Do litoral ao sertão: As manifestações de junho de 2013 em Alagoas – Sara Angélica Bezerra Gomes

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Do Litoral Ao Sertão, As Manifestações De Junho de 2013 em Alagoas - Sara Angélica Bezerra Gomes.pdf
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                    UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA
MESTRADO EM HISTÓRIA

DO LITORAL AO SERTÃO: AS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO DE 2013 EM
ALAGOAS

Maceió/AL
2016

SARA ANGÉLICA BEZERRA GOMES

DO LITORAL AO SERTÃO: AS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO DE 2013 EM
ALAGOAS

Dissertação de MESTRADO apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em História, da
Universidade Federal de Alagoas, como requisito
final para obtenção do grau de Mestre em História.
Orientador: Prof. Dr. José Vieira da Cruz.

Maceió/AL
2016

Para Maria Selma, minha mãe.

AGRADECIMENTOS
Este trabalho representa a conclusãode uma pesquisa iniciada no final da graduação
do curso de Licenciatura em História, na Universidade Federal de Alagoas/Campus do Sertão.
Esta pesquisa teve início sob a orientação do Prof. Dr. José Vieira da Cruz, a quem agradeço
primeiramente, pelos ensinamentos e pela apresentação dos caminhos para a construção de
uma investigação científica durante a graduação e o mestrado, por ter tido a paciência e a
disposição para ler e avaliar todos os meus textos nos últimos dois anos, e por compreender
minhas constantes mudanças de ideias. Suas orientações foram imprescindíveis para esta
dissertação.

Agradeço a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Alagoas (FAPEAL), pela
bolsa de estudo concedida no ano de 2015, e aos professores Osvaldo Batista Acioly Maciel e
Michele Reis de Macedo, pelas suas contribuições intelectuais durante as aulas de teoria e
metodologia, ocorridas na UFAL/Campus A. C. Simões. Também agradeço a Michele Reis,
por aceitar participar da minha banca de qualificação, em maio de 2015, junto com o prof.
Antônio Fernando de Araújo Sá. Suas observações para o meu texto foram decisivas para as
mudanças realizadas.

Não saberia dizer quantas ideias foram corrigidas e quantas outras foram descartadas
depois de orientações e conversas com amigos, professores, e, sobretudo, com os
entrevistados durante os dois últimos anos. Esta dissertação, inclusive, não teria sido escrita se
não fosse a disposição dos entrevistados para partilhar comigo as experiências das
manifestações de junho de 2013. Desse modo, não poderia deixar de agradecer à Adriano
Alves Pereira, Uedson José da Silva, José Ferreira dos Santos, Larissa Lisboa da Conceição,
Felipe Ferreira da Silva, Gerd Nilton Baggenstoss Gomes, Edvaldo Francisco do Nascimento,
José Rinaldo Queiroz de Lima, Magno Francisco da Silva, Wibsson Ribeiro Lopes, Jônatas da
Silva Barbosa, José Raimundo Gomes, José Flávio de Araújo Freire, João Carlos de Almeida
e Osvaldo Batista Acioly Maciel, pela disposição para me deixar entrevistá-los.

Deixo meus agradecimentos também aos colegas que me inquietaram nas aulas, em
congressos ou nos passeios durante o mestrado: Carlos Lima, Josival Oliveira, Roberval Silva,
Alexandre Costa e Carine Pinto. Também deixo minha gratidão a Alessandra Vieira e minha
tia Maria Rosineide, pelo cuidado e apoio em Maceió todas as semanas quando precisei

acompanhar as aulas.

Por último, agradeço a minha mãe, Maria Selma Bezerra Sandes, pelo apoio desde o
dia que decidi tentar a seleção do mestrado e pela compreensão quando precisei me dedicar às
leituras e a escrita deste trabalho.

“No último domingo, dia 02 de junho, a prefeitura e o governo do
Estado aumentaram o valor da tarifa do transporte público da capital
paulista para 3,20. Apesar do argumento de que o aumento é abaixo da
inflação e da promessa da implementação do bilhete único mensal,
defendemos que todo aumento de tarifa é injusto e aumenta a exclusão
social”. (Movimento Passe Livre/SP)
“Esse aumento dos R$ 0,20 (vinte centavos) foi uma bela desculpa
para a população brasileira se manifestar da forma como tava se
manifestando”. (Osvaldo Maciel)
“A questão do transporte foi só uma bomba que estourou. Era o último
pavio que estava queimando a um bom tempo, que vinha queimando”.
(Anônimo)

RESUMO

Esta dissertação resulta de uma pesquisa sobre as manifestações ocorridas em junho de 2013 no estado
de Alagoas, nas cidades Delmiro Gouveia, no Sertão, e em Maceió, no Litoral. Através desta pesquisa
realizada a partir da análise de periódicos e de fontes digitais, iconográficas e orais, que objetivou
compreender como as manifestações pela redução no valor da tarifa do transporte coletivo urbano,
iniciadas no estado de São Paulo, em junho de 2013, inspiraram a multidão destas cidades alagoanas a
deflagrarem manifestações de rua neste mesmo período, pode-se visualizar que os desdobramentos e
as asserções sobre este acontecimento nestas cidades possuem sentidos singulares. Nesse sentido, a
respeito dessas especificidades, esta dissertação discute como os temas nos cartazes ou faixas erguidas
pela multidão em Alagoas, a cobertura jornalística da grande mídia, os locais escolhidos para reuniões
e manifestações, as estratégias de luta e a atuação dos mascarados neste estado, estiveram marcadas
por significados políticos e históricos distintos daqueles que marcaram as manifestações de junho em
São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília, Bahia, entre outros estados.
Palavras Chave: Multidões. Protestos de rua. Manifestações de Junho de 2013. Alagoas

ABSTRACT

This work results from a survey of the demonstrations that took place in June 2013 in the state of Alagoas, in the city DelmiroGouveia, in the Sertão, and in Maceió, in the Coast. Through this survey from
the analysis of periodicals, digital, iconographic and oral sources, which aimed to understand how the
demonstrations by the reduction in the value of the urban public transport fare, started in São Paulo in
June 2013, inspired the crowd in these cities from Alagoas to deflagrate street demonstrations in the
same period, you can see that the developments and statements about this event in these cities possess
unique way. In this sense, on these characteristics, this dissertation discusses how the issues on posters
or banners erected by the crowd in Alagoas, the news coverage of the mainstream media, the locations
chosen for meetings and demonstrations, control strategies and the performance of masked in this
state, they were marked by political and historical meanings different from those that marked the
events of June in São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasilia, Bahia, among other states.
Palavras Chave: Crowds. Street protests. June 2013’s manifestation. Alagoas.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES
FOTO 1: Manifestantes segurando cartazes durante as manifestações de junho de 2013 com os temas
da “PEC-37Ladrão: o sonho do político”; “Violência é o que vivo diariamente” entre
outros, cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação,
Cultura e Imagem do Sertão.

34

FOTO 2: Manifestantes segurando cartazes durante as manifestações de junho de 2013 com os temas
“+ Saúde; +Educação; - Corrupção”; “Da Copa eu abro mão: quero mais saúde e
educação”; “Prefeito Valdo”, entre outros, na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo:
GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

35

FOTO 3: Manifestantes segurando cartazes durante as manifestações de junho de 2013 contra o
aumento de R$ 0,55 centavos na tarifa do transporte público; contra o pagamento pela tarifa
do transporte público; pedindo desculpa pelo transtorno que estavam causando, entre
outros,

na

cidade

de

Maceió/Alagoas.

Disponível

em:

<http://noticias.uol.com.br/album/2013/06/18/manifestantes-contam-em-cartazes-quais-saosuas-reivindicacoes.htm>. Acessado em 30/09/2015.

37

FOTO 4: Charge compartilhada no Facebook, pelo professor Marcos Ricardo de Lima, dia 22 de
junho

de

2013.Disponível

em:

<https://www.facebook.com/marcos.ricardodelima.7?fref=ts>. Acessado em 20/12/2014.

48

FOTO 5: Manifestantes usando a máscara inspirada no personagem “V” do filme “V de Vingança”,
durante as manifestações de junho de 2013, na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo
de Uedson José da Silva.

53

FOTO 6: Manifestante com a máscara do personagem “V” do filme “V de Vingança”, durante das
manifestações de junho de 2013, na cidade de Maceió/Alagoas.Disponível em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceio-tem-terceiro-dia-deprotestos.html#F846402>. Acessado em 20/10/2014.

55

FOTO 7: Manifestantes usando roupas e capuz preto durante as manifestações de junho de 2013, na
cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo de Uedson José da Silva.

58

FOTO 8: Manifestante no centro da foto utilizando boné e uma máscara de tecido branca, durante as
Manifestações de Junho de 2013, na cidade de Maceió/Alagoas. Disponível em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceio-tem-terceiro-dia-deprotestos.html#F846398>. Acessado em 20/10/2014.

58

FOTO 9: Muro no centro da cidade Delmiro Gouveia/Alagoas, pichado após as manifestações de
junho

de

2013.

Disponível

em:

<<http://www.ferreiradelmiro.com/2013_08_01_archive.html>. Acessado em 20/04/2016.
FOTO 10: Muro de uma clínica da cidade de Maceió/Alagoas, pichado após as manifestações de junho

60

de 2013. Disponível em: <http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2013/07/clinica-emmaceio-confecciona-cartaz-para-criticar-pichacoes-em-protesto.html>.Acessado

em

20/04/2016.

60

FOTO 11: Convite compartilhado no Facebookpor Wibsson Ribeiro Lopespara uma discussão sobre
as manifestações de junho de 2013 na sede do PSTU, na cidade de Maceió/Alagoas.
Disponível em: <https://www.facebook.com/wibsson.ribeirolopes?fref=ts>. Acessado em
20/12/2014.

74

FOTO 12: Convite compartilhado no Facebook por Magno Francisco da Silva, em 18/06/2013 para
uma discussão sobre as manifestações de junho de 2013 na sede do DCE/UFAL, na cidade
de

Maceió/Alagoas.

Disponível

em:

<https://www.facebook.com/magno.franciscodasilva?fref=ts>. Acessado em 20/12/2014.

75

FOTO 13: Comerciantes do centro da cidade de Maceió fechando as portas das suas lojas antes da
chegada

dos

manifestantes.

Disponível

em:

<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceio-tem-terceiro-dia-deprotestos.html>.Acessado:20/12/2015.

87

FOTO 14: Convite produzido para a primeira manifestação de junho de 2013, ocorrida na cidade
Delmiro

Gouveia/Alagoas.

Disponível

em:<http://www.ferreiradelmiro.com/2013/06/movimento-promete-protesto-emdelmiro.html>. Acessado em 15/05/201.

96

FOTO 15: Manifestante segurando cartaz com o tema do transporte público, durante as Manifestações
de Junho de 2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo: GEPHISC \Centro de
Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

104

FOTO 16: Manifestantes segurando cartaz com o tema do Passe Livre, durante as manifestações de
junho de 2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo: GEPHISC \Centro de
Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

106

FOTO 17: Estudantes da Universidade Federal de Alagoas/Campus do Sertão, saindo da sede da Ufal,
localizada na rodovia Al-145, até a delegacia da cidade Delmiro Gouveia. Acervo de Edmar
Correia.

108

FOTO 18: Manifestante segurando cartaz com protesto por ciclovias, durante as manifestações de
junho de 2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas.Acervo: GEPHISC \Centro de
Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

109

FOTO 19: Caminhonete tipo D-20, usada para mobilidade urbana e intermunicipal no Sertão do estado
de Alagoas. Acervo de Sara Angélica Bezerra Gomes.

111

FOTO 20: Caminhonetes que realizam a mobilidade intermunicipal entre as cidades Delmiro Gouveia
e Água Branca, estacionadas no centro de Água Branca. Acervo de Sara Angélica Bezerra
Gomes.

111

FOTO 21: Manifestante segurando cartaz com o desenho da Fábrica da Peste, durante as
manifestações de junho de 2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo: GEPHISC
\Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

119

FOTO 22: Manifestante segurando cartaz com protesto contra o deputado Marcos Feliciano, durante as
Manifestações de Junho de 2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo: GEPHISC
\Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

123

FOTO 23: Manifestante segurando cartaz com protesto contra a Proposta de Emenda Constitucional
nº37, durante as Manifestações de Junho de 2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

123

FOTO 24: Convite compartilhado no Facebook por Uedson José da Silva dia 25/06/2013, para
informar e convidar pessoas para mais um protesto de rua, durante as manifestações de
junho de 2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo: GEPHISC \Centro de
Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

125

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ANEL

Assembleia Nacional dos Estudantes Livres

ARSAL

Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas

ATAB

Associação dos Transportes Alternativos de Água Branca

ATAS- BRASILAssociação dos Transportes Alternativos do Brasil
CAS

Centros Acadêmicos

CAZP

Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares

CEPA

Centro de Estudo e Pesquisa Aplicada

COLIDE

Coletivo Libertário Delmirense

COOPERDEG

Cooperativa dos Transportes Alternativos dos Perueiros de Delmiro

Gouveia a Paulo Afonso
COOPTASA

Cooperativa de Transporte Alternativo do Alto Sertão Alagoano

CUT

Central Única dos Trabalhadores

DCE

Diretório Central dos Estudantes

ES

Espaço Socialista

FAG

Federação Anarquista Gaúcha

FUNDEB

Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica

FUNDEF

Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental

GECOC

Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas

GEPHISC

Grupo de Estudos e Pesquisa em História, Sociedade e Cultura

HTP

História do Tempo Presente

HI

História Imediata

JPMDB

Juventude do Partido do Movimento Democrático Brasileiro

LGBTT

Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros

ME

Movimento Estudantil

MP

Ministério Público

MPL

Movimento Passe Livre

PCB

Partido Comunista Brasileiro

PCdoB

Partido Comunista do Brasil

PCR

Partido Comunista Revolucionário

PEC

Proposta de Emenda Constitucional

PL

Projeto de Lei

PM

Polícia Militar

PMDB

Partido do Movimento Democrático Brasileiro

PMN

Partido da Mobilização Nacional

PSB

Partido Socialista Brasileiro

PSC

Partido Social Cristão

PSDB

Partido da Social Democracia Brasileira

PSTU

Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados

PT

Partido dos Trabalhadores

PTB

Partido Trabalhista Brasileiro

SINTEAL

Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas

SMTT

Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito

CDHM

Comissão de Direitos Humanos

TCC

Trabalho de Conclusão de Curso

TRANSPAL

Associação dos Transportadores de Passageiros do Estado de Alagoas

UFAL

Universidade Federal de Alagoas

UNE

União Nacional dos Estudantes

USP

Universidade de São Paulo

SUMÁRIO

1

INTRODUÇÃO

17

1.1

Manifestações de Junho de 2013 nas cidades Delmiro Gouveia e Maceió: um

fenômeno multicêntrico

29

1.1.1

Um fenômeno histórico

29

1.1.2

Um protesto em torno do transporte público

29

1.1.3

Uma manifestação multicêntrica

32

1.2A construção do antipartidarismo

38

1.2.1

Para além dos partidos políticos

40

1.2.2

A atuação da Rede Globo

43

1.3

A atuação do Movimento Passe Livre (MPL) e dos mascarados

49

1.3.1

Movimento Passe Livre (MPL)

50

1.3.2

Anonymous

52

1.3.3

Black Blocs

56

2

A Manifestação de Junho em Maceió

62

2.1

Das ruas à atuação da grande mídia

62

2.1.1

A imparcialidade do jornal Gazeta de Alagoas

63

2.2

Uma manifestação antipartidária?

69

2.2.1

Sem Partido! Sem partido!

70

2.2.2

Da ocupação a utilização do carro de som

76

2.3

A atuação dos mascarados

80

2.3.1Anonymous

82

2.3.2

Black Blocs

83

2.4

Por mais políticas sociais?

88

2.4.1.

Duas formas de protesto em uma manifestação

90

3

Faces das Manifestações de Junho no Sertão

95

3.1

Ente cores, máscaras e o anarquismo

95

3.1.1

Uma manifestação anarquista?

99

3.2

Sem a liderança do Movimento Passe Livre (MPL)

104

3.2.1

Ecos de um passado mal resolvido

106

3.2.2

Transporte público: um problema histórico?

109

3.3

Um fenômeno midiático?

114

3.3.1

A dimensão local da agenda de reivindicações115

3.3.2

Fábrica da Peste

117

3.4

Das mídias sociais às ruas do Sertão

120

3.4.1

A associação das multidões

121

4

CONSIDERAÇÕES FINAIS

129

REFERÊNCIAS

135

1 - INTRODUÇÃO

Um fenômeno tão enigmático quanto universal é o da massa que repentinamente se
forma onde, antes, nada havia. Umas poucas pessoas se juntam – cinco, dez ou doze,
no máximo. Nada foi anunciado; nada é aguardado. De repente, o local preteja de
gente. As pessoas afluem, provindas de todos os lados, e é como se as ruas tivessem
uma única direção1.

Esta epígrafe retirada da obra “Massa e Poder”, do sociólogo Elias Canetti, descreve
o momento em que a multidão se apodera dos espaços públicos para construir movimentos
multifacetados. Esta definição de multidão enquanto fenômeno social, descrita a partir de
características gerais e reservada as especificidades de cada contexto histórico, é um dos
possíveis pontos de partida para compreender as manifestações de rua ocorridas no Brasil em
junho de 2013.
Durante aquelas manifestações, vozes assimétricas, inquietas e insatisfeitas passaram
a rondar, como um espectro, as ruas de vários estados brasileiros. Esse movimento catalisou
descontentamentos e agitações sociais com tons, ritmos e agendas diversas. Convocado
também de forma “voluntária” pela internet, este fenômeno social configurou um movimento
de rua descentralizado, mas com algum grau de mobilização focado nos protestos contra o
aumento nas tarifas dos transportes públicos e contra a repressão deferida em relação aos
manifestantes.
A partir desse fenômeno fragmentado, complexo e aparentemente inesperado,
emergiram grupos de interesses contraditórios, logo transformados em um enigma tanto para
os pesquisadores quanto para os ativistas de movimentos sociais e de partidos de esquerda.
Em suma, o debate sobre o fenômeno de junho, parafraseando o enigma da esfinge de Tebas
“Decifra-me ou te devoro 2 ”, continua devorando de modo lento, gradativo e contínuo
pesquisadores e militantes que buscaram decifrá-lo.
Dentro desta perspectiva, a partir de junho de 2013, à medida que o fervilhar das
multidões nas ruas aumentava em diferentes estados brasileiros, jornalistas, políticos e
pesquisadores ficaram inquietos e passaram a produzir interpretações e definições para o
fenômeno em foco. Nesse esforço para interpretar e definir o que estava acontecendo, o termo
“Manifestações de Junho de 2013”, designado pela grande mídia, ou seja, pelas redes

1

CANETTI, Elias. “Massa aberta e massa fechada”. In: Massa e poder. Tradução Sérgio Tellaroli. São Paulo:
Companhia das Letras, 1995, p.14.
2
SÓFOCLES. A trilogia tebana.Tradução Mario Gama Cury. 15 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

17

televisivas, rádios e jornais de grande porte do país3, parece ter se consolidado na memória
coletiva da sociedade brasileira4.
Dentre as características das manifestações de rua ocorridas no Brasil em junho de
2013, em particular, o alcance nacional dos protestos é um aspecto histórico relevante. Ainda
que as primeiras manifestações tenham sido desencadeadas a partir das cidades de São Paulo
e do Rio de Janeiro, logo eles foram difundidos para outras cidades e estados do país. Em
Alagoas, a exemplo, do Litoral ao Sertão, multidões foram às ruas empunhando cartazes com
diferentes reivindicações e agendas: “+ [mais] saúde + [mais] educação – [menos] Corrupção”;
“O Povo unido não precisa de partido”; “Tire sua religião da nossa constituição”; “Concurso
público já”, “Gigante acordou”, “Passe livre já”, “Fora fábrica da peste”, entre outros5.
Apesar da relevância histórica deste acontecimento de dimensão nacional, os estudos
sobre esse fenômeno em Alagoas ainda são preliminares, a exemplo da pesquisa realizada
sobre essas manifestações na cidade de Delmiro Gouveia6. Diante desta lacuna historiográfica
e frente à necessidade de compreensão de como estas manifestações de rua se interrelacionaram, justifica-se a importância deste estudo em torno das manifestações de rua
ocorridas em Maceió, no Litoral, e, em Delmiro Gouveia, no Sertão.
A projeção alcançada por aquele fenômeno ocorrido em várias cidades do país em
junho de 2013 tem evocado uma série de questionamentos, dentre eles, quais as causas que
originaram as manifestações? Como as manifestações foram difundidas? Como os
manifestantes construíram uma identidade para a mobilização dos protestos de rua? E qual(ais)
significado(s) provocado(s) pela presença de multidões nas ruas das cidades de Maceió, no
Litoral, e de Delmiro Gouveia, no Sertão?
Em torno deste tema/problema, esta pesquisa sobre as manifestações de junho de
2013 em Alagoas, em particular nas cidades de Maceió e de Delmiro Gouveia, tece ao menos
quatro hipóteses de investigação a partir da análise da produção bibliográfica já produzida
sobre o tema. A primeira hipótese sustenta a premissa de que o aumento no valor da tarifa do
3

ALZAMORA, Geane Carvalho;RODRIGUÉS, TacyanaKarinnaArce.“Fora Rede Globo”: a representação
televisiva das “Jornadas de Junho” em conexões intermídia”. In: Revista Ecopós .V. 17 .N. 1.2014, p.1-12.
4
GOHN, Maria da Glória. Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
5
Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemósine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.
6
GOMES, Sara Angélica Bezerra. Das mídias às ruas do Sertão: as Manifestações de Junho de 2013, em
Delmiro Gouveia/Alagoas. Delmiro Gouveia: UFAL/Campus do Sertão, 2014 (Trabalho de Conclusão de Curso).

18

transporte público teria desencadeado e uniformizado a agenda dos protestos. A segunda
potencializa a tese de que o descontentamento popular com a truculência policial contra as
manifestações nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, desencadeou um movimento de
identidade e de solidariedade entre os manifestantes das diversas cidades brasileiras. A
terceira, trabalha a tese da influência da grande mídia e das redes sociais no processo de
difusão das manifestações no Brasil. E, a última hipótese, argumenta que em Alagoas, nas
cidades de Maceió e de Delmiro Gouveia, as manifestações de junho foram marcadas por
situações distintas que inter-relacionaram agendas de âmbito nacional, regional e local,
revelando uma das principais características das manifestações: a ressignificação das agendas
a partir das demandas locais.
Para Pinto, professor de Direito da Universidade de São Paulo (USP), tudo começou
com o aumento de R$ 0,20 (vinte centavos) no valor da tarifa transporte público no estado de
São Paulo. Para ele, o aumento nessa tarifa, além de ocasionar uma despesa maior para os
usuários, não assinalava melhora na qualidade da prestação de serviços públicos relacionados
a mobilidade urbana7. A questão do aumento no valor da tarifa do transporte público em São
Paulo apareceu em muitas entrevistas, documentários e artigos, durante ou logo depois de
junho de 2013, como argumento utilizado para explicar os motivos daquelas manifestações de
rua no Brasil. E, fundados nesse argumento, as manifestações ocorridas na cidade de São
Paulo passaram a ser balizadas por alguns pesquisadores como o epicentro deste fenômeno
social8.
Para estes pesquisadores, a decisão tomada pelo prefeito Fernando Haddad, filiado ao
Partido dos Trabalhadores (PT), de anunciar que o valor da tarifa do transporte público
aumentaria para R$ 3,20 (três reais e vinte centavos), sob a alegação de correção dos custos
para manutenção do sistema de mobilidade urbana, foi repulsada pela população e, em
particular, pelos ativistas do Movimento Passe Livre/São Paulo (MPL)9.
Para o MPL, movimento que também defende a desmercantilização do transporte
público10, a liberdade de ir e vir dentro das cidades possui um custo que representa um valor

7

PINTO, Otávio Luiz Vieira. “Os protestos no Brasil, ou sobre como a passagem de ônibus revelou
contradições”. In: The International Journal of Badiou Studies. Volume Two, Number One, 2013, p.156-159.
8
CALIL, Gilberto. “Embates e disputas em torno das Jornadas de junho”. In: Projeto História, São Paulo, n. 47,
Ago. 2013, p.2-27.
9
JUDENSNAIDER, Elena; Et al. Vinte Centavos: a luta conta o aumento. São Paulo: Veneta, 2013.
10
MPL/SP. “Apresentação”. In: Passe Livre. Disponível em: <http://saopaulo.mpl.org.br/apresentacao/>
Acessado em 31/01/2015.

19

significativo na renda mensal dos cidadãos 11 . Assim, o aumento na tarifa, tanto para os
militantes do MPL/São Paulo quanto para alguns pesquisadores, foi percebido de forma
negativa, pois, em vez de contribuir para melhorar a mobilidade urbana, auxiliava para
acentuar o quadro de estresse nas cidades.
O argumento, já exposto, de que o aumento na tarifa do transporte público
desencadearam as manifestações de rua em junho, ocasionou dentro e fora da academia uma
disputa pelos significados desse fenômeno. Em entrevista, Badaró, pesquisador do campo da
história do trabalho, afirmou que não existia uma única explicação para este fenômeno. Para
ele, não foi apenas os R$ 0,20 (vinte centavos), mas também em razão da truculência policial
contra os protestos a responsável pela ampliação das manifestações de junho de 201312.
O historiador Calil, ao analisar essas manifestações, também identificou como
responsável pelo crescimento desse fenômeno social e histórico a truculência policial contra
os manifestantes nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, pois, para ele, a repressão
policial em vez de conter a multidão contribuiu para fortalecê-la 13 . Nessa perspectiva, a
reação da multidão em relação à truculência policial não é algo inédito no Brasil, uma vez que
como destacou a historiadora Virgínia Fontes, a violência do Estado, traduzida a partir da ação
de seu aparato policial reflete a remexida em uma ferida enraizada na história brasileira14.
Em outra perspectiva, a jornalista Erthal destacou o papel do jornalismo tradicional e
das narrativas independentes para o processo de deflagração das manifestações de junho. Para
ela, de um estado a outro, era possível ter informações sobre o que estava ocorrendo nas ruas,
fosse através da grande mídia ou das redes sociais 15 . Essas redes, inclusive, para muitos
pesquisadores foram imprescindíveis para a deflagração e ampliação do fenômeno de junho,
16

pois, se tornaram um dos principais meios de informação e comunicação para manter

11

Op. cit.
BADARÓ, Marcelo. “Junho de 2013: Eco das manifestações”. Entrevista com Marcelo Badaró [entrevista
concedida à Viviane Tavares]. In: Ecodebate: cidadania e meio ambiente, 05/07/2013. Disponível em:
<http://www.ecodebate.com.br/2013/07/05/junho-2013-eco-das-manifestacoes-entrevista-com-marcelobadaro/>. Acessado em 30/09/2013.
13
CALIL, Gilberto. “Embates e disputas em torno das Jornadas de junho”. In: Projeto História, São Paulo, n.
47, Ago. 2013, p.2-17.
14
FONTES, Virgínia. “Ampliação do Estado e coerção no Brasil – democracia e nacionalização truncada (o DIP
e o modelo de violência seletiva)”. In: Reflexões Im-pertinentes: história e capitalismo contemporâneo. Rio de
Janeiro: Bom texto, 2005, p.179-201.
15
ERTHAL, Ana Amélia. “O jornalismo tradicional e as narrativas independentes: o caso da cobertura das
manifestações populares de 2013 no Brasil”. In: ESPM/ Central de Cases. Disponível em:
<WWW.espm.br/centraldecases>. Acessado em 12.08.2014.
16
Op. cit.
12

20

conectados os movimentos sociais, ajudando a promover também aquilo que a socióloga
Maria da Glória Gohn designou de “novos tipos de movimentos sociais”17.
Não é novidade que com a democratização do acesso ao ambiente da web, novas
formas de relações sociais foram inventadas e novas formas de entender e participar dos
protestos de rua foram criadas18. A comunicação digital em rede oportunizou aos usuários das
mídias digitais a possibilidade de tomar conhecimento de manifestações de rua de várias
formas. E, em junho, a utilização das redes sociais, sobretudo do Facebook, para chamar as
manifestações, foi um ato corriqueiro dos integrantes do Movimento Passe Livre, dos partidos
políticos, do movimento estudantil, dos coletivos anarquistas, entre outros grupos políticos.
Por um lado, para Silva, pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), as
redes sociais disseminaram informações e ideias comuns entre os usuários da internet,
permitindo que os manifestantes questionassem a veracidade da cobertura jornalística da
grande mídia19. Mas, por outro lado, para Alzamora e Rodrigues, a atuação da grande mídia
foi decisiva no momento que ela entrou na disputa pelos sentidos das manifestações e passou
a denegrir ou elogiar a ação de alguns grupos de manifestantes e da própria manifestação20.
A grande mídia, em junho de 2013, procurou dar ênfase ao tema do antipartidarismo,
da corrupção e da aversão aos governantes21. Isso porque, depois de anunciada a revogação do
aumento no valor da tarifa do transporte público, em São Paulo, a multidão continuou nas
ruas e a grande mídia procurou dar um sentido para elas, trabalhando para que a mesma
atacasse ainda mais o governo federal e os partidos de esquerda22.
Essas interpretações sobre o aumento dos R$ 0,20 (vinte centavos) na tarifa do
transporte público, a truculência policial contra os manifestantes e o papel das diferentes
mídias em junho de 2013, entretanto, não encerraram a produção bibliográfica sobre o
fenômeno de junho no Brasil. E, no momento em que encerramos esta dissertação, apenas um
estudo exploratório sobre esse fenômeno em Delmiro Gouveia, cidade localizada no Alto
Sertão deste estado, tinha sido desenvolvido em um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC)
17

GOHN, Maria da Glória. Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
18
Op. cit.
19
SILVA, Irley David Fabrício da. “A importância das redes sociais nos protestos urbanos, da rede às ruas”.
In:XI EVIDOSOL e VIII CILTEC-Online - junho/2014, p.2. Disponível em: <http://evidosol.textolivre.org.>.
Acessado em 09/09/2014.
20
ALZAMORA, Geane Carvalho;RODRIGUÉS, TacyanaKarinnaArce.“Fora Rede Globo”: a representação
televisiva das “Jornadas de Junho” em conexões intermídia”. In: Revista Ecopós .V. 17 .N. 1.2014, p.1-12.
21
CALIL, Gilberto. Embates e disputas em torno das Jornadas de junho. In: Projeto História, São Paulo, n. 47,
Ago. 2013, p.2-27.
22
Op. cit.

21

intitulado “Das mídias às ruas do sertão: as manifestações de junho de 2013 em Delmiro
Gouveia, Alagoas23”.
Desse modo, para pensar os desdobramentos dessas manifestações em Alagoas, nas
cidades de Maceió e de Delmiro Gouveia, dialogamos com a literatura produzida sobre esse
fenômeno social em outros estados. Os artigos, livros, documentários e entrevistas já
acumulados sobre esse fenômeno foram significativos para a produção desta dissertação, pois,
a partir delas, conseguimos visualizar um acontecimento heterogêneo, fragmentado e
complexo, construído por diferentes pautas de reivindicação, pelo uso das redes sociais, pela
cobertura jornalística e pelo jogo de interesses da grande mídia e de grupos políticos com
interesses contraditórios.
A pesquisa desenvolvida sobre o fenômeno de junho em Alagoas, nesse sentido, foi
realizada a partir de dois desafios: o de contextualizar esse acontecimento em meio a literatura
já produzida, grande parte dela focada nos desdobramentos da referida manifestação ocorrida
nos estados das regiões Sul e Sudeste; e o de lidar com as discussões teóricas relativas a
História do Tempo Presente e, principalmente, a História Imediata24.
Segundo Chauveau, a História do Tempo Presente (HTP) surgiu de uma demanda
social, isto é, nasceu não apenas para ser um atestado historiográfico, mas para discutir sobre
acontecimentos e problemas vivenciados pelo historiador 25 . Já a História Imediata (HI),
conforme Marcílio, surgiu da necessidade do historiador procurar estudar um período
histórico inacabado, no qual ele mesmo se insere e estuda com o auxílio de outras áreas do
conhecimento26.
Conforme Lacouture, a história imediata refere-se a um campo de pesquisa que “não
para de se mexer, recusando um verdadeiro enquadramento, bem como uma acomodação
satisfatória” 27 . Ela mantém uma relação intrínseca com o jornalismo na medida em que
precisa da escrita rápida e efêmera dos jornalistas para estudar o acontecimento 28 . Para a

23

GOMES, Sara Angélica Bezerra. Das mídias às ruas do Sertão: as Manifestações de Junho de 2013, em
Delmiro Gouveia/Alagoas. Delmiro Gouveia: UFAL/Campus do Sertão, 2014 (Trabalho de Conclusão de
Curso).
24
FERREIRA, Marieta de Moraes. “História, tempo presente e história oral”. In:Topoi. Rio de Janeiro,
dezembro 2002, p.314-332.
25
CHAUVEAU, Angés; TÉTART, Philippe. “Questões para a História do Presente”. In: Questões para a
história do presente. Tradução Ilka Stern Cohen. Bauru, SP: EDUSC, 1999, p.7-37.
26
MARCILIO, Daniel. “O Historiador e o Jornalista: A História imediata entre o ofício historiográfico e
atividade jornalística”. In:Aedos, n° 12, vol. 5 - Jan/Jul 2013, p. 52.
27
LACOUTURE, Jean. A História Imediata. In: LE GOFF, Jacques (Org.). A História Nova. São Paulo:
Martins Fontes, 1990, p.216.
28
Op. cit.

