complementares à produção fabril – oficinas, abastecimento de água e
energia e mais outros serviços julgados necessários pelo patrão: casas, escolas, armazéns,
farmácias, consultórios médicos, espaços para os ―lazeres honestos‖ e etc. A distância dos
núcleos em relação as cidades, somadas às ―benfeitorias‖ ali implantadas, davam aos patrões
autonomia quase absoluta no gerenciamento da fábrica e da vida dos operários:
Neles a fábrica encontrava condições excepcionais para exercer o governo
local, reduzindo no núcleo interferências do Estado. Tal posição permitiu
afastar ou limitar a presença, no local, de partidos, de outras empresas e de
atividades consideradas nocivas.324
Para implatação de uma vila operária, ou de um núcleo fabril, era imprescindível que
a localidade oferecesse algumas condições específicas, tais como, proximidade de fontes
energéticas, fácil acesso a chegada de matérias-prima, abastecimento de água, e viabilidade
para o escoamento da produção. Além disso, a existência de uma força de trabalho local ou
migrada de outras áreas e regiões.
Delmiro Gouveia enxergou que a pacata, mas estratégica vila da Pedra, comportaria
um núcleo fabril:
A localização de Pedra conciliava demandas referentes a controle social com
uma posição estratégica em relação a meios de transporte e a fontes de
matéria-prima e de energia. Sua localização era estratégica em termos
econômicos. Situada a 24 Km da Cachoeira de Paulo Afonso, Pedra
encontrava facilidades para o uso de energia elétrica e água, captadas no São
Francisco, bem como a possibilidade de utilizar o transporte fluvial no
escoamento da produção. Sua localização permitia, ainda, a utilização da
Ferrovia de Paulo Afonso.325
Mesmo localizada no semiárido, Sertão alagoano, havia na vila da Pedra todas as
condições para implatanção de um núcleo fabril. Em 1915, conforme Tigre Bastos: “Graças a
iniciativa do coronel Delmiro Gouveia, a localidade [Pedra] vai tomando grande
324
325
IDEM, p. 75.
IDEM, p. 224.
105
incremento, constituindo-se ali um núcleo florescente em que toda gente pensa em trabalhar e
produzir”.326
Esse processo exigiu mais do que ensinar a utilizar as máquinas, pois esses
trabalhadores passaram por uma transformação radical e violenta, tanto na forma de trabalhar
como de viver. Nesse sentido a educação escolar foi muito importante, pois através dela
introjetava-se novos valores coerentes com a ideologia liberal burguesa. Mas a forma de
educação mais importante foi a reprodução violenta do cotidiano disciplinado.
3.7 A funcão da educação escolar nas vilas e núcleos operários
No dia 1º de maio de 1914, um mês antes da inauguração do Fábrica de Linhas da
Pedra, o Jornal de Alagoas publicou nas suas colunas um artigo assinado por Luiz de França
Albuquerque com o título ―A educação e o trabalho‖. Confessadamente apoiado no
Positivismo de August Comte, o autor defende o acesso do proletariado à instrução para que
esses possam conhecer os modernos inventos da indústria decorrentes do desenvolvimento da
Ciência Positiva.327 A reportagem do jornal alagoano expressava o pensamento de uma
corrente sociológica que, segundo Telma de Barros Correia, visava:
A extensão do ensino aos proletários foi preconizada pelos positivistas que,
no entanto, recomendavam para eles uma instrução diferente daquela
ministrada às elites, a qual, segundo Comte, se estendida aos pobres, poderia
ter uma influência extremamente pertubadora, desenvolvendo neles o
desgosto pelas ocupações materiais e ambições exorbitantes. Para os
proletários, postulavam o ensino normal, entendido como elemento de apoio
ao Estado na manutenção da ordem. Tal instrução deveria enfatizar a
obediência em contraposição ao raciocínio. 328
A educação escolar em Pedra foi implantada, no ano de 1915. O jornalista Bastos
Tigre, então, refere-se a existência de duas escolas, ambas mantidas pela fábrica. 329 No ano
seguinte, Mário Melo diz haver na vila quatro escolas, funcionando durante os horários
326
TIGRE apud MELLO, 1998, p. 95.
