Adricia Carla Santos Bonfim
ONDE ESTÃO AS MULHERES NEGRAS NO MOVIMENTO DE MULHERES DE ALAGOAS NA REDEMOCRATIZAÇÃO?
Resumo
As mulheres brasileiras tiveram participação ativa nas lutas políticas ao longo da história. Na década de 1980 não foi diferente. Nesse contexto de reconfiguração e autonomia dos movimentos sociais, as mulheres alagoanas conformaram políticas de alianças, atuando em múltiplas frentes, como grupos de mães, associações de bairro, partidos políticos e outros coletivos, organizando encontros, atos políticos e fundando entidades voltadas à defesa de seus direitos. Tais práticas de liberdade possibilitaram a formação de uma rede de mulheres que interviu de forma expressiva no cenário político alagoano, ocupando cargos públicos, denunciando a ditadura civil-militar e enfrentando a violência de gênero, raça e classe. Nesse sentido, analiso as intersecções entre os movimentos negro e o de mulheres em Alagoas na década de 1980, a partir das intervenções femininas na União das Mulheres de Maceió (UMMa) e na Associação Cultural Zumbi (ACZ), entidades que se tornaram referência no enfrentamento à violência de gênero e racismo em Alagoas. Adotando as perspectivas de gênero (Judith Butler; Joan Scott, Joana Maria Pedro) e interseccional (Kimberle Crenshaw; Lélia Gonzalez; Angela Davis), em diálogo com a História Oral (Alessandro Portelli), busco compreender como raça, classe e gênero se entrelaçam nas experiências e lutas políticas das sujeitas atuantes. Para isto, faço uma análise de fontes orais, periódicos locais ( Gazeta de Alagoas ) e documentos pertencentes aos acervos do Grupo de Estudos e Pesquisas em História, Gênero e Sexualidade (GEPHGS/UFAL) e Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas da UFAL (NEABI/UFAL), além dos acervos pessoais compartilhados pelas pesquisadoras. Considerando que nos deparamos com uma omissão histórica e um apagamento sistêmico quanto à participação de diversos grupos e movimentos sociais, como os movimentos de mulheres, negro e LGBTQIA+ em Alagoas; bem como uma hegemonia masculina na produção historiográfica alagoana. Diante desse cenário, questiono: onde estavam as mulheres negras no movimento de mulheres em Alagoas? Como se deu a relação entre os debates de gênero e raça e quais as políticas e alianças estabelecidas entre as mulheres no período estudado? Este trabalho dialoga e expande a pesquisa apresentada em minha monografia: “ União das Mulheres de Maceió (UMMa): uma abordagem interseccional das lutas das mulheres cisgêneras na abertura (1970 – 1980)” . Dessa forma, gênero, raça e classe são situados em um campo de disputa aberto, marcado pela construção de memórias sobre o período da redemocratização.