22

história imediata, o trabalho dos jornalistas mantém uma relação com a escrita dos
historiadores, pois, ainda segundo Lacouture, “a imprensa e os pesquisadores “imediatistas”
abriram para si a porta dos arquivos. Os historiadores sabem considerar o presente e aplicar às
suas convulsões seu rigor profissional”29.
Os historiadores imediatistas, entretanto, ao pesquisarem sobre os acontecimentos
recentes, não estudam apenas o que é produzido pelos jornalistas, mas o período que precedeu
esse acontecimento30. Isso porque “o jornalista é menos aquele que trabalha com pressa do
que aquele que manipula poucos fatos, observações, casos” 31 . E, ainda como pensou
Lacouture, a “história imediata não aspira apenas à rapidez dos reflexos. Ela quer se elaborar
a partir desses arquivos vivos que são os homens”32.
Assim, diferente de outros campos da pesquisa histórica, o objeto da HTP não é
definido apenas a partir de um corte temporal específico e pela possibilidade de trabalhar com
variados tipos de fontes 33. Conforme Mudrovcic, o que delimita o objeto de estudo desse
campo é o presente histórico, categoria utilizada para entender em que medida as gerações do
passado e do presente se mantém unidas34.
Segundo Lagrou, a prática dos historiadores do tempo presente independentemente
de qualquer pressuposto ou de qualquer definição confirma que o presente começa cada vez
com a última catástrofe datada ou, ao menos, com a última grande ruptura35. Desse modo, os
acontecimentos do presente recente são objetos de estudo desse campo, pois eles representam
“acontecimentos sociais, que constituem memórias de pelo menos uma das três gerações que
compartilham um mesmo presente histórico”36, ou seja, são acontecimentos cujas sequelas do
passado ainda não foram resolvidas no presente histórico.
A HI e a HTP, nesse sentido,voltam-se para questões ainda em aberto para a
sociedade, porque ainda como ressaltaram Lacouture, Chauveau e Tétart, elas se detêm aos

29

Op.cit., p. 238.
MUDROVCIC, Maria Inés. Por que Clio retornou a Mnemosine? In: AZEVEDO, Cecília; et al (Org.).
Cultura política, memória e historiografia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
31
LACOUTURE, Jean. A História Imediata. In: LE GOFF, Jacques (Org.). A História Nova. São Paulo:
Martins Fontes, 1990, p.218.
32
Op. cit.,p.217.
33
MUDROVCIC, Maria Inés. Por que Clio retornou a Mnemosine? In: AZEVEDO, Cecília; et al (Org.).
Cultura política, memória e historiografia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
34
Op. cit.]
35
LAGROU, Pieter. Sobre a atualidade da História do Tempo Presente. In: PÔRTO JR., Gilson. (org.). História
do Tempo Presente. Bauru, SP: Edusc, 2007, p.37.
36
Op. cit.
30

23

problemas relacionados ao próprio percurso histórico 37 . E, conforme Alberti, para esses
campos de pesquisa não “se trata de discuti o valor real dos fatos na história, mas sua
percepção e as condições históricas nas e pelas quais eles são percebidos” 38 . Assim, as
manifestações de junho de 2013 se inserem na perspectiva desses dois campos de pesquisa
porque questões sociais, políticas e culturais expostas pelas multidões nas ruas, revelaram
resquícios do passado em aberto na agenda de debates do presente e porque, como ressaltou
Bloch, uma realidade é compreendida por suas causas passadas39.
Os feitos humanos devem ser estudados pelos historiadores, independente da data e
do lugar onde foram realizados, pois, como afirmou Bloch, nunca se explica um fenômeno
histórico fora de seu contexto e porque o importante é levar em consideração os aspectos
desse fenômeno e não apenas o fato em si40. Assim, embora os historiadores imediatistas não
possam tirar conclusões definitivas sobre um evento recente, uma vez que como ressaltou
Lacouture, a história imediata não é responsável por apresentar conclusões definitivas 41, as
manifestações de junho se configuram como parte de um presente histórico e, portanto, como
um fenômeno importante para ser estudado pelos historiadores.
Dessa forma, para refletir sobre essas manifestações de junho em Alagoas, foi
necessário dialogar com diferentes tipos de fontes, sobretudo porque como ressaltou Bloch,
“seria uma grande ilusão imaginar que cada problema histórico corresponde um tipo único de
documentos, específicos para tal emprego”42. Dentro desta perspectiva, quatro tipos de fontes
foram centrais para realização desta pesquisa: os periódicos do jornal Gazeta de Alagoas, as
fontes digitais, as fontes orais e as fontes iconográficas. A fonte oral, entretanto, configurou-se
como uma das mais importantes para esta dissertação.
As primeiras informações recolhidas para esta pesquisa foram retiradas de sites e
blogs ou de páginas pessoais no Facebook, rede social usada por jovens estudantes,
trabalhadores, militantes, entre outras pessoas, para compartilhar, conversar e informar sobre
acontecimentos relacionados às manifestações de junho.

37

CHAUVEAU, Angés; TÉTART, Philippe.“Questões para a História do Presente”. In: Questões para a
história do presente. Tradução Ilka Stern Cohen. Bauru, SP: EDUSC, 1999, p.34; LACOUTURE, Jean. A
História Imediata. In: LE GOFF, Jacques (Org.). A História Nova. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p.215-240.
38
ALBERTI, Verena. “Histórias dentro de História”. In: PINSKY, Carla Bessanezi (Organizadora). Fontes
Históricas. 2.ed.. São Paulo: Contexto, 2008, p.167.
39
BLOCH, Marc. A história, os homens e o tempo. In: Apologia da história ou o ofício de historiador.
Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p.62.
40
Op. cit.;p.60-61.
41
LACOUTURE, Jean. A História Imediata. In: LE GOFF, Jacques (Org.). A História Nova. São Paulo: Martins
Fontes, 1990, p.215-240.
42
Op. cit.; p.80.

24

As informações retiradas de sites, blogs e do Facebook foram utilizadas porque
tornaram visíveis as disputas políticas que estavam em curso durante essas manifestações. Nas
cidades de Delmiro Gouveia e de Maceió, por exemplo, esta rede social foi muito utilizada em
junho por estudantes da Universidade Federal de Alagoas/ Campus do Sertão e Campus A.
C.Simões, por manifestantes filiados a partidos políticos, ao movimento estudantil
universitário e secundarista e por manifestantes vinculados aos coletivos anarquistas, para
curtir, comentar, postar mensagens, artigos, fotos, entrevistas e depoimentos, revelando um
lugar social usado para a reprodução de interesses divergentes e a exibição de problemas do
presente e/ou do passado.
As informações recolhidas da internet registram um grande número de informações
sobre as manifestações de junho, pois pesquisadores, políticos, ativistas e a sociedade
esculpiram suas impressões sobre o que estava acontecendo no Brasil durante e depois de
encerrado esse fenômeno. Desse modo, algumas informações foram recolhidas do facebook e
de sites e blogs, dentre eles: G1, o UOL, Gazeta de Alagoas, Passe Livre, entre outros.
A fonte oral, obtida através do uso metodológico da história oral, reuniu quinze
entrevistas com pessoas que participaram das manifestações de junho, nas cidades de Maceió
e de Delmiro Gouveia. A escolha da metodologia da história oral deu-se porque além dela
estar em conformidade com as discussões atinentes a HTP e da HI, ela contribui para relevar
diferentes faces da história verbalizadas pelos sujeitos entrevistados 43 . Essas entrevistas
representaram a parte mais rica deste estudo, pois, como Bloch destacou, esse tipo de fonte
pode se tornar inquietante a partir do momento em que não nos resignamos mais a registrar
simplesmente as palavras de nossas testemunhas, a partir do momento em que tencionamos
fazê-las falar44.
Conforme Alberti, a história oral não foi retomada apenas para conhecer ou rever a
história dos excluídos, mas para estudar as formas de articulação dos sujeitos envolvidos em
um acontecimento45. A recuperação de memórias individuais e coletivas através do diálogo
entre entrevistador e entrevistado, ao produzir uma fonte oral preenche lacunas deixadas por
outros tipos de fontes46.

43

ALBERTI, Verena. “Histórias dentro de História”. In: PINSKY, Carla Bessanezi (Organizadora). Fontes
Históricas. 2.ed.. São Paulo: Contexto, 2008, p.165.
44
BLOCH, Marc. A observação histórica. In: Apologia da história ou o ofício de historiador. Tradução André
Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p.78.
45
Op. cit. p.66.
46
Op. cit.p.166.

25

A memória recuperada através da construção de uma fonte oral, entretanto, como
observou Ricceur, não é a verdade e muito menos uma lembrança47. A lembrança está ligada a
uma forma de narrativa da memória e se apresenta isoladamente, enquanto a memória é algo
mais elaborado e está relacionada ao passado48. Esse passado recuperado através da memória
é o que interessa para a História, pois, como destacou Alberti, “é de acordo com o que se
pensa que ocorreu no passado que se tomarão determinadas decisões no presente”49.
Nessa perspectiva, a escolha dos entrevistados para esta pesquisa não foi aleatória.
Os escolhidos para serem entrevistados estavam atuando nas manifestações de junho, levando
pautas de reivindicação às ruas ou apoiando de alguma forma os manifestantes. Alguns
entrevistados, inclusive, estavam à frente do processo de organização desse fenômeno em
Alagoas e eram filiados a partidos de esquerda, a coletivos anarquistas e ao movimento
estudantil universitário.
Os entrevistados narraram suas experiências e, ao mesmo tempo, sobre a atuação dos
partidos para os quais militavam durante as manifestações de junho ocorridas em duas cidades
do estado de Alagoas. Suas narrativas foram escolhidas para esta dissertação, porque o
objetivo era estudar as especificidades das manifestações de junho no estado de Alagoas, a
partir de algumas questões surgidas durante essas manifestações, como: o argumento do
antipartidarismo, a diversidade de reivindicações, o aumento no valor da tarifa do transporte
público, entre outras. Como é difícil uma pesquisa abordar todos os aspectos de um
acontecimento, esta dissertação tratou apenas de algumas particularidades a partir também das
narrativas dos entrevistados, uma vez que eles pensaram de diferentes formas as
manifestações de junho e essas questões trazidas com este fenômeno.
Na cidade de Delmiro Gouveia foram realizadas dez entrevistas. Seis com estudantes
e ex-estudantes da Universidade Federal de Alagoas/Campus do Sertão. Dois desses
entrevistados eram filiados a um coletivo anarquista, o Coletivo Libertário Delmirense
(COLIDE). Os outros estudantes eram professores, advogados ou blogueiros que participaram
ou prestaram apoio às manifestações de junho ocorridas naquela cidade sertaneja ou em outras
cidades de Alagoas. E, além desse público universitário, também foram entrevistados dois

47

RICCEUR, Paul. “Da memória e da reminiscência”.In:A memória, a história e o esquecimento. Tradução;
Alain François. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.
48
Op. cit.
49
ALBERTI, Verena. “Histórias dentro de História”. In: PINSKY, Carla Bessanezi (Organizadora). Fontes
Históricas. 2.ed.. São Paulo: Contexto, 2008, p.167.

26

motoristas do Alto Sertão, um ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de
Alagoas (SINTEAL) e um vereador filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
Na cidade de Maceió foram realizadas cinco entrevistas. As cinco pessoas escolhidas
eram filiadas a partidos políticos, dentre eles, um militante do Partido Comunista Brasileiro
(PCB); um militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU); um
militante do Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP); Um militante do Espaço
Socialista (ES) e um militante do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Esses militantes
também eram professores ou estudantes da Universidade Federal de Alagoas (UFAL/Campus
A.C. Simões).
Outras pessoas vinculadas a outras organizações e a outros partidos políticos que
participaram das manifestações de junho em Alagoas, não foram entrevistadas para esta
pesquisa porque estavam com as agenda indisponível. E, entre as quinze entrevistas realizadas,
algumas foram mais usadas do que outras nesta dissertação e as narrativas de alguns
entrevistados não foram citadas neste texto. Mas, todas as narrativas recolhidas, citadas ou
não neste trabalho, contribuíram para a construção do mesmo.
No que tange o uso das fontes icnográficas, grande parte desse material foi retirado
da internet, do Facebook. Outras foram retiradas do Arquivo do Grupo de Estudos e Pesquisa
em História, Sociedade e Cultura (GEPEHISC) da Universidade Federal de Alagoas/Campus
do Sertão, que dispõe de um acervo de fotos e de vídeos sobre as manifestações de junho de
2013 na cidade de Delmiro Gouveia, Sertão de Alagoas.
Entendidas como um conjunto de múltiplas informações, as fotografias se tornaram
elementos de suporte para a discussão. Ela foi essencial para esta dissertação, pois suas
informações visuais foram resgatadas e interligadas com outras fontes. Com as fotografias
disponíveis na internet e junto ao Acervo do GEPHISC, buscamos observar, desse modo, o
entrelaçamento entre fotógrafo-câmara-assunto de cada produção visual, no intuito de
compreender a relevância da imagem para pensar o contexto.
Balizado pelo uso das fontes mencionadas e pelo diálogo teórico e metodológico
com a bibliografia trabalhada, esta dissertação está organizada em três seções. Na primeira,
intitulada “Manifestações de Junho de 2013 nas cidades Delmiro Gouveia e Maceió: um
fenômeno multicêntrico” discute-se os possíveis motivos que deram origem as manifestações
de junho no Brasil, as polêmicas e temas de reivindicação que marcaram as ruas das cidades
Maceió, no Litoral, e Delmiro Gouveia, no Sertão, em junho de 2013, assim como as
diferentes interpretações e significados atribuídos a este fenômeno.
27

A segunda seção, intitulada “A manifestação de junho em Maceió”, discute o porquê
das manifestações de junho na cidade de Maceió apresentaram um perfil diferente em relação
àquele que marcou esse fenômeno no Sul e Sudeste do Brasil. Nesse capítulo é debatido o
motivo provocador do início dessas manifestações nesta cidade alagoana, os temas de
reivindicação levados àsruas pela multidão, a atuação da grande mídia e o uso das redes
sociais pelos manifestantes, as disputas políticas deflagradas entre os militantes vinculados a
diferentes grupos políticos no decorrer deste fenômeno.
E a terceira seção, intitulada“Faces das Manifestações de Junho no Sertão”, aborda
algumas questões e contradições que marcaram as pautas de reivindicação levadas àsruas pela
multidão durante as manifestações de junho na cidade de Delmiro Gouveia. Neste capítulo,
discute-se a atuação dos anarquistas, a influência do Movimento Passe Livre (MPL) no
processo de unificação da luta em torno do transporte público, a compreensão da multidão a
respeito das pautas de reivindicação e, por último, as relações de poder que foram
reproduzidas dentro das redes sociais e nas ruas.

28

1.1 - MANIFESTAÇÕES DE JUNHO DE 2013 NAS CIDADES DELMIRO GOUVEIA
E MACEIÓ: UM FENÔMENO MULTICÊNTRICO

1.1.1. Um fenômeno histórico

As manifestações deflagradas em várias cidades brasileiras, em junho de 2013,
inicialmente motivadas em razão do aumento nas tarifas dos transportes públicos, não tiveram
“nada de tolo ou velhaco”, afirmou Flávio Morgenstern, em seu trabalho “Por trás da
máscara”50. Esta afirmação, escrita por um analista político do Instituto Liberal, não obstante
sua perspectiva ideológica, destaca o significado político dos referidos protestos que
surpreendeu o país, alcançando projeção junto aos órgãos de imprensa e às redes sociais.
Esses protestos, a princípio, pareciam representar revoltas pontuais contra o aumento
no valor de tarifas do transporte público em 2013. Entretanto, elas alcançaram uma dimensão
multicêntrica que enlaçou diferentes cidades dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia,
Minas Gerias, Alagoas, Pernambuco, entre outros.
No estado de Alagoas, escopo desta pesquisa, aos menos duas cidades, Maceió, no
Litoral, e Delmiro Gouveia, no Sertão, registraram protestos relacionados às denominadas
Manifestações de junho de 2013. E, a exemplo das demais cidades do país, observou-se
protestos de rua relacionados à mobilidade urbana e a uma série de outras demandas
acumuladas pelos moradores de Alagoas. Estas manifestações em Maceió e em Delmiro
Gouveia, apesar de terem ocorrido no mesmo período, apresentaram configurações distintas.

1.1.2.Um protesto em torno do transporte público

As manifestações de junho de 2013 rapidamente se transformaram em um fato
histórico de interesse imediato. Enquanto nas primeiras manifestações ocorridas na cidade de
São Paulo, a questão econômica ganhou relevância entre a multidão, em razão do aumento no
valor da tarifa do transporte público; nas cidades alagoanas, em Maceió e em Delmiro
Gouveia, outras dimensões foram acrescidas às demandas dos manifestantes. Enquanto em

50

MORGENSTERN, Flávio. “Capitatiobenevolentiae”. In: Por trás da máscara. Rio de Janeiro: Record, 2015,
p.17.

29

São Paulo, desde o dia 06 de junho de 2013, as ruas eram agitadas por passeatas pela redução
no valor da tarifa, em Maceió, o governador e o prefeito ainda estavam discutindo junto com
aAssociação dos Transportadores de Passageiros do Estado de Alagoas (TRANSPAL) o
aumento tarifário do transporte público 51 . E, na cidade de Delmiro Gouveia, não existia
sequer sistema de transporte público semelhante ao de Maceió52.
Na capital alagoana, o aumento de R$ 0,55 (cinquenta e cinco centavos) na tarifa,
que estava previsto para acontecer no mês de junho, ainda não havia sido efetivado, e, na
cidade Delmiro Gouveia, o que havia era uma mobilidade urbana privada, precária e não
regular53. Em ambas as cidades, esse era um dos primeiros pontos que chamava atenção em
relação às manifestações ocorridas em outros estados.
Para Lopes, militante do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU)54,
“quando estourou o aumento das passagens e tudo isso, o pessoal de São Paulo, já me ligou e
tal, falou sobre a possibilidade de marcar uma coisa aqui, uma mobilização” 55 . Na
interpretação desse militante, o motivo impulsionador para o início dos protestos em Maceió
foi inspirado nos protestos contra o aumento na tarifa do transporte público em São Paulo e,
por consequência, na expectativa de que o apoio àquele protesto colaborasse na mobilização
contra a efetivação do aumento da tarifa do transporte público em Maceió.
Na cidade Delmiro Gouveia, ao contrário de Maceió, o transporte público se tornou
51

MACENA, Lelo. “Decisão sobre passagem é adiada”. In:Gazetaweb. Edição do dia 13 de junho de 2013.
Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em
13/12/2013.
52
NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 19/01/ 2016. In:
Acervo do GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas. Edvaldo
Francisco do Nascimento é graduado em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Quando foi
entrevistado no ano de 2015 para esta pesquisa, estava cursando doutorado em Educação pela Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE) e estava vereador na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas. Nascimento era
integrante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e narrou sobre sua participação nas Manifestações de Junho
de 2013 na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas.
53
GOMES, José Raimundo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 31/03/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas. José Raimundo
Gomes é aposentado e morador da cidade Água Branca/Alagoas. Em 2014, quando entrevistado para esta
pesquisa, ela narrou sobre sua experiência durante o período em que esteve motorista do transporte
intermunicipal no Sertão do estado de Alagoas.
54
O PSTU nasceu no final do século XX. Entre as correntes políticas que formaram esse partido destaca-se a
presença do socialismo. O PSTU não prioriza as eleições, mas a ação direta como meio de transformar a
realidade. É um partido composto por militantes que atuam no movimento sindical, estudantil e popular. A esse
respeito ver: <http://www.pstu.org.br/partido>.
55
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. Wibsson Ribeiro
Lopes é graduado em História pela Universidade Federal de Alagoas/ Campus A. C. Simões. No ano de 2015,
quando foi entrevistado para esta pesquisa, Lopes cursava mestrado em História pela UFAL e estava professor de
História da rede pública, em uma escola de Ensino Médio da cidade de Maceió. Lopes era integrante do Partido
Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU) e narrou sobre a sua experiência nas Manifestações de Junho de
2013 ocorridas na cidade de Maceió/Alagoas.

30

um tema presente em vários cartazes erguidos pela multidão por outro motivo. Na referida
cidade sertaneja, a mobilidade urbana em junho de 2013 ainda estava sob a responsabilidade
dos motoristas dos táxis e mototáxis, ou de algumas cooperativas, organizadas por motoristas,
que realizavam a mobilidade intermunicipal ou interestadual no Sertão56. Não havia transporte
público funcionando em Delmiro Gouveia, com tarifa e horário regulares, embora houvesse
pontos de ônibus espalhados por esta cidade57.
Na cidade a ausência de um sistema de transporte púbico urbano regular,
aparentemente refletia em um tipo de “omissão” dos governos municipal e estadual com
relação à mobilidade urbana no Sertão alagoano. A esse respeito, dois ex-motoristas,
moradores da cidade Água Branca, situada a 19 Km de Delmiro Gouveia, comentaram que o
poder público não criou nenhum projeto de lei sobre a questão da mobilidade urbana para o
Alto Sertão58. Mas os referidos ex-motoristas não comentaram os motivos para essa omissão
do poder público, e, esse silêncio, por um lado, revela uma apatia do governo sobre a política
de transporte; e, por outro, o atendimento de interesses de grupos e/ou pessoas que se
beneficiam da ausência efetiva da referida política59.
Em Delmiro Gouveia, não foi, portanto, o aumento no valor da tarifa do transporte
coletivo que causou a revolta da multidão, porque na cidade ainda se planejava a
regularização do sistema de transporte público. O sentido da luta em torno do transporte
variou de um estado a outro e de uma cidade a outra. A esse respeito, um militante comentou
que as manifestações em Delmiro chegaram quase como uma brincadeira, pois a multidão nas
ruas passou a ideia de que estava tudo bem, porque elas estavam rindo ou indo com seus
cartazes, levando temas variados, como o “’Fora Feliciano’, contra a ‘PEC 37’”60.

56

GOMES, José Raimundo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 31/03/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
57
KUBRUSLY, Maurício. “Só falta o principal”. In: Globo.com, 25/06/2008. Disponível em:
<http://g1.globo.com/fantastico/quadros/me-leva-brasil/platb/tag/delmiro-gouveia/>. Acessado em 20/06/2015.
58
GOMES, José Raimundo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 31/03/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.; FREIRE, José
Flávio de Araújo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 28/08/2015. In: Acervo do GEPHISC\
Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas. José Flávio de Araújo Freire
foi motorista do transporte intermunicipal no Sertão do estado de Alagoas. Em 2014, quando entrevistado para
esta pesquisa, Freire estava presidente do Conselho Tutelar na cidade de Água Branca/Alagoas. Ele narrou sobre
sua experiência durante o período em que esteve motorista no Sertão de Alagoas.
59
Op. cit.
60
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por José Vieira da Cruz em 14/ 11/ 2014. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. Uédson José da
Silva é graduado em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Quando entrevistado no ano de
2014 e de 2016 para esta pesquisa, estava cursando Licenciatura em História pela Universidade Federal de
Alagoas/ Campus do Sertão e estava professor do ensino básico em uma escola municipal da cidade Delmiro

31

Para Almeida, militante do Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP)61, o
que melhor caracteriza o sentido inicial das manifestações de junho, no Litoral ou no Sertão
alagoano, é a comoção social com a truculência policial que impulsionou os manifestantes a
demonstrarem solidariedade com as manifestações em torno do transporte coletivo iniciadas
em São Paulo62. Mas as manifestações de junho, nas duas cidades alagoanas, possuem, para o
militante, um sentido diferente em função dos seus próprios problemas históricos.
Como ressaltou o historiador Rudé, em seus estudos sobre a multidão, os
desequilíbrios econômicos não são os únicos capazes de gerar revolta popular 63 . Outros
sentimentos também podem ser decisivos para a ocupação de praças, avenidas e ruas. Nesses
casos, tudo dependerá de como as questões estruturais ou conjunturais afetam o imaginário e
o cotidiano da multidão, sobretudo daquelas pessoas que não possuem rendimentos ou têm
baixos salários.

1.1.3.Uma manifestação multicêntrica
As vozes foram polissêmicas porque nelas cabia tudo. Não houve tema ou problema
que lhes tenha passado despercebido. Foram assim porque os problemas sociais são
enormes e porque o movimento que as embalou não aceitava hierarquias, comandos
ou planejamento64.

Os protestos de junho catalisaram, para além da questão da mobilização urbana,
inúmeras pautas: segurança, saúde, educação, ética, entre outras. Para Nogueira, na epígrafe
acima, isso ocorreu porque o acúmulo de demandas sociais ao longo do tempo provoca
insurgências suscetíveis às quebras de hierarquia, de comando e de planejamento.
Nesta linha de argumentação, Maricato avaliou que as cidades dependem de políticas
de “transporte, moradia, saneamento, educação, saúde, lazer, iluminação pública, coleta de

Gouveia/ Alagoas. Silva tambémera integrante do Coletivo Libertário Delmirense (COLIDE) e narrou sobre sua
participação nas Manifestações de Junho de 2013 ocorridas na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas.
61
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas. João Carlos de
Almeida é graduado em Jornalismo pelo Centro Universitário Cesmac. Quando entrevistado, no ano de 2015,
trabalhava no município de Joaquim Gomes no estado de Alagoas, como eletricista da Eletrobrás e era integrante
do Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP). Almeida narrou sobre sua experiência nas Manifestações
de Junho de 2013 deflagradas na cidade de Maceió/Alagoas.
62
Op. cit.
63
RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, RJ, 1964.
64
NOGUEIRA, Marco Aurélio. “Depois de Junho: sobre as respostas governamentais”. In: As ruas e a
democracia: ensaios sobre o Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013, p.71.

32

lixo, segurança”65 para garantirem o bem-estar de seus moradores.

Ela ainda destacou que a

inexistência ou a péssima qualidade dessas políticas pode se tornar motivo para inquietação
nas ruas. Essa discussão estimulou alguns pesquisadores como a arquiteta Ermínia Maricato e
o geógrafo David Harvey66,a avaliarem, desse modo, que é difícil compreender o fenômeno
de junho sem entender a crise urbana brasileira.
Em Maceió e em Delmiro Gouveia, a desigualdade socioespacial e a disparidade na
prestação de serviços sociais públicos incitaram a multidão a ir às ruas, ocasionando euforia e
a expansão das manifestações de junho67. Nessas duas cidades a questão da saúde, educação,
lazer, entre outras, foram temas de reivindicação tão importantes quanto o tema do transporte
público desde o início dos primeiros protestos.
Essas questões, entretanto, foram apresentadas de diferentes formas e revelaram um
conjunto de interesses políticos que ficaram evidentes devido à atuação de grupos políticos
distintos. Desta forma, observa-se que o fenômeno das manifestações de junho foi marcado
por diferentes interesses, pois, em São Paulo, no Rio de Janeiro, na Bahia ou em Alagoas,
ocorreu aquilo que Rudé chamou de “fundição das ideologias”68. Essa fundição se refere ao
processo no qual se cruzam ideologias voltadas à estruturação de determinada noção de
Estado frente às ideologias comprometidas com a transformação da realidade formuladas a
partir de outros horizontes69.
Na foto abaixo, registrada durante o fenômeno de junho de 2013 na cidade Delmiro
Gouveia, é possível perceber algumas reivindicações propostas nos protestos e como elas
envolveram temáticas que vão de questões éticas, próprias do campo político, às demandas
cotidianas relativas ao funcionamento da sociedade. Essas reivindicações refletem um
exemplo noção de “fundição de ideologias”, tal como propõe Rudé. Elas surgiram em parte
devido a atuação da grande mídia e ao uso das redes sociais, aos problemas locais desta

65

MARICATO, Ermínia. “É a questão urbana, estúpido!”. In: MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes:
Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013,p.20.
66
HARVEY, David. A liberdade da cidade. In: In: MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: Passe Livre
e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013.
67
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. ; MACIEL,
Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas. ; Anônimo.
Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 21/01/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro de
Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
68
RUDÉ, George. “Ideologia e consciência de classe”. In: Ideologia e protesto popular. Londres: Zahar, 1980,
p.13-36.
69

Op. cit.

33

cidade sertaneja e a atuação de diferentes grupos políticos.

Foto 1 -Manifestantes segurando cartazes durante as
manifestações de junho de 2013 com os temas da “PEC-37Ladrão: o sonho do político”; “Violência é o que vivo
diariamente” entre outros, cidade de Delmiro
Gouveia/Alagoas.
Acervo:
GEPHISC
\Centro
de
Documentação, Cultura e Imagem do Sertão.

Na foto, de autoria de José Vieira da Cruz, pesquisador da UFAL/Campus do Sertão,
há cartazes contendo frases que enumeram tanto situações vivenciadas cotidianamente em
Delmiro Gouveia, quanto temas sociais que ganharam destaque no furor das manifestações
deflagradas em junho, entre elas: corrupção, violência, Proposta de Emenda Constitucional
(PEC-37), saúde, entre outros.
Neste registro fotográfico apenas dois cartazes tratam de problemas específicos da
cidade Delmiro Gouveia. O cartaz da direita, com o tema da saúde pública, e o último cartaz,
com o tema da violência, fazem alusão aos casos de agressão e assassinato que ainda não
haviam recebido atenção da justiça70. O cartaz com o tema da violência provavelmente não

70

SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. José Ferreira dos
Santos quando foi entrevistado no ano de 2016, estava cursando Licenciatura em História pela Universidade
Federal de Alagoas/ Campus do Sertão. Quando foi entrevistado para esta pesquisa, no ano de 2016, Santos
trabalhava em uma rádio na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas e administrava um blog que divulgou notícias a

34

estava se referindo à repressão policial deflagrada contra os manifestantes de junho nos
estados do Rio de Janeiro e São Paulo, mas a um pedido de justiça contra os casos de
violência não solucionados e punidos na cidade sertaneja71.
Na mesma imagem, outro cartaz se refere à Proposta de Emenda Constitucional (PEC37), que caiu na voz da multidão em junho de 201372. Essa proposta, chamada de “PEC do
político ladrão” no cartaz, não foi percebida de forma positiva para os manifestantes que
provavelmente estavam reproduziram nas redes sociais e nas ruas notícias publicadas na
grande mídia.

Foto 2 -Manifestantes segurando cartazes durante as
manifestações de junho de 2013 com os temas “+ Saúde;
+Educação; - Corrupção”; “Da Copa eu abro mão: quero
mais saúde e educação”; “Prefeito Valdo”, entre outros,na
cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e
Imagem do Sertão.

Nesta segunda foto, o emaranhado de reivindicações expostas nos cartazes é erguido
por estudantes do ensino médio da Escola Estadual Luís Augusto Azevedo de Menezes.
Dentre as informações contidas nos cartazes, apenas duas questões estão relacionadas ao
poder público local em Delmiro Gouveia. Elas se referem à atuação dos vereadores e o salário
respeito das manifestações de junho de 2013 na cidade de Delmiro Gouveia. Santos narrou sobre sua experiência
durante as manifestações de junho nesta cidade.
71
Op. cit.
72
A Proposta de Emenda Constitucional (PEC-37) acrescenta um parágrafo a respeito da segurança pública no
Artigo 144, da Constituição de 1988. Ela determina que a apuração das infrações penais é responsabilidade das
polícias federal e civis dos Estados e do Distrito Federal. Essa proposta se tornou tema polêmico no início do ano
de 2013, pois a grande mídia subtraiu a questão constitucional da mesma, ou seja, criou argumentos para
confundir a sociedade sobre os seus objetivos. A grande mídia abordou o tema da PEC-37 usando argumentos
sobre o Artigo 129, da Constituição de 1988, que trata das atribuições do Ministério Público (MP). A esse
respeito, ver o artigo “A Mídia e a PEC 37: investigação criminal na ordem do dia” de Rafael Branco Lessa.

35

pago a eles. Os cartazes criticando a atuação dos representantes do parlamento municipal,
entretanto, não pareciam representar nenhuma surpresa, visto que o prefeito e a vice-prefeita
de Delmiro Gouveia foram acusados de abuso de poder político e econômico durante as
eleições de 2012, e em junho de 2013 ainda estavam afastados temporariamente de seus
cargos73. E, quando eles foram afastados, quem assumiu a prefeitura foi o vereador Valdo
Sandes, filiado ao Partido da Mobilização Nacional (PMN) e presidente da Câmara dos
Vereadores74.
Além desse escândalo político envolvendo o prefeito Luiz Carlos Costa e a viceprefeita Eliziane Ferreira Costa Lima, os moradores da cidade sertaneja, em junho de 2013,
pareciam ainda estar na expectativa de retomar a disputa pela prefeitura. Essa disputa iniciada
durante o processo eleitoral de 2012, entre o candidato do Partido do Movimento
Democrático do Brasil (PMDB), Luiz Carlos Costa, popularmente conhecido por Lula
Cabeleira, e o candidato do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Eraldo Joaquim Cordeiro,
conhecido popularmente por Padre Eraldo, ainda causava polarizações entre os moradores de
Delmiro Gouveia.
Na capital alagoana, entretanto, os temas estampados nos cartazes inter-relacionam
problemas sociais inerentes à cidade de Maceió, com slogans criados durante junho de 2013.
Na foto abaixo, percebe-se algumas dessas demandas.

73

LUCENA, David. “TRE Mantém Lula Cabeleira afastado da prefeitura de Delmiro Gouveia”. In: Gazetaweb
Notícias, publicado em 22/04/2013. <http://gazetaweb.globo.com/portal/noticia-old.php?c=338993&e=2>.
Acessado em 13/12/2013.
74
Op. cit.

36

Foto 3 -Manifestantes segurando cartazes durante as
manifestações de junho de 2013 contra o aumento de R$ 0,55
centavos na tarifa do transporte público; contra o pagamento
pela tarifa do transporte público; pedindo desculpa pelo
transtorno que estavam causando, entre outros, na cidade de
Maceió/Alagoas.
Disponível
em:
<http://noticias.uol.com.br/album/2013/06/18/manifestantes-contamem-cartazes-quais-sao-suas-reivindicacoes.htm>. Acessado em
30/09/2015.

Na foto acima, de autoria do fotógrafo Beto Macário, publicada no site UOL, podese observar a multiplicidades de focos das manifestações de junho. A multidão na imagem
estava na principal avenida de Maceió, Av. Fernandes Lima, localizada no bairro Farol. A
multidão estava movimentando-se em direção ao Centro de Estudos e Pesquisas Aplicado
(CEPA), também conhecido como ponto de encontro dos manifestantes, ou deslocando-se
para o centro e para o bairro do Jaraguá, locais onde ocorreram outras passeatas durante junho
de 201375.
Na capital alagoana a multidão estava deslocando-se para esses bairros, segundo um
militante do PSTU, como estratégia para atrair a atenção popular e a dos políticos, visto que
esses bairros eram uns dos mais movimentados de Maceió76. Na foto, dentre os cartazes os
que revelam problemas sociais específicos estão localizados na parte direita e no centro da
foto, contendo a informação sobre o aumento no valor da tarifa do transporte público.
Os manifestantes estamparam o valor que seria cobrado na tarifa do transporte
publico em Maceió, com a ajuda do bordão “Não é só por R$ 55 centavos”. O curioso no

75

LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
76
Op. cit.

37

cartaz contendo “Não é só por 55 centavos” é que, no período de junho de 2013, o governador
do estado de Alagoas e o prefeito de Maceió ainda não haviam confirmado aumento no valor
da tarifa do transporte público, como fizera o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad77.
Desse modo, percebe-se que a cobertura jornalística da grande mídia e o uso do
ambiente virtual também influenciaram o uso de alguns slogans e palavras de ordem dos
manifestantes. A exemplo de cartazes com frases tipo: “Desculpe o transtorno, estamos
mudando o Brasil”, também identificados nas manifestações de Junho ocorridas nos estados
de São Paulo e do Rio de Janeiro78.
Os diferentes temas expostos nos cartazes de protestos ocorridos em Maceió e em
Delmiro Gouveia demonstraram a formação de um típico fenômeno de massa aberta79, ou seja,
uma manifestação capaz de reunir a multidão em torno de muitas reivindicações. Isso parece
ter ocorrido porque a grande mídia aproveitou e aprofundou o sentimento de insatisfação com
as desigualdades socioeconômicas, fomentadas pelo péssimo funcionamento dos setores
sociais públicos administrados pelo Estado.

1.2. A construção do antipartidarismo

Nenhum partido ou político escapou da crítica das ruas. Isso indica que temos uma
força social querendo mudar, querendo obter respostas mais competentes dos
governos, querendo melhorar a qualidade da democracia e do governo entre nós. É
uma força em estado nascente, mas de qualquer modo é uma força 80.

Durante as manifestações de junho propagou-se o argumento, sobretudo, por parte da
grande mídia, que os manifestantes estavam nas ruas para protestar tanto contra a atuação dos
governos quanto contra a atuação dos partidos políticos, especialmente os de esquerda81. Essa
pretendida aversão construída durante junho, enfatizava o fato de que a multidão era
apartidária, ou seja, não seguia nenhum partido político, ouantipartidária, porque era contra a
77

RODRIGUES, Marcos. “Estudantes vão às ruas em protesto”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia
14/06/2013. Disponível em:<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em
20/10/2015.
78
FERREIRA, Wilson Roberto Vieira. “Diga-me com o que fazes metáforas e direi quem és”. In: Cinema
Secreto, publicado em 03/06/2015. Disponível em: <http://cinegnose.blogspot.com.br/2015/06/diga-me-com-oque-fazes-metaforas-e.html#more>. Acessado em 20/04/2016.
79
CANETTI, Elias. “A massa”. In: Massa e poder. Tradução Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p.14.
80
NOGUEIRA, Marco Aurélio. “Depois de Junho. Sobre as respostas governamentais”. In: As ruas e a
democracia: ensaios sobre o Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013, p.76.
81
CALIL, Gilberto. Embates e disputas em torno das Jornadas de junho. In: Projeto História, São Paulo, n. 47,
Ago. 2013.