Jornal de Alagoas, 01 de maio de 1914, p. 2.
328
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.144.
329
TIGRE apud MELLO, 1988, p. 95.
327
106
diurnos e noturnos, sendo o material fornecido gratuitamente pela fábrica.330 Assis
Chateubriand, em 1917, descreve o funcionamento da educação escolar em Pedra:
As crianças de cinco e seis anos para cima, todas frequentam as escolas, que
são oito, [...] (se) o menino não sabe a lição. O professor castiga-o dandolhes frases como essas para que ele as copie trinta, quarenta vezes em casa:
‗Não devei desobeder vosso pai‘; ‗não se cospe no chão‘; ‗não se conversa
na igreja‘; ‗ não se desrespeitam as pessoas idosas‘; ‗sêde bons para os
animais‘; ‗a imundíce é um vício‘; ‗não se deve andar armado‘ etc. etc. Os
pais vêem as crianças escrevendo essas coisas e começam a pensar nelas,
naturalmente se adaptando aos aspectos novos da sociedade, que lhe vão
sendo impostos pela disciplina ou sugeridos pela educação. 331
A fábrica utilizava-se de meios coercitivos para garantir, o ingresso de todas as
crianças nas escolas. Na nota da diretoria, publicada em março de 1925 no Correio da Pedra,
reafirmava-se uma antiga ordem. Veja-se em detalhes o teor do aviso:
Fazemos ciente aos nossos operários que, conforme antiga ordem, continuam
todos os pais de família no dever de matricular seus filhos nas diversas
Escolas desta vila, obrigando-as à necessária frequência sob pena de serem
dispensados dos nossos serviços, e, consequentemente, lhes serem tomadas
as casas. Na certeza de que está redundará em benefícios gerais, declaramos
irrevogável esta resolução, esperando a sua observância por parte de todos os
interessados.332
Várias outras notas sobre a obrigatoriedade do ensino escolar já haviam sido
publicadas no jornal Correio da Pedra a mando da diretoria da fábrica:
Amanhã, segunda-feira, 5 de janeiro do corrente, conforme determinação do
sr. Adolpho Santos, Fiscal do Ensino, serão abertas as seis escolas desta
Vila. A gerência da Fábrica de linhas, tendo em muita conta o
desenvolvimento da instrução, renova como nos anos anteriores, suas
recomendações sobre a obrigatoriedade da matrícula de todas as crianças,
fazendo ver aos senhores pais de família que tomará enérgicas providências
a respeito daqueles que não levarem os seus filhos às aulas. 333
330
MELO apud MELLO, 1988, p. 95.
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. Diário de Pernambuco, 10 de setembro de 1917, p. 3.
332
Correio da Pedra, 08 de março de 1925, p. 2.
333
Correio da Pedra, 04 de janeiro de 1925, p. 2.
