“Na solidão e no silêncio, escreve”: história, literatura e recordação em memórias do cárcere (1953), de Graciliano Ramos” - Gerson Castro dos Santos
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
CAMPUS A. C. SIMÕES
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS, COMUNICAÇÃO E ARTE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
GERSON CASTRO DOS SANTOS
“NA SOLIDÃO E NO SILÊNCIO, ESCREVE”:
HISTÓRIA, LITERATURA E RECORDAÇÃO EM
MEMÓRIAS DO CÁRCERE (1953),
DE GRACILIANO RAMOS
MACEIÓ-AL
2025
GERSON CASTRO DOS SANTOS
“NA SOLIDÃO E NO SILÊNCIO, ESCREVE”:
HISTÓRIA, LITERATURA E RECORDAÇÃO EM
MEMÓRIAS DO CÁRCERE (1953),
DE GRACILIANO RAMOS
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-graduação em História da Universidade
Federal de Alagoas, como requisito para
obtenção do título de mestre em História.
Orientador: Prof. dr. Anderson da Silva
Almeida.
MACEIÓ-AL
2025
Catalogação na Fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecário: Marcelino de Carvalho Freitas Neto – CRB-4 – 1767
S237n
Santos, Gerson Castro dos.
“Na solidão e no silêncio, escreve” : história, literatura e recordação em Memórias
do cárcere (1953), de Graciliano Ramos / Gerson Castro dos Santos. – 2025.
[135] f. : il.
Orientador: Anderson da Silva Almeida.
Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Alagoas.
Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes. Programa de Pós-Graduação em
História. Maceió, 2025.
Bibliografia: f. 121-126.
Anexos: f. 130-[135].
1. Ramos, Graciliano, 1892-1953. Memórias do cárcere. 2. Memória na
literatura. 3. Autobiografia. I. Título.
CDU: 82-94
FOLHA DE APROVAÇÃO
GERSON CASTRO DOS SANTOS
“NA SOLIDÃO E NO SILÊNCIO, ESCREVE”:
HISTÓRIA, LITERATURA E RECORDAÇÃO EM
MEMÓRIAS DO CÁRCERE (1953),
DE GRACILIANO RAMOS
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-graduação em História da Universidade
Federal de Alagoas, como requisito para
obtenção do título de mestre em História e
defendida em 18 de novembro de 2025.
Banca examinadora:
Orientador: Prof. dr. Anderson da Silva Almeida
(Universidade Federal de Alagoas)
Examinador externo: Prof. dr. Alexandre Veloso de Abreu
(Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais)
Examinador externo: Prof. dr. César Augusto Martins de Souza
(Universidade Federal do Pará)
Examinadora interna: Profa. dra. Ana Cláudia Aymoré Martins
(Universidade Federal de Alagoas)
DEDICATÓRIA
À Raimunda - minha Velhinha; às nordestinas
e nordestinos da minha vida; às meninas e
meninos com quem tive a alegria de dividir a
sala de aula: dedico esse trabalho a vocês.
AGRADECIMENTOS
Toda história tem um começo e, por isso, abro essa página reverenciando minhas
origens.
À minha Velhinha, “antes de tudo uma forte”: obrigado por me ensinar a ler e a amar
as palavras; pelo amor e apoio; pelas boas risadas e pelas broncas. Ao meu pai que, como rio,
nasceu num vale e se tornou mar, porque “mar é o que a gente tem saudade?”; sua passagem
foi breve e marcante e, além de carinho e amor, deu-nos, a mim e ao meu irmão, consciência
de classe e caráter firme. Cidadão Guilherme, meu frater: “você tem as marcas de conciso
valente”; obrigado por estar ao meu lado e pelo apoio no “aguentar o existir”. Atravessar os
vários “lisos do Sussuarão” dos últimos trinta anos seria impossível sem você.
Gratidão a quem se tornou parte do meu destino, meu “pouquinho de saúde, um
descanso na loucura”, minha companheira, Ane; à minha família alagoana - d. Arlete, Ariel,
Albanise e Helena – pelo acolhimento e pelo cuscuz.
Minhas amigas e meus amigos: vocês valem “mais que uma boa carabina”. Ao
escrever seus nomes, com certeza me esquecerei de alguém, mas alguns precisam ser
registrados. Agradeço à Leidiane; à Karina e ao Leo; ao Júlio; ao Raul e à Renata. Ao seu
lado, ando desarmado, porque amigo “é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que
é que é”.
Caminhadas se tornam mais fáceis perto de quem entende nossas motivações. Em
Vidas secas, Fabiano tinha os meninos, sinhá Vitória, Baleia; Riobaldo atravessou os Gerais
ao lado de Diadorim. No PpgH da Ufal, estive ao lado de muita gente boa. Altina, Derllânio,
Hugor, Ingrid, Matheus, Nara e Sheyla: obrigado pelas trocas - de conhecimento, de alegrias,
de angústias, de experiências, de formas de existir e resistir.
O mesmo Fabiano diz que “Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria aprender mais,
e nunca ficaria satisfeito”. Graças às pessoas que chamei, com respeito e admiração, de
professora e professor, sou insatisfeito. A vocês, minha gratidão. Incluo as mestras e mestres
da Ufal que, com humildade, dividiram o seu conhecimento, e a banca examinadora: prof. dr.
Alexandre Veloso de Abreu, profa. dra. Ana Cláudia A. Martins e prof. dr. César Augusto M.
de Souza. A participação dos senhores e da senhora enriquece muito esse trabalho. Conheci o
prof. Alexandre há dez anos. Além dos seus valiosos comentários durante a banca de
qualificação, o prof. Alexandre me ajudou a encerrar um ciclo. Sua competência e
conhecimento da Literatura foram, sem dúvida, alguns dos motivos pelos quais o convidei.
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Mas a certeza de que sua participação seria necessária veio quando comprei um livro num
sebo on-line e, ao recebê-lo, li a sua assinatura na folha de rosto. Como disse Riobaldo, “o
diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! [...] Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na
lei do mansinho [...]”. Ainda não estou seguro sobre a existência de Deus e do diabo, mas
creio que há algo aqui para ser aprendido.
Um agradecimento especial ao nosso orientador, o prof. dr. Anderson Almeida. Nos
últimos dois anos, o prof. Anderson apontou cantos ensombrecidos da pesquisa e do texto;
quando minha luz foi insuficiente, ele compartilhou a sua para que eu cumprisse a tarefa de
iluminá-los. Conhecê-lo foi como encontrar o “orgulhoso camarada” da canção Morro velho;
enquanto o protagonista de Morro velho era “de viola em vez de enxada”, o prof. Anderson é
camarada “de viola e de enxada”. Sua orientação combina inteligência, sensibilidade e ética
para conduzir o pesquisador à correção científica e à beleza, que pode - e deve - existir no
texto acadêmico. Além disso, num ambiente muitas vezes hostil, o prof. Anderson
demonstrou alteridade, compreendendo minhas limitações, muitas vezes emocionais.
Obrigado pela compreensão diante dos vários obstáculos não acadêmicos que enfrentei; pela
cobrança, assertiva e gentil, encerrada com palavras de incentivo ao final de cada encontro ou
mensagem; e, claro, pelos apontamentos sobre escrita, teoria e metodologia. Sua parceria é
preciosa e rara.
“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”; ao longo dos
anos, conheci meninas e meninos especiais, com quem dividi a sala de aula e aprendi mais do
que ensinei: de andar a cavalo a colher hortaliças, de prever o tempo observando formigas até
respeitar pessoas e suas vivências. Obrigado à cada uma e a cada um.
Aos parceiros das livrarias Berinjela, Crisálida, Sebolar e Ubuntu, agradeço o auxílio
na aquisição de material e pelos “tesouros” que recebi. Durante um dos seus “garimpos”, a
Laís, do Sebolar, lembrou-se de mim quando encontrou uma primeira edição brasileira de A
peste, de Albert Camus, traduzida por Graciliano Ramos em 1950; insatisfeito com as
intromissões do editor, um contrariado “Graça” pediu para ser identificado apenas por “GR”.
Por muito tempo eu me senti “um pobre ser esmagado, avizinhando-se da loucura”.
Agradeço à Salete, psicoterapeuta que me ajuda no cuidado com a saúde mental. Sem sua
participação, não existiria sequer o projeto dessa pesquisa.
Por fim, obrigado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal).
O interesse da Fapeal em ampliar o conhecimento sobre a riqueza histórica e cultural do
estado que aprendi a amar e a chamar de “casa” a levou a financiar meu trabalho. E, embora
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essa dissertação seja sobre aquilo a que alguns chamam de “cultura”, “imaginário” e até
mesmo “espírito”, ela não se realizaria sem recursos materiais.
Graciliano Ramos não pode ser chamado um
“profissional da pena”, ainda que viva
exclusivamente de escrever. Escreve quando
sente que tem alguma coisa a dizer de útil ou
interessante. Graciliano Ramos tem sempre
algo de útil ou interessante a dizer. E é para
isso que se levanta todos os dias de 3 horas da
madrugada e, na solidão e no silêncio, escreve.
Rui Facó. “Graciliano Ramos, escritor do
povo e militante do Partido Comunista”.
Tribuna Popular, n. 54, ano I, 26 ago. 1945.
RESUMO
Essa dissertação analisa o livro Memórias do cárcere (1953) (Mc), do escritor alagoano
Graciliano Ramos (1892-1953). Trata-se do testemunho do autor sobre sua prisão, em 1936,
no contexto da escalada autoritária que culminou no Estado Novo (1937). Pretendemos
contribuir com a compreensão acerca das correlações existentes entre História, Literatura e as
memórias individual e coletiva. Enquanto objeto historiográfico, Mc é fonte histórica valiosa
e constitui o que Michael Pollak e Pierre Nora chamam “lugar de memória”. A “cartografia”
de Mc se refere a dois “lugares" cronológicos: o biênio 1935-1936, quando ocorrem as
rebeliões comunistas no Nordeste que resultaram na prisão do escritor e o intervalo entre as
décadas de 1940 e 1950, período da elaboração do livro, que coincide com a atividade política
do autor e de onde é possível entrever tensões internas no Partido Comunista do Brasil (PCB),
do qual Ramos fazia parte desde 1945. Ao dispensar anotações e fazer da memória sua única
fonte, o escritor escreveu texto que combina as escritas memorialística e literária. Seu uso
como documento exige esforços na localização de elementos factuais e fictícios, mesmo que o
livro seja vestígio de uma época verificável na realidade objetiva. Todos esses fatores fazem
de Mc livro único e provocativo, cuja leitura, análise e fruição exigem atenção de quem aceita
o desafio proposto por Graciliano. Para alcançar nosso objetivo, pesquisamos, além de Mc,
artigos, cartas, crônicas e entrevistas do escritor. A base teórica está ancorada em diversos
trabalhos, entre os quais A escrita da História (1982), de Michel de Certeau; A memória
coletiva (1990), de Maurice Halbwachs; A memória, a História, o esquecimento (2007), de
Paul Ricoeur; Los trabajos de la memoria (2012), de Elizabeth Jelin; os artigos de Michael
Pollak e Pierre Nora sobre “lugares de memória” e de Sandra Pesavento sobre as
aproximações e distanciamentos entre a História e a Literatura (2003; 2006). Também
constituem apoio teórico importante o estudo da historiadora Ângela de Castro Gomes sobre a
“escrita de si” (2004) e o trabalho do crítico Philippe Lejeune sobre autobiografia e pacto
autobiográfico (2008).
PALAVRAS-CHAVE: “Trabalhos de memória”; Memórias do cárcere; Graciliano Ramos;
memória; autobiografia.
ABSTRACT
This dissertation analyzes the book Memórias do cárcere (Memoirs from prison) (1953) (Mc),
by the writer from Alagoas, Graciliano Ramos (1892–1953). It constitutes the author’s
testimony about his imprisonment in 1936, within the context of the authoritarian escalation
that culminated in the Estado Novo (1937). The study seeks to contribute to the understanding
of the correlations among History, Literature, and both individual and collective memory. As
a historiographical object, Mc is a valuable historical source and embodies what Michael
Pollak and Pierre Nora define as a “site of memory.” The “cartography” of Mc refers to two
chronological “places”: the biennium 1935–1936, when the communist uprisings in the
Northeast led to the writer’s imprisonment, and the period between the 1940s and 1950s,
when the book was written—coinciding with Ramos’s political activity and revealing internal
tensions within the Brazilian Communist Party (PCB), of which he had been a member since
1945. By dispensing with notes and relying solely on memory as his source, the author
produced a text that blends memoir and literary writing. Its use as a document requires efforts
to discern factual and fictional elements, even though the book remains a trace of a
historically verifiable period. All these factors make Mc a unique and provocative work,
whose reading, analysis, and appreciation demand the reader’s full attention to the challenge
proposed by Graciliano. To achieve our objective, we examined not only Mc but also Ramos’s
articles, letters, chronicles, and interviews. The theoretical framework is grounded in several
works, including The writing of History (1982), by Michel de Certeau; On collective memory
(1990), by Maurice Halbwachs; Memory, History, forgetting (2007), by Paul Ricoeur; Los
trabajos de la memoria (2012), by Elizabeth Jelin; articles by Michael Pollak and Pierre Nora
on “sites of memory”; and studies by Sandra Pesavento on the convergences and divergences
between History and Literature (2003; 2006). The research also draws upon Ângela de Castro
Gomes’s study on “writing of the self” (2004) and Philippe Lejeune’s work on autobiography
and the autobiographical pact (2008), which provide further theoretical support.
KEYWORDS: "Memory work"; Memórias do cárcere; Graciliano Ramos; memory;
autobiography.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - O Picapau Amarelo e a reforma da natureza (1952) ............................................. 14
Figura 2 - Bancários: A greve que fechou o caixa (1985) ...................................................... 16
Figura 3 - Um brinde! ............................................................................................................. 17
Figura 4 - Praça do Açude, Palmeira dos Índios (ca. de 1930) ............................................... 22
Figura 5 - O prefeito de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos (1928) ............................... 27
Figura 6 - O pai da gestão fiscal responsável nasceu em Alagoas (s.d.) ................................ 28
Figura 7 - O lenhador, Kazimir Malevich (1912) ................................................................... 44
Figura 8 - Graciliano Ramos preso no Rio de Janeiro (1936) ................................................ 57
Figura 9 - Soviets no Brasil! O Globo (26 jun. 1935) ............................................................. 61
Figura 10 - Capas da 1a. edição de Mc, por Santa Rosa (1953) ............................................. 64
Figura 11 - Exemplar do bloco mágico ................................................................................... 73
Figura 12 - Manuscrito da carta de Graciliano a Vargas, p. 1 (1938) ................................... 121
Figura 13 - Manuscrito da carta de Graciliano a Vargas, p. 2 (1938) ................................... 122
Figura 14 - Manuscrito da carta de Graciliano a Vargas, p. 3 (1938) ................................... 123
LISTA DE SIGLAS
BN ............................................................................................................... Biblioteca Nacional
Mc ............................................................................................................. Memórias do cárcere
MIA ..................................................................................................... Marxists Internet Archive
PCB ................................................................................................ Partido Comunista do Brasil
PCUS ............................................................................. Partido Comunista da União Soviética
PCS ................................................................................................ Partido Comunista Soviético
SB ............................................................................................................................. S. Bernardo
Vs .............................................................................................................................. Vidas secas
URSS ....................................... União das Repúblicas Socialistas Soviéticas / União Soviética
SUMÁRIO
PRÓLOGO - EU ME LEMBRO ......................................................................................... 14
INTRODUÇÃO - ELES AINDA ESTÃO AQUI ............................................................... 19
CAPÍTULO 1 - “ESCRITOR DO POVO” ......................................................................... 23
1.1 “Erros da inteligência” .................................................................................................... 23
1.2 “Minha arma é a pena” .................................................................................................... 32
1.3 “Consideramo-nos artesãos” ........................................................................................... 46
CAPÍTULO 2 - DESENCARCERANDO A MEMÓRIA ................................................. 60
2.1 “O barulho de 1935” ........................................................................................................ 60
2.2 Um trabalho de memória .................................................................................................. 65
2.3 “Novelo de casos” ............................................................................................................ 82
CAPÍTULO 3 - ENTRE CLIO E CALÍOPE: “UM SUJEITO MAIS OU MENOS
IMAGINÁRIO” .................................................................................................................... 93
3.1 “Clio se aproxima de Calíope” ........................................................................................ 93
3.2 “Um sujeito mais ou menos imaginário” ......................................................................... 98
3.3 “Ficção e confissão” ...................................................................................................... 108
CONSIDERAÇÕES FINAIS - CAVALOS, LIBERDADE E MEMÓRIAS .................. 115
EPÍLOGO - “YO NO CREO EN BRUJAS…” .................................................................. 120
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 122
FONTES CONSULTADAS ................................................................................................ 128
ANEXO A - CARTA NÃO ENVIADA DE GRACILIANO RAMOS A VARGAS ...... 131
ANEXO B - “O PAI DA GESTÃO FISCAL RESPONSÁVEL NASCEU EM
ALAGOAS” ......................................................................................................................... 137
PRÓLOGO - EU ME LEMBRO
Em uma mesa de bar, entre amigos; no trabalho ou durante a aula; em conversas sobre
um assunto qualquer: em algum momento, a dúvida vai aparecer. Quem marcou o gol, dirigiu
esse filme, escreveu aquele livro? Como se conjurasse feitiço, alguém recitará a fórmula “eu
me lembro”. Esse “abracadabra” fará surgir a recordação, informação ou segredo que se
pensava perdido.
“Eu me lembro”: era uma tarde quente e ensolarada da década de 1990. Eu andava
apressado pelas ruas, de mãos dadas com a minha mãe. Naquele dia, entramos e saímos de
várias papelarias, em busca de material escolar. Nos anos seguintes ao fim da ditadura
civil-militar (1964-1985), comprar qualquer coisa exigia, além de dinheiro, tempo. O “milagre
econômico” tinha passado e o tal “bolo” prometido pelo Delfim Netto não cresceu; antes,
“solou” e, como de costume, uma elite sempre faminta devorou as migalhas, mesmo de
barriga cheia. A inflação “galopava”, como se dizia à época e as palavras “carestia” e
“arrocho” apareciam o tempo todo nas notícias e conversas. Donas de casa faziam fila na
porta dos mercados para comprar alimentos antes do overnight, que faria os preços
aumentarem. O “clique” da etiquetadora é recordação comum a quem viveu esses dias
difíceis. Luiz da Silva, protagonista de Angústia (1936), teria dito que “Os tempos andam
safados”. Naquela tarde abafada, numa das lojas, um livro chamou a minha atenção. O título
era Baleia, mas, na capa havia… um cachorro.
Baleia é, sem dúvida, o capítulo mais conhecido de Vidas secas (Vs), escrito por
Graciliano Ramos em 1938. Mas o alagoano planejou o romance como coletânea de contos.
Esses “contos”, organizados com constância e coerência, quando lidos na ordem em que
aparecem no livro, narram a jornada de Fabiano, sinhá Vitória, dos meninos e da cachorra
Baleia. A editora Melhoramentos, gigante no segmento infanto-juvenil entre as décadas de
1960 e 1990, publicou Baleia em seu formato original, como parte de uma coleção que
incluía, ainda, O burrinho pedrês, de Guimarães Rosa, novela publicada pela primeira vez em
Sagarana (1946). Foi nessa coleção que conheci Baleia e o burrinho Sete-de-ouros.
Minha mãe sempre soube o valor da leitura. Seu pai aprendeu a ler sozinho, com
pulps, livros baratos com histórias eróticas, de espionagem e faroeste, vendidos em bancas de
jornal. Pouca gente era alfabetizada na pequena cidade de origem da minha família materna,
no interior da Bahia. Por isso, meu avô foi contratado pela prefeitura como motorista. Em
meio à muita dificuldade, ele sustentou a família e transmitiu o gosto pela leitura e a lição
14
preciosa de que a leitura pode saciar a fome do corpo e da alma. Minha mãe levou essa lição a
sério. Guardo uma edição de 1952 de O Picapau Amarelo e a reforma da natureza, de
Monteiro Lobato. Minha mãe contava que o meu avô encontrara o livro numa lixeira. Nos
dias em que a comida não bastava para os dez irmãos, minha mãe enganava o estômago com
fantasia. Seguindo o exemplo paterno, ela ensinou os filhos a gostar de ler. Por isso, quando,
naquela tarde distante, flagrou a minha curiosidade diante do Baleia, ela fez as contas e
concluiu que comprá-lo não nos faria passar fome e o levou.
Figura 1 - O Picapau Amarelo e a reforma da natureza (1952)
Fonte: Acervo pessoal.
“Eu me lembro”: as tardes de leitura com a minha mãe estão entre minhas memórias
mais preciosas da infância. Foi nessa época que tive o primeiro contato com escritoras e
escritores que fazem parte da minha formação como leitor. Francisco Marins e suas histórias
passadas no sertão e no “Brasil profundo” é um dos meus preferidos e A aldeia sagrada
(1953) é o seu livro que mais gosto. A aldeia sagrada conta a história de Didico, menino
sertanejo que perde os pais durante uma seca e se junta a alguns retirantes; durante a viagem,
15
ele reencontra Chico Vira-Mundo, um tio que migrara anos antes. Chico fala ao sobrinho
sobre um “santo” e sua promessa de um paraíso de terra, água e comida para todos.
Esperançoso, Didico acompanha o tio e, juntos, chegam ao arraial de Canudos. Lá,
testemunham a barbárie da guerra. Anos mais tarde, eu encontraria entre os livros antigos da
minha mãe, além do O Picapau Amarelo…, uma edição de Os sertões (1902). Nas páginas
iniciais, uma caricatura representando o duelo entre Dilermando de Assis e Euclides da
Cunha, autor da obra, e uma foto do seu velório - morto por Assis - impressionaram-me e me
levaram a iniciar a leitura. Claro que não a concluí. Os sertões só faria parte do meu repertório
de leitura décadas depois. No ensino fundamental, eu ouvia a professora de Geografia falar
em êxodo rural sem fazer ideia de que meus pais eram parte desse fenômeno histórico.
Quando percebi isso, lembrei-me de Didico e das palavras da Compadecida, na famosa peça
de Ariano Suassuna: “João foi um pobre como nós, meu filho. Teve de suportar as maiores
dificuldades, numa terra seca e pobre como a nossa.”1 Foi quando entendi que meus pais
estavam entre milhões de “joões”.
Meu pai era mineiro do Vale do Mucuri, norte do estado. Na divisa com a Bahia,
Minas é nordestina. É nos Gerais, o sertão mineiro, que acontece a ação do romance Grande
sertão: veredas (1956), também de Guimarães Rosa. De família pobre como minha mãe,
quando criança ele vendia queijo e laranjas na estação de trem da cidadezinha onde nasceu.
Aos dezessete anos, migrou para a capital, levando mãe e irmãos. Por amor à terra e para
aliviar as saudades, meus pais viviam contando “causos” de fantasmas, cangaceiros,
assombrações e pistoleiros. Sempre que podiam, falavam da beleza de um nordeste rico e
mágico. “Eu me lembro”: foram muitas tardes ouvindo histórias e modas de viola, enquanto
meus pais e outros parentes bebiam cachaça e conversavam, com nostalgia, sobre o sertão
deixado para trás. Não foi difícil me apaixonar por esse lugar que levo, com orgulho, no
sangue.
Adulto, meu pai descobriu que era um trabalhador explorado e se filiou ao sindicato
dos bancários, do qual foi membro ativo até o fim da vida. “Eu me lembro” de, muitas vezes,
ouvir conversas sobre greves. Curioso, perguntei o que era greve. No dia seguinte, meu pai
me levou a um piquete, com bandeiras, faixas, cartazes, carro de som e gente, muita gente.
Sorrindo, meu pai me disse “Isso é a greve!” Nosso tempo juntos foi curto, mas o suficiente
para formar minha consciência de classe. Às vezes, a compreensão do nosso lugar social dói,
como nos versos do poema “Sentimento do mundo”: “Tenho apenas duas mãos / e o
1
SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018, e-book.
16
sentimento do mundo.”2 Cresci e me tornei trabalhador, orgulhoso de ser do “chão de fábrica”
- ou do “pátio da escola”.
Na juventude, Graciliano Ramos se tornou um dos meus escritores preferidos. Depois
de Baleia, conheci Raimundo Pelado, personagem central de A terra dos meninos pelados
(1939); anos mais tarde, foi a vez de Paulo Honório, de S. Bernardo (1934), e Luís da Silva,
de Angústia (1936) - o meu preferido. Por fim, cheguei ao próprio Graciliano, por meio da sua
obra autobiográfica. Sua luta contra o fascismo e pela educação me estimulam. Minha
trajetória tornou a pesquisa sobre a obra e engajamento do “Mestre Graça” algo quase natural.
Vir morar em Alagoas foi um incentivo poderoso.
Figura 2 - Bancários: A greve que fechou o caixa (1985)
Meu pai, Gerson Soares, durante a greve geral dos bancários (1985). Foto publicada na extinta revista Fatos.
Fonte: Acervo pessoal.
Na canção Bola de meia, bola de gude, Milton Nascimento canta que “Há um passado
em meu presente”. Meu passado me trouxe até aqui. “Eu me lembro”. E não vou esquecer.
***
2
ANDRADE, Carlos Drummond. Sentimento do mundo. In: ___. Sentimento do mundo. São Paulo:
Companhia das Letras, 2012, p. 9.
17
Essas foram as últimas linhas que redigi. Escrevi-as com o coração partido e de luto
pela morte inesperada da minha Velhinha, Raimunda Castro Vital. Após meses, na solidão e
no silêncio, estudando e escrevendo a respeito de Literatura, História e Memória, seria injusto
finalizar essa dissertação sem espaço dedicado à ela, apenas. Nos últimos dois anos, minha
mãe me acompanhou e releu livros de Graciliano Ramos. A cada conversa, ela tinha vários
comentários e perguntas. Herdei dela meu amor pela leitura; minha história, até há pouco
tempo, foi construída ao seu lado; e hoje, ela é uma das minhas memórias mais amadas. Nós
vencemos, Velhinha. Do nosso jeito, meio gauche, mas vencemos. Um brinde a tudo o que
fizemos até aqui. Obrigado.
Figura 3 - Um brinde!
Minha Velhinha, Raimunda Castro Vital (1951-2025): antes de tudo, uma forte.
Fonte: Acervo pessoal.
INTRODUÇÃO - ELES AINDA ESTÃO AQUI
A memória é uma mágica não desvendada. Um truque
da vida. Uma memória não se acumula sobre outra, mas
ao lado. A memória recente não é resgatada antes da
milésima. Elas se embaralham.3
Em janeiro de 1971, o ex-deputado Rubens Paiva foi sequestrado em sua casa, no Rio
de Janeiro, por agentes da ditadura civil-militar. Com o mandato cassado desde 1964, Paiva
não exercia, à época do sequestro, função política - não publicamente. Mas recebia, em
segredo, cartas de exilados, que repassava às famílias. Ao ser descoberto, foi levado para
dependências do Exército, onde foi assassinado. A busca de Eunice Paiva, esposa do
deputado, pelo paradeiro do marido, está contada no livro Ainda estou aqui (2015), escrito
pelo jornalista Marcelo Rubens Paiva, um dos filhos de Rubens e Eunice. Em 2024, Ainda
estou aqui foi redescoberto, graças à adaptação para o cinema dirigida por Walter Salles. O
filme, produzido com sensibilidade e respeito aos envolvidos e suas memórias, lotou as salas
de exibição. O público se emocionou e, quem não sabia o que eram os “anos de chumbo”
pode ter contato com um 3x4 do período. O filme foi premiado em diversos festivais e
escolhido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas como o “melhor filme
estrangeiro de 2025”, recebendo o Oscar correspondente.4
Em 1936, 35 anos antes de Rubens Paiva, o funcionário público e escritor alagoano
Graciliano Ramos foi preso de forma arbitrária pela polícia fascista de Getúlio Vargas. Não
houve processo ou oitivas. Tudo aconteceu, com Paiva e com Ramos, de forma violenta e
antidemocrática. E, 62 anos antes de Marcelo Rubens Paiva, o “Mestre Graça”, ou “Velho
Graça”, como era conhecido, escreveu suas memórias da cadeia. Tal como Ainda estou aqui,
Memórias do cárcere (1953) foi adaptado para o cinema, estreando em 1984 e sendo
igualmente agraciado com diversos prêmios, entre os quais o de melhor filme, no Festival de
Cannes, na França.5
3
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. São Paulo: Alfaguara, 2024, e-book.
EXPERIENCE over nine decades of the Oscars from 1927 to 2025. In: Academy of Motion Picture Arts and
Sciences. Disponível em: https://tinyurl.com/melhorfilme2025 Acesso em: 05 mar. 2025.
5
MEMÓRIAS do cárcere. In: Cinemateca brasileira. Disponível em: https://tinyurl.com/mccannes Acesso em:
05 jan. 2025.
4
19
A descoberta recente de uma trama de assassinato6 e a frustração de um plano de pôr
fim ao Estado Democrático de Direito e assassinar presidente e vice-presidente eleitos e um
ministro do Supremo Tribunal Superior (STF)7 tornou, a meu ver, Mc relevante mais uma vez
e aumentou a importância simbólica de Ainda estou aqui. Porque a violência que vitimou a
família Paiva, o escritor Graciliano Ramos e o povo brasileiro ainda está aqui. Mas
Graciliano, Paiva e tantas outras pessoas que se opuseram à barbárie também estão.
Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em 1892, na cidade de Quebrangulo, agreste
alagoano. Interessado por literatura desde criança, ele explorou suas primeiras lembranças na
autobiografia Infância (1945). No livro, Ramos recorda a importância da leitura, a violência
dos pais e os constantes castigos que sofreu. Entre os temas sociais presentes na obra, está a
educação, assunto do qual se ocupou entre os anos de 1933 e 1936, quando foi diretor da
Instrução Pública alagoana, cargo que corresponde ao atual de secretária ou secretário
estadual de educação.8
Infância e Mc compartilham diversos expedientes narrativos. No primeiro, há duas
vozes narrativas: a do "narrador adulto", que se esforça para recordar a infância brutalizada, a
partir de onde tece sua crítica, e a do “narrador infantil", que "se fundamenta na apreensão
fragmentária e sinestésica do mundo. A narração por esse olhar figura a contínua busca da
criança de adaptação e de amparo”.9 O escritor confia em quem o lê e, por isso, revela
momentos de humilhação. São, porém, lembranças embaçadas. No capítulo “Nuvens”, de
Infância, por exemplo, lemos: “Houve uma segunda [memória] aberta entre as nuvens
espessas que me cobriam [...]”;10 em seguida, Ramos compara suas recordações a “Pontos
nebulosos, ilhas esboçando-se no universo vazio”.11 Em Mc, há passagem semelhante: “[...] às
vezes tudo se embrulhava, entre as visões concretas esboçavam-se fantasmagorias [...]”.12 A
voz narrativa demonstra desejo de recuperar o passado, mas reconhece obstáculos: a
“imperfeição” da memória; a distância temporal entre si e a matéria narrada; as limitações da
6
FALCÃO, Márcio; VIVAS, Fernanda. PGR denuncia ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de
Estado; Mauro Cid e Braga Netto também foram denunciados. In: Portal G1, Brasília, 18 fev. 2025. Disponível
em: https://tinyurl.com/pgrdenuncia Acesso em: 20 fev. 2025.
7
BERLINCK, Fernanda; BRASIL, Filipe; NASCIMENTO, Rafael. Plano para matar Lula, Alckmin e Moraes
‘só não ocorreu por detalhes’, diz ministro. In: Portal G1, Brasília, 19 nov. 2024. Disponível em:
https://tinyurl.com/antidemocratico Acesso em: 06 dez. 2024.
8
MORAES, Denis. O Velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 90.
9
FURTADO, Pedro; LEONEL, Maria Célia. Perspectivas conflitivas em Infância, de Graciliano Ramos. Alea,
Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, jan.-abr. 2023, p. 87. Disponível em: https://tinyurl.com/infanciaconflitiva Acesso em:
06. dez. 2024.
10
RAMOS, Graciliano. Infância. 11. ed. Rio de Janeiro: Record; São Paulo: Martins, 1976, p. 9. Termo entre
colchetes acrescido.
11
RAMOS, 1976, p. 12.
12
RAMOS. Graciliano. Memórias do cárcere. 54. ed. Rio de Janeiro: Record, 2022b, p. 41.
20
escrita. A despeito dessas e de outras barreiras, o autor sabia da importância de recordar e
contar o que viveu. É dessa consciência que nasce Mc, objeto do estudo que ora apresento,
dividido em três capítulos.
No primeiro, exploro a formação de Graciliano Ramos como “escritor engajado”.13 A
partir da leitura dos seus artigos, crônicas, cartas e entrevistas, apresento sua visão de mundo
e atuação como militante político e homem público. Parte dessa perspectiva - árida, como
seus textos, mas profundamente humana - foi alcançada no estudo da recepção aos seus
romances, publicada em jornais e periódicos especializados da época, como o Boletim de
Ariel. Trato, ainda, do realismo socialista, estética adotada pelos partidos comunistas ao redor
do mundo. Parte da performance do alagoano se dá pela recusa em adotar a limitada cartilha
comunista e defender sua escrita. A realização dessa tarefa foi possível a partir de pesquisas
no acervo do portal Marxists Internet Archive (MIA), repositório digital de textos escritos por
destacados comunistas do começo do século XX.14 Entre outros materiais de interesse, o MIA
disponibiliza periódicos como a revista Problemas, órgão cultural do PCB. Foi em suas
páginas que os ensaios de Andrei Zhdanov, o “pai” do realismo socialista, chegaram aos
comunistas brasileiro e, por isso, a revista integra nosso corpus documental.
O capítulo dois é dedicado ao exame do “desencarceramento” das memórias presentes
em Mc, em diálogo com os trabalhos de Paul Ricoeur, Sigmund Freud e Jacques Le Goff a
respeito do funcionamento fisiológico e social da memória e suas relações com a História.15
Os conceitos de “lugar de memória”, estabelecido por Michael Pollak e ampliado por Pierre
Nora, e de “trabalho de recordação” ou “de memória”, elaborados por Freud e adotados por
Elizabeth Jelin nos seus estudos sobre ditaduras militares na América Latina, auxiliam na
compreensão dessas relações e conexões.16 A voz que narra Mc reconhece que a experiência
descrita não é apenas sua. Ao tratar da repressão política e das condições carcerárias de sua
época, a obra dá voz a um grupo diverso de marginalizados e perseguidos: comunistas,
artistas, ativistas da esquerda, homossexuais, entre outros. Isso torna a tese sobre memória
13
SARTRE, Jean Paul. Que é a literatura? São Paulo: Ática, 2004, p. 20.
O acervo do MIA está disponível em https://www.marxists.org/
15
FREUD, Sigmund. Nota sobre o bloco mágico (1925). In: ___. Obras completas v. 16 (1923-1925). São
Paulo: Companhia das Letras, 2011, e-book; ___. Recordar, repetir, elaborar (1914). In: ___. Obras completas v.
10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia ("O caso Schreber"),
artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). São Paulo: Companhia das Letras, 2010, e-book; LE GOFF,
Jacques. História e memória. Campinas: Ed. da Unicamp, 1990; RICOEUR, Paul. A memória, a História, o
esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
16
JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. 2. ed. Lima: IEP, 2012; NORA, Pierre. Entre memória e
História: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, v. 10, p. 7-28, jul./dez. 1993; POLLAK,
Michael. Memória e identidade social. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n.10, 1992, p. 200-215.
Disponível em: https://tinyurl.com/revistaestudoshistoricos Acesso em: 18 fev. 2025.
14
21
coletiva, de autoria do sociólogo francês Maurice Halbwachs,17 indispensável. Ainda no
segundo capítulo, discuto a transposição de Mc de relato à condição de fonte histórica. Como
obra de arte, Mc se destaca pela beleza rude, tal como nos demais textos “graciliânicos”;18
como fonte, oferece testemunho potente a respeito da violência política na década de 1930. A
obra se abre a reflexões sobre Memória, História e a própria Literatura. Finalizo abordando os
conceitos de ficto e fato a partir da Poética aristotélica e das reflexões de Sandra Pesavento,
nos quais a historiadora trata dos pontos de convergência e divergência entre História e
Literatura, em interlocução com A escrita da História (1982),19 de Michel de Certeau.
O trabalho se encerra com a aproximação entre a autoficção, ideia de autoria do crítico
francês Philippe Lejeune,20 e Mc. O livro de Ramos é, a um só tempo, testemunho histórico e
construção literária. Lejeune, ao definir o pacto autobiográfico, enfatiza a promessa de
identidade entre autor, narrador e personagem e estabelece um compromisso de veracidade
com o leitor. Na obra “graciliânica”, no entanto, o pacto está sob tensão: sua experiência na
prisão é selecionada pela memória, reorganizada pela linguagem e estetizada pela narrativa.
Graciliano Ramos não pretende alcançar a “fidelidade” em Mc, mas chega a um“efeito de
realidade” e nos entrega um texto em que encena a si mesmo, corroborando com o dizer da
historiadora Ângela de Castro Gomes, para quem a “escrita de si” constitui, também, um
“teatro da memória”.21
17
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Edições Vértice, 1990.
Neologismo usado pela historiadora Ângela Maria dos Santos na sua dissertação de mestrado sobre o
desempenho de Graciliano Ramos nas funções públicas. Cf. SANTOS, Ângela Maria dos. O pensamento
graciliânico e suas relações sociopolíticas e administrativas em Alagoas. 2019. Dissertação. (Mestrado em
História). Universidade Federal de Alagoas, Maceió, Alagoas, 2019, p. 121. Disponível em:
https://tinyurl.com/pensamentogracilianico Acesso em: 06 dez. 2024.
19
ARISTÓTELES. Poética. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2017; CERTEAU, Michel de. A escrita da História.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982; PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e Literatura: uma velha-nova
história.
Nuevo
Mundo Mundos Nuevos, Nanterre, jan. 2006, s.p. Disponível em:
https://tinyurl.com/novonuevomundo Acesso em: 25. set. 2023; ___. O mundo como texto: leituras da História e
da Literatura. História da Educação, Pelotas, n. 14, p. 31-45, set. 2003.
20
LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.
21
GOMES, Ângela de Castro (org). Escrita de si, escrita da História. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2004, p. 11.
18
CAPÍTULO 1 - “ESCRITOR DO POVO”
1.1 “Erros da inteligência”
O ano de 1927 é um marco na vida de Graciliano Ramos. Aos 35 anos, ele não era o
escritor admirado que se tornaria. Mas o lance que faria dele o “Mestre Graça” aconteceu no
dia sete de outubro daquele ano, quando Ramos foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios,
cidade da Zona da Mata alagoana.22 Acontecimentos subsequentes à sua posse o inscreveram
na nossa História política e literária. Para compreender a trajetória que o levou à essa posição
política e ao reconhecimento literário, vamos retroceder até 1910, ano da sua chegada na
cidade.
Figura 4 - Praça do Açude, Palmeira dos Índios (ca. de 1930)
Fonte: História de Alagoas.23
Na primeira metade do século passado, Palmeira dos Índios era uma cidade próspera.
Sua população, de cerca de cinco mil habitantes, lucrava com a pecuária e a exportação de
algodão para a Europa. Negociante experiente, o agricultor Sebastião Ramos, morador da
cidade vizinha, Viçosa, calculou quanto ganharia no mercado algodoeiro e investiu suas
economias em máquinas para beneficiamento de algodão e uma loja de tecidos. Mudou-se, em
22
LIMA, Waldemar de Souza. Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios. Maceió: Imprensa Oficial, 2013, p.
169-170.
23
BEZERRA E SILVA, Manoel. Palmeira dos Índios do meu tempo de menino. In: História de Alagoas.
Disponível em: https://tinyurl.com/palmeiradosindios Acesso em: 05 jan. 2025.