38

presença das bandeiras de partidos políticos nas ruas e não possuía lideranças, suscitando
certo sentimento de ética nacional e patriótica. Em outros termos, segundo Nogueira, os meios
de comunicação potencializaram a compreensão de que os protestos externaram um
descontentamento com as formas tradicionais de fazer política82.
Filgueiras, cientista político, ao analisar a atuação da multidão em Belo Horizonte no
contexto das manifestações de junho, refletiu que havia uma característica peculiar: a
existência de um sentimento difuso de ampliação das injustiças decorrentes da ineficiência
das políticas públicas. Para ele, as manifestações naquela cidade assinalaram uma profunda
insatisfação com o sistema político brasileiro, que se mostrava incapaz de resolver questões
básicas como transporte, saúde, educação e combate à corrupção83.
Outro cientista político, Peres, ao tecer uma análise sobre as manifestações em Porto
Alegre, compartilhou pensamento semelhante ao de Filgueiras, quando observou que naquela
cidade, o fenômeno de junho foi caracterizado por uma profunda insatisfação com o sistema
político-partidário84. Em Porto Alegre e em Belo Horizonte, nas interpretações dos autores
mencionados, parece ter existido um desencantamento com o sistema político brasileiro e com
a atuação dos partidos políticos. Perspectiva difundida, em maior ou menor grau, durante as
manifestações de junho de 2013.
Em Porto Alegre, distintamente de São Paulo que teve como um dos organizadores
iniciais dessas manifestações: o Movimento Passe Livre de São Paulo (MPL/SP), a
articulação desse fenômeno foi catalisado pelos partidos de esquerda, como: o Partido
Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU),
Partido Comunista Brasileiro (PCB), organizações do Partido dos Trabalhadores (PT),
anarquistas, entre outros85.
Nas cidades de Maceió e de Delmiro Gouveia, por sua vez, as manifestações de
junho também contaram com a atuação dos coletivos anarquistas e de militantes dos partidos
políticos, sobretudo, de esquerda, para a organização de algumas pautas de reivindicação e

82

NOGUEIRA, Marco Aurélio. “Depois de Junho. Sobre as respostas governamentais”. In: As ruas e a
democracia: ensaios sobre o Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.
83
FILGUEIRAS, Fernando. “O gigante mineiro já estava acordado; as pessoas é que não se davam conta”. In:
Uol Notícias, 03/07/2013. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimasnoticias/2013/07/03/analise-o-gigante-mineiro-ja-estava-acordado-as-pessoas-e-que-nao-se-davam-conta.htm>.
Acessado em 22/12/2013.
84
PERES, Paulo.“Protestos geraram aliança política histórica e improvável em Porto Alegre”. In: Uol Notícias,
03/07/2013. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimasnoticias/2013/07/03/analise-protestosgeraram-alianca-politica-historica-e-improvavel-em-porto-alegre.htm>. Acessado em 22/12/2013.
85
Op. cit.

39

para a convocação dos atos de rua. Na cidade de Maceió, a exemplo, no dia 13 de junho de
2013, os movimentos saídos do centro da cidade até o bairro do Jaraguá, contou com o
chamamento de organizações como o Espaço Socialista (ES), o Coletivo Anarquista Zumbi
dos Palmares (CAZP), o PSTU , o PCB entre outros86.
A atuação dos partidos de esquerda e de outros grupos de interesse durante junho de
2013 em muitas cidades brasileiras, e, em particular, em Alagoas, sugere que o argumento do
antipartidarismo deve ser avaliado com ponderação e, sobretudo, é preciso problematizar a
quem interessa a difusão e consolidação desse argumento/interpretação/posição.

1.2.1. Para além dos partidos políticos

Em Maceió, os militantes dos partidos políticos, do movimento estudantil e de
coletivos anarquistas estavam presentes nas manifestações de junho. Esses militantes
discutiam pautas de reivindicação e tinham planos de atuação e metas, mas ao chegarem às
ruas perceberam manifestantes de vários grupos sociais, pretejando o lugar com uma
infinidade de pautas, de apitos e de cartazes.
Nas primeiras manifestações ocorridas em Maceió, a proporção de pessoas nas ruas
superou as expectativas dos militantes dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda87. O
grande número de participantes nos protestos colocou esses militantes diante de um dilema,
pois, se por um lado, isso parecia ser positivo, por outro, era difícil entender a ampliação, o
interesse, o sentido e a direção de milhares de pessoas que estavam querendo distância de
líderes, das bandeiras e dos partidos.
Esse sentimento de perplexidade foi acentuado quando em Maceió o número de
aproximadamente 500 pessoas,nos primeiros atos do dia 13 e 17 de junho de 2013, alcançou
dias depois a projeção de 30 mil pessoas88. Para alguns militantes, esse fenômeno teria sido
86

LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. ; ALMEIDA,
João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do GEPHISC\
Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia - Alagoas.; BARBOSA, Jônatas
Abisalão Santos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 11/09/2015. In: Acervo do GEPHISC\
Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas. Jônatas da Silva Barbosa é
graduado em História pela Universidade Federal de Alagoas/ Campus A. C. Simões. No ano de 2015, quando foi
entrevistado para esta pesquisa, estava professor de História da rede privada, em uma escola da cidade de Maceió
e era integrante do Espaço Socialista (ES). Barbosa narrou sobre sua participação nas Manifestações de Junho de
2013 ocorridas na cidade de Maceió/Alagoas.
87
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
88
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia - Alagoas.

40

uma consequência da atuação da grande mídia e do descontentamento com a truculência
policial e com o Partido dos Trabalhadores (PT)89.
A inquietação dos militantes dos partidos políticos parece ter sido acentuada com o
trabalho da grande mídia, sobretudo, quando ela começou a propagar a ideia de que as
manifestações de junho estavam apresentando um perfil de novo tipo, sendo autônomas e
apartidárias90. Essa ideia de protestos apartidários robustecida pela grande mídia, parece ter
acentuado o estado de apatia popular em relação às representações políticas partidárias e
levado manifestantes a se associarem a coletivos anarquistas.
Nesse contexto, alguns coletivos anarquistas do estado Alagoas atraíram mais
pessoas para se associar, como o caso do Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP).
Um militante deste coletivo afirmou ter percebido um aumento no número de participantes
dessa organização depois das manifestações de junho 91 . Esse aumento de participantes no
CAZP, segundo este, parece revelar certo desencanto com os partidos políticos92. Mas, como
veremos adiante, esse desencantamento com os partidos, segundo Lima, tomou maior impulso
através das mídias, pois desde que elas se tornaram hegemônicas, a cultura política que tem
sido construída e consolidada no Brasil é a de permanente desqualificação da política e dos
atores políticos93.
Na cidade de Delmiro Gouveia, a multidão que ocupou o centro contou com a
participação de ativistas anarquistas associados ao Coletivo Libertário Delmirense (COLIDE).
Esses ativistas se organizaram para as manifestações de junho através de sites, blogs e redes
sociais, como o Facebook. Eles divulgavam no ambiente virtual as datas e horários dos atos
ocorridos em Delmiro. Mas, nos dias dos atos, os ativistas do COLIDE chegarem às ruas e
tiveram, assim como os ativistas do CAZP, do PCB, do PSTU, na cidade de Maceió, uma

89

MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas. Osvaldo
Batista Acioly Maciel é graduado em História pela Universidade Federal de Alagoas/ Campus A. C. Simões e
também possui mestrado e doutorado em História. Em 2015, quando foi entrevistado, estava professor do curso
de História da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e da Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL).
Maciel, no período que foi entrevistado para esta pesquisa, fazia parte do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e
narrou sobre sua participação nas Manifestações de Junho de 2013 ocorridas na cidade de Maceió/Alagoas.
90
Manifestações de Junho de 2013. Produção de Caco Barcellos. São Paulo, 2013. Youtube(23min e 57 seg).
Produção da Rede Globo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=iQoBOJUsNps&spfreload=10>.
Acessado em 12/02/2016.
91
ALMEIDA, João Carlos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
92
Op, cit.
93
LIMA, Venício Artur de. Mídia, rebeldia urbana e crise de representação. In: MARICATO, Ermínia; et al.
Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. 1.ed. São Paulo: Boitempo:
Carta Maior, 2013, p.90.

41

surpresa ao se depararem com uma multidão formada por sujeitos de diferentes idades,
provindos de diferentes grupos sociais.
Essa multidão despontada nas ruas também provocou inquietação nos ativistas do
coletivo anarquista acima mencionado. O número de manifestantes levou alguns anarquistas a
apontarem a desorganização e a falta de sentido das manifestações de junho, pois, conforme
Silva, era como se os manifestantes não soubessem o que estavam fazendo, e como se muitos
estivessem nas ruas para tirar selfies sorridentes94.
A inquietação entre os ativistas que tiveram suas bandeiras rejeitadas pela multidão
de junho foitão intensa, que diversas interpretações foram produzidas pelos próprios
anarquistas. A esse respeito, para a Federação Anarquista Gaúcha (FAG), o perfil das
manifestações de junho perdeu gradativamente o “caráter classista e de esquerda” das
reivindicações pela redução na tarifa dos transportes coletivos, iniciadas no Estado de São
Paulo95.
Na interpretação da FAG, o grande responsável pela multidão nas ruas e pela
aversão aos partidos políticos foi a saturação social com relação ao governo
neodesenvolvimentista, aprofundado nos últimos dez anos do governo PT. Na perspectiva da
FAG, essas manifestações representaram um fenômeno de massa fomentado pelas péssimas
condições das cidades no contexto de crise do neoliberalismo96.
Percebe-se, a partir das interpretações e das narrativas dos ativistas anarquistas e dos
ativistas dos partidos de esquerda, que houve uma disputa política pelos sentidos da atuação
da multidão e um consenso no que se refere a apontar o PT e a cobertura jornalística da
grande mídia como responsáveis pelo sentimento apartidário e antipartidário nas ruas.
Mas essas manifestações ocorridas nas cidades de Maceió e de Delmiro Gouveia
despontaram algumas questões, cujo debate não se encerra aqui. Nas narrativas de alguns
militantes, por exemplo, o fenômeno de junho não pode ser compreendido como um
acontecimento com vida própria, sem sentido e sem relação com demandas do passado,
presente e futuro.

94

SILVA, Uedson José da. Entrevistado por José Vieira da Cruz em 14/ 11/ 2014. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
95
Federação Anarquista Gaúcha. “Tomar as ruas por uma agenda contra a direita e o governismo. Avançar um
programa de soluções populares. Cartas de opinião da FAG. In: Pela força das ruas. Editora Deriva, 2014, p.20.
96
Op. cit.; p.20.

42

1.2.2. A atuação da Rede Globo

Engendrava-se na mídia um novo discurso de “apoio” ao movimento: omitindo
inteiramente a sua própria caracterização de dois dias atrás acerca dos protestos, e a
partir de então a imprensa corporativa e em particular a Rede Globo passavam a
apresentá-los como pacíficos, ordeiros e apartidários97.

Quando entrevistado sobre o papel da grande mídia durante as manifestações de
junho, um militante filiado ao PCB98 disse que ela era fundamental para definir parte dos
rumos do mundo contemporâneo 99 . Ele ainda completou que o sentimento apartidário e
antipartidário tomou conta de alguns manifestantes em junho de 2013, porque a grande mídia
atuou para desqualificar os partidos de esquerda 100. Segundo a historiadora Carla Luciana
Silva, isso ocorreu em razão da organicidade da mídia que atua “em torno de uma ação de
classe, criando seus próprios intelectuais, que querem buscar uma unidade de ação comum 101”.
Nenhuma notícia é apenas informação, refletiu Silva102. E os jornais que disputam espaço na
grande mídia disputam por uma dominação ideológica dentro deste meio de informação
massiva103.
Em junho de 2013, as redes televisivas do Brasil, principalmente a Rede Globo,
tiveram um papel decisivo em alguns momentos, na medida em que as manifestações
começaram a se expandir em vários estados, levando às ruas manifestantes provindos de
diferentes grupos sociais.
A disputa política nas ruas e nas mídias pelo sentido da multidão e o argumento do
antipartidarismo, entretanto, se agravou após o atendimento da pauta da tarifa do transporte
público pelos governantes de São Paulo e das outras capitais brasileiras, em que ocorreu
aumento neste setor. Com a questão da tarifa resolvida, um fenômeno que parecia não possuir

97

CALIL, Gilberto. “Embates e disputas em torno das Jornadas de junho”. In: Projeto História, São Paulo, n.
47, Ago. 2013, p.10.
98
A história do Partido Comunista Brasileiro (PCB) começa no início do século XX, especificamente em 1922.
Na sua gênese, convergiram os ideais libertários do nascente proletariado. Este partido se tornou uma
organização política que buscava conjugar em suas fileiras os mais destacados dirigentes das lutas
dos trabalhadores e representantes da intelectualidade brasileira. A esse respeito ver:
<http://pcb.org.br/portal2/658>.
99
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
100
Op. cit.
101
SILVA, Carla Luciana. Imprensa liberal, imprensa partidária: uma aproximação historiográfica. In: SILVA,
Carla Luciana; Rautenberg, Edina (Orgs.). História e imprensa: estudos de hegemonia. Porto Alegre: FCM
Editora, 2014, p.158.
102
Op. cit; p.156.
103
Op. cit.

43

mais unidade política continuou. Depois disso, se tornou mais intenso em vários estados
grupos de manifestantes segurando a bandeira do Brasil, pintando o rosto de azul, verde e
amarelo, cantando o hino nacional e/ou reforçando sentimentos nacionalistas, afirmando
serem as manifestações de junho um fenômeno novo104.
Nesse momento, em muitos estados, inclusive em Alagoas, desentendimentos entre a
multidão e os partidos políticos começaram a se intensificar. Entretanto, quando isso ocorreu,
enquanto na cidade Maceió, no litoral alagoano, os manifestantes já estavam se organizando
para o terceiro ato nas ruas 105 ; na cidade de Delmiro Gouveia, no Sertão alagoano, os
manifestantes se preparavam para dar início à primeira manifestação, ocorrida no dia 20 de
junho de 2013.
As manifestações iniciadas em Delmiro Gouveia sugerem que, apenas quando as
disputas políticas pela direção das manifestações de junho se agravaram, a multidão da cidade
sertaneja decidiu organizar um protesto nas ruas aparentemente sem partido, mas conduzido
por anarquistas que tinham a posse do microfone e do carro de som 106. Por essa razão, no dia
em que essas manifestações iniciaram na cidade, alguns cartazes estavam preenchidos com as
frases: “Se correr o governo pega, se ficar o governo come”; “Feliciano pega no pau da
Dilma”; “A culpa é sua mau eleitor”; “Menos corrupção, mais transparência”; “Veras que o
filho teu não foge à luta”; “Fora Genuíno e João Paulo Cunha”; De quantas pessoas precisam
para acabar com o Brasil? Diuma”; “Na favela, no senado, sujeira pra todo lado”107.
Esses cartazes foram erguidos em sua maioria por estudantes do ensino médio, os
quais possivelmente estavam saindo da escola para as ruas no dia da primeira manifestação de
junho em Delmiro Gouveia. Essas frases demonstram o efeito da cobertura jornalística da
grande mídia, quando a mesma decidiu apoiar as manifestações, classificando-as como um
fenômeno de novo tipo108. Essas frases se somaram a um movimento que aparentemente não
tinha roteiro e cuja pessoa que recebeu o microfone do carro de som, para falar as palavras de
104

MELO,Demian Bezerra de. “A direita ganha as ruas: elementos para um estudo das raízes ideológicas da
direita brasileira”.In: Niep Marx.Marx e o Marxismo 2015: Insurreições, passado e presente. Universidade
Federal Fluminense. Niterói- RJ, 2015, p.1-14.
105
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
106
SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In:Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
107
Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemósine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.
108
Manifestações de Junho de 2013. Produção de Caco Barcellos. São Paulo, 2013. Youtube(23min e 57 seg).
Produção da Rede Globo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=iQoBOJUsNps&spfreload=10>.
Acessado em 12/02/2016.

44

ordem, provavelmente colocou-se a disposição poucos minutos antes de começar a passeata
do centro até a sede da prefeitura109.
Na cidade de Maceió, por outro lado, quando o sentimento antipartidário foi
acentuado entre alguns manifestantes, as passeatas nas ruas estavam ocorrendo há alguns dias.
O primeiro ato nas ruas da capital alagoana aconteceu em 13 de junho e, quando isso ocorreu,
a atuação dos partidos de esquerda aparentemente foi preponderante para a deflagração desse
fenômeno. A esse respeito, um militante filiado ao PSTU comentou, alguns dias depois
quando o primeiro ato já havia sido deflagrado no litoral, sobre uma confusão contra os
partidos iniciada em Maceió.
No Facebook, dia 19 de junho de 2013, o militante acima mencionado comentou
sobre o burburinho no momento em que alguns grupos começaram a reproduzir o argumento
doantipartidarismo, pedindo a retirada das bandeiras na manifestação realizada dia 17 de
junho110. Naquele dia, quando o militante postava seu comentário na rede social, os jornais da
Rede Globo, entretanto, já estavam divulgando uma nova versão sobre a multidão nas ruas111.
Os jornalistas e apresentadores que trabalhavam nos jornais e programas da Rede
Globo mudaram seus comentários sobre as manifestações de junho em muitos momentos.
Conforme Alzamora e Rodrigues, essa mudança é visível nas observações feitas por alguns
comentaristas em determinadas ocasiões, dentre eles Arnaldo Jabor 112 . Segundo as
pesquisadoras, incialmente Jabor pensou as manifestações como um ato de ignorância política,
baderna, burrice e rancor dos jovens, mas, alguns dias depois, afirmou que essas
manifestações representavam uma lição de democracia113.
Para Alzamora e Rodrigues, inicialmente nenhum jornal parecia compreender o que
estava acontecendo nas ruas114. Mas, alguns dias depois, quando os atos nas capitais do estado
de São Paulo e Rio de Janeiro começaram a reunir um maior número de pessoas e a inspirar
manifestações em outras cidades, a atenção dos jornalistas da grande mídia voltou-se para as

109

SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In:Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
110
LOPES, Wibsson Ribeiro Lopes. Página pessoal de Wibsson Ribeiro Lopes/Facebook. Publicado em
19/06/2013. Disponível em: <https://www.facebook.com/wibsson.ribeirolopes?fref=ts>. Acessado em
22/12/2014.
111
Manifestações de Junho de 2013. Produção de Caco Barcellos. São Paulo, 2013. Youtube(23min e 57 seg).
Produção da Rede Globo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=iQoBOJUsNps&spfreload=10>.
Acessado em 12/02/2016.
112
ALZAMORA, Geane Carvalho;RODRIGUÉS, TacyanaKarinnaArce.“Fora Rede Globo”: a representação
televisiva das “Jornadas de Junho” em conexões intermídia”. In: RevistaEcopós .V. 17 .N. 1.2014,p.6.
113
Op. cit; p.6.
114
Op. cit.

45

vantagens políticas deste fenômeno115. A Rede Globo, inclusive, depois dos primeiros atos em
torno da tarifa do transporte público, resolveu abdicar de sua programação normal para dar
atenção às multidões e aos seus protestos116.
A cobertura jornalística da Rede Globo, depois que as manifestações se ampliaram,
resolveu “distinguir” o certo ou errado117. E, como ressaltou Nogueira, embora a grande mídia
não “possa conduzir as massas, mesmo sendo uma força normatizadora, indutora e
integradora”118, as notícias divulgadas pelo meio de informação são “construções intelectuais
feitas mediante seleções, ideologias e valorações, que carregam consigo uma interpretação
prévia e uma intenção”119. Nogueira ainda completou que a grande mídia se tornou um meio
de informação perigoso para qualquer governo, pois, ao agir criticando, omitindo fatos e
dando ênfases seletivas a alguns acontecimentos, ela constrói uma imagem negativa ou
positiva para ele120.
Nesse sentido, a cobertura da grande mídia, principalmente a cobertura jornalística
da Rede Globo sobre as manifestações de junho, rapidamente inquietava as multidão em
vários estados contra as administrações dos governos federal, estadual e municipal 121 , na
medida em que destacava apenas alguns temas levados às ruas pela multidão, como corrupção,
antipartidarismo; fora Dilma e fora bandeiras partidárias.
E não foi apenas durante as manifestações de junho que a grande mídia teve papel
importante em processos políticos no Brasil. Segundo Capelato, a propaganda política, ainda
no governo de Getúlio Vargas, procurava fazer com que “os sentimentos, fenômenos de longa
duração, fossem manipulados de forma intensa pelas técnicas de propaganda com o objetivo
de produzir fortes emoções”122. Assim, em junho de 2013, uma das tentativas da Rede Globo
para reforçar alguns sentimentos negativos a respeito dos partidos políticos é percebível na
edição do dia 18 de junho de 2013, no programa “Profissão Reporte”, exibido semanalmente.
O mencionado programa televisivo realizou a cobertura de manifestações ocorridas
115

Op. cit.
Op. cit.
117
Op. cit.
118
NOGUEIRA, Marco Aurélio. “Mídia, democracia e hipermodernidade”. In: As ruas e a democracia: ensaios
sobre o Brasil Contemporâneo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013, p.190.
119
Op. cit., p.196.
116

120

Op. cit.
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas; MACIEL,
Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
122
CAPELATO, Maria Helena. “Imagens e espetáculos do poder”. In: Multidões em cena: propaganda política
no Varguismo e no Peronismo. 2.ed. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p.75.
121

46

em algumas capitais brasileiras no dia 17 de junho. A matéria foi exibida dia 18 de junho de
2013 e destacou alguns aspectos das manifestações, dentre elas: a truculência policial, a
hostilidade de alguns grupos em relação às bandeiras dos partidos políticos de esquerda,
cartazes com a frase “Fora Dilma”, discursos dos “indignados” com a corrupção,
manifestantes cantando o hino nacional e a narrativa de alguns ativistas do Movimento Passe
Livre ou de pessoas que aparentavam não possuíam vínculo com partidos políticos123.
Depois do dia 18 de junho, os jornais da Rede Globo passaram a enfatizar esse
enfoque e leitura das manifestações. Simultaneamente a esse fato, os moradores da cidade de
Maceió e de Delmiro Gouveia continuaram usando o Facebook para externar indignação com
a atuação truculenta da polícia no Rio de Janeiro ou para se manifestar sobre o argumento do
antipartidarismo124, que repentinamente foi apresentado pela Rede Globo.
O tema do antipartidarismo foi externado de diferentes maneiras. Na capital alagoana
e na cidade de Delmiro Gouveia, esse tema era comentado no Facebook de alguns militantes
dos partidos políticos de esquerda, do movimento estudantil, dos coletivos anarquistas e por
pessoas que, do outro lado, defendiam a retirada das bandeiras dos partidos das ruas ou de
símbolos que lembrasse o Estado125. A exemplo, no Facebook, um estudante da Universidade
Federal de Alagoas/Campus do Sertão que participou das manifestações de junho na cidade
Delmiro, compartilhou a seguinte mensagem:
Esta luta já não é de um partido ou dois. Esta é a luta de uma nação. Meu estado já
não
tem
partido,
tem
pessoas.
Desejei profundamente que os protestos dos R$ 0,20 centavos do nosso povo
brasileiro se tornassem em algo substancial, algo vivo 126.

Esta mensagem foi compartilhada no dia 18 de junho de 2013, quando a cobertura
jornalística da grande mídia sobre o fenômeno de junho estava passando por modificações.
Esse fenômeno para a Rede Globo, até o dia 14 de junho, era fruto da ação de vândalos, cuja
truculência policial contra eles era necessária. Em contraponto a essa postura jornalista, a
partir do dia 15 de junho, a referida emissora de TV passou a abordar como um acontecimento

123

Manifestações de Junho de 2013. Produção de Caco Barcellos. São Paulo, 2013. Youtube(23min e 57 seg).
Produção da Rede Globo. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=iQoBOJUsNps&spfreload=10>.
Acessado em 12/02/2016.
124
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por José Vieira da Cruz em 14/ 11/ 2014. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
125
SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In:Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
126
VINÍCIUS, Jaime. Página pessoal de Jaíme Vinícius – Facebook. Publicado em 18/06/2013. Disponível
em: <https://www.facebook.com/MR.Cheidy?fref=ts>. Acessado em 20/12/2014.

47

legítimo, pacífico e correto 127 . Nesse momento, as publicações nas redes sociais
acompanhavam também o ritmo da propaganda da grande mídia sobre junho de 2013.
Possivelmente por esse motivo, certos temas relacionados ao antipartidarismo ganharam mais
destaque do que outros.
A esse respeito, um professor da UFAL também postou nas redes sociais a seguinte
frase: “Todo apoio aos companheiros do PSTU. Lutar não é crime nem moda” 128 ,
demonstrando insatisfação com a disputa iniciada nas ruas da capital alagoana pela retirada
das bandeiras e dos partidos 129 . Este professor ainda compartilhou três dias depois no
Facebook uma imagem ironizando a disputa pela retirada dos partidos que estava ocorrendo
não nas ruas. Na charge abaixo, compartilhada por este professor, fica explicito que por trás
do argumento do antipartidarismo e da luta pela retirada das bandeiras dos partidos, existia
uma disputapolítica e ideologia que não agradava e não favorecia alguns partidos de esquerda
ou os simpatizantes destes partidos. Assim, os grupos que pediram a retirada das bandeiras
foram criticados nas redes sociais porque aparentemente manifestavam atitudes totalitárias.

Foto 4 - Charge compartilhada no Facebook pelo professor
Marcos Ricardo de Lima, dia 22 de junho de 2013.
Disponível
em:
<https://www.facebook.com/marcos.ricardodelima.7?fref=ts>.
Acessado em 20/12/2014.

Quanto mais um tema era comentado entre os manifestantes de junho, maior era o
127

JUDENSNAIDER, Elena; Et al. Vinte Centavos: a luta conta o aumento. São Paulo: Veneta, 2013.
LIMA, Marcos Ricardo de. Página pessoal de Marcos Ricardo de Lima – Facebook. Publicado em
19/06/2013. Disponível em: <https://www.facebook.com/marcos.ricardodelima.7?fref=ts>.
Acessado em
20/12/2014.
129
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
128

48

ganho da grande mídia. Para Bourdieu, fenômenos desse tipo são característicos de um
período no qual o mercado publicitário tem sobrevivido das notícias que geram maior
audiência e podem ser vendidas rapidamente130. Conforme Bourdieu:

Através da pressão do índice de audiência, o peso da economia se exerce sobre a
televisão, e, através do peso da televisão sobre o jornalismo, ele se exerce sobre os
outros jornais, mesmo sobre os mais “puros”, e sobre os jornalistas, que pouco a
pouco deixam que problemas de televisão se imponham sobre eles 131.

O tema do antipartidarismo ganhou destaque nas redes televisivas e em jornais e
revistas do Brasil, como Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Veja e Isto é, em
particular, quando esses veículos de comunicação optaram por mudar a cobertura a respeito
das manifestações junho132. Em Maceió e em Delmiro Gouveia, esses temas parecem ter se
aprofundado depois do dia 16 de junho de 2013, quando alguns eventos se sucederam, dentre
eles: a disputa para retirar as bandeiras dos partidos políticos das ruas133 e a reprodução da
canção do hino nacional134.
A referida cobertura jornalística não era nem inocente e nem desinteressada em
relação aos significados da atuação da multidão e de seus protestos em junho de 2013. Ela, a
grande mídia, não só atuou contra os partidos de esquerda como também a serviço dos grupos
de direita, sobretudo, quando passou a selecionar fatos, falas, cartazes e reivindicações que
criticavam diretamente os governos, principalmente, o governo federal, cuja administração
central estava sob a responsabilidade do Partido dos Trabalhadores (PT).

1.3. Aatuação do Movimento Passe Livre (MPL) e dos mascarados
O MPL não veio do nada. O MPL é um movimento de esquerda que ao longo de sua
existência relacionou-se com seus pares, como o Movimento Sem-Terra e os
movimentos urbanos de moradia. Encontrou apoio em intelectuais e em certa
blogosfera progressista, da qual a principal referência é o tarifazero.org 135.

130

BOURDIEU, Pierre. “A estrutura invisível e seus efeitos”. In: Sobre televisão. Tradução Maria Lúcia
Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 1997, p.52-98.
131
Op. cit; p, 81.
132
JUDENSNAIDER, Elena; Et al. Vinte Centavos: a luta conta o aumento. São Paulo: Veneta, 2013.
133
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
134
SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In:Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
135
JUDENSNAIDER, Elena; Et al. Vinte Centavos: a luta conta o aumento. São Paulo: Veneta, 2013, p.19.

49

As jornadas de junho para o historiador Gilberto Caliltiveram início com várias
mobilizações convocadas pelo coletivo Movimento Passe Livre (MPL) na cidade de São
Paulo. Para o historiador, as manifestações que tomaram as ruas e as avenidas das cidades
brasileiras em junho de 2013 foram impulsionadas pelo aumento no valor da tarifa do
transporte público, fato que em poucos dias ganhou centralidade na grande mídia nacional e
internacional e logo inspirou manifestações multifacetadas em diversos estados do Brasil136.
A respeito desse fato, as narrativas dos militantes do MPL descreviam que próximo
das sete da noite, em um dos primeiros dias de junho de 2013, um ato tomou de assalto a
Avenida 23 de Maio, uma das principais vias que liga o centro à zona sul da cidade de São
Paulo 137 . Este ato atrasou a atuação repressiva da polícia e foirealizado nas ruas com a
destruição das catracas alegóricas, feitas de madeira e pneus 138 . Essa narrativa destaca o
sentido econômico e a atuação de alguns coletivos nas manifestações de junho em São Paulo,
dentre eles o MPL.

1.3.1. Movimento Passe Livre (MPL)
O MPL ganhou visibilidade no Brasil depois da “Revolta do Buzu”, ocorrida em
agosto de 2003 na cidade de Salvador/Bahia139. Durante essa Revolta, o MPL parece ter se
desatacado como um tipo de movimento promissor dentro do contexto dos chamados novos
movimentos sociais, pois, ao reunir pessoas em torno de uma meta comum: a luta pela
desmercantilização do transporte coletivo, a revolta procurava chamar a atenção do poder
público para esta questão140.
O MPL destacou-se como um coletivo de ativistas, autônomos e apartidários,
características de um movimento social de novo tipo141. Para Gonh e Bringel, esses novos
movimentos sociais surgiram da dinâmica do mundo globalizado do final do século XX e

136

CALIL, Gilberto. “Embates e disputas em torno das Jornadas de junho”. In: Projeto História, São Paulo, n.
47, Ago. 2013.
137
JUDENSNAIDER, Elena; ET al. Vinte Centavos: a luta contra o aumento. São Paulo: Veneta, 2013, p 25.
138
Op. cit.
139
Movimento Passe Livre /São Paulo. “Não começou em Salvador, não vai terminar em São Paulo”. In:
MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.
1.ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013, p.14.
140
ORTELLADO, Pablo. “Experiência do MPL é aprendizado para o Movimento autônomo não só do Brasil,
como do mundo”. In: Coletivo Antiproibicionista de São Paulo, 10/09/2013. Disponível
em:<http://coletivodar.org/2013/09/pablo-ortellado-experiencia-do-mpl-e-aprendizado-para-o-movimentoautonomo-nao-so-do-brasil-como-do-mundo/>. Acessado em 22/02/2015.
141
Op. cit.

50

carregam todas as contradições deste fenômeno 142 . Esse movimento é reconhecido, ainda
segundo Gohn e Bringel, por compartilhar algumas características, dentre elas: o
aparecimento de um ativismo internacional; a renovação dos atores sociais; uma variedade de
temas e agendas de lutas; o alargamento do campo participativo-institucional e a mudança no
cenário internacional143. Ele se destaca por valorizar a iniciativa da multidão e os espaços de
diálogo e compreensão destinados aos movimentos insurgentes contra a globalização e o
neoliberalismo144.
O Movimento Passe Livre se adéqua ao perfil dos novos movimentos sociais ao
compartilhar algumas características estudadas por Gohn e Bringel.

Ele apresenta

distanciamento das organizações político-partidárias; articulação em nível local, regional e
nacional através do uso das redes sociais; uma agenda de reivindicação voltada para o
transporte público e participação em conferências, como no Fórum Social Mundial145.
Nesse sentido, esse coletivo não possui a mesma organização dos partidos políticos,
embora reúna líderes das organizações partidárias146; e também pode se encaixar nas reflexões
do historiador Van der Linden, quando o mesmo analisou a articulação dos diversos tipos de
trabalhadores em torno dos movimentos que ultrapassavam o Estado-Nação desde o século
XIX147, pois o MPL ressignifica a experiência dos movimentos de rua realizados no passado,
na medida em que procura unificar trabalhadores, estudantes e militantes em torno de uma
única reivindicação.
Nas cidades de Maceió e de Delmiro Gouveia, observadas as densidades
populacionais e localizações, não fosse pela pauta relacionada ao tema do transporte público,
outros temas pareciam manter pouca relação de proximidade com as manifestações de junho
ocorridas em São Paulo. Isso porque, embora questões políticas e econômicas estivessem
afligindo esse setor social em diferentes estados, cada cidade possuía uma multidão que nas
manifestações de junho revelou-se um pouco do seu fazer-se.

142

GOHN, Maria da Glória; BRINGEL, Breno M. “A discussão contemporânea sobre os movimentos sociais”.
In: Movimentos Sociais na era global. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
143
Op. cit.
144
VIEIRA, Flávia Braga. “Articulações internacionais “desde baixo” em tempos de globalização”. In: GONH,
Maria da Glória; Bringel, Breno M. (orgs.). Movimentos Sociais na era global. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012,
p.189-2011.
145
JUDENSNAIDER, Elena; Et al. Vinte Centavos: a luta conta o aumento. São Paulo: Veneta, 2013.
146
Op. cit.
147
LINDEN VAN DER. Marcel. “Formas de resistência”. In: Trabalhadores do mundo: ensaios para uma
história global do trabalho. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013.

51

Alagoas não experimentou a atuação do MPL em junho de 2013, mas a ausência
dessa experiência provavelmente estava atrelada a duas questões: a atuação significativa dos
militantes dos partidos políticos e dos coletivos anarquistas; e a disparidade no sistema de
transporte público existente entre os estados São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Alagoas, entre
outros. Embora a atuação dos partidos políticos como o PSTU, o PCB, o PCR e o PCdoB e
dos coletivos anarquistas tenha prevalecido no processo de convocação das manifestações de
junho de 2013, e mesmo sem existência do MPL enquanto movimento orgânico em Maceió e
em Delmiro Gouveia, o tema do transporte público constituiu uma demanda decisiva para a
ida da multidão às ruas dascidades.