331
107
As notas sobre a educação escolar não se restrigiram apenas a chamadas de
matrículas. Publicavam-se também os resultados do exames, escola por escola.334 Quando em
1925, uma nova diretoria assume a Fábrica da Pedra, o ensino escolar foi indicado nas
primeiras propagandas como um dos elementos necessários para a confecção de suas
mercadorias superiores as dos seus concorrentes. ― Na Vila da Pedra, o Trabalho e a
Instrução, andam sempre de mãos dadas, e que, com o Asseio e o Conforto dispensados aos
operários concorre para o acabamento perfeito das nossas linhas‖.335 (grifos originais)
Montar escolas voltadas para as famílias operárias não fora exclusividade dos
proprietários da fábrica da Pedra. Era prática comum entre os empresários da época. Em
Fernão Velho, por exemplo, um dos mais antigos nucleos fabris do Brasil,
localizado
próximo à capital alagoana, havia uma imponente escola funcionando já na década de 1910. 336
Para Telma de Barros Correia, a obrigatoriedade da educação primária imposta por
Delmiro às crianças de Pedra, seguida a risca pelos seus continuadores, estava em
concordância com uma concepção da necessidade e dever dos dirigentes em constranger os
pobres sertanejos, pois não acreditavam que esses levassem seus filhos a escola por conta
própria.337
Sobre essa questão do ensino escolar nos empreendimentos industriais, o jornalista
Hildebrando Menezes transcreve trechos de um palestra realizada na cidade de Jatobá-PE, em
agosto de 1923, por um capitalista pernambucano recém chegado dos Estados Unidos
conhecido como dr. Brandão Cavalcante. Preste a montar um núcleo fabril no Estado de
Pernambuco, revela as estratégias que irá utilizar para tornar seus operários mais produtivos,
Aos nossos operários forneceremos escolas, sendo a instrução obrigatória
para eles e filhos. Quem não souber e não quizer aprender, não pode ser
operário nosso. Em nossas escolas, haverá o ensino religioso; naturalmente
não obrigaremos ninguem a fazer práticas religiosas, mas, dentro de nossas
possibilidades, levaremos os nossos operários a obedecer a certos ditames da
moral. É preciso dizer que não fazemos isto por sentimentos de
filantropia, nem desejos de reformar o mundo, (...) faremos por vermos
nessa nossa resolução um alto fim industrial. O operário que estuda, que
aprende, que assiste em cinemas à passagem de filmes uteis, cria
aspirações que deseja realisar e para isto, precisando gastar, tem
334
Correio da Pedra, 02 de dezembro de 1923, p. 2.
Jornal de Alagoas, 03; 04; 05; 06 e 07 de junho de 1925, p. 1.
336
LESSA, Golbery Luiz. ―Trama da memória, urdidura do tempo: ethos e lugar dos operários têxtis alagoanos.‖
Ténorio, Douglas Apratto e Golbery Luiz Lessa. O ciclo do algodão e as vilas operárias. Maceió: Sebrae, 2013.
97-184, p. 142.
337
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
249.
335
108
necessidade de ganhar mais. É certo, portanto, que se esforçará por
produzir tanto quanto lhe for possivel.338
O depoimento acima, certamente feito para pares capitalista revela os verdadeiros
interesses que levaram vários industriais a montarem e incentivarem o ensino escolar para o
proletariado. Ate porquê, segundo Marx, ―a burguesia, que, ao criar para seus filhos as
escolas especiais tão somente às tendências íntimas da produção moderna, concedeu
unicamente aos proletáriados uma sombra de ensino profissional‖.339 Edvaldo Nascimento,
pesquisador da vida e da obra de Delmiro Gouveia, afirma que o capitalista cearense,
[...] objetivava, com suas ações educacionais, evidedentemente, preparar
mão de obra [de origem] rural [e] sertaneja para indústria, o que resultou em
Pedra ser transformada em referência de ‗ordem e progresso‘ que se
traduziria em ‗civilização‘, ainda que para isso grande violência moral e
física tivesse que ser empregada, mediante o uso de uma pedagogia
behaviorista. 340
A escola desempenhava um papel importante na formação da futura mão de obra:
―nela, recebiam os conhecimentos e as instruções básicas para se converterem nos futuros
operários eficientes, sóbrios, obedientes e disciplinados desejados pela fábrica‖.341 Os
objetivos da educação oferecida no núcleo fabril de Pedra atendiam prioritariamente aos
interesses bem particulares de seus proprietários.
Mas além da implantação do processo de educação formal, Delmiro Gouveia
também se utilizou de outros mecanismos para formar o ―operário ideal‖ para sua indústria.
Dentre esses destacam-se os chamados prazeres honestos.
3.8 Serviços essenciais e prazeres honestos
338
MENEZES, Hildebrando. Conversando com o dr. Brandão Cavalcante. Correio da Pedra, 19 de agosto de
1923, p. 1.
339
MARX, Karl. O Capital. Trad. Gabriel Deville. Bauru: EDIPRO, 2008, p. 145. [Edição
condesada].
340
NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. Delmiro Gouveia e a educação na Pedra. Maceió: Viva Editora,
2013, pp. 214 e 215.
341
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: Plano e cotidiano operário no sertão. Campinas: Papirus, 1998, p.
247.