23
1910, para Palmeira dos Índios e levou consigo o filho Graciliano, de dezoito anos.24
A estreia literária do autor de Caetés aconteceu na infância. Em 1903, aos onze anos,
ele publicou em um jornal de Viçosa o conto O pequeno pedinte25. Ainda em Viçosa, editou,
ao lado do amigo Mário Venâncio, a folha Echo Viçosense, mas o suicídio de Venâncio fez
com que a publicação fosse encerrada após quinze dias do início das atividades.26 Abalado,
Graciliano interrompeu a escrita.
Anos mais tarde, alguns sonetos de sua autoria apareceram em veículos de imprensa
com maior alcance. Não eram, no entanto, do “Velho Graça”. Os temas - amor não
correspondido e nostalgia - nada tinham a ver com os que o interessaram mais tarde; também
a forma, parnasiana27 - o jovem Graciliano ficou admirado com o estilo - divergia da que o
consagraria. Os sonetos estão assinados com pseudônimo, o que nos leva a acreditar que o seu
autor não tinha a intenção de ser reconhecido. Décadas mais tarde, no estágio final da doença
que o mataria, “Graça” instruiu o filho, o também escritor Ricardo Ramos:
O que assinei com meu nome pode publicar; no que usei as iniciais GR, leia com
cuidado, veja bem; no que usei RO, tenha mais cuidado ainda; o que fiz sem
assinatura ou sem iniciais não presta, deve ser tudo besteira, mas pode escapar uma
ou outra página, menos infeliz. Já com pseudônimo não, não sobra nada, não deixe
sair. E, pelo amor de Deus, poesia nunca; foi tudo uma desgraça.28
Outros acontecimentos de 1910 contribuíram para que o jovem comerciante se
tornasse um dos nomes mais importantes da literatura brasileira. Naquele ano, fortes chuvas
atingiram o Nordeste e destruíram lavouras em toda a região. O prejuízo fez Sebastião Ramos
voltar a Buíque, cidade pernambucana na divisa com Alagoas, onde mantinha parte do gado.
Os negócios em Palmeira dos Índios ficaram sob responsabilidade do futuro autor de SB.
Ainda em 1910, o marechal do Exército Hermes da Fonseca foi eleito presidente do Brasil.
24
Fonseca se destacou na repressão às revoltas da Armada (1893)29 e da Vacina (1904).30
MORAES, 2012, p. 37.
MORAES, 2012, p. 31.
26
MORAES, 2012, p. 33.
27
O movimento parnasiano teve origem na França, na segunda metade do século XIX. Seus poetas cultuavam o
lema ars gratia ars (arte pela arte), o que resultou numa poesia autocentrada, cujos versos giravam em torno do
próprio fazer artístico. O soneto foi a forma privilegiada pelos poetas parnasianos, que produziram uma obra
densa, marcada por versos de métrica rígida, vocabulário complicado e excesso nas descrições e no uso de
figuras de linguagem. Dadas essas características, o crítico Antonio Candido considerou o estilo superficial,
esnobe e afastado da realidade social, bastante representativo do conservadorismo da Academia Brasileira de
Letras (ABL). Cf. CANDIDO, Antonio. Literatura e cultura de 1900 a 1945. In: ___. Literatura e sociedade.
11. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010, p. 117-146.
28
MORAES, 2012, p. 31.
29
SCHWARCZ, Lilia M.; STARLING, Heloisa M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras,
2015, p. 321.
30
SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 328.
25
24
Sua campanha se deu em torno da moralidade política, em oposição à corrupção característica
dos primeiros anos da República; apesar disso, o marechal era aliado de Pinheiro Machado,
político gaúcho conhecido como “coronel dos coronéis”.31 Durante a “República Velha”,32
clientelismo e trocas de favor eram a regra e os chefes regionais conhecidos como “coronéis”,
seus maiores representantes.33 O adversário de Hermes da Fonseca foi o conhecido jurista e
intelectual baiano Rui Barbosa. Sua candidatura ganhou o nome de “campanha civilista”, já
que Barbosa era a favor da ausência do Exército - de onde vieram os dois primeiros
presidentes do Brasil - em assuntos políticos34.
O início do governo do marechal Hermes da Fonseca coincidiu com a “Política das
salvações”, conjunto de ações lideradas por oficiais do Exército dispostos a derrubar à força
as oligarquias rurais. O resultado foi uma onda de violência; no Norte e Nordeste, onde
senhores rurais exerciam o poder com mão de ferro, os conflitos entre jagunços e militares
causaram grande destruição.35 Somada às chuvas, a “salvação” provocou perdas consideráveis
aos agricultores e comerciantes nordestinos.
O movimento na loja de Palmeira dos Índios diminuiu. Em 14 de novembro de 1910,
Graciliano escreveu à mãe, Maria Amélia Ramos: “Aqui estamos todos bons nesta santa
Palmeira, terra que, se não é boa, sempre é menos ruim do que eu julgava. Aqui não há cafés,
há maus bilhares, pouca cerveja, nenhum divertimento. Enfim, gasta-se pouco dinheiro e
vende-se alguma coisa, isto é, ganha-se mais do que se gasta.36 Em nova carta à mãe, de 19 de
junho de 1911, a queixa se repete:
Isto aqui é bom como o diabo: acorda-se às cinco da manhã, leva-se o dia lendo,
fumando, comendo e rezando; dorme-se às nove da noite. Uma vida de anjo.
Quando chegar aí - está compreendendo? - hei de ter o corpo pesando 70 quilos e a
alma leve de pecados, tão leve como os vagons que levam material para a construção
da estrada de ferro de Palmeira.37
31
MATTOS, Hebe. A vida política. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (org). A abertura para o mundo:
1889-1930. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, col. A história do Brasil nação: 1808-2010 v. 3, p. 121.
32
O termo "República Velha" é uma "fabricação" do Estado Novo. Entre as estratégias de poder adotadas por
Vargas, estava a desmoralização dos seus adversários. A exemplo do que fez com os rebeldes comunistas de
1935 - cuja ação se tornou conhecida como "intentona" - Vargas consturiu uma imagem de barbárie para a
chamada Primeira República: segundo os ideólogos a serviço do Catete, a "Primeira República" estava associada
a I Grande Guerra, epidemias de febre amarela no Rio de Janeiro, e em um liberalismo excessivo que pretendia
destruir a unidade nacional. Cf. OLIVEIRA, Lúcia Lippi. Sinais da modernidade na era Vargas: vida literária,
cinema e rádio. In: DELGADO Lucília de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (orgs). O tempo do
nacional-estatismo: do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo - Segunda República (1930-1945).
9. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019, col. O Brasil Republicano v. 2, p. 392-426.
33
SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 322.
34
MATTOS In: SCHWARCZ, 2012, p. 121.
35
MATTOS In: SCHWARCZ, 2012, p. 121.
36
RAMOS, Graciliano. Cartas. 9. ed. Rio de Janeiro: Record, 2022a, p. 13.
37
RAMOS, 2022a, p. 14, grifo do autor.
25
Foi nessa época que o comerciante iniciou sua produção literária. Com a loja vazia,
Graciliano se sentava nos fundos da loja, fazendo caixotes de escrivaninha; nessas condições,
ele preencheu vários cadernos, gênese dos romances Caetés (1933) e S. Bernardo (1934).
Em 1926, encontramos o “Mestre” de Vs aos 34 anos. O comerciante austero é
reconhecido e admirado pela honestidade, inteligência e voracidade como leitor. Além da loja,
ele se ocupa com a presidência da Junta Escolar do município.38 Em fevereiro, o prefeito
Lauro de Almeida, foi assassinado; o mandante do crime seria morto pouco tempo depois.39 A
ausência de interessados no cargo levou os chefes políticos locais a indicarem Graciliano.
Apesar da “Política das salvações”, o coronelismo seguia vivo e as manipulações e ameaças
garantiram a sua eleição. Mais tarde, “Graça” comentaria o episódio: “Assassinaram o meu
antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito naquele velho sistema das atas falsas, os
defuntos votando”.40
A integridade do novo prefeito encontrou entraves. Palmeira dos Índios sofria com o
patrimonialismo. No primeiro relatório ao governo do estado, o prefeito-escritor informa:
Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o comandante do
destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do
Município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos
inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e
advogavam.41
Como agravante, a cidade não tinha lei orgânica ou código de postura. No mesmo
relatório consta o seguinte:
Em janeiro do ano passado não achei no Município nada que se parecesse com lei,
fora as que havia na tradição oral, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite.
Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei,
rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que
o código era uma espécie de lobisomem.
Afinal, em fevereiro, o secretário descobriu-o entre papéis do Império. Era um
delgado volume impresso em 1865, encardido e dilacerado, de folhas soltas, com
aparência de primeiro livro de leitura do Abílio Borges. Um furo. Encontrei no
folheto algumas leis, aliás bem redigidas, e muito sebo.42
38
MORAES, 2012, p. 58.
LIMA, 2013, p. 156.
40
RAMOS apud MORAES, 2012, p. 61.
41
PREFEITURA municipal de Palmeira dos Índios. Relatório ao governador do Estado de Alagoas. Maceió:
Imprensa Oficial, 1929, s.p. Disponível em: https://tinyurl.com/prefgraca1929 Acesso em: 19 jun. 2023.
42
PREFEITURA municipal de Palmeira dos Índios, 1929, s.p. Abílio César Borges, o Barão de Macaúbas
(1824-1891), foi médico e educador baiano. Em 1858, fundou, em Salvador, o Ginásio Baiano, onde estudaram,
entre outros, Castro Alves e Rui Barbosa. O Ginásio encerrou suas atividades em 1910. O Barão também se
tornou conhecido pelas cartilhas de leitura, alvo da ironia “graciliânica”. Cf. ABÍLIO César Borges, primeiro e
único Barão de Macaúbas. In: Instituto Histórico e Geográfico da Bahia. Disponível em:
https://tinyurl.com/abilioborges Acesso em: 11 nov. 2024.
39
26
Diante disso, o prefeito propôs ao poder legislativo a criação de uma legislação.
Apesar da oposição, a norma com 82 artigos foi aprovada, descrevendo direitos e deveres do
cidadão e obrigações e limites do poder público.43 A historiadora Ângela Maria dos Santos
pesquisou a administração de Ramos. Santos usa a expressão “pensamento graciliânico” para
descrever a gestão séria e correta de Ramos. Para Santos,
o pensamento graciliânico e o dilema de sua intelectualidade enquanto agente social
contribuiu para entender como que um sujeito fruto de seu tempo e espaço
conseguiu cooptar com as esferas de poder locais e nacionais mesmo não
corroborando com algumas práticas administrativas, políticas e filosófica.44
Ainda de acordo com a historiadora,
Como administrador público, Graciliano Ramos desejava uma Palmeira dos Índios
fundada nos padrões europeus de modernização, com fulcro em uma educação
emancipadora, sinalizada pelo "ensino leigo, público e gratuito, a industrialização, as
transformações arquitetônicas e urbanísticas, as campanhas de higienização e
vacinação obrigatórias, de transformação de hábitos e dos costumes".
Por seu tempo, nota-se que o prefeito pretendia replicar, na então cidade
administrada, práticas emanadas do processo que desembocou na Revolução
Francesa ou o que a República brasileira havia prometido e não cumprira. Nesse
contexto, a postura assumida pelo então agente público tornava-se paradoxal face a
sua inclinação para criticar tudo o que era estrangeiro.45
O “paradoxo graciliânico” trouxe bons resultados para Palmeira dos Índios:
Na esfera da prática administrativa, Graciliano trabalhava com a impessoalidade,
que será constitucionalizada sessenta anos mais tarde, mas em seus Relatórios são
enfatizados em detalhes como os recursos públicos foram aplicados. Mesmo
sabendo como funcionava a máquina burocrática na época, Graciliano escreve seus
Relatórios com informalidades, o que fugia dos padrões rigorosos daquele período.
Assim, Graciliano trata esse documento como um resumo das suas práticas
administrativas, a saber: "Não foram muitos, que os nossos recursos são exíguos.
Assim minguados, entretanto, quase insensíveis ao observador afastado, que
desconheça as condições em que o Município se achava, muito me custaram”. Por
essas publicações dos Relatórios, o então prefeito, para as pesquisas
contemporâneas, ficou conhecido como um agente eficiente à época diante da
Administração Pública.46
Duas passagens ilustram a eficiência a que Ângela Santos se refere.
Era costume dos criadores de gado palmeirenses deixar que bois e vacas pastassem
43
MORAES, 2012, p. 67.
SANTOS, 2019, p. 121.
45
SANTOS, 2019, p. 69.
46
SANTOS, 2019, p. 71.
44
27
pelas ruas e praças da cidade; donos de cães os criavam soltos. A cidade estava sempre suja e
ocupada por animais. Empolgado com os ideais de urbanização e higiene do começo do
século XX, o novo prefeito ordenou a limpeza, em especial nos arredores do mercado
municipal e do açougue público, e o recolhimento dos animais; aqueles cujos donos não
fossem encontrados seriam sacrificados. Graciliano orientou a população e avisou que
reincidentes seriam multados. Sebastião Ramos, que ainda mantinha negócios pecuários em
Palmeira dos Índios, foi penalizado. Ao receber a multa, reclamou com o filho e ouviu como
resposta que “prefeito não tem pai”.47
Durante a construção de uma estrada, os operários se desentenderam com um
fazendeiro, que não permitiu obras na sua propriedade. O prefeito orientou os servidores a
cortarem o milho do sitiante. Depois, procurou-o e disse: “– Seu milho ia dar aqui a noventa
dias, mas o senhor já o colheu agora. Vá à prefeitura receber o seu dinheiro”.48
Figura 5 - O prefeito de Palmeira dos Índios, Graciliano Ramos (1928)
Fonte: MORAES, 2012, s.p.
A administração de Palmeira dos Índios no biênio 1928-1929 ainda é tema de estudos.
E, eventualmente, candidatos a cargos eletivos tentam se associar à imagem de político
empenhado e responsável do ex-prefeito daquela cidade. Na década de 1990, o governo de
Alagoas evocou a figura de Ramos para enaltecer a “gestão fiscal responsável” do estado. No
cartaz O pai da gestão fiscal responsável nasceu em Alagoas, o governo estadual usou a
imagem de Graciliano Ramos para exaltar sua eficiência. Na peça, lemos:
47
48
MORAES, 2012, p. 65.
MORAES, 2012, p. 67.
28
O alagoano Graciliano Ramos, um dos mais representativos escritores brasileiros de
todos os tempos, foi prefeito de Palmeira dos Índios. Ao redigir os famosos
relatórios da administração, "Mestre Graça" dava exemplo de austeridade, respeito e
ética no trato com o dinheiro do povo. A prestação de contas, de 1929, antes de
expor o talento literário, revela um homem público comprometido com a gestão
fiscal responsável.
Hoje, o Governo de Alagoas faz questão de ressaltar esse exemplo, porque há um
novo tempo em evolução nesta terra. O objetivo é construir o desenvolvimento
sustentável e recompor plenamente os serviços básicos a serem prestados à
sociedade. Para tanto, é fundamental exercitar o poder de forma responsável e
democrática.
É por isso que, em apenas dois anos, dezenas de empresas como a Quaker,
Granomel, Nutron e Trikem, estão instalando e duplicando seus investimentos em
Alagoas. O governo, que trata os agentes do desenvolvimento com seriedade, já
regularizou a lei de incentivos fiscais, está fortalecendo o equilíbrio financeiro do
Estado e reestabeleceu o respeito junto às autoridades federais.49
Figura 6 - O pai da gestão fiscal responsável nasceu em Alagoas (s.d.)
Fonte: Graciliano Ramos.
49
O PAI da gestão fiscal responsável nasceu em Alagoas. Governo de Alagoas, s.d. 1 cartaz, color. In:
Graciliano Ramos. Disponível em: https://tinyurl.com/paigestaofiscalresp Acesso em: Acesso em: 19 jun. 2023.
29
Foi nos anos de 1929 e 1930, na prestação de contas ao governo estadual, que
Graciliano Ramos escreveu os dois relatórios que o tornaram conhecido. Para Marcos
Falleiros, os documentos repercutiram “[...] como uma anedota vinda do sertão em linguagem
antibacharelista e abusada, com inesperado teor de retidão administrativa, moderna e
positivista”.50
Escritos em linguagem metaliterária, os relatórios são distantes do que se espera de
documentos oficiais. Seu vocabulário é coloquial, cáustico e objetividade. Tudo isso nos
permite identificar o autor de Mc. Os relatórios revelam as preocupações políticas e sociais do
escritor. Vejamos alguns trechos do primeiro deles, datado de 10 de janeiro de 1929.
O primeiro item, “Começos”, trata do patrimonialismo:
Para que semelhante anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei
obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela - dentro, uma resistência mole, suave, de
algodão em rama; fora, uma campanha sôrna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam
uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos
nós; outros me davam três meses para levar um tiro.51
A seção trata também, com costumeira ironia “graciliânica”, dos servidores
municipais:
Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os
que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem
onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam
em contas. Devo muito a eles.52
Em seguida, “Graça” descreve obras públicas e, quando cita dificuldades na
arrecadação de impostos, revela sua disposição para sanear as contas da cidade:
Adquiri picaretas, pás, enxadas, martelos, marrões, marretas, carros para aterro, aço
para brocas, alavancas, etc. Montei uma pequena oficina para consertar os utensílios
estragados.
[...]
As despesas com a cobrança dos impostos montaram a 5:602$244. Foram altas
porque os devedores são cabeçudos. Eu disse ao Conselho, em relatório, que aqui os
contribuintes pagam ao Município se querem, quando querem e como querem.
Chamei um advogado e tenho seis agentes encarregados da arrecadação, muito
penosa.53
50
FALLEIROS, Marcos Falchero. Os relatórios de Graciliano Ramos. In: XI Congresso Internacional da
ABRALIC, 2008, São Paulo. Anais do XI Congresso Internacional da ABRALIC. São Paulo, 2008, p. 1.
Disponível em: https://tinyurl.com/relatgracabralic Acesso em: 28 out. 2024.
51
PREFEITURA municipal de Palmeira dos Índios, 1929, s.p.
52
PREFEITURA municipal de Palmeira dos Índios, 1929, s.p.
53
PREFEITURA municipal de Palmeira dos Índios, 1929, s.p.
30
Ao contabilizar gastos inúteis, Ramos cita o excesso de telegramas:
Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai
para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos
inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa
foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao governo do Estado, que não
precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a
Bastilha - um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua - um telegrama; porque
o deputado F. esticou a canela - um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe
que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que em 1556
D. Pedro Sardinha foi comido pelos caetés.54
E na “Conclusão” lemos:
Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se abriram só há curvas
onde as retas foram inteiramente impossíveis. Evitei emaranhar-me em teias de
aranha. [...] Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos
os meus erros, porém, foram erros da inteligência, que é fraca. Perdi vários amigos,
ou indivíduos que possam ter semelhante nome. Não me fizeram falta. Há
descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse
de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos. Paz e prosperidade.55
Por se tratar de documento público, que busca - ou deveria - formalidade, objetividade
e clareza, sua textualidade é questionável. Na busca por definir a “literariedade” de um texto,
o crítico canadense Northrop Frye afirma que a linguagem, em relação à arte do texto, oferece
duas possibilidades: “a direção para a literatura, interna, centrípeta, e a direção para a
referência fatual, externa, centrífuga”.56 Diante disso, Frye destaca que:
[...] textos externos frequentemente sobrevivem em razão de seu estilo ou de sua
configuração verbal atraente, depois que sua funcionalidade para a representação dos
fatos se perdeu. [...] Nenhum destes teve intenção primacialmente literária, e teria
falhado a seu propósito inicial se tivesse tido, mas são todos literários agora, e dados
para o crítico.57
Ou seja, existem textos cuja razão de existir não é a literatura, mas sua linguagem e
estilo os tornam obras literárias. A prestação de contas de uma prefeitura é um exemplo. Os
relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios até hoje servem como registro das atividades do
chefe municipal e são fontes para o estudo da economia e administração municipais. Mas é
incontestável que a sua notoriedade se deve mais às suas características literárias do que ao
54
PREFEITURA municipal de Palmeira dos Índios, 1929, s.p.
PREFEITURA municipal de Palmeira dos Índios, 1929, s.p.
56
FRYE apud FALLEIROS, 2008, p. 1.
57
FRYE apud FALLEIROS, 2008, p. 1.
55
31
seu caráter informativo e explicativo. Esses documentos são fruto da inteligência de alguém
que se devotou à literatura desde cedo, ainda que o seu processo de alfabetização tenha sido
doloroso:
Meu pai não tinha vocação para o ensino, mas quis meter-me o alfabeto na cabeça.
Resisti, ele teimou - e o resultado foi um desastre. Cedo revelou impaciência e
assustou-me. Atirava rápido meia dúzia de letras, ia jogar solo. À tarde pegava um
côvado, levava-me para a sala de visitas - e a lição era tempestuosa. Se não visse o
côvado, eu ainda poderia dizer qualquer coisa. Vendo-o, calava-me. Um pedaço de
madeira, negro, pesado, da largura de quatro dedos. [...]
Sozinho não me embaraçava, mas na presença de meu pai emudecia. Ele endureceu
algumas semanas, antes de concluir que não valia a pena tentar esclarecer-me. Uma
vez por dia o grito severo me chamava à lição. Levantava-me, com um baque por
dentro, dirigia-me à sala, gelado. E emburrava: a língua fugia dos dentes, engrolava
ruídos confusos. Livrara-me do aperto crismando as consoantes difíceis: o T era um
boi, o D uma peruinha. Meu pai rira da inovação, mas retomara depressa a exigência
e a gravidade. Impossível contentá-lo. E o côvado me batia nas mãos. Ao
avizinhar-me dos pontos perigosos, tinha o coração desarranjado num desmaio, a
garganta seca, a vista escura, e no burburinho que me enchia os ouvidos a
reclamação áspera avultava. Se as duas letras estivessem juntas, o martírio se
reduziria, pois, libertando-me da primeira, a segunda acudia facilmente.
Distanciavam-se, com certeza havia na colocação um desígnio perverso - e os meus
tormentos se duplicavam.
As pobres mãos inchavam, as palmas vermelhas, arroxeadas, os dedos grossos mal
se movendo. Latejavam, como se funcionassem relógios dentro delas.58
1.2 “Minha arma é a pena”
O relatório de 1929 chegou à imprensa e alguns jornais o publicaram na íntegra. Antes
de passarmos à essas publicações, faz-se necessária uma breve discussão acerca das
especificidades do uso de periódicos como fonte histórica.
Para o historiador José D’Assunção Barros, o jornal consiste em “meio de
comunicação”, “instrumento produtor de discursos”, “‘produto cultural’ destinado à leitura”.59
Segundo Barros, o jornal constitui um “periódico”, categoria que inclui, ainda, publicações,
como os boletins, almanaques, catálogos e revistas. Os periódicos são “[...] efetivamente,
todos aqueles tipos de publicação impressa que são postos a circular, publicamente, com
algum tipo de periodicidade, seja esta diária, semanal, anual ou qualquer outra.”60 O
historiador destaca, ainda, que entre as características essenciais do jornais estão, além da
forma impressa e da periodicidade, a sua disponibilização a algum público.61 Para essa
58
RAMOS, 1976, p. 104; 106.
BARROS, José D'Assunção. Sobre o uso dos jornais como fontes históricas – uma síntese metodológica.
Revista
Portuguesa
de
História,
Coimbra, v. 52, 2021, p. 422. Disponível em:
https://tinyurl.com/jornalfontehistorica Acesso em: 20 jan. 2026.
60
BARROS, 2021, p. 422.
61
BARROS, 2021, p. 422.
59
32
pesquisa, consultei, além de folhas diárias, órgãos oficiais de informação. Chamo a atenção
para a presença de três periódicos: a revista Problemas e o jornal Tribuna Popular,
publicações do Partido Comunista do Brasil, e para o Boletim de Ariel. A circulação de
críticas literárias em folhas editadas pelo “Partidão” revelam a preocupação dos seus
secretários com a literatura e as artes de modo geral. Abordo a questão de forma mais atenta
no capítulo 3. Já o Boletim de Ariel foi um órgão informativo da Ariel Editora, fundada em
1931 por Gastão Cruls e Agrippino Grieco.62 O boletim circulou entre 1931 e 1939 e entre
1973 e 1977. É considerado o periódico literário mais importante da década de 1930. Seus
fundadores faziam parte da elite intelectual e editorial brasileira e eram, quando iniciaram seu
negócio, escritores importantes. Tania Regina de Luca, historiadora cujo esforço de pesquisa
se concentra na história da imprensa, destaca que a Ariel Editora se tornou, em pouco tempo,
uma das empresas mais importantes do mercado editorial.63 O sucesso se deveu ao catálogo
variado da casa, que incluía romances nacionais e estrangeiros e publicações científicas,
jurídicas e de interesse geral. Dessa maneira, a Ariel conseguia abranger um grande público
leitor, endossando a importância do público-alvo destacada por Barros. Por outro lado, a
amplitude do acervo e da oferta da Ariel revela outros aspectos que não podem ser deixados à
margem.
Um deles é que o boletim era veículo de informação de uma empresa. Ainda que Luca
afirme que ser uma estratégia de vendas não determina as características da publicação, esse
elemento não pode ser desconsiderado. Mas a pesquisadora acerta ao destacar que “[...] há
que se considerar, para cada caso concreto, a natureza das relações de força, os pesos e
contrapesos no interior do empreendimento e o contexto de circulação, o que alerta contra o
afã classificatório.”64 E a cena literária e editorial brasileira da década de 1930 tinha duas
marcas características: a expansão do mercado, com o aparecimento de livrarias pertencentes
à editoras e uma produção de obras originais e de crítica intensa; e a vigilância cerrada de
Getúlio Vargas, cuja estratégia era aliar censura e prisão com cooptação. Muitos escritores
atuaram para empresas estatais dedicadas à cultura. O próprio Graciliano Ramos, entre eles.
Entre 1939 e 1941, Ramos publicou na revista Cultura Política, editada pelo Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP), do Estado Novo, uma série de crônicas, os Quadros e costumes
62
HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil (sua história). São Paulo: T. A. Queiroz; Ed. da USP, 1985, p.
344-346.
63
LUCA, Tania Regina. Periódicos lançados por editoras: o caso do Boletim de Ariel (1931-1939). Revista
História Unesp, Franca, v. 36, n. 32, 2017, p. 7. Disponível em: https://tinyurl.com/boletimdeariel Acesso em:
20 jan. 2026.
64
LUCA, 2017, p. 8.
33
do Nordeste.65 A esse respeito, Dênis de Moraes resgata uma declaração do poeta mineiro
Carlos Drummond de Andrade, também ele servidor público sob a ditadura varguista: “Nós
trabalhamos no Estado Novo e não para o Estado Novo.”66 Ademais, por se tratar de um
impresso voltado para público interessado nos produtos e ações de uma editora e seus
responsáveis, a polêmica e as discussões estéticas e políticas acabavam enfraquecidas. Luca
completa que
[...] quanto maior a força econômica e/ou simbólica do empreendimento-mecenas,
também crescia a preocupação de preservar a imagem da marca frente ao público, o
que ajuda a compreender a predominância de um ecletismo bem-comportado, que
não feria suscetibilidades do gosto médio, aliás significativamente influenciado pela
atividade crítica, que ungia e legitimava os aspirantes à glória no mundo letrado. De
toda forma, importa marcar a distância entre esse tipo de revista e as de vanguarda
que a antecederam, assim como em relação àquelas fundadas por grupos ideológicos
bem-definidos como, por exemplo, a católica A Ordem (1922), as integralistas
Anauê! (1935) e Panorama (1936), ou, ainda, as patrocinadas pelo regime, caso de
Cultura Política (1941), sem dúvida o mais importante periódico no seu gênero.67
Diante disso, não é difícil compreender porque periódicos são fonte rica para
historiadoras e historiadores. Sua análise nos fornece elementos para a reconstrução do
movimento editorial, da produção intelectual e dos debates num momento particularmente
agitado da nossa História recente. Isso posto, voltemos à recepção dos trabalhos do autor de
Mc.
A edição de 6 de fevereiro de 1929 do catarinense O Estado o chamou de “curioso” e
definiu o Diário Oficial de Maceió como “[...] página de humor oficial”;68 o Jornal do Brasil
de 7 de fevereiro do mesmo ano publicou a nota “De uma prefeitura alagoana - onde se foi
aninhar um grande humorista”;69 o redator de A Manhã seguiu o de S. Catarina e comentou
que o relatório era peça de “bom humor oficial”.70 Sobre os ofícios que escrevera quando
prefeito, seu autor afirmou:
Nunca fui literato, até pouco tempo vivia na roça e negociava. Por infelicidade, virei
prefeito no interior de Alagoas e escrevi uns relatórios que me desgraçaram. Veja o
senhor como coisas aparentemente inofensivas inutilizam um cidadão. Depois que
redigi esses infames relatórios, os jornais e o governo resolveram não me deixar em
paz. Houve uma série de desastres: mudanças, intrigas, cargos públicos, hospital,
65
As crônicas foram reunidas em 1962 no livro Viventes das Alagoas, publicado pela editora Martins. Cf.
MORAES, 2012, p. 359.
66
MORAES, 2012, p. 16.
67
LUCA, 2017, p. 8, grifos da autora.
68
RELATÓRIO curioso. O Estado, Florianópolis, ano 14, n. 4067, p. 1, 6 fev. 1929.
69
DE UMA prefeitura alagoana - onde se foi aninhar um grande humorista. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro,
ano 39, n. 50, s.p., 7 fev. 1929.
70
O RISO higieniza o espírito. A Manhã, ano 4, n. 1054, s.p., 12 maio 1929.
34
coisas piores e três romances fabricados em situações horríveis - Caetés, publicado
em 1933, S. Bernardo, em 1934, e Angústia, em 1936.71
Quando o poeta e editor carioca Augusto Frederico Schmidt leu os relatórios,
exclamou: “o homem deve ter algum romance na gaveta!”.72 E enviou, em 1930, uma carta ao
seu autor. De fato, Graciliano Ramos tinha um romance engavetado. Afirmei, em páginas
anteriores, que antes de assumir a prefeitura, o criador de Baleia rascunhara, entre um cliente
e outro, o conto que se tornaria Caetés, seu primeiro livro, publicado pela Schmidt Editora em
1933.
O processo de escrita “graciliânico” era demorado: o escritor revisava constantemente
seus textos. Ao recordar os dias na cadeia, seu processo criativo serviu de metáfora para a
aflição do encarceramento:
Julgava-me autor de várias culpas, mas não sabia determiná-las. Arrependia-me
vagamente de asperezas e injustiças, ao mesmo tempo supunha-me fraco, a
escorregar em condescendências inúteis, e queria endurecer o coração, eliminar o
passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período - riscar, engrossar os
riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de
idéias obliteradas.73
Em resposta à resenha do crítico Antonio Candido a Angústia (1936), o “Velho Graça”
reforça o zelo e a busca por uma linguagem precisa e sem excessos. Na carta, de 12 de
novembro de 1945, lemos:
Pego-me a esta razão, velha e clara: Angústia é um livro mal escrito. Foi isto que o
desgraçou. Ao reeditá-lo, fiz uma leitura atenta e percebi os defeitos horríveis: muita
repetição desnecessária, um divagar maluco em torno de coisinhas bestas,
desequilíbrio, excessiva gordura enfim, as partes corruptíveis tão bem examinadas
no seu terceiro artigo. É preciso dizermos isto e até exagerarmos as falhas: de outro
modo o nosso trabalho seria inútil.74
A década de 1930 chegou trazendo a reboque um vendaval de transformações que
atingiu um país essencialmente agrário. Para fins de comparação, em 1940, São Paulo era o
principal núcleo urbano do Brasil; mais de 70% da sua população, porém, estava concentrada
na zona rural75. As mudanças no campo e na cidade possibilitaram debates a respeito da
71
RAMOS apud MORAES, 2012, p. 17, grifos do autor.
LEBENSZTAYN, Ieda; SALLA, Thiago Mio (orgs). O antimodernista: Graciliano Ramos e 1922. Rio de
Janeiro, 2022, e-book.
73
RAMOS, 2022b, p. 31.
74
RAMOS apud CANDIDO, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. São Paulo: Todavia,
2024, p. 10.
75
FAUSTO, Bóris. História do Brasil. 12. ed. São Paulo: EdUsp, 2006, p. 391.
72
35
desigualdade social, exploração do trabalhador e condições de vida da população pobre, temas
presentes na obra de Ramos.
Para o escritor alagoano, a escrita era ferramenta de ação social. Caetés, SB (1934) e
Vs (1938) revelam sofrimentos, dilemas morais e injustiças vividas pelos moradores dos
sertões nordestinos. Angústia também tem importância incalculável. Sua narrativa se
diferencia por se passar em Maceió.
Para a crítica, Caetés e SB são verdadeiros monumentos de inteligência e empatia.
Aurélio Buarque de Hollanda, na resenha do primeiro romance para o Boletim de Ariel,76
afirma:
O sr. Graciliano Ramos é um admirável técnico do romance. Nenhum dos nossos
romancistas vivos o iguala neste ponto. Seu livro é admiravelmente bem construído,
um livro em que nada se perde e a que nada falta. Tudo nele é muito justo, muito
medido, muito calculado. [...] O domínio constante que a inteligência quer ter sobre
a sensibilidade, no sr. Graciliano Ramos, é a causa da aridez de muitas páginas do
seu romance.77
Em outra edição do boletim, quem resenhou Caetés foi o jornalista alagoano Valdemar
Cavalcanti, crítico de grande importância para a época.
Quando li Cahetés, há três annos, senti uma impressão de caricatura: caricatura de
massa, com a grandeza natural da bôa caricatura mas também com as desvantagens
de seu sentido de deformação da realidade, apenas. Suggestionei-me que Graciliano
Ramos se especializara em maus tratos com os seus heroes, dando-lhes uma vida de
escravo e não de gente. E nunca uma impressão foi mais falsa, nunca me trahi tanto
a mim mesmo. Todo o pessoal de Cahetés, com quem tive uma apressada
convivência de poucas horas, tem uma vida de gente de carne e osso, intensa e
infeliz no seu grotesco.78
A precisão vocabular e a humanidade de João Valério, Adrião Teixeira e Luísa,
personagens centrais de Caetés, são, de fato, marcas textuais da produção do “sr. Graciliano
Ramos”. Ler os seus romances coloca o leitor diante de construções enganosamente simples.
A economia verbal oculta significados literários profundos. O próprio autor tratou dessa busca
por “profundidade”, contrária à suposta “largueza” de alguns autores.
76
O Boletim de Ariel circulou entre 1931 e 1939 e entre 1973 e 1977. É considerado o periódico literário mais
importante da década de 1930. Foi publicado pela Ariel Editora, fundada em 1931 pelos escritores Gastão Cruls
e Agrippino Grieco. Cf. HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil (sua história). São Paulo: T. A. Queiroz;
Ed. da USP, 1985, p. 344-346.
77
HOLLANDA, 1933, p. 128.
78
CAVALCANTI, Valdemar. O romance “Caetés”. Boletim de Ariel, Rio de Janeiro, ano 3, n. 2, p. 73, set.
1933, grifos do autor.
36
Na introdução a um comentário sobre a obra do amigo Jorge Amado, publicada em
1935, o escritor “Graça” escreveu:
Há uma literatura antipática e insincera que só usa expressões corretas, só se ocupa
de coisas agradáveis, não se molha em dias de inverno e por isso ignora que há
pessoas que não podem comprar capas de borracha. Quando a chuva aparece, essa
literatura fica em casa, bem aquecida, com as portas fechadas. E se é obrigada a sair,
embrulha-se, enrola o pescoço e levanta os olhos, para não ver a lama nos sapatos.
Acha que tudo está direito, que o Brasil é um mundo e que somos felizes. Está claro
que ela não sabe em que consiste essa felicidade, mas contenta-se com afirmações e
ufana-se do seu país. Foi ela que, em horas de amargura, receitou o sorriso como
excelente remédio para a crise. Meteu a caneta nas mãos de poetas da Academia e
compôs hinos patrióticos; brigou com os estrangeiros que disseram cobras e lagartos
desta região abençoada; inspirou a estadistas discursos cheios de inflamações, e
antigamente redigiu odes bastante ordinárias; tentou, na Revolução de 30, pagar a
dívida externa com donativos de alfinetes para gravatas, botões, broches e moedas
de prata. Essa literatura é exercida por cidadãos gordos, banqueiros, acionistas,
comerciantes, proprietários, indivíduos que não acham que os outros tenham motivo
para estar descontentes.
— Vai tudo muito bem - exclamam, como o papagaio do naufrágio.79
Fica evidente a contrariedade do autor de Mc com a produção burguesa,
descompromissada com o mundo e descolada do seu contexto; uma literatura que “[...]
ganharia em superfície, perderia em profundidade”.80
Enquanto a literatura burguesa era larga e rasa, o romance “graciliânico”, além de
profundo, é denso. A humanidade, característica fundamental dos tipos criados pelo “Mestre”,
confere peso e volume a cada um deles. Segundo Luiz Bueno, a obra do escritor sertanejo é
preocupada “[...] sobretudo com o ‘problema’, seja social seja espiritual. [...] trata-se do
romance realista que focou sua atenção na realidade brasileira a partir de uma perspectiva
pessimista”81. O autor expõe, com acerto e rigor, mas sem abrir mão da beleza e do lirismo, a
angústia dos personagens diante da vida e suas reflexões a respeito da desigualdade em que
sobrevivem. Segundo o próprio Graciliano, não poderia ser diferente.
No artigo “O romance do Nordeste” (1935), publicado no Diário de Pernambuco,
Ramos ataca, mais uma vez, a literatura que não se compromete com o seu tempo:
Na literatura de ficção é que a falta de caráter dos brasileiros se revelou
escandalosamente. Em geral os nossos escritores mostraram uma admirável
ignorância das coisas que estavam perto deles. Tivemos caboclos brutos semelhantes
aos heróis cristãos e bem-falantes em excesso. Os patriotas do século passado, em
79
RAMOS, Graciliano. O romance de Jorge Amado. In: ___. Linhas tortas. 22. ed. Rio de Janeiro: Record,
2016, e-book.
80
RAMOS, 2016, e-book.
81
BUENO, Luís. Experiência rural e urbana no romance de 30. Revista Terceira Margem, Rio de Janeiro, v. 11,
n. 16, p. 142-156, jan./jun. 2007, p. 143. Disponível em: https://tinyurl.com/expruralurb Acesso em: 25. set.
2023.
37
vez de estudar os índios, estudaram tupi nos livros e leram Walter Scott. Tivemos
Damas das Camélias em segunda mão. Tivemos paisagens inúteis em linguagem
campanuda, pores do sol difíceis, queimadas enormes, secas cheias de adjetivos.
[...]
Esses escritores são políticos, são revolucionários, mas não deram a ideias nomes de
pessoas: os seus personagens mexem-se, pensam como nós, sentem como nós,
preparam as suas safras de açúcar, bebem cachaça, matam gente e vão para a cadeia,
passam fome nos quartos sujos duma hospedaria.82
Na entrevista a Homero Senna, em 1948, “Graça” declarou: “Só posso escrever o que
sou. E se as personagens se comportarem de modos diferentes, é porque não sou um só. Em
determinadas condições, procederia como esta ou aquela das minhas personagens. Se fosse
analfabeto, por exemplo, seria tal qual Fabiano…”.83
Coerente com o que declarara a Senna, o autor de Infância aconselhou sua irmã,
Marili, com palavras semelhantes. Marili havia acabado de publicar um conto e, como
escritora iniciante, sentia-se insegura. O apoio do irmão, já consagrado, chegou até ela em
uma carta escrita em 23 de novembro de 1949: “Arte é sangue, é carne. Além disso não há
nada. As nossas personagens são pedaços de nós mesmos, só podemos expor o que somos.
[...] Fique na sua classe, apresente-se como é [...]. Arte é isso. A técnica é necessária, é claro.