1.3.2.Anonymous

Os Anonymous também ganharam destaque durante as manifestações de junho e
parece está inserido dentro dos novos movimentos sociais por possuir características
semelhantes a do Movimento Passe Livre. A diferença que separa o Anonymous do MPL está
na forma como ambos usam o ambiente virtual e nas diversas definições que os pesquisadores
construíram para compreendê-los.
O movimento dos Anonymous, também conhecido como “tática de luta”, começou a
se destacar no Brasil nos primeiros anos do século XXI, depois das manifestações por eles
protagonizados em outros países148. Eles se articularam através de redes de solidariedade e de
luta dentro do ambiente virtual,mas a ascensão desse movimento se confunde com o contexto
de transformação do papel da internet, uma vez que ao mesmo tempo em que o uso da internet
foi democratizado, a rede oportunizou a criação de novas formas de informação e
comunicação, permitindo aos ativistas se articularem no processo do Ciberativismo149.
Para Lévi, o Ciberativismodesigna um conjunto de estratégias adequadas ao
exercício dos direitos humanos e mantém em sua base grupos de ativistas conectados através
do ambiente virtual, ou seja, por meio da internet150. Ele chegou ao Brasil na década de 1990,
através da web e de ativistas políticos151. Entretanto, apenas na primeira década do século
XXI, o movimento obteve maior visibilidade em função do ativismo de alguns grupos.
148

GOHN, Maria da Glória. “Manifestações dos indignados no Brasil: antes, durante e depois de junho de 2013”.
In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes,
2014.
149
LÉVY, Pierre. O que é o virtual? Tradução de Paulo Neves. São Paulo. Ed.34,1996.
150
Op. cit.
151
Op. cit.

52

Segundo ParmyOlson, o Anonymous está ligado a uma tática de hackeamento
profissional, realizado por jovens para denunciar e lutar de forma invisível 152. Ele diverge do
MPL e do Black Blocs, porque a atuação dele se direciona para a “artilharia virtual” 153. Eles
agem via redes virtuais para convocar participações diretas e para destruir sites154. Em junho
de 2013, em São Paulo, no Rio de Janeiro, naBahia, em Minas Gerais, entre outros estados,
eles atuaram no ambiente virtual.
Em muitas interpretações sobre o fenômeno de junho, houve uma preocupação de
discuti-lo como um evento que apresentou, ao menos em alguns estados, as características de
um movimento social de novo tipo e de um movimento antiglobalização, devido à atuação de
alguns coletivos, como o Anonymous155. Mas, no estado de Alagoas, ao que tudo indica, este
coletivo ainda não havia atuado. Em Maceió e em Delmiro Gouveia, ele foilembrado devido a
utilização por parte de algumas pessoas de um objeto que caracteriza a atuação do movimento
na web: a máscara sorridente, usada pelo personagem “V” no filme “V de Vingança”.

Foto 5 - Manifestantes usando a máscara inspirada no
personagem “V” do filme “V de Vingança”, durante as
manifestações de junho de 2013, na cidade de Delmiro
Gouveia/Alagoas.
Acervo de Uedson José da Silva.

152

OLSON, Parmy. Nós somos Anonymous: por dentro do mundo dos hackers. Tradução Henrique Guerra.
Barueri, SP: Novo Século Editora, 2014.
153
Op. cit.
154
GOHN, Maria da Glória. “Manifestações dos indignados no Brasil: antes, durante e depois de junho de 2013”.
In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes,
2014, p.53.
155
Op. cit.

53

Provavelmente, por um lado, não existiu militante do Anonymous atuando em sites
ou nas redes sociais nas cidades de Maceió e Delmiro Gouveia156, mas em Delmiro, por outro,
na manifestação ocorrida no dia 26 de junho de 2013, houve algumas pessoas que utilizaram a
máscara do personagem “V” procurando preservar a identidade157.
Na imagem acima, registrada por um militante anarquista durante as manifestações
de junho em Delmiro Gouveia, há dois manifestantes fazendo uso da máscara sorridente,
inspirada no personagem “V”, de Alan Moore, escritor anarquista158. O uso dessa máscara por
algumas pessoas na cidade sertaneja não significava, entretanto, que elas estavam vinculadas
a artilharia virtual do Anonymous ou atuavam na internet como este coletivo.
A máscara havia sido usada com um propósito diferente. Um dos manifestantes
ressaltou que estava fazendo uso da máscara apenas para não mostrar o rosto159. Nesse caso, o
manifestante anarquista queria se proteger de retaliações políticas do poder público local. Essa
atitude não seria estranha, pois o anarquista que utilizou a máscara possuía um histórico de
confronto com o poder público local na cidade Delmiro Gouveia160.
O fenômeno de junho em Maceió também contou com a presença de manifestantes
mascarados no trajeto das passeatas nas ruas. E, assim como no sertão alagoano, os
manifestantes no litoral, pelos indícios estudados, também não exerciam a artilharia virtual do
coletivo Anonymous.

156

A respeito desta discussão foram analisadas as entrevistas de: LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por
Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e
imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. ; ANÔNIMO. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em
21/01/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro
Gouveia-Alagoas. ; SILVA, Uédson. Entrevistado por José Vieira da Cruz em 14/ 11/ 2014. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. ; SILVA, Magno
Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do GEPHISC\
Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
157
Anônimo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 21/01/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro
de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
158
MORGENSTERN, Flávio. “Sermos Vulgaris. A política das massas”. In: Por trás da máscara. Rio de
Janeiro: Record, 2015, p.399.
159
Op. cit.
160
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por José Vieira da Cruz em 14/ 11/ 2014. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.

54

Foto 6 -Manifestante com a máscara do personagem “V”,
do filme “V de Vingança”, durante das manifestações de
junho de 2013, na cidade de Maceió/Alagoas.
Disponível
em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceiotem-terceiro-dia-de-protestos.html#F846402>. Acessado em
20/10/2014.

Esta imagem, registrada para o site G1 Alagoas durante as manifestações de junho de
2013 na cidade de Maceió, apresenta um manifestante usando a máscara sorridente inspirada
no personagem “V”, do filme “V de vingança”. O uso da máscara provavelmente não estava
sendo feito apenas pelos ativistas do Anonymous, mas também para preservar a identidade ou
para mostrar solidariedade com os ativistas reprimidos em outros estados, como em São Paulo,
Brasília, Minas Gerais, Rio de Janeiro.
A este respeito, um militante do PSTU disse que na capital alagoana foram muitos os
mascarados nas ruas161. Os mascarados apareceram de forma difusa nas passeatas, sendo mais
uma característica de um movimento multifacetado. Mas um militante do CAZP ainda
acrescentou que os ativistas do coletivo Anonymous tentaram se aproximar dos militantes
anarquistas pela internet162.
Apenas na narrativa do último militante acima citado, o coletivo foi lembrado com
maior ênfase. Nenhum outro militante filiado aos partidos políticos de esquerda entrevistado
no curso desta pesquisa comentou sobre uma tentativa de aproximação desse tipo. Desse
modo, a narrativa do militante do CAZP parece sugerir a existência de uma simpatia do

161

LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
162
ALMEIDA, João Carlos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.

55

coletivo local para com a atuação dos Anonymous, ou seja, com formas de atuação
desvinculadas dos partidos políticos.

1.3.3. Black Blocs
Em meio às nuvens de gás lacrimogêneo, policiais fortemente armados enfrentam os
vultos nas ruas. Mascarados e vestidos de preto, esses vultos são os “Black Blocs” 163.

Durante o dia ou à noite, mascarados assustaram policiais, jornalistas e políticos,
provocando um estado de tensão em junho de 2013164. Gruposdisfarçadoscom roupas pretas,
brancas, vermelhas, entre outras cores, que mais pareciam vultos, quando apareciam deveriam
ser contidas. Por onde passavam, um rastro de destruição era deixado pelos grupos que
escondiam os rostos atrás do capuz e das máscaras feitas com roupas.
No dia 11 de junho de 2013, quando o portal de notícias do G1 publicou uma matéria
com o título “Protesto contra tarifa tem confronto, depredações e presos em SP”, o noticiário
apresentou a destruição dos ônibus do sistema de transporte público em São Paulo como uma
ação de vandalismo165. Nas redes televisivas ou em jornais, não havia outra explicação para a
destruição provocada pela multidão. Bastava às pessoas ocuparem as ruas, utilizando capuz
ou máscaras feitas com roupas que a polícia se aproximava e a grande mídia criava
estereótipos166.
Pichações, depredação de ônibus e a utilização do coquetel molotov por pessoas
mascaradas com capuz, chamadas também de Black Block, deixaram marcas em junho de
2013. Mas esses atos de depredação foram apresentados pela grande mídia como atitudes de
manifestantes e organizações que não demonstrava qualquer apreço a bens públicos167.
Conforme Dupuis-Déri, os grupos Black Blocs, entretanto, “são compostos por
agrupamentos pontuais de indivíduos ou grupos de pessoas formados durante uma marcha ou

163

DUPUIS-DÉRI, Francis. Quem tem medo dos BlacBlocs?. In: Black Blocs. Tradução de Guilherme Miranda.
São Paulo: Veneta, 2014, p.9.
164
GOHN, Maria da Glória. “Manifestações dos indignados no Brasil: antes, durante e depois de junho de 2013”.
In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes,
2014.
165
MORA, Marcelo; VIANA, Julia Basso. “Protesto contra tarifa tem confronto, depredações e presos em SP”.
In: G1, publicado em 11/06/2013.Disponível em: <http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/protestocontra-tarifa-tem-confronto-depredacoes-e-detidos-em-sp.html>. Acessado em: 15/12/2014.
166
Op. cit.
167
Op. cit.

56

manifestação” 168 . O aparecimento desses grupos depende do contexto no qual as
manifestações de rua surgem, uma vez que ele é uma tática de luta169. E essa tática de luta está
relacionada a uma atuação radical e performática contra as formas de opressão e violência
criadas pelo Estado para interromper manifestações sociais e populares.
O Black Blocse difere do MPL e do Anonymous pelo uso que o grupo faz da
destruição de patrimônios públicos e privados enquanto forma de resistência e, por isso, ele é
interpretado por pesquisadores ou mesmo por ativistas como uma tática de luta. Entretanto o
termo “tática de luta” não foi mencionado nos telejornais quando o tema era Black Blocnas
ruas em junho de 2013, pois os grupos Black Blocs destruíram bancos, concessionárias e
prédios históricos, ou seja, lugares com significados importantes para o sistema capitalista e
para a história do Brasil170.
A tática de luta dos grupos Black Blocs foi, por isso, inquietante no contexto das
manifestações de junho e no decurso das últimas décadas ela parece ter inspirado ativistas em
vários países a se manifestar de forma mais radical171. Surgido pela primeira vez na Alemanha,
essa tática teve como pioneiro as mulheres que buscavam maior participação na política, em
um país predominantemente conservador em relação à questão do feminismo e da
participação das mulheres envolvidas em processos eleitorais172.
Nas cidades de Maceió e de Delmiro Gouveia, durante as manifestações de junho de
2013, alguns manifestantes usaram trajes que lembrava os grupos Black Blocs. Como é visível
nas imagens abaixo.

168

DUPUIS-DÉRI, Francis. “De onde vem os BalckBlocs?”. In: Black Blocs. Tradução de Guilherme Miranda.
São Paulo: Veneta, 2014, p.10.
169
Op. cit., p.11.
170
MORA ,Marcelo; VIANA, Julia Basso. “Protesto contra tarifa tem confronto, depredações e presos em SP”.
In: G1,publicado em 11/06/2013.Disponível em:<http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2013/06/protesto-contratarifa-tem-confronto-depredacoes-e-detidos-em-sp.html>. Acessado em: 15/12/2014.
171
GOHN, Maria da Glória. “Manifestações dos indignados no Brasil: antes, durante e depois de junho de 2013”.
In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes,
2014, p.17-88.
172
DUPUIS-DÉRI, Francis. Quem tem medo do Black Blocs? In: Black Blocs. Tradução de Guilherme Miranda.
São Paulo: Veneta, 2014, p.35.

57

Foto 7 -Manifestantes usando roupas e capuz preto
durante as manifestações de junho de 2013, na cidade de
Delmiro Gouveia/Alagoas. Acervo de Uedson José da Silva.

Foto 8 -Manifestante no centro da foto utilizando boné e
uma máscara de tecido branca, durante as Manifestações
de Junho de 2013, na cidade de Maceió/Alagoas.
Disponível
em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceiotem-terceiro-dia-de-protestos.html#F846398>. Acessado em
20/10/2014.

A primeira imagem foi registrada por um anarquista durante as manifestações de
junho de 2013 na cidade de Delmiro Gouveia. Na imagem os três manifestantes estão vestidos
com blusa e capuz preto, traje usado pelos manifestantes que utilizam a tática de luta dos
grupos Black Blocs. Conforme Dupuis-Déri, trajes desse tipo foram inspirados na tradição
anarcopunk, “suas raízes históricas e políticas nos Autonomem, o movimento 'autonomista' em

58

Berlim Ocidental, onde essa tática do Black Bloc foi empregada pela primeira vez no início
dos anos de 1980”173.
A segunda imagem foi registrada para o site do G1 Alagoas durante as manifestações
de junho na cidade de Maceió. No centro da imagem, há um manifestante vestido com blusa
vermelha e usando uma máscara branca feita com roupa. Embora não se enquadre no perfil
dos trajes pretos usados pelos grupos Black Blocs, esse tipo de traje também foi usado por
manifestantes que provavelmente utilizaram a tática de luta desses grupos.
Em Alagoas, os manifestantes que usaram esses trajes, entretanto, não atuaram da
mesma forma que os grupos Black Blocs atuaram em cidades da região Sudeste nas
manifestações de junho. Isso porque, enquanto em algumas cidades dessa região, como no
Rio de Janeiro, a violência policial contra os manifestantes foi mais intensa174, nas cidades
alagoanas a violência policial não teve capacidade de despertar a fúria dos mascarados.
No litoral e no Sertão de Alagoas, houve pichações de muros e de lugares com
significado político durante e depois das manifestações de junho. Nas cidades de São Paulo,
Rio de Janeiro e Belo Horizonte, os Black Blocsse revelaram, entretanto, fazendo estragos em
alguns prédios, concessionárias, bancos, entre outros lugares diretamente relacionados com a
reprodução do capitalismo175. Nas cidades de Delmiro Gouveia e de Maceió, as pichações
marcaram muitos lugares, como é visível nas imagens abaixo.

173

Op. cit.,p.40.
CALIL, Gilberto. “Embates e disputas em torno das Jornadas de junho”. In: Projeto História, São Paulo, n.
47, Ago. 2013.
175
FREITAS, Cláudia. “Os "Black Blocs", para quem servem?”. In: Jornal do Brasil, publicado em 13/10/2013.
Disponível em:<http://www.jb.com.br/rio/noticias/2013/10/13/os-black-blocs-para-quem-servem/>. Acessado
em 14/12/2014.
174

59

Foto 9 - Muro no centro da cidade Delmiro
Gouveia/Alagoas, pichado após as manifestações de
junho
de
2013.
Disponível
em:
<http://www.ferreiradelmiro.com/2013_08_01_archive.html
>. Acessado em 20/04/2016.

Foto 10 - Muro de uma clínica da cidade de
Maceió/Alagoas, pichado após as manifestações de junho
de
2013.
Disponível
em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/noticia/2013/07/clinica-emmaceio-confecciona-cartaz-para-criticar-pichacoes-emprotesto.html>. Acessado em 20/04/2016.

A primeira imagem foi retirada do blog de um morador da cidade Delmiro Gouveia.
O muro na foto, localizado no centro desta cidade, provavelmente foi pichado em agosto de
2013, após as manifestações de junho. A segunda imagem foi retirada do site G1 Alagoas. O
muro na segunda foto é de uma clínica da cidade de Maceió, cujo nome não foi divulgado
pelo site do G1, possivelmente pichado após as manifestações de junho na cidade de Maceió.
60

As frases pichadas nos muros e a faixa anexada no muro da segunda imagem
demonstram que as reivindicações realizadas em junho de 2013 ainda ressoavam nas cidades
alagoanas. Mas os pichamentos provavelmente eram realizados por pessoas que
acompanharam as manifestações de junho, escondidas atrás das máscaras.
A pichação, desse modo, é uma tática de reivindicação que também está relacionada
à manifestação performática dos grupos Black Blocs, ou seja, a de uma forma de reivindicar
que deixa rastros de destruição e de inquietação. Mas diferentes coletivos e táticas de luta
marcaram as manifestações de junho nas diversas cidades brasileiras. Em Alagoas, a presença
desses coletivos e dessas táticas demonstrou que as manifestações de junho ocorridas no
estado, formaram um fenômeno histórico marcado por manifestações antagonistas, como se
verá nos próximos capítulos.
Esse fenômeno voltou a despertar, como destacou Calil, o interesse dos políticos,
militantes e pesquisadores para o tema dos movimentos populares e sociais no século XXI176,
mas isso provavelmente aconteceu porque, durante as manifestações de junho, as disputas
políticas pelo sentido das manifestações destacaram: a fragilidade das propostas dos partidos
políticos frente à sociedade; as consequências das políticas neoliberais e a influência da
produção da grande mídia e das redes sociais nas manifestações de rua.

176

CALIL, Gilberto. “Embates e disputas em torno das Jornadas de junho”. In: Projeto História, São Paulo, n.
47, Ago. 2013.

61

2 - A MANIFESTAÇÃO DE JUNHO EM MACEIÓ

2.1. Das ruas à atuação da grande mídia
Quando as manifestações de junho tiveram início na capital alagoana, as ruas e as
avenidas das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro estavam ocupadas há alguns dias por
uma multidão, que protestava pela redução no valor da tarifa do transporte público. As
manifestações iniciadas no Sudeste chamaram a atenção dos militantes de Maceió, vinculados
ao movimento estudantil universitário e secundarista, aos partidos políticos e ao movimento
anarquista. Esses militantes assumiram a tarefa de mobilizar os primeiros protestos na capital
alagoana, mas, a exemplo do que estava ocorrendo em outros estados, a projeção alcançada
pelos protestos de junho de 2013, junto aos meios de comunicação e a as redes sociais,
ampliou o número dos participantes e o formato dos protestos nesta cidade.
No Facebook, os militantes relacionados aos movimentos sociais discutiram a
respeito do aumento no valor da tarifa do transporte público, acontecimento que estava
causando, em junho de 2013, insatisfação em várias cidades brasileiras. Nesse período,
mesmo sem ter ocorrido aumento no bilhete do transporte público em Maceió, os
mencionados militantes organizaram protestos com a participação de uma multidão. Neste
interstício de tempo, entre a segunda a quarta semana de junho, aAssociação dos
Transportadores de Passageiros do Estado de Alagoas (TRANSPAL), entretanto, mediava
uma disputa entre os empresários e o governo estadual e municipal, relacionada ao valor da
tarifa do transporte urbano na capital alagoana177.
Neste contexto, a notícia de que haveria aumento no valor da tarifa do transporte
urbana inquietou os moradores de Maceió. Esta notícia, divulgada pelo jornal Gazeta de
Alagoas ajudou a aprofundar a insatisfação social. E, além disso, de outro lado havia a difusão
da cobertura jornalística da grande mídia, a respeito dos protestos relativos ao aumento de
transporte em outras cidades do país e a truculência da polícia contra os manifestantes
potencializando o cenário de protestos em Maceió178.
Essa cobertura jornalística da grande mídia nacional acerca dos protestos de junho,
por um lado, apoiava a repressão policial contra os manifestantes, sobretudo, nas cidades de
177

OLIVEIRA, Bleine. “Entidades querem valor da passagem a r$ 2,10”.In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição
do dia 02/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>.
Acessado em 20/10/2015.
178
ALZAMORA, Geane Carvalho;RODRIGUÉS, TacyanaKarinnaArce.“Fora Rede Globo”: a representação
televisiva das “Jornadas de Junho” em conexões intermídia”. In: Revista Ecopós.V. 17 .N. 1.2014, p.1-12.

62

São Paulo e do Rio de Janeiro179 e, por outro lado, impulsionava um movimento de efeito
contrário nas redes sociais, incitando o aumento das manifestações de rua em solidariedade
aos manifestantes reprimidos. Em Maceió, essas redes sociais contribuíram para deflagrar e
organizar as manifestações de junho, entretanto esse fenômeno foi diferente daquele ocorrido
em outros estados e tanto os atores sociais como as pautas de reivindicação levadas às ruas
estavam marcados por demandas regionais e locais.
2.1.1.A “imparcialidade” do jornal Gazeta de Alagoas
No Rio de Janeiro, eu encontrei, eu vi um vídeo, que passou no Jornal Nacional, de
um manifestante apanhando, que foi cortado, aí no youtube quando eu fui ver o
vídeo, era de um manifestante, que eu conheci em 2006, na minha época de
graduação, era jornalista atualmente e tava sendo espancado, eu esqueci o nome dele,
mas ele fazia parte do grupo que... Quando eu tava saindo da universidade, ele tava
participando do movimento que eu conheci parte... Das organizações políticas da
luta180.

A narrativa apresentada por Almeida, ativista do movimento anarquista na cidade de
Maceió, comenta sobre a atuação da grande mídia no contexto das manifestações de junho,
em particular, tecendo uma crítica à manipulação da cobertura jornalística, sobretudo nos
casos de violência deferida contra os manifestantes por parte da polícia. No decorrer da sua
fala, o referido anarquista ilustra a postura das redes televisivas quando se tratava de
direcionar ou silenciar a voz dos manifestantes. Ele ainda destacou que durante um
determinado momento das manifestações de junho em Maceió, quando a multidão invadiu a
câmara dos vereadores registrou-se gritos de: “o povo não é burro, abaixo a Rede Globo!” ou
“A realidade é dura, a Globo apoia a ditadura”, relatando a clareza dos manifestantes quanto a
manipulação das notícias divulgadas pela mencionada emissora de tv181.
A análise da narrativa de Almeida provoca a necessidade de uma reflexão crítica
sobre a cobertura jornalística da impressa radiofônica e televisiva a respeito das manifestações
de junho, em particular, a exibida nos telejornais. Isso porque essa cobertura está
comprometida com alguns grupos sociais que dentro dosistema político e econômico detém o
monopólio das comunicações, e,como pensou Bourdieu, a grande mídia possui leis próprias

179

Ver: <http://blog.esquerdaonline.com/?p=1788>. Acessado em 13/01/2016.
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
181
Op. cit.
180

63

para atender aos interesses desses grupos sociais dentro do mercado publicitário182.
No contexto das manifestações de 2013, quando as questões da tarifa do transporte
público, da violência dos Black Blocs, do antipartidarismo e da repressão policial alcançaram
centralidade na grande mídia, as notícias divulgadas na grande mídia pareciam cada vez mais
tendenciosas183. Isso, segundo um militante do PCB, ficava cada vez mais visível, sobretudo
depois que a grande mídia intensificou o foco no argumento do antipartidarismo, por um lado,
direcionado contra os partidos políticos de esquerda e os movimentos sociais184 e, por outro,
colaborando com partidos da direita a incitar a multidão a tecer críticas contra os governos
municipal, estadual e, sobretudo, o federal185.
O tema do antipartidarismo enfatizado pela grande mídia, provavelmente foi um dos
que mais chamou atenção dos militantes dos movimentos sociais de Maceió. Como notou
Calil, a disseminação do antipartidarismo foi fabricada pela mídia corporativa, num contexto
onde uma parte dos manifestantes tinha pouca experiência política e estava marcado
pelascontradições dos partidos de esquerda que eram alvo deste discurso 186 . Para Lopes,
militante do PSTU, o primeiro movimento da mídia foi criticar os manifestantes, classificando
suas ações como “um protesto, [uma] baderna”187. Entretanto, o militante do PSTU, ao referirsea atuação da grande mídia, não especificou de qual rede televisiva ou jornal estava falando.
Aparentemente ele se referia a Rede Globo e não a imprensa da cidade de Maceió.
A ausência de comentários sobre a atuação da imprensa de Maceió, não apenas na
narrativa de Lopes, 188 mas também nas narrativas concedidas por Almeida, militante do
CAZP) 189 Maciel, militante do PCB 190 e Silva, militante do PCR 191 , lembra aquilo que

182

BOURDIEU, Pierre. “A estrutura invisível e seus efeitos”. In: Sobre televisão. Tradução Maria Lúcia
Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.
183
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
184
Op. cit.
185
CALIL, Gilberto. Embates e disputas em torno das Jornadas de junho. In: Projeto História, São Paulo, n. 47,
Ago. 2013, p. 1-27.
186
Op. cit.
187
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
188
Op. cit.
189
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
190
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
191
Fundado em maio de 1966, oPartido Comunista Revolucionário (PCR) foiorganizado por um grupo de
militantes egressos do PCdoB. O PCR, segundo seu site,“é fruto da tradição política nascida na Europa em
meados do século XIX, em particular após a publicação do Manifesto do Partido Comunista, em 1848, e presente
no Brasil desde a década de 1920”. A esse respeito ver: <http://pcrbrasil.org/pcr/historia/>.

64

Bourdieu analisou sobre a hegemonia de algumas redes de informação, pois, conforme este
pesquisador, “um jornal deixa de ser dominante quando seu poder de deformar o espaço à sua
volta diminui e ele já não dita a lei” 192193.
A cobertura jornalística da Rede Globo sobre as manifestações de junho de 2013
aparentemente repercutiu com mais intensidade, pois, já consolidada no mercado, essa
emissora de TV dispunha de maior espaço e prestígio tanto no campo da comunicação quanto
no da publicidade. Neste sentido, ela utiliza esse alcance tanto para divulgar como para
influenciar os acontecimentos, a exemplo do que ocorreu em junho de 2013. Além disso, é
importante lembrar a histórica relação dessa empresa de comunicação com grupos políticos
que se apoderaram do Estado Brasileiro, em particular, no longo período da ditadura civilmilitar194.
No caso da cobertura jornalística sobre as manifestações de junho de 2013, ficou
explicita a posição da Rede Globo publicada em seus noticiários de incentivar o argumento do
antipartidarismo e da crítica ao governo federal. Desta forma, a intensificação de pautas
relacionadas ao combate a corrupção, contra Dilma e contra os políticos, robustecia o desgaste
do atual sistema de representação política brasileira frente à sociedade, pauta visível nas
matérias divulgadas, principalmente nos artigos publicados no site do G1. Nessas matérias, as
discussões relacionadas aoantipartidarismo eram associadas ao desgaste ético do regime
presidencialista do Estado Brasileiro195.
A cobertura jornalista sobre as manifestações e junho, produzida pelo jornal Gazeta
de Alagoas, embora não tenha sido mencionado pelos militantes/ativistas sociais entrevistados
no curso desta pesquisa, merece atenção. A cobertura dos referidos acontecimentos produzida
pelo mencionado periódico também releva estar perpassada por interesses políticos, uma vez
que o Jornal Gazeta de Alagoas pertence à família do ex-presidente, Fernando Collor de Mello,
filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e eleito Senador de Alagoas em 2014. E,
192

SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. Magno Francisco
da Silva é graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas/ Campus A.C.Simões. No ano de 2015,
no período em que foi entrevistado para esta pesquisa, estava professor do Tronco Inicial da UFAL/Campus do
Sertão, universidade que fica localizada na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas, e era estudante do Mestrado em
história da UFAL. Silva era integrante do Partido Comunista Revolucionário (PCR) e durante as manifestações
ocorridas em junho de 2013 no Brasil, participou dos protestos que tomaram às ruas da cidade de
Maceió/Alagoas.
193
BOURDIEU, Pierre. A estrutura invisível e seus efeitos. In: Sobre televisão. Tradução Maria Lúcia Machado.
Rio de Janeiro: Zahar, 1997, p.55-98.
194
LARANJEIRA, Álvaro Nunes. A mídia e o regime militar. Porto Alegre; Sulina, 2014.
195
BBC. Organização de protestos pode indicar 'novidade' política no Brasil. Em G1Brasil, publicado
19/06/2013. Disponível em: <http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/organizacao-de-protestos-pode-indicarnovidade-politica-no-brasil.html>. Acessado em 20/12/2015.

65

naquele ano de 2013, Collor não estava em nenhum cargo político já que durante as eleições
de 2010, quando se candidatou ao cargo de governador do estado de Alagoas, perdeu a disputa
para o candidato Teotônio Vilela Filho, filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira
(PSDB).
Dentro deste campo de relações políticas, o referido jornal no contexto das
manifestações de junho agia de forma sutil, ajudando a reforçar a crítica aos governos federal,
estadual e municipal na medida em que selecionava e destacava as falas de alguns
manifestantes. A esse respeito, o jornal destacou a fala de um estudante da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL), pertencente à tendência estudantil denominada de Correnteza, a
época a frente da direção do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFAL:
A classe média e os servidores públicos sentem-se igualmente insatisfeitos com a
falta de investimentos em saúde e educação, e a mobilização de um número cada vez
maior de pessoas está diretamente relacionada à crise econômica mundial que, no
Brasil, o ex-presidente Lula chamou de “marolinha” 196.

Outra fala destacada pelo jornal foi a do coordenador do Grupo Estadual de Combate
às Organizações Criminosas (GECOC), do Ministério Público (MP) de Maceió. A esse
respeito, o jornal Gazeta de Alagoas destacou: “Os políticos precisam entender a mensagem
do povo nesse momento. A luta é por um país sem corrupção. A sociedade vai às ruas e grita
também contra a PEC 37, que é um crime contra a própria sociedade” 197. O jornal passou,
portanto, a enfatizar os temas da corrupção, da crise econômica e da crise ética dos partidos
políticos.
E, associada a essa pauta, o debate sobre o antipartidarismo passa a ganhar os
holofotes a partir do dia 18 de junho de 2013. Depois desta data, não interessava a este jornal
expor apenas a questão da reivindicação pela redução no valor da tarifa do transporte. Ele
passou a expor falas de pessoas que não eram militantes e líderes de movimentos sociais. A
partir da referida data, portanto as edições deste jornal mostravam o fenômeno de junho como
uma grande confusão, produzindo notícias que selecionavam falas, ideias e grupos
específicos.
Desta forma, o jornal Gazeta de Alagoas passou a publicar falas de manifestantes que
atuaram durante esse fenômeno em Maceió. Essas notícias eram cautelosas, investiam numa
196

OLIVEIRA, Bleine. “Maceió terá novo protesto amanhã”.In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia
25/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado
em 20/10/2015.
197
MILANO, Luciano. “Protesto reúne diferentes gerações”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia
21/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado
em 20/10/2015.

66

falsa imparcialidade e suscitava um implícito apoio a revolta da multidão, que estava nas ruas
protestando contra os governos municipais, estadual e federal.
Através do conteúdo encontrado no referido jornal, é possível identificar algumas
lideranças que atuaram nas manifestações de junho de 2013 na capital alagoana e visualizar os
interesses políticos do jornal trabalhados na referida cobertura jornalística. Este conteúdo,
embora não possa ser considerado “explícito” e conclusivo, ajuda a fugir daquilo que o
historiador George Rudé chamou de rótulos das multidões198, pois ele destacou falas de um
público variado.
Militantes,

advogados,

prefeito,

governador,

estudantes,

desempregados,

comerciantes, aposentados, funcionários públicos, militares, entre outros, tiveram partes de
suas falas publicadas neste jornal. Entretanto, o jornal Gazeta de Alagoas em algumas edições
enfatizou apenas as falas de estudantes vinculados a grupos políticos de esquerda.
Entre os dias 14 a 20 de junho de 2013, ao menos dois estudantes ganharam
evidência, Laís Cavalcanti e Wibsson Ribeiro Lopes. Ambos eram estudantes da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL/Campus A. C. Simões) e possuíam um ponto em comum: estavam
envolvidos há anos com o movimento estudantil. Esses estudantes participaram de vários
movimentos reivindicatórios em Maceió e se apresentaram como líderes durante as
manifestações de junho. No dia 14 de junho de 2013, suas falas estavam nas páginas do jornal
Gazeta de Alagoas, quando o mesmo tornou público que a onda de protestos contra o aumento
no valor da tarifa do transporte, iniciada no Sudeste, inspirou a multidão e os movimentos
sociais do litoral alagoano.
A notícia do dia 14 de junho sobre a manifestação ocorrida em Maceió destacou a
fala de Laís Cavalcanti. Ela era integrante da Assembleia Nacional dos Estudantes Livres
(ANEL), entidade estudantil criada em 2009, com o objetivo de unificar a luta dos estudantes
do Brasil em torno de uma organização independente e separada da antiga União Nacional
dos Estudantes (UNE)199. O jornal destacou a seguinte fala de Cavalcanti:
Assim que saiu a notícia sobre o possível aumento, já começamos a articular a
manifestação, porque se fizermos a conta, o custo para o trabalhador que ganha um
salário-mínimo será, em média, de R$ 170,00 ao mês. Isso é quase 20% do salário e
um golpe muito grande na renda do trabalhador200.
198

RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora: Vozes. Petrópolis, RJ, 1964.
199
ASSEMBLEIA NACIONAL DOS ESTUDANTES LIVRES. Nossa História. In: ANEL. Disponível em:
<http://anelonline.com/historia>.Acessado em 20/12/2015.
200
RODRIGUES, Marcos. “Estudantes vão às ruas em protesto”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia
14/06/2013. Disponível em:<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em
20/10/2015.

67

A estudante defendia como pauta de luta uma atuação que ultrapassasse o universo
estudantil, pois buscava se inserir na luta dos trabalhadores e em movimentos específicos. A
ênfase na renda do trabalhador, bem como a crítica ao aumento no valor da tarifa do
transporte público expressava a posição política e ideológica do seu grupo. O aumento na
tarifa do transporte público em Maceió, no momento em que foi publicada a matéria com a
fala desta estudante, entretanto, ainda não havia ocorrido. O referido aumento estava previsto
para junho de 2013, mais isso não aconteceu. Neste período, o valor cobrado nas tarifas era de
R$ 2,30 (dois reais e trinta centavos) e, caso houvesse aumento, os bilhetes passariam a custar
R$ 2,85 (dois reais e oitenta e cinco centavos)201.
Neste sentido, a publicizaçãode Cavalcanti pela Gazeta de Alagoas no contexto das
manifestações de junho de 2013 potencializa, por um lado, a inquietação da população e dos
protestos, por outro pressiona e crítica os grupos políticos do governo estadual e de Maceió,
ponderando a respeito da repercussão do aumento nas ruas. Neste contexto, mesmo o então
governador Teotônio Vilela Filho tendo decido por não aumentar a tarifa do transporte público,
a Gazeta de Alagoas não perdeu a oportunidade de destacar que os empresários dos
transportes públicos seriam compensados com a desoneração de três impostos, isto é, a conta
seria paga pelo contribuinte202.
Essa matéria acentuou a discussão dos militantes que passaram a criticar a atitude do
governador e dos empresários do transporte público. A esse respeito, Lopes, liderança
estudantil filiada a Anel e ao PSTU, ao ser entrevistado pela Gazeta de Alagoas, declarou:
“deixar de cobrar impostos dos empresários não é a solução. É importante a tarifa ser
reduzida, mas, na verdade, eles estão deixando de cobrar impostos que poderiam ser
investidos em outras áreas, como saúde e educação”203.
Lopes, assim como Cavalcanti, a princípio teceram falas direcionadas para o campo
político dos movimentos sociais no referido contexto e acontecimento relacionado ao aumento
da tarifa dos transportes públicos em Maceió. Entretanto, suas falas, destacadas pela Gazeta
de Alagoas entre os dias 14 a 21 de junho de 2013, foram utilizadas para criticar o governo
estadual, contra o qual o grupo empresário proprietário desse órgão de impressa havia perdido
as eleições de 2010 e para atrair a multidão às ruas. Após esse período, suas ações e falas
201

Op. cit.
SOARES, Davi. “Governo anuncia desoneração”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia 21/06/2013.
Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em
20/10/2015.
203
Op. cit.
202

68

pouco foram destacadas pelo referido jornal.
A este respeito, é preciso observar que, a partir de 21 de junho, o número de
manifestantes que passaram a protestar nas ruas de Maceió cresceu. Neste contexto,
“superado” a pauta do aumento do transporte público e, em paralelo com o foco da Rede
Globo, o jornal Gazeta destacou os temas do “anti” e do “a” partidarismo, apoiando a
construção da ideia de que a presença dos militantes de esquerda e ativistas sociais nas
manifestações de junho não era mais necessária 204 . Este jornal deixou de enfatizar as
narrativas dos militantes dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda, passando a
focalizar narrativas de “lideranças espontâneas” e desvinculadas dos movimentos sociais e
populares. Nesse contexto, este jornal informava sobre o descontentamento e a saída dos
partidos de esquerda das ruas, 205 acentuando o debate acerca do antipartidarismo e da
fragmentação dos protestos de junho de 2013.