109
O tempo livre nos núcleos fabris era preocupação dos seus próprietários. Era preciso
que, mesmo fora da fábrica, o trabalhador continuasse sendo moldado segundo os interesses
do patrão. É a partir dessa ideologia que são criadas as escolas, os cinemas, as bandas de
músicas e os clubes esportivos. O núcleo da Pedra dispunha de todos esses mecanismos.
O incentivo a práticas de esportes modernos como o rúgbi, o ciclismo e o futebol tem
uma estreita ligação com o progresso do capitalismo na sua fase industrial. O futebol, por
exemplo, tem suas origens na Inglaterra, país pioneiro na Revolução Industrial. As regras
oficiais para a prática do esporte mais popular no mundo são datadas de 1863, período em
que:
Essa nova noção de tempo tende a normatizar também o tempo livre do
trabalhador, comprometendo-o com atividades de lazer, que ao contrário do
ócio – é produtivo, contribuindo para moldar e capacitar fisicamente para o
trabalho.342
O futebol era visto pelos industriais como uma boa alternativa para se estabelecer
normas. Pois para sua prática o jogador precisa assimilar as dimensões do campo, o tamanho
da bola, a duração de uma partida, a quantidade de jogadores, a obediência a um árbitro, entre
outras, além de desenvolver o espírito de competição e a noção de produtividade.
Não temos como afirmar com precisão quando foi introduzido o futebol em Pedra,
mas inegavelmente ele tinha um papel de destaque no núcleo, basta analisar como em quase
todas as edições do jornal Correio da Pedra havia alguma informação sobre futebol;
convocação e escalação para treino do Sport Clube Pedra, comentários de partidas etc. 343
Havia também uma banda de música formada por operários e mantida pelo
proprietário da fábrica. O operário que tocasse na banda era dispensado duas horas do
trabalho para os ensaios que era regido por um mestre especial. 344 A banda era a responsável
pela animação das festas e dos bailes promovidos pela fábrica, sempre com horário para
iniciar e para acabar fixado.
342
IDEM, p. 245.
Correio da Pedra, 02 de julho de1922, p. 2. Comentários sobre o desenrolar da partida iniciada no sábado à
tarde, porém concluída apenas no domingo à tarde, pois a bola furou antes do ―match‖ no sábado. Observa-se a
utilização de muitas expressões de origem inglesa, tais como, ―referee, goal keeper, shoot, half-time, half back,
off side‖.
344
MELO apud MELLO, 1988, p. 96.
343
110
O rinque de patinação e o carrossel eram instrumentos complementares a educação
das crianças e dos jovens, somente acessível àqueles que tirassem boas notas na escola e não
aprontassem nenhuma ―traquinagem‖. Aos jovens eram impostas normas de dencência: ―Ao
rinque, nos domingos, só é permitido ir vestido decentemente e de gravata. Patina-se e
dança-se com orquestra. Toda a gente vai-se divertir ali. É o ponto de rendez-vous geral‖.345
Além do lazer regrado a fábrica também se preocupava com a saúde dos seus
trabalhadores. A fábrica disponibilizava assistência médica e medicamentos. Para esses
serviços era descontada semanalmente uma quantia nos salários dos operários. Essa quota era
somada ao dinheiro das multas. Contudo, salientou Mário Melo, que ―a cota operária
representa apenas um auxílio, pois, somente o ordenado do médico monta um conto de
réis‖.346
Hildebrando Menezes sugestiona que o médico e a fármacia tenha contribuido
bastante para o crescimento demográfico da localidade e dos municípios limítrofes. O médico
e a farmácia da Pedra eram ponto de convergência dos doente sertanejos. De modo que a
Pedra passou a ser referência para os sertanejos carentes de trabalho e de saúde. 347 Por outro
lado, o fato de dispor de médico e remédios funcionava como elemento inibidor caso algum
operário procurasse justificar uma possível falta ao trabalho alegando problemas de saúde.
Enfim, no núcleo fabril da Pedra tudo foi pensado e preparado para que todos os que
ali residessem se integrassem ao processo produtivo. A aplicação de jornada de trabalho de
oito horas, a obrigatoriedade da educação, o estimulo às práticas de ―prazeres honestos‖,
dentre outros aspectos, visavam prioritariamente formar operários produtivos e obedientes.