Mas se lhe faltar técnica, seja ao menos sincera”.84
No ano seguinte à publicação de Caetés, SB chegou ao público. O romance alcançou
tanto sucesso quanto o anterior. O crítico paranaense Oliveira Franco Sobrinho escreveu sobre
SB em um jornal curitibano:
Em “Caetés”, o sr. Graciliano Ramos deixou transparecer claramente a tendência
para a literatura regional. Esse o mal inicial do romance, pois esta literatura,
encabeçada e escrita em ortografia caipira, está fadada, como toda obra de pouco
fôlego, a uma vida efêmera. Somente a obra de arte, que interprete com fidelidade o
ritmo da vida social, ficará para sempre: as demais desaparecerão tragadas pelo
tempo, porque na ficção a arte está na interpretação fiel da vida objetiva. Em “S.
Bernardo”, pelo contrário, o sr. Graciliano Ramos não procurou sintetizar quadros de
uma vida real imaginada, mas, muito pelo contrário, procurou ver a vida como ela
deve ser vista: com realismo, sem excessos de pintura e nem de imaginação
privilegiada. Fez livro completo.85
82
A opinião do escritor e amigo Jorge Amado era de que:
RAMOS, Graciliano. O romance do Nordeste. In: SALLA, Thiago Mio (org). Garranchos: textos inéditos de
Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 138-139.
83
RAMOS, Graciliano. Como eles são fora da literatura: Graciliano Ramos. Entrevista concedida a Homero
Senna. In: LEBENSZTAYN, Ieda; SALLA, Thiago Mio (orgs). Conversas. Rio de Janeiro: Record, 2014, p.
198.
84
RAMOS, 2022a, p. 328.
85
SOBRINHO, Oliveira Franco. Romance e novela. O Dia, Curitiba, ano 12, n. 3360, p. 3, 4 jan. 1935.
38
Temos neste livro o maior romance de 1934, superior a Banguê, Maleita e qualquer
outro deste ano. Romance escrito por quem é depois de Oswald de Andrade a nossa
maior capacidade de romancista. [...] São Bernardo adquire naquelas cenas de
ciúmes uma força humana, um tom dramático como ainda não encontrei em nenhum
romance no Brasil. Também o drama do trabalhador está fixado neste livro como em
nenhum outro daqui. Livro cru, seco, mas com uma capacidade de emocionar
tamanha que faz pensar que talvez seja esse romancista Graciliano Ramos o primeiro
brasileiro que consiga a capacidade de revoltar.86
Na matéria para o Diário da Manhã, órgão oficial do governo capixaba, João Calazans
enfatizou o aspecto social de SB. Para Calazans, o segundo romance de Graciliano Ramos é:
Um grande livro. Um dos maiores romances do Brasil. Um documento humano de
elevada categoria. Uma visão simpática, nítida e perfeita da vida anônima da gente
sertaneja. [...] S. Bernardo desceu ao povo conquistando-o num gesto de
solidariedade. A reportagem maravilhosa dos que se arrastam sobre o império das
contingências humanas é revelada nessa obra com maestria.87
A construção dos personagens, comentada nas resenhas acima, revela que Graciliano
Ramos foi o “escritor engajado” de que fala Jean-Paul Sartre:
O escritor “engajado” sabe que a palavra é ação: sabe que desvendar é mudar e que
não se pode desvendar senão tencionando mudar. Ele abandonou o sonho impossível
de fazer uma pintura imparcial da sociedade e da condição humana. [...] Sabe que ele
é o homem que nomeia aquilo que ainda não foi nomeado, ou que não ousa dizer o
próprio nome; sabe que faz ‘surgir’ a palavra amor e a palavra ódio e, com elas, o
amor e o ódio entre duas pessoas que não haviam ainda decidido sobre os seus
sentimentos. [...] a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o
mundo e considerar-se inocente diante dele.88
As palavras de Sartre vão ao encontro das de Theodor Adorno. Na sua conhecida
Palestra sobre lírica e sociedade, o filósofo da Escola de Frankfurt reflete sobre o quão a
literatura pode ser engajada - para recuperarmos a expressão do existencialista francês. A
ponderação de Adorno parte do questionamento sobre “Quem seria capaz de falar de lírica e
sociedade, perguntarão, senão alguém totalmente desamparado pelas musas?”89. A resposta,
dada pelo próprio alemão surge em seguida:
Obviamente, essa suspeita só pode ser enfrentada quando composições líricas não
são abusivamente tomadas como objetos de demonstração de teses sociológicas, mas
sim quando sua referência ao social revela nelas próprias algo de essencial, algo do
fundamento de sua qualidade. A referência ao social não deve levar para fora da
86
AMADO, Jorge. Balanço dos romances de 1934. Diário da Manhã, ano 9, n. 2475, p. 3, 18 jul. 1935, grifos
do autor.
87
CALAZANS, João. “S. Bernardo” - um documento humano. Diário da Manhã, ano 30, n. 3315, p. 8, 22 out.
1936.
88
SARTRE, 2004, p. 21.
89
ADORNO, Theodor. Palestra sobre lírica e sociedade. In: ___. Notas de literatura I. São Paulo: Ed. 34;
Livraria Duas Cidades, 2003, p. 66.
39
obra de arte, mas sim levar mais fundo para dentro dela. É isso o que se deve
esperar, e até a mais simples reflexão caminha nesse sentido.90
A definição do frankfurtiano emoldura a obra de Ramos. As críticas que elenquei são
enfáticas na descrição dos romances de Graciliano Ramos como “ecossistemas” em que
subsistem e resistem, com teimosia - ou melhor, com rebeldia - figuras firmes e de resistência.
Caetés, SB, VS, bem como a obra memorialística, ensaística e infanto juvenil e tudo o mais
que tenha saído do gênio literário do quebrangulense não são referências vazias a um
contexto. Antes, o contrário: levam, para dentro dentro da ficção, elementos da realidade
imediata percebida pelo autor. Numa relação dialética, a realidade torna a ficção ainda mais
profunda e densa, ao passo em que a ficção torna a realidade menos angustiante. Para Adorno,
Não que aquilo que o poema lírico exprime tenha de ser imediatamente aquilo que
todos vivenciam. Sua universalidade não é uma volonté de tous, não é a da mera
comunicação daquilo que os outros simplesmente não são capazes de comunicar. Ao
contrário, o mergulho no individuado eleva o poema lírico ao universal por tornar
manifesto algo de não distorcido, de não captado, de ainda não subsumido,
anunciando desse modo, por antecipação, algo de um estado em que nenhum
universal ruim, ou seja, no fundo algo particular, acorrente o outro, o universal
humano.91
Para concluir sua exposição, o filósofo alemão afirma: “Mas a linguagem, por outro
lado, também não deve ser absolutizada enquanto voz do Ser, oposta ao sujeito lírico, como
agradaria a muitas das teorias ontológicas da linguagem em voga atualmente”.92 Ou seja, a
linguagem - e o texto, por associação - não é tão somente ferramenta “social” ou “lírica”, mas
a ponte entre uma e outra.
Um recurso de linguagem presente na obra do “Velho Graça” ilustra bem as
observações de Adorno e Sartre. A análise valida a abordagem da militância literária de
Ramos. Refiro-me à recorrência com que a arte da escrita é associada à armas. Em Mc
podemos ler o seguinte:
Revolucionário chinfrim. Desculpava-me a ideia de não pertencer a nenhuma
organização, de ser inteiramente incapaz de realizar tarefas práticas. Impossível
trabalhar em conjunto. As minhas armas, fracas e de papel, só podiam ser manejadas
no isolamento. No íntimo havia talvez o incerto desejo de provocar a nova justiça
inquisitorial, perturbar acusadores, exibir em tudo aquilo embustes e patifarias.93
90
ADORNO, 2003, p. 66.
ADORNO, 2003, p. 66, grifos do autor.
92
ADORNO, 2003, p. 74.
93
RAMOS, 2022b, p. 27.
91
40
Não se trata de caso isolado. Pouco antes de ingressar oficialmente no Partido
Comunista do Brasil (PCB),94 em 1945, Graciliano retornaria à essa alegoria. Ao se encontrar
com Luís Carlos Prestes em um avião, o tenentista o perguntou por que ele ainda não era do
“Partidão”. A resposta foi “O que é que eu posso fazer no partido, Prestes? Eu não sei fazer
outra coisa senão escrever. Não sei guerrear, porque minha arma é a pena”.95 Já afiliado ao
Partido, em artigo veiculado em uma das publicações comunistas, o autor escreveu: “[...] livro
é mercadoria. As metralhadoras também são mercadorias, que, até hoje utilizadas contra o
povo, irão resguardá-lo. É intuitivo, porém, que de nada servirão se ele não souber
manejá-las”.96 Há outra associação entre letras e armas, dessa vez vinda de outra pena, mas
associada ao “Velho”.
Foi o jornalista Ruy Facó quem escreveu o perfil de Graciliano para o jornal Tribuna
Popular. Sob o título “Graciliano Ramos, escritor do povo e militante comunista”,97 Facó o
apresentou citando seus hábitos de escrita, a prisão em 1936 e que “Graciliano passou a sentir
necessidade urgente de combater os inimigos do povo com armas à altura das por eles usadas
contra os filhos do povo”. 98 Em seguida, comparou o escritor a um soldado:
Vimos com que novo entusiasmo Graciliano desfilou, juntamente com vários
milhares de comunistas, no dia da chegada do segundo escalão da nossa Força
Expedicionária, numa marcha em homenagem aos bravos que combateram o
fascismo de armas nas mãos, e pela democracia e a independência de nossa Pátria
expuseram suas jovens vidas.99
Antes de Facó e Graciliano, um dos comissários mais importantes do Partido
Comunista Soviético, Andrei Zhdanov, empregou a mesma alegoria. No discurso que fez
durante o I Congresso de Escritores Soviéticos, em 1934, Zhdanov falou aos presentes:
94
O PCB foi fundado em 1922 com o nome de Partido Comunista do Brasil e, nas palavras de um dos seus
fundadores, Astrojildo Pereira, "sob a influência decisiva da Revolução Socialista de Outubro". Por essa razão,
nos seus primeiros anos, o Partido também era chamado de Seção Brasileira da Internacional Comunista
(PC-SBIC), estando vinculado à liderança do Partido Comunista Soviético. Por essa razão, era um Partido
Comunista "do" Brasil, e não Brasileiro. Em 1962, uma série de divergências provocou uma cisão no antigo
"Partidão" e originou os atuais PCB - Partido Comunista Brasileiro - e PC do B - Partido Comunista do Brasil; o
segundo manteve-se fiel às orientações de Moscou, enquanto o PCB adotou uma linha de ação baseada no
maoísmo, o comunismo chinês instaurado por Mao Tsé Tung. Cf. PEREIRA, Astrojildo. Formação do PCB
(1922-1928). 3. ed. São Paulo: Anita Garibaldi; Fundação Maurício Grabois, 2012; ROLLEMBERG, Denise.
Esquerdas revolucionárias e luta armada. In: ___. O tempo do regime autoritário: ditadura militar e
redemocratização - Quarta República (1964-1985). 9. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2019, col. O Brasil Republicano v. 4, p. 60-119.
95
RAMOS apud MORAES, 2012, p. 204.
96
RAMOS, 2012, p. 294.
97
FACÓ, Ruy; SANTOS, Ruy. Graciliano Ramos, escritor do povo e militante comunista. Tribuna Popular, Rio
de Janeiro, ano 1, n. 84, p. 9, 26 ago. 1945.
98
FACÓ; SANTOS, 1945, p. 9.
99
FACÓ; SANTOS, 1945, p. 9.
41
Temos em nossas mãos a arma correta para a superação de todas as dificuldades que
se interpõem em nosso caminho. Essa arma é a grande e invencível doutrina de
Marx, Engels, Lênin e Stalin, encarnada na vida pelo nosso Partido e pelos Sovietes.
Vocês têm diversos tipos de armas.
[...]
A literatura soviética tem todas as chances de empregar esses tipos de armas
(gêneros, estilos, formas e métodos de criação de literatura) em sua diversidade e
totalidade, pegando tudo de melhor que foi criado nessa esfera em todos os períodos
anteriores.100
Carlos Nelson Coutinho, destacado filósofo brasileiro de orientação marxista e um dos
principais especialistas na obra de Antonio Gramsci - outro escritor comunista preso pelo
fascismo - dedica um capítulo de Cultura e sociedade no Brasil (2011)101 à literatura de
Graciliano Ramos. Para Coutinho, o engajamento do autor supera metáforas e vocabulário.
Sua ficção revela as causas estruturais das desigualdades e da pobreza. Para o filósofo,
[...] a Graciliano interessa apenas o que é comum a toda a sociedade brasileira, o que
é “universal”. Mas não um universal abstrato e absoluto, pretensamente válido em
qualquer circunstância; a universalidade de Graciliano é uma universalidade
concreta, que se alimenta e vive da singularidade, da temporalidade social e
histórica. O que lhe interessa não é a exemplificação, através da literatura, de teses e
concepções apriorísticas; é a narração do destino de homens concretos, socialmente
determinados, vivendo em uma realidade concreta.102
Paulo Honório, fazendeiro protagonista de SB, é referência da “singularidade” de que
Coutinho trata. Paulo Honório é burguês em “construção”.103 A sua tomada de consciência
ocorre progressivamente e é demonstrada no monólogo final da narrativa. Na fala que abre a
história, o proprietário da fazenda que intitula o texto se refere a uma característica do
capitalismo, a divisão de trabalho: “Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela
divisão do trabalho”.104 Logo em seguida, recorda seu começo de vida adulta: “Até os dezoito
anos gastei muita enxada ganhando cinco tostões por doze horas de serviço”.105 A
rememoração segue:
Se tentasse contar-lhes a minha meninice, precisava mentir. Julgo que rolei por aí à
toa. Lembro-me de um cego que me puxava as orelhas e da velha Margarida, que
vendia doces. O cego desapareceu. A velha Margarida mora aqui em S. Bernardo,
100
ZHDANOV, Andrei. Literatura Soviética: a mais rica em ideias, a literatura mais avançada. Discurso no
Congresso dos Escritores Soviéticos realizado em agosto de 1934. In: Marxists Internet Archive. Disponível
em: https://tinyurl.com/icongresso Acesso em: 2 nov. 2024.
101
COUTINHO, Carlos Nelson. Graciliano Ramos. In: ___. Cultura e sociedade no Brasil: ensaio sobre ideias
e formas. 4. ed. ampl. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
102
COUTINHO, 2011, p. 141.
103
COUTINHO, 2011, p. 156.
104
RAMOS, Graciliano. S. Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2024, p. 5.
105
RAMOS, 2024, p. 17.
42
numa casinha limpa, e ninguém a incomoda. Custa-me dez mil-réis por semana,
quantia suficiente para compensar o bocado que me deu. Tem um século, e qualquer
dia destes compro-lhe mortalha e mando enterrá-la perto do altar-mor da capela. [...]
Nesse tempo eu [...] pensava em ganhar dinheiro. Tirei o título de eleitor, e seu
Pereira, agiota e chefe político, emprestou-me cem mil-réis a juro de cinco por cento
ao mês. Paguei os cem mil-réis e obtive duzentos com o juro reduzido para três e
meio por cento. Daí não baixou mais, e estudei aritmética para não ser roubado além
da conveniência. [...] Depois vinguei-me: hipotecou-me a propriedade e tomei-lhe
tudo, deixei-o de tanga. Mas isso foi muito mais tarde.106
Paulo Honório contabiliza suas “boas ações”. O personagem está aprisionado à
necessidade de lucro e, ainda que seja o dono das terras que cultiva, encontra-se alienado pelo
por um desejo de riqueza que o impede de perceber a sua origem. No correr dos
acontecimentos, sua avidez o leva a querer mais. E, a cada conquista, Paulo Honório percebe
que não alcançou a fortuna desejada.
Não posso deixar de lembrar que a S. Bernardo não pertencia a Paulo Honório.
Salustiano Padilha, antigo proprietário das terras e seu ex-patrão, morreu empobrecido após
perder o dinheiro investindo nos estudos do filho, Luís Padilha, que não os concluiu.107 A
morte do pai o obriga a retornar à Viçosa, onde a história se desenrola. Padilha filho se
entrega à “[...] folias de bacalhau e aguardente, com fêmeas ratuínas [...]”.108 Paulo Honório
passa a emprestar dinheiro a Padilha, na intenção de endividá-lo. A fazenda estava “[...] em
cacos: mato, lama e potó como os diabos. A casa-grande tinha paredes caídas, e os caminhos
estavam quase intransitáveis. Mas que terra excelente!”.109 Paulo Honório usurpa as terras e
acompanha de perto a desdita de Padilha. Há um diálogo que serve de metonímia para toda a
história. Padilha confessa ao usurpador tentativa frustrada de empréstimo com Pereira:
— Cavalo! Fiz uma exposição minuciosa, demonstrei cabalmente que o negócio é
magnífico. Não acreditou, disse que estava no pau da arara. E eu calculei que talvez
a transação lhe interessasse. Quer desembolsar aí uns vinte contos?
Examinei sorrindo aquele bichinho amarelo, de beiços delgados e dentes podres.
— Ó Padilha, gracejei, você já fechou cigarros?
Padilha comprava cigarros feitos.
— É mais cômodo, concordei, mas é mais caro. Pois, Padilha, se você tivesse
fechado cigarros, sabia como é difícil enrolar um milheiro deles. Imagine agora que
dá mais trabalho ganhar dez tostões que fechar um cigarro. E um conto de réis tem
mil notas de dez tostões. Vinte contos de réis são vinte mil notas de dez tostões.
Parece que você ignora isto. Fala em vinte contos assim com essa carinha, como se
dinheiro fosse papel sujo. Dinheiro é dinheiro.
Padilha baixou a cabeça e resmungou amuado que sabia contar. Saiu, voltou outras
vezes, insistindo.
— Eu sou capitalista, homem? Você quer-me arrasar?
Padilha rezingava e oferecia a hipoteca de S. Bernardo.
106
RAMOS, 2024, p. 17.
RAMOS, 2024, p. 21.
108
RAMOS, 2024, p. 21.
109
RAMOS, 2024, p. 22.
107
43
— Bobagem! S. Bernardo não vale o que um periquito rói. O Pereira tem razão. Seu
pai esbagaçou a propriedade.
Afinal prometi vagamente:
— Está bem. Vou refletir.110
Enquanto Padilha - proprietário por direito - se recusa a ser tratado como “capitalista”,
Paulo Honório, ex-empregado, age como um. O didatismo do exemplo dos cigarros para
explicar riscos de investir dinheiro numa propriedade arruinada parece vir de um negociante
próspero e experiente.111
Como exemplo de mente alienada pelo capitalismo, Paulo Honório tem antipatia pelo
socialismo. Por sua vez, o autor usa os substantivos capitalismo, comunismo e socialismo de
forma clara, sem tentativas de “camuflagem” ou tergiversações. De volta ao anti-comunista
Paulo Honório, primeiro testemunhamos seu flagrante em Padilha, que mantinha conversa
suspeita com trabalhadores da fazenda:
Uma tarde surpreendi no oitão da capela (a capela estava concluída; faltava pintura)
Luís Padilha discursando para Marciano e Casimiro Lopes:
— Um roubo. É o que tem sido demonstrado categoricamente pelos filósofos e vem
nos livros. Vejam: mais de uma légua de terra, casas, mata, açude, gado, tudo de um
homem. Não está certo.
Marciano, mulato esbodegado, regalou-se, entronchando-se todo e mostrando as
gengivas banguelas:
— O senhor tem razão, seu Padilha. Eu não entendo, sou bruto, mas perco o sono
assuntando nisso. A gente se mata por causa dos outros. É ou não é, Casimiro?
Casimiro Lopes franziu as ventas, declarou que as coisas desde o começo do mundo
tinham dono.
— Qual dono! gritou Padilha. O que há é que morremos trabalhando para enriquecer
os outros.
Saí da sacristia e estourei:
— Trabalhando em quê? Em que é que você trabalha, parasita, preguiçoso, lambaio?
— Não é nada não, seu Paulo, defendeu-se Padilha, trêmulo. Estava aqui
desenvolvendo umas teorias aos rapazes.112
Mais tarde, Paulo Honório relata para o amigo jornalista Gondima a conversa com
Padilha:
— Está bem. Para você não há segredo. Ouça. Estou aborrecido com o Padilha.
— Alguma carraspana que ele tomou?
— Pior. Anda querendo botar socialismo na fazenda. Surpreendi-o dizendo besteiras.
Não liguei importância, tanto que o conservei, mas, o caso bem pensado, talvez
fosse melhor arranjar para ele outra colocação, fora.113
110
RAMOS, 2024, p. 25-27.
Em 2025, Paulo Honório talvez fosse coach, com centenas de milhares de seguidores nas redes sociais; é
possível até que usasse o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” em sua candidatura a cargo eletivo.
112
RAMOS, 2024, p. 84-85.
113
RAMOS, 2024, p. 122.
111
44
Em momento posterior, o padre Silvestre, frequentador da S. Bernardo comenta: “O
comunismo é a miséria, a desorganização da sociedade, a fome”.114
Movido pela ganância, Paulo Honório se dá conta de que precisa de um herdeiro para
que outro não aja como ele. Decide então se casar. Segundo Coutinho, o fazendeiro deseja
“adquirir” matrimônio. A decisão expõe o egoísmo do protagonista:
Não é o amor que o move, pois os egoístas não conhecem o amor; ele busca a
mulher como quem busca um objeto, uma propriedade. Este fato corriqueiro, porém,
é transformado por Graciliano num momento rigorosamente necessário no
desenvolvimento da ação romanesca: através dele, revela-se toda a limitação dos
valores egoístas construídos por Paulo Honório.115
O fazendeiro se casa com Madalena, seu reflexo invertido. E logo perceberá que é
incapaz de a manter como a um objeto. Paulo Honório reifica a esposa. Seu ciúme doentio
não é pela companheira, mas pelo que ela representa: a consolidação da sua riqueza. Impedida
de ser livre, de pensar, de conversar com outros funcionários da fazenda, ou seja, de viver,
Madalena se suicida. Sua morte trágica abala Paulo Honório que, ao fim da trama, reflete
sobre o que vivera e conclui que seu desejo por dinheiro e poder é a causa da sua infelicidade:
Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse,
fui guia de cego, vendedor de doce e trabalhador alugado. Estou convencido de que
nenhum desses ofícios me daria os recursos intelectuais necessários para engendrar
esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que há
nela pedaços melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a mestre
Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porém, que os enfeites do meu
espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal
cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha.
Além disso estou certo de que a escrituração mercantil, os manuais de agricultura e
pecuária, que forneceram a essência da minha instrução, não me tornaram melhor
que o que eu era quando arrastava a peroba. Pelo menos naquele tempo não sonhava
ser o explorador feroz em que me transformei.
Quanto às vantagens restantes - casas, terras, móveis, semoventes, consideração de
políticos, etc. - é preciso convir em que tudo está fora de mim.116
Abramos um parêntese. Paulo Honório não é o único personagem de Ramos que
destrói vidas ao adotar uma postura capitalista. Em Caetés, João Valério trabalha como
guarda-livros - espécie de contador - na firma Teixeira & Irmão. Adrião Teixeira, um dos
proprietários, é casado com Luísa, por quem João Valério é apaixonado. As constantes
tentativas de João Valério de conquistar a mulher alheia levam Adrião ao suicídio. João
114
RAMOS, 2024, p. 194.
COUTINHO, 2011, p. 156.
116
RAMOS, 2024, p. 284-285.
115
45
Valério não se casa com Luísa, mas se torna sócio da empresa e se dá por satisfeito.117 A
experiência no comércio deu a Graciliano conhecimento sobre termos usados pelos
negociantes. Além disso, ele era leitor de Lênin e Gramsci118.
Esse é o fim de Paulo Honório: enriquecido, mas viúvo, abandonado pelos amigos e
ciente de que desperdiçou a vida: “Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma
pessoa a vida inteira sem saber para quê!”.119 Sabedor da classe social a que estava destinado,
o coronel tentou escapar e se colocar acima dela. Só e arruinado na propriedade que roubara,
ele reconhece o quão reduzido é o seu conhecimento. Seu fim é semelhante ao do herói
trágico. Enquanto Prometeu teve as vísceras devoradas e Sísifo rola, eternamente, a imensa
pedra ladeira acima, Paulo Honório foi condenado a reconhecer sua falência como ser
humano. Pela força, não alcançou a riqueza desejada; rico, não soube domou a própria
brutalidade. Essa foi sua hamartia 120.
1.3 “Consideramo-nos artesãos”
A estratégia textual adotada por Graciliano Ramos na criação de seus personagens e
romances agradou a crítica da época. Porém, após filiar-se ao PCB, a “humanização” de
figuras como Luís Carlos Prestes e outros membros do Partido vai ser questionada pelas
lideranças comunistas. Sobre Prestes, por exemplo, Ramos escreve:
Ainda não dispunha de meios para avaliar com segurança a inteligência de Prestes:
dois ou três manifestos, repreensões amargas aos antigos companheiros, eram
insuficientes. Admirava-lhe, porém, a firmeza, a coragem, a dignidade. E sentia que
essa grande força estivesse paralisada.121
A explicação para as divergências que Graciliano Ramos - antes elogiado como
"escritor do povo e militante do Partido Comunista" - enfrentou dentro do Partido requer a
compreensão de como o PCUS entendia a arte e os artistas.
O cenário artístico russo pré-Revolução era bastante plural. Tendências e movimentos
variados dividiam espaço, criando uma efervescência criativa. Duas particularidades desse
contexto precisam ser citadas. Boa parte dos pintores russos do começo do século XX se
117
RAMOS, Graciliano. Caetés. Ed. comemorativa dos 80 anos da obra. Rio de Janeiro: Record, 2013.
MORAES, 2012, p. 51-52.
119
RAMOS, 2024, p. 283.
120
A hamartia é a falha do herói trágico. Por desconhecer o teor e as consequências da sua falta, o herói é punido
com a tragédia. Cf. ARISTÓTELES, 2017, p. 113.
121
RAMOS, 2022b, p. 57.
118
46
dedicava ao figurativismo. Artistas como Vladimir Tatlin, Mikhail Larionov e sua esposa,
Natalia Goncharova, pintaram quadros em que a forma humana é facilmente reconhecível122.
E havia óbvia preferência pela representação de trabalhadores. Kazimir Malevich, por
exemplo, conhecido como precursor do suprematismo,123 apresentou O lenhador em 1912.124
Na pintura, reconhecemos o lenhador que a nomeia, com sua barba e machado em meio à
várias toras de madeira.
Figura 7 - O lenhador, Kazimir Malevich (1912)125
Fonte: Stedelijk Museum of Modern and Contemporary Art and Design.
Após a Revolução de 1917, o Estado passa a controlar a arte, trazendo a necessidade
de orientar pintores, escultores, arquitetos, escritores e outros artífices, a fim de estabelecer
uma produção artística que possibilitasse a “educação socialista do proletariado”126. Clara
122
FORTE, Graziela Naclério. Arte e poder: realismo socialista. Novos Temas, São Paulo, v.9, s.n., 2013, s.p.
Disponível em: https://tinyurl.com/realsocnforte Acesso em: 28 out. 2024.
123
Suprematismo foi um movimento artístico surgido na Rússia, nos primeiros anos da década de 1910. O estilo
suprematista valorizava formas geométricas básicas. Enquanto o Realismo baseava-se em pessoas, fatos ou
acontecimentos reais, o Suprematismo propunha que as relações entre o mundo e os objetos aconteciam
intuitivamente. Cf. FORTE, 2013, s.p., nota 2.
124
FORTE, 2013, s.p.
125
MALEVICH, Kazimir. O lenhador. 1912. 1 original de arte, óleo sobre tela, 76 x 99 x 3.5cm. In: Stedelijk
Museum of Modern and Contemporary Art and Design. Disponível em: https://tinyurl.com/realsocmlvch.
Acesso em: 31 out. 2024.
126
ANDRADE, Homero Freitas. O realismo socialista e suas (in)definições. Literatura e sociedade, São Paulo,
v. 15, n. 13, nov. 2010, p. 154. Disponível em: https://tinyurl.com/realsoc Acesso: 2 nov. 2024.
47
Zetkin cita conversa tida com Lênin a respeito da arte, cultura e folclore durante a qual o líder
soviético expôs as intenções do Partido Comunista Soviético (PCS):
O despertar das forças novas, o trabalho realizado por elas a fim de criar, na Rússia
Soviética, uma cultura e uma arte novas, disse ele, está indo bem, muito bem. O
ritmo impetuoso de seu desenvolvimento é compreensível e útil. Devemos e
queremos compensar nosso atraso secular.
[...]
A revolução liberta todas as forças até então acorrentadas e faz com que elas venham
à tona. Eis um exemplo entre cem: pensem na influência exercida sobre a evolução
de nossa pintura, de nossa escultura e de nossa arquitetura pela moda e os caprichos
da corte tzarista, assim como pelos gostos e fantasias desses senhores aristocratas e
burgueses. Numa sociedade baseada na propriedade privada, o artista cria
mercadorias para o mercado, necessita de compradores. Nossa revolução libertou o
artista do jugo dessas condições extremamente prosaicas. Fez do Estado Soviético
seu protetor e seu cliente. Cada artista, qualquer um que se considere como tal, tem
o direito de criar e deve criar, com toda a liberdade, conforme seu ideal, uma
independência completa.
Mas, naturalmente, somos comunistas. Não devemos cruzar os braços e deixar o
caos estender-se como quiser. Devemos dirigir esse “processus” segundo um plano
estabelecido e dar-lhe uma forma. Estamos ainda longe, muito longe disso.
[...]
— Mas - continuou Lenine - o importante não é a nossa opinião sobre a arte. O
importante, não é tão-pouco aquilo que a arte proporciona a alguns, a algumas
milhares de pessoas mesmo, numa população que, como a nossa, conta muitos
milhões. A arte pertence ao povo. Ela deve mergulhar suas raízes profundamente nas
grandes massas trabalhadoras. Deve ser compreendida e amada por essas massas.
Deve unir os sentimentos, o pensamento e a vontade dessas massas, elevá-las a um
nível superior. Deve suscitar e desenvolver, nessas massas, os artistas.127
Após a Revolução de 1917, o Estado passa, de forma progressiva, a controlar a arte.
Era necessário orientar pintores, escultores, arquitetos, escritores e outros artífices e
estabelecer
uma produção artística que possibilitasse a “educação socialista do
proletariado”128. Clara Zetkin cita conversa tida com Lênin a respeito da arte, cultura e
folclore durante a qual o líder soviético expôs as intenções do Partido Soviético:
O despertar das forças novas, o trabalho realizado por elas a fim de criar, na Rússia
Soviética, uma cultura e uma arte novas, disse ele, está indo bem, muito bem. O
ritmo impetuoso de seu desenvolvimento é compreensível e útil. Devemos e
queremos compensar nosso atraso secular.
[...]
A revolução liberta todas as forças até então acorrentadas e faz com que elas venham
127
ZETKIN, Clara. A arte pertence ao povo. In: FRÉVILLE, Jean. Marx, Engels, Lenine e Stalin: trechos
escolhidos sobre literatura e arte. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1945, s.p. Disponível em:
https://tinyurl.com/edcalvino Acesso em: 2 nov. 2024. A Editorial Calvino foi fundada em 1931 por João
Calvino Filho. Em 1937, pressionado pelo Estado Novo, Calvino Filho fechou a editora, reabrindo-a, em 1942,
com o nome Editorial Calvino. Cf: HALLEWELL, 1985, p. 420; JUBERTE, Vinícius. A Editorial Calvino
Limitada e o PCB: a edição de livros sobre a URSS e antifascistas nos anos 1940. In: XXIX Simpósio Nacional
de História, 2017, Brasília. Anais do XXIX Simpósio Nacional de História. Brasília, 2017. Disponível em:
https://tinyurl.com/anpuh2017 Acesso em: 2 nov. 2024.
128
ANDRADE, Homero Freitas. O realismo socialista e suas (in)definições. Literatura e sociedade, São Paulo,
v. 15, n. 13, nov. 2010, p. 154. Disponível em: https://tinyurl.com/realsoc Acesso: 2 nov. 2024.
48
à tona. Eis um exemplo entre cem: pensem na influência exercida sobre a evolução
de nossa pintura, de nossa escultura e de nossa arquitetura pela moda e os caprichos
da corte tzarista, assim como pelos gostos e fantasias desses senhores aristocratas e
burgueses. Numa sociedade baseada na propriedade privada, o artista cria
mercadorias para o mercado, necessita de compradores. Nossa revolução libertou o
artista do jugo dessas condições extremamente prosaicas. Fez do Estado Soviético
seu protetor e seu cliente. Cada artista, qualquer um que se considere como tal, tem
o direito de criar e deve criar, com toda a liberdade, conforme seu ideal, uma
independência completa.
Mas, naturalmente, somos comunistas. Não devemos cruzar os braços e deixar o
caos estender-se como quiser. Devemos dirigir esse “processus” segundo um plano
estabelecido e dar-lhe uma forma. Estamos ainda longe, muito longe disso.
[...]
— Mas - continuou Lenine - o importante não é a nossa opinião sobre a arte. O
importante, não é tão-pouco aquilo que a arte proporciona a alguns, a algumas
milhares de pessoas mesmo, numa população que, como a nossa, conta muitos
milhões. A arte pertence ao povo. Ela deve mergulhar suas raízes profundamente nas
grandes massas trabalhadoras. Deve ser compreendida e amada por essas massas.
Deve unir os sentimentos, o pensamento e a vontade dessas massas, elevá-las a um
nível superior. Deve suscitar e desenvolver, nessas massas, os artistas.129
Estado e artistas mediam forças desde antes da Revolução. Em 1917, o filósofo
Alexander Bogdanov, o educador Anatoli Lunatcharski e o poeta Mikhail Gerasimov criaram
o Proletkult, união de artistas que visava implementar a literatura e a arte proletárias.130 Seus
participantes se diziam operários, mas eram, em sua maioria, pessoas de escassa formação
escolar e intelectual. O Proletkult realizava espetáculos, apresentações e editava publicações.
Sua posição quanto à literatura produzida antes de 1917 era ambígua. Alguns dos seus
membros condenavam o passado czarista, enquanto outros, capitaneados por Bogdanov e
Lunatcharski, acreditavam a arte da geração pré-Revolução poderia ser reavaliada pelo PCUS
e, talvez, tornar-se patrimônio soviético131. Por sua vez, Lênin via com desconfiança o fato de
entidade independente discutir matéria tão importante fora do partido e exigia que o Proletkult
se subordinasse ao PCS.132
129
Em 1921, Lênin inaugurou a Nova Política Econômica (NEP). Na prática, a NEP foi
ZETKIN, Clara. A arte pertence ao povo. In: FRÉVILLE, Jean. Marx, Engels, Lenine e Stalin: trechos
escolhidos sobre literatura e arte. Rio de Janeiro: Editorial Calvino, 1945, s.p. Disponível em:
https://tinyurl.com/edcalvino Acesso em: 2 nov. 2024. A Editorial Calvino foi fundada em 1931 por João
Calvino Filho como Calvino Filho Editora. Em 1937, Calvino Filho fechou a editora, pressionado pelo Estado
Novo. Em 1942, com o abrandamento da repressão estadonovista, causado pela participação do Brasil na II
Grande Guerra ao lado dos países Aliados, a Calvino retomou suas atividades sob o nome Editorial Calvino. Cf:
HALLEWELL, 1985, p. 420; JUBERTE, Vinícius. A Editorial Calvino Limitada e o PCB: a edição de livros
sobre a URSS e antifascistas nos anos 1940. In: XXIX Simpósio Nacional de História, 2017, Brasília. Anais do
XXIX Simpósio Nacional de História. Brasília, 2017. Disponível em: https://tinyurl.com/anpuh2017 Acesso
em: 2 nov. 2024.
130
ANDRADE, 2010, p. 154.
131
ANDRADE, 2010, p. 154.
132
ANDRADE, 2010, p. 154.
49
conjunto de ações capitalistas levado a cabo por um estado socialista.133 A flexibilidade
econômica atraiu críticas severas contra o PCS, afetando sua ação sobre os artistas. Lênin
defendia o “espírito de partido” como componente essencial da criação artística mas, naquele
momento, a prioridade era recuperar a URSS do “comunismo de guerra”. 134 Com a morte de
Lênin, em 1928, Joseph Stalin assumiu a presidência do Comitê Central do Partido e, em
1932, “o comandante genial” encerrou os debates em torno da questão artística com a
fundação da União dos Escritores Soviéticos (UES). Todas as associações de arte e literatura
tiveram seu fim decretado e apenas a UES representaria artistas diante do Partido, que
estabeleceria as orientações oficiais. Nas palavras do historiador russo Gleb Struve, foi um
“hábil movimento para a supressão de todo não conformismo e para um controle totalitário da
vida cultural e espiritual”.135
Em 1934, a UES realizou em Moscou o seu primeiro grande evento, o I Congresso de
Escritores Soviéticos. Idealizado pelo escritor Maximo Gorki e por Andrei Zhdanov, um dos
mais proeminentes comissários do PCS, o objetivo do I Congresso foi estabelecer a estética
soviética, capaz de transmitir, de forma didática, o ideário socialista. A literatura pregada pelo
I Congresso deveria ser simples e servir como ferramenta pedagógica; tudo o que fosse escrito
daquele momento em diante deveria ser útil ao povo e reverenciar heróis e valores
patrióticos.136 Em outras palavras, para transmitir com eficácia a propaganda do regime
socialista, a arte soviética deveria ser figurativa e descritiva, o que a tornaria acessível ao
povo; desenhos, telas e cartazes apresentariam jovens trabalhadores rurais e urbanos de
aparência saudável; soldados apareceriam em situações heroicas, sugerindo esforço pela
segurança da nação. Esse conjunto de diretrizes ficou conhecido como “realismo socialista”.
O discurso de Zhdanov durante o I Congresso é pedra angular do realismo socialita.
Sua leitura revela limites estéticos e ideológicos do estilo. A declaração começa com elogios
ao comunismo, ao PCUS e à literatura partidária:
A chave para o sucesso da literatura soviética deve ser procurada no sucesso da
construção do socialismo. Seu crescimento é uma expressão dos sucessos e
conquistas de nosso sistema socialista. Nossa literatura é a mais jovem de todas as
literaturas de todos os povos e países. E ao mesmo tempo, a mais rica em ideias, a
mais avançada e a literatura mais revolucionária. Nunca antes houve uma literatura
que organizasse os trabalhadores e oprimidos, para a luta pela abolição, de uma vez
por todas, de toda forma de exploração e do jugo da escravidão assalariada. Nunca
133
FRANCA, Acson Gusmão. Estado e Planejamento na antiga URSS: Revisitando a Revolução Russa e
resgatando as ideias e práticas revolucionárias de Lênin. Revista Cantareira, Rio de Janeiro, 31. ed., p. 81-91,
jul.-dez. 2019, p. 86. Disponível em: https://tinyurl.com/urssnep Acesso em: 2 nov. 2024.
134
ANDRADE, 2010, p. 153-154.
135
STRUVE apud ANDRADE, 2010, p. 159.
136
FORTE, 2013, p. 59.
50
antes houve uma literatura que baseasse seus temas na vida da classe operária e do
campesinato e na sua luta pelo socialismo. Em nenhum lugar, em nenhum país do
mundo, houve uma literatura que defendesse e endossasse os princípios de direitos
iguais para os trabalhadores de todas as nações, o princípio de direitos iguais para
mulheres. Não há, e não pode existir haver em países burgueses uma literatura que
constantemente ataque todo tipo de obscurantismo, todo tipo de misticismo,
sacerdócio e superstição, como nossa literatura vem fazendo.
Apenas a literatura soviética, que está ligada à construção socialista, poderia se
tornar, e de fato se tornou, tal literatura - tão rica em ideias, tão avançada e
revolucionária.