2.2-Uma manifestação antipartidária?
Foi um ato bonito e grande, que Maceió nunca mais tinha visto. Infelizmente,
algumas pessoas optaram por expulsar os integrantes dos partidos políticos. Não tem
como dizer quem foi, mas partiram para cima, forçando até situações que poderiam
resultar em briga. Nós que ajudamos a construir fomos tratados igual à época da
ditadura, que nos obrigava a calar e abaixar as bandeiras”206.

Este acontecimento narrado por uma militante da Anel foi divulgada pela Gazeta de
Alagoas, depois do terceiro ato de protesto nas ruas de Maceió em junho de 2013. Depois
desse terceiro ato, as manifestações pelo não aumento no valor da tarifa do transporte público,
que teve seu primeiro ato em dia 13 de junho, foramtransformadas em um fenômeno
multicêntrico.
A multidão que ocupou as ruas de Maceió dia 20 de junho levou várias
reivindicações e não aparentavaquerer se manifestar exclusivamente pela questão da tarifa do
transporte público. Neste dia, estudantes, trabalhadores, aposentados, desempregados
levantaram cartazes contra a PEC-37, contra o projeto de Cura Gay, contra violência, a

204

MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.; LOPES,
Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do GEPHISC\
Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
205
RODRIGUES, Marcos. “Protestos vão continuar, avisam lideranças do movimento”.In: Jornal Gazeta de
Alagoas.
Edição
do
dia
22/06/2013.
Disponível
em:
<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em: 20/10/2015.
206
Op. cit.

69

corrupção, entre outros temas 207 . Nesse contexto, a Gazeta de Alagoas enfatizou que a
manifestação do dia 20 de junho foi marcada por conflitos envolvendo parcelas da multidão
formadas por militantes relacionados aos partidos políticos e frente a este cenário
antipartidário ativistas do PSTU, PCR, UJS, PSB e até do PT optaram por se retirar,
conjuntamente do evento208.
2.2.1.Sem Partido! Sem Partido!
Como já foi discutido, as primeiras manifestações de rua na capital alagoana
contaram com a participação de militantes filiados a diferentes organizações políticas de
esquerda. Eles discutiam a pauta de reivindicações e divulgavam nas redes sociais convites
chamando a população para as manifestações. Nos primeiros atos dessas manifestações, a
atuação desses militantes, inclusive junto ao Facebook, aparentemente foi decisiva no alcance
dos protestos de rua.
Entretanto, após as primeiras manifestações, as postagens compartilhadas no
Facebook por estes militantes revelaram um estado de insatisfação com algumas situações
surgidas no decorrer desse fenômeno, sobretudo, a partir do protesto realizado dia 20 de junho
de 2013. Naquele protesto, o clima de tensão contra a presença dos partidos e de suas
bandeiras inquietaram os militantes políticos209 e alguns movimentos acentuaram a aversão
aos partidos políticos, a exemplo do “Movimento Caras-Pintadas”210.
Esse movimento atraiu milhares de estudantes e pediu a retirada dos partidos das
manifestações de junho 211 . Os militantes dos partidos políticos de esquerda, quando isso
ocorreu, parecem ter sido pegos de surpresa, pois, se por um lado, foi interessante chamar
uma multidão para se manifestar, por outro, não havia apenas um grupo político interessado
em direcioná-la. E, além disso, o “Movimento Caras-Pintadas”, ao que tudo indicava, estava

207

FEITOSA, José. “Mais de dez mil pessoas voltam às ruas de Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição
do dia 21/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>.
Acessado em 20/10/2015.
208
RODRIGUES, Marcos. “Protestos vão continuar, avisam lideranças do movimento”.In: Jornal Gazeta de
Alagoas.
Edição
do
dia
22/06/2013.
Disponível
em:
<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em: 20/10/2015.
209
Op. cit.
210
FEITOSA, José. “Protesto reúne cerca de 400 pessoas e causa caos no trânsito estudantes promovem
caminhada em Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia 27/06/2013. Disponível em:
<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em 20/10/2015.
211
Op. cit.

70

sendo liderado por militantes de partidos de direita212.
Para um militante do PCB, ficava claro que as pessoas ligadas a este movimento
eram filiadas aos grupos de direita, uma vez que eles estavam aproveitando o fenômeno de
junho para dividir a multidão213. Mas os militantes das organizações de esquerda ficaram mais
inquietos quando alguns manifestantes decidiram agir com hostilidade contra os partidos,
afirmando que as manifestações de junho em Maceió eram antipartidárias214.
Para um militante do PSTU, a questão do apartidarismo reproduzido pela multidão
em Maceió foi resultado da ampliação dos temas reivindicados 215 . Segundo ele, até o
momento em que a pauta das manifestações de junho estava relacionada ao transporte público,
havia unidade política nesse fenômeno, mas quando as pautas se ampliaram e a grande mídia
aprofundou o argumento de antipartido, criou-se uma confusão, pois “a mídia e a direita foi
pra o outro lado, por exemplo, o PSDB é amplamente favorável a se ter ódio aos partidos, que
o trabalhador não queira se organizar em partido nenhum, é ótimo, pra eles é muito bom”216.
Na interpretação de Lopes, a ampliação da pauta de reivindicações deixou espaço
para que os grupos políticos da direita se aproveitassem da multidão. Mas para este militante,
o antipartidarismo na capital alagoana foi muito contraditório. Isso porque alguns
manifestantes, mesmo tentando se distanciar das bandeiras dos partidos políticos da esquerda,
reivindicavam direitos políticos e sociais defendidos por esses partidos 217 . Essas
reivindicações estavam direcionadas para melhoria na saúde e na educação pública, fim da
violência, entre outros problemas que os grupos de direita não se importavam218.
Um militante do PCB, ao contrário, afirmou que a construção do antipartidarismo em
junho ocorreu devido aos projetos ideológicos disputados pela multidão e na postura ofensiva
contra as bandeiras, potencializada pela atuação da grande mídia 219. Para este militante, o
antipartidarismo surgiu como resultado da falência das políticas públicas e, em particular, da
crítica ao processo de burocratização do projeto de governo do PT que havia se afastado
212

MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
213
Op. cit.
214
FEITOSA, José. “Protesto reúne cerca de 400 pessoas e causa caos no trânsito estudantes promovem
caminhada em Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia 27/06/2013. Disponível em:
<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em 20/10/2015.
215
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
216
Op. cit.
217
Op. cit.
218
Op. cit.
219
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.

71

dasbases220. E ele ainda completou: o antipartidarismo em junho “são partes de uma ideologia
conservadora que vem sendo construída e elaborada ao longo desses últimos anos”221.
Já para um militante do PCR, a questão do antipartidarismo estava relacionada à
desilusão com o PT, na medida em que este partido abriu mão dos movimentos sociais para
disputar o poder com o PSDB222. Conforme este militante, aqueles que tinham experiência em
movimentos sociais não absorveram o discurso midiático223. Esses, inclusive, “expulsaram os
repórteres da Globo das manifestações, viraram os carros da Rede Globo, fizeram
manifestações na sede da Rede Globo”224.
Oantipartidarismo para este militante, assim como os militantes do PCB e do PSTU
já mencionados, foram estimulados pela grande mídia e por grupos políticos de direita ou
foram fruto do desgaste relacionado às denúncias de financiamento ilícito de campanhas
eleitorais. Neste sentido, em nenhum momento apontaram o aprofundamento do argumento
do antipartidarismo e do apartidarismo como resultado da descrença na atuação das suas
organizações partidárias.
Analisando as frases dos cartazes erguidos pelas manifestações de junho em
Maceió 225 , percebe-se que para a multidão envolvida nesse fenômeno expor uma agenda
ampliada de reivindicações interessava tanto quanto reivindicar o não aumento no valor dos
bilhetes do transporte público. Mas essa diversidade de frases, contaminada pelo
antipartidarismo e pelo apartidarismo, em vez de representar o fortalecimento das
manifestações, demonstrava a fragilidade desse fenômeno, que se dissolvia em meio a
multidão que não possuía apenas uma direção e uma liderança.
Assim, na medida em que as reivindicações foram crescendo, o fenômeno de junho
perdeu a unidade e se dispersou. Mesmo as tentativas do movimento anarquista e das
organizações de esquerda de reunir a multidão em torno de reivindicações específicas, não
conseguiu manter a unidade política das manifestações de junho, sobretudo a partir da
passeata ocorrida dia 20 de junho de 2013.
A partir da referida passeata, as narrativas dos advogados, aposentados, comerciantes,
220

Op. cit.
Op. cit.
222
SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
223
Op. cit.
224
Op. cit.
225
Ver:
galeria
de
fotos
do
site
G1
Alagoas.
Disponível
em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceio-tem-terceiro-dia-de-protestos.html#F845160>.
Acessado em 20/12/2015.
221

72

estudantes, militares, entre outros, que não reivindicavam apenas a redução no valor da tarifa
do transporte público, demonstraram que as manifestações de junho em Maceió assumiram
uma nova configuração, tornando-se mais distintas, contraditórias e multicêntrica 226 .
Enquanto os líderes do movimento estudantil, do movimento anarquista e de alguns partidos
de esquerda tentavam manter a unidade do protesto em torno do transporte público, cujo
jornal Gazeta de Alagoas noticiava cotidianamente a insatisfação dos líderes, a diversidade de
reivindicações e estimulava a fabricação de “novos líderes” e a “ideia de um movimento
independente, autônomo e pacífico”.
Dentro desta perspectiva, a aversão aos partidos e grupos políticos de esquerda, foi
estimulada pela Gazeta de Alagoas. Mas, para um militante do CAZP, “todas organizações
que levantavam bandeiras recebiam seus gritos. E... foi rechaçado, não pela questão, que eram
de esquerda, porque nem todas organizações que levantaram bandeiras eram de esquerda”227.
Conforme esse ativista do CAZP, a retirada das bandeiras dos partidos, entretanto, era algo
vantajoso, uma vez que ele queria atrair a multidão para o movimento anarquista, e, por essa
razão, “todas as organizações partidárias foram vistas de forma negativa”228.
No Facebook, um militante do PSTU, logo após o conflito pela retirada das
bandeiras, publicou, no dia 19 de junho de 2013, em sua página pessoal, que:
Entendemos o sentimento antipartido da população. Rejeitamos duramente, no
entanto, quando grupos anarquistas e neofascistas querem tirar nossas bandeiras.
Isso já aconteceu nesses atos e, invariavelmente, provoca conflitos. Nem a ditadura
conseguiu fazer com que baixássemos nossas bandeiras e não vai ser qualquer grupo
anarquista ou neofascista que irá fazê-lo. Todos têm direito de levantar suas
bandeiras e faixas. Não vai se impor nenhuma visão autoritária baseada no atraso.
Lutemos juntos contra os governos. Esse tipo de postura só divide e enfraquece o
movimento. Enquanto a polícia nos atira bombas, é um enorme equívoco dividir a
luta229.

Este mesmo militante do PSTU, passado quase dois anos do referido acontecimento,
ao ser entrevistado, mencionou o tema do antipartidarismo e da retirada das bandeiras como

226

FEITOSA, José. “Mais de dez mil pessoas voltam às ruas de Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição
do dia 21/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>.
Acessado em 20/10/2015.
227
Op. cit.
228
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
229
LOPES, Wibsson Ribeiro Lopes. Página pessoal de Wibsson Ribeiro Lopes/Facebook. Publicado em
19/06/2013. Disponível em: <https://www.facebook.com/wibsson.ribeirolopes?fref=ts>. Acessado em
22/12/2014.

73

algo contraditório, mas normal; e não viu os partidos controlando a multidão nas ruas 230. A
narrativa de Lopes foi, portanto, diferente do publicado no Facebook dia 19 de junho de 2013,
pois, se as manifestações de junho não teriam sido chamadas pelos partidos políticos,
porqueele discutiu e disputou nas redes sociais pela permanência das bandeiras nas ruas e se
sentiu incomodado com o debate e ações antipartidárias? Neste caso, a seletividade da
memória indica que o acontecimento foi ressignificado por outras experiências vivenciadas
pelo referido militante.
Uma das consequências do argumento do antipartidarismo, por exemplo, foi a
dispersão dos partidos e das organizações de esquerda, pois quando esse argumento se
aprofundou, cada uma, ao seu modo, procurou capitanear a direção das manifestações231.
Como é percebível nas imagens abaixo:

Foto 11 - Convite compartilhado no Facebookpor Wibsson
Ribeiro Lopespara uma discussão sobre as manifestações
de junho de 2013 na sede do PSTU, na cidade de
Maceió/Alagoas.
Disponível
em:
<https://www.facebook.com/wibsson.ribeirolopes?fref=ts>.
Acessado em 20/12/2014.

230

LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
231
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 29/05/2016. In: Acervo pessoal
de Sara Angélica Bezerra Gomes.

74

Foto 12 - Convite compartilhado no Facebook por Magno
Francisco da Silva, em 18/06/2013 para uma discussão
sobre as manifestações de junho de 2013 na sede do
DCE/UFAL, na cidade de Maceió/Alagoas. Disponível em:
<https://www.facebook.com/magno.franciscodasilva?fref=ts>.
Acessado em 20/12/2014.

O primeiro convite foi produzido pela Anel e pelo PSTU; o segundo convite pelos
militantes do grupo Correnteza e pelo PCR. Ambas as organizações chamaram a multidão
para discutir sobre as manifestações de junho em locais diferentes. E esses convites e as
narrativas dos militantes citadas acima também revelam outro fato importante das
manifestações de junho. Isso porque, enquanto em algumas cidades paulistanas, a deflagração
desse fenômeno não contou com a atuação dos militantes do Movimento Passe Livre (MPL)
para a organização das passeatas nas ruas.
O MPL, como dito no primeiro capítulo, ganhou ênfase no Brasil no século XXI,
depois do Fórum Social Mundial em Porto Alegre no ano 2005232. Em 2013, este coletivo
possuía coordenações em vários estados, sendo uma alternativa para os jovens que não
quisessem seguir partidos políticos233. Ele ganhou centralidade na grande mídia em junho de
2013, sobretudo no momento em que o antipartidarismo se acentuou, aparentando ser um
movimento de novo tipo, autônomo, independente e apartidário234. Mas, com a ausência do

232

GOHN, Maria da Glória. “A participação dos coletivos: Movimento Passe Livre (MPL), Anonymous e Black
Blocs”. In:Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2014, p.44-63.
233
MPL/SP. Apresentação. In: Passe Livre. Disponível em: <http://saopaulo.mpl.org.br/apresentacao/>
Acessado em 31/01/2015.
234
JUDENSNAIDER, Elena; Et al. Vinte Centavos: a luta conta o aumento. São Paulo: Veneta, 2013.

75

MPL em Maceió, a atuação das organizações de esquerda desta cidade foi mais explicita235.
Quando o MPL se retirou das manifestações de junho, em São Paulo, ele ao que tudo
indica, não foi rechaçado pela multidão 236. Ele se retirou assim que a tarifa do transporte
público baixou237. E, até a tarifa baixar, o MPL junto com outros grupos políticos, como a
Anel, tentando manter a unidade política dos protestos 238 . Em Maceió, ao contrário, as
organizações de esquerda foram rechaçadas pela multidão antes da questão da tarifa do
transporte público ser resolvida pelo governo. E quando a decisão do aumento na tarifa foi
adiada, o fenômeno de junho nesta cidade começou a perder unidade política, pois, embora as
pautas estivessem se ampliando como consequência da atuação de determinados grupos
políticos e da atuação da grande mídia, as manifestações de junho, ao tempo que cresciam,
prenunciavam elementos de sua desintegração.

2.2.2.Da ocupação a utilização do carro de som
Desde os movimentos Occupy239, pesquisadores chamam atenção para o fenômeno
da ocupação de importantes praças ao redor do mundo. As multidões que têm feito parte
desses movimentos vêm utilizando espaços públicos para discutir, deliberar sobre assuntos
variados e para iniciar manifestações. Em junho de 2013, antes da ocupação das ruas e as
avenidas em Maceió, algumas reuniões ocorreram entre os militantes do movimento
estudantil e dos partidos políticos junto com alguns manifestantes para decidir as datas e as
pautas de reivindicação para as manifestações. Essas deliberações eram realizadas em lugares
com algum significado político. Elas ocorriam no Espaço Cultural da Universidade Federal de
Alagoas (UFAL), nas sedes dos partidos políticos, em algumas ruas ou nos estacionamentos.
Conforme o militante do PCR, que participou da direção das Assembleias Populares
em junho de 2013, frequentemente realizadas no Espaço Cultural da UFAL, “as principais

235

LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 29/05/2016. In: Acervo pessoal
de Sara Angélica Bezerra Gomes.
236
GOHN, Maria da Glória. “Manifestações dos indignados no Brasil: antes, durante e depois de junho de 2013”.
In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes,
2014, p.17-88.
237
Op. cit.
238
Op. cit.
239
O termo Occupy foi criado para designar a eclosão simultânea de movimentos sociais de protesto com
reivindicações peculiares em cada região, mas com formas de luta semelhantes. Esse termo refere-se a uma onda
de mobilizações e protestos sociais que tomaram dimensão de um movimento global, iniciados no norte da
África no ano de 2011. Eles ficaram conhecidos pela aversão as formas tradicionais de realizar reivindicações. A
respeito do Occupy, ver o trabalho organizado por David Harvey “Occupy: movimentos de protesto que tomaram
as ruas”.

76

decisões eram tomadas ali e não nos fóruns da internet!”240. Aquele espaço foi utilizado para
chamar estudantes ou ex-estudantes desta universidade que estavam vinculados de alguma
forma ao movimento estudantil universitário, sobretudo, ao grupo Correnteza e ao PCR. Essas
duas organizações quando chamavam reuniões recorriam ao Espaço Cultural ou a sede do
Diretório Central dos Estudantes, que na época estava sob a liderança do grupo Correnteza241.
Os militantes do grupo Correnteza e do PCR demarcaram esses espaços para atuar durante as
manifestações de junho, pois a escolha dos lugares para tomar deliberações era uma estratégia
que cada grupo possuía para atrair públicos específicos.
Os partidos e o movimento estudantil queriam atrair uma composição social de
manifestantes que corroborasse com suas propostas e palavras de ordem. E, desse modo,
enquanto os militantes do PCR e da Correnteza estavam interessados nos espaços da UFAL
em Maceió para atrair os estudantes universitários; os militantes da Anel e do PSTU se
concentravam na sede do PSTU, no bairro Poço, para atrair um público mais variado de
trabalhadores e estudantes 242.
Esses militantes também escolhiam os locais para dar início às manifestações nas
ruas. Assim, dentre os lugares escolhidos para dar início às passeatas em junho de 2013,
trêsparecem ter sido importantes: o Centro de Estudo e Pesquisas Aplicadas (CEPA),
localizado no bairro Farol; a Praça do Centenário, localizado no Centro e a Orla do bairro do
Jaraguá. O Cepa, antes do fenômeno de junho, era escolhido como ponto de encontro para
iniciar manifestações de rua, pois concentrava os estudantes vinculados ao movimento
secundarista e está localizado na Av. Fernandes Lima, cujotrânsito é um dos mais
movimentados de Maceió.
Em razão de sua localização central, o Cepa era escolhido como ponto para
concentrar manifestantes tanto pelos ativistas do movimento estudantil secundarista quanto
pelos militantes do movimento estudantil universitário e de alguns partidos de esquerda243.
Desse modo, no contexto do fenômeno de junho, não seria estranho a escolha deste lugar para

240

SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
241
DIRETÓRIO CENTRAL DOS ESTUDANTES. Convocatória CEB. In: DCE –UFAL. Disponível em:
<http://dceufal.blogspot.com.br/>. Acessado em 20/12/2015.
242
LOPES, Wibsson Ribeiro Lopes. Página pessoal no Facebook de Wibsson Ribeiro Lopes. Publicado em
19/06/2013. Disponível em: <https://www.facebook.com/wibsson.ribeirolopes?fref=ts>. Acessado em
22/12/2014.
243
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.

77

dar início as passeatas de junho244.
A Praça do Centenário e a Orla do bairro de Jaraguá também foram espaços
escolhidos pelos militantes para atrair a multidão. Devido a sua proximidade com uma das
áreas comerciais mais movimentadas de Maceió, a utilização dessa praça provavelmente foi
uma estratégia para chamar a atenção dos trabalhadores. Mas, além desses espaços escolhidos
pelos militantes, muitas disputas marcaram as passeatas de junho. O carro de som, por
exemplo, foi algo disputado por diferentes grupos no decorrer deste fenômeno.
As passeatas ocorridas nos bairros do Centro, Jaraguá e Farol foram conduzidas por
um trio elétrico, comandado por equipes que se reversavam ao microfone 245 . Esse trio
enquanto passava pelas ruas, proporcionava, além das falas, a audição de canções como
“Liberdade”, de Edson Gomes, para agitar a multidão 246 . Nele, palavras de ordem eram
pronunciadas e as pessoas acompanhavam. E os militantes, por sua vez, gritavam sem parar
frases como “Pode chover, pode molhar, mas a passagem vai baixar” ou “Passagem barata, se
não pulo a catraca”247.
Mas, situações inusitadas relacionadas ao trio elétrico ocorreram durante junho. Para
um militante do PCB, os setores da direita e da esquerda estavam disputando o sentido da
multidão através do uso do carro de som248. E, conforme um militante do PCR havia dois trios
elétricos na capital alagoana, um deles estava vinculado aos grupos da direita, pois ele foi
doado pela câmara dos vereadores de Maceió e estava sendo liderado pelo vereador Galba
Novaes, filiado na época ao Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) 249250 .
Esse trio dividia as manifestações com o apoio de alguns movimentos, como o “Movimento
Caras-Pintadas” e com o apoio dos militantes ligados ao Partido da Social Democracia
Brasileira (PSDB)251252. Nesse trio, “duas ou três pessoas filtravam quem podia falar ali, com

244

Op. cit.
Op. cit.
246
Manifestação na Orla de Maceió. Produção de Laissantg. In: Maceió: Youtube, publicado em 20/06/2013. 1
Vídeo (Duração 8min59seg). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=VGQjNnyPT7M>. Acessado
em 20/12/2015.
247
Op. cit.
248
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
249
SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 03/02/2016. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
250
O PMDB nasceu do MDB. Ele foi fundado em 24 de março de 1966, no período em que o país assistia a
extinção dos partidos imposta pelo AI-2 e a instalação do bipartidarismo logo em seguida. Em 1964 este
partidoabrigou vários tipos de ideologias e tendências políticas, instigou, gestou outros partidos, e se manteve no
centro das discussões durante, na queda e após o regime militar. A esse respeito ver:
<http://pmdb.org.br/institucional/historia/>.
251
Op. cit.
245

78

discursos, inclusive, anti-partidários, financiando um carro pra deixar o microfone a
disposição de pessoas que queiram falar contra os partidos políticos”, afirmou o militante do
PCB253.
Segundo o militante do PCB, os grupos da direita estavam denegrindo a imagem dos
partidos de esquerda, isso era notável no trio elétrico, quando alguns ativistas pronunciavam
discursos defensores “das ideias de que somos um só, que o gigante acordou e que temos que
pensar no Brasil e não em ideologias partidárias específicas”254. A esse respeito, um militante
do PSTU ainda completou que o sentimento de aversão às bandeiras dos partidos de esquerda
foi construído durante o uso deste segundo carro de som, diretamente relacionado à
construção do argumento do antipartidarismo255.
O uso do microfone e do trio elétrico por alguns grupos da direita também foi
inquietante para um militante anarquista, pois, segundo ele, “teve uma organização que
entregou o microfone para um militar falar, e isso em outros anos, ou em outra perspectiva de
uma manifestação mais combativa, querer que chegue próximo à embates, é inadmissível”256.
O trio elétrico ligado ao vereador Galba Novaes incomodou tanto os anarquistas, quanto o
movimento estudantil e os partidos de esquerda257.
Esse trio, entretanto, parece ter sido retirado rapidamente das ruas e, quando isso
aconteceu, alguns grupos políticos se destacaram, pois apenas um trio doado pela Central
Única dos Trabalhadores de Alagoas (CUT) permaneceu na manifestação de junho, sendo
conduzido pelos militantes do PSTU, ANEL, PCR, CORRENTEZA, entre outros 258 . A
utilização desse trio elétrico desponta uma situação inquietante, pois os militantes que foram
até ele para pronunciar palavras de ordem e agitar a multidão menosprezaram, criticaram ou

252

O PSDB foi fundado em 1988, no período em que o Brasil estava se reorganizando politicamente após o
regime civil militar de 1964.O PSDB participou do governo Itamar Franco e chegou à presidência com Fernando
Henrique Cardoso em 1995, constituindo o núcleo de seu ministério e de sua base no Congresso. A esse respeito
ver: <http://www.psdb.org.br/psdb/historia/>.
253

MACIEL, Osvaldo Batista Acyoli. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
254
Op. cit.
255
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
256
ALMEIDA, João Carlos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
257
SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 03/02/2016. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
258
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 29/05/2016. In: Acervo pessoal
de Sara Angélica Bezerra Gomes.

79

negaram a influência e a participação do PT e da CUT durante as manifestações de junho em
Maceió.
Um militante do PSTU, quando entrevistado, disse: “pela primeira vez na história
recente do país, acontece um protesto de massas entendeu, em que a CUT e o PT não
impulsionaram”259. Para ele, a CUT somou-se aos protestos em curso na cidade Maceió, mas
não foi preponderante para a realização dos mesmos, uma vez que foi o movimento estudantil
junto com os anarquistas que organizou esse fenômeno260.
A CUT, entretanto, parece ter sido imprescindível para as manifestações de junho.
Ela disponibilizou um trio elétrico para que diferentes organizações da esquerda pudessem se
manifestar e disputar a direção da multidão. A esquerda e a direita disputaram o uso do trio
elétrico e isso era notável quando os militantes falavam no microfone ligado a esses trios,
marcando posições e definindo objetivos.
Desse modo, na capital alagoana, não era apenas os grupos de direita que estavam
tentando desgastar o governo petista. Os grupos de esquerda também tentaram desgastar esse
governo. Entretanto não hesitavam em usar a estrutura disponibilizada pela CUT para
ganharem evidência entre a multidão, reivindicando a atenção para si usando ideias ou críticas
contra seus aliados261. A tendência a desgastar o governo petista, entretanto, parece ter se
agravado quando a ideia do antipartidarismo ganhou ênfase entre os manifestantes e os
militantes decidiram agir separadamente.
2.3. A atuação dos mascarados
A disposição particular de tecelões e mineiros para quebrar máquinas nas disputas
trabalhistas inglesas; a juventude de alguns dos amotinados, e não de outros; o papel
desempenhado pelas mulheres em algumas das grandes jounées da Revolução
Francesa; e o papel respectivo dos agricultores e dos trabalhadores agrícolas nos
motins rurais ingleses das décadas de 1830 a 1840, e o dos trabalhadores das
oficinas de manutenção das estradas de ferro, em Paris, em Junho de 1848. Todos
esses exemplos sugerem que a natureza dos distúrbios e das atividades da multidão
está estreitamente relacionada com a composição (social, ocupacional e outras) dos
que deles participaram262.
259

LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
260
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 29/05/2016. In: Acervo de Sara
Angélica Bezerra Gomes.
261
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 29/05/2016. In: Acervo de Sara
Angélica Bezerra Gomes.
262
RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora Vozes. Petrópolis, RJ, 1964, p.211.

80

Retirada da obra “As multidões na História: estudo dos movimentos populares na
França e na Inglaterra 1730-1848” do historiador George Rudé,o recorte acima é de enorme
atualidade para compreender as manifestações nas praças, ruas e avenidas ao redor do mundo
no século XXI, em particular, para compreendermos os significados de multidões terem
ocupado diferentes cidades brasileiras em junho de 2013. Rudé, neste trabalho, descreveu o
tipo de manifestação popular e social predominante em dois países europeus no período préindustrial, Inglaterra e França, ressaltando que o ato de quebrar coisas durante uma
manifestação é uma ação antiga, iniciada antes desse período, por pessoas frequentemente
pertencentes a classes “inferiores”.
Quando as cidades brasileiras foram agitadas por manifestações em junho, difundiuse a ideia de que esse fenômeno constituiu um “novo tipo de movimento social” devido a
participação de manifestantes com um “novo perfil de ativismo político” 263 . Em termos
concretos, esses manifestantes, inicialmente engajados na luta pela redução na tarifa do
transporte coletivo urbano, depois ampliaram sua agenda de reivindicações e difundiram suas
ações de protestos por várias cidades do país. Fazendo emergir deste processo trajes e
máscaras peculiares de um mosaico de “velhos” e “novos” movimentos e de demandas
“históricas” e do “cotidiano imediato”, articulando um emaranhado de demandas locais,
regionais, nacionais.
Em Maceió, a presença de manifestantes com máscaras, segurando faixas, cartazes, a
bandeira do Brasil ou atirando coquetel molotov chamou atenção para a possível presença de
ativistas relacionados aos Anonymous e aos Black Blocs, dois coletivos/ táticas de luta que
ganharam destaque durante as manifestações de junho em alguns estados.E, no caso do
Anonymous, a máscara sorridente ganhou destaque nas ruas brasileiras como um símbolo de
resistência e proteção. E, além desta máscara, o capuz e as roupas usadas pelos ativistas do
Black Bloc também foram usadas como símbolo de luta e resistência264.
As máscaras e os trajes utilizados pelos ativistas desses dois coletivos,
provavelmente era uma novidade nas manifestações de rua de Maceió. Elas geravam
inquietação entre os militantes, porque não revelavam para quais grupos políticos estavam

263

GOHN, Maria da Glória. “Manifestações dos indignados no Brasil: antes, durante e depois de junho de 2013”.
In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ: Vozes,
2014, p.17-88.
264
Op. cit.

81

articulados265. Mas, na capital alagoana, as pessoas com a máscara do Anonymous e com o
traje do BalckBloc, aparentemente contribuíram para reforçar a disputa entre os grupos
políticos, sobretudo, quando a multidão e as agendas de reivindicação se ampliaram.

2.3.1. Anonymous
Até mesmo o coletivo Anonymous, pouco atuante no Brasil como foi noOccupy,
revela este caráter totalitário e homogeneizante do “gigante acordado”: a máscara
usada esconde o indivíduo até a sua existência factual e apenas repete rostos iguais
na multidão266.

As máscaras
podem ser usadas por muitos motivos durante uma manifestação, inclusive, para
demarcar a atuação de um grupo. Quando usadas em determinados contextos, elas são tão
relevantes quanto as palavras de ordem pronunciadas por uma multidão, porque revelam uma
identidade267.
Como exposto no primeiro capítulo, o coletivo Anonymous surgiu no início do
século XXI nos Estados Unidos, com a atuação de um grupo de hackers e depois se espalhou
pelo mundo, atraindo pessoas com grande experiência em técnicas de hackeamento268. Esses
hackers depois de certo tempo passaram a usar a imagem da máscara sorridente, para se
esconder sua identidade, mas também para se apresentar aos usuários da internet.
No Brasil, durante as manifestações de junho, a atuação deste coletivo foi tema para
artigos, entrevistas e livros produzidos por pesquisadores que escreveram sobre esse
fenômeno, como a socióloga Maria da Glória Gohn269. Isso porque a máscara sorridente era
usada para simbolizar a atuação deste coletivo na internet estava nas ruas da cidade de São
Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia, de Pernambuco, em vários outros estados. E, na cidade de
Maceió e de Delmiro Gouveia, ela também estava nas ruas e nas avenidas.
Em Maceió, a presença desses mascarados suscitava muitas interpretações, afinal,
como era possível um grupo de Hackers, que busca preservar sua identidade no ambiente
virtual, está em passeata nas ruas correndo o risco de ser descoberto? Como exposto
265

MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
266
MORGENSTERN, Flávio. “O indivíduo e a multidão sob a máscara de Guy Fawkes, do Anonymous”. In:
Por trás da máscara. Rio de Janeiro: Record, 2015, p. 398.
267
OLSON, Parmy. Nós somos Anonymous: por dentro do mundo dos hackers. Tradução Henrique Guerra.
Barueri, SP: Novo Século Editora, 2014.
268
Op. cit.
269
Op. cit.

82

anteriormente, a máscara sorridente foi usada pelo Anonymous para caracterizar no ambiente
virtual a atuação deste coletivo, mas, em junho de 2013, várias pessoas provavelmente não
pertenciam a este coletivo, utilizaram esta máscara.
Em junho, as ruas de Maceió possivelmente não estavam sendo ocupadas pelos
ativistas do coletivo Anonymous. O uso da máscara sorridente poderia estar sendo feito por
pessoas associadas a grupos políticos, por hackers, por anarquistas ou como uma forma de
proteção contra as bombas de gás lacrimogêneo. Para o militante do PCB, o uso dessa
máscara na capital alagoana foi uma atitude anarquista individualizada 270 . Conforme este
militante, “essas manifestações anônimas ou pessoas com máscara e tal, eles foram mais
atitudes mais individuais (..) e daí um ou outro grupo que seja mais organicamente anarquista
e se utilize dessa leitura de mundo e tal”271.
Não havia consenso entre os militantes dos partidos de esquerda da cidade de Maceió
sobre o que era e a qual grupo pertencia os manifestantes com a máscara sorridente. E,Entre
os militantes desta cidade que foram entrevistados, apenas o militante do Cazp comentou
sobre a atuação do Anonymousna internet. Não havia um único objetivo e um único grupo
fazendo uso da máscara do personagem “V” em junho de 2013. A atuação do coletivo
Anonymous na cidade de Maceió, desse modo, ainda é uma história em aberto.
Não foi possível afirmar se os mascarados eram integrantes de algum coletivo
anarquista ou pessoas comuns que viram esta máscara nas mídias e decidiram usá-la nas ruas
para proteger sua identidade ou para construir uma identidade de luta e resistência.Até o
momento em que este texto foi finalizado não foram encontrados registros de denúncias
realizadas pelos moradores de Maceió sobre invasão dos hackers a sites, blogs e redes sociais,
reivindicado pelos Anonymous.

2.3.2. Black Blocs
Em um determinado momento das manifestações, o Black Bloc, o movimento Black
Bloc passou a cumprir um papel ruim, atrasado. Porque é...promovia algumas ações
inconsequentes, que jogava, que justificava a ação da repressão, por um lado, e
ajudava no discurso conservador contra as manifestações 272.

A atuação do coletivo Black Blocs foi um tema central nos telejornais em junho de
270

MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.
271
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
272
SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.