345
CHATEAUBRIAND, Assis. Uma resposta a Canudos. Diário de Pernambuco, 10 de setembro de 1917, p. 3.
MELO apud Mello, 1988, p. 97.
347
MENEZES, Hildebrando. Delmiro Gouveia: vida e morte. Rio de Janeiro: Quipapá, 1966, p. 102.
346
111
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A seca de 1877, que assolou grande parte das províncias do Norte, foi um evento
catastrófico. Milhares de pessoas morreram vítimas de fome ou doenças epidêmicas. Os
rebanhos bovinos foram dizimados devido à falta de água e pastagem para se alimentar. A
economia regional desorganizou-se completamente, instalou-se em larga escala a fome, o
êxodo rural, a violência, a prostituição e a agiotagem.
Multidões emigraram dos seus hábitats buscando socorros em outras regiões. É ponto
passivo que a província do Ceará foi a mais afeta. Contudo, todas as províncias do Norte
sofreram os efeitos do devastador cataclismo, a província de Alagoas, por exemplo, teve boa
parte do seu território ocupado por emigrantes que andavam centenas de quilômetros até as
margens do Rio São Francisco em busca de socorro. Existe uma farta documentação de
natureza oficial (relatórios, ofícios, telegramas) produzida pelas autoridades políticas, além de
diversas reportagens em jornais locais descrevendo à situação. Em vários municípios
alagoanos foram instaladas comissões de socorros públicos, privilegiou-se as localidades onde
havia navegação comercial, isso por nestes lugares o socorro era mais ágil.
Na tentativa de amenizar a situação criou-se por decreto a Colônia São Francisco, no
município de Porto Real do Colégio, para abrigar os retirantes da seca que não para de chegar
a Alagoas. Mas a colônia não era consenso, pois muitos entendiam que os milhares de
emigrantes que aqui chegaram poderiam emprega-se na construção de uma via férrea havia
sido projetada quase uma década, as parte navegáveis do São Francisco.
A utilização da força de trabalho dos retirantes foi fundamental para construção da
ferrovia Paulo Afonso, sem ela obra não teria sido levada adiante isso porque a legislação
brasileira proibia a utilização de mão de obra servil na construção das estradas de ferro no
País.
A despeito da vinda de Delmiro Gouveia para Alagoas, chegamos à conclusão de que
o que o motivou a sair do Recife para o sertão alagoano foram às vantagens econômicas
oferecidas pela oligarquia Malta, que vão desde isenções de impostos sobre as exportações de
couros e peles a concessões públicas, inclusive para montagem da Usina de Angiguinhos e a
Fábrica da Pedra, realizações feitas uma década depois sua chegada ao território, ressalta-se
112
que as informações temos é de que Delmiro tenha ao sertão alagoano falido, o que nos induz a
pensar que foi aqui esse recompôs seu capital.
No tocante a organização do núcleo fabril, relatado como ambiente harmônico, de
paz, trabalho e progresso, um verdadeiro ―oásis no deserto‖ trata-se de uma ideia falsa, tratase discursos de verve classistas e estereotipados que se negam em enxergar a contradição
inerente ao modo de produção capitalista entre trabalho e capital.
Embora, no núcleo da Pedra fosse promovido e incentivado o ensino escolar, a
prática de esporte, a disponibilização de assistência médica e habitações higiênicas, tudo isso
era pensado para favorecer exclusivamente a produção de mercadorias. Tudo no núcleo da
Pedra se atrelava produção, a casa, os outros espaços dentro núcleos do funcionavam com
compêndios da fábrica, até mesmo as crianças já eram admoestadas de muito jovens.
Pensamos que houve resistência por parte dos operários ao modo de viver e trabalhar
do núcleo da Pedra, contudo, os limites de natureza documental não nos permitiu adentrar
neste campo, quem sabe numa futura pesquisa tal limite seja superado?