Os autores soviéticos já criaram vários trabalhos espetaculares, que correta e
honestamente retratam a vida de nosso país soviético. Já existem diversos nomes dos
quais podemos ser, e com justiça, orgulhosos. Sob a liderança do Partido, com a
orientação cuidadosa e diária do Comitê Central e a ajuda e o apoio incansável do
camarada Stalin, todo um exército de escritores soviéticos se mobilizaram em torno
do Poder Soviético e do Partido.137
Em seguida, Zhdanov ataca a “decadente” e “apodrecida” literatura burguesa”:
De que pode o autor burguês escrever, de que pode ele sonhar, que fonte de
inspiração ele pode achar, de onde ele pode pegar emprestado sua inspiração, se o
operário nos países capitalistas não tem certeza do amanhã, se ele não sabe se terá
trabalho no dia seguinte, se o camponês não sabe se ele vai trabalhar em seu pedaço
de terra amanhã ou se sua vida será arruinada pela crise capitalista, se o trabalhador
intelectual não tem emprego hoje e não sabe se vai ter algum amanhã?
Do que pode o autor burguês escrever, que fonte de inspiração pode ter para ele,
quando o mundo está sendo precipitado mais uma vez, se não hoje, então amanhã,
para o abismo de uma nova guerra imperialista?
O atual estado da literatura burguesa é tal que não mais é capaz de criar grandes
trabalhos artísticos. A decadência e desintegração da literatura burguesa, resultando
do colapso e decadência do sistema capitalista, representa um traço característico,
uma característica peculiar do estado da cultura e literatura burguesas na vida atual.
Não se retornará mais aos tempos quando a literatura burguesa, refletindo a vitória
da revolução burguesa sobre o feudalismo, era capaz de criar grandes trabalhos da
época quando o capitalismo estava nascendo. Tudo agora está crescendo de forma
atrofiada - temas, talentos, autores, heróis.
[...]
Características da decadência e declínio da cultura burguesa são as orgias de
misticismo e superstição, a paixão por pornografia. Os "personagens ilustres" da
literatura burguesa - daquela literatura burguesa que vendeu caneta ao capital - são
agora ladrões, detetives policiais, prostitutas, brigões.
Tudo isso é característico daquele segmento da literatura que está tentando esconder
o declínio do sistema burguês, que em vão vem tentando provar que nada aconteceu,
que tudo vai bem no "reino da Dinamarca", que nada se apodrece no sistema
capitalista. Esses representantes da literatura burguesa que sentem o estado de coisas
de forma mais aguda, são absorvidos em pessimismo, dúvida do amanhã, elogio da
escuridão, exaltação do pessimismo como da teoria e prática da arte.138
O pronunciamento se encerra com as orientações do “camarada Stalin”:
O camarada Stalin chamou os nossos escritores de engenheiros da alma humana. O
que isto significa? Que deveres confere a vocês?
137
138
ZHDANOV, 1934, s.p.
ZHDANOV, 1934, s.p.
51
Em primeiro lugar, significa conhecer a vida de modo a ser capaz de representá-la
fielmente nas obras, não para representá-la de uma forma morta, escolástica, não
simplesmente enquanto "realidade objetiva", mas retratar a realidade em seu
desenvolvimento revolucionário.
Além disso, a fidelidade e concretude histórica da representação artística deve ser
combinado com remodelagem ideológica e educação do povo trabalhador sob o
espírito do socialismo. Este método em belles lettres e criticismo literário é o que
chamamos o método do realismo socialista.
Ser um engenheiro das almas humanas significa ficar com os dois pés plantados na
vida real. E isto por sua vez, indica uma ruptura com o romantismo de velho tipo,
que retratava uma vida não-existente e heróis não-existentes, afastando o leitor dos
antagonismos e opressão da vida real e o levando a um mundo do impossível, para
um mundo de sonhos utópicos. Nossa literatura, que mantém ambos os pés
firmemente plantados em uma base materialista, não pode ser hostil ao romantismo,
mas deve ser um romantismo de novo tipo, romantismo revolucionário. Dizemos
que o realismo socialista é o método básico da belles lettres soviético e criticismo
literário, e isso pressupõe que o romantismo revolucionário deva entrar na criação
literária como uma parte componente, de toda a vida de nosso Partido, de toda a vida
da classe operária e sua luta consiste em uma combinação do trabalho prático mais
austero e sóbrio com o espírito superior de feitos heroicos e magníficas perspectivas
futuras. Nosso Partido sempre esteve forte pela virtude do fato que uniu e continua a
unir um estilo completamente eficaz e o espírito prático com uma visão ampla, e um
constante impulso a avançar, e a luta para construir a sociedade comunista. A
literatura soviética deve ser capaz de retratar nossos heróis; deve ser capaz em
vislumbrar o nosso amanhã. Isso não será nenhum sonho utópico, pelo nosso
amanhã já estar sendo preparado hoje pôr à custa de um trabalho planejado
consciente.139
É fácil compreender o zhdanovismo: a arte deve ser simples, livre de imaginação,
alicerçada na realidade imediata; o artista não deve criar ou idealizar, exceto quando o seu
trabalho for a respeito do trabalhador soviético e dos próceres do PCUS, pessoas dotadas de
“[...] espírito superior de feitos heroicos e magníficas perspectivas futuras”. Nesses casos,
para engrandecer o socialismo e os seus “heróis”, deve ser empregado o “romantismo
revolucionário”.
No Brasil, o PCB apresentou as bases do realismo socialista em 1949. O Partido
atuava legalmente desde novembro de 1945, tendo eleito deputados para a Assembleia
Nacional Constituinte de 1946. Entre suas publicações estavam os jornais Tribuna Popular e
Hoje - que em 1947 mudariam seus nomes para Imprensa Popular e Notícias de Hoje,
respectivamente - e a revista de discussão teórica Problemas.140 Foi na edição de número
139
ZHDANOV, 1934, s.p., grifo do autor.
Ao longo de sua trajetória, o PCB esteve na ilegalidade em diversos momentos. A primeira interrupção das
suas atividades foi em julho de 1922, apenas seis meses após a sua fundação; em 1927, o Partido voltou à
legalidade, mas teve o registro cassado em 1933. Nova autorização foi concedida em 1945. Em 1947, foi
decretado o fim do PCB e seus deputados tiveram mandatos suspensos no ano seguinte. O partido só teria seu
registro revalidado em 1985, com o fim da ditadura civil-militar iniciada em 1964. Cf. SEGATTO, José Antonio.
PCB: a questão nacional e a democracia. In: DELGADO Lucília de Almeida Neves; FERREIRA, Jorge (orgs). O
tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964 - Terceira
República (1945-1964). 8. ed. rev. atual. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019, col. O Brasil Republicano
v. 3, p. 195-217.
140
52
cinco dessa última, de dezembro de 1947, que Andrei Zhdanov foi apresentado aos
comunistas brasileiros, com o artigo “Pela paz, a democracia e a independência dos povos”.141
Seu primeiro texto sobre literatura, “As tarefas da literatura na sociedade soviética”, aparece
na edição número 20, de 1949. No artigo, Zhdanov ataca os trabalhos do escritor Mikhail
Zoshchenko e da poeta Anna Akhmatova e a sua atuação à frente da revista literária Zviezda
enquanto trata sobre como deveria ser a “literatura de partido”.142
A orientação do PCB era a de que artistas e escritores deveriam trabalhar pela
“democratização da herança cultural e fortalecimento da ‘cultura do povo’”.143 Porém, o
Partido não estabeleceu uma agenda de ações que conduzisse a esses objetivos. Diante desse
vácuo, escritores e artistas adotaram a chamada “cultura de partido” que, de acordo com
Moraes, “[...] funciona como ‘tradição’ reivindicada e assumida, incorporada pelos militantes
como um ‘conjunto de critérios políticos-culturais-estéticos de valoração e seleção dos
materiais culturais e artísticos presentes no social e julgados pertinentes pelo partido para
serem difundidos na sociedade’”.144 O caso da revista Literatura demonstra como a cultura de
partido se tornou obstáculo para a divulgação das ideias comunistas.
Criada em 1946 por Astrojildo Pereira, um dos fundadores do PCB, a Literatura
mantinha uma linha editorial “participante mas não sectária”.145 No ano seguinte ao seu
aparecimento, Belo Horizonte sediou o II Congresso dos Escritores (sem relação com o I
Congresso Soviético de 1934). A atenção dos participantes estava sobre o projeto da lei que
regulamentaria os direitos autorais. Ao longo do evento, porém, membros do PCB, de
maneira arbitrária, ignoraram a comissão de assuntos políticos da Associação Brasileira de
Escritores (ABDE), impondo decisões e dificultando os trabalhos. Como protesto, houve até
mesmo moções pelo fechamento do Partido. Diante do caos, os membros da comissão - que
reunia nomes como Carlos Drummond de Andrade, Affonso Arinos e Antonio Candido deixaram a entidade. Afonso Arinos declarou: “O pleito da ABDE valeu-me como uma
vacina anticomunista”146. Vários escritores não-filiados ao Partido, mas simpatizantes,
afastaram-se; pouco a pouco, a Literatura perdeu relevância, publicando apenas artigos de
pecebistas. E, na medida em que se tornava mais doutrinária e menos literária, Pereira não
141
ZHDANOV, Andrei. Pela paz, a democracia e a independência dos povos. Problemas - revista mensal de
cultura política, n. 5, dez. 1947, s.p. Disponível em: https://tinyurl.com/problemas5 Acesso em: 2 nov. 2024.
142
ZHDANOV, Andrei. As tarefas da literatura na sociedade soviética. Problemas - revista mensal de cultura
política, n. 20, ago.-set. 1949. Disponível em: https://tinyurl.com/problemas20 Acesso em: 2 nov. 2024.
143
MORAES, 1994, p. 138.
144
MORAES, 1994, p. 138.
145
MORAES, 1994, p. 138.
146
MORAES, 1994, p. 140-141.
53
teve outra opção senão encerrá-la, em 1948.147
Embora não tenha sido encerrada, a Problemas também sofreu com a intransigência
partidária. Dirigida por Carlos Marighella, a publicação tinha como subtítulo “revista mensal
de cultura política”. Suas páginas apresentaram mais traduções do que artigos originais de
autores brasileiros, ainda que o PCB contasse com escritores, cientistas, artistas e jornalistas
entre os seus membros. Na primeira edição, foram seis traduções contra um texto nacional, de
autoria do próprio Marighella; no número dois, foram publicadas oito traduções e três artigos
nacionais; o "placar" é ainda maior na terceira edição: 11 a 2 para os comunistas estrangeiros.
O “empate” só viria na edição seis, com cinco originais e cinco traduções.148
O zhdanovismo cresceu nos anos posteriores. Todos os periódicos do “Partidão” se
abriram para o realismo socialista, consagrado, àquela altura, como paradigma da arte
comunista. Andrei Zhdanov morreu em 31 de agosto de 1948. O número seguinte da
Problemas à sua morte traz um perfil do comissário assinado por Rui Facó.149 A homenagem
do PCB é ilustração perfeita do realismo socialista.
No primeiro parágrafo do artigo, Zhdanov é identificado por, nada mais, nada menos,
do que cinco epítetos: “Morreu em Moscou, a 1o de setembro último (sic), aos 52 anos de
idade, Andrêi Alexandrovitch Zhdánov. Milhões de homens, não só na URSS mas em todo o
mundo, choraram a morte desse combatente bolchevique herói da guerra civil, construtor do
socialismo, teórico marxista, lutador da frente anti-imperialista”150. O texto segue, carregado
de adjetivos e advérbios como “extraordinária afinidade”, “laço mais forte e inquebrantável
que jamais aproximou os seres humanos como irmãos”, “luta gigantesca”, “extrema
juventude”151. O texto é entediante, excessivo e grandiloquente. Sua leitura permite
compreender por que Graciliano Ramos se tornou um “dissidente”.152
Já abordamos a precisão vocabular do “Mestre Graça”. Em crítica a Floradas na serra
(1939), romance de estréia de Diná Silveira de Queirós, o alagoano escreveu:
147
MORAES, 1994, p. 141.
O acervo do portal MIA disponibiliza quase todas as edições de Problemas publicadas, até 1956. A revista
deixou de circular em 1958. Cf: Seção “Imprensa proletária” In: Marxists Internet Archive. Disponível em:
https://tinyurl.com/miaproblemas.
149
FACÓ, Rui. Figuras do movimento operário: o bolchevique Zhdánov, um exemplo a seguir. Problemas revista mensal de cultura política, n. 13, ago.-set. 1948, s.p. Disponível em: https://tinyurl.com/problemas13
Acesso em: 2 nov. 2024. Optamos por grafar o nome do jornalista como consta na fonte consultada. Por essa
razão, quando citamos o artigo “Graciliano Ramos, escritor do povo e militante comunista”, o nome do autor foi
grafado “Ruy Facó”. O nome Zhdanov aparece como Zhdanov, Zdanov e Jdanov. Optamos pela grafia Zhdanov,
que é recorrente.
150
FACÓ, 1948, s.p.
151
FACÓ, 1948, s.p.
152
MORAES, 1994, p. 205.
148
54
O romance de estreia da sra. Diná Silveira de Queirós merece um ataque.
Primeiramente a jovem paulista não escreve bem: “Letícia olhou para a fila de
pereiras, para a estrada que subia para longe, para lugares escondidos para
sempre”.
Eu não devia falar em semelhantes coisas, aludir às receitas fáceis da cozinha
literária, mostrar ao público a inadvertência de alguém que, no preparo de duas
linhas, meteu a mão na lata das preposições e encaroçou um período com repetições
desnecessárias. Isto é um simples reparo, feito apenas porque, nos tempos confusos
em que vivemos, as questões de técnicas, pelo menos no Brasil, tendem a
desaparecer.153
Na sua resenha, o “Mestre” chama a atenção para dois aspectos: o excesso de
preposições na mesma frase e os “tempos confusos”, que fizeram as “questões técnicas”
desaparecerem. Essas assertivas antecedem a chegada do realismo socialista em onze anos.
Era de se esperar que alguém de pena tão aguçada se opusesse a estilo tão restrito. Graciliano
não se furtava a dizer, a quem quer que fosse e onde fosse: “— Esse Zdanov é um cavalo!”154
Ramos não perdeu oportunidades para apontar as fragilidades do realismo socialista e
seus prejuízos para a arte. Não obstante, concordava que a literatura, e a cultura, de modo
geral, deveriam servir ao povo. Na palestra “Cultura a serviço do povo” (1947) proferida para
uma célula do PCB, o escritor afirmou:
A palavra escrita é arma de dois gumes. A literatura velha arqueja e sucumbe; a
literatura nova fere com vigor a reação desesperada. [...] A segunda é a que nos traz
a esta sala, encerra-se nos volumes aqui expostos. Precisamos conhecê-la de perto. É
claro que nada ganharemos olhando, com respeito, esses volumes protegidos por
uma vitrina. Indispensável sabermos o que há dentro deles. Vimos numa capa o
nome de Máximo Gorki e experimentamos o desejo de largar uns palpites sobre ele,
atrapalhando tudo. Recuamos a tempo - e na reunião da célula ouvimos, bastante
chateados, referências ao admirável russo, num informe. Contudo, a recordação da
vitrina permanece, garantimos que Máximo Gorki é notável. Temos de cor uma lista
de personagens célebres, afirmamos a celebridade, mas seria difícil dizermos em que
ela se baseia. Asserções que nos fizeram na escola, repetidas longamente, foram
aceitas afinal. Em vão tentamos adivinhar como subiram certos figurões das letras
nacionais. Vi um tipo quase chorar lendo a notícia da morte de um literato conde.155
A associação entre arma e literatura aparece mais uma vez e reforça o viés militante do
romancista. Também está presente a crítica aos excessos - seja de livros, enquanto
mercadoria, seja de personagens e de emoções. O autor nos alerta, ainda, sobre o teor da
literatura. O que ela tem a dizer? E a quem? Não podemos deixar de reparar a menção ao
“notável” Gorki, um dos idealizadores do I Congresso, de 1934.
153
RAMOS, 2016, e-book, grifos do autor.
MORAES, 2012, p. 252.
155
RAMOS, 2012, p. 294.
154
55
Enquanto comunista, “Graça” não ignora a importância do “Partidão”. Na nota “O
Partido Comunista e a criação literária” (1947), publicada na Tribuna Popular, lemos:
Afirmam cidadãos vultosos que no Comunismo não existe ambiente favorável à
criação literária; chegando aqui, murchamos, deitamos um pouco de chumbo nos
miolos e somos utilizados em serviços módicos: distribuir folhas volantes, bater
palmas em comícios, pichar muros. Isso — e nada mais.
[...]
É desnecessário asseverarmos que o Partido Comunista nenhum dano causa à
produção literária. Inútil exibirmos figurões do exterior, engrandecidos pela
distância: mostremos apenas a gente que aqui está.
Nada de queimar incenso à toa. Estes homens e estas mulheres recusam lisonjas,
mas provavelmente os nossos opositores gostariam de tê-los ao seu lado. E se
pensam de outra forma, é que o julgamento lá fora é precário. Neste grupo, ainda
exíguo, há escritores que se revelaram em diversos gêneros. Certamente continuarão
a crescer, apesar dos agouros ruins espalhados sobre eles.
[...]
Cada qual tem a sua técnica, o seu jeito de matar pulgas, como se diz em linguagem
vulgar. A literatura revolucionária pode ser na aparência a mais conservadora. E isto
é bom: não terão o direito de chamar-nos selvagens e sentir-se-ão feridos com as
próprias armas.
Afinal para expormos as misérias desta sociedade meio decomposta não precisamos
de longo esforço nem talento extraordinário: abrimos os olhos e ouvidos, jogamos
no papel honestamente os fatos.156
A nota é curta, mas poderosa: o PCB é a “porta de saída” da “literatura
revolucionária”, aquela que irá denunciar as dores impostas pelo capitalismo e insuflar o
sentimento de revolução na mulher e no homem trabalhadores. Houve outras oportunidades
para “Graça” tratar da relação entre o Partido e os escritores. Durante reunião da célula
Teodoro Dreiser,157 afirmou:
Consideramo-nos artesãos, nem chegamos a admitir que um dia sejamos outra coisa.
Afirmações contrárias, lançadas por um profissional, revelam insinceridade:
sabemos que só nos é possível trabalhar no isolamento.
[...]
Há quem diga que isto sucede por não estarmos identificados com a massa, ideia
inexata. Enxergamos nela confusão entre sujeito e objeto. Sem dúvida é necessário
conhecermos e sentirmos a matéria de que nos ocupamos. Para transformarmos em
obra de arte uma cadeia ou uma fábrica, por exemplo, é indispensável termos vivido
em algum desses lugares.158
156
RAMOS, Graciliano. O Partido Comunista e a criação literária. Tribuna Popular, ano 2, p. 11, 22 de maio de
1946.
157
Theodore Dreiser foi um escritor americano de origem operária e orientação comunista. A célula reunia os
escritores do PCB em assembleias semanais e foi batizada por Graciliano Ramos, que aportuguesou o nome. Cf:
SALLA, 2012, p. 283, nota 1.
158
RAMOS In: SALLA, 2012, p. 277-278.
56
Logo no começo da palestra, Ramos se identifica com os trabalhadores. Tenho, até
aqui, razões para sustentar que essa identificação é sincera e livre de demagogia. Na condição
de operário da escrita, o alagoano reconhece as dificuldades das mulheres e homens da classe.
Isso sem abrir mão da experiência individual, contrariando o espírito essencialmente
coletivista do comunismo: “Para transformarmos em obra de arte uma cadeia ou uma fábrica,
por exemplo, é indispensável termos vivido em algum desses lugares”.159 Thiago Salla deduz
que a conferência aconteceu em 1946, cerca de nove anos após sua saída da prisão.160 Ao citar
“uma cadeia”, Graciliano fala de si, deixando clara sua noção de que a literatura surge da
experiência. Em sequência, ele se volta contra o sectarismo partidário:
E aqui não seria inoportuno dizermos que não existe arte burguesa nem existe arte
proletária. Concepções da pré-história ainda se conservam. Ignoramos a idade do
ritmo ternário: sabemos que é velho e dificilmente nos livraríamos dele. Entretanto
seria absurdo imaginar uma arte estática. Modificações leves, acumuladas, com
certeza ocasionam saltos. E se a arte não é de supetão forjada por uma classe, está
sempre a serviço de uma classe.
Indispensável, pois, resguardar com zelo a técnica literária de que a burguesia se
aproveita. Até certo ponto um revolucionário é o mais ferrenho conservador. As
liberdades excessivas que o modernismo nos trouxe foram utilizadas por muito
fascista. Repelimos a desordem, a indisciplina, a composição fácil, a novela redigida
como noticiário.161
A contundência e a coragem do “Mestre” impressionam: cercado de comunistas, ele
afirma que a arte não é “forjada por uma classe”, mas está a seu favor. Não é, portanto, a
forma de um texto que o faz revolucionário, mas seu conteúdo. Impor normas e vocabulário
não cria literatura transformadora e libertadora. E acrescenta: a gramática não pertence à
qualquer classe social. O autor já havia tratado desse assunto no artigo “O fator econômico no
romance brasileiro” (1945), publicado na Tribuna Popular do dia 15 de julho:
Talvez os amadores que falam tanto de Balzac e fingem imitá-lo não hajam
percebido que este escritor em um só livro estuda a fabricação do papel, a imprensa
de porte, casas editoras, teatros, restaurantes, oficinas de impressão, etc. Levantada
essa base é que principia a mover-se a sociedade balzaquiana, políticos, nobres,
jornalistas, militares, negociantes, prostitutas e ladrões, tipos vivos, tão vivos que
ainda nos enchem de admiração.162
159
RAMOS In: SALLA, 2012, p. 278.
SALLA, 2012, p. 283, nota 1.
161
RAMOS In: SALLA, 2012, p. 277-278.
162
RAMOS, Graciliano. O fator econômico no romance brasileiro. Tribuna Popular, ano 1, n. 48, p. 10, 15 jul.
1945.
160
57
Ao longo do texto, Ramos aborda, mais uma vez, o distanciamento entre escritor e o
povo:
Lendo certas novelas, temos o desejo de perguntar de que vivem as suas
personagens. Está claro que os autores não conseguem furtar-se a algumas
explicações referentes a este assunto, mas fazem-no como quem toca em matéria
desagradável, percebemos que [uns se repugnam] e não querem deter-se em
minúcias.
Um cidadão é capitalista. Muito bem. Ficamos sem saber donde lhe veio o capital e
de que maneira o utiliza. Outro é agricultor. Não visita as plantações, ignoramos
como se entende com os moradores e se a safra lhe deu lucro.163
É natural que alguém que viva das letras assuma o ato de escrever como “trabalho”.
Mas alguns escritores pareciam, para Ramos, envergonhar-se de serem “trabalhadores”:
Acontece que alguns escritores se habituam a utilizar em romance apenas coisas de
natureza subjetiva. Provavelmente há o receio de que, sendo comércio e indústria,
oferta e procura etc. vistos muito de perto, a questão social venha à baila. Deve
existir também um pouco do velho preconceito medieval que jogava para um plano
secundário os produtores.164
“Como representar uma pessoa a quem tenho desprezo?” é a pergunta oculta nas
entrelinhas. Na sua robusta biografia do “Velho Graça”, Dênis de Moraes recupera uma
entrevista dada pelo escritor a Heráclio Salles:
– Nenhum livro do realismo socialista lhe agradou? – perguntou o jornalista.
– Até o último que li, nenhum. Eu acho aquele negócio de tal ordem ruim que não
aceitei ler mais nada.
– Qual a principal objeção que o senhor faz?
– Esse troço não é literatura. A gente vai lendo aos trancos e barrancos as coisas que
vêm da União Soviética, muito bem. De repente, o narrador diz: “O camarada
Stalin...”. Ora, porra! Isso no meio de um romance?! Tomei horror.165
Graciliano não abdicou do seu estilo. Ao longo de toda a sua trajetória como escritor -
na ficção e na não- ficção - manteve firme oposição ao realismo socialista, sem, contudo, abrir
mão de uma literatura crítica e combativa. Sua escrita, como já afirmei em páginas anteriores,
era precisa e econômica na forma, mas vasta e profunda em sentido, além de coerente com
sua militância intelectual. E, embora o próprio Graciliano se definisse como “revolucionário
163
RAMOS, 1945, p. 10.
RAMOS, 1945, p. 10.
165
MORAES, 2012, p. 253.
164
58
chinfrim” e considerasse “fracas” suas “armas de papel”, seus adversários as percebiam como
perigosas: ainda que suas balas não ferissem a carne, eram capazes de deixar cicatrizes
profundas e duradouras.
Por seu turno, inspirado pelo fascismo europeu, Getúlio Vargas avançava em seu
projeto ditatorial. A polícia política vigiava, censurava e prendia aqueles que ousavam
levantar a voz contra o totalitarismo - entre eles, o próprio Graciliano Ramos. Em sua
pretensão de instaurar uma estética oficial, monumental, patriótica e domesticada, voltada à
exaltação do líder e à homogeneização cultural, o Catete paulatinamente substituía a arte
crítica por outra, dócil, instrumentalizada e destinada a legitimar o poder e a silenciar o
dissenso.
Ao tornar-se vítima da máquina autoritária, “Graça” construiu um dos mais vigorosos
“monumentos” da literatura e da História brasileiras.
CAPÍTULO 2 - DESENCARCERANDO A MEMÓRIA
2.1 “O barulho de 1935”
O Estado Novo começou mais cedo para o autor de Mc. Na noite de 3 de março de
1936, o escritor foi detido em sua casa, no bairro Pajuçara, em Maceió. Ao longo daquele dia,
o então diretor da Instrução Pública do Estado de Alagoas havia atendido, em seu gabinete, a
vários telefonemas com ameaças.166
Figura 8 - Graciliano Ramos preso no Rio de Janeiro (1936)
Fonte: MORAES, 2012, s.p.
O romancista ocupava o cargo na Instrução Pública desde 1933, nomeado pelo
interventor federal de Alagoas, o capitão Affonso de Carvalho.167 Movido por ambições
literárias, o capitão Carvalho frequentava as rodas de intelectuais maceioenses; é possível que
tenha ouvido, nos cafés da capital, o nome do autor do elogiado romance Caetés, então
recém-publicado.
166
167
RAMOS, 2022b, p. 14.
MORAES, 2012, p. 90.
60
A fama de funcionário público honesto e competente acompanhava o “Mestre”. Além
de presidente da Junta Escolar municipal e prefeito em Palmeira dos Índios, Ramos foi diretor
da Imprensa Oficial de Alagoas. Seu período à frente da Imprensa Oficial foi curto (a posse
aconteceu em 31 de maio de 1930 e a renúncia em 24 de dezembro do ano seguinte), mas
suficiente para que ele a aprimorasse. O escritor elaborou novo regimento e reorganizou o
quadro de pessoal, tornando o órgão mais eficiente.168 Era esperado que o interventor
escolhesse servidor com tal currículo para ocupar posição tão sensível. Desde 1930, o Catete
aparelhava ministérios por meio da nomeação de aliados, a fim de ter o maior controle
possível sobre as instituições. Segundo a historiadora Maria Celina D’Araújo,
A nacionalização da educação implicará um profundo controle de todos os
currículos, de todas as atividades de todas as escolas nos recantos mais remotos do
país. A escola nacionalizada e monitorada pelo governo seria a porta de entrada para
a nacionalidade, para a homogeneidade nacional e o controle de tendências exógenas
que pudessem advir da multiculturalidade. Essas preocupações não eram novas, mas
encontraram no Estado Novo o campo fértil para prosperarem e se tornarem
realidade. Ainda no campo educacional, o reforço dado às aulas de educação física
não só servia ao propósito de direcionar os jovens, como também representaria um
aprimoramento estético do brasileiro.169
Ainda que não tenha havido acusação formal, a prisão do ex-prefeito de Palmeira dos
Índios se deu com base no seu suposto envolvimento naquilo que ele chamou de “barulho de
1935”.170 Trata-se dos levantes comunistas ocorridos em Natal, Recife e Rio de Janeiro em
novembro daquele ano.
As motivações dos revoltosos remontam à década de 1920 e ao movimento tenentista,
adversário das oligarquias do Sudeste. O tenentismo comprometeu as estruturas da Primeira
República, demolidas em definitivo por Getúlio Vargas durante a Revolução de 1930.171 A
dissolução do movimento dos tenentes levou seu principal líder, Luís Carlos Prestes, ao
auto-exílio na Bolívia, em 1927.172
Embora comunistas e tenentes tenham se unido em 1935, os membros do “Partidão”
consideravam militares “massa de manobra”. Apesar disso, pecebistas e os soldados liderados
por Prestes tinham mais em comum do que os primeiros gostariam de admitir. A fundação do
PCB e a eclosão do tenentismo aconteceram em 1922; em junho daquele ano, o presidente
168
SANTOS, 2019, p. 87.
D’ARAÚJO, Maria Celina. O Estado Novo. Rio de Janeiro: Zahar, 2000, e-book.
170
RAMOS, 2022b, p. 68.
171
VIANNA, Marly de Almeida G. O PCB, a ANL e as insurreições de 1935. In: ___, 2019, p. 67-68.
172
REIS, Daniel Aarão. Luis Carlos Prestes: um revolucionário entre dois mundos. São Paulo: Companhia das
Letras, 2014, p. 43.
169
61
Epitácio Pessoa respondeu a revolta no forte de Copacabana com o decreto de estado de
sítio.173 Pessoa se valeu do sítio para perseguir seus opositores, entre eles jornalistas e
lideranças operárias, anarquistas, comunistas e tenentistas.
Durante o exílio de Prestes, Astrojildo Pereira foi ao seu encontro com a intenção de
discutir uma aliança capaz de por fim à barreira policial imposta pelo presidente.174 Pereira
propôs a organização de movimento dirigido pelos comunistas, enquanto os militares,
comandados por Prestes, seriam o braço armado.175 Prestes rejeitou a proposta e, embora a
coalizão não tenha se concretizado, o fundador do PCB publicou artigos elogiando o tenente.
Os textos apareceram nos jornais A Nação - que circulava ilegalmente desde a cassação do
registro do PCB, em 1922 - e no tenentista A Esquerda176.
Após a Revolução de 1930, o PCB elegeu uma nova diretoria, da qual Pereira não
fazia parte. Em 1931, escondido em Moscou, Prestes demonstrou interesse em ingressar no
Partido, mas teve seu pedido de afiliação recusado diversas vezes. Em protesto, o “cavaleiro
da esperança” publicou diversas notas e artigos atacando a resistência dos comunistas ao seu
nome, a que ele chamou de “prestismo” e classificou como atitude pequeno-burguesa.177
Finalmente, em 1934, Luís Carlos Prestes foi aceito como membro do PCB para, no ano
seguinte, provocar a “bagunça” - outra maneira depreciativa pela qual Graciliano se refere, em
Mc, às sedições de 1935.178
Ainda em 1934, várias entidades antifascistas se reuniram em protesto contra Vargas e
organizaram o I Congresso Nacional contra a Guerra Imperialista e o Fascismo. A polícia
invadiu o evento e prendeu seus líderes. A violência policial teve ampla divulgação. Por uma
curiosa coincidência, destacamos a reportagem publicada n’A Manha. O periódico, que se
intitulava “órgão de ataques… de riso”, surgiu como suplemento do jornal A Manhã. Seu
criador, Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, o Apporelly, merece um parágrafo a seu
respeito.
Apporelly se destacou no jornalismo político brasileiro do começo do século XX. O
sarcasmo e a irreverência eram suas marcas registradas e seus textos vinham assinados como
“Barão de Itararé”, título fictício outorgado pelo jornalista a si mesmo. Em 1930, durante a
tomada do poder por Getúlio Vargas, circulou o boato de que na cidade paulista de Itararé
aconteceria a batalha mais sangrenta da Revolução. O combate não ocorreu e Apporelly se
173
PEREIRA, 2012, p. 129.
PEREIRA, 2012, p. 129.
175
VIANNA In: DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 74.
176
PEREIRA, 2012, p. 132.
177
VIANNA In: DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 75.
178
RAMOS, 2022b, p. 68; VIANNA in DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 74-75.
174
62
aproveitou do “não-fato” para dar vida ao barão da “batalha que não houve”.179 Seis anos mais
tarde, o falso barão seria companheiro de cárcere de Graciliano.
Em 1934, Apporelly publicou uma nota que é quase uma profecia sobre sua
aproximação com o alagoano. No item “O sururu”180 do artigo “Guerra à guerra é o grito
contra a guerra!”, o barão descreveu a truculência policial contra os participantes do
congresso contra o fascismo:
A Praça Tiradentes transformou-se numa praça de guerra. Fechou o tempo, enquanto
outros abriam o arco. As balas estouravam como pipocas. Meia hora durou o
corre-corre o zum-zum dos clavinotes e das parabella. O ti-lin-tin das ambulâncias
cruzavam em todas as direções à procura das vítimas que jaziam no asphalto
betuminoso. Quem assistisse àquellas scenas não podia deixar de evocar os tempos
saudosos de Nicolau II, o czar de todas as Rússias, mas também não podia deixar de
fazer ao mesmo outras evocações. Realmente, aquelles homens que se reuniram para
protestar contra as ameaças da guerra imperialista não temiam as ameaças da guerra
civil!181
O aumento da repressão levou o comitê organizador do congresso a elaborar frente
ampla que congregasse partidos políticos, sindicatos, associações de classe e culturais,
organizações feministas e estudantis.182 Após meses de planejamento, em 1935, surgiu novo e
poderoso agente anti-getulista, a Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização de
esquerda formada por várias associações anti-getulistas e antifascistas. A ANL estreou sob a
presidência de honra de Prestes, estratégia inteligente, dado o seu carisma e capacidade de
mobilização.
No ano do seu aparecimento, a ANL comandou uma série de rebeliões como
retaliação às prisões arbitrárias promovidas por Vargas. As detenções foram motivadas por
uma notícia falsa publicada na edição de 26 de junho de 1935 de O Globo. Sob o título
sensacionalista Soviets no Brasil!, a primeira página do jornal anunciava a descoberta de um
plano para implantar o comunismo no Brasil.183 Se bem-sucedido, o Brasil estaria subordinado
à União Soviética. Em ação rápida e, como de costume, violenta, a polícia prendeu diversos
militantes assim que a famigerada edição chegou às bancas.184 Hoje, é sabido que não havia
plano algum.
179
TORELLI, Aparício. In: FGV / CPDOC. Disponível em: https://tinyurl.com/britarare. Acesso em: 05 jan.
2025.
180
O sururu é um crustáceo que serve como ingrediente principal a um prato típico da culinária alagoana. Como
gíria, quer dizer confusão.
181
GUERRA à guerra é o grito contra a guerra! A Manha, Rio de Janeiro, ano VI, n. 28, p. 5.
182
VIANNA In: DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 85.
183
SOVIETS no Brasil! O Globo, Rio de Janeiro, v. 11, n. 2765, 26 jun. 1935, p. 1.
184
VIANNA In: DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 90.
63
Figura 9 - Soviets no Brasil! O Globo (26 jun. 1935)
Fonte: Jornal O Globo.
Membros da ANL planejaram a tomada de quartéis da polícia e do Exército. Porém,
boa parte dos sediciosos não possuía qualquer experiência de combate e com armas. Isso,
somado à falta de organização e às dificuldades de comunicação entre os revoltosos, fez com
que o movimento fosse debelado em pouco tempo. Houve conflitos sangrentos e as perdas
entre aliancistas foram significativas. A ANL também amargou grave perda moral. De acordo
com Vianna, “Muitas calúnias foram escritas sobre novembro de 1935. A rebelião foi,
depreciativamente chamada de ‘Intentona’, e ‘Intentona Comunista’, o que dava aos levantes
conotações terríveis, uma vez que o comunismo era considerado o próprio anticristo”.185 Mas
Vianna também destaca o saldo positivo dos levantes: “[...] o da luta contra as injustiças
sociais, o do inconformismo, o da indignação diante de uma sociedade que continuava a
reproduzir brutais diferenças sociais”.186 Para a historiadora, os erros dos revoltosos foram
fruto da falta de cultura política da sociedade brasileira, “[...] mas é importante ressaltar,
também dentro das tradições de luta de nosso povo, a capacidade daqueles homens de sonhar
com uma sociedade justa e digna e, principalmente, de lutar por seus ideais”.187 Nesse ponto,
é-nos oportuno expor a “quase participação” de Alagoas na revolta aliancista.
185
VIANNA In: DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 108.
VIANNA In: DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 108.
187
VIANNA In: DELGADO; FERREIRA (orgs), 2019, p. 108.
186
64
O historiador Luiz Sávio de Almeida se dedicou ao estudo de temas alagoanos, entre
os quais o movimento operário em Maceió e suas relações com comunismo e anarquismo. De
acordo com Almeida, a apuração dos eventos de 1935 em Alagoas é prejudicada pelo pequeno
volume documental e pela falta de interlocução entre seus agentes.188 Além disso, para
Almeida, a insurreição em Alagoas, mostrou-se uma “[...] uma conspiração de altíssimo risco
e baixíssima capacidade operacional”.189 Em Maceió, os comunistas se articulavam no 20º
Batalhão de Caçadores, o que criou a sensação de “[...] como se fosse espécie de conspiração
de baixas patentes [...]”190. Almeida também destaca a assincronia entre os estados
participantes da ação. Os veículos de comunicação do PCB e da ANL em Pernambuco e no
Rio Grande do Norte divulgavam, de forma grandiosa,
[...] o movimento nacional-libertador tão ansiosa e justamente aguardado pelas
amplas massas do povo Brasileiro, secularmente oprimido na mais brutal e nefanda
exploração do capitalismo parasitário estrangeiro, diante do qual se curvam os
governos de traição nacional de Getúlio Vargas, Lima Cavalcanti, Argemiro
Figueiredo, Osman Loureiro, Rafael Fernandes et caterva.191
Enquanto isso, os alagoanos se achavam num estado de “espera permanente”192 por
instruções que poderiam vir do Rio de Janeiro, de Natal ou de Recife. Alguns depoimentos e
documentos coletados por Almeida dão conta de que os rebeldes maceioenses pareciam
desorientados; as informações chegavam desencontradas e em fragmentos. Como resultado,
em Alagoas, a rebelião foi debelada em 21 de novembro de 1935 - dois dias antes da data
marcada para o início dos ataques aos quartéis selecionados pelos estrategistas da ANL.193
A principal fonte a respeito da sublevação em Alagoas é o inquérito aberto no 20º
Batalhão de Caçadores pelo major José de Andrade Faria no dia 21 de novembro de 1935. De
acordo com o documento, no dia 20 de novembro os oficiais do batalhão foram convocados
para uma reunião no gabinete de comando, na qual foram informados sobre a trama comunista
no Batalhão. Na tarde daquele mesmo dia, os insurgentes também se reuniram; simulando um
jogo de futebol atrás do quartel, fizeram contato com o capitão Otacílio, líder aliancista do 29º
Batalhão de Caçadores de Recife. Porém, um espião do comando militar alagoano esteve
188
ALMEIDA, Luiz Sávio de. Um pequeno bilhete sobre a "Intentona Comunista" em Alagoas ou um novembro
avermelhado. In: Luiz Sávio de Almeida, 27 nov. 2011, s.p. Disponível em: https://tinyurl.com/peqbilhete
Acesso em: 13 out. 2025.
189
ALMEIDA, 2011, s.p.
190
ALMEIDA, 2011, s.p.
191
MANIFESTO do Comitê Revolucionário do Nordeste apud ALMEIDA, 2011, s.p.
192
ALMEIDA, 2011, s.p.
193
ALMEIDA, 2011, s.p.
65
presente e acompanhou tudo. No dia seguinte, aconteceria missa em memória de um capitão
recém-falecido. O comando aproveitou a oportunidade para convocar a tropa e, ao fim da
missa, os implicados foram presos.194
O inquérito foi concluído no dia 24 de dezembro. Almeida o considera cheio de falhas
e, por isso, inconclusivo. Alguns depoimentos parecem ser simples repetição de outros. Mas,
para além disso, o historiador percebe que “No fundo, a impressão é que se criava um imenso
Exército de Libertação com tropa imaginária que surgiria não se sabe onde e nem de onde,
com todos estando à espera de um momento a vir imediatamente do nada. Uma conspiração
que, pelo menos em Maceió, parecia descuidada”.195
A revolta de 1935 levou o Catete a fechar ainda mais o cerco contra seus opositores.