83

2013, principalmente quando o tema era violência273. Conforme diz a citação acima, retirada
de uma entrevista com um militante do PCR, a atuação deste coletivo, além de contribuir para
a repressão policial contra os manifestantes, reforçava o discurso conservador das mídias
contra as multidões nas ruas, que diversas vezes caracterizou como vandalismo as atitudes de
alguns grupos274.
Para este militante, o coletivo Black Bloc “cumpriu mais um desserviço do que um
serviço a favor da causa”275. Na sua interpretação, a atuação deste coletivo além de não ter
sido aliada a um programa da classe trabalhadora e dos jovens durante junho de 2013, era uma
atitude sem programa e nada parecido com uma violência revolucionária 276 . Pensamento
diferente a respeito deste coletivo, entretanto, esteve na narrativa de um militante do PSTU.
Conforme o ativista, a atuação do Black Bloc foi denegrida pela grande mídia, pois
ela criou uma interpretação negativa depois que eles começaram a destruir alguns
estabelecimentos 277 . Para os militantes destes dois partidos, a grande mídia queria causar
confusão a respeito da ocupação das ruas pelas multidões de junho, construindo uma notícia
depreciativa a respeito da atuação deste coletivo.
O discurso da grande mídia sobre os Black Bloc foi muito significativo, disse um
militante do PCB 278 . Mas se por um lado a mídia burguesa, ou seja, as grandes redes
televisivas, jornais ou demais meios de informação de massa, demonizou a atuação do
coletivo Black Bloc, nas redes sociais, nos sites ou em blogs não havia um consenso em
relação a atuação deste coletivo em junho de 2013.
Os militantes de esquerda, entrevistados sobre esse tema, não perceberam a atuação
deste coletivo como uma forma de resistência. Por um lado, esses militantes demonstraram
repúdio ao discurso da grande mídia quando se tratava deste coletivo, mas, por outro, eles
também não deixaram de fazer observações a respeito dos grupos disfarçados com roupas
pretas, brancas e vermelhas, capuz ou máscaras feitas com blusas e lenços. Esses militantes
aparentemente não concordavam com o programa de atuação do coletivo Black Bloc e se
273

GOHN, Maria da Glória. “A participação dos coletivos: Movimento Passe Livre (MPL), Anonymous e Black
Blocs”. In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2014.
274
SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
275
Op. cit.
276
Op. cit.
277
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
278
MACIEL, Osvaldo Batista Acioly. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo
do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia – Alagoas.

84

sentiram incomodados com as atitudes dos mesmos. Para o militante do PCB, este coletivo
além de atuar individualmente na cidade Maceió durante junho, sua tática foi usada pela
direita279.
A atuação dos grupos vestidos com os trajes do coletivo Black Bloc também não
agradou a alguns partidos políticos. A tática do Black Bloc, entretanto, parece
ressignificaruma forma de reivindicação antiga, usada de diferentes maneiras em cada país.
Conforme o historiador George Rudé, antes da primeira Revolução Industrial e da criação das
associações, sindicatos ou partidos políticos, era comum, por exemplo, pessoas reunindo-se
em grupo para destruir estabelecimento ou saquear determinados locais280. Nos períodos em
que o pão era caro e quando os salários estavam muito aquém do esperado, era comum esse
tipo de atitude/ações na Europa281.
Essas atitudes ocorriam em países europeus, cuja população dispunha de pouco ou
nenhum direito político. A tática de saquear, por exemplo, foi frequentemente requisitada em
momentos de fome, pois a multidão se organizava para tomar lojas, padarias e depósitos e não
estavam filiadas a partidos ou associações e, portanto, destruíam o que julgavam ser o
principal problema282. Rudé caracterizou essas atitudes das multidões antes do período préindustrial, como um tipo de motins283. Toda vez que a multidão apelava para ataques súbitos e
avassaladores, ela recorria a um motim mais tradicional, ou seja, a uma forma de atuação cuja
destruição, violência e saques apresentavam resultados mais rápidos do que a agitação
prolongada e pacífica.
No Brasil, manifestações desse tipo marcaram as rebeliões em vários contextos
históricos. Entre os séculos XVII e XVIII, escravos e índios se associavam para fortalecer a
luta contra os representantes régios, organizando manifestações voltadas para saquear, atacar e
incendiar plantações e fábricas de engenho 284 . Conforme Figueiredo, escravos e índios
recorriam a este tipo de ação mais radical285.
Outro exemplo de manifestação radical ocorrida no Brasil aconteceu em 1904, na
cidade do Rio de Janeiro. Naquele ano, a Capital da República foi palco para a “Revolta da
Vacina”, movimento realizado contra a obrigatoriedade da vacina para varíola. Esta revolta foi
279

Op. cit.
RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, RJ, 1964.
281
Op. cit.
282
Op. cit.
283
Op. cit.
284
FIGUEIREDO, Luciano. Rebeliões no Brasil Colônia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2005, p.31.
285
Op. cit.
280

85

desencadeada pelos moradores dos bairros mais precarizados do Rio de Janeiro e, nesse
contexto, postes, vidros, bondes, portas, combustores de gás, fios da iluminação elétrica das
avenidas foram depredados286. Insatisfeitos com o governo, os manifestantes na “Revolta da
Vacina” realizaram esse protesto que levou o governo federal a suspender a temporariamente
a vacinação obrigatória.
Esse tipo de atuação radical não se encerrou no Brasil e também não surgiu com o
Black Bloc. Mudaram-se os alvos, os personagens e o contexto histórico, mas a multidão não
deixou de recorrer a essas formas de manifestação. Em junho de 2013, os manifestantes que
usaram esse tipo de atuação ganharam o nome de coletivo Black Bloc287. Mas, como dito
anteriormente, os jornalistas que trabalham para a grande mídia, assim como os militantes da
cidade de Maceió não perceberam a atuação deste coletivo como uma forma positiva de luta e
resistência.
Não houve uma única definição a respeito do coletivo Black Bloc em junho de 2013.
Na capital alagoana, a atuação deste coletivo não foi semelhante a que ocorreu em São Paulo
e no Rio de Janeiro. A esse respeito, quando questionado sobre a destruição em Maceió
causada por este coletivo, um militante afirmou:
não houve nada semelhante no restante no Brasil, muito menos em São Paulo, muito
menos no Rio de Janeiro, certo! Então aqui você não teve banco sendo apedrejado,
você não teve nada disso, certo! Nenhum sinal de lojas sendo quebradas, coisa de
violência mais significativa288.

Este militante destacou a ausência de destruição das lojas e bancos para comparar a
atuação do coletivo Black Bloc em Maceió, São Paulo e no Rio de Janeiro. E, interpretação
semelhante, também se encontra na narrativa de um ativista filiado ao PSTU. Para ele:
aqui em Alagoas, eu acho que foi um dos locais mais... É... Onde esse sentimento do
Black Blocs, do quebrar tudo, ele foi mais controlado, eu acho, a palavra não é bem
controlado, ele foi muito, eles ensaiavam em alguns momentos entendeu, alguns
momentos as pessoas subiam nos ônibus, pareciam que queriam depredar e tal, e o
próprio movimento, como ele era muito mais organizado, aqui, nesse sentido ele era
mais organizado, mais unido, então tudo dentro de um script assim no controle 289.

Em Maceió não houve a destruição de estabelecimentos e a atuação do coletivo
286

CARVALHO, José Murilo de. “Cidadãos ativos: a Revolta da Vacina”. In: Os Bestializados. São Paulo:
Companhia das Letras, 1987, p.104-105.
287
GOHN, Maria da Glória. “A participação dos coletivos: Movimento Passe Livre (MPL), Anonymous e Black
Blocs”. In: Manifestações de junho de 2013 no Brasil e praças dos indignados do mundo. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2014.
288
SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
289
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.

86

Black Bloc não catalisou a atenção dos policiais, dos comerciantes e dos políticos. Entretanto,
eles estiveram presentes em muitas passeatas e não deixaram de causar receio entre os
proprietários de lojas comerciais, que fecharam as portas de seus estabelecimentos por conta
das manifestações. Como se pode observar na imagem abaixo:

Foto 13 - Comerciantes do centro da cidade de Maceió
fechando as portas das suas lojas antes da chegada dos
manifestantes.
Disponível
em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceiotem-terceiro-dia-de-protestos.html>. Acessado: 20/12/2015.

Esta imagem, registrada pelo fotografo Amarilio Monteiro e publicada no site do G1
Alagoas, durante as manifestações de junho na capital alagoana, demonstra que no decorrer
deste fenômeno os comerciantes também estavam inquietos com a atuação dos manifestantes
e, por essa razão, estavam fechando suas lojas no entardecer por receio de ocorrer
depredações e roubos. Essa atitude dos comerciantes não era uma situação inesperada, uma
vez que no dia 21 de junho de 2013, o próprio jornal Gazeta de Alagoas noticiou a tentativa de
depredação durante a manifestação do dia 20 de junho.
Durante uma tentativa de ataque a uma vitrine de loja, na Praça Deodoro, alguns
tentaram jogar pedra e até rojões contra o estabelecimento. Neste momento, um
grupo se deu as mãos para evitar vandalismo. O mesmo ocorreu diante do prédio da
Transpal que, mesmo não sendo depredado, não escapou de ser pichado. Durante a
caminhada, os poucos tumultos envolveram pequenos grupos isolados 290.

A atuação mais radical de alguns grupos foi comparada com atos de vandalismo
pelos próprios manifestantes,pelos comerciantes e pelos militantes, mas essa situação parece
ter sido construída também pela cobertura jornalística da grande mídia a respeito do coletivo
290

FEITOSA, José. “Mais de dez mil pessoas voltam às ruas de Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição
do dia 21/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>.
Acessado em 20/10/2015.

87

Black Bloc291. A atuação dos mascarados em Maceió deixou muitas questões abertas, as quais
não serão discutidas aqui. Os manifestantes vestidos com os trajes do Black Bloc em junho de
2013 recuperam táticas antigas de protesto, preferindo agir sem vínculo com os partidos
políticos de esquerda. A atuação desses manifestantes, entretanto, parece ter contribuído para
a construção de muitas disputas políticas e para ampliação das pautas de reivindicação.

2.4. Por mais políticas sociais?
As cidades são o principal local onde se da a reprodução da força de trabalho. Nem
toda melhoria das condições de vida é acessível com melhores salários ou com
melhor distribuição de renda292.

Esta citação, retirada do trabalho “Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações
que tomaram as ruas do Brasil”, chama atenção para o fato de que multidão não saiu às ruas
em junho de 2013 apenas por causa do aumento no valor da tarifa do transporte público, mas
também por melhorias em outros setores sociais293. Conforme Maricato, isso ocorreu porque
nas últimas décadas algumas cidades do Brasil passaram por mudanças demográficas, urbanas,
ambientais, sociais e econômicas294.
As cidades, na medida em que essas reformas/mudanças foram ocorrendo, tornaramse espaços para a reprodução de desigualdades sociais, pois elas impuseram restrições à
capacidade dos governos de criar ou manter qualitativamente políticas públicas 295 . Os
serviços sociais administrados pelos governos passaram a ser administradas também por
empresas privadas, ocasionando aquilo que Arantes chamou do mito do desenvolvimento
social296.
Esse mito do desenvolvimento social se refere a um colapso na vida social das
cidades causado, em particular, pela negociação entre o Estado e as empresas do mercado
imobiliário, automobilístico, construtoras, entre outras297. Para Arantes, a explicação para este
mito está nas reformas urbanas que não melhoraram as cidades para a população, mas apenas
291

ALZAMORA, Geane Carvalho;RODRIGUÉS, TacyanaKarinnaArce.“Fora Rede Globo”: a representação
televisiva das “Jornadas de Junho” em conexões intermídia”. In: Revista Ecopós .V. 17 .N. 1.2014.
292

MARICATO, Ermínia. “É a questão urbana, estúpido!”. In: MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes:
Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. 1.ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013, p.
19.
293
Op. cit.
294
Op. cit.; p,21.
295
Op. cit.
296
ARANTES, Pedro Fiori. “Da (Anti) Reforma urbana brasileira a um novo ciclo de lutas nas cidades”. In:
SAMPAIO JR, Plínio de Arruda; Et al. Jornadas de Junho: a revolta popular em debate. ICP, São Paulo, junho
de 2014.
297
Op. cit.,p.61.

88

para alguns grupos com maior poder aquisitivo para ter acesso aos melhores espaços e aos
melhores serviços298.
Durante as manifestações de junho de 2013, o tema do transporte público chamou a
atenção de muitas pessoas, entretanto quando essas pessoas foram às ruas, elas pareciam
estarinsatisfeitas também com a péssima qualidade dos ônibus, com o tempo perdido dentro
do transporte público, com a precarização da saúde e da educação pública; e, desse modo,
demonstraram estar nessas manifestações por uma diversidade de temas e problemas causados
pelas reformas urbanas das últimas décadas.
Na cidade de Maceió, por exemplo, cartazes levados às ruas pelos manifestantes com
os temas: “Não a PEC da Impunidade”; “+Paz”; “+Educação, + Saúde, + Segurança”; “SUS:
Seu Último Suspiro”; “Corruptos, nós vamos te pegar”; “Outra sociedade é possível e
necessária”,entre outros 299 . Essas ações foram muito inquietantes e demonstravam uma
diversidade de demandas, denúncias e contradições.
Essa diversidade de demandas sugere que a deflagração das manifestações de junho
na capital alagoana também esteve associada a desequilíbrios nas políticas públicas. Para
Hobsbawm,esse tipo de contradição é resultado das transformações ocorridas no sistema
político e econômico mundial no final do século XX. Na avaliação deste historiador, no
referido contexto, alguns Estados-nações optaram por políticas públicas excludentes e/ou
insuficientes300.
Para Maricato, Arantes e Hobsbawm, as políticas públicas, entre o final dos anos 90
e a primeira década do atual século, estiveram, portanto, atreladas a uma política de
desigualdade social. O que parecia melhorar para alguns grupos sociais, representava a
continuidade de uma péssima política de transferência social, promovida por determinados
grupos políticos301.
Em Maceió, quando ocorreram as manifestações de junho, a combinação de muitos
temas sociais expostos nesse fenômeno não foi algo estranho. Mas essa combinação não
parece ter sido suficiente para fortalecer aqueles protestos de rua. Conforme Rudé, os
movimentos populares e sociais, às vezes, não são o que aparentam ser, e, portanto, é preciso

298

Op. cit.
Ver:
galeria
de
fotos
do
site
G1
Alagoas.
Disponível
em:
<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceio-tem-terceiro-dia-de-protestos.html#F845160>.
Acessado em 20/12/2015.
300
HOBSBAWM, Eric. “As décadas de crise”. In: Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução:
MacosSantarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
301
Op. cit.
299

89

observar de perto a multidão302.

2.4.1. Duas formas de protesto em uma manifestação
Desde a década de 1970, vários seguidores (sobretudo jovens e/ou classe média)
abandonavam os principais partidos de esquerda por movimentos de mobilização
mais especializados – notadamente os de defesa do “meio ambiente”, feministas e
outros chamados “novos movimentos sociais” –, assim enfraquecendo-os303.

Para Hobsbawm, o “breve século XX acabou em problemas para os quais ninguém
tinha, nem dizia ter soluções”304. Dentre esses problemas, ao menos um se tornou latente, o
destino dos movimentos sociais305. Segundo o autor, isso ocorreu porque desde final do século
passado as alternativas que os Estados-nações encontraram para minimizar a crise no sistema
político e econômico não impediram a multidão em vários países de questionar a atuação dos
governos e as lutas políticas organizadas pelos partidos306.
A esse respeito, o sociólogo Melucci refletiu que o tema dos movimentos sociais nas
últimas décadas se transformou em algo controverso na academia, pois foram construídas
várias vertentes explicativas para estes fenômenos 307 . Conforme Melucci, os movimentos
sociais contemporâneos, ou seja, as manifestações sociais surgidas a partir da década de 1990,
não são eventos promovidos apenas por operários, mas por uma multidão que cada vez mais
reivindica espaços para construção da cidadania308.
Esses movimentos criticam o sistema neoliberal e a atuação dos governantes,
formando novas redes de solidariedade e luta através da internet e representam a ascensão de
um fenômeno autônomo, apartidário e independente da atuação dos partidos políticos309. Para
Melucci, esses movimentos devem ser compreendidos no campo simbólico, uma vez que nas
sociedades com alta densidade de informação, a produção do mercado publicitário investe em
302

RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, RJ, 1964.
303
HOBSBAWM, Eric. “As décadas de crise”. In: Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução:
MacosSantarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.406.
304
Op. cit., p. 537.
305
Op. cit.
306
Op. cit.
307
MELUCCI, Alberto. “Conflitos de Cultura”. In: A Invenção do Presente. Tradução de Maria do Carmo
Alves Bonfim. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001, p. 70-94.
308
Op. cit.
309
Op. cit.

90

relações sociais, símbolos e identidades310. Para ele:

Os fenômenos coletivos emergentes nas sociedades complexas não podem ser
considerados simples razões para a crise, efeitos de marginalidade ou de desvio,
puros problemas de exclusão do mercado político. É necessário reconhecer que os
fenômenos coletivos que atravessam as sociedades avançadas são os sintomas de
movimentos antagonistas, mesmo considerando que este não é o seu único
significado311.

Os movimentos sociais contemporâneos surgem por diversos motivos. Eles estão
pautados no agir e “mobilizam grupos sociais sobre objetivos dificilmente negociáveis,
porque são irredutíveis inteiramente à mediação política”312. Alguns desses movimentos não
estão limitados às propostas de reivindicação dos partidos e também estão marcados pela
despolitização e pela falta de mediação política. Isso esteve visível nas manifestações de
junho de 2013 na cidade de Maceió, pois, nesse fenômeno pretejaram reivindicações diversas
e dispersas.
Nessas manifestações, enquanto organizações político partidárias eram questionadas
pela multidão, outros movimentos se acenderam aparentemente sem possuir nenhuma direção.
Nesse contexto, o “Movimento Caras-Pintada” que aparentava não possuir nenhum líder
definido atraiu muitos manifestantes. E quando esse movimento ganhou relevância durante as
manifestações de junho, as pautas de reivindicação também parece ter se ampliado, mas essa
ampliação não ocorreu de forma harmoniosa.
A diversidade de reivindicações não chegou acompanhada pela vontade de mediação
política. Parte dos manifestantes que se voltaram contra os partidos e se vincularam a outros
movimentos, como o “Movimento Caras-Pintadas”, não buscavam dialogar com o governo,
mas apontar, acusar e criticar. Isso esteve perceptível em muitas passeatas de junho,
sobretudo, na manifestação ocorrida dia 26 de junho de 2013.
No dia 26 de junho, um movimento se formou na cidade de Maceió, na Avenida
Fernandes Lima, localizado no bairro Farol313. Organizado pelo “Movimento Caras-Pintadas”,
este protesto contou com a participação de estudantes que rechaçavam a presença de
partidos314. Neste movimento participaram pouco mais de 400 estudantes e, a respeito deste

310

Op. cit.,p.79.
Op. cit., p.79.
312
Op. cit.,p.82.
313
FEITOSA, José. “Protesto reúne cerca de 400 pessoas e causa caos no trânsito estudantes promovem
caminhada em Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia 27/06/2013. Disponível em:
<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em 20/10/2015.
314
Op. cit.
311

91

ato, ojornal Gazeta de Alagoas noticiou o seguinte:
No caminho, entoavam palavras de ordem criticando os partidos políticos, enquanto
também cobravam a saída do governador Teotônio Vilela Filho do poder. Articulado
pelo Movimento Caras-Pintadas, alguns manifestantes seguravam um caixão
simulando o “enterro” de Téo, que seguiu à frente de um boneco vestido de
presidiário e um nariz de Pinóquio315.

Em uma edição anterior, de 21 de junho de 2013, o referido jornal destacou um
acontecimento relacionado à Universidade Federal de Alagoas. Ele tratou de um movimento
realizado em frente à Reitoria contra o desmonte da estrutura do Hospital Universitário
(HU)316. Neste ato, ocorrido no dia 20, professores, alunos e funcionários do HU organizaram
um protesto discorrendo sobre os problemas enfrentados por aquele hospital e pediram uma
resposta do reitor da Universidade, Eurico Lôbo. 317 No dia 21 de junho de 2013, o jornal
Gazeta de Alagoas publicou:
Intitulado “Marcha Fúnebre”, o protesto teve como objetivo denunciar o que os
manifestantes chamam desmonte da estrutura do HU. “Nosso hospital enfrenta
sérios problemas, como a suspensão de serviços, cancelamento de cirurgias, falta de
materiais diversos, de medicamentos a luvas e gazes”, reclama a assistente social
318
Analice
Dantas,
do
Fórum
em
Defesa
do
SUS
.

Diante do noticiado pelo jornal Gazeta de Alagoas, percebe-se que duas formas de
protesto marcaram as manifestações de junho em Maceió. De um lado, havia movimentos
sendo organizados por militantes e manifestantes que delimitavam problemas e pautas de
reivindicação, aparentemente de forma planejada, tentando uma mediação política; e do outro
lado, movimentos sendo organizados de forma espontaneísta, sem intenção de mediação
política, no caso do “Movimento Cara-pintada”.
Essas duas formas de protestos apresentavam perfis diferentes não apenas em sua
forma de organização. Eles possuíam conteúdos distintos, pois enquanto alguns manifestantes
pareciam se importar com as questões e as decisões que interferem no âmbito econômico e
político, como por exemplo, a tarifa do transporte público, outros manifestantes pareciam se
importar com questões ligadas à identidade cultural, deslocando o debate de classe para outras
esferas da vida e do cotidiano.
Essas diferenças ficaram visíveis quando o jornal Gazeta de Alagoas destacou a
narrativa de alguns dos participantes do “Movimento Caras-Pintadas”. Nas narrativas desses
315

Op. cit.
OLIVEIRA, Bleine. “Alunos e servidores fazem manifestação”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia
21/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado
em 20/10/2015.
317
Op. cit.
318
Op. cit.
316

92

participantes, algumas questões ganharam ênfase, como o caso do Projeto de Cura Gay do
deputado Marco Feliciano319. No dia 21 de junho, por exemplo, este jornal destacou a fala de
uma estudante universitária que dizia: “Sou contra a PEC 37 e a Cura Gay do deputado
(Marco) Feliciano”320.
Pauta de reivindicações que não interferiam diretamente na esfera econômica, como
o “Projeto de Cura Gay” criticado pela multidão em junho de 2013, demonstra a existência de
um movimento de rua ligada à questão da identidade de gênero, a exemplo. Embora tenha
sido proposta pelo deputado Marco Feliciano, esse projeto não era um problema propriamente
econômico e estava sendo alvo de críticas em junho, porque contrariava os direitos humanos,
sobretudo, a luta por reconhecimento social de Lésbicas, Gays, Travestis, Bissexuais,
Transexuais e Transgêneros.
Outra questão que demonstra formas distintas de protesto durante as manifestações
de junho, refere-se às reivindicações relacionados à educação pública. Embora o tema da
educação tenha sido central em muitos cartazes, não havia clareza entre a multidão sobre
quais problemas afligiam este setor. Esse tema, aliás, não parece ter recebido a importância
necessária em junho de 2013, na capital alagoana. O movimento estudantil secundarista e,
sobretudo, o movimento estudantil universitário aparentemente não deram muita ênfase a
questão da educação, pois a pauta central de reivindicação em junho de ambas as
organizações, era a tarifa do transporte público.
Os problemas específicos na educação pública não foram assinalados nas ruas. E,
quando se tratava da educação, esse tema era exposto de forma ampla, ou seja, sem
preocupação com a delimitação de pautas de reivindicação e com a mediação política com as
instituições governamentais. Alguns manifestantes criavam frases relacionadas à educação
apenas para expor a vontade de estar nas ruas. A exemplo disso, foi a frase de um estudante
secundarista divulgada no jornal Gazeta de Alagoas. Quando indagado sobre sua participação
nas manifestações de junho, este estudante disse: “Estou aqui para lutar pelos professores que
ganham menos de R$ 1 mil para salvar uma geração, em detrimento de políticos que ganham
mais de R$ 10 mil para destruir ela”321.
Há anos, entretanto, a capital alagoana é palco de manifestações por melhoria na
educação pública. Os estudantes e professores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL),
319

FEITOSA, José. “Mais de dez mil pessoas voltam às ruas de Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição
do dia 21/06/2013. Disponível em: <http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>.
Acessado em 20/10/2015.
320
Op. cit.
321
Op. cit.

93

por exemplo, antes de 2013, reivindicavam melhorias em questões específicas no ensino
superior público federal. Ambos discutiam desde o problema da extensa carga horária
docente, que estava afligindo os professores de vários cursos até a questão da assistência
estudantil, pois durante um período os estudantes universitários recebiam bolsas de estudo
para cumprir as funções dos servidores técnico-administrativos322.
Problemas pontuais da educação pública não estavam sendo expostos e mesmo os
militantes vinculados ao movimento estudantil universitário e secundarista não pareciam
preocupados com esse tema. Esses militantes, aliás, provavelmente preferiram se esquivar de
alguns debates, uma vez que estavam sendo rechaçados pela multidão e a conjuntura não era
favorável a eles.
A esse respeito, para um militante da Anel, por exemplo, as manifestações de junho
foram importantes, pois “o sentimento que ficou foi muito forte disso, de que é possível as
coisas se transformarem, é possível as coisas mudarem, é possível vencer...É possível lutar e é
possível vencer mesmo assim, e...Era um sentimento muito bom assim” 323 . E, para um
militante do PCR, essas manifestações “com todas as suas positividades e negatividades (…)
foi uma experiência necessária para todos, e para a esquerda especialmente, no conjunto das
batalhas, das outras batalhas que estão por vir”324.
Nas narrativas coletadas e analisadas, as manifestações de junho foram duvidosas.
Ambos os militantes, quando indagados sobre os resultados dessas manifestações, não citaram
nenhum problema social resolvido depois desse fenômeno. Para eles, essas manifestações
trouxeram muitas questões para serem repensadas por terem se distanciado da organização
dos partidos e pela variedade de pautas de reivindicação sem conteúdo político. A ampliação
de pautas de reivindicação durante o fenômeno de junho, desse modo, aparentemente não
esteve relacionado a uma vontade súbita da multidão de cobrar melhorias nos setores sociais
púbicos, mas a construção de movimentos sociais antagonistas, ou seja, movimentos que
trazem temas, conteúdos e interesses diversos, mas nãoestão limitados a mediação política

322

Intensificação e precarização do trabalho docente na UFAL: A carga horária em debate. In: Jornal ainda sem
nome do Fórum em defesa da Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade da UFAL. Disponível em: <forumem-defesa-da-universidade-publicadequalidadeufal@googlegroups.com.>.
323
LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
324
SILVA, Magno Francisco da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 24/ 04/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.

94

3 - FACES DAS MANIFESTAÇÕES DE JUNHO NO SERTÃO

3.1. Entre cores, máscaras e o anarquismo
Os protestos estão sendo inspiradores! Não seria nada mau um Movimento Passe
livre em Delmiro Gouveia!325.

A mensagem acima foi publicada no Facebook, em 14 de junho de 2013, por um
professor de História do ensino médio do município de Delmiro Gouveia, que a época estava
concluindo o seu curso na UFAL/Campus do Sertão. Assim como outras publicações nesta
rede social, a mensagem retirada da página pessoal do professor Emerson Máximo de
Carvalho demonstra o momento em que as manifestações de junho, iniciadas no Estado de
São Paulo e do Rio de Janeiro, começaram a se tornar mais frequentes nas discussões via
internet pelos moradores do referido município do Sertão de Alagoas.
Era o final da segunda semana do mês de junho, quando as manifestações ganharam
centralidade nas pastagens realizadas no Facebook. Em Delmiro Gouveia, no dia 20 de junho
de 2013, professores, estudantes, militantes de partidos políticos, anarquistas, entre outros
compartilharam em sites, blogs e nas redes sociais, um convite que objetivava reunir a
população no Coreto, espaço público onde frequentemente ocorriam eventos e/ou
manifestações políticas, sociais e culturais na cidade, para a partir das 16h30, realizarem um
protesto de rua.
O referido convite, intitulado “Movimento país livre: os caras pintadas estão de
volta”, provavelmente produzido pela Juventude do Partido do Movimento Democrático
Brasileiro (JPMDB)326 foi compartilhado no blog de José Ferreira dos Santos, um estudante

325

CARVALHO, Emerson Máximo de. Página pessoal no Facebook de Emerson Máximo de Carvalho.
Publicado14/06/2013.Disponívelem:<https://www.facebook.com/emersonmaximo.carvalho.1?fref=ts>.
Acessado em 22/12/2013.
326
Até o término desta pesquisa, não foi possível identificar o tipo de atuação do PMDB na cidade Delmiro
Gouveia, em junho de 2013. Apenas uma ex-estudante da Ufal/Campus do Sertão, entrevistada no início deste
ano, comentou a respeito da participação de uma juventude vinculada ao PMDB que estava atuando nas
manifestações de junho. A estudante, entretanto, comentou rapidamente sobre essa juventude, revelando apenas
que a mesma procurava chamar a atenção da multidão produzindo convites com slogans aparecidos durante o
fenômeno de junho em outros estados. A esse repeito, ver a entrevista: CONCEIÇÃO, Larissa Lisboa da.
Entrevistada por Sara Angélica Bezerra Gomes em 19/05/2016. In: Acervo de Sara Angélica Bezerra Gomes.
Larissa Lisboa da Conceição é graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Alagoas/ Campus do
Sertão. Quando participou das Manifestações de Junho de 2013 na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas, ela
convidou pessoas na universidade e através do facebook para se manifestar nas ruas e narrou, em uma entrevista
para esta pesquisa, sua experiência nessas manifestações.

95

do Curso de História da UFAL/Campus do Sertão que participou das manifestações327. Este
estudante compartilhou em seu blog de notícias o mencionado convite sob o título “Juventude
Delmirense estará unida em protesto amanhã 20/06”. Nesta postagem, o blogueiro desatacou
as falas dos manifestantes, sobretudo de jovens estudantes universitários e secundaristas, e a
informação de que mais de 500 pessoas já haviam confirmado a presença no ato328. A imagem
abaixo foi o convite compartilhado no facebook e em blogs para chamar a multidão.

Foto 14 -Convite produzido para a primeira
manifestação de junho de 2013, ocorrida na cidade
Delmiro Gouveia/Alagoas.
Disponível
em:<http://www.ferreiradelmiro.com/2013/06/movimentopromete-protesto-em-delmiro.html>.
Acessado
em
15/05/2015.

Este convite compartilhado no blog de Santos lembra os registros fotográficos
relacionados ao Movimento Caras Pintadas, ocorrido no Brasil em 1992. Durante aquele
movimento que aparentemente tinha como objetivo forçar a saída de Fernando Collor de
Mello do cargo de Presidente da República, a multidão vestiu-se de preto e pintou o rosto de
verde e amarelo para lembrar as cores da bandeira329.
Naquele contexto, o Brasil estava passando por várias reformas econômicas e, ao que
327

SANTOS, José Ferreira dos. “Juventude Delmirense estará unida em protesto amanhã 20/06”. In:
FerreiraDelmiro.com,
publicado
em
19/06/2013.
Disponível
em:
<http://www.ferreiradelmiro.com/2013/06/juventude-delmirense-estara-unida-em.html>.
Acessado
em
15/05/2015.
328
Op. cit.
329
ROCHA, José Aparecido da Silva; LÚCIO, Antônio Barbosa. Protesto social no Brasil: os jovens nos
movimentos sociais Diretas já e fora Collor. In: GT 20: Sociedade Civil: Protestos e Movimentos Sociais, 2013,
p.1-10.

96

tudo indica, as medidas reformistas de Collor para estabilizar a economia do país não estavam
atendendo às expectativas das classes populares e da classe patronal 330 . Essa situação
acarretou uma crise política que foi acentuada pela cobertura jornalística da grande mídia,
quando a mesma começou a reforçar o argumento que o governo era corrupto331. A grande
mídia não ajudou apenas a retirar Collor do cargo de presidedência, mas também contribuiu
para divulgar um dos símbolos do Movimento Caras Pintadas, ou seja, o uso das cores verde e
amarela no rosto pela multidão nas ruas332.
O ato de pintar o rosto com essas cores estava relacionado à ideia de defesa da nação
e a uma denuncia contra os casos de corrupação que estavam sendo divulgados pela grande
mídia. Não é estranho, portanto, um ato como este ter sido usado por alguns manifestantes ou
pelos organizadores das manifestações de junho de 2013, para chamar a atenção do governo.
Essa atitude parecia querer retomar a ideia de defesa da nação e de luta contra a corrupção, no
momento em que o Brasil começava a enfrentar outra crise política e econômica. Assim, nas
redes sociais, cartazes ou fotos de pessoas com o rosto pintado de verde e amarelo eram
comum em junho de 2013,como é possível perceber no convite acima.
Em concomitância a publicação deste convite na internet, um grupo de estudantes
chamou os demais colegas e servidores da Ufal/Campus do Sertão para a manifestação do dia
20 de junho333. Eles frequentaram as salas de aula, convidando professores e alunos para irem
as ruas se manifestar contra a corrupção, por melhorias na educação e na saúde, entre outros
temas 334 . Desse modo, quando teve início a primeira manifestação de junho em Delmiro
Gouveia, o Coreto foi ocupado por pessoas provindas de diferentes lugares, que produziram e
ergueram cartazes com vários temas, dentre eles: “Fábrica da Peste”, em alusão aos prejuízos
ambientais causados por uma secular fábrica de tecidos; “Passe Livre”, fazendo referência ao
problema do transporte público, sobretudo para os estudantes da Ufal/Campus do Sertão;
“Mais educação, saúde e respeito a população”, entre outros335.
Durante esse fenômeno, enquanto uns pintavam-se com as cores verde e amarela e

330

Op. cit.
Op. cit.
332
Op. cit.
333
SANTOS, José Ferreira dos. “Estudantes mobilizam UFAL para unirem-se a protestos hoje 20/06”. In:
FerreiraDelmiro.com,
publicado
em
20/06/2013.
Disponível
em:
<http://www.ferreiradelmiro.com/2013/06/estudantes-mobilizam-ufal-para-unirem.html>.
Acessado
em
15/05/2015.
334
Op. cit.
335
Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemósine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.
331

97

usavam objetos que lembravam a bandeira do Brasil; outros usavam capuz, máscaras feitas
com roupas ou a máscara do personagem “V” do filme “V de Vingança” 336. A manifestação
do dia 20 de junho de 2013, chamada por estudantes e militantes de diferentes grupos
políticos, mostrou solidariedade para com as manifestações que estavam ocorrendo nas
demais cidades do Brasil 337 . Mas, nesse contexto, enquanto alguns militantes anarquistas
vinculados ao Coletivo Libertário Delmirense (COLIDE) falavam em um microfone ligado a
um carro de som, outros manifestantes, levantando faixas e cartazes, cantavam o hino
nacional e afirmavam que a manifestação era antipartidária338.
Nessa primeira manifestação, apesar de alguns instantes de tensão em frente à sede
do executivo municipal, não foi registrado nenhum conflito entre a guarda municipal e os
manifestantes. Neste acontecimento, a multidão chegou ao prédio da prefeitura gritando
palavras de ordem, erguendo cartazes e utilizando o carro, alternando discursos relativos à
agenda de protestos, em particular,à administração municipal de Delmiro Gouveia339.
No dia 21 de junho de 2013, após a primeiro ato de protesto ocorrido nessa cidade
sertaneja, o estudante do curso de História acima mencionado publicou em seu blog uma
matéria intitulada “Uma análise crítica dos protestos em Delmiro”, na qual destacou as
reivindicações levadas as ruas pela multidão e o estado de euforia que tomou conta dos
moradores de Delmiro Gouveia em junho de 2013340. A matéria publicada pelo estudante,
entretanto, revelou um fenômeno inédito, multicêntrico e sem uma liderança definida.