113
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ANEXOS
ANEXO A - Mapas
ANEXO B - Fotografias
ANEXO C - Fontes e bibliografia
FONTES MANUSCRITAS
Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas
Oficio de 22 de março de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da
Vila das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mar.
1878. 38F. (doc. 00900-12-01-07).
Telegrama, nº 223, Maceió, 26 de abril de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos
Flagelados da Seca da Vila das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida
Comissão. 01 a 30 Abr. 1878. 135F. (doc. 00901-12-01-08).
Ofício, de 3 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila
das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai. 1878.
120F. (doc. 00903-12-02-01)
Telegrama, 8 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da
Vila das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai.
1878. 120F. (doc. 00903-12-02-01).
Ofício, 14 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da Vila
das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai. 1878.
120F. (doc. 00903-12-02-01).
Ata da instalação da Colônia São Francisco. Porto Real do Colégio. 23 de maio de 1878. 0F2.
(doc. 00904-12-02-02).
Telegrama, 24 de maio de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da
Vila das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Mai.
1878. 120F. (doc. 00903-12-02-01).
Ofício, de 1 de agosto de 1878. ―Comissão Central de Socorros aos Flagelados da Seca da
Vila das Alagoas. Várias correspondências recebidas pela referida Comissão. 01 a 31 Ago.
1878. 68F. (doc. 00916-12-03-02).
Lista dos retirantes que embarcaram no vapor Gonçalves Martins no dia 19 de Julho de 1878.
(doc. nº 00907 12-02-05).
Lista dos retirantes que embarcaram no vapor Conde Edu no dia 20 de Julho de 1878. (doc. nº
00907 12-02-05)
Colônia de São Francisco. Relatório comunicando a eliminação de vários colonos. Porto Real
do Colégio, 17 de novembro de 1878. 08F. (doc. 00925-12-03-11).
Arquivo Público de Alagoas
Quadro de retirantes socorridos pela adimnistração superior da Estrada de Ferro de Paulo
Afonso no período de 26 de Julho de 1878 a 29 de Fevereiro de 1880. EFPA, (Cx. 2217).
Relatório dos trabalhos da Estrada de Ferro de Paulo Afonso – 1881, EFPA, 1878/1890. (Cx.
2217).
Oficio nº 7 de 21 de fevereiro de 1879. EFPA, (Cx. 2217).
Documento nº 4 de 22 de fevereiro de 1879. EFPA, (Cx. 2217).
Estrada de Ferro Paulo Affonso. Piranhas, Escritório Geral em 6 de setembro de 1880. EFPA,
(Cx. 2217).
Estrada de Ferro Paulo Affonso. Piranhas, Escritório Geral em 11 de fevereiro de 1879.
EFPA, (Cx. 2217).
Nota de alguns trabalhadores que vieram do Rio de Janeiro. Está conforme ás folhas de
pagamento do mês de janeiro de 1879, elaborada pelo Secretário Manoel do N. Alves
Linhares, EFPA, (Cx. 2217).
FONTES IMPRESSAS
Periódicos
CORREIO MERCANTIL – 1863.
A ACTUALIDADE – 1863.
O PÃO D'ÁSSUCAR - 1877.
JORNAL DO PENEDO – 1877; 1878.
O MONITOR – 1877.
JORNAL DO RECIFE – 1898;1899; 1900; 1912
JORNAL DO POVO – 1899.
A NOTÍCIA (Rio de Janeiro) – 1899.
GAZETA DE NOTÍCIAS (Recife) 1899.
JORNAL PEQUENO – 1900; 1909.
A PROVÍNCIA – 1900; 1901; 1902; 1914.
GUTENBERG (Maceió) - 1907;1908;1909.
A TRIBUNA (Rio de Janeiro) – 1911.
JORNAL DE ALAGOAS – 1911; 1914; 1915; 1918; 1923;1925.
DIÁRIO DE PERNAMBUCO – 1916;1917.
A SEMANA SOCIAL – 1917.
TRIBUNA DO POVO (Recife) – 1918.
CORREIO DA PEDRA – 1922; 1923; 1925; 1927.
DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE ALAGOAS – 1939.