Vários membros do PCB, da ANL e de outras organizações anti-Vargas e pró-democracia
foram presos clandestinamente. Entre eles, Graciliano Ramos. Embora não integrasse
qualquer agremiação ou partido, Ramos tinha noção de que seus livros eram “perigosos”.196
Como escritor, ele sabia que, no exercício do seu ofício, “começamos oprimidos pela sintaxe
e acabamos às voltas com a delegacia de ordem política e social”.197
2.2 Um trabalho de memória
Há um dado curioso em Mc: ao longo das suas 639 páginas198, o narrador declara por
dezoito vezes não se lembrar de eventos e pessoas. Em oposição, são apenas doze as
passagens em que a voz narrativa usa fórmulas como “eu me lembro” ou “eu recordo”. Teria
Graciliano Ramos se distraído ou entregue um trabalho inacabado? Acreditamos que não.
Para entendermos a construção de Mc, voltaremos ao conceito de memória e seu
194
ALMEIDA, 2011, s.p.
ALMEIDA, 2011, s.p.
196
RAMOS, 2022b, p. 15.
197
RAMOS, 2022b, p. 9.
198
Tomamos como referência a 54a edição, publicada em volume único pela editora Record em 2022. A primeira
edição de Mc (1953) chegou ao público pela Livraria José Olympio Editora em 4 volumes. Esse formato foi
mantido pelas editoras Martins, que assumiu a obra de Graciliano Ramos em 1960, e pela Record. A Record
adquiriu os direitos de publicação dos trabalhos “graciliânicos” em 1962 e foi a mais longeva das casas que os
publicou: a editora carioca manteve o autor com exclusividade em seu catálogo até 2024, quando sua obra entrou
em domínio público. Ao longo de 62 anos, a Record publicou Mc em edições de um, dois e três volumes. Desde
o encerramento dos direitos autorais, Mc ganhou pelo menos mais uma edição, também em volume único, pela
Companhia das Letras. Cf. HALLEWELL, 1985, passim; SOBOTA, Guilherme. Obras de Graciliano Ramos e
Jorge
de
Lima
entram
em
domínio
público.
In:
PublishNews.
Disponível
em:
https://tinyurl.com/grdominiopublico Acesso em: 04 jan. 2025.
195
66
funcionamento.
Figura 10 - Capas da 1a. edição de Mc, por Santa Rosa (1953)199
Fonte: Graciliano Ramos.
A memória é um dos pilares fundamentais da História. Enquanto fenômeno, a
memória é complexa, versátil e adaptável. Foi só na década de 1970 que os historiadores da
chamada Nova História a tornaram objeto de reflexão teórica.
Jacques Le Goff, destacado integrante do movimento historiográfico francês, define a
memória como “um conjunto de funções psíquicas”, entre as quais está a “propriedade de
conservar certas informações”200. Usamos esse conjunto de funções para “atualizar impressões
ou informações passadas”201.
Graciliano Ramos abre suas memórias declarando “Resolvo-me a contar, depois de
muita hesitação, casos passados há dez anos”202. Com esse enunciado, o autor nos indica dois
aspectos do seu trabalho que precisam ser levados em consideração. Primeiro, a constatação
199
A primeira edição de Mc foi publicada no Rio de Janeiro, pela editora José Olympio. Graciliano Ramos havia
se tornado amigo do seu fundador, José Olympio Pereira Filho (1902-1990). Talvez, por essa razão, a publicação
tenha recebido tanta atenção: o prefácio foi escrito pelo historiador e crítico Nelson Werneck Sodré (1911-1999);
as capas são do paraibano Tomás Santa Rosa (1909-1956), outro grande amigo do autor e um dos principais
artistas visuais brasileiros entre as décadas de 1940 e 1950. Cf. HALLEWELL, 1985, p. 357; 364; MEMÓRIAS
do cárcere. In: Graciliano Ramos. Disponível em: https://tinyurl.com/mc1ed1953 Acesso em: 06 dez. 2024;
MORAES, 2012, p. 293.
200
LE GOFF, 1990, p. 423.
201
LE GOFF, 1990, p. 423.
202
RAMOS, 2022b, p. 9.
67
de que o escritor relata “casos” ainda pulsantes no seu córtex cerebral e na sua mente, ou seja,
“conservados” pelas suas “funções psíquicas”, corroborando a definição de Le Goff.
Encontramos a segunda particularidade no uso do verbo “passar” com o sentido de
“acontecer”. Essa escolha de vocabulário estabelece a cisão que marcará a maior parte de Mc:
o relato “graciliânico” é historicamente verificável e o fio condutor da sua exposição não é a
imaginação. Não em sua maior parte, pelo menos. Precisamos, então, estabelecer, com algum
rigor, concepções de factual e de imaginário.
Encontramos essa distinção no ensaio A memória, a História, o esquecimento. De
acordo com seu autor, o filósofo Paul Ricoeur, o imaginário tem como referência o fantástico
e tudo o que é criado pela mente do narrador, comprometendo-se com a verossimilhança, mas
não com a realidade objetiva203. Na busca pelo domínio sobre o tempo dos acontecimentos, a
voz narrativa de Mc se vê entre “farrapos de realidade e sonho”:
A minha vida anterior se diluía, perdia-se além daquele imenso espaço de vinte e
quatro horas. Um muro a separar-me dela, a altear-se, a engrossar, e para cá do muro
— nuvens, incongruências. Entre esses farrapos de realidade e sonho, era doloroso
pensar numa inteira despersonalização. 204
A memória factual, por sua vez, origina-se na “anterioridade que constitui a marca
temporal por excelência da ‘coisa lembrada’, do ‘lembrado’ como tal”205. Em outras palavras,
a memória é a expressão verbal de um momento vivido no passado do mundo material.
Quando manifestamos, por meio da escrita ou da oralidade, nossa vivência, tal manifestação
só poderá acontecer após a experiência. Do contrário, torna-se uma fantasia. Os pontos de
vista de Ricoeur e Le Goff convergem quanto a isso. Para o historiador, “Certos aspectos do
estudo da memória [...] podem evocar, de forma metafórica ou de forma concreta, traços e
problemas da memória histórica e da memória social”206. Isso quer dizer que em situações
traumáticas, passíveis de esquecimento, a memória representa experiência via metáforas.
Verificamos esse efeito em diversas passagens de Mc. Em uma delas, o narrador Graciliano
Ramos observa os tipos humanos que conheceu na cadeia e divaga sobre suas existências
além da cadeia e sua linguagem, buscando verossimilhança entre o que presencia e as
possibilidades do mundo exterior:
Como será a linguagem dessas criaturas? Se assistíssemos às suas discussões,
203
RICOEUR, 2007, p. 26.
RAMOS, 2022b, p. 41-42.
205
RICOEUR, 2007, p. 26.
206
LE GOFF, 1990, p. 423.
204
68
provavelmente entenderíamos pouco: escapar-nos-iam intuitos embrulhados em
palavra técnica. Almas diferentes das vulgares, com certeza: amor ao perigo,
desprezo ao conforto, nenhuma confiança nas verdades oficiais, desdém a venturas
póstumas, falência de valores antigos, criação de novos. Medonhas legendas negras
em paredes nos causam admiração a remotas e confusas vidas românticas;
fragmentos de conversa murmurados em cafés nos acirram a fantasia: as cenas
devagar supostas ganham verossimilhança e nitidez.207
A linguagem é um dos instrumentos de mediação entre o ser e o mundo. Recorremos à
ela como ferramenta para alcançar o efeito de verossimilhança. Há momentos, porém, em que
a realidade é assustadora a ponto de superar a ficção. É sob o efeito do terror da realidade que
o escritor-prisioneiro expõe uma ameaça de morte que testemunhara:
Causava assombro a ideia de que fosse possível realizar-se ali, perto de homens
fardados e armados, uma execução. Provavelmente queriam apenas intimidar o
desgraçado. A firmeza dos juízes, a curiosidade ansiosa da assistência, as covardes
lamúrias do réu desviavam essa conjetura. A gente da superfície via a máquina
subterrânea a funcionar — e arrepiava-se. Imaginara a existência dela, uma
existência vaga, apanhada em jornais e em livros. A realidade não tinha
verossimilhança. Estava, porém, a entrar pelos olhos e pelos ouvidos.208
A relação entre metáfora e discurso histórico é explorada no recém-publicado Key
metaphors for history (2024), do historiador espanhol Javier Fernández-Sebastián209.
Fernández-Sebastián considera que:
A metáfora é um ingrediente essencial de qualquer processo cognitivo, e a
historiografia e as ciências sociais não são exceção. É um fato bem conhecido, no
entanto, que até recentemente os historiadores dificilmente prestavam atenção a esse
assunto, e quando o faziam, na maioria das vezes era para aconselhar e desaprovar o
uso de metáfora(s). Chegou a hora de superar velhos preconceitos pseudocientíficos
e aceitar prontamente que a metáfora é uma aliada indispensável ao investigar o
passado e um assunto digno de estudos históricos muito mais profundos e
sistemáticos do que aqueles empreendidos até o momento. [...] a metáfora também
desempenha funções insubstituíveis na historiografia, tanto na fase de pesquisa (a
formulação de perguntas, análise e interpretação de fontes) quanto na fase de escrita
(narração e raciocínio). Ainda mais em filosofias da história ou "historiosofias",
cujas afirmações especulativas foram invariavelmente tecidas sobre uma urdidura de
metáforas.210
207
RAMOS, 2022b, p. 230.
RAMOS, 2022b, p. 296-297.
209
FERNANDÉZ-SEBASTIÁN, Javier. Key metaphors for history: mirrors of time. Abingdon; Nova Iorque:
2024, e-book.
210
“Metaphor is an essential ingredient of any cognitive process, and historiography and the social sciences are
no exception. It is a well-known fact, however, that until recently, historians hardly paid any attention to this
subject, and when they did so, more often than not it was to advise against and frown upon the use of
metaphor(s). The time has come to overcome old pseudo-scientific prejudices and readily accept that metaphor is
both an indispensable ally when investigating the past and a subject worthy of far more profound and systematic
historical studies than those undertaken to date. [...] metaphor also performs irreplaceable functions in
208
69
De volta a Le Goff, para o historiador,
[...] devemos distinguir: o objeto da história é bem este sentido difuso do passado,
que reconhece nas produções do imaginário uma das principais expressões da
realidade histórica e nomeadamente da sua maneira de reagir perante o seu passado.
Mas esta história indireta não é a história dos historiadores, a única que tem vocação
científica.
O mesmo acontece com a memória. Tal como o passado não é a história mas o seu
objeto, também a memória não é a história, mas um dos seus objetos e
simultaneamente um nível elementar de elaboração histórica.211
Dedicado à compreensão da memória e do trauma, o sociólogo vienense Michael
Pollak entrevistou mulheres sobreviventes à passagem pelos campos de concentração nazistas
e pessoas homoafetivas contaminadas com o vírus HIV. Na conferência Memória e identidade
social212, Pollak identifica os “elementos constitutivos da memória”:
Em primeiro lugar, são os acontecimentos vividos pessoalmente. Em segundo lugar,
são os acontecimentos que eu chamaria de "vividos por tabela", ou seja,
acontecimentos vividos pelo grupo ou pela coletividade à qual a pessoa se sente
pertencer. São acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou mas que,
no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível
que ela consiga saber se participou ou não. Se formos mais longe, a esses
acontecimentos vividos por tabela vêm se juntar todos os eventos que não se situam
dentro do espaço-tempo de uma pessoa ou de um grupo.213
Pollak segue identificando componentes das nossas recordações. Para o sociólogo, “a
memória é constituída por pessoas, personagens”214: pessoas com as quais convivemos e
mantivemos contato, as “frequentadas por tabela”215 e as que não fazem parte do nosso
cronotopo. O sociólogo exemplifica esse componente com a figura do general francês Charles
de Gaulle. Mas, após meses mergulhado na obra e na vida do “Mestre Graça”, “traduzo” o
exemplo do austríaco citando o autor de Mc.
Entre os elementos que Pollak considera formadores da memória estão os “lugares da
memória”, termo usado também por Pierre Nora, que o amplia. Enquanto para o primeiro
historiography in both the research stage (the posing of questions, analysis, and interpretation of sources) and the
writing phase (narration and reasoning). Even more so in philosophies of history or “historiosophies,” whose
speculative assertions have invariably been woven upon a warp of metaphors”. FERNANDÉZ-SEBASTIÁN,
2024, e-book, tradução livre por Gerson Castro dos Santos.
211
LE GOFF, 1990, p. 49.
212
POLLACK, Michael. Memória e identidade social. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n.10, 1992, p.
200-215, p. 201. Disponível em: https://tinyurl.com/revistaestudoshistoricos Acesso em: 18 fev. 2025
213
POLLACK, 1992, p. 201.
214
POLLACK, 1992, p. 201, grifo do autor.
215
POLLACK, 1992, p. 202.
70
“lugares de memória” são “sítios”, como museus, arquivos e monumentos,216 Nora estende o
conceito aos “lugares onde a memória se cristaliza e se refugia”.217 Na concepção de Nora,
lugares de memória transcendem a geografia; são “momentos” ou, até mesmo, símbolos,
datas, rituais, práticas, mitos e até obras literárias. Podemos incluir Mc entre os “lugares de
memória” que preservam o fascismo, o Estado Novo, o sistema prisional brasileiro, entre
tantos outros eventos, fatos e características da História.
Os elementos da memória são aspectos capazes de unir pessoas que compartilham
lembranças. E, como a própria memória, são socialmente construídos. Para Pollak, memória e
identidade “são valores disputados em conflitos sociais”.218 Essa conclusão reforça que a
memória comporta lembranças e também esquecimentos. A construção da memória implica a
seleção dos fatos que devem ser lembrados, condenando outros tantos ao oblívio e ao
silenciamento. Ainda em Memória e identidade social, o sociólogo descreve um interessante
caso sobre o esquecimento.
Em 18 de junho de 1940, de Gaulle apelou à nação francesa para que resistisse aos
alemães. Pollack entrevistou alguns integrantes da “Résistance” e poucos pareciam se lembrar
do discurso do general. Na década de 1990, a situação havia se invertido e era raro quem
negasse ter ouvido o discurso de de Gaulle, que passou a fazer parte da memória nacional
francesa219. Ao contrário do que sugere o senso comum, “lembrar” e “esquecer” não são,
portanto, antônimos. Antes, são duas atribuições fundamentais da mente humana. Ao assumir
as lacunas de não-lembrança, a voz narrativa de Mc reconhece o tamanho e o peso da
empreitada do autor.
Lembrar e esquecer são, como vimos na conferência de Pollak, operações distintas. Na
definição ricoeuriana, a memória é pragmática: o episódio mnemônico só existe quando
exercido. Lembrar de uma pessoa, lugar ou acontecimento não se restringe a receber e acolher
imagens do passado em nosso cérebro. A lembrança é a busca por tais imagens e
representações daquilo que pretendemos recordar.220 Presença, ausência e distância são
elementos dialéticos da memória, compondo-a, ainda que pareçam contraditórios. Segundo
Ricoeur, “[...] o esquecimento pode estar tão estreitamente confundido com a memória, que
pode ser considerado como uma de suas condições”.221 Não se lembrar é parte da fisiologia do
216
POLLACK, 1992, p. 202.
NORA, 1993, p. 7.
218
POLLACK, 1992, p. 204.
219
POLLACK, 1992, p. 206.
220
RICOEUR, 2007, p. 71.
221
RICOEUR, 2007, p. 435.
217
71
cérebro humano e da nossa “geografia cortical”.222 Ainda assim, o esquecer nos assombra,
como um fantasma: “Não estamos condenados a esquecer tudo?”.223 O questionamento de
Ricoeur reforça o caráter dialético do ato de esquecer: “[...] de um lado, o esquecimento nos
amedronta. [...] De outro, saudamos como uma pequena felicidade o retorno de um fragmento
do passado arrancado, como se diz, ao esquecimento”.224 Em vários momentos do seu relato,
Graciliano Ramos reconhece o esforço para recuperar sua experiência na prisão. Quando
explica ao leitor as razões que o levaram a escrever, o autor reflete:
Com esforço desesperado arrancamos de cenas confusas alguns fragmentos. Dúvidas
terríveis nos assaltam. De que modo reagiram os caracteres em determinadas
circunstâncias? O ato que nos ocorre, nítido, irrecusável, terá sido realmente
praticado? não (sic) será incongruência? Certo a vida é cheia de incongruências, mas
estaremos seguros de não nos havermos enganado? [...] Como isso variava em
excesso, era natural que variássemos também, apresentássemos falhas.225
Mais tarde, o narrador volta a abordar o esforço de rememoração:
Lembrei-me das palavras de Medina, alguns dias antes da minha viagem à Colônia.
Seria bom eu viver lá, observar aquilo. Engano. Arrasara-me, o espelho me exibira
um vagabundo monstruoso - e as notas arrumadas com lentidão estavam debaixo da
esteira, na cama suja de hemoptises. Esforço perdido. Não me seria possível
reconstituir Gaúcho, Paraíba, seu Mota, guardas ébrios, o diretor magro, Alfeu a dar
pontapés num molambo de gente.226
Graciliano Ramos decidiu “desencarcerar” sua experiência. Assim, sua primeira
incumbência foi selecionar o que seria lembrado e o que seria esquecido; a escrita veio em
seguida. Como vimos no capítulo anterior, o autor de SB considerava escrever um “trabalho”,
na acepção sócio-econômica da palavra. Para a física, trabalho é a transformação de energia
em movimento. Escrever Mc foi um intenso “trabalho de memória” na medida em que
remunerou a família do autor, mesmo após sua morte, e pôs em marcha uma imensa estrutura
ideológica, histórica e fisiológica. E, se entre historiadores a memória só se tornou objeto
relevante na década de 1970, é possível que o primeiro a teorizar a memória como “trabalho”
foi o pai da psicanálise, o médico austríaco Sigmund Freud.
222
RICOEUR, 2007, p. 434.
RICOEUR, 2007, p. 427.
224
RICOEUR, 2007, p. 427
225
RAMOS, 2022b, p. 13.
226
RAMOS, 2022b, p. 544.
223
72
No ensaio Recordar, repetir, elaborar (1914),227 Freud tece considerações sobre as
dificuldades enfrentadas por alguns pacientes durante o que ele chamou de “trabalho de
recordação”. Ao observá-los, Freud notou que alguns “bloqueavam” determinações. E
concluiu que esse bloqueio estava associado a um lapso na experiência: quando tais
analisandos viveram a situação cuja lembrança estava bloqueada, eles não possuíam as
condições intelectuais e emocionais para compreendê-las. O “trabalho de recordação” deveria
acontecer em dupla:
Verifica-se então uma nova espécie de divisão de trabalho: o médico desencobre as
resistências desconhecidas para o doente; sendo essas dominadas, com frequência o
doente relata sem qualquer dificuldade as situações e os nexos esquecidos. O
objetivo dessas técnicas permaneceu inalterado, sem dúvida. Em termos descritivos:
preenchimento das lacunas da recordação; em termos dinâmicos: superação das
resistências da repressão.228
O esquecimento causaria o efeito psíquico que o psicanalista chamou de “repetição”
ou “atuação”, quando o paciente resiste ao desbloqueio da recordação. A solução para a
repetição é mais simples do que poderíamos esperar: “É preciso dar tempo ao paciente para
que ele se enfronhe na resistência agora conhecida, para que a elabore, para que a supere,
prosseguindo o trabalho apesar dela, conforme a regra fundamental da análise”229. O autor de
Recordar, repetir, elaborar associou o bloqueio por repetição às memórias encobridoras.
Adiante falaremos a respeito. Antes, voltaremos ao ano de 1896 para reencontrar o mestre da
investigação psíquica em seu consultório particular, em Viena.
Nessa época, Freud uma das práticas base da psicanálise, a livre associação.230
Empolgado com os resultados do colega Josef Breuer, Freud passou a tratar seus pacientes
com hipnose. Breuer fora bem-sucedido no tratamento de uma paciente, cujos sintomas se
reduziram à medida em que ela se recordava, quando hipnotizada, de acontecimentos
traumáticos. Freud não alcançou o mesmo êxito e abandonou a hipnose para adotar a nova
terapêutica, que consistia em incentivar os pacientes a falar livremente, quaisquer que fossem
as memórias e ideias que ocorressem durante a sessão. O procedimento se mostrou eficaz ao
revelar parte da complexa estrutura do inconsciente e demonstrar a ação inconsciente da
repressão, dissimulada sob os sintomas.231 A partir da livre associação, Freud foi capaz de
227
FREUD, 2010, e-book.
FREUD, 2010, e-book.
229
FREUD, 2010, e-book.
230
GAY, Peter. Freud: a life for our time. New York: W. W. Norton & Company, 1998, e-book.
231
GAY, 1998, e-book.
228
73
descrever, pela primeira vez, o caráter seletivo da memória, do qual já falamos. Em suas
pesquisas, o médico concluiu que recordações são respostas inconscientes a estímulos
externos.
Na concepção freudiana, a nossa memória não é simples repositório de lembranças;
ou, como afirmou Marcelo Rubens Paiva, ao reconstituir os esforços da sua mãe na procura
pelo marido, memórias não são “empilháveis”232. Antes, são como as ramificações de uma
raiz. Considerados “[...] filósofos da diferença, da imanência e/ou da multiplicidade [...]”,233
Gilles Deleuze e Félix Guattari inauguraram o conceito filosófico de “rizoma”.234 A
interlocução constante com diversas áreas, como cinema, literatura, música, biologia, entre
outras, é marca maior da obra desses pensadores. Esse diálogo interdisciplinar constitui “[...]
caminho sistemático e criativo de pensar o mundo e suas complexidades, sustentando as
diferenças e heterogeneidades”.235 É a partir dessa interface de ideias que os filósofos extraem
a imagem das extensões subterrâneas de caules, responsáveis pela absorção de nutrientes; o
rizoma seria um emaranhado de “linhas” em que não se pode distinguir início, meio e fim. A
alegoria do rizoma é capaz de explicar a formação do pensamento - e da memória - e de
abordar a realidade contemporânea, caracterizada pela sua multiplicidade e não-binarismo e
pelas rupturas e incertezas. O rizoma também pode orientar o comportamento do pesquisador.
A “postura rizomática”236 se refere à postura do cientista social, que deve perceber seu objeto
de estudo como parte de painel múltiplo e complexa; o olhar do pesquisador deve ser
“acolhedor e flexível”;237 “[...] o pesquisador que deseja imprimir um olhar rizomático em sua
pesquisa precisa estar aberto à recursividade, ao inesperado e, consequentemente, à
reelaboração. [...] O rizoma, com suas linhas (de segmentaridade dura, flexíveis e de fuga) e
agenciamentos, revela uma realidade construída e, principalmente, dinâmica”.238 Não nos
parece incoerente, portanto, incluir as recordações como elemento “rizomático”. O mesmo
vale para a Memória, enquanto área de estudos na qual interagem a História, a Sociologia, a
Psicologia e a Linguística. Na década de 1960, o também médico e filósofo Michel Foucault
recuperaria a ideia de rizoma e a aprimoraria.239 Aquilo que julgamos ter esquecido pode ter
232
Cf. n. 3.
BARRETO, Raquel de Oliveira; CARRIERI, Alexandre de Pádua; ROMAGNOLI, Roberta Carvalho. O
rizoma deleuze-guattariano nas pesquisas em Estudos Organizacionais. Cadernos EBAPE.BR, Rio de Janeiro,
v. 18, n. 1, p. 47–60, 2020, p. 48. Disponível em: https://tinyurl.com/rizomaguattari Acesso em: 13 out. 2025.
234
BARRETO; CARRIERI, 2020, p. 48.
235
BARRETO; CARRIERI, 2020, p. 48.
236
BARRETO; CARRIERI, 2020, p. 55.
237
BARRETO; CARRIERI, 2020, p. 55.
238
BARRETO; CARRIERI, 2020, p. 55.
239
BARRETO; CARRIERI, 2020, p. 53.
233
74
deixado marcas profundas na nossa psique. Tal como um estilete pode marcar um bloco de
cera.
Em 1925, Freud se deu conta de que o “bloco mágico”, um brinquedo popular no
começo do século XX, servia para demonstrar a memória e sua dinâmica e escreveu a
respeito.240 Similar a um bloco de papel carbono, o “bloco mágico” era formado por uma
prancheta de cera ou resina com margens de papelão e coberta por uma folha fina e
translúcida, presa na parte superior. Essa folha possuía duas camadas, que podiam ser
suspensas sem se soltar da prancheta. A brincadeira consistia em "escrever" na película de
celulóide com uma ponta seca ou estilete e ver as ranhuras aparecerem como marcas
escurecidas. Quando escrevemos no “bloco mágico”, a parte de baixo do papel encerado
cola-se à da tábua de cera. A ponta seca não risca a cera, mas a folha que a cobre, sem
rasgá-la. Para apagar o que foi escrito, basta levantar a folha dupla da cobertura; "Então o
Bloco Mágico fica novamente vazio, pronto para receber outras anotações".241 O “bloco
mágico” é um “parente” mais velho da “lousa mágica”, um quadro formado por duas finas
chapas de acrílico entre as quais era prensada limalha magnética. Quando uma das lâminas era
riscada com uma ponta metálica, o pó era atraído pela ponta de metal e assumia a forma dos
riscos.
O uso constante do bloco deixava marcas quase imperceptíveis na base de madeira.
Foi esse efeito que Freud explorou no artigo Nota sobre o “bloco mágico”. Ao observar o
brinquedo em funcionamento, o psicanalista se pergunta sobre a função de cada uma de suas
partes:
Mas uma simples tentativa mostra que o fino papel ficaria enrugado ou se rasgaria,
caso escrevêssemos diretamente sobre ele com o estilete. A película de celulóide é,
portanto, um revestimento protetor para o papel encerado, destinado a deter os
influxos nocivos que vêm de fora. O celulóide é um “protetor contra estímulos”; a
camada propriamente receptora de estímulos é o papel.
[...]
A analogia não teria muito valor se não pudesse ser levada adiante. Se levantamos
da tabuinha de cera a folha de cobertura inteira — celulóide e papel encerado —, a
escrita desaparece e não volta a aparecer, como foi dito. A superfície do Bloco
Mágico se acha vazia e novamente pronta para receber anotações. Mas facilmente se
constata que o traço duradouro do que foi escrito permanece na tabuinha de cera e
pode ser lido com uma iluminação adequada. Portanto, o Bloco fornece não apenas
uma superfície receptora que sempre pode ser usada novamente, como uma lousa,
mas também traços duradouros da escrita, como um bloco de papel normal. Ele
resolve o problema de juntar as duas operações ao distribuí-las por dois
componentes — sistemas — separados, mas inter-relacionados. É exatamente dessa
maneira que, segundo a hipótese há pouco lembrada, nosso aparelho psíquico realiza
sua função perceptiva.242
240
FREUD, 2011, e-book.
FREUD, 2011, e-book.
242
FREUD, 2011, e-book.
241
75
Figura 11 - Exemplar do bloco mágico243
Fonte: Boletim Nacional do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise.
Do ponto de vista psicanalítico, a memória é o recurso inconsciente para registro e
recuperação de informações, mas nunca para a criação de novas “lembranças”. Poderíamos
compará-la à uma “via de mão dupla” em que lembranças e esquecimentos trafegam e, às
vezes, colidem. Freud descreveu três formas de esquecimento. Antes de as apresentar, é
pertinente apontar que a comparação freudiana não é inédita. No diálogo platônico Teeteto: ou
sobre o conhecimento,244 de 369 a.e.c., Sócrates usa o exemplo do relevo sobre a cera para
explicar a “dádiva de Mnemenosine ”:
Sócrates — Suponhamos, agora, só para argumentar, que na alma há um cunho de
cera; numas pessoas, maior; noutras, menor; nalguns casos, de cera limpa; noutros,
com impurezas, ou mais dura ou mais úmida, conforme o tipo, senão mesmo de boa
consistência, como é preciso que seja.
Teeteto — Está admitido.
Sócrates — Diremos, pois, que se trata de uma dádiva de Mnemenosine, mãe das
Musas, e que sempre que queremos lembrar-nos de algo visto ou ouvido, ou mesmo
pensados calcamos a cera mole sobre nossas sensações ou pensamentos e nela os
gravamos em relevo, como se dá com os sinetes dos anéis. Do que fica impresso,
temos lembrança e conhecimento enquanto persiste a imagem; o que se apaga ou
não pôde ser impresso, esquecemos e ignoramos.245
Voltaremos à Mnemosine. Agora, tomemos em nossas mãos, mais uma vez, o bloco
mágico. Sua inspeção nos dá traz a representação simbólica dos três tipos de esquecimento
243
EDITORIAL. Bloco Mágico - Boletim Nacional do Corpo Freudiano Escola de Psicanálise, s.l., n. 1, ago.
2017, p. 2. Disponível em: https://tinyurl.com/blocomagico Acesso em: 05 jan. 2025.
244
PLATÃO. Diálogos - Teeteto e Crátilo. Belém: Universidade Federal do Pará, 1988.
245
PLATÃO, 1988, p. 71.
76
que o psicanalista vienense assinala: o “recalque original”, a “amnésia infantil” e as
“lembranças encobridoras”.246
O recalque são representações fixas daquilo que a mente pretende esquecer; contudo,
tais representações são inalcançáveis. As limitações da linguagem tornam o recalque algo
indizível, isolado no inconsciente. Na analogia freudiana, o recalque são as marcas que ficam
na madeira. Tais marcas, sob a iluminação adequada, revelam referência a algo. Mas a que?
Quando alcançamos esse “algo”, ele se apresenta na forma do recalque. A amnésia infantil,
equivalente ao levantar das folhas transparentes, é o apagamento dos eventos da primeira
infância, etapa natural do amadurecimento psíquico.247
As lembranças encobridoras são um dos artifícios mais instigantes do jogo “recordar /
esquecer”. Trata-se, como o conceito antecipa, de nos lembrarmos de algo para nos
desfazermos de outra recordação. Nosso aparelho cognitivo registra memórias irrelevantes,
associa seu conteúdo a outras lembranças e substitui essas últimas por registros
“irrelevantes”.248 Mc oferece um exemplo curioso do seu funcionamento.
Próximo à sua soltura, Graciliano Ramos conheceu, na Casa de Detenção, no Rio de
Janeiro, um novo companheiro de prisão. Aleixo servia as refeições aos presos. Seu primeiro
contato não foi dos mais amigáveis. Ainda assim, o “Mestre” ficou curioso a respeito do
homem:
O rapaz que me servira, gordo, baixo, inquieto, aproximou-se, disse-me que se
chamava Aleixo e não era homossexual.
- Quem lhe perguntou isso? exclamei erguendo-me. A sua vida não me interessa.
- É que o senhor vai ouvir dizer que sou pederasta. E não sou. Juro que não sou,
nunca fui.
- Está bem. Adeus.
Saí, galguei a escada. Lá em cima encontrei Walter Pompeu, que se sentara junto a
mim no banco escuro.
- Ó Walter, quem é o tipo que nos serviu, o Aleixo? É doido, não?
Walter Pompeu narrou-me o caso de Aleixo. Não era doido. Marinheiro, longe da
terra, vivera muitos anos amigado com um oficial. No mar essas coisas são naturais falta de mulher. Por acaso, resolvera mudar de vida e casar. Achara fêmea num
porto, quisera fixar-se nela, abandonar o navio, ser tipo decente, macho. - "Não
quero saber mais disso." O oficial tinha direito sobre ele, tentara forçá-lo. - "Seu
tenente, larguei isso e vou casar. Deixe-me em paz." O outro insistira, exigente.
Aleixo matara-o. E condenado no júri, com larga pena, longe da noiva, tornara à
vida anterior. O sentimento de culpa exteriorizava-se a cada instante - e esforçava-se
por evitá-lo afirmando a toda a gente que não era invertido.249
246
FERRARINI, Pâmela Pitágoras Freitas Lima; MAGALHÃES, Lívia Diana Rocha. O conceito de memória na
obra freudiana: breves explanações. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 5, n. 1, p. 109-118,
jun. 2014, p. 13. Disponível em: https://tinyurl.com/memfreudiana Acesso em: 6 jul. 2023.
247
FERRARINI, MAGALHÃES, 2014, p. 113.
248
FERRARINI, MAGALHÃES, 2014, p. 114.
249
RAMOS, 2022b, p. 526.
77
À primeira vista, Aleixo é mais uma entre as infelizes almas que habitaram as celas
escuras e úmidas da Casa de Correção. Um detalhe, porém, lança sombra de desconfiança
sobre sua existência. Teria Graciliano Mentido?
A história de Aleixo se parece com a de outro marinheiro, Amaro, protagonista do
livro Bom-crioulo (1835)250, escrito pelo cearense Adolfo Caminha. Seu romance narra a
aventura homoerótica vivida por Amaro - o Bom-Crioulo - e… Aleixo. Na trama, Amaro é
um ex-escravizado que foge do cativeiro e se alista na Marinha de Guerra.251 Combinando
força física e delicadeza, Amaro ganha o apelido que serve de título ao livro ao embarcar.
Todavia, uma desilusão amorosa leva o Bom Crioulo a beber com frequência e se comportar
com agressividade. Sua atitude muda quando o grumete Aleixo, jovem branco de apenas
quinze anos, engaja-se no mesmo navio. Amaro se vê escravizado mais uma vez, agora pelo
desejo que nutre por Aleixo. O jovem marinheiro corresponde às suas investidas e ambos
iniciam um romance, vivendo secretamente em uma pensão, mantida por d. Carolina, uma
ex-prostituta.
Quando Amaro é transferido para outro navio, d. Carolina seduz Aleixo, que se
entrega à mulher, mais velha que ele. Desejoso de encontrar o amante, Amaro foge da
embarcação, é preso por deserção e severamente punido com chicotadas. A violência do
castigo exige sua internação. No hospital, Amaro espera a visita do amado. Aflito com a
ausência de Aleixo, o Bom Crioulo foge outra vez, dirigindo-se à pensão, onde chega no meio
da noite e vê Aleixo saindo. Ambos discutem e Amaro, cego de ciúmes, sente seu nome o
contaminar e esfaqueia Aleixo. D. Carolina desperta com os gritos apenas para se deparar
com o cadáver de Aleixo e cair em desespero. Cercado pela polícia, um derrotado Amaro é
mais uma vez preso.
Difícil dizer - se não impossível - que trauma ou traumas Graciliano Ramos pretendeu
“encobrir” com a “falsa lembrança” do Aleixo que o servira na Casa de Correção. Mas a
pergunta é válida: será que o escritor alagoano conheceu mesmo um Aleixo quando esteve
preso? Ou será que se trata de um personagem imaginário com o qual o autor ocupou espaços
vazios que não pôde ou não quis preencher, por motivos que fogem ao escopo dessa pesquisa?
Arriscamos uma especulação perigosa. Nos meses em que esteve preso, o escritor se
250
CAMINHA, Adolfo. Bom Crioulo. São Paulo: Hedra, 2009.
Adolfo Caminha também foi marinheiro. Após a morte da mãe, o escritor se mudou para a casa de um tio, no
Rio de Janeiro, que o matriculou na antiga Escola da Marinha, em 1883. Caminha serviu até 1890 e chegou à
patente de segundo tenente. Cf. ADOLFO Caminha. In: BN Digital Brasil. Disponível em:
https://tinyurl.com/adolfocaminha Acesso em: 13 out. 2025.
251
78
horrorizou com diversos casos de violação sexual. Um deles o deixou particularmente
chocado:
Os gritos daquela noite eram de um garoto violado. Essa declaração me estarreceu.
Como podia suceder tal coisa sem que atendessem aos terríveis pedidos de socorro?
Muitos guardas eram cúmplices, ouvi dizer, e alguns vendiam pequenos
delinquentes a velhos presos corrompidos — vinte, trinta, cinquenta mil-réis,
conforme a peça. Esse comércio é tolerado, desemboca nele parte dos lucros obtidos
na indústria mirim da cadeia — fabricação de pentes, caixas, numerosas bagatelas de
chifre e osso. E há também o jogo, rigorosamente proibido e nunca suspenso, o
contrabando de álcool, as gorjetas, a venda de cigarros, prestação de serviços miúdos
aos políticos. O dinheiro circula, às vezes serve para amaciar outros funcionários. Na
ausência de mulheres, consente-se o homossexualismo tacitamente.252
Não podemos perder de vista que estamos lidando com um texto cuja matéria-prima
são as lembranças e os esquecimentos de um sujeito que reconhece os vãos da sua memória e
os assume:
Em conversa ouvida na rua, a ausência de algumas sílabas me levou a conclusão
falsa - e involuntariamente criei um boato. Estarei mentindo? Julgo que não.
Enquanto não se reconstituírem as sílabas perdidas, o meu boato, se não for absurdo,
permanece e é possível que esses sons tenham sido eliminados por brigarem com o
resto do discurso. Quem sabe se eles aí não se encaixaram com intuito de logro?
Nesse caso havia conveniência em suprimi-los, distinguir além deles uma verdade
superior a outra verdade convencional e aparente, uma verdade expressa de relance
nas fisionomias. Um sentido recusou a percepção de outro, substituiu-a. Onde estará
o erro?253
Em carta de 15 de novembro de 1946 escrita ao filho Júnio, Graciliano Ramos relata
as dificuldades em lançar no papel sua experiência como prisioneiro:
Talvez em dezembro eu consiga voltar ao porão do [navio] Manaus. Se me for
possível realizar a tarefa, suspendo as colaborações de contos e crônicas bestas,
oferecerei à Tribuna a publicação das coisas que venho arrancando este ano dos
miolos, com dificuldade imensa. Receio não chegar a concluí-las, pois estou numa
burrice espantosa. Fiquei no capítulo dezoito - e apenas contei o que se passou em
dez dias. Uma estopada sem fim. Vou ver se alcanço o meio da viagem.254
A noção de memória como “trabalho” foi absorvida pelas ciências humanas. A
socióloga argentina Elizabeth Jelin opera a ideia de “trabalho de memória” alinhada às
interpretações ricoeuriana (memória com prática) e freudiana (“trabalho de recordação”),
252
RAMOS, 2022b, p. 279..
RAMOS, 2022b, p. 12.
254
RAMOS, 2022a, p. 324.
253
79
oferecendo uma perspectiva crítica e dinâmica sobre a construção da memória coletiva,
sobretudo nos contextos pós-ditatoriais no Cone Sul da América Latina. Sua compreensão
dialoga, ainda, com a abordagem de Maurice Halbwachs: ambos admitem que a memória não
é passiva, mas reconstrução histórica ativa e permeada por disputas sociais e políticas,
empreendida por sujeitos coletivos. Por meio de práticas discursivas, os sujeitos que
“trabalham” na memória selecionam, reinterpretam e legitimam narrativas sobre o passado,
muitas vezes se opondo ao esquecimento imposto ou ao silenciamento oficial. Nesse sentido,
o trabalho de memória é atividade transformadora, onde o "empreendedor de memória"
desempenha um papel crucial na construção e legitimação de narrativas históricas.
A autora argentina elabora seu pensamento a partir da noção de que o trabalho é
condição essencial da espécie humana; e por meio dele que transformamos o mundo e a nós
mesmos: “Referir-se, então, ao fato de que a memória implica o trabalho é incorporá-la à
tarefa de criar e transformar o mundo social”.255 Memorizar algo, ou seja, selecionar o que vai
ser recordado e narrado e o que vai ser esquecido, é fundamental na criação de espaços
coletivos históricos; é a manifestação cabal dos “lugares de memória”. Ainda de acordo com
Jelin, a urgência de trabalhar a memória não é característica isolada de contextos particulares.