336

SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
337
SANTOS, José Ferreira dos. “Chegou o grande dia, Delmiro estará unida hoje 20/06”. In:
FerreiraDelmiro.com,
publicado
em
20/06/2013.
Disponível
em:
<http://www.ferreiradelmiro.com/2013/06/chegou-o-grande-dia-delmiro-estara.html>. Acessado em 15/05/2015.
338
SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
339
Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemósine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.
340
SANTOS, José Ferreira dos. “Uma análise crítica dos protestos em Delmiro”. In: FerreiraDelmiro.com,
publicado em 19/06/2013. Disponível em: <http://www.ferreiradelmiro.com/2013/06/uma-analise-critica-dosprotestos-em.html>. Acessado em 15/05/2015.

98

3.1.1. Uma manifestação anarquista?

Segundo um dos militantes anarquistas do Colide, a época das manifestações de
junho, uma parcela da população sinalizava está insatisfeita com o prefeito da referida cidade
sertaneja 341 . Esse anarquista, receoso de sofrer algum tipo de retaliação do poder público
municipal, optou pelo anonimato, mas para ele o prefeito do município de Delmiro Gouveia “é
tido como um coronel”, pois há dezesseis anos se encontra no poder e faz o que quer”342.
As manifestações deflagradas em junho de 2013, no município de Delmiro Gouveia,
para o referido anarquista, foi também uma oportunidade de tecer críticas ao gestor municipal
que para ele e, para parte da população, incorporava o estereótipo de um “coronel” que persiste
em preservar seu poder de mando e de práticas clientelistas343. Outro anarquista, dentro de uma
perspectiva mais ampla, disse que os protestos de junho em Delmiro e no Brasil foram
marcados pela descrença nos partidos políticos e pelo desgaste ético e administrativo dos
gestores públicos em todas as esferas: municipal, estadual e federal344.
A respeito da descrença nos partidos políticos, Silva, militante anarquista do Colide,
afirmou ter optado pelo anarquismo após ter se desvinculado do PT e do PCdoB 345. Para ele, a
falta de democracia, o centralismo democrático, as alianças políticas sem escrúpulo, o
desrespeito a questões teóricas e programáticas, entre outras pontos “eram colocadas de lado
em função dos projetos pessoais”346. Ainda sobre sua desvinculação partidária e aproximação
com o anarquismo, Silva explica que sua decepção com relação aos partidos políticos começou
quando voltou do Sudeste, onde trabalhava como migrante sazonal, movimento comum para a
população desta região do Sertão de Alagoas,deparando-se com um sistema político-partidário
que persistia em não democratizar oportunidades de trabalho e de inserção social.
A atuação do Coletivo Libertário Delmirense (Colide), movimento anarquista do qual
Silva é membro, entretanto, está datado de 2007, sendo um fenômeno anterior às manifestações
de junho347. E três anos depois da criação deste coletivo, o ensino superior público e federal
chegou ao Sertão de Alagoas e os militantes do Colide também passaram atuar junto ao
341

Anônimo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 21/01/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro
de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
342
Op. cit.
343
Ver a respeito em: Leal, Victor Nunes. Coronelismo, Enxada e Voto. 7ª ed. São Paulo: Companhia das
Letras, 2012.
344
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 08/10/2015. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
345
Op. cit.
346
Op. cit.
347
Op. cit.

99

movimento estudantil da Universidade Federal de Alagoas/Campus do Sertão, compartilhando
espaços de reivindicação e luta com esses estudantes.
Quando as atividades da UFAL/Campus do Sertão tiveram início em Delmiro
Gouveia na Escola Estadual Watson Clementino de Gusmão e Silva, sede provisória do
Campus, a exemplo, a atuação dos anarquistas ganhou mais destaque depois que um grupo de
estudantes universitários do Campus decidiu suspender as aulas no ano de 2011348.Ameaçados
de serem expulsos da sede provisória, pelo diretor da referida escola, os estudantes, apoiados
pelos anarquistas, decretaram um movimento grevista349.
Esta atitude dos estudantes surpreendeu professores, técnicos e a reitoria da
universidade, céticos quanto à experiência política dos alunos recém-ingressos em um Campus
fora de sede e em fase de implantação, para sustentar um movimento grevista350. Isso porque,
quando os estudantes das primeiras turmas da UFAL/Campus do Sertão ingressos no ano de
2010 decidiram por uma greve, eles estavam nos primeiros períodos de seus respectivos
cursos351. A suspensão das aulas durou semanas e foram marcadas por passeatas e reuniões
frequentes em frente ao portão da sede provisória do Campus352.
Durante a organização para essas passeatas, a participação de alguns estudantes
anarquistas foi importante, embora não fossem os únicos grupos de interesse estudantil a
participarem desse movimento. Eles tomaram a frente de algumas reuniões e, sobretudo,
monopolizavam o uso do microfone e do carro de som nas manifestações de rua, alçando
relativa visibilidade. Durante as manifestações de junho de 2013, eles também estiveram nos
protestos de rua ocorridos em Delmiro Gouveia. As ideias dos anarquistas eram visíveis na
monopolização do microfone e no uso do carro de som353.
Conforme Silva, algumas dessas mensagens não foram produzidas pelos anarquistas
ou não estavam associadas a eles 354 , a exemplo das frases: “O povo unido não precisa de

348

GAIA, Cristina Rodrigues. GAIA, Cristina Rodrigues. Florescendo na Pedra: O Ensino Superior Público
Federal No Sertão de Alagoas. Delmiro Gouveia: UFAL\Campus do Sertão, 2014 (Trabalho de Conclusão de
Curso).
349
Op.cit.
350
Op. cit.
351
Op. cit.
352
Op. cit.
353
Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemósine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.
354
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 08/10/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.

100

partido” e “Fora Téo!, Fora Renan!, Fora Feliciano!”355. Entretanto, quando ele foi indagado a
respeito do comportamento dos anarquistas em relação à presença desses temas nas
manifestações, ele respondeu: “se eles querem fazer o “Fora Renan”, por que não participar neh?
Por que aí a gente amplia essa pauta, a gente coloca os problemas mais locais, como a questão
do funcionamento do hospital, a questão da corrupção local”. E ainda completou: “para nós é
fora todos”356.
Em sua narrativa, Silva não reivindicou para os anarquistas a responsabilidade
pelasmanifestações de junho de 2013 em Delmiro Gouveia. Para ele não estava claro quais
grupos lideraram a multidão em junho. Mas, em junho de 2013, os anarquistas não estavam
apenas observando o movimento da multidão, eles também aproveitaram o sentimento de
aversão aos partidos políticos, surgido no furor do fenômeno daquelas mobilizações, para
potencializar suas críticas ao Estado e aos partidos políticos e para atrair mais simpatizantes.
Essa interpretação ficou visível na narrativa de outro anarquista, quando o mesmo afirmou:
“tivemos um militante, que conhecemos nas manifestações, que nunca tinha participado de
manifestação nenhuma, e a partir das manifestações de junho, do contato com as manifestações
daqui, com o que viu na mídia, se identificou e hoje está na nossa organização”357.
Para este anarquista, o discurso antipartidário de algumas pessoas, dos grupos
conservadores e da cobertura jornalística da grande mídia não parece ter sido algo
necessariamente ruim, pois, se por um lado, isso causou uma confusão nas ruas, por outro
ajudou no crescimento de alguns coletivos anarquistas. A respeito dessa questão, quando as
manifestações de junho tiveram início em Alagoas, no Litoral e no Sertão, a ascencão dos
coletivos anarquistas causou tanta inquietação, que um professor da UFAL/Campus do Sertão,
preocupado com perda de credibilidade dos partidos de esquerda, publicou no Facebook a
seguinte análise: “o ‘Anarquismo’ está se configurando como a via que canaliza as insatisfações,
uma das coisas mais faladas atualmente é sobre a horizontalidade dos novos movimentos
sociais”, e completou: “a sedução dos jovens atuais pelo anarquismo é fenômeno observado
tanto na classe média como nos jovens da periferia e vai das grandes cidades ao Sertão das
355

Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemósine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.
356
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 08/10/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.
357
Anônimo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 21/01/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro
de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas. Este entrevistado que pediu para
manter o anonimato é graduado em História pela Universidade Federal de Alagoas/ Campus do Sertão. Ele
narrou sobre sua participação nas Manifestações de Junho de 2013 na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas.

101

Alagoas”.358
Inserido neste horizonte de experiências e expectativas, um estado de preocupação
tomou pesquisadores e militantes dos partidos de esquerda quando, em junho de 2013, eles se
depararam com um tipo de ação direta que repelia a participação dos partidos políticos. Entre as
publicações realizadas no Facebook, a atuação dos anarquistas e de outros grupos que
levantaram a bandeira do antipartidarismo, inclusive grupos com clara tendência a direita
política, gerou disputas políticas nas redes sociais. Portanto, embora alguns anarquistas
afirmem que não estavam liderando a multidão em junho, esse discurso cai em contradição,
sobretudo, quando tentam minimizar a atuação de alguns partidos, como é possível perceber na
narrativa de um anarquista de Delmiro Gouveia. Para ele, “algumas organizações ficaram
assistindo, ficaram dizendo que essas manifestações ainda não disseram (...) para que vieram. E
nisso a gente não viu o PT, a gente não viu o PCdoB”. E, ainda completou: “problemas sociais
ganharam destaque nas vozes das multidões nas ruas, mas partidos políticos de esquerda não
apareceram”359.
Contraditoriamente a essa narrativa, quando as manifestações de junho foram
deflagradas, os anarquistas usaram um microfone ligado a um carro de som, disponibilizado
pelo vereador Edvaldo Nascimento 360 , filiado ao PCdoB 361 . Neste sentido, para além do
discurso antipartidário, os protestos de junho foram marcados pela atuação de militantes com
diferentes perspectivas teóricas, ideológicas e partidárias. Esses militantes disputaram o sentido
da multidão nas ruas e tentaram conseguir vantagens em contraposição aos seus adversários.
Em Delmiro Gouveia, em particular, essa oportunidade parece ter sido aproveitada pelos
anarquistas, já em outras regiões do país, a exemplo de Maceió, esse momento foi também
aproveitado por grupos de direita, como foi o caso do “Movimento Caras – Pintadas”362.
Desse modo, as manifestações em Delmiro Gouveia não se constituíram um
fenômeno exclusivamente anarquista, ainda que eles tenham figurado sob os holofotes do

358

LIMA, Marcos Ricardo de. Página pessoal no Facebook de Marcos Ricardo de Lima. Publicado em
14/06/2013. Disponível em: <https://www.facebook.com/felipe.ferreira.1654?fref=ts>. Acessado em
22/12/2014, às 12h:20 min.
359
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por José Vieira da Cruz em 14/ 11/ 2014. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
360
Op. cit.
361
O Partido Comunista do Brasil foi fundado no início do século XX. Segundo seu site, “ele viveu 60 anos na
clandestinidade e em 1962, rechaçou com a direita, reorganizando-se e adotando a sigla PCdoB para realçar sua
marca revolucionária”. O PCdoB guia-se pela teoria científica de Marx, Engels e Lênin. A esse respeito ver:
<http://www.pcdob.org.br/texto.php?id_texto_fixo=4&id_secao=145>.
362
FEITOSA, José. “Protesto reúne cerca de 400 pessoas e causa caos no trânsito estudantes promovem
caminhada em Maceió”. In: Jornal Gazeta de Alagoas. Edição do dia 27/06/2013. Disponível em:
<http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=275477>. Acessado em 20/10/2015.

102

movimento. Como observou Rudé, as multidões não se reúnem apenas em função de
movimentos específicos e sim por causas em comum363. A agenda ampliada de reivindicações
expostas nos cartazes e faixas sintetizam algumas destas causas em comuns, a exemplo de mais
recursos para saúde e para educação e menos corrupção. Demandas e agendas gerais
responsáveis por impelir as pessoas às ruas, não apenas em razão do chamamento de grupos
políticos e de interesse específicos.
O tema da mobilidade urbana e do transporte público até a UFAL/Campus do Sertão,
por exemplo, apareceu nos cartazes durante as manifestações de junho. Ele indicou uma
situação mal resolvida, agravada devido à chegada de uma universidade ao Sertão há seis anos.
Essa não era uma pauta exclusiva de reivindicação anarquista, mas envolveu diferentes grupos
de interesse presente nas manifestações de rua ocorridas em Delmiro Gouveia. Neste sentido, o
transporte público configurava-se com um problema de todos. Por isso, mensagens
relacionadas a esse tema foram frequentes nos cartazes: “Transporte público não é favor, é
direito”, “Queremos transporte público para os estudantes”, “Os estudantes da UFAL geram
desenvolvimento para Delmiro Gouveia e merecem acesso à Universidade com dignidade”364.

Foto 15 -Manifestante segurando cartaz com o tema do
transporte público, durante as Manifestações de Junho de
2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e
Imagem do Sertão.
363

RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, RJ, 1964.
364
Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemosine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.

103

O transporte público, como será discutido posteriormente, representa um problema
social, mas as frases utilizadas em cartazes para chamar atenção nas ruas revelaram uma
agenda de reivindicações ainda não atendidas. Agendas dessa natureza alimentam, como
ressaltou Rudé, tudo aquilo que um povo imagina como seu por direito.365 Isso significa que o
transporte público, a educação e a saúde pública, a valorização dos trabalhadores e do meio
ambiente, a abertura de concurso público, entre outros temas distribuídos e ressignificados
nos cartazes, faixas e discursos evidenciam um conjunto de demandas por políticas públicas e
por direitos sociais. E esse entendimento foi e é construído a partir do envolvimento e da ação
dos diferentes segmentos da sociedade, inclusive dos anarquistas, mas não apenas por eles.

3.2. Sem a liderança do Movimento Passe Livre (MPL)
As catracas do transporte são uma barreira física que discrimina, segundo o critério
da concentração de renda, aqueles que podem circular pela cidade daqueles
condenados à exclusão urbana366.

A citação acima se refere a uma passagem do artigo “Não começou em Salvador, não
vai terminar em São Paulo”, atribuída ao Movimento Passe Livre/São Paulo (MPL/SP). Os
ativistas deste movimento escreveram este artigo logo após as manifestações de junho de
2013. Os referidos protestos, deflagradas em vários estados, estamparam problemas sociais,
sobretudo, o da disparidade existente no Brasil em relação à consolidação de políticas
públicas de mobilidade urbana. Nesse período, enquanto multidões nas cidades de São Paulo
e do Rio de Janeiro reivindicavam a redução no valor da tarifa do transporte público, a
multidão na cidade Delmiro Gouveia fazia passeatas, reivindicando a regularização do
sistema de transporte público, porque até aquele momento este serviço ainda não existia de
forma regular.
A esse respeito, para um militante anarquista, as manifestações de junho no Sertão de
Alagoas divergiram das que ocorreram em outros estados por três motivos: a ausência da
organização do Movimento Passe Livre (MPL),a presença do movimento anarquista e de
outros grupos de interesse e a influência das redes sociais, que oportunizaram aos usuários da
365

RUDÉ, George. “A ideologia do protesto popular”. In: Ideologia e protesto popular. Londres: Zahar Editora,
1980, p.24-34.
366
Movimento Passe Livre /São Paulo. “Não começou em Salvador, não vai terminar em São Paulo”. In:
MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.
São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013, p.14.

104

internettomar parte das manifestações367.
Um outro militante anarquista, participante das manifestações de junho no Sertão
alagoano, quando entrevistado, também reforçou a diferença entre esse fenômeno na cidade
Delmiro Gouveia com o ocorrido em São Paulo. Para ele, a participação dos anarquistas foi
importante e também não houve atuação do MPL nesta cidade sertaneja368.
Durante as manifestações junho, a atuação dos anarquistas, entretanto, parece ter
contado com a contribuição ou inspiração do coletivo MPL, mesmo não existindo em 2013,
uma liderança regional do MPL em Alagoas369. Conforme um dos anarquistas entrevistados,
mesmo antes da UFAL/Campus do Sertão, (…) nós já defendíamos algumas propostas que o
MPL, lá do Sul- Sudeste já defendiam”370. Mas quando esse mesmo anarquista foi indagado
sobre o MPL, ele afirmou: “nós nunca tivemos contato pessoalmente com alguns integrantes,
mas só material”371. A hesitação explicita nesta narrativa sobre a relação entre o MPL e os
movimento anarquista em Delmiro Gouveia sugere uma resistência do Colide em se associar
ao MPL ou a outros coletivos e/ou partidos. E, por outro lado, revela a preocupação dos
membros do referido coletivo em construir uma imagem heroica dos anarquistas no Sertão
Alagoano372.
A construção de uma imagem heroica a respeito da atuação dos anarquistas fica
explicita quando o mencionado anarquista, afirmou que em determinado momento o MPL se
retirou das manifestações de junho e “então fica só (...) as organizações libertárias, alguns
militantes de partidos” 373. O MPL, ao que tudo indica, retirou-se dessas manifestações que
estavam ocorrendo nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, após o anúncio da redução
no valor da tarifa do transporte público 374 , entretanto, nesse momento, a multidão que
tomavam as ruas de diferentes cidades brasileiras já haviam alargado a agenda de
reivindicações e ressignificados os sentidos dos protestos para além do valor da tarifa dos
transportes públicos.

367

Anônimo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 21/01/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro
de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
368
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 08/10/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.
369
Anônimo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 21/01/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro
de Documentação, Cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
370
Op. cit.
371
Op. cit.
372
Op. cit.
373
Op. cit.
374
JUDENSNAIDER, Elena; Et al. Vinte Centavos: a luta conta o aumento. São Paulo: Veneta, 2013.

105

Foto 16 - Manifestantes segurando cartaz com o tema do
Passe Livre, durante as manifestações de junho de 2013,
na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e
Imagem do Sertão.

Esta imagem foi registrada por José Vieira da Cruz, um pesquisador da Ufal/Campus
do Sertão, durante as manifestações de junho na cidade Delmiro Gouveia, no dia 20 de junho
de 2013. A imagem destacou um tema central para os manifestantes: o passe livre. E, embora
o transporte público regular ainda não existisse na referida cidade sertaneja, o tema do Passe
Livre aparecia de forma frequente em vários cartazes.

3.2.1. Ecos de um passado mal-resolvido

Em 2011, logo que as atividades da Ufal/Campus do Sertão começaram a ocorrer na
sua sede própria, distante do centro urbano de Delmiro Gouveia, alguns motoristas
percebendo a ausência de um transporte público urbano regular criaram um sistema
alternativo de mobilidade urbana para a comunidade acadêmica. Neste sistema, os estudantes,
professores e técnicos passaram a utilizar utilitários tipo “vans”, disponibilizados durante os
três horários de funcionamento do campus, para transportá-los em determinados horários375.
Esse sistema de mobilidade urbana, alternativo e não regularizado teve início com
alguns motoristas, que trabalhavam com o transporte intermunicipal no Sertão de Alagoas,
organizados a partir da Cooperativa de Transporte Alternativo do Alto Sertão Alagoano
(COOPTASA). Contudo, a partir de 2012, a Cooperativa dos Transportes Alternativos dos
375

Diretório Central dos Estudantes. UFAL/Campus do Sertão. Reunião do DCE/CAs com a direção do Campus
UFAL/Sertão. Ata da reunião realizada no dia 16 de novembro de 2011. Acervo: Sara Angélica Bezerra Gomes.

106

Perueiros de Delmiro Gouveia a Paulo Afonso (COOPERDEG) entrou em disputa com
osmotoristas da COOPTASA376.Os motoristas dessas duas cooperativas ficaram interessados
no potencial do público do Campus do Sertão. E, motivados por esse interesse,
ambascooperativas começaram a negociar/disputar a questão do transporte público com o
Diretório Central dos Estudantes (DCE), com os representantes dos Centros Acadêmicos
(CAs) e com a direção da UFAl/Campus do Sertão.
A negociação que os motoristas da COOPTASA pretendiam fazer com os estudantes
deste Campus, através do DCE e dos CAs, entretanto, não obteve sucesso. Isso porque a
COOPERDEG assumiu em 2012 a responsabilidade da mobilidade urbana para a comunidade
acadêmica, negociando a questão do transporte público diretamente com o prefeito da cidade
Delmiro Gouveia, Luís Carlos Costa, do PMDB377. Essa cooperativa conseguiu o apoio do
poder público municipal e do diretor geral do Campus do Sertão, Ricardo da Silva, que
entregou em abril de 2014, um documento ao DCE informando sobre o acordo realizado entre
a prefeitura e a COOPERDERG378.
Depois dessa negociação, a decisão da prefeitura não agradou os representantes da
COOPTASA e nem aos estudantes universitários. Neste contexto, alguns estudantes do
horário noturno, um dia após as aulas terem sido encerradas, depararam-se com a
Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT) e com os motoristas da
COOPERDEG no Campus do Sertão, esperando-os para levá-los para o centro de Delmiro
Gouveia.
A presença da SMTT e da COOPERDEG no campus não foi compreendida pelos
estudantes como algo positivo. Eles compreenderam esse acontecimento como um ato
autoritário do prefeito Luís Carlos Costa, da SMTT e da direção geral do Campus do Sertão.
Os estudantes se sentirem contrariados, decidindo irem a pé da UFAL/Campus do Sertão até a
delegacia, para fazer um boletim de ocorrência sobre o acontecido.

376

Diretório Central dos Estudantes. Proposta da Cooptasa para a mobilidade urbana da comunidade acadêmica.
Acordo realizado entre o DCE e a Cooptasa. Acervo:Sara Angélica Bezerra Gomes.
377
Cooperativa dos Transportes Alternativos dos perueiros de Delmiro Gouveia a Paulo Afonso. Ofício para o
prefeito Luis Carlos Costa, entregue em 27/02/2012. Documento assinado pelo diretor do Campus do Sertão em
18/04/2012. Acervo: Sara Angélica Bezerra Gomes.
378
Op. cit.

107

Foto 17 - Estudantes da Universidade Federal de
Alagoas/Campus do Sertão, saindo da sede da Ufal,
localizada na rodovia Al-145, até a delegacia da cidade
Delmiro Gouveia. Acervo de Edmar Correia.

Observa-se, portanto, que para a comunidade acadêmica do Campus do Sertão, a
insatisfação e a reivindicação por transporte público tiveram início antes das manifestações de
junho de 2013. A este respeito, segundo Gaia, desde 2010 as atividades pedagógicas e
administrativas do Campus do Sertão estavam ocorrendo provisoriamente na Escola Estadual
Watson Clementino de Gusmão Silva, localizada no Bairro Novo. Quando essas atividades
foram deslocadas desta escola para a sede, localizada na rodovia AL -145, o transporte
público para estudantes, professores e técnicos se tornou um problema 379 . O transporte
público, portanto, passou a ser uma das questões mais importantes para a comunidade
acadêmica. Neste sentido, pode-se perceber o significado que a questão do transporte público
adquiriu para os manifestantes de junho, sobretudo para aqueles que integravam a
comunidade universitária da Ufal/Campus do Sertão.
Os manifestantes cobraram também, ainda sobre o tema do transporte público, a
construção de ciclovias, deixando ainda mais perceptível o problema da mobilidade urbana no
Sertão. O registro fotográfico abaixo, realizado por José Vieira da Cruz, pesquisador
daUfal/Campus do Sertão, destacou um técnico do referido Campus, levantando um cartaz
com o tema das ciclovias.

379

GAIA, Cristina Rodrigues. Florescendo na Pedra: O Ensino Superior Público Federal No Sertão de Alagoas.
Delmiro Gouveia: UFAL\Campus do Sertão, 2014 (Trabalho de Conclusão de Curso), p.34.

108

Foto 18 - Manifestante segurando cartaz com protesto por
ciclovias, durante as manifestações de junho de 2013, na
cidade Delmiro Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e
Imagem do Sertão.

Depois que as atividades do Campus passaram a ser realizadas na sua sede própria, a
mobilidade urbana, realizada pelos motoristas das cooperativas, tornou-se um problema para a
comunidade acadêmica. Por essa razão, o tema do transporte público, em junho de 2013, foi
levado com tanta ênfase às ruas da cidade de Delmiro Gouveia por estudantes, professores e
técnicos da UFAL/Campus do Sertão. Um problema mal resolvido de um passado recente que
ecoou de modo significativo nas manifestações de junho.

3.2.2. Transporte público: um problema histórico?
Como um fantasma que ronda as cidades deixando marcas vivas no espaço e na
memória, as revoltas populares em torno do transporte coletivo assaltam a história
das metrópoles brasileiras desde sua formação 380.

Nas cidades brasileiras, o processo que levou a criação do transporte público urbano
foi desigual de um estado a outro e de uma cidade para outra. A respeito dessa questão, a
inexistência de um sistema de mobilidade urbana regular no Sertão de Alagoas, sobretudo, na
cidade Delmiro Gouveia,é um desdobramento do clientelismo político que persiste no Estado
Brasileiro, ou seja, uso do Estado para atendimento de interesses particulares em prejuízo do
380

Movimento Passe Livre /São Paulo. “Não começou em Salvador, não vai terminar em São Paulo”. In:
MARICATO, Ermínia; et al. Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.
1.ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2013, p.13.

109

interesse e do bem-estar da sociedade.
Em Delmiro Gouveia, esse clientelismo político tem suas raízes no início do século
XX, a partir da criação da Companhia Agrofabril Mercantil, fundada pelo empresário Delmiro
Gouveia, posteriormente denominada Fábrica da Pedra, atualmente sobre administração
doGrupo Carlos Lyra. Em torno da fábrica, a moradia, a escola e o lazer eram organizadas
comoestratégia, usada pela empresa, para exercer controle moral, econômico e político sobre
os trabalhadores381.
Esse tipo de relação híbrida, um misto de patrimonialismo/clientelismo e de
capitalismo tardio, estabelecida entre o patrão, os empregados e os moradores de Delmiro
Gouveia,estendeu-se para as outras relações da sociedade com o poder público municipal na
referida cidade sertaneja. Em particular, através da manutenção de contratos terceirizados,
cargos de confiança e outras formas de trabalho precarizados e vulneráveis aos interesses do
gestor em exercício. Essa prática política calcada na persistência da troca de favores e do
exercício do poder de mando, caracterizando o fenômeno que Faoro identificou como um
traço da formação da patronagem política no Brasil382.
Essa relação entre patrão e empregado contribuiu também para a consolidação de um
sistema de transporte público com características peculiares no Sertão de Alagoas. Dentro
desta perspectiva, desenvolveu-se na região um sistema de transporte baseado no uso
dacaminhonete tipo D-20, adaptadas como minicaminhões pau-de-arara 383 . Este tipo de
veículo de transporte, no contexto desta pesquisa, continuava sendo utilizadas para
mobilidade intermunicipal e urbana no Sertão alagoano, para o transporte de feirantes e suas
mercadorias quanto para o transporte da população de um modo geral384.

381

CORREIA, Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no Sertão. Campinas SP: Papirus, 1998.
FAORO, Raymundo. “Origem do estado português”. Os donos do poder: formação do patronato político
brasileiro. 3.ed. Revista, 2001.
383
Meio de transporte irregular, e ainda utilizado na região do Sertão Alagoano e em outras regiões do
Brasil.Consiste em se adaptar caminhões para o transporte de passageiros, constituindo-se em substituto
improvisado para os ônibus convencionais.
384
GOMES, José Raimundo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 31/03/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
382

110

Foto 19- Caminhonete tipo D-20, usada para mobilidade
urbana e intermunicipal no Sertão do estado de Alagoas.
Acervo de Sara Angélica Bezerra Gomes.

Foto 20 - Caminhonetes que realizam a mobilidade
intermunicipal entre as cidades Delmiro Gouveia e Água
Branca, estacionadas no centro de Água Branca. Acervo de
Sara Angélica Bezerra Gomes.

Para alguns dos motoristas entrevistados, a utilização das D-20, adaptadas como paude-arara, justificava-se em razão da dificuldade de acesso de muitas das localidades da região,
sobretudo os povoados e os distritos municipais385. O município de Água Branca, situada na
microrregião Serrana do Alto Sertão Alagoano, próximo ao município de Delmiro Gouveia, a
exemplo, formou-se nos arredores de uma serra com diferentes graus de declividade e terreno
rochoso. No entorno dessa serra, ao longo de mais de três séculos de ocupação, várias
385

Op. cit.

111

comunidades foram estabelecidas, inclusive remanescentes quilombolas e indígenas. Diante
deste histórico, localização e ausência de uma política de transporte pública adequada para a
região, o uso de caminhonetes tipo D-20 foi estabelecida como algo “naturalizado” e
contraditoriamente “moderno”, uma vez que elas, junto com as motocicletas, substituíam o
transporte com uso de cavalos e mulas386.
As narrativas oferecidas por Gomes e Freire, motoristas entrevistados, sobre o
funcionamento do transporte urbano e intermunicipal entre as cidades Delmiro Gouveia e de
Água Branca, foram semelhantes, quando indagados sobre o uso da D-20 como transporte
público. Para ambos, as D-20 foram utilizadas porque era o transporte mais resistente numa
região com relevo acidentado387.
Nos municípios de Água Branca, Mata Grande, Delmiro Gouveia, Piranhas, entre
outros, o uso de veículos tipo D-20, adaptados como mine Pau-de-arara, configura-se como
um tipo de trabalho/transporte irregular transmitido para familiares e/ou pessoas com vínculo
de amizade. Por esta razão, em troca de um trabalho fora do comércio, da Fábrica da Pedra ou
dos

cargos

temporários

nas

prefeituras

da

região,

a

defesa

desta

forma

de

trabalho/negócio/transporte irregular é vista, pelos motoristas entrevistados, como uma
estratégia de sobrevivência e de autonomia econômica.
A utilização da D-20 como transporte irregular, entretanto, passou a ser percebida de
forma negativa nos primeiros anos do século XXI, pois, nesse contexto, foi organizada uma
agência em Alagoas para regularizar o transporte público intermunicipal, a Agência
Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Alagoas (ARSAL), criada no ano de 2002,
durante o governo de Ronaldo Lessa do Partido Socialista Brasileiro (PSB)388.
Quando Arsal foi criada, os motoristas das D-20 no Sertão de Alagoas criaram
algumas associações, objetivando permanecer com o controle do transporte público. E,
nesseperíodo, ocorreu um processo de regulamentação do transporte público nas cidades
sertanejas 389 . Algumas associações foram criadas, como a Associação dos Transportes
Alternativos de Água Branca (ATAB), no município de Água Branca, e a Associação dos

386

Op. cit.
FREIRE, José Flávio de Araújo.Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 28/08/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.; GOMES, José
Raimundo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 31/03/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro de
Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
388
ARSAL,
Regulamento
do
Setor.
Disponível
em:
<http://www.arsal.al.gov.br/servicos/transporte/regulamentacao-do-setor>. Acessado em 12/05/2015.
389
GOMES, José Raimundo. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 31/03/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro Gouveia/Alagoas.
387

112

Transportes Alternativos do Brasil (ATAS – Brasil), no município de Delmiro Gouveia.
Os motoristas das D-20 no Sertão, desde a criação da ARSAL, enfrentaram alguns
embates com esta agência que buscava regularizar o transporte em Alagoas e desativar as D20 como transporte público390. E, para os motoristas, o que a Arsal pretendia foi impossível,
pois a D-20 se tornou fonte de renda para muitas pessoas, numa região que não oferecia
muitas oportunidades de trabalho.
E, como já foi mencionado, o problema do transporte público no Sertão se agravou
com a implantação da Ufal/Campus do Sertão, em Delmiro Gouveia. E, coincidentemente ou
não, somente depois das manifestações de junho de 2013, o poder público municipal da
cidade Delmiro efetivou o compromisso com a mobilidade urbana, viabilizando a concessão
do transporte público a uma empresa que disponibilizou alguns micro-ônibus para o
transporte público regular391.
Durante alguns meses, os moradores e os estudantes universitários da UFAL/Campus
do Sertão passaram a utilizar micro-ônibus para se deslocar de um bairro a outro, pagando
uma tarifa inicial no valor de R$ 1,00 (um Real)392. Alguns meses depois das manifestações
de junho, os moradores de Delmiro Gouveia pela primeira vez utilizaram um transporte
público urbano, com horário e tarifa regular393. Entretanto, o funcionamento desses microônibus ocorreu por tempo determinado.
No ano de 2015, quando servidores, docentes e técnicos da UFAL aderiram a greve
nacional por mais recursos para as universidades e por salários e condições de trabalho justas,
alguns meses depois, esses micro-ônibus deixaram de funcionar. Quando isso ocorreu, quem
assumiu a mobilidade urbana em Delmiro Gouveia foram os taxistas, os mototaxistas e os
motoristas das D-20 e das Vans, vinculados às cooperativas que naquele contexto, ainda
estavam disputando o controle pelo transporte público urbano e intermunicipal junto a Arsal.

390

Op. cit.
SILVA, Felipe Ferreira da. Entrevistado por Sara Angélica Gomes Bezerra 10/12/ 2013. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas. Felipe Ferreira da
Silva é graduado em Geografia pela Universidade Federal de Alagoas/ Campus do Sertão e é professor do ensino
básico em uma escola pública da cidade de Água Branca/Alagoas. Silva participou do Centro Acadêmico de
Geografia da UFAL/Campus do Sertão e narrou sobre sua participação nas Manifestações de Junho de 2013 na
cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas.
392
Op. cit.
393
Op. cit.
391

113

3.3. Um fenômeno midiático?
A tradição de todas as gerações passadas é como um pesadelo que comprime o
cérebro dos vivos. E justamente quando parecem estar empenhados em transformar
a si mesmos e as coisas, em criar algo nunca antes visto, exatamente nessas épocas
de crise revolucionária, eles conjuram temerosamente a ajuda dos espíritos do
passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem, o seu
figurino394.

O passado é uma dimensão permanente da consciência humana, afirmou Eric
Hobsbawm 395 . Ele pode se tornar um padrão para o presente e levar gerações a repetir
determinadas situações, como refletiu Marx nacitação acima. A este respeito, Mudrovcic, ao
pensar o passado, afirmou que “os mortos – ou, o que dá no mesmo, a existência de um
passado que não nos importe socialmente – só são possíveis quando o autoentendimento
político do presente deixa de compreender-se em termos das lutas de outrora”396.
Em Alagoas, no município de Delmiro Gouveia, quando a multidão foi às ruas em
junho de 2013, ela evocou questões surgidas do seu passado recente. A herança deixada pelo
passado estava nas palavras de ordem pronunciadas pela multidão, nas estratégias de ação
direta nas ruas, e, principalmente, nos temas estampados nos cartazes e faixas erguidos no
decorrer das passeatas. Essa experiência histórica lembrou aquilo que Mudrovcic destacou
quando analisou a importância social do passado. Para ela, quando o passado ainda influência
o presente, acontece algo singular, “o presente se entende e atua em termos do passado (é um
presente-passado, e não um passado-presente)”397.
A multidão nas ruas não estava reivindicando demanda inéditas, pois temas como
educação, saúde, transporte público, corrupção, poluição do meio ambiente, entre outros,
representavam questões já existentes e mal resolvidas. Aquele fenômeno social interrelacionou experiências do passado com horizontes de expectativas presentes e futuras,
reunindo gerações em torno dos mesmos problemas.
Em relação ao tema da educação pública nas manifestações de junho ocorridas em
Delmiro Gouveia, não houve apenas um grupo social estampando essa questão em cartazes ou
394

MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. Tradução de Nélio Schneider. São Paulo: Bointempo,
2011, p. 25.
395
HOBSBAW, Eric. O sentido do passado. In: Sobre História: Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998, p.17.
396
MUDROVCIC, Maria Inés. Por que Clio retornou a Mnemosine? In: AZEVEDO, Cecília; et al (Orgs.).
Cultura política, memória e historiografia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
397
MUDROVCIC, Maria Inés. Por que Clio retornou a Mnemosine? In: AZEVEDO, Cecília; et al (Orgs.).
Cultura política, memória e historiografia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009, p.113.