Almanaques
(Hemeroteca digital da Biblioteca Nacional)
Almanak Administrativo da Província das Alagoas para o ano de 1878, contratado por
Amintas & Filho (sétimo ano). Maceió. Typographia Social, 1878.
Almanak Administrativo Estado de Alagoas para o ano de 1891, Editor proprietário Antonio
Alves. (ano XX) Maceió. [ilegível], 1891.
Falas, Relatórios e Mensagens dos Presidentes de Província e Governadores de Estado
RELATÓRIO lido perante a Assembléia Legislativa da Província das Alagoas no ato de sua
instalação em 16 de março de 1870 pelo presidente da mesma Exm. sr.dr. José Bento da
Cunha Figueredo Júnior. Maceió: Typ. Commercial de A. J. da Costa, 1870.
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. Dr. Francisco de Carvalho Soares Brandão, presidente da
Província das Alagoas, passou a administração da mesma Província o Sr. Dr. Thomaz do
Bonfim Espíndola, 1º Vice-Presidente. Em 11 de março de 1878. Maceió: Typ. do Liberal,
1878.
FALLA com que o Exm. Sr. Dr. Francisco de Carvalho Soares Brandão, Presidente da
Província instalou a 1ª Sessão Ordinária da 22ª Legislatura Provincial das Alagoas em 16 de
abril de 1878. Maceió: Typographia do Liberal, 1878.
FALLA com que Cincinato Pinto da Silva Presidente da Província instalou a 2ª sessão
ordinária da 22ª Legislatura Provincial das Alagoas em 30 de abril de 1879. Maceió:
[RASURADO, rasurado].
RELÁTÓRIO com que ao Exm. Sr. José Torquato de A. Barros, 2º Vice-Presidente passou a
administração da Província das Alagoas o Exm. Sr. Dr. Francisco de C. S. Brandão Presidente
da mesma Província Afim de tomar assento na Câm dos Deputados, 26 de novembro de 1878.
Maceio: Typ. do Liberal, 1879.
RELATÓRIO com que ao Exm. Sr. Dr. Cincinnato Pinto da Silva Presidente da Província
entregou a Administração ao Sr. Dr. José Torquato de Araujo Barros 2º Vice-Presidente em
28 de dezembro de 1879. Maceió: Typ. Liberal, 1879.
Leis, decretos e demais atos legais
COLLEÇÃO DAS LEIS DO IMPÉRIO DO BRASIL DE 1878. TOMO XLI. Rio de Janeiro:
Typ. Nacional, 1879.
SECRETARIA DE ESTADO DOS NEGÓCIOS DA AGRICULTURA, COMÉRCIO E
OBRAS PÚBLICAS. Autoriza os estudos definitivos e construção da estrada de ferro Paulo
Afonso, nas Províncias de Alagoas e Pernambuco. Instruções a que se refere a Portaria de 19
de Junho de 1878. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1878.
ESTADO DE ALAGOAS. Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Bacharel Euclides Vieira
Malta, Governador do Estado de Alagoas, pelo Secretário dos Negócios da Fazenda, Dr.
Francisco Pontes de Miranda, no dia 30 de março de 1907. Maceió: Typografia e Papelaria de
Tavares Irmão & Cia., 1907.
ESTADO DE ALAGOAS. Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo do Estado de
Alagoas, no dia 15 de abril de 1916, pelo Governador do Estado, Dr. João Batista Accioly
Junior. Maceió: Typ. A Vapor da Casa Ramalho, 1916.
COLEÇÃO DE LEIS E DECRETOS DO ESTADO DE ALAGOAS promulgados em 1910.
Maceió: Typ. Vapor do livro comercial, 1913.
COLEÇÃO DE LEIS E DECRETOS DO ESTADO DE ALAGOAS promulgados em 1914.
Maceió: Typ. A Vapor da Casa Ramalho, 1920.
Obras literárias
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QUEIROZ, Raquel de. O Quinze. Versão em e-book. São Paulo: José Olympio, 1984.
LIMA, Pedro Motta. Fábrica da Pedra. Brasília: Senado Federal/Conselho Editorial, 2013.
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