As reflexões analíticas são sempre produzidas a partir de uma localização particular. Em sua
abordagem, a pesquisadora estava centrada em compreender marcas deixadas pelas ditaduras
do Cone Sul da América Latina e e os processos pós-ditatoriais. Havia, ainda, compromissos
“éticos e políticos próprios de cidadãos e cidadãs ativos.”256 “Trabalhos de memória”, enfatiza
a intelectual, são cruciais para lidar com traumas de caráter político e catástrofes sociais:
No indivíduo, a marca do traumático intervém de maneira central naquilo que o
sujeito pode ou não pode recordar, silenciar, esquecer ou elaborar. Em um sentido
político, as “contas com o passado" em termos de responsabilidades,
reconhecimentos e a justiça institucional se combinam com urgências éticas e
exigências morais, difíceis de resolver devido aos conflitos políticos nos ambientes
onde surgem e devido à destruição dos laços sociais inerentes às situações de
catástrofe social.257
Nosso objeto de análise ilustra bem o “trabalho de memória”: Mc figura, hoje, como
peça indispensável de resistência às ditaduras e preservação da memória de estados de
255
“Referirse entonces a que la memoria implica “trabajo” es incorporarla al quehacer que genera y transforma el
mundo social”. JELIN, 2012, p. 48, tradução livre por Gerson Castro dos Santos.
256
“Las investigaciones estaban enraizadas en compromisos éticos y políticos como ciudadanos/as activos/as”.
JELIN, 2012, p. 10, tradução livre por Gerson Castro dos Santos.
257
“En lo individual, la marca de lo traumático interviene de manera central en lo que el sujeto puede y no puede
recordar, silenciar, olvidar o elaborar. En un sentido político, las “cuentas con el pasado” en cuanto a
responsabilidades, reconocimientos y justicia institucional se combinan con urgencias éticas y demandas
morales, no fáciles de resolver por la conflictividad política en los escenarios donde se plantean y por la
destrucción de los lazos sociales inherente a las situaciones de catástrofe social”. JELIN, 2012, p. 45, tradução
livre por Gerson Castro dos Santos.
80
exceção. Em várias passagens, Ramos reflete sobre o impacto da prisão em sua identidade, na
dos seus companheiros e na sociedade. A transformação de Manuel Leal, vizinho de cela na
Casa de Correção, representa bem tais impactos: “Estranhei, tive pena do homem a desabar
em velhice rápida. Coitado. Não me parecia longe o tempo em que os tristes olhos hoje
apagados no rosto murcho brilhavam muito vivos; os fartos anéis da cabeleira negra seduziam
mulheres.”258. O escritor alagoano demonstra, em certos momentos, a intenção de apagar o
passado traumático, como na já citada passagem “Queria endurecer o coração, eliminar o
passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período - riscar, engrossar os riscos e
transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias
obliteradas”259.
O trecho revela a tensão entre o desejo de esquecer e a necessidade de recordar, dilema
central em trabalhos de memória. A existência de Mc atesta que Ramos estava ciente do seu
papel de “escritor engajado” e preferiu testemunhar contra a opressão e a injustiça, num
esforço comparável ao de Hércules, dado o porte do livro e a angústia do processo de
“desencarcerar” recordações tão doloridas. Desse modo, tanto a teoria de Jelin quanto a
prática literária do mestre de Vs destacam a memória como campo de disputa e reconstrução.
Jelin vai ao encontro da teoria de Ricoeur no que diz respeito à importância do
esquecimento. Para este, esquecer conclui o ciclo do “perdão fácil”. Essa forma de perdoar
carrega consigo o risco de banalização do mal sofrido e da gravidade da ofensa. Trata-se de
anistia superficial, apressada, que não enfrenta o peso do mal;260 quase um ato de indiferença.
A intelectual portenha percebe a necessidade de esquecer para superar o trauma, em escalas
coletiva e individual. Nessa condição, o esquecimento tem dupla função. Pode servir como
recurso inconsciente:
Por sua vez, a psicanálise tem se interrogado sobre o outro lado do mistério,
concentrando a atenção no papel do inconsciente na explicação dos esquecimentos,
lacunas, vazios e repetições que o eu consciente não pode controlar. A influência de
processos psíquicos ligados ao desenvolvimento do eu e a noção de trauma, à qual
retornaremos mais adiante, são centrais nesse campo. Já não se trata de observar a
memória e o esquecimento a partir de uma perspectiva puramente cognitiva, de
medir quanto e o que se recorda ou se esquece, mas de compreender os “como” e os
‘quando’ e relacioná-los a fatores emocionais e afetivos.261
258
RAMOS, 2022b, p. 453.
Cf. n. 66.
260
RICOEUR, 2007, p. 465.
261
“Por su parte, el psicoanálisis se ha preguntado sobre el otro lado del misterio, centrando la atención en el
papel del inconsciente en la explicación de olvidos, huecos, vacíos y repeticiones que el yo consciente no puede
controlar. La influencia de procesos psíquicos ligados al desarrollo del yo y la noción de trauma, a la que
volveremos más adelante, son centrales en este campo. Ya no se trata de mirar a la memoria y el olvido desde
una perspectiva puramente cognitiva, de medir cuánto y qué se recuerda o se olvida, sino de ver los 'cómo' y los
259
81
Ainda
assim,
Graciliano
se
debateu
contra
o
trabalho
inconsciente de
“não-lembrança”:
Considerava o futuro, se não com serenidade, pelo menos com indiferença. Contudo
o enorme fastio não findava e o apetite do capitão me produzia invencível enjoo.
Vinha talvez daí a impossibilidade alarmante de fixar atenção na leitura. E a perda
de memória também. As lembranças me apareciam juntas, confusas, sumiam-se de
repente, deixando-me no interior dolorosos sulcos negros. Esses hiatos sucediam-se,
afastavam-me da realidade, com certeza me davam ar esquisito e vago.262
Houve mesmo momentos em que o apagamento da recordação trazia alívio: “Respirei
aliviado. Atravessamos um portão, percorremos lugares que não me deixaram nenhum
vestígio na memória [...]. Não me chegava uma palavra, e o desagrado apenas se revelava no
gesto arrepiado, no resmungo cavernoso”.263
Dada a criticidade da memória, em função das disputas ao seu redor, o esquecimento
também pode ser política de estado:
Há momentos e circunstâncias em que a política estatal de memória é uma política
de silêncio e esquecimento, sob o argumento de que a construção democrática deve
orientar a ação para o futuro e não para o passado. Isso não é o que ocorre na
maioria dos casos nesta etapa inicial do século XXI. As viradas do começo do século
indicam que, cada vez mais, a definição do que um governo ‘normal’ pode fazer é
enfrentar o passado e promover medidas ligadas à justiça e ao reconhecimento da
violência política e de suas vítimas. Essa ‘normalidade’ não está isenta de conflitos e
confrontos entre atores que pretendem impor ‘suas’ memórias.264
Esquecer, portanto, é, também, ferramenta política. Há “lógica no silêncio”.265 E mais:
[...] requer-se “trabalhar”, elaborar, incorporar memórias e recordações em lugar de
reviver e atuar. No plano psicanalítico, o assunto se refere ao trabalho de duelo. O
trabalho de duelo implica um “processo intrapsíquico” [...]. Implica poder esquecer e
transformar os afetos e sentimentos, quebrando a fixação no outro e na dor,
aceitando “a satisfação que comporta permanecer com vida”.
'cuándo', y relacionarlos con factores emocionales y afectivos”. JELIN, 2012, p. 53, tradução livre por Gerson
Castro dos Santos.
262
RAMOS, 2022b, p. 51-52.
263
RAMOS, 2022b, p. 38.
264
"Hay momentos y circunstancias en los que la política estatal de memoria es una política de silencio y olvido,
con el argumento de que la construcción democrática debe hacerse orientando la acción hacia el futuro y no
mirando al pasado. Esto no es lo que ocurre en la mayoría de los casos en esta etapa inicial del siglo XXI. Los
virajes de comienzos de siglo indican que, cada vez más, la definición de lo que un gobierno 'normal' puede
hacer es encarar el pasado y promover medidas ligadas a la justicia y el reconocimiento de la violencia política y
sus víctimas. Esta 'normalidad' no está exenta de conflictos y confrontaciones entre actores que pretenden
imponer 'sus' memorias". JELIN, 2012, p. 18-19, tradução livre por Gerson Castro dos Santos.
265
JELIN, 2012, p. 64.
82
[...] Essa noção pode ser aplicada e estendida fora do contexto terapêutico. No
trabalho elaborativo [...] “a pessoa trata de ganhar uma distância crítica sobre um
problema e distinguir entre passado, presente e futuro [...]”. Pode haver outras
possibilidades, mas é por meio da elaboração que se adquire a possibilidade de ser
um agente ético e político [...].266
Elizabeth Jelin conclui que “[...] se falamos de esquecimento, o que se está propondo é
o esquecimento (político) do singular e único de uma experiência, para tornar a memória mais
produtiva”.267 Esquecemos para nos lembrar. E, no esforço da memória, construímos e
refazemos identidades.
2.3 “Novelo de casos”
Em futuro incerto, a Europa se encontra em uma guerra que parece não ter fim. Os
cidadãos das nações em conflito não sabem quando os confrontos começaram, suas causas e,
sequer, quais países são aliados e adversários. Antes conhecida como Inglaterra, a Pista de
Pouso Um é a maior província da Oceania, megaestado governado por uma entidade
misteriosa conhecida como “O Grande Irmão”. Esse é o enredo de 1984,268 obra-prima do
escritor inglês George Orwell. Publicado em 1948, o romance é uma crítica pontual ao
totalitarismo e às formas de controle da população. No mundo de 1984 toda informação é
controlada pelo estado. Na Oceania, o responsável pelas notícias e pela cultura é o enigmático
“Partido”, cujo lema é "Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente
controla o passado”.269
A possibilidade de criar representações de pessoas e eventos ou ainda de fazer
representações e representados desaparecerem dá poder a quem controla a memória. Le Goff
nos assevera: “Tornarem-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes
266
"[...] se requiere 'trabajar', elaborar, incorporar memorias y recuerdos en lugar de re-vivir y actuar. En el plano
psicoanalítico, el tema refiere al trabajo de duelo. El trabajo de duelo implica un 'proceso intrapsíquico [...]'.
Implica poder olvidar y transformar los afectos y sentimientos, quebrando la fijación en el otro y en el dolor,
aceptando 'la satisfacción que comporta el permanecer con vida'. [...] Esta noción puede ser aplicada y extendida
fuera del contexto terapéutico. En el trabajo elaborativo [...] 'la persona trata de ganar una distancia crítica sobre
un problema y distinguir entre pasado, presente y futuro [...]'. Puede haber otras posibilidades, pero es a través de
la elaboración que se adquiere la posibilidad de ser un agente ético y político [...]”. JELIN, 2012, p. 48, tradução
livre por Gerson Castro dos Santos.
267
“Si hablamos de olvido, lo que se está proponiendo es el olvido (político) de lo singular y único de una
experiencia, para tornar más productiva a la memoria”. JELIN, 2012, p. 65, tradução livre por Gerson Castro dos
Santos.
268
ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
269
ORWELL, 2019, p. 76.
83
preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam as
sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores desses
mecanismos de manipulação da memória coletiva”.270
À frente, o mestre dos Annales completa:
Mas a memória coletiva é não somente uma conquista, é também um instrumento e
um objeto de poder. São as sociedades cuja memória social é sobretudo oral ou que
estão em vias de constituir uma memória coletiva escrita que melhor permitem
compreender esta luta pela dominação da recordação e da tradição, esta
manifestação da memória.271
Já dissemos que o trabalho de memória é coletivo. A seleção do que vai ser lembrado,
documentado e registrado e do que será deixado à margem constitui base para a memória de
um povo, época ou lugar. Isso faz da chamada “história oficial” uma ameaça. Um conhecido
provérbio africano diz que enquanto o leão não tiver o seu historiador, a história será sempre
contada pelo caçador. Esforços de agência e resgate da memória - como os que Mc representa
- são parte da luta de um povo. Narrar memórias é se apossar da História e revelar outras faces
e possibilidades dos fatos históricos e seus atores.
Enquanto “lugar de memória”, o Estado Novo é ocupado por uma variedade de
personagens que inclui não apenas os grandes nomes - Getúlio Vargas e o próprio Graciliano
Ramos, por exemplo. Mc extrapola a dimensão do testemunho pessoal e se inscreve no âmbito
da memória coletiva. Ao resgatar sua experiência, o escritor alagoano reconhece que não
estava só e mobiliza as vivências de outros presos políticos. Ao tornar explícitos sofrimentos
que não foram apenas seus, o criador de Baleia e Fabiano contribuiu de modo inquestionável
e com grandiosidade de espírito para a construção da memória daquele período.
Lidar com recordações que pertencem à toda uma sociedade exige cuidados
específicos. O sociólogo francês Maurice Halbwachs foi pioneiro nos estudos da memória
coletiva. Seu trabalho de maior destaque, A memória coletiva, foi escrito poucos antes do seu
assassinato pelos nazistas e publicado postumamente em 1950. Seu argumento central é o de
que não há apenas uma memória coletiva, mas várias.
As teorias de Halbwachs e Nora afluem para a mesma direção: História e memória são
distintas, bem como suas abordagens sobre os fatos. E, muitas vezes, não há concordância
entre ambas. Segundo Nora, “Memória, história: longe de serem sinônimos, tomamos
270
271
LE GOFF, 1990, p. 426.
LE GOFF, 1990, p. 476.
84
consciência de que tudo opõe uma à outra”.272 Enquanto a memória “é vida, sempre carregada
por grupos vivos”, a História é “a reconstrução sempre problemática e incompleta do que não
existe mais”;273 se a primeira é “um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno
presente”, a segunda é “uma representação do passado”.274
Halbwachs considera que a memória individual surge da memória coletiva. Toda
lembrança diz respeito a processos históricos comuns a certo grupo. Nossas ideias, reflexões,
sentimentos e paixões são, para o sociólogo, inspiradas pela comunidade que integramos:
“[...] em realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá, que se
distingam materialmente de nós: porque temos sempre conosco e em nós uma quantidade de
pessoas que não se confundem”.275
A “memória coletiva” se constitui a partir das aspirações, frustrações, temores,
depoimentos e recordações de diversos sujeitos, que se combinam e se ajustam. Reconstruir a
memória de tal grupo exige que as narrativas dos seus membros apontem para a mesma
direção e concordem entre si. Para alcançar esse objetivo Halbwachs, é necessária uma
“intuição sensível”:
A questão toda é saber se uma tal lembrança pode existir, se é concebível. O fato que
ela seja produzida, mesmo uma única vez, bastaria para demonstrar que nada se
opõe a que intervenha em todos os casos. Haveria então, na base de toda a
lembrança, o chamado a um estado de consciência puramente individual que - para
distingui-lo das percepções onde entram tantos elementos do pensamento social admitiremos que se chame intuição sensível.276
Em Mc, ao relatar a experiência da prisão injusta, a voz narrativa não fala de si,
apenas, mas daquilo que o grupo ao qual pertenceu - comunistas, intelectuais, antifascistas,
artistas - viveu. Logo, a memória individual se sustenta na memória coletiva e na memória
histórica. Essa segunda é definida por Halbwachs como os fatos que configuram a memória
de uma nação e aos quais nos referimos como se fossem nossos.277 Em artigo sobre o tempo
presente e a história oral,278 Marieta de Moraes Ferreira explica que, de acordo com
Halbwachs, a memória envolve uma relação entre repetição e rememoração. Ferreira
272
NORA, 1993, p. 9.
NORA, 1993, p. 9.
274
NORA, 1993, p. 9.
275
HALBWACHS, 1990, p. 16.
276
HALBWACHS, 1990, p. 24.
277
HALBWACHS, 1990, p. 37.
278
FERREIRA, Marieta de Moraes. História, tempo presente e história oral. Topoi, Rio de Janeiro, v. 3, n. 5, p.
314-332, dez. 2002.
273
85
sublinha, ainda, que, na análise da repetição das memórias, Halbwachs percebeu que ela
ocorre juntamente com a sua revisão.279 Outro ponto relevante de sua pesquisa é a afirmação
de que a memória coletiva depende do poder social do grupo que a detém. Nesse sentido, na
rememoração, as imagens do passado não seriam lembradas como de fato aconteceram, e sim
de acordo com as forças sociais do presente. Essa contribuição fornece elementos para a
elaboração de uma história das comemorações. Ao pesquisar as imagens nas quais os atores
históricos representam seu mundo, os historiadores podem identificar as estruturas da
imaginação coletiva e o poder do grupo social que as criou.280
Ciente de que a empreitadas de escritor e memorialista são solitárias mas nunca
individuais, “Graça” confidenciou ao filho Júnio Ramos, em carta de 12 de outubro de 1945:
Findos alguns compromissos neste resto de ano, iniciarei um trabalho a respeito das
prisões de 1936. É difícil e arriscado: tenciono apresentar aquela gente em cuecas,
sem muitos disfarces, com os nomes verdadeiros. Necessito a autorização das
personagens: não tenho o direito de utilizar gente viva num livro de memórias que
encerrará talvez inconveniências. Preciso falar sério com os meus companheiros de
cadeia.281
É a esse emaranhado de recordações comuns - umas complementares, outras
contraditórias - que Graciliano chamou “novelo de casos”: “Estou a descer para a cova, este
novelo de casos em muitos pontos vai emaranhar-se, escrevo com lentidão - e provavelmente
isto será publicação póstuma, como convém a um livro de memórias”.282 De fato, o “trabalho
sobre as prisões de 1936” só seria publicado após a sua morte. E, ao tentar “desembaraçar o
novelo”, o autor se mostrou, mais uma vez, consciente da responsabilidade que envolvia a
escrita de uma obra como Mc:
O receio de cometer indiscrição exibindo em público pessoas que tiveram comigo
convivência forçada já não me apoquenta. Muitos desses antigos companheiros
distanciaram-se, apagaram-se. Outros permaneceram junto a mim, ou vão
reaparecendo ao cabo de longa ausência, alteram-se, completam-se, avivam
recordações meios confusas - e não vejo inconveniência em mostrá-los. Alguns
reclamam a tarefa, consideram-na dever, oferecem-me dados, relembram figuras
desaparecidas, espicaçam-me por todos os meios. Acho que estão certos: a exigência
se fixa, domina-me. Há entre eles homens de várias classes, das profissões mais
diversas, muito altas e muito baixas, apertados nelas como em estojos. Procurei
observá-los onde se acham, nessas bainhas em que a sociedade os prendeu. A
279
FERREIRA, 2002, p. 320.
FERREIRA, 2002, p. 321.
281
RAMOS, 2022a, p. 319.
282
RAMOS, 2022b, p. 11.
280
86
limitação impediu embaraços e atritos, levou-me a compreendê-los, senti-los,
estimá-los, não arriscar julgamentos precipitados.283
Na vida em comunidade, a memória exerce dupla função: ora influencia a sociedade e
seus indivíduos, ora é influenciada e reconstruída por essa mesma coletividade. Certamente,
se nossa impressão pode se apoiar não somente sobre nossa lembrança, mas também sobre a
dos outros, nossa confiança na exatidão de nossa rememoração será maior, como se uma
mesma experiência fosse recomeçada, não somente pela mesma pessoa, mas por várias: “[...]
nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que
se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós
vimos”.284
A possibilidade de recriação e a ressignificação tornam a memória coletiva algo
caleidoscópico, surgido da combinação das recordações da sociedade e seus indivíduos;
decifrar e interpretar esse mosaico cria novas interpretações sobre o nosso tempo e lugar ou
reforça, confirma e destaca interpretações consagradas. Ainda de acordo com Halbwachs “[...]
tudo se passa como se confrontássemos vários depoimentos. É porque concordam no
essencial, apesar de algumas divergências, que podemos reconstruir um conjunto de
lembranças de modo a reconhecê-lo”.285 Sobre essa recriação de memórias alheias, Graciliano
confessa:
Também me afligiu a ideia de jogar no papel criaturas vivas, sem disfarces, com os
nomes que têm no registro civil. Repugnava-me deformá-las, dar-lhes pseudônimo,
fazer do livro uma espécie de romance; mas teria eu o direito de utilizá-las em
história presumivelmente verdadeira? Que diriam elas se se vissem impressas,
realizando atos esquecidos, repetindo palavras contestáveis e obliteradas?286
Até aqui, falamos da memória “historicamente verificável”; mas será que, em sua
totalidade, o teor das memórias que chegou ao público é “verdadeiro”? Existe parte
“inventada”? Os esquecimentos estão todos lá, ou houve alguma tentativa de preencher essas
lacunas?
Entre os séculos XVII e XIX, a colônia portuguesa na América e, depois, Império do
Brasil, atraiu os olhares de aventureiros e exploradores europeus. Curiosos quanto à cultura e
283
RAMOS, 2022b, p. 11.
HALBWACHS, 1990, p. 16.
285
HALBWACHS, 1990, p. 16.
286
RAMOS, 2022b, p. 9.
284
87
à natureza do “Novo Mundo”, centenas de homens passaram pelas terras recém-conquistadas,
registrando o que viam e aprendiam em cartas, diários e tratados. Essa coleção de “livros de
memórias”, “relatos de viagem” ou “memórias / memoriais de viagem” é o núcleo do gênero
que, no século XIX, passou a ser chamado de “literatura de viagem”.287 Segundo a crítica
Flora Sussekind, tal gênero é uma das bases daquilo que se chamará, séculos depois, de
literatura brasileira.288
Era - e ainda é, como já afirmamos repetidas vezes - comum que o viajante-escritor se
equivocasse; suas recordações poderiam se contradizer, por estar muito distantes no passado,
o que dificultaria a “recriação” da jornada. Povos, lugares e costumes podiam se perder da
narrativa e empobrecer o relato. A solução era o que outro crítico, o argentino Alberto
Manguel, chamou de “vitória da imaginação (ou do bom-senso) sobre o dever, sobre as
restrições da verdade factual”:289 completar o que faltava com imaginação; ficcionalizar.
Em função do seu estilo híbrido, misto de memória e criação, Mc ocupa lugar especial
nas letras brasileiras. Não é uma exclusividade do livro. Já abordamos, no primeiro capítulo, a
compreensão do próprio Graciliano sobre o elo entre literatura e experiência. E em Mc, o
autor de Caetés reflete a esse respeito tomando a obra do amigo José Lins do Rego:
Bem, os célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo.
Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente não conhecia. Acusavam-no de
ser apenas um memorialista, de não possuir imaginação, e o romance mostrava
exatamente o contrário. Que entendia ele de meninos nascidos e criados na lama e na
miséria, ele, filho de proprietários? Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu
seria incapaz de semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e
sentida. Tornaria esse amigo a compor outra história assim, desigual, desleixada,
mas onde existem passagens admiráveis, duas pelo menos a atingir o ponto
culminante da literatura brasileira? Quem sabia lá? Agora morava no Rio, talvez
entrasse na ordem, esquecesse a bagaceira e a senzala, forjasse novelas convenientes
para um público besta, rico e vazio.290
Tratando-se de Mc, há duas explicações para essa articulação.
A primeira reside na decisão do autor de eliminar notas que produziu na cadeia. O
escritor temia que seus escritos fossem usados contra ele em processo que não ocorreu: “A
minha situação não melhorava nem piorava. Ausência de processo, nenhuma testemunha;
287
FRANÇA, Jean Marcel de Carvalho; RAMINELLI, Ronald. Andanças pelo Brasil colonial: catálogo
comentado (1503 – 1808). São Paulo: Unesp, 2009, p. 10.
288
SUSSEKIND, Flora. O Brasil não é longe daqui: o narrador, a viagem. São Paulo: Companhia das Letras,
2006, p. 232-233.
289
MANGUEL, Alberto; GUADALUPI, Gianni. Dicionário de lugares imaginários. São Paulo: Companhia
das Letras, 2003, p. III.
290
RAMOS, 2022b, p. 36, grifo do autor.
88
adiava-se, provavelmente não se realizaria o interrogatório longamente esperado. Minha
mulher andava pelas repartições, a inquirir debalde; em falta de esclarecimentos, enviavam-na
de um lugar para outro”.291 Assim, decidiu jogar seus registros na água: “As notas, únicas
forças restantes, arrumavam-se no cós do pijama, faziam na barriga um chumaço pequeno em
cima da cicatriz da operação. As folhas prejudiciais tinham sido atiradas na água. Estavam
comigo notícias ingênuas, a figura de meu filho mais novo, de olhos grandes. Apenas.
Bem”.292
Além disso, “Graça” compreendia que a fidelidade às notas da prisão tornaria a
escrita, senão impossível, enfadonha, já que reduziria a sua engenhosidade:
Quase me inclino a supor que foi bom privar-me desse material. Se ele existisse,
ver-me-ia propenso a consultá-lo a cada instante, mortificar-me-ia por dizer com
rigor a hora exata de uma partida, quantas demoradas tristezas se aqueciam ao sol
pálido, em manhã de bruma, a cor das folhas que tombavam das árvores, num pátio
branco, a forma dos montes verdes, tintos de luz, frases autênticas, gestos, gritos,
gemidos.293
A segunda justificativa para a transposição e combinação de elementos em Mc é a
escolha deliberada do autor de escrever a partir daquilo que se lembrava. Ao longo do
primeiro capítulo, Graciliano apresenta os motivos pelos quais escreveu o livro e como foi o
trabalho de recuperação da sua vivência. As páginas iniciais soam como tentativa de firmar
pacto de confiança com o leitor. Aquelas são as memórias dele, Graciliano Ramos: como
poderia ele estar errado sobre o que se lembra? Ainda que haja possíveis espaços não
preenchidos - “cortes, hiatos, falhas alarmantes”294 - o autor é honesto quanto à elas: “Nesta
reconstituição de fatos velhos, neste esmiuçamento, exponho o que notei, o que julgo ter
notado”.295
De fato, nos estudos literários, existe aquilo a que chamamos de “pacto ficcional”,
espécie de acordo entre leitor e narrador. É preciso que o autor sinalize o leitor de que o texto
que lerá a seguir é uma narrativa imaginada. Ou, como afirma o Umberto Eco, que se trata de
uma narrativa artificial, “[...] supostamente representada pela ficção, que apenas finge dizer a
verdade sobre o universo real ou afirma dizer a verdade sobre um universo ficcional”296.
291
RAMOS, 2022b, p. 259.
RAMOS, 2022b, p. 381.
293
RAMOS, 2022b, p. 12-13.
294
RAMOS, 2022b, p. 138.
295
RAMOS, 2022b, p. 12.
296
ECO, Umberto. Seis passeios pelos bosques da ficção. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2024,
e-book.
292
89
Ainda de acordo com Eco, esses “sinais” fazem parte de uma série de protocolos que auxiliam
o leitor:
Um sinal paratextual típico da narrativa de ficção é a palavra “romance” na capa do
livro. Às vezes, até o nome do autor pode funcionar dessa maneira; assim, os leitores
do século xix sabiam sem sombra de dúvida que estavam diante de uma obra de
ficção quando o frontispício do livro anunciava que fora escrito “pelo autor de
Waverley”. O sinal textual (quer dizer, interno) de ficcionalidade mais óbvio é uma
fórmula introdutória como “Era uma vez”.297
O semioticista conta dois casos curiosos em que a falta de “mensagens externas”,
indicativas da ficcionalidade do texto, confundiu leitores.
Um amigo seu publicou, em um jornal dominical, o conto Como matei Umberto Eco.
A trama, em que Eco e o autor surgem como personagens, termina com a morte acidental de
Eco. Na manhã seguinte, Eco diz ter sido abordado com surpresa pelos garçons de um café
que frequentava. Eles pensaram que o cliente célebre havia, de fato, morrido. Acreditando que
a reação dos garçons tinha a ver com a sua formação cultural, Eco foi surpreendido pela
reação do reitor da universidade em que lecionava, que o recebeu com o mesmo alívio.298
O segundo episódio é bastante conhecido. Trata-se do incidente causado por Orson
Welles, em 1940: ao ler, em uma rádio, um folhetim sobre invasão marciana, Welles não
alertou aos ouvintes que se tratava de uma história de ficção científica, o que provocou
pânico.299 Ambos os mal-entendidos resultaram do meio em que as narrativas foram
veiculadas: um jornal e uma rádio, fontes de informação que, no senso-comum, são confiáveis
e transmitem apenas narrativas “naturais” - aquelas que descrevem fatos que “ocorreram na
realidade”300. Umberto Eco exemplifica o pacto ficcional com anedotas e os dois exemplos
apresentador se conectam a Mc: uma vez que alguém decide ler um livro - como as memórias
de um escritor conhecido pela sua rigidez de espírito e de estilo - firma um contrato de
confiança com o autor / narrador. No ato da leitura, tudo o que consta nas páginas do livro
pode ser considerado “verdade”.
O aspecto ficcional de uma obra escrita surge no momento em que a narrativa
prescinde de comprovação histórica.301 E Mc se pretende um texto “de testemunho”, o que
quer dizer, segundo Alfredo Bosi, que se trata de um escrito “[...] na intersecção de memórias
e engajamento. Nem pura ficção, nem pura historiografia; testemunho. [...] O testemunho
297
ECO, 2024, e-book.
ECO, 2024, e-book.
299
ECO, 2024, e-book.
300
ECO, 2024, e-book.
301
PESAVENTO, 2006, s.p.
298
90
quer-se idôneo, quer-se verídico, pois aspira a certo grau de objetividade. Como tal, casa
memória individual com história”.302 Na condição de relato de quem viveu o fato, o texto de
testemunho é, ele mesmo, vestígio do seu “lugar de memória” original. Nessa situação, o
acordo entre leitor e autor / narrador é o pacto biográfico, autobiográfico ou, ainda, o pacto
autoficcional. Trataremos mais desse aspecto no próximo capítulo.
302
BOSI, Alfredo. A escrita do testemunho em “Memórias do cárcere”. Estudos Avançados, São Paulo, v. 9, n.
23, p. 309-322, 1995, p. 309.
CAPÍTULO 3 - ENTRE CLIO E CALÍOPE:
“UM SUJEITO MAIS OU MENOS IMAGINÁRIO”
2.4 “Clio se aproxima de Calíope”
Na mitologia grega, as irmãs Clio e Calíope eram duas das nove filhas que
Mnemósine, deusa guardiã da memória, teve com Zeus. Cada uma das suas filhas era musa de
uma arte e deveria inspirar músicos, poetas, dançarinos e outros artífices. Clio, “a
proclamadora” ou “a que traz a glória”, despertava os dons dos historiadores e compositores
de sagas; Calíope, cujo nome significa “a da bela voz” incitava os poetas à criação303. Edith
Hamilton, importante pesquisadora dos mitos gregos, ressalta que, na Teogonia de Hesíodo,
antes de parir suas filhas, Mnemósine nomeou as emoções. Ironicamente, a divindade da
memória não era capaz de escrever os nomes que concedeu a cada sentimento e ideia. A tarefa
coube à Clio e à Calíope 304, musas que dominavam a escrita. “Clio se aproxima de Calíope,
sem com ela se confundir”, afirma, de maneira poética, a historiadora Sandra Jatahy
Pesavento305.
O fazer literário se assemelha ao trabalho do historiador. Ambas têm no texto escrito
seu suporte privilegiado. Seus artesãos buscam objetivos semelhantes e que, muitas vezes,
completam-se. Mas não são os mesmos. Para Pesavento, “a realidade é complexa [...] e se
fosse transparente, não haveria necessidade de interpretá-la…”306. Nessa rede de
complexidades, conexões e descontinuidades, História e Literatura ora se aproximam, ora se
afastam.
Em livro publicado em 2024307, Júlio Pimentel Pinto explica que
[...] a percepção de Aristóteles continua válida: à diferença do ficcionista, o
historiador é regulado pelo que aconteceu. O compromisso do ficcionista é com a
imaginação: ele pode inventar uma versão alucinada da vida nos engenhos ou da
Guerra do Paraguai, pode criar uma trama incrivelmente rocambolesca sobre o
suicídio de Vargas, sobre a Guerra de Canudos, sobre o assassinato de Kennedy ou
sobre o funesto regime cívico-militar brasileiro. Já o compromisso do texto
historiográfico é com uma verdade — que não é absoluta, plena ou pura, mas é a
verdade possível, que podemos adjetivar ou metaforizar de muitas maneiras:
303
HAMILTON, Edith. Mitologia: contos imortais de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Sextante, 2002, e-book.
HAMILTON, 2002, e-book.
305
PESAVENTO, 2006, p. 3.
306
PESAVENTO, 2003, p. 32.
307
PIMENTEL FILHO, Júlio Pimentel. Sobre literatura e história: como a ficção constrói a experiência. São
Paulo: Companhia das Letras, 2024.
304
92
“verdade relativa”, “verdade provisória”, “verdade comunicativa”, “verdade
tangível”, “linha do horizonte”.308
Aristóteles escreveu Poética entre 335 a.E.C. e 323 a.E.C309. Para o filósofo, a
Literatura discursa sobre o que “poderia ter acontecido” ou sobre “como poderia ter sido”310.
Essa forma narrativa é fruto de um empenho de criação e recriação de uma realidade. Ao
cantar as vidas dos deuses e heróis, o poeta as refaz e reinterpreta, a partir das suas existência
e experiência. Daí a ideia de poiesis contida na Poética aristotélica, palavra que pode
significar “possível” ou, ainda, “produzido”311. A Literatura torna o mito acessível ao
reproduzi-lo na forma de fonemas e signos que se movem no tempo e no espaço, em constante
transformação e atualização. A escrita literária se realiza na “pretensão aproximativa”312,
prescindindo de comprovação, mas sem abrir mão de coerência e sentido. Ou, como quis dizer
o autor de Infância, da “impressão de realidade”313. O privilégio da Literatura consiste em
criar seus personagens e espaços. À História cabe “descobri-los” e apresentá-los, em seus
contextos, ao mundo314.
Não podemos, porém, considerar a Literatura “apenas” ficção. O ficto é a
reinterpretação da realidade a partir do imaginário. Hermenegildo Bastos, no seu estudo da
obra de Graciliano Ramos, afirma que:
[...] a Literatura não é fim em si mesma, nem se pode dizer que seja meio ou
instrumento. Ela é, tudo indica, um método, o da verossimilhança, método de
conhecimento da realidade. É exercida metodologicamente em pesquisa sobre o
homem e o mundo. E, se é método, é questionada, avaliada, corrigida; se é método,
é, ela mesma, um problema e, como tal, acrescenta-se ao universo de problemas não
literários trabalhados pelo autor.315
A isso, Pesavento acrescenta que “A rigor, História e Literatura obtêm o mesmo
efeito: a verossimilhança, com a diferença de que o historiador tem uma pretensão de
308
PIMENTEL FILHO, 2024, p. 22.
ARISTÓTELES, 2017, p. 25.
310
ARISTÓTELES, 2017, p. 95-97.
311
COLONNELLI, Marco Valério Classe. Poíesis, tékhne e mímesis em Aristóteles. 2009. Dissertação.
(Mestrado em Letras Clássicas). Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Paraíba, 2009, p. 14-16.
Disponível em: https://tinyurl.com/colonnelli Acesso em: 25. set. 2023.
312
RICOEUR apud PESAVENTO, 2003, p. 37.
313
RAMOS, 2022b, p. 12.
314
PESAVENTO, 2006, p. 4.
315
BASTOS, Hermenegildo. Memórias do cárcere: Literatura e testemunho. Brasília: Editora da UnB, 1998, p.
13.
309
93
veracidade”316. E, sobre a função e importância da ficção, completa que:
situar a ficção para além do verdadeiro e do falso é não somente restabelecer o
imaginário como fundamento do ser, como capacidade humana originária, possível
de recriar o mundo por um mundo paralelo de sinais e nele viver; é também admitir
que [...] tudo o que existe é identificado, percebido, nomeado, qualificado e expresso
pelo pensamento e pela linguagem.317
História e Literatura são, pois, abordagens explicativas do que existiu e existe, com o
existir como referência. E compartilham o mesmo elemento ancestral, a linguagem, em suas
diferentes manifestações: escrita, oral, pictórica. É por meio dessa ferramenta universal que a
espécie humana expressa os mundos nos quais habita: o material, sensorial e imediato; o
imaginário, ideal e sensível.
À historiadora e ao historiador, recomendam-se cuidados específicos ao adotar a
literatura como fonte histórica. Pimentel Filho nos adverte para uma das primeiras
precauções: estar atento à falsa simetria de que “[...] o texto historiográfico ou literário
‘reflete’ ou ‘espelha” o ‘contexto’ vivido pelo autor ou em que a história se desenvolve”318. A
narrativa historiográfica parte do acontecido, mas não constitui a sua mímesis, ou seja, a sua
reprodução fiel, como queriam os historiadores do século XIX. Chegamos a simulacros do
passado. Além disso, a História possui dois limites fundamentais à sua prática e que
constituem a sua espinha dorsal. O primeiro é a existência verificável dos lugares e pessoas
citados e de vestígios desses sujeitos e espaços; o segundo é a metodologia de análise de tais
vestígios. O pesquisador está obrigado a procurar fontes materiais e imateriais, dotadas de
potencial explicativo; ao encontrá-las, deverá, com toda a acurácia possível, cruzá-las,
compará-las e as questionar. Somente essa verificação oferece os meios para reconstrução de
tramas de acontecimentos e suas dinâmicas de rupturas e permanências.
À medida que se sustenta sobre as fontes e a verificação da historicidade do seu
objeto, a História desempenha uma “fala autorizada sobre o passado”319. Ainda que usem a
linguagem e o imaginário para recriar uma “sensação” de realidade, de passado vivido e
possível, historiadores criam versões possíveis e aproximadas daquilo que se encontra no
passado. A Literatura constitui-se como discurso privilegiado de acesso às mentalidades de
316
PESAVENTO, 2003, p. 37.
PESAVENTO, 2003, p. 35.
318
FILHO, 2024, p. 23.
319
PESAVENTO, 2003, p. 35.
317
94
diferentes momentos e lugares. Para Pesavento, citando Aristóteles, “[...] ela é o discurso
sobre o que poderia ter acontecido, ficando a história como a narrativa dos fatos verídicos”320.
Ainda, de acordo com a historiadora, é preciso criterioso quanto ao
[...] não acontecido, elemento perturbante para um historiador que tem como
exigência o fato de algo ter ocorrido um dia. Mas, a rigor, de qual acontecido
falamos? Se estamos em busca de personagens da história, de acontecimentos e
datas sobre algo que se deu no passado, sem dúvida a literatura não será a melhor
fonte a ser utilizada. Falamos em fonte? A coisa se complica: como a literatura,
relato de um poderia ter sido, pode servir de traço, rastro, indício, marca de
historicidade, fonte, enfim, para algo que aconteceu?321
Sob tal configuração de tempo - não falamos aqui nem de passado nem de presente -
resta aos historiadores elaborar versões possíveis - verossimilhantes, palavra tão cara a
Graciliano Ramos e frequente em Mc - do que teria se passado um dia. O verossímil - pontua
Pesavento “[...] não é a verdade, mas algo que com ela se aparenta. O verossímil é o provável,
o que poderia ter sido e que é tomado como tal. Passível de aceitação, portanto”322. Assim,
parte da “operação historiográfica”323, como Michel de Certeau chama o trabalho de pesquisa
histórica, é a recuperação, por meio do texto, daquilo que recolhemos, cruzamos e aceitamos
como evidências, “na busca da verdade daquilo que foi um dia”324. Nossa tarefa é sempre a de
representar a temporalidade e, conclui Pesavento, construir “uma possibilidade de
acontecimento, num tempo onde não esteve presente e que ele reconfigura pela narrativa.
Nesta medida, a narrativa histórica mobiliza os recursos da imaginação, dando a ver e ler uma
realidade passada que só pode chegar até o leitor pelo esforço do pensamento325.
Voltemos a de Certeau. “Operação” é expressão adequada aos artífices de Clio. Ao
invocarmos a musa proclamadora, a primeira inspiração que essa nos traz é o planejamento da
pesquisa em sucessivas etapas, executadas de forma ordenada ou coordenadas. Ao final desse
processo, o pesquisador “fabrica”, como artesão, seu objeto de estudo. A “fabricação" a que
Certeau se refere não é a aristotélica. É preciso termos em mente que, para o grego, a poiesis é
mimesis: reconstrução perfeita do mito. E, além disso, o filósofo trata, em essência, da
Literatura fictícia que, como vimos, não exige do escritor bases materiais sobre as quais se
320
PESAVENTO, 2006, s.p.
PESAVENTO, 2006, s.p., grifos da autora.
322
PESAVENTO, 2006, s.p.
323
CERTEAU, 1982, p. 64.
324
PESAVENTO, 2006, s.p.
325
PESAVENTO, 2006, s.p.
321
95
assente e nem que a sua referência tenha existência material; já para o historiador, “é preciso
que tudo tenha acontecido”326.
A confirmação da existência e veracidade do objeto de estudo se dá já na coleta,
seleção ou rejeição e estudo das fontes. Quando escolhi Mc, de algum modo atestei a
veracidade da existência de Graciliano Ramos, do Estado Novo e de todos os envolvidos na
narrativa. Mesmo Aleixo, que pode ser uma articulação psíquica do autor para se proteger de
traumas, é “verdadeiro”, no sentido de que, mesmo que sua existência não seja material, ele
existe como “estratégia”.
Toda a operação historiográfica, bem como os questionamentos dirigidos às fontes,
são, ainda de acordo com Certeau, atos encenados e performativos327; Pesavento a chama de
“militância”: “Trata-se de uma militância no sentido de atingir o inatingível, ou seja, o que um
dia se passou, no tempo físico já escoado”.328
A pesquisa histórica se configura a partir do lugar social em que é produzida e seus
fragmentos e hiatos estão presentes desde o ato que a inaugura:
Toda pesquisa historiográfica se articula com um lugar de produção
sócioeconômico, político e cultural. Implica um meio de elaboração que circunscrito
por determinações próprias: uma profissão liberal, um posto de observação ou de
ensino, uma categoria de letrados, etc. Ela está, pois, submetida à imposições, ligada
a privilégios, enraizada em uma particularidade. É em função deste lugar que se
instauram os métodos, que se delineia uma topografia de interesses, que os
documentos e as questões, que lhes serão propostas, se organizam.329
O historiador também “fabrica” as suas fontes. Ao remover um vestígio do seu
conjunto e interpelá-lo, o pesquisador o “desfigura”330 e trabalha a partir de fragmentos
selecionados. Ao interpretar as informações contidas no documento, remove seu status de
objeto e o transfigura em fonte histórica. O processo continua com a recombinação e
interpretação do seu conteúdo:
O material é criado por ações combinadas, que o recortam no universo do uso, que
vão procurá-lo também fora das fronteiras do uso, e que o destinam a um reemprego
coerente. E o vestígio dos atos que modificam uma ordem recebida e uma visão
social. Instauradora de signos, expostos a tratamentos específicos, esta ruptura não é,
326
PESAVENTO, 2003, p. 35.
CERTEAU, 1982, p. 104.
328
PESAVENTO, 2003, p. 35.
329
CERTEAU, 1982, p. 65-66.
330
CERTEAU, 1982, p. 80.
327
96
pois, nem apenas nem primordialmente, o efeito de um "olhar". É necessário aí uma
operação técnica.331
Ramos e Certeau concordam um com o outro. Se para o historiador a operação
historiográfica é a organização dos “fragmentos”, para o escritor é o estabelecimento de
relações entre hiatos e falhas: “O espírito estava lúcido, mas era lucidez esquisita: percebia
tipos, ocorrências, em fragmentos; quando se tratava de estabelecer relação, surgiam cortes,
hiatos, falhas alarmantes”332.
A adoção da Literatura como fonte histórica é um desafio epistemológico. Ao ser publicada, a
obra literária já passou pelo processo de “fabricação” desenvolvido pela pessoa que a criou. A
ressignificação da fonte histórica é cíclica e recursiva: “não há trabalho que não tenha que
utilizar de outra maneira os recursos conhecidos e, por exemplo, mudar o funcionamento de
arquivos definidos, até agora, por um uso religioso ou ‘familiar’”333. Mc multiplica o desafio.
O seu autor assume em cada página a feitura do livro. Cada linha do relato foi “fabricada”
pelo escritor. Não é o caso de questionarmos se o narrador é confiável - como faz a crítica ao
ler Dom Casmurro: Graciliano Ramos existiu como homem, escritor e preso político. E essa
existência está presente na sua documentação civil, nos relatos dos que estiveram com ele e na
própria obra que deixou, inclusive nos seus hiatos e lacunas.
3.2 “Um sujeito mais ou menos imaginário”
Basta checar a ficha catalográfica de Mc, entre as primeiras páginas, e constatamos
que se trata de biografia. Desde que a História se formatou como disciplina, a partir da
segunda metade do século XIX, o gênero carrega questões teórico-metodológicas. Sabina
Loriga, historiadora francesa, elenca três aspectos problemáticos desse tipo narrativo.
O primeiro é um dos aspectos que abordei no capítulo dois: a proximidade da
biografia com a literatura a afastaria do compromisso com a verdade; em seguida, Loriga
sugere a facilidade de assimilação da biografia pela história oficial, resultado da possível
exaltação de heróis e do foco na “figura do grande homem”; finalmente, a crença de que
biografias superestimam análises individuais em detrimento das coletivas334. Mesmo diante
dos seus “defeitos”, a narrativa biográfica encontrou partidários entre historiadores de ofício,
331
CERTEAU, 1982, p. 80.
RAMOS, 2022b, p. 138.
333
CERTEAU, 1982, p. 81, grifo do autor.
334
LORIGA, Sabina. O pequeno x: da biografia à história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2011, p. 35.
332
97
principalmente a partir dos anos 1980. Sua defesa, aliás, tinha representantes já no século
XVII, como Thomas Stanley; no XVIII, biógrafos como Samuel Johnson e James Boswell se
preocupavam “em mergulhar na intimidade doméstica a fim de captar o indivíduo privado de
sua máscara social”.335 No centro dessas reflexões estavam as discussões sobre verdade
histórica para o discurso biográfico. Trezentos anos mais tarde, “Graça” escreveria nas suas
memórias: “Verdades? Não sei. Narro com reservas o que me narraram, admito restrições e
correções”.336
Em tempos mais recentes, a nova história cultural e a microhistória recorrem à
biografia como possibilidade de apresentar indivíduos e suas trajetórias que não estão ligados
por via direta à vida pública. Um dos exemplos mais conhecidos é O queijo e os vermes
(1987), do italiano Carlo Ginzburg337. Menocchio, o moleiro biografado é um homem comum
cuja vida - como a de qualquer um de nós, creio - reflete seu momento histórico-social. Na
sua explanação do entrelaçamento entre idiossincrasias do indivíduo e seu cronotopo, o
historiador alemão Johann Gustav Droysen estabeleceu a equação A=a+x. explica o cálculo:
“[...] se chamamos de A o gênio individual, a saber, tudo o que um homem é, possui e faz,
então esse A é formado por a + x, em que a contém tudo o que lhe vem das circunstâncias
externas, de seu país, de seu povo, de sua época, etc., e em que x representa sua contribuição
pessoal, a obra de sua livre vontade”338. Logo, o “pequeno x” é exatamente o interstício entre
indivíduo e coletividade; ou melhor, as possibilidades que restam a esse sujeito histórico
anônimo para sobreviver ao caos do tempo. No caso de Graciliano Ramos, seu pequeno x é a
escrita; outro indivíduo que cito apenas para registrar a grandeza do seu nome e cujo pequeno
x também é um trabalho autobiográfico é Carolina Maria de Jesus: Quarto de despejo (2015),
seu “diário de uma favelada” é o relato dc cotidiano cruel de uma mulher preta e favelada,
mas que marcou esse x com uma escrita sensível e contundente.339
É ponto pacífico, após o que desenvolvi até aqui, que Mc é uma autobiografia e, por
isso, aproxima-se da História e da Literatura, do fato e da ficção. Esse exercício de reencontro
consigo mesmo tem se tornado uma fonte cada vez mais frequente para os estudos históricos.
A constatação de que o gênero biográfico e suas variantes - autobiografia, metaficção, entre
outras - atrai público não pôde ser ignorada por historiadores e cientistas das chamadas
ciências das humanidades. Seja pela curiosidade na intimidade do outro, seja pelo interesse na
335
LORIGA, 2011, p. 35.
RAMOS, 2022b, p. 279.
337
GINZBURG, Carlo O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição.
3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
338
LORIGA, 2011, p. 14.
339
JESUS, Carolina Maria. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2015.
336
98
performance de sujeitos históricos, a biografia é produto recorrente. Como tal, precisa, ela
também, ser compreendido como componente histórico.
Além das narrativas memorialísticas, cartas e diários firmam o corpus textual a que a
historiadora Ângela de Castro Gomes chama “escritas de si”.340 Essa produção é ancorada na
figura de quem a escreve. Segundo Gomes, existe um conjunto de formas textuais cujo
objetivo é estabelecer relação entre o sujeito e os seus documentos341. A “escrita de si”
compreende, ainda, conjunto maior de práticas que vão além do texto: coleções, fotografias e
a guarda de objetos do cotidiano, que criam um “teatro da memória”. Nessa coletânea de
“pequenos x”, a subjetividade integra a linguagem utilizada e constrói, a partir disso, a
“verdade” desse memorialista342. De volta à Pesavento, é ela quem nos adverte: “E não
esqueçamos, como alerta Paul Ricoeur, que os fatos narrados na trama literária, existiram de
fato para a voz narrativa!”343 A documentação que registra a “produção do eu” é caracterizada
pela busca de um “efeito de verdade”344. É a isso que Graciliano Ramos se referiu quando
falou das possíveis divergências entre aquilo que ele se lembrava e as recordações de outros
companheiros: “Outros devem possuir lembranças diversas. Não as contesto, mas espero que
não recusem as minhas: conjugam-se, completam-se e me dão hoje impressão de
realidade”345. O que nos interessa na leitura das suas recordações não é, exatamente, a sua
vida individual, mas a paisagem mental do contexto recordado. Sobre essa capacidade de
apresentar tal panorama, “Graça” reafirma que qualquer memória se constrói na coletividade
ao escrever que “Realmente há entre os meus companheiros sujeitos de mérito, capazes de
fazer sobre os sucessos a que vou referir-me obras valiosas”.346
Ao selecionar esse tipo de fonte, a historiadora ou historiador deve notar
[...] que se exprime pela primeira pessoa do singular e que traduz a intenção de
revelar dimensões “íntimas e profundas” do indivíduo que assume sua autoria. Um
tipo de texto em que a narrativa se faz de forma introspectiva, de maneira que nessa
subjetividade se possa assentar sua autoridade, sua legitimidade como “prova”.
Assim, a autenticidade da escrita de si torna-se inseparável de sua sinceridade e de
sua singularidade.
Ora, uma documentação construída nessas bases exige deslocamentos nos
procedimentos de crítica às fontes históricas, no que envolve questões relativas ao
“erro” ou à “mentira”, digamos assim, do texto sob exame. Nesses casos, está
descartada a priori qualquer possibilidade de se saber “o que realmente aconteceu”
(a verdade dos fatos), pois não é essa a perspectiva do registro feito. O que passa a
340
GOMES, 2004, p. 10.
GOMES, 2004, p. 11.
342
GOMES, 2004, p. 14.
343
PESAVENTO, 2006, s.p.
344
GOMES, 2004, p. 14.
345
RAMOS, 2022b, p. 12.
346
RAMOS, 2022b, p. 11.
341
99
importar para o historiador é exatamente a ótica assumida pelo registro e como seu
autor a expressa. Isto é, o documento não trata de “dizer o que houve”, mas de dizer
o que o autor diz que viu, sentiu e experimentou, retrospectivamente, em relação a
um acontecimento.347
Assim, Mc exemplar notável de “escrita de si”.
O “Velho Graça” não é escritor de obra “fácil”, sobretudo quando em seus trabalhos de
memória. De volta às páginas iniciais das suas recordações, o escritor acrescenta mais uma
camada interpretação:
Desgosta-me usar a primeira pessoa. Se se tratasse de ficção, bem: fala um sujeito
mais ou menos imaginário; fora daí é desagradável adotar o pronomezinho irritante,
embora se façam malabarismos por evitá-lo. Desculpo-me alegando que ele me
facilita a narração. Além disso não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário.
Esgueirar-me-ei para os cantos obscuros, fugirei às discussões, esconder-me-ei
prudente por detrás dos que merecem patentear-se.348
A recusa em usar o “eu” e a identificação como “sujeito mais ou menos imaginário”
faz do narrador de Mc um personagem, nos termos da ficção e da Literatura. Gomes sugere
duas maneiras de compreendê-lo: ou o texto é “representação” de seu autor, “[...] que o teria
construído como forma de materializar uma identidade que quer consolidar” ou devemos
considerar que “[...] o autor é uma “invenção” do próprio texto, sendo sua sinceridade /
subjetividade um produto da narrativa que elabora”.349 Para a historiadora, a escrita de si é, ao
mesmo tempo, constitutiva da identidade de seu autor e do texto, que se criam,
simultaneamente, através dessa modalidade de “produção do eu”:
É como se a escrita de si fosse um trabalho de ordenar, rearranjar e significar o
trajeto de uma vida no suporte do texto, criando-se, através dele, um autor e uma
narrativa. Uma idéia (sic) que se alimenta do entendimento de que a escrita de si foi
mobilizada pelos indivíduos modernos com múltiplas intenções, entre as quais a de
permitir o autoconhecimento, o prazer, a catarse, a comunicação consigo mesmo e
com os outros. Uma modalidade de ação que permitiria a seu autor uma mudança
e/ou um controle maior sobre a própria vida, numa dimensão quer religiosa, quer
laica. Mas esse entendimento não supõe nem uma presumida essência anterior de
quem escreve, nem sua completa fatura pelo discurso que elabora, nem uma unidade
perfeita entre quem escreve e quem é produzido pela escrita.350
347
GOMES, 2004, p. 14-15.
RAMOS, 2022b, p. 13.
349
GOMES, 2004, p. 16.
350
GOMES, 2004, p. 16.
348
100
O termo autoficção apareceu pela primeira vez no romance do Fils (1977), do escritor
francês Serge Doubrovsky. Àquela altura, Doubrovsky já refletia a respeito da autobiografia e
dos estudos realizados por Philippe Lejeune, ensaísta autor de diversos trabalhos de relevo no
campo da autobiografia. Compreender a condição sui generis do narrador de autoficção de
“sujeito mais ou menos imaginário” exige que conheçamos a estrutura dos pactos biográfico e
autobiográfico. O pacto biográfico se afasta do ficcional na medida em que o leitor toma o
texto como representação de alguém que existiu na realidade objetiva. Esse pacto difere do
autobiográfico porque, no primeiro, um terceiro elemento apresenta as situações vividas pelo
biografado. Lejeune reitera que as categorias “autobiografia”, “autoficção”, “memórias”, entre
outras, não são excludentes e que, embora o ponto de partida da autobiografia seja a vida
individual, a História pode encontrar o seu lugar.351 Lejeune define a autobiografia como
“Narrativa retrospectiva em prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, quando
atribui importância a sua vida individual, em particular sobre a história de sua
personalidade”.352
Na sua conceituação, o crítico busca se restringir à autobiografia; se comparada à
outras modalidades textuais que se aproximem - como textos memorialísticos, biografias e
diário; isso porque, para Lejeune, a autobiografia é “principalmente uma narrativa, mas
sabe-se a importância do discurso na narração autobiográfica; a perspectiva, principalmente
retrospectiva [...]. Para que haja autobiografia [...] é preciso que haja relação de identidade
entre o autor, o narrador e o personagem”.353 Principalmente e necessariamente significa
dizer que os elementos podem não constar em todas as páginas de uma autobiografia, mas que
a identidade entre autor, narrador e personagem é condição indispensável. Essa relação de
identidade confirma-se no pacto autobiográfico, que se constitui como “a afirmação, no texto,
dessa identidade, remetendo, em última instância, ao nome do autor, escrito na capa do livro.
[...] As formas do pacto autobiográfico são muito diversas, mas todas elas manifestam a
intenção de honrar sua assinatura. [...] A autobiografia não é um jogo de adivinhação”.354
Do ponto de vista da relação entre autor e narrador, a identidade é nítida e assumida no
ato de enunciação. É o autor quem escreve aquelas linhas; é ele que narra, no momento
presente, a história. A primeira fala de Mc é “Resolvo-me a contar, depois de muita hesitação,
casos passados há dez anos”.355 Ao escrever, mesmo contrariado, em primeira pessoa 351
FAEDRICH, Anna. Autoficcção: um percurso teórico. Criação & Crítica, São Paulo, n. 17, p. 30-46, dez.
2016, p. 30.
352
LEJEUNE, 2008, p. 14.
353
LEJEUNE, 2008, p. 15, grifos do autor.
354
LEJEUNE, 2008, p. 30.
355
Cf. n. 174.
101
“pronomezinho irritante”356 - Graciliano “confessa” ser o responsável pelo que leremos dali
em diante. A identificação entre autor e personagem, porém, não se constitui nos termos do
pacto. Conforme Correia, em sua dissertação:
[...] o que teríamos não constitui identidade, mas antes, uma relação de semelhança,
uma vez que o sujeito do enunciado (personagem), apesar de inseparável da pessoa
que produz a narração (o autor- narrador), dela está afastado, o que se compreende
principalmente ao verificar a distância temporal entre o presente da enunciação e o
relato de acontecimentos passados. É por isso que, do ponto de vista do enunciado, o
pacto autobiográfico prevê e admite falhas, erros, esquecimentos, omissões e
deformações na história do personagem; possibilidades, aliás, que muitas vezes o
autor mesmo num movimento de sinceridade próprio às autobiografias e memórias
assume: escreverá sobre sua vida aquilo que lhe é permitido, seja em função das
vacilações de sua memória, de sua posição social, ou mesmo de sua possibilidade de
conhecimento.357
A memória não exige escrita em primeira pessoa; é possível testemunhar o passado
desde lugar pretensamente neutro e adotar a terceira pessoa. Mas a escrita de si - “do eu” chancela o narrador como testemunha privilegiada. No texto escrito na primeira pessoa, a voz
narrativa se acha em primeiro plano. Ficam, assim, reforçadas, sua agência como produtor do
discurso e a sua subjetividade.
Ainda conforme Lejeune, o elemento articulador das possibilidades de pactos de
leitura é o nome próprio.358 A identificação entre nome próprio, narrador e autor permite ao
leitor “confiar” na narrativa; afinal, como já afirmei inúmeras vezes, trata-se de um pacto em
que o autor se compromete, senão com uma verdade possível, com a verossimilhança; quem
lê, por sua vez, dá a esse narrador, o benefício da dúvida. A associação entre texto e contexto,
entre linguagem e mundo, origina-se da declaração do nome próprio no texto; “só existe
presença plena na denominação”.359 A possibilidade de associação entre o texto e seu
contexto, entre linguagem e mundo, advém da inscrição do nome próprio no texto, a qual
serve, também, de marca da autoria. Para o francês, a credibilidade do relato autobiográfico
está vinculada à associação que o leitor fará entre a figura real que existe fora do texto e sua
instância intratextual.
A autoria do discurso autobiográfico se confunde, assim, com o nome próprio. É
necessário entender que para Lejeune a noção de “autor” surge na fusão entre nome próprio e
356
RAMOS, 2022b, p. 13.
CORREIA, Tatiana Gomes. As memórias híbridas do escritor: uma análise de Memórias do cárcere, de
Graciliano Ramos. 2013. Dissertação. (Mestrado em Letras). Universidade Federal de Alagoas, Maceió,
Alagoas, 2013, p. 69.
358
FAEDRICH, 2022, e-book.
359
LEJEUNE, 2008, p. 22.
357
102
pessoa:
É nesse nome que se resume toda a existência do que chamamos de autor: única
marca no texto de uma realidade extratextual indubitável, remetendo a uma pessoa
real, que solicita, dessa forma, que lhe seja, em última instância, atribuída a
responsabilidade da enunciação de todo o texto escrito. Em muitos casos, a presença
do autor no texto se reduz unicamente a esse nome. Mas o lugar concedido a esse
nome é capital: ele está ligado, por uma convenção social, ao compromisso de
responsabilidade de uma pessoa real, ou seja, de uma pessoa cuja existência é
atestada pelo registro em cartório e verificável. [...] sua existência não será posta em
dúvida: exceções e abusos de confiança não fazem senão confirmar a credibilidade
atribuída a esse tipo de contrato social.360
Lejeune entende o autor como uma construção social; uma performance. O autor não
se define somente porque é uma pessoa que escreve, mas porque está “Inscrito, a um só
tempo, no texto e no extratexto, ele é a linha de contato entre eles”.361 O autor é uma pessoa
real, inserida no mundo e responsável pelo seu discurso. Ainda que o leitor não conheça,
presencialmente, a pessoa real do autor, ele confiará na sua existência. O fenômeno é
semelhante às pessoas e personagens que Pollak elenca como “componentes da memória”.
Quanto ao “Graça”, até o momento, não precisei ter contato com a materialidade da sua
pessoa.
Seus escritos direcionam minha crença na sua existência e a fixam nela, ainda que
tenham se passado 71 anos da sua morte. Essa associação é reforçada nas recorrentes
aparições de João Valério, Paulo Honório, Fabiano e Luís da Silva - personagens dos
romances “graciliânicos” - nas lembranças da prisão: “O meu Luís da Silva era um falastrão,
vivia a badalar à toa reminiscências da infância, vendo cordas em toda a parte”.362 Escolho
citar o personagem de Angústia porque o romance foi escrito enquanto Ramos estava preso.
Lejeune sustenta que a associação do autor de autobiografia a textos anteriores de sua autoria
é importante no momento da leitura, porque reforça a “realidade” - fundamental para a
existência do discurso autobiográfico. O autor é, então,
[...] um nome de pessoa, idêntico, que assume uma série de textos publicados
diferentes. Ele extrai sua realidade da lista de suas primeiras obras, frequentemente
presente no próprio livro. A autobiografia (narrativa que conta a vida do autor)
pressupõe que haja identidade de nome entre o autor (cujo nome está estampado na
capa), o narrador e a pessoa de quem se fala. Esse é um critério muito simples, que
define, além da autobiografia, todos os outros gêneros da literatura íntima (diário,
autorretrato, autoensaio).363
360
LEJEUNE, 2008, p. 23, grifos do autor.
LEJEUNE, 2008, p. 23
362
RAMOS, 2022b, p. 18.
363
LEJEUNE, 2008, p. 23-24.
361
103
Vale salientar que pseudônimos integram a categoria nome próprio:
Um pseudônimo é um nome diferente daquele que foi registrado em cartório, usado
por uma pessoa real para publicar todos os seus escritos ou parte deles. O
pseudônimo é um nome de autor: não é exatamente um nome falso, mas um nome
de pena, um segundo nome. Exatamente como aquele que uma freira adota ao ser
ordenada. [...] O pseudônimo é simplesmente uma diferenciação, um desdobramento
do nome, que não muda absolutamente nada no que tange à identidade.364
A discussão de Lejeune acerca do nome próprio é fundamental para compreendermos
o pacto autobiográfico. Ainda de acordo com o teórico, o pacto se funda na exposição, na
capa do livro, do nome próprio do autor, expondo a tal identidade autor-narrador-personagem,
que se torna o “critério textual geral” do texto de caráter autobiográfico:
Para existir o 'pacto autobiográfico', é preciso considerar a página do título [...] pois
desde o momento em que a englobamos ao texto, com o nome do autor, passamos a
dispor
de
um
critério
textual
geral,
a
identidade do nome
(autor-narrador-personagem). O pacto autobiográfico é a afirmação, no texto, dessa
identidade, remetendo, em última instância, ao nome do autor, escrito na capa do
livro.365
Embora Lejeune seja enfático a respeito do nome próprio como elemento definidor da
autobiografia, o “trabalho a respeito das prisões de 1936”366 não se localiza nesse gênero
apenas pelo nome do autor na capa da publicação. Vários dados históricos e linguísticos
conduzem a leitura à essa direção. Seu autor se reporta diversas vezes ao seu tempo e lugar;
cita vivências de outros agentes - muitos deles estiveram com Graciliano e testemunharam os
mesmo abusos e violência. Ademais, desde sua concepção e produção, Mc é obra
autobiográfica. “Graça” chegou a tratar da sua elaboração. Na edição n. 523 da Tribuna
Popular, publicada no dia 12 de fevereiro de 1947, o memorialista declara: “Tudo isso não
pode ser resumido assim numa entrevista e se encontra nas Memórias que estou escrevendo.
Será mais um documento para provar como o ditador Vargas perseguiu a democracia em
nossa terra, e que se não a liquidou, como pretendia, é porque ela não se esmaga”.367 Em julho
do mesmo ano, Ramos escreveu ao filho Júnio; na carta, o autor de Infância comunica:
Suponho que terei as memórias prontas em três anos. Pedi esse prazo ao editor, vou
364
LEJEUNE, 2008, p. 24.
LEJEUNE, 2008, p. 26.
366
Cf. n. 246.
367
GRACILIANO Ramos recorda: febre, polinevrite, e tuberculose. Heranças dp presídio da Ilha Grande.
Tribuna Popular, Rio de Janeiro, ano 2, n. 523, p. 3, 12 fev. 1947, grifo do autor.
365
104
recebendo os direitos autorais mês a mês, isto é, vivo comendo os miolos. Quando o
segundo volume estiver acabado, será necessário contratar o lançamento da obra nos
jornais. Tenciono, como lhe disse, publicá-la aqui, em São Paulo, talvez na Bahia,
em Pernambuco e no Rio Grande.368
Como já afirmei anteriormente, ler pressupõe a existência de pacto ou acordo entre
quem enuncia e quem recebe o enunciado. O leitor atua no estabelecimento da veracidade
dessa enunciação; quem lê, de acordo com o crítico Fábio dos Santos, “assume uma posição
diante do texto, expressa uma atitude de feição específica - a de aceitar o discurso do autor
como sendo digno de crença: é a vida de um sujeito real que é contada”.369 A ação do leitor
pode ocorrer de diferentes maneiras:
Uma ficção autobiográfica pode ser “exata” – o personagem se parece com o autor –
e uma autobiografia pode ser “inexata” – o personagem apresentado difere do autor.
Essas são questões de fato [...] que não influem nas questões de direito, ou seja, no
tipo de contrato estabelecido entre o autor e o leitor. A importância do contrato pode
ser, aliás, comprovada pela própria atitude do leitor que é determinada por ele: se a
identidade não for afirmada (caso da ficção), o leitor procurará estabelecer
semelhanças, apesar do que diz o autor; se for afirmada (caso da autobiografia), a
tendência será tentar buscar as diferenças (erros, deformações etc.). Diante de uma
narrativa de aspecto autobiográfico, a tendência do leitor é, frequentemente, agir
como um cão de caça, isto é, procurar as rupturas do contrato.370
Note-se que a questão da fidelidade é, também, uma questão de autenticidade, ou seja,
a fidelidade depende da identidade. Se identidade autor-narrador-personagem é verídica, a
narrativa também o é. E, sabendo que a identidade narrador-autor-personagem é essencial
para a noção de verdade narrativa, é preciso assimilar que a lapsos e falhas no processo de
lembrança não anulam o caráter memorialístico da narrativa. Já foi dito, no capítulo dois, que
o esquecimento é recurso fisiológico e social. Também já pinçamos passagens de Mc nas
quais Graciliano surge consciente dessas concessões, razão por que o memorialista se arroga
direito de afirmar “Omitirei acontecimentos essenciais ou mencioná-los-ei de relance, como
se os enxergasse pelos vidros pequenos de um binóculo; ampliarei insignificâncias,
repeti-las-ei até cansar, se isto me parecer conveniente”.371 A posição da voz narrativa não
invalida o elemento histórico do texto. Lejeune, aliás, chama a atenção para a tendência
“historicizante” da autobiografia. E, de fato, de modo contrário à ficção, biografia e
368
RAMOS, 2022a, p. 326..
SANTOS, Fábio José. A testemunha às avessas ou o narrador desconfiado: história e ficção em Memórias
do cárcere. 2013. Tese. (Doutorado em Estudos Literários). Universidade Federal de Alagoas, Maceió, Alagoas,
2013, p. 69, grifo do autor.
370
LEJEUNE, 2008, p. 26.
371
RAMOS, 2022b, p. 12.
369
105
autobiografia se caracterizam pela referencialidade que marca seu conteúdo, o que as
assemelha aos discursos historiográfico científico. Persiste, nesses casos, a intenção de
[...] fornecer informações a respeito de uma “realidade” externa” ao texto e a se
submeter portanto a uma prova de verificação. Seu objetivo não é a simples
verossimilhança, mas a semelhança com o verdadeiro. Não o “efeito de real”, mas a
imagem do real. Todos esses textos referenciais comportam então o que chamarei de
pacto referencial, implícito ou explícito, no qual se incluem uma definição do campo
do real visado e um enunciado das modalidades e do grau de semelhança aos quais o
texto aspira.372
De fato, para o senso comum, quem escreve dentro das delimitações impostas por esse
gênero textual, tem a intenção de expor a verdade. Essa intenção, na maior parte das vezes,
manifesta-se eivada de falhas na recuperação do passado. Diante disso, leitores e também
historiadores que lancem mão de biografias como documento histórico devem estar cientes de
que o texto em suas mãos é a reconstituição possível. No entanto, quanto à recepção, algumas
peculiaridades dos autobiográficos não se aplicam a todo texto que apele à referencialidade:
de modo adverso ao do historiador ou jornalista, o sujeito que faz narrativa de si não está
aferrado à exatidão: sua recomposição do próprio passado não é o interesse maior do
autobiógrafo, nem seu texto dependerá desse fator alcançar seu objetivo. O pacto, em todo
caso, será firmado. Conforme Fábio dos Santos “Aceitamos, por exemplo, que a autobiografia
não esteja sujeita à prova de verificação e, por isso mesmo, nos satisfazemos com o fato de
que só teremos acesso àquilo que o autor pode nos contar”.373 Para Lejeune,
Ainda que, em sua relação com a história (longínqua ou contemporânea) do
personagem, o narrador se engane, minta, esqueça ou deforme – erro, mentira,
esquecimento, deformação terão simplesmente, se forem identificados, valor de
aspectos, entre outros, de uma enunciação que permanece autêntica. Chamemos
autenticidade essa relação interior própria ao emprego da primeira pessoa na
narrativa pessoal; não a confundiremos nem com a identidade, que remete ao nome
próprio, nem com a semelhança, que supõe um julgamento de similitude entre duas
imagens diferentes feito por uma terceira pessoa.374
Podemos formular a autobiografia tanto como tipo de escrita quanto como modo de
leitura. Recai, sobre Mc, o entendimento de que se trata de obra documental; assim, sua
historicidade e veracidade raramente são questionadas. A memória do passado histórico se
confirma em suas páginas. Mas será que não haveria espaço em Mc para problematização que
“escavasse”, da trama textual, a ficção? A memória “graciliânica” da cadeia não se apresenta
372
LEJEUNE, 2008, p. 36, grifos do autor.
SANTOS, 2013, p. 71, grifo do autor.
374
LEJEUNE, 2008, p. 40.
373
106
como uma descrição, apenas. Em sua literatura, o “Mestre Graça” reflete sobre a condição do
homem diante do mundo e da linguagem, inspirando-nos, com potência, a criar e recriar o
mundo e problematizar o ato criativo da enunciação.
3.3 “Ficção e confissão”
No seu magnum opus, A literatura em perigo (2009), o filósofo e linguista búlgaro
Tzvetan Todorov define literatura como a arte ficcional que se manifesta via discurso literário;
capaz de reinventar o mundo a partir do olhar e dos sentidos de um outro que não aquele que
escreve, a literatura ultrapassa limites e ambivalências da realidade. Assim, a arte da escrita
ficcional também é forma ética - e estética - de ser e agir. Todorov conclui: “[...] mais densa e
mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o
nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo [...]”.375
O ato de escrever contempla a experiência do viver. Nisso reside seu caráter de
alteridade: por meio da narrativa e da enunciação, é possível alcançar a multiplicidade e a
polissemia das vozes com as quais dividimos tempo e espaço. Mais, até: podemos “ouvir”
vozes dos que já se foram, conhecer suas perspectivas e testemunhos.
Nesses termos, a literatura assevera nossa necessidade da presença do outro, ainda que
por meio da palavra, uma vez que “[...] somos todos feitos do que os outros seres humanos
nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa
possibilidade de interações com os outros [...].”376 Ao longo dessa dissertação, apresentei os
expedientes por meio dos quais Graciliano Ramos alargou sua experiência de viver e, por
meio do seu relato, escutou a si mesmo e aos seus companheiros de cárcere. Ao se posicionar
contra o totalitarismo que assombrou o Brasil na década de 1930, “Graça” agiu como escritor
engajado identificado por Sartre: expôs a violência fascista e fez das suas memórias manifesto
ético. Como narrativa autobiográfica, Mc se impõe como balanço da obra e da vida do seu
autor. São, portanto, seu testamento literário e ético-político. Conforme Hermenegildo Bastos,
Memórias do cárcere é uma “página do fascismo tupinambá”. A experiência da
prisão sem culpa formada e sem julgamento. A convivência com vários presos
políticos e também com muitos presos comuns, a perseguição, a violência, a tortura.
A desumanidade, a humanidade. A dimensão ética do livro, que vai além do crime e
da punição e põe os homens frente a si mesmos. Eis uma característica desse livro,
como também de toda a obra de Graciliano Ramos – ser uma investigação sobre o
375
376
TODOROV. A literatura em perigo. 2. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2009, p. 23.
TODOROV, 2009, p. 23-24.
107
homem e o mundo. Uma investigação, antes de tudo, de Graciliano Ramos sobre si
mesmo. Sobre o outro. Sobre os outros e sobre si mesmo.377
Como já pude demonstrar, o projeto testemunhal não se desenvolve livre de
contradições. Novamente, Bastos é quem nos endossa:
O capítulo-prefácio discute algumas dessas contradições, dá-las por encerradas, mas
o leitor verifica, no final dos quatro volumes, que elas não foram superadas e que,
mais do que isso, elas é que dão corpo ao testemunho. Mc é a história das
contradições, da luta por entendê-las e superá-las. A evolução do texto é em si
mesma um jogo contraditório. O leitor acompanha, no instante em que o
questionamento vem à superfície, a dialética da construção da
pergunta-resposta-pergunta. O questionamento não é respondido e abolido, torna-se,
pelo contrário, nesse instante mesmo, o motivo da escrita, provoca-a, alimenta-a. E,
enfim, é das contradições que resulta a grandeza estética e ético-política da obra.378
Recordar o passado sem cair na armadilha do maniqueísmo fácil é tarefa complexa e
delicada. No caso da obra sob nosso enfoque, mais do um esforço de recordação, Graciliano
Ramos trouxe à tona volume considerável não só de informações, mas de valores que, ciente
de que sua morte se aproximava, legou-o ao futuro;379 nas palavras de Bastos, “Graciliano
empreende no texto memorialístico um balanço do seu trabalho como escritor, preparando a
recepção da sua obra, projetando-a no futuro. Projeto de leitura, não mais de escrita.”380
Entre os leitores críticos, quem melhor compreendeu a dimensão ética da obra
“graciliânica” foi Antonio Candido. No notório ensaio Ficção e confissão, publicado
originalmente em 1955, Candido se posiciona numa perspectiva diacrônica e recompõe o
percurso do autor, romance a romance, na ordem de sua publicação. Assim Candido inicia sua
análise da obra “graciliânica”:
Para aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a ler Graciliano Ramos, talvez
convenha ao leitor uma experiência que se desdobra em etapas e, principiada na
narração de costumes, termina pela confissão das mais vívidas emoções pessoais.
Com isto, percorre o sertão, a mata, a fazenda, a vila, a cidade, a casa, a prisão,
vendo fazendeiros e vaqueiros, empregados e funcionários, políticos e vagabundos,
pelos quais passa o romancista, progredindo no sentido de integrar o que observa ao
seu modo peculiar de julgar e de sentir. De tal forma que, embora pouco afeito ao
pitoresco e ao descritivo, e antes de mais nada preocupado em ser, por intermédio da
sua obra, como artista e como homem, termina por nos conduzir discretamente a
esferas bastante várias de humanidade, sem se afastar demasiado de certos temas e
modos de escrever.381
377
BASTOS, 1998, p. 11-12, grifo do autor.
BASTOS, 1998, p. 180, grifo do autor.
379
Cf. n. 273.
380
BASTOS, 1998, p. 180.
381
CANDIDO, 2024, p. 15.
378
108
Ao fim da “jornada” que propõe ao leitor, o crítico conclui “[...] que os livros de
Graciliano Ramos se concatenam num sistema literário pessimista”.382 No entanto, Candido
também percebe que
Nesse escritor cuja obra revela visão pessimista e não raro sórdida do homem,
vemos a necessidade de reequilibrar-se pela crença racional, construída, na melhoria
do homem – porque havia nele reservas profundas de solidariedade que a
experiência da prisão justificaria e confirmaria.383
Mas há mais do que pessimismo e sordidez na obra do alagoano: existe solidariedade e
afeto manifestado. Entre tantas, duas passagens envolvendo a mesma figura, o capitão Lobo,
ilustram as “trevas luminosas”384 da prisão.
Dias após os prisioneiros terem chegado ao quartel do Exército, em Recife, o capitão
Lobo, responsável por vigiar o escritor, orientou-o a usar o banheiro dos oficiais, mais limpo e
em melhores condições do que o destinado aos presos. Ao saber que Graciliano usava o
banheiro dos sargentos, o capitão foi tirar satisfações:
— O senhor ontem cometeu uma falta muito grave.
— Uma falta grave, capitão? respondi aturdido. Não entendo.
— Muito grave. Na sua chegada eu lhe disse que usasse o banheiro dos oficiais. O
senhor ontem tomou banho no banheiro dos sargentos.
Era verdade, mas achei graça na repreensão e sosseguei:
— Ora, capitão! Foi essa a falta grave? Julguei que se tratasse de coisa séria,
assustei-me.
O oficial acolheu minha resposta com indignação muda, repetiu depois o que havia
dito, enérgico. Tentei justificar-me:
— Encontrei um banheiro ocupado e entrei noutro.
— O senhor não podia fazer isso.
Esforcei-me por manifestar que, no meu parecer, culpa seria utilizar um banheiro de
categoria superior ao permitido a mim, um banheiro de generais, por exemplo;
contentando-me com um de sargentos, não praticava nenhum ato censurável. Mas o
meu parecer nada valia: responsabilizavam-me por uma infração, desenvolviam-na,
e era inútil querer defender-me. Quanto mais me desculpava mais o capitão se
arreliava: evidentemente a minha resistência ofendia as normas. Em certo ponto,
finda a paciência, bradou:
— Se o senhor fosse militar, seria punido e compreenderia o que fez.
— É possível.
— Dificuldade meter qualquer coisa na cabeça desses paisanos, rosnou.
Em seguida propôs:
— Se não está satisfeito aqui, posso arranjar-lhe transferência para uma prisão de
sargentos.
382
CANDIDO, 2024, p. 60.
CANDIDO, 2024, p. 76.
384
RAMOS, 2022b, p. 95.
383
109
— Obrigado, não se incomode.385
Findo o diálogo com o militar, o “Mestre” pôs-se a refletir:
Surpreendente nesse diálogo foi que de modo nenhum me susceptibilizei. Em geral
me envergonhava por objeções vagas, qualquer dito que revelasse a mais leve
censura me tocava melindres bestas. Talvez isso fosse consequência de brutalidades
e castigos suportados na infância: encabulava sem motivo e andava a procurar
intenções ocultas em gestos e palavras. O certo é que em tempo de adulto não me
lembrava de ter ouvido semelhante linguagem. Pois o que ela me produziu foi um
desejo enorme de rir. Achava-me em situação realmente singular, advertido como
uma criança, e isto não me vexava, talvez por julgar aquilo estapafúrdio, talvez por
estimar a franqueza nua. Se me falassem lá fora de tal maneira, provavelmente me
zangaria, mas não sentiria o acanhamento que avermelha o rosto e esmorece o
coração. De fato o que mais nos choca não é a sinceridade, às vezes impertinente: é a
arranhadela feita com mão de gato, a perfídia embrulhada num sorriso, a faca de dois
gumes, alfinetes espalhados numa conversa. Agora não podia molestar-me.
Finda a surpresa, contida a explosão de riso motivada pela extravagância aparente,
aceitei a reprimenda, considerei que devia existir uma razão para ela. Haveria
bazófia nisso, vaidade por me alojarem perto da gente de cima? Creio que não: tinha
ido misturar-me involuntariamente aos outros, arriscando-me a degradar-me. Essa
degradação era convencional. De nenhum modo me supunha diminuído na
companhia de sargentos. Numa prisão deles, a alguns passos de distância,
agasalhavam-se um médico e um advogado — e seria tolice imaginar-me com mais
direitos que esses homens. Ofereciam-me na verdade uma cela confortável, mas isto
era casual e, para ser franco, nunca desejei conforto: suponho até que ele nos
prejudica. Possivelmente eu devia essa vantagem, esse acidente, à influência de
alguém desejoso de beneficiar-me: capitão Lobo, neste caso: o despropósito dele era
uma indicação. E também era presumível que, deixando-me na superfície algum
tempo, quisessem dar-me um súbito mergulho nas profundidades, submeter-me a
variações dolorosas. Mais tarde esta segunda hipótese pareceu confirmar-se, embora
eu hesite em afirmar que na modificação operada tenha havido um desígnio.
Provavelmente não houve: a nossa presunção é que nos leva a enxergar nos casos
intuitos referentes a nós. Numa perseguição generalizada, éramos insignificâncias,
miudezas supressas do organismo social, e podíamos ser arrastados para cima e para
baixo, sem que isto representasse inconveniência. Informações vagas e distantes,
aleivosias, o rancor de um inimigo, deturpações de fatos, de repente nos causariam
choques e mudanças.386
Chega-nos a causar surpresa que o carrancudo “Velho Graça”, ainda que por um
instante, tenha experimentado “acanhamento que avermelha o rosto e esmorece o coração”,
mesmo que tenha escrito, em seguida, que a gentileza de Lobo não fosse mais do que “a
perfídia embrulhada num sorriso”. O mesmo Lobo, tempos depois, desconcertaria o
memorialista mais uma vez - e a nós - com uma oferta e uma revelação. E, novamente, o
homem que sofrera uma criação rude, cujas memórias da infância são transpassadas por
agressões e violência, não sabe como reagir:
385
386
RAMOS, 2022b, p. 63-64.
RAMOS, 2022b, p. 64-65.
110
— Ia-me esquecendo: quero fazer-lhe um pedido.
Estranhei: não me achava em condições de ser-lhe útil em coisa nenhuma. Hesitou
um instante e jogou-me de chofre este discurso:
— Bem. O tempo é curto para explicações e cerimônias. Trata-se disto: eu pus aí
num banco algumas economias que não me fazem falta por enquanto. Ignoro as suas
posses, mas sei que foi demitido inesperadamente. Caso as suas condições não sejam
boas, eu lhe mostro daqui a pouco uma caderneta, o senhor põe num cheque a
importância que necessita, eu assino e à tarde venho trazer-lhe o dinheiro. Convém?
Pedido realmente curioso: nunca me passara pela cabeça que alguém pudesse
fazê-lo. Perturbei-me em excesso e no primeiro momento nem pude responder: tive
a impressão de que me estavam a mistificar, julguei-me objeto de uma pilhéria cruel.
Pouco a pouco me desengasguei, consegui enfim murmurar uma recusa chocha e um
agradecimento rápido e sumido:
— Não preciso. Estou bem. Muito obrigado.
Ainda não me convencia de que o rapaz falara sério, a mesquinha ideia do logro
continuava a perseguir-me.
— Não lhe estou oferecendo dinheiro, bradou capitão Lobo, adivinhando-me talvez
o sentimento infeliz. Não se oferece dinheiro a homem. Estou facilitando-lhe um
empréstimo. E não é lá grande coisa, as minhas reservas são pequenas. Se aceita, o
senhor mesmo determina, vê quanto lhe posso emprestar. Naturalmente não há
prazo: paga-me lá fora, quando se libertar. Sai logo, isso não há de ser nada.
Também já estive preso e vivi no exílio: viajei num porão de São Paulo à Europa.
Foi pouco mais ou menos o que ele me disse. Tornei a agradecer e a recusar, as
orelhas em fogo, na tremenda confusão que me causava a enorme surpresa. Teria
realmente ouvido bem aquelas palavras? Apesar de se haverem prolongado longos
instantes, entre pausas e gestos enérgicos, não me decidia a admiti-las; de fato eram
claras, irrecusáveis, mas nos últimos dias ia-me habituando a perceber coisas
aparentemente destituídas de senso. Achava-me atordoado, como se tivesse recebido
um murro na cabeça, e só sabia repetir as mesmas frases curtas e insossas:
— Estou bem, não falta nada. Ora essa! Muito obrigado. Não é necessário.387
Assumidamente um homem tímido, Graciliano reitera: “Contenho-me ao falar a
desconhecidos, acho-os inacessíveis, distantes; qualquer opinião diversa das minhas choca-me
em excesso; vejo nisso barreiras intransponíveis - e revelo-me suspeitoso e hostil. Devo ser
desagradável, afasto as relações.”388 É também dessa introversão que vem o espanto com a
solidariedade alheia. Para o autor de Caetés, a solidariedade inesperada de soldados e
carcereiros em espaço simbólico fruto da exceção configura subversão de papéis. No entanto,
haveria espaço melhor do quarteis, porões escuros e abafados e cadeias sujas para se ter
acesso a tais desvios? No cárcere, o escritor de ficção estava num lugar privilegiado de
observação, a partir de onde testemunharia qualidades inesperadas. Como na noite em que,
pela escotilha do navio, um soldado o ofereceu água:
Precisamos viver no inferno, mergulhar nos subterrâneos sociais, para avaliar ações
que não poderíamos entender aqui em cima. Dar de beber a quem tem sede. Bem.
Mas como exercer na vida comum essa obra de misericórdia? Há carência de
oportunidade, as boas intenções embotam-se, perdem-se. Ali me havia surgido uma
alma na verdade misericordiosa. Ato gratuito, nenhuma esperança de paga; qualquer
frase conveniente, resposta de gente educada, morreria isenta de significação. Na
387
388
RAMOS, 2022b, p. 81-82.
RAMOS, 2022b, p. 270.
111
véspera outro desconhecido, negro também, me havia encostado um cano de arma à
espinha e à ilharga; e qualquer gesto de revolta ou defesa passaria despercebido.
Esquisito. Os acontecimentos me apareciam desprovidos de razão, as coisas não se
relacionavam.389
A observação arguta, que questiona a bondade manifesta em ambiente tão pouco
propício, é marca do romancista; mas “[...] é também o desencanto do pessimista, pouco
afeito a aceitar a existência do bem”.390 É, ainda, manifestação de imparcialidade, traço
emblemático da personalidade de Graciliano. Afinal, trata-se de um comunista que zelou pela
sua capacidade de enxergar o outro à luz de qualidades e defeitos que evidenciaram, e não do
matiz político. Isto nos leva a pensar no seu respeito pela observação. Como escritor, estava
submetido a registrar o que observava segundo os princípios da verdade. Devemos somar a
isso o valor da experiência para “Graça”, que a considerava essencial para qualquer escritor,
mesmo que de romances e novelas:
Bem, os célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo.
Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente não conhecia. Acusavam-no de
ser apenas um memorialista, de não possuir imaginação, e o romance mostrava
exatamente o contrário. Que entendia ele de meninos nascidos e criados na lama e na
miséria, ele, filho de proprietários? Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu
seria incapaz de semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e
sentida.391
De volta a Ficção e confissão, Candido assim define a importância do vivido para
Ramos:
Literatura para ele era coisa profunda, e cada um dos seus livros, depois de Caetés,
ou entra dolorosamente pelos problemas do espírito, tirando substância do seu
próprio, ou enfrenta situações cruciais de vida. Em São Bernardo, nada menos que a
validade da conduta, a correlação entre a eficácia dos atos e o seu sentido para a
integridade pessoal. Em Vidas secas, a liberdade em face das circunstâncias. Em
Angústia, a relação entre o pensamento e o ato. Em todos eles, o problema do bem e
do mal, encarado de um ângulo materialista, e que nos dois livros autobiográficos é
proposto em função da sua própria vida.392
Nas palavras do ensaísta encontramos outra das particularidades de Mc que a tornam
verdadeiro monumento. Apesar do farto material humano colhido em Quebrangulo, Palmeira
dos Índios, Viçosa e Maceió, faltava ainda elemento fundamental: o contato mais íntimo do
autor com o bem e o mal, a justiça e a camaradagem. Foi essa a grande contribuição dos
389
RAMOS, 2022b, p. 123.
CANDIDO, 2024, p. 66.
391
RAMOS, 2022b, p. 36.
392
CANDIDO, 2024, p. 66, grifos do autor.
390
112
meses que passou aprisionado. Graciliano Ramos, “[...] no desejo de corresponder ao seu
estímulo agiu, sofreu, escreveu e, nos livros, nunca se afastou deles.”393 No porão do navio
Manaus, a caminho da Casa de Correção, no Rio de Janeiro, o “Velho” vive a experiência da
imundície, da promiscuidade, à mercê de determinações que ignora, sem noção do destino que
o aguarda. Sua reação é o fechamento total do corpo: não se alimenta, não excreta. É nessas
condições que surgem as notas preliminares que, mesmo destruídas, serão o germe inicial de
Mc. Por isso a progressão do autor, que passa do romance ao testemunho, da ficção à
confissão: “[...] o romance, com todas as suas exigências formais vai parecendo molde
apertado e incompleto [...]. Sente-se constrangido na ficção e abandona-a para sempre no
apogeu das capacidades, com apenas quatro livros publicados. O desejo de sinceridade vai
doravante levá-Io a retratar-se no mundo real em que se articulam as suas ações; já instalado
na primeira pessoa do singular como artifício literário, deslizará para a experiência real dentro
da mesma perspectiva de narração, mas sem qualquer subterfúgio.”394
Em sua análise, Hermenegildo Bastos vai ao encontro de Antonio Candido. Para
aquele, Graciliano Ramos se retirou da ficção por desconfiar da capacidade da literatura de se
realizar como crítica da sociedade, diante do conservadorismo que então grassava; num
contexto endurecido como o das décadas de 1930 e 1940, a ficção não daria voz aos vencidos.
Assim, o escritor militante opta pelo texto memorialístico por acreditar que, ao fazer do
testemunha munição para suas “armas de papel”, quebraria as barreiras.395 Fazendo de si
personagem, o autor revive passagens dos romances, retirando-os de sua condição os
lançando em outra dimensão temporal, na qual suas narrativas se tornam reais. Para Bastos
Eles tematizam, de modo semelhante ao texto memorialístico, os mesmos núcleos de
experiência humana: o mundo sem nexo e absurdo do Nordeste brasileiro, o mundo
de exploração e de submissão e falta de perspectiva. Mas a pergunta persiste: a obra
assim construída pôde dar conta do projeto?396
A resposta para o questionamento vem na forma do texto “graciliânico”, que faz das
suas memórias meio para se indagar a respeito de suas crenças e atitudes: “O testemunho
autoquestiona-se, desenvolvendo-se como uma reflexão sobre o sentido, a forma e a função da
escrita testemunhal.”397 Mas a dúvida persiste: a obra erigida sobre tais alicerces, com lacunas
393
CANDIDO, 2024, p. 66.
CANDIDO, 2024, p. 72-73.
395
BASTOS, 1998, p. 180.
396
BASTOS, 1998, p. 181.
397
BASTOS, 1998, p. 180.
394
113
aparentes e supostas imperfeições, é capaz de alcançar seu objetivo. De acordo com Bastos
sim, e nisso reside sua faceta ética:
Avaliando os seus livros, o autor analisa a si próprio, a sua condição de classe,
disseca-se, expõe-se (como fazia com os protagonistas dos romances). Ele se
considera incapaz de realizar aquela literatura que pode quebrar as barreiras da
instituição. Essas interrogações dão às Mc uma dimensão ética. As ações narradas
são analisadas, avaliadas. Os personagens são agentes. Ao autor interessa questionar
o sentido das ações humanas.398
Os romances de Graciliano são “experiências de vida ou experiências com a vida”.399
Assim, um dos méritos fundamentais de Mc é que se trata de um manifesto em favor da
liberdade, da democracia, da justiça e - por que não? - da solidariedade e da alteridade.
Graciliano Ramos foi, desde a infância, um desajustado. Não um desajustado como Lima
Barreto; mas com relação aos valores sociais que o formaram. Mc transcende a literatura: é
fonte histórica é obra de arte; mas a sua potência está na confissão - a repetição do termo se
faz necessária - de uma consciência que, agredida, encontrou na violência sofrida o estímulo
para se manifestar. Foi necessária coragem, muita coragem, para se erguer contra o
autoritarismo e, mais tarde, para expor a humilhação. E coragem, parafraseando outro grande
espírito que enfrentou o totalitarismo e que também buscou compreender a alma sertaneja, é o
que a vida quer da gente.400
398
BASTOS, 1998, p. 181.
CANDIDO, 2024, p. 74.
400
No magnífico romance Grande sertão: veredas (1956), o mineiro Guimarães Rosa escreveu dezenas de
passagens sobre a coragem. A mais lembrada pelos leitores é a seguinte: “O correr da vida embrulha tudo, a vida
é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é
coragem”. Pesquisador atento e dedicado ao sertão, Rosa explora, em sua obra, a alma sertaneja e revela sua
beleza e grandiosidade. Além de romancista, o escritor foi médico e diplomata. Servia o consulado brasileiro em
Hamburgo, Alemanha, quando Adolph Hitler tornou-se chanceler desse país. Diante das políticas antissemitas do
nazismo, Rosa, por iniciativa da sua esposa, Aracy Moebius, também funcionária do consulado brasileiro,
facilitou a saída de diversos judeus do país. Essa iniciativa rendeu a Aracy a alcunha de “o anjo de Hamburgo” e
menção à sua atuação no Memorial do Holocausto. cf. .ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 22.
ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, e-book; ARACY de Carvalho Guimarães Rosa. In: Yad Vashem, the
World Holocaust Remembrance Center. Disponível em: https://tinyurl.com/aracyrosa. Acesso em: 20 jan. 2026.
399
CONSIDERAÇÕES FINAIS - CAVALOS, LIBERDADE E MEMÓRIAS
Chegamos ao fim da jornada. Cruzamos, da primeira à última página, a memória
“graciliânica” da cadeia. Avançamos e também retrocedemos; perdemo-nos e, quando isso
aconteceu, recorremos às cartas, romances e crônicas de Graciliano Ramos como quem
consulta mapas. Nessa travessia, percebemos que a memória não se acomoda em categorias
ou datas precisas; tal como a vida, que “[...] esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e
depois desinquieta”.401 Como fenômeno fisiológico, mental e social, a memória se expande,
comprime-se, escapa-nos e se revela fragmentada, caleidoscópica. Mas insiste em existir,
entre o vivido e o narrado.
O “Velho Graça” nos apresenta seu magnum opus na forma de autobiografia. É ele, o
autor, a pessoa real, quem nos conta as angústias - para fazer uso de uma palavra cara ao autor
- de estar preso, de viver sob o “fascismo tupinambá”.402 O criador de Baleia e de Fabiano nos
entregou uma narrativa que ultrapassa os limites do testemunho pessoal para se converter em
reflexão coletiva sobre a repressão política e o autoritarismo do Estado Novo. Mas não sem
antes alertar a pessoa leitora: aquelas são as recordações de “um sujeito mais ou menos
imaginário”. Quanto do que narrado no livro foi experimentado, de fato? Difícil dizer.
Perseguimos algumas pistas. Como todo explorador, lançamos mão de bússolas e da
experiência de outros viajantes, que já pisaram antes naquele terreno.
Maurice Halbwachs, por exemplo, alerta para um aspecto elementar da formação de
recordações. A memória individual está em constante diálogo com a memória coletiva.
Parafraseando o sociólogo francês - também ele uma vítima do ódio aplicado à política nunca estamos sós. Aquilo que julgamos serem nossas lembranças não são constituídas
apenas pela experiência privada, mas se constituem no contato com grupos e estruturas
sociais. O escritor alagoano se inscreve naquilo que Halbwachs chamou de “quadros sociais
da memória”.403 Sua recordação transcende o indivíduo: é a memória de um país que se vê
aprisionado em estruturas de dominação e desigualdade. O texto de Ramos ilustra o conceito
de memória coletiva: um passado reconstruído socialmente, que orienta as identidades e a
compreensão histórica do presente. Em Mc, o “eu” de Graciliano só se constitui porque se
reconhece entre outros: companheiros de cela, intelectuais perseguidos, presos comuns,
401
ROSA, 2019, e-book.
RAMOS, 2022b, p. 10.
403
HALBWACHS, 1990, p. 3.
402
115
carcereiros, todos compondo o cenário da lembrança compartilhada. A respeito dessas pessoas
e da memória compartilhada, Graciliano afirma:
Certo a vida é cheia de incongruências, mas estaremos seguros de não nos havermos
enganado? Nessas vacilações dolorosas, às vezes necessitamos confirmação,
apelamos para reminiscências alheias, convencemo-nos de que a minúcia
discrepante não é ilusão. Difícil é sabermos a causa dela, desenterrarmos
pacientemente as condições que a determinaram. Como isso variava em excesso, era
natural que variássemos também, apresentássemos falhas. Fiz o possível por
entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a
relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos a sombra dos meus defeitos. Foram
apenas bons propósitos: devo ter-me revelado com frequência egoísta e mesquinho.
E esse desabrochar de sentimentos maus era a pior tortura que nos podiam infligir
naquele ano terrível.404
Mas o fazer artístico se mantém como ferramenta de resistência; uma “arma”, frágil
feita “de papel”, mas potente. E perigosa: às vésperas da saída da cadeia, Graciliano Ramos
foi examinado por um médico, com quem manteve o seguinte diálogo:
— Levo recordações excelentes, doutor. E hei de pagar um dia a hospitalidade que
os senhores me deram.
— Pagar como? exclamou a personagem.
— Contando lá afora o que existe na ilha Grande.
— Contando?
— Sim, doutor, escrevendo. Ponho tudo isso no papel.
O diretor suplente recuou, abriu os olhos e inquiriu carrancudo:
— O senhor é jornalista?
— Não senhor. Faço livros. Vou fazer um sobre a Colônia Correcional [...]
— A culpa é desses cavalos que mandam para aqui gente que sabe escrever.405
Jacques Le Goff e Pierre Nora ampliam nossos horizontes de compreensão. Ambos
defendem que História e memória operam em tensões muitas vezes opostas, mas
complementares. A “História oficial” - arquivística, burocrática, calculada - seleciona e
elimina memórias para recriar fatos. Para isso, vale-se não só do documento oficial, mas da
arte e da literatura. Assim, a narrativa é construída tanto sobre fatos quanto sobre significados
atribuídos a esses. É o que Aristóteles chamou de poiesis, ou seja, a “construção”. Isso nos
leva ao entendimento de que Mc é um esforço de recordação; a voz que nos narra a
experiência também nos oferece espaço de reflexão sobre o passado vivido, o Estado Novo e
as estratégias narrativas que atravessam a experiência pessoal do autor e a memória coletiva
brasileira.
404
405
O nexo entre memória e identidade, explicado por Michael Pollak, também ilumina
RAMOS, 2022b, p. 13.
RAMOS, 2022b, p. 654.
116
algumas veredas de Mc. Pollak considera a narrativa ato de pertencimento. Ao narrar, o
indivíduo se torna sujeito de si e de sua História, reafirmando sua identidade e a de seu grupo.
O exercício memorialístico de Mc é, portanto, forma de reconstrução identitária diante da
tentativa de aniquilação simbólica promovida pelo Estado Novo. As memórias subterrâneas
de que fala Pollak - as que sobrevivem à margem da história oficial -406 emergem em Mc
como gesto de resistência. O autor de SB transforma a narrativa de humilhação em discurso
ético:
É horrível estarmos a remexer um fato incompreensível. A minha prisão era justa, na
opinião de Leal. Pois não passara a vida inteira a encher-me de letras radicais, a
procurar sarna para me coçar? Refletindo, achei a situação dele explicável também.
A dele e a do beato José Inácio, que a bordo se zangara comigo, rosnara exibindo o
rosário de contas brancas e azuis no peito veloso: - “Quando nós fizermos a nossa
revolução, ateus como o senhor serão fuzilados.” Certamente era ridículo perseguir
essas criaturas. Mas podíamos conjeturar vinganças, denúncias de inimigos ocultos,
a canalhice de um chefe empenhado em suprimir eleitores da oposição. Tiago não
tinha inimigos no Brasil, não votava, ninguém lhe ambicionava o emprego ordinário
na frota mercante inglesa. A absurda acusação de um patife burlado fora suficiente
para inutilizá-lo. Era inacreditável. Não me fazia mossa o ato injusto; afligia-me ser
impossível imaginar uma razão para ele. Disparate. Convencia-me disto — e
continuava a esforçar-me para achar qualquer vantagem na imensa estupidez.407
Essas dimensões se articulam às formulações de Elizabeth Jelin e Sigmund Freud.
Para Jelin, a memória é campo de disputa, trabalho social e político de reinterpretação do
passado. “Mestre Graça” realiza esse “trabalho de memória” ao selecionar, ordenar e narrar
fragmentos de uma experiência traumática. Sua escrita, marcada por intervalos e digressões,
revela o processo ativo de rememorar, em que lembrar é também elaborar. Freud, por sua vez,
ao propor o “trabalho de recordação”, destaca a necessidade de transformar o sofrimento em
discurso compreensível. O ato de escrever, em Mc, cumpre essa função terapêutica; é recurso
para expressar aquilo que é indizível: o medo, o ódio, a esperança, a compaixão. Numa carta
ao amigo Wilhelm Fliess, Freud compara fantasias histéricas a mecanismos da criação
poética, tomando Shakespeare como exemplo: “Shakespeare tem razão ao igualar criação
poética e delírio”.408 O que temos em Mc é uma maneira estética e simbólica de dar sentido ao
trauma. Essa concepção a respeito do fazer artístico está contida em parte da obra do
psicanalista: a arte é o meio para sublimar desejos inconscientes. E, para que não se tornem
sintomas de psicoses, artistas dão forma a esses desejos para que sejam aceitos pela cultura.
406
A contribuição historiográfica de Mc é inequívoca. Ao tramar lembrança e
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n.3, 1989, p.
4.
407
408
RAMOS, 2022b, p. 463-464.
FREUD, Sigmund. Arte, literatura e os artistas. Belo Horizonte: Autêntica, 2015, p. 43.
117
imaginação, o memorialista revela dimensões da realidade que os documentos oficiais tendem
a suprimir, como afirma Pesavento. Na condição de fonte histórica, essa obra não oferece
apenas dados factuais, mas interpretações afetivas do Estado Novo e do fascismo brasileiro.
Ao descrever as prisões superlotadas, a brutalidade dos interrogatórios e o desespero dos
detidos, “Graça” traduz o que Raymond Williams chamou de “estruturas de sentimento”:
percepções, emoções e valores que escapam ao discurso institucional, mas definem o espírito
de uma época.409 A obra, portanto, insere-se na fronteira entre História e Literatura, entre
documento e testemunho, servindo de “monumento”, vestígio ou marco material de um
passado que é reconstruído pelo escritor. Voltemos à interlocução entre Le Goff e Nora.
Para Le Goff
A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a dois tipos de
materiais: os documentos e os monumentos. De fato, o que sobrevive não é o
conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças
que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos
que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. Estes
materiais da memória podem apresentar-se sob duas formas principais: os
monumentos, herança do passado, e os documentos, escolha do historiador.410
Nora, por sua vez, sustenta que “lugares de memória” nascem quando a memória viva
começa a rarear, servindo como marcos simbólicos que preservam identidades coletivas.
Esses lugares não são, exatamente, “sítios”, mas espaços simbólicos onde as lembranças
podem se refugiar. Essa nos parece ser uma das funções de Mc. Trata-se de um “monumento”
erguido contra o esquecimento. A prisão se torna um espaço de inscrição da memória
nacional, onde o indivíduo representa o coletivo. Ao narrar a rotina dos presos políticos e
comuns, GR transforma o cárcere em um lugar simbólico, condensando as contradições da
sociedade brasileira sob o regime de Vargas. Assim, a obra se configura como resistência
literária e política diante da censura e da violência de Estado. Por isso se prolonga no tempo e
ganha novos significados. Em 1981, o crítico e escritor mineiro Silviano Santiago publicou
Em liberdade.411 Nessa metaficção, Santiago imaginou uma sequência para Mc em que
Graciliano teria deixado na caixa de correios de um editor o diário em que havia registrado os
dias seguintes à sua libertação. Trata-se de um novo “Graça”, fictício, recriado - poético; mas
factual - historicizado. Segundo Santiago, o diário seria de 1937: Ramos ainda vivia e
409
MIGLIEVICH-RIBEIRO, Adelia. Raymond Williams e “estruturas de sentimentos”: os afetos como
criatividade social. Resgate - Revista Interdisciplinar de Cultura, Campinas, v. 28, p. 7. Disponível em:
https://tinyurl.com/estruturadesentimento Acesso em: 15 out. 2025.
410
LE GOFF, 1990, p. 535.
411
SANTIAGO, Silviano. Em liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
118
produzia intensamente. Quando Em liberdade foi publicado pela primeira vez, em 1982, o
Brasil se debatia contra nova ditadura, tão violenta e cruel quanto a de Vargas. Os militares
que assumiram o poder após o golpe civil-militar de 1964 repetiram os passos do Estado
Novo, perseguindo, prendendo e matando. Graciliano Ramos reapareceu, “em liberdade”, e
acenou, com a sua história de resistência, para os que desejavam ser livres. Em 2022, o livro
de Silviano Santiago voltou às livrarias em nova edição. O Graciliano imaginário nos trouxe
esperança: estávamos no fim de uma jornada de morte e pesar.
A confluência entre Memória, História e Literatura se mostra, assim, decisiva para a
compreensão do “monumento” que “Graça” nos deixou. As fronteiras entre esses domínios,
como observa Paul Ricoeur, são permeáveis: a narrativa literária é uma forma de
conhecimento histórico que dá inteligibilidade à experiência temporal. A escrita
autobiográfica de Ramos não busca apenas recordar, mas significar o vivido. Nesse sentido,
Mc se aproxima de outras obras do autor, como Infância, onde ele revisita a opressão
doméstica e a formação da consciência crítica. A autobiografia, portanto, não é mero
exercício de narcisismo, mas uma forma de produção de saber histórico e social.
Ao chegarmos ao nosso destino, percebemos que Graciliano e sua obra se
transmutaram, deixando de ser texto apenas de Literatura e ou apenas fonte histórica.
Tornaram-se a própria História. Cada pesquisador e teórico que faz parte dessa dissertação
confirma isso. E assim seguem, Literatura e História, Clio e Calíope, nossas musas: mitigando
dores; realimentando esperanças; permitindo-nos revisitar, recriar e dar novos significados ao
passado, ao recordado e ao narrado; e imaginar futuros possíveis.
EPÍLOGO - “YO NO CREO EN BRUJAS…”
Por cinco anos, trabalhei no Palácio das Artes, um dos espaços culturais mais
importantes da América Latina. Projetado por Oscar Niemeyer a pedido do prefeito de Belo
Horizonte, Juscelino Kubitschek, o complexo reúne galerias de arte, escola de música e artes
cênicas, salas de cinema e teatro e uma respeitável biblioteca sobre arte e cultura.
Em uma noite de julho de 2014, eu me preparava para encerrar o expediente, quando
uma visitante entrou na galeria principal. Fui atendê-la. Ane, a visitante, apresentou-se, disse
que era maceioense, mas Minas era a sua segunda terra. Conversamos, trocamos telefone,
convidei-a para um café. Vieram outros cafés e o namoro, à distância. Em janeiro de 2016,
vim à Maceió pela primeira vez. Numa noite quente, alegre demais do álcool e da Ane,
cumprimentei a estátua do “Mestre Graça”, na Pajuçara e confessei a ele a ideia de morar
aqui.
Nosso casamento foi em janeiro de 2020. A minha mudança para Maceió iria
acontecer no segundo semestre daquele ano, mas a pandemia de Covid-19 me fez adiantar os
planos. Os anos seguintes foram de tensão e tristeza; perdemos pessoas queridas e, juntos,
choramos e nos revoltamos contra o negacionismo e a falta de humanidade de quem ocupava
a cadeira mais importante do país e seus comparsas.
Em 2023, vacinados e com a pandemia controlada, retomamos nossas caminhadas pela
orla. Em uma delas, ao passar pelo “Velho”, sussurrei no seu ouvido: “vou escrever um
projeto de pesquisa sobre você e sua obra, para o mestrado na Ufal. Se for do seu interesse,
agradeço qualquer apoio”. Apesar da esquisitice de cumprimentar estátuas, não sou
supersticioso; mas diz um ditado espanhol: “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.
Entre 2023 e 2025, Graciliano Ramos tomou todos os espaços em que estive: o quarto
onde estudo se encheu de livros escritos por ele e sobre ele. Tornei-me monotemático, como
todo pós-graduando. Reli boa parte da sua obra, suas cartas, artigos e crônicas. Esse
“convívio” me fez perceber que por trás do aparente mau humor (“- Bom dia, Graça; - Você
acha mesmo?”412) havia um homem bom. “Bom”, e não “de bem”. Graciliano se incomodou
com a injustiça. Prefeito de Palmeira dos Índios, combateu a corrupção; professor, defendeu,
com firmeza, que é impossível aprender de estômago vazio e fez das escolas “redes de apoio”,
muito antes do termo se tornar relevante. A escrita foi sua “arma de papel” no combate ao
fascismo. E, “na solidão e no silêncio”, Graciliano lutou. Respeitava os pobres e quando
412
MORAES, 2012, p. 16.
120
tratava com roceiros e pessoas sem estudo, demonstrava uma gentileza incomum. Deu voz ao
sertanejo - meus pais - e, com sinceridade, esteve ao lado do trabalhador e do pobre.
Em Graciliano Ramos reencontrei meu pai, nunca promovido no serviço público. “Eu
me lembro”: quando eu tinha cerca de dez anos, ele me levou para o trabalho. Ele pretendia
pedir antecipação de férias, estratégia para esticar o salário no final do ano. A solicitação foi
indeferida e, adulto, entendi que eu estava ali como “álibi”. De rosto vermelho e disfarçando
as lágrimas, meu pai olhou para mim e disse: “passe uma vida no vermelho, de vergonha ou
de raiva, mas não amarele”. Em Graciliano, revi as lições de generosidade e altruísmo da
minha Velhinha.
Graciliano Ramos me ajudou a reavivar um sentimento que imaginei ter perdido. Após
anos na rede pública de ensino, eu me sentia anestesiado. O sofrimento ao meu redor quase
não incomodava. Em Mc, o alagoano escreveu: “Comovo-me em excesso, por natureza e por
ofício, acho medonho alguém viver sem paixões413”. Percebi que uma das tarefas do meu
ofício é me comover. É preciso sentir antes de agir.
Escrever essa monografia em Alagoas, em universidade pública, orientado por
professor sergipano, enquanto trabalho na mesma Viçosa em que Graciliano escreveu SB,
engrandece-me e faz essa quadra da minha travessia muito melhor do que poderia ter sido.
Maceió - Belo Horizonte, janeiro / 2023 - setembro / 2025.
413
RAMOS, 2022b, p. 198.
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ANEXO A - CARTA NÃO ENVIADA DE GRACILIANO RAMOS A VARGAS
Pouco mais de um ano após deixar a Casa de Correção, Graciliano Ramos escreveu
uma carta a Getúlio Vargas. Datada de agosto de 1938, a correspondência nunca foi enviada.
Figura 12 - Manuscrito da carta de Graciliano a Vargas, p. 1 (1938)
Fonte: Research Gate.
No documento, Graça não demonstra rancor. Prefere abordar as circunstâncias em
torno da sua detenção, em 1936, com a ironia que ficou associada a ele. A respeito do
processo que o levou à prisão - ou a falta de um processo -, por exemplo, o escritor afirma:
“[...] conheci de perto vagabundos, malandros, operários, soldados, jornalistas, médicos,
engenheiros e professores da universidade. Só não conheci o delegado de polícia, porque se
esqueceram de interrogar-me”414. Já quanto a publicação dos discursos de Vargas pela José
Olympio - editora que detinha, à época, o direito sobre suas obras - o alagoano comentou,
com sarcasmo que “[...] isto me trouxe a idéia esquisita de que V. Excia. havia descido um
414
RAMOS apud ALVES, Fábio César. Armas de papel: Graciliano Ramos, as Memórias do cárcere e o Partido
Comunista Brasileiro. São Paulo: Editora 34; Fapesp, 2016, p. 311.
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pouco”415. À frente, lemos: “Apesar de vivermos enormemente afastados, dentro de alguns
dias nos encontraremos numa vitrine, representados por discursos políticos e por três ou
quatro romances”416. E, antes de assinar a correspondência, o “Velho” expõe sua insatisfação
ao mesmo tempo em que, de certa forma, reitera sua postura política:
Como declarei a V. Excia., ignoro as razões por que me tornei indesejável na minha
terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei vinte mil crianças nas escolas e
em três anos coloquei nelas cincoenta mil, o que produziu celeuma. Os professores
ficaram descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital
muitos negrinhos. Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível.417
Figura 13 - Manuscrito da carta de Graciliano a Vargas, p. 2 (1938)
Fonte: Research Gate.
O rascunho original da carta foi guardado por James Amado, irmão de Jorge Amado e
casado com Luiza Ramos, filha de Graciliano. Mais tarde, Amado o doou para a Casa Museu
Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios. Existem, ainda, outras duas cópias. Uma em
415
RAMOS apud ALVES, 2016, p. 312.
RAMOS apud ALVES, 2016, p. 312.
417
RAMOS apud ALVES, 2016, p. 313.
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poder do pesquisador Wander de Melo Miranda e outra no acervo do Instituto de Estudos
Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP).
Estudiosos da obra “graciliânica” concordam que a carta é um desabafo do escritor. O
fac-símile que apresentamos foi disponibilizado por Marcos Falleiros, professor de literatura
na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), também estudioso da obra do
“Velho Graça” e de Manuel Bandeira.
Figura 14 - Manuscrito da carta de Graciliano a Vargas, p. 3 (1938)
Fonte: Research Gate.
“Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1938.
Exmo. Sr. Dr. Getúlio Vargas:
Peço permissão a V. Ex.a para entretê-lo com alguns fatos de pequena importância,
referentes a um indivíduo. Desculpe-me V. Ex.a importuná-lo com eles: são insignificantes,
mas a verdade é que deviam ter sido narrados há quase dois anos. Resumo-os em poucas
linhas.
Em princípio de 1936 eu ocupava um cargo na administração de Alagoas. Creio que
não servi direito: por circunstâncias alheias à minha vontade, fui remetido para o Rio de
maneira bastante desagradável. Percorri vários lugares estranhos e conheci de perto
vagabundos, malandros, operários, soldados, jornalistas, médicos, engenheiros e professores
de universidade. Só não conheci o delegado de polícia, porque se esqueceram de
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interrogar-me. Depois de onze meses abriram-me as grades, em silêncio, e nunca mais me
incomodaram. Donde concluo que a minha presença aqui não constitui perigo.
Mas eu vivia em Maceió, era lá que trabalhava, embora o meu trabalho tenha sido
julgado subversivo. Quando me trouxeram para o Rio, imaginei muitas coisas: que me
conservassem detido e arranjassem um processo, que me devolvessem ao lugar donde me
tiraram, que me dessem um meio de viver em outra parte. Está claro que a comissão
incumbida de malhar o extremismo não era obrigada a oferecer-me colocação; retirou- me,
porém, o ofício que eu tinha, e até hoje ignoro porque se deu semelhante desastre.
Adotei, em falta de melhor, uma profissão horrível: esta de escrever, difícil para um
sujeito que em 1930 era prefeito na roça. Se não me houvesse resignado a ela, provavelmente
não estaria agora redigindo estas impertinências, que um negócio de livraria me sugeriu a
semana passada. O meu editor referiu-me com entusiasmo a publicação de cinquenta
milheiros dos discursos de V. Ex.a ─ e isto me trouxe a idéia esquisita, de que V. Ex.a havia
descido um pouco. Apesar de vivermos enormemente afastados, dentro de alguns dias nos
encontraremos numa vitrine, representados por discursos políticos e por três ou quatro
romances. Essa vizinhança me induz a apoquentá-lo, coisa que não teria sido possível antes de
1930.
V. Ex.a é um escritor. Mas, embora lance os seus livros com uma tiragem que nos faz
inveja, não vai ganhar muito e sabe que neste país a literatura não rende. Andaria tudo bem se
tivéssemos exportação, pois o mercado interno é lastimável. Ultimamente uma companhia
americana resolveu traduzir para o espanhol alguns romances brasileiros. Com certeza
apareceram dificuldades: as obras escolhidas encalharam. E é provável que circulem na
América do Sul os livros da Academia. V. Ex.a conhece os livros da Academia? Realmente o
Sr. Conde Afonso Celso entregou a alma a Deus, mas podemos estar certos de que o
substituto dele não será melhor. Enfim, não possuímos literatura, o que temos é diletantismo,
um diletantismo produtor de coisas ordinariamente fracas.
Mas estou descambando em generalidades, e no começo desta carta pedi licença para
tratar dum caso pessoal. Como disse a V. Ex.a., a comissão repressora dum dos extremismos,
do primeiro, achou inconveniente que eu permanecesse em Alagoas, trouxe-me para o Rio e
concedeu-me hospedagem durante onze meses. Sem motivo, suprimiu-se a hospedagem, o
que me causou transtorno considerável. Agora é necessário que eu trabalhe, não apenas em
livros, mas em coisas menos aéreas. Ou que o Estado me remeta ao ponto donde me afastou,
porque enfim não tive intenção de mudar-me nem de ser literato.
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Como declarei a V. Ex.a, ignoro as razões por que me tornei indesejável na minha
terra. Acho, porém, que lá cometi um erro: encontrei vinte mil crianças nas escolas e em três
anos coloquei nelas cinqüenta mil, o que produziu celeuma. Os professores ficaram
descontentes, creio eu. E o pior é que se matricularam nos grupos da capital muitos negrinhos.
Não sei bem se pratiquei outras iniquidades. É possível. Afinal o prejuízo foi pequeno, e lá
naturalmente acharam meio de restabelecer a ordem. Sinto muito senhor Presidente, haver-lhe
roubado alguns minutos. Mas a culpa é de V. Ex.a, que vai editar o seu livro numa casa onde
trabalham sujeitos completamente desconhecidos. Pelo êxito dele, que julgo certo, aqui lhe
trago minhas felicitações.
Caso V. Ex.a queira ocupar-se com o assunto desta carta, peço que se entenda com o
meu amigo Mauro de Freitas, uma das poucas pessoas decentes que aqui tenho conhecido.
Apresento-lhe os meus respeitos, senhor Presidente, e confesso-me admirador de V.
Ex.a.”
ANEXO B -
“O PAI DA GESTÃO FISCAL RESPONSÁVEL NASCEU EM ALAGOAS”
O cartaz abaixo foi elaborado pelo Governo do Estado de Alagoas, no começo dos
anos 2000. O documento está disponível na página oficial do escritor e pode ser acessado pelo
link https://graciliano.com.br/2000/01/graciliano-pai-da-gestao-fiscal-responsavel/.