114

uma única interpretação a respeito das demandas e desafios desta política pública. Entre os
insatisfeitos estavam estudantes universitários e secundaristas, profissionais da educação
básica e superior e diferentes segmentos da sociedade.

3.3.1. A dimensão local da agenda de reivindicações
De nada vai adiantar uma universidade implantada no município, se os filhos desse
município não tem a capacidade, por deficiência (...) de um corpo docente mal
formado, mal estruturado, não tem a capacidade de ocupar as salas desta
universidade398.

O recorte acima, retirada da entrevista realizada com Silva, estudante do curso de
Geografia da Ufal/Campus do Sertão, tece uma reflexão sobre as pessoas que saíram das suas
casas e do seu trabalho para ir à rua participar das manifestações de junho em Delmiro
Gouveia 399 . A narrativa de Silva demonstra que o tema da educação foi uma pauta de
reivindicação percebida de formas distintas. As interpretações a respeito variavam de acordo
com o lugar social ocupado por cada manifestante, ou seja, os estudantes, professores,
advogados, vereadores, entre outros, externaram perceções diferentes da educação pública nas
manifestações de junho.
Para alguns, o problema da educação estava na formação dos professores da
educação básica; para outros, como Nascimento, professor da rede municipal e vereador em
Delmiro Gouveia, o problema da educação básica estava na relação entre a administração
municipal e a garantia de direitos aos profissionais da educação 400 . Para esse professor,
diversas greves foram deflagradas pelos professores da rede municipal de ensino em Delmiro
Gouveia401. Essas greves ocorriam por vários motivos, mas, como notou o ex-presidente do
Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (SINTEAL), era ausência do reajuste
salarial que mais incentivava ostrabalhadores da educação a decretar greve402.

398

SILVA, Felipe Ferreira da. Entrevistado por Sara Angélica Gomes Bezerra 10/12/ 2013. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
399
Op. cit.
400
NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 19/01/ 2016. In:
Acervo do GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.
401
Op. cit.
402
PEREIRA, Adriano Alves. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 05/05/ 2016. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas. Adriano Alves
Pereira é professor da educação básica da rede municipal de ensino na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas e
esteve presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (SINTEAL). Quando foi entrevistado

115

É longa a trajetória de embates entre os trabalhadores da educação pública e o poder
público municipal em Delmiro Gouveia. E, ao que tudo indica, esses embates se tornaram
mais frequentes no decurso das últimas duas décadas, quando foi instituído no Brasil novas
políticas de financiamento para a educação básica, como o Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento do Ensino Fundamental (FUNDEF) e o Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB)403. Entretanto, desde a criação do Fundeb,
a administração municipal relutava em pagar reajuste salarial, conforme as normas do referido
fundo404.
A questão salarial aprofundava a insatisfação dos trabalhadores da educação em
relação à administração municipal. E, além desse fator, Delmiro Gouveia foi palco de
conflitos no processo de implantação da gestão democrática nas escolas públicas, uma vez
que os próprios diretores ou coordenadores eram escolhidos pelo prefeito 405 . Assim, a
ausência da gestão democrática nas escolas, o arroxo salarial, a resistência da administração
municipal em pagar o reajuste salarial, tudo isso contribuiu para montar um histórico de
greves no decorrer das últimas duas décadas.
A esse respeito, Nascimento afirmou que “quem tem pautado as principais temática
políticas do município são os trabalhadores da educação” 406 . Para ele, durante as
manifestações de junho grande parte das pessoas que participaram desse fenômeno eram
vinculadas à educação407, pois o gestor municipal, Luís Carlos Costa, filiado ao Partido do
Movimento Democrático do Brasil (PMDB), “não dialogava com os trabalhadores da
educação”408.
Muitos conflitos ocorriam entre esses trabalhadores e o poder público municipal.
Entretanto, eles aparentemente não eram deflagrados apenas porque o prefeito deixava de
dialogar com este setor, como afirmou Nascimento. Esses conflitos também ocorriam porque
as pessoas vinculadas à educação estavam organizadas a partir de uma base sindical e, ao
usufruírem de maiores direitos políticos, formavam uma categoria social mais resistente409.
para esta pesquisa, no ano de 2016, ele narrou sobre sua participação e a participação do Sinteal nas
Manifestações de Junho de 2013 na cidade de Delmiro Gouveia/Alagoas.
403
Op. cit.
404
Op. cit.
405
NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 19/01/ 2016. In:
Acervo do GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.
406
Op. cit.
407
Op. cit.
408
Op. cit.
409
PEREIRA, Adriano Alves. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 05/05/ 2016. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.

116

Para Rudé, as lutas sociais mais resistentes na Europa da época Moderna eram
protagonizadas pelos trabalhadores especializados reunidos a partir de sindicatos fortes 410 .
Essa situação não era incomum em junho de 2013, pois os sindicatos mais resistentes estavam
organizados pelos trabalhadores especializados, a exemplo dos profissionais da educação.
Categoria formada por professores independentes ou vinculados a partidos políticos ou a
coletivos anarquistas. Silva, professor da rede municipal e militante anarquista, por exemplo,
participou das manifestações de junho e, quando entrevistado sobre sua participação nesse
fenômeno, ele afirmou: “toda e qualquer manifestação popular a gente sempre teve
acompanhando e sempre se dispôs a participar”411.
Quando indagado sobre o tema da educação nas manifestações de junho, Silva ainda
respondeu: “a gente discutiu a questão da educação com pessoas que tinham experiência,ao
longo de muitos anos, seja na luta sindical e aí a gente sentou com o pessoal do Sinteal, a
gente sentou com o pessoal do Sindiprev” 412 . Na sua narrativa percebe-se que quando se
tratava de tentar fortalecer as manifestações de junho, os sindicatos com maior trajetória de
resistência eram procurados para dialogar.
Assim, o tema da educação durante as manifestações de junho esteve perpassado por
muitos significados. Quando se tratava dos problemas estruturais da educação pública, as
interpretações dos entrevistados variaram entre apontar as falhas da administração pública de
Delmiro Gouveia ou questões relativas à formação dos professores, mas, quando se tratava da
militância dos trabalhadores da educação, essa foi apontada como uma das únicas que durante
anos conseguiu organizar manifestações de rua mais resistentes.

3.3.2. Fábrica da Peste
Chegando a Alagoas em novembro de 1902, em janeiro de 1913 Delmiro inaugura a
primeira usina hidroelétrica do Nordeste (Usina Anguiquinho) e, em 5 de junho de
1914, o sertão tem instalada, em inauguração festiva, com o deslumbramento dos
sertanejos, sua primeira indústria, a fábrica de linhas da Pedra, também a primeira da
América Latina.413

A citado acima trata de dois eventos que marcaram o Sertão Alagoano no início do
410

RUDÉ, George. “Disputas trabalhistas na Inglaterra do século XVIII”. In: A Multidão na História: estudo
dos movimentos populares na França e na Inglaterra 1730-1848. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, RJ, 1964, p.71.
411
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 08/10/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.
412
Op. cit.
413
NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. “Fábrica da Pedra: O contraponto de Pedro Motta Lima aos escritos
sobre uma indústria no Sertão”. In: LIMA, Pedro Motta. Fábrica da Pedra. Brasília: Senado Federal, Conselho
Editorial, 2013, p.288.

117

século XX, a criação da Usina Anguiquinho, localizada na divisa do estado de Alagoas com o
estado da Bahia, e a criação da Companhia Agro Fabril Mercantil, posteriormente
denominada Fábrica da Pedra. Para Nascimento414, Lima415 e Correia416, a formação da cidade
Delmiro Gouveia se confunde com a própria construção da mencionada usina e fábrica,
empreendida pelo industrial Delmiro Gouveia que chegou ao Sertão de Alagoas no início do
século passado417.
A Fábrica da Pedra, construída pelos trabalhadores sob as ordens desse industrial,
aparece em algumas obras historiográficas sobre industrialização no Sertão Alagoano, a
exemplo do estudo de Correia. A referida fábrica provocou o desenvolvimento da cidade no
torno da fábrica. No ano de 2013, quase cem anos haviam se passado desde a criação da
Fábrica da Pedra, mas, em alguns cartazes erguidos por pessoas que foram às ruas, durante as
manifestações de junho, foi estampada a seguinte frase: “Fábrica da Peste”. Esta frase foi
escrita em um cartolina ilustrada com o desenho da Fábrica da Pedra e exibida por uma
pesssoa que utilizava a máscara do personagem “V” do filme“V de vingança”. No desenho, a
referida fábrica de tecidos aparecia como um símbolo de destruição, desmatando e emitindo
gases poluentes.

Foto 21 -Manifestante segurando cartaz com o desenho da
Fábrica da Peste, durante as manifestações de junho de
2013, na cidade Delmiro Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura
e Imagem do Sertão.
414

Op. cit.
LIMA, Pedro Motta. Fábrica da Pedra. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2013.
416
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no Sertão. Campinas SP: Papirus, 1998.
417
MAYNARD, Dilton. O senhor da Pedra: os usos da memória Delmiro Gouveia (1940-1980). 2008. Tese
(Doutorado em História). Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2008.
415

118

Este registro fotográfico, realizado por José Vieira da Cruz, pesquisador da
Ufal/Campus do Sertão, chama a atenção por revelar as contradições do processo de
industrialização, responsável pelo surgimento e desenvolvimento da cidade, mas que não
compatibilizou ações de sustentabilidade ambiental e de combate à poluição. No cartaz, o
funcionamento da fábrica implicava em degradação ambiental.
A degradação ambiental causada pela Fábrica da Pedra poluiu um riacho localizado
em um dos bairros do município, o bairro Pedra Velha.418 E, além da poluição deste riacho,
ela era responsável por expelir fumaça e fuligem responsável por deixar o piso das casas, lojas
e repartições públicas com aspecto escuro. Os efeitos dessa poluição contribuiu para
aperceção negativa da fábrica nos protestos de junho ocorridos no Sertão de Alagoas.419
A direção da Fábrica da Pedra, atualmente sob a direção Grupo Carlos Lyra, um dos
maiores grupos empresariais em atividade no estado de Alagoas, no período das
manifestações, concedeu uma entrevista na qual comentou que estava consciente da poluição
ambiental e não pretendia fugir de sua responsabilidade420.O comentário do diretor da Fábrica
da Pedra foi publicado no período em que a empresa estava sendo alvo de críticas, nas ruas da
cidade Delmiro Gouveia. Mas, o cartaz com a frase “Fábrica da Peste” não estava nas ruas
apenas por uma insatisfação com a poluição ambiental causada pela Fábrica da Pedra.
Como foi dito no primeiro capítulo, a máscara sorridente inspirada no personagem
“V” do filme“V de vingança”, que está sendo usada pelo manifestante na imagem acima, foi
utilizada por pessoas vinculadas ao coletivo anarquista de Delmiro Gouveia e por outros
manifestantes, também com o objetivo de ocultar a identidade. Não seria surpresa, portanto,
um cartaz com a frase “Fábrica da Peste” sendo erguido por anarquistas desta cidade, uma vez
que as relações de trabalho na Fábrica da Pedra, poderiam também ter inspirado a produção
deste cartaz. Isso porque, as relações de trabalho trazidas com a construção da Fábrica da
Pedra, aparentemente não trouxeram apenas melhorias para os trabalhadores, pois o projeto de
industrialização idealizado por Delmiro Gouveia floresceu em meio a um processo de
disciplinar do trabalhador421.
418

SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
419
LIMA, Pedro Motta. Fábrica da Pedra. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2013.
420
SANTOS, José Ferreira dos.
“Fábrica da Pedra apresenta plano de combate a poluição”. In:
FerreiraDelmiro.com,
publicado
em
25/06/2013.
Disponível
em:
<http://www.ferreiradelmiro.com/2013/06/fabrica-da-pedra-apresenta-plano-de.html>.
Acessado
em:
15/05/2015.
421
CORREIA, Telma de Barros. Pedra: plano e cotidiano operário no Sertão. Campinas SP: Papirus, 1998.

119

Essa Fábrica foi construída sob o signo da obediência ao patrão, pois 422 ele
negociava, a seu modo, suas regras com os trabalhadores423. O patrão tinha controle sobre a
vida dos trabalhadores dentro e fora do ambiente de trabalho. Assim, a disciplinarização do
trabalhador, que o industrial Delmiro Gouveia trouxe para o Sertão, no início do século XX,
esteve marcada por punições. Caso as regras do patrão fossem negligenciadas pelos
trabalhadores, eles seriam punidos de diferentes formas424. E, essas punições variavam entre a
perda do emprego, da casa, do direito a manter seus filhos na escola e até castigos físicos 425.
Em junho de 2013, embora as relações de trabalho na Fábrica da Pedra não se
configurassem da mesma forma daquela existente no início do século XX, elas também
inquietavam os manifestantes de junho, sobretudo, aqueles que pintaram ou ajudaram na
produção do cartaz com a frase “Fábrica da Peste”, pois embora o desenho feito neste cartaz
mostre apenas uma fábrica poluindo o meio ambiente, ele traz um sentido polissêmico quando
percebemos as pessoas que o ergueram sob o manto do anonimato da máscara do personagem
“V”.

3.4. DAS MÍDIAS SOCIAIS ÀS RUAS DO SERTÃO
As revoluções de atualmente contam com teias de divulgação que correm em
múltiplas direções, que as de antigamente não conheceram. Cidade e internet se
projetam uma na outra, de forma a fazer crescer em progressão geométrica as visões
e os meios426.

Desde os anos 90, transformações no campo virtual modificaram a relação da
sociedade com a comunicação e a informação427. Nesse contexto, as relações sociais ficaram
conectadas por uma teia com múltiplas direções, como destacou Cavalcanti e Fontanetto na
epígrafe acima. A proliferação de sites e blogs na Web diluíram as barreiras que separavam os
homens daquilo que Lévy chamou de realidade virtual, estimulando a criação de uma cultura
pautada na lógica do compartilhamento de informação428.
Este compartilhamento alcançou as pessoas do centro à periferia, contribuindo para

422

Op. cit.
Op. cit.
424
Op. cit.
425
Op. cit.
426
CAVALCANTI,Cecília C. B.; FONTANETTO, Renata M. B.. “A cidade na era da cultura de redes: uma
análise da mídia sobre as Manifestações de Junho de 2013 no Rio de Janeiro”. In: ALAIC. Peru, 2014.
427
LÉVY, Pierre. O que é o virtual? Tradução de Paulo Neves. São Paulo. Ed.34,1996.
428
Op. cit.
423

120

criação de diversas redes virtuais429. Essas redes formaram espaços de interação para os mais
variados grupos, entretanto, foram perpassadas por relações de poder, pois, além de “cada
rede ter sua própria dinâmica, e isso está ligado de alguma maneira a própria arquitetura da
tecnologia sobre a qual é construída a interação social,”430 ideologias e interesses políticos
também circulam nestas conexões.
O Facebook, rede social usada por milhares de pessoas durante as manifestações de
junho de 2013, por exemplo, não foi uma rede projetada apenas para manter indivíduos
conectados no ambiente virtual 431 . Ela, ao se tornar um espaço de alimentação contínua,
objetivando fortalecer cada vez mais as conexões através dos dados postados no
timelin,432consolidou-se também como um ambiente para manifestações políticas diversas.
Quando as manifestações pela redução no valor da tarifa do transporte público em
São Paulo e no Rio de Janeiro, foram deflagradas em junho de 2013, esse acontecimento se
espalhou rapidamente pelas redes sociais, permitindo o compartilhamento de diferentes ideias
e interesses políticos. E, em poucos dias, o Facebook tornou-se um espaço comum no
ambiente virtual, para os partidos políticos, o movimento estudantil e os coletivos anarquistas,
que passaram a disputar o sentido das manifestações de junho.

3.4.1. A associação das multidões

Não são apenas os meios de informação e comunicação responsáveis por definir a
permanência de uma manifestação de rua, pois, desde quando surgiram esses fenômenos, os
motivos para a deflagração dos protestos de rua oscilam em diferentes contextos. Como
destacou Rudé, a multidão reunida em torno de um objetivo é a expressão de uma vontade
comum433 e, portanto, não decorre apenas devido aos meios de informação.
O tempo para o surgimento e duração das manifestações de rua, entretanto, também é
um reflexo do uso dos meios de informação e comunicação. A esse respeito, quando estudou
os movimentos populares na França e na Inglaterra, entre 1730-1848, Rudé revelou que o
429

ALMEIDA, Fábio Chang de. O historiador e as fontes digitais: uma visão acerca da internet como fonte
primária para pesquisas históricas.In: Anais eletrônicos do XEncontro Estadual de História. O Brasil no Sul:
cruzando fronteiras entre o Regional e o Nacional. Santa Maria: UFSM, 2010.
430
MARTINO, Luís Mauro. “Alguns conceitos iniciais”. In: Teoria das Mídias Digitais: Linguagens, ambientes
e redes. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, p.56.
431
Op. cit.
432
MARTINO, Luís Mauro. “A capacidade das conexões em rede: o experimento de Sacks e Graves”. In: Teoria
das Mídias Digitais: Linguagens, ambientes e redes. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
433
RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora Vozes. Petrópolis, RJ, 1964.

121

tempo de duração desses movimentos eram extensos e geralmente duravam semanas, meses
ou anos 434 . Por um lado, essa demora ocorria devido às próprias condições políticas e
econômicas dos moradores destes dois países, mas, por outro lado, também era consequência
da dificuldade para conseguir informações rápidas.
Segundo Rudé, algumas manifestações de rua no século XVIII “em geral, seguiam o
curso dos rios ou os atravessaram em pontos estratégicos, disseminando-se a partir de uma
cidade mercado para a cidade seguinte e abrindo-se em leque dos lados dos rios até as
fazendas e aldeias do campo próximo”435. Assim, as notícias sobre os motins se espalhavam
na medida que as agitações atingiam os mercados e as aldeias. Não era um processo rápido e
dependia das ocupações em cada local.
Durante as manifestações de junho em Delmiro Gouveia, a rapidez da circulação das
informações sobre o que estava ocorrendo em São Paulo e no Rio de Janeiro foi um fenômeno
tão relevante, que um militante afirmou: “as multidões pareciam estar mais interessadas em
reclamar por problemas que não surgiram nesta cidade”436. O militante percebeu a diversidade
de temas na rua em junho de 2013 como algo preocupante, pois, em sua interpretação, a ação
da multidão parecia um carnaval ocasionado pela cobertura jornalística da grande mídia e pelo
uso das redes sociais437.
A velocidade da circulação das informações foi decisiva para a deflagração das
manifestações de junho em diversas cidades do país, inclusive em Maceió e em Delmiro
Gouveia, como também para a difusão da ampla agenda de reivindicações dos protestos de
rua. Os cartazes nas fotos abaixo destacam algumas destas reivindicações.

434

Op. cit.
Op. cit, p.25.
436
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por José Vieira da Cruz em 14/ 11/ 2014. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia-Alagoas.
437
Op. cit.
435

122

Foto 22 - Manifestante segurando cartaz com protesto
contra o deputado Marcos Feliciano, durante as
Manifestações de Junho de 2013, na cidade Delmiro
Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e
Imagem do Sertão.

Foto 23 -Manifestante segurando cartaz com protesto
contra a Proposta de Emenda Constitucional nº37,
durante as Manifestações de Junho de 2013, na cidade
Delmiro Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e
Imagem do Sertão.

Esses registros fotográficos, realizados por José Vieira da Cruz, pesquisador da
Ufal/Campus do Sertão, durante as manifestações de junho de 2013, destacam a
preocupaçãodos manifestantes com a questão da homofobia e com a questão do combate a
corrupção. Temáticas que não faziam referência apenas aos problemas locais, mas mostravam
está em sintonia com os cartazes com a temática da “PEC-37” e do “Fora Feliciano”,
123

presentes em São Paulo, Rio de Janeiro e outras cidades do país438.
A presença destes temas nos cartazes das manifestações de junho no Sertão refletia
também a cobertura que a grande mídia e as redes sociais já vinham promovendo, desde os
primeiros meses do ano de 2013, sobre uma Proposta de Emenda Constitucional de 2011
(PEC-37), que dispensava o Ministério Público do processo de investigações criminais 439 .
Esta notícia divulgada na TV, em jornais, revistas, em sites e blogs, causou grande
consternação social, pois propagou a ideia de que a punição aos políticos corruptos acabaria440.
A respeito dessa Proposta de Emenda Constitucional, Lessa afirmou que a grande
mídia ao noticiá-la provocou um grande debate sobre o papel da polícia judiciária (Polícia
Federal e policiais civis) e do Ministério Público (MP) no âmbito da investigação criminal441.
Para Lessa, a grande mídia criou um pensamento negativo entre as massas sobre a PEC-37442,
contribuindo muito pouco para a compreensão dessa proposta que foi levada as ruas pela
multidão em junho de 2013. Um debate pouco aprofundado e estigmatizado por adjetivações
e debates aligeirados.
Outra notícia divulgada também na TV, nos jornais, nos sites e nos blogs que causou
inquietação, refere-se ao Projeto de Lei (PL) conhecido como “Projeto de Cura Gay”. Este
projeto foi retomado nos primeiros meses do ano de 2013, pelo então presidente da Comissão
de Direitos Humanos da Câmara, o deputado Marcos Feliciano filiado ao Partido Social
Cristão do Estado de São Paulo (PSC-SP). Desde quando assumiu o cargo de presidente da
Comissão de Direitos Humanos da Câmara (CDHM), Feliciano passou a enfrentar protestos
sendo acusado de racismo e homofobia443.
Quando a grande mídia divulgou o referido Projeto de Lei, que Feliciano afirmava
ter criado para as pessoas discutirem suas dúvidas sobre sexualidade com um profissional
capacitado da área médica444, essa proposta criou um sentimento de indignação, sobretudo,
438

UOL Notícias. Protesto contra a PEC-37 reúne 30 mil em São Paulo, diz PM. In: UOL Noticias , publicado
em 22/06/2013. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/22/protestocontra-a-pec-37-reune-30-mil-em-sao-paulo-diz-pm.htm>. Acessado em 15/05/2015.
439
LESSA, Rafael Branco. A Mídia e a PEC 37: investigação criminal na ordem do dia. In: Intercom –
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. XVI Congresso de Ciências da
Comunicaçãona Região. ÁguasClaras/DF, 2014, p.1-11.
440
Op. cit.
441
Op. cit.
442
Op. cit.
443
FALCÂO, Márcio. “Marco Feliciano ameaça “rebelião” se governo interferir no projeto “cura Gay””. In:
Folha de São Paulo, 19/06/2013. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1297589feliciano-nega-provocacao-as-manifestacoes-e-recomenda-juizo-a-maria-do-rosario.shtml>.
Acessado
em
13/03/2015.
444
Op. cit.

124

entre a comunidade e os movimentos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transgênicos(LGBTT) de todo o país, inclusive, na cidade Delmiro Gouveia445.
Em Delmiro Gouveia, como nas demais cidades, as manifestações de junho
absorveram um grande número de insatisfações. Dentro desta perspectiva, uma
heterogeneidade de temas foram difundidos e diluídos nas manifestações de rua. Nesse
sentido, a grande mídia e as redes sociais representaram aquilo que Canetti designou por
cristais de massa446, ou seja, foram usadas com a intenção para dar ênfase a algumas questões.
Elas construíram um movimento, marcaram posições e moveram a multidão447.
Os estudantes secundaristas e universitários e os militantes de diferentes
organizações políticas discutiram sobre as manifestações de junho, informaram e convidaram
a multidão que protestava nas ruas através das redes sociais, em particular, por meio do
Facebook. A imagem abaixo, por exemplo, é um convite divulgado na referida rede social:

Foto 24 -Convite compartilhado no Facebook por Uedson
José da Silva dia 25/06/2013, para informar e convidar
pessoas para mais um protesto de rua, durante as
manifestações de junho de 2013, na cidade Delmiro
Gouveia/Alagoas.
Acervo: GEPHISC \Centro de Documentação, Cultura e
Imagem do Sertão.

Esse cartaz foi compartilhado no Facebook para a realização da segunda
manifestação de junho em Delmiro Gouveia. Diferentemente do primeiro convite, exposto no
início deste capítulo, esse segundo convite foi produzido por um estudante da Ufal/Campus
445

SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016. In:Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia- Alagoas.
446
CANETTI, Elias. “A massa”. In: Massa e poder. Tradução Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das
Letras, 1995, p. 74.
447
Op. cit.

125

do Sertão448. Antes da publicação deste convite, as postagens no Facebook , entretanto, já
eram inquietantes, pois, desde o do dia 14 de junho de 2013, os moradores de Delmiro
Gouveia usaram esta rede social como meio para externar sentimentos diversos, e para
manifestar apoio a algumas pautas de reivindicação que estavam sendo destaque nas
manifestações de junho deflagradas em outras cidades.
Segundo Maradei, este tipo de situação ocorreu em razão da cobertura oferecida pela
grande mídia às manifestações de junho449. A este respeito, até o dia 11 de junho de 2013,
aimprensa de São Paulo noticiou o embate entre o Estado e os cidadãos, dando cobertura a
ação policial450. E, entre os dia 06 e 13 de junho de 2013, o jornal “O Estado de São Paulo” e
o “Jornal Nacional” da Rede Globo, a exemplo, só tinham olhos para a destruição e buscaram
caracterizar os atos das multidões como vandalismo451.
Essas notícias correntes na grande mídia foram comentadas nas redes sociais. Luana
Queiroz, estudante do curso de História da Ufal/Campus do Sertão, compartilhou no dia 14 de
junho de 2013 no Facebook, uma mensagem de apoio aos manifestantes, atingidos pela
repressão polícial, nas manifestações ocorridas em São Paulo e no Rio de Janeiro 452 . Ela
compartilhou o seguinte comentário: “o país estava assistindo a uma guerra, na qual de um
lado havia guerreiros lutando contra o aumento absurdo das passagens e, do outro, lá estavam
os homens de fardas reprimindo as manifestações”453.
A publicação de Luana Queiroz ocorreu logo após a grande mídia ter modificado a
cobertura jornalística a respeito das manifestações de junho. Algumas mensagens
compartilhadas no Facebook, portanto demonstravam que os participantes das redes sociais
também acompanhavam de forma crítica a forma como a grande mídia noticiava os fatos
relacionados aos protestos de junho.

A esse respeito, Silva afirmou: “A mídia tem a

capacidade de pautar determinadas coisas, então, de repente tava todo mundo falando de
determinado assunto, tava todo mundo preocupado com o que tava acontecendo no

448

CONCEIÇÃO, Larissa Lisboa da. Entrevistada por Sara Angélica Bezerra Gomes em 19/05/2016. In: Acervo:
Sara Angélica Bezerra Gomes.
449
MARADEI, Anelisa. Folha de S. Paulo e a cobertura dos protestos do MPL . In: Intercom– Sociedade
Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXXVI Congresso Brasileiro de Ciências da
Comunicação. Manaus, 2013.
450
Op. cit.
451

Op. cit.
QUEIROZ, Luana. Página pessoal no Facebook de Luana Queiroz. Publicado em 14/06/2013. Disponível
em: https://www.facebook.com/luana.queiroz.10?fref=ts/. Acessado em 22/12/2013.
453
Op. cit.
452

126

congresso”454.
O que a grande mídia divulgava ressoava nas redes sociais. E, ela aparentemente
dividia opiniões no ambiente virtual, quando denegria ou elogiava a atuação da multidão nas
ruas. Os professores da Geografia Felipe Silva e Gustavo Campos, por exemplo,
compartilharam as seguintes expressões no Facebook, entre os dias 18 e 19 de junho de 2013,
para demonstrar apoio aos manifestantes que estavam sendo presos, acusados de vandalismo e
agredidos pela polícia:
O Brasil, que estava deitado eternamente em berço esplêndido, está acordando, que
esse Brasil saia do sono e comece a agir igual fermento na massa, fazendo o país
crescer.455
Vandalismo é o que fazem com seu pai na fila do médico. Destruição é o que fazem
com a sua família quando seu filho morre em mais um assalto à mão armada.
Violência é quando um professor tem redução de salário. O nome disso aqui é
FÚRIA. O nome desse ônibus queimado é: EU EXISTO E NÃO SOU OTÁRIO.
Escândalo é o salário e benefícios desses senhores ser pago com os meus míseros
vinte centavos a mais.456

A partir do dia 14 de junho de 2013, paralelamente a mudança na cobertura da
grande mídia sobre as manifestações de junho, houve também um aumento das publicações
nas redes sociais. Mas, mesmo depois da proliferação de sites e blogs, a cobertura jornalística
da grande mídia ainda parecia possuir grande credibilidade para incitar as manifestações de
junho. Por essa razão, essas publicações no Facebook que pareciam acompanhar o movimento
da grande mídia, enquanto para alguns militantes representava a ausência de consciência
política sobre a real situação do Brasil457, para outros, desmascaravam práticas corriqueiras
deste meio de informação458.
Mas a grande mídia não era a única que tinha algo para dizer sobre essas
manifestações, embora tenha sido importante para marcar posições e destacar alguns temas.
Nas redes sociais, o compartilhamento de informação pelos moradores da cidade Delmiro
Gouveia, era uma reação quase imediata depois que a grande mídia divulgava suas notícias. E,

454

SILVA, Uedson José da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 08/10/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.
455
SILVA, Felipe Ferreira da.Página pessoal no Facebook de Felipe Ferreira. Publicado em 18/06/2013.
Disponível em: <https://www.facebook.com/felipe.ferreira.1654?fref=ts>. Acessado em 22/12/2013, às 12h:20
min.
456
CAMPOS, Luis Gustavo. Página pessoal no Facebook de Luis Gustavo Campos. Publicado em
18/06/2013. Disponível em: https://www.facebook.com/luizgcampos?fref=ts/>. Acessado em 22/12/2013, às
10h:50 min.
457
SILVA, Uedson José da. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 08/10/ 2015. In: Acervo do
GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouvia/Alagoas.
458
ALMEIDA, João Carlos de. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 14/09/2015. In: Acervo do
GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro Gouveia - Alagoas.

127

embora as redes sociaisnão oferecessem a mesma unidade política da grande mídia, ou seja, a
possibilidade de garantir o posicionamento político de apenas um grupo, elas permitiam
visualizar as estratégias de diversos grupos políticos.
Em alguns momentos, o uso das redes sociais, sobretudo, do Facebook, causou
desdobramentos desfavoráveis para alguns grupos, pois, embora alguns pesquisadores
afirmem que no espaço virtual todos os usuários estão em pé de “igualdade”, como ressaltou
Martino,459 ele foi usado também como um meio desfavorável durante as manifestações de
junho, principalmente, para a atuação dos partidos políticos de esquerda.
Se por um lado, o uso das redes sociais muitas vezes contribuía para deslegitimar
alguns discursos da grande mídia, por outro, ela dava vez e voz a uma multidão que
corroborava com os argumentos dos partidos políticos de direita e com o debate sobre o
antipartidarismo, que não parece ter sido positivo naquele contexto. Essa multidão reproduzia
frases, textos, slogans e imagens que ajudavam os grupos de direita, deixando espaço para
uma disputa política pelo sentido das manifestações de junho não construtiva para os grupos
de esquerda460.
O uso das redes sociais, portanto, teve um significado importante em junho de 2013.
Na cidade Delmiro Gouveia, elas parecem ter contribuído para a multidão destacar problemas
que não surgiram nesta cidade, mas também para deflagrar um fenômeno polissêmico, com
várias lideranças. Provavelmente foi também o uso das redes sociais e a atuação da grande
mídia que ajudou os moradores desta cidade sertaneja, em junho de 2013, a irem às ruas com
propósitos estabelecidos, dentre eles, criticar o poder público municipal, os partidos políticos
e estampar em cartazes uma mistura de temas que não se resumiam a questão do transporte
público e da agenda local461.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

"Ciência dos homens", dissemos. É ainda vago demais. É preciso acrescentar: "dos
homens, no tempo"462.
459

MARTINO, Luís Mauro. “Como as redes crescem: a perspectiva de Albert-László Barabási”. In: Teoria das
Mídias Digitais: Linguagens, ambientes e redes. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, p.79.
460
MELO,Demian Bezerra de. A direita ganha as ruas: elementos para um estudo das raízes ideológicas da
direita brasileira.In: Niep Marx.Marx e o Marxismo 2015: Insurreições, passado e presente. Universidade
Federal Fluminense. Niterói- RJ, 2015, p.1-14.
461
Ver: Acervo de fotografias do projeto “Vozes do Ser-tão nas tramas de Mnemósine: fontes orais para História
Contemporânea em Alagoas”, vinculado ao Grupo de Estudo e Pesquisa História, Sociedade e Cultura GEPHISC/PPGH/UFAL.
462

BLOCH, Marc. A história, os homens e o tempo. In: Apologia da história ou o ofício de historiador.
Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 55.

128

A história não é a ciência do passado, mas a ciência que estuda os homens no tempo,
afirmou o historiador Marc Bloch463. Gostaríamos de iniciar as considerações finais com este
pensamento, porque como ressaltou Ferreira, os eventos cuja proximidade temporal
coincidisse com o tempo de vida do historiador foram negligenciados durante décadas pela
História464. Essa negligência consentiu que o estudo dos eventos recentes ficasse a critério dos
jornalistas e sociólogos, cujo trabalho não depende da noção de tempo histórico465.
Mas, conforme Bloch, mesmo os melhores jornalistas permanecem "colados" ao
acontecimento quando estudam eventos recentes 466 . E, ainda segundo este historiador, a
ausência de interpretações que estabeleçam relações entre os eventos imediatos com as causas
passadas compromete a compreensão e a própria ação das sociedades no presente467. Essas
reflexões inspiraram a construção desta dissertação, embora o que esboçamos aqui sobre as
manifestações de junho de 2013 no estado de Alagoas não sejam conclusões definitivas.
Esperamos, em primeiro lugar, que esta dissertação tenha demonstrado como
qualquer tipo de multidão pode, excepcionalmente, ser considerado material adequado na
História 468 ; e como um acontecimento que coincide com o tempo de vida do historiador
também pode ser objeto de estudo da História. As interpretações escolhidas para serem
analisadas neste trabalho não esgotam todos os aspectos das manifestações de junho em
Alagoas. Muitas questões que perpassaram essas manifestações na cidade de Maceió, no
litoral deste estado, e em Delmiro Gouveia, no Sertão, ainda merecem muita atenção dos
historiadores, uma vez que esse fenômeno revelou significados importantes para compreender
os movimentos sociais contemporâneos, o papel das mídias nos movimentos contemporâneos,
as relações de poder e as disputadas políticas neste estado.
Quando decidimos estudar esse fenômeno ocorrido nas cidades Maceió e Delmiro
Gouveia, nos deparamos com alguns entraves teóricos e metodológicos e, até o término desta
dissertação, percebemos que as manifestações de junho estiveram marcadas por diferentes
interesses e significados. No estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, entre
463

Op. cit.;p.52.
FERREIRA, Marieta de Moraes. “História, tempo presente e história oral”. In:Topoi. Rio de Janeiro,
dezembro 2002, p.314-332.
465
Op. cit.
466
BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Tradução André Telles. Rio de Janeiro:
Zahar, 2001, p.17.
467
Op. cit.;p.63.
468
RUDÉ, George. A Multidão na História: estudo dos movimentos populares na França e na Inglaterra 17301848. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, RJ, 1964, p.2.
464

129

outros, as manifestações de junho rapidamente ganharam notoriedade nos telejornais e nas
redes sociais. Mas, em cada cidade brasileira, diferentes pautas de reivindicação, palavras de
ordem, estratégias de ação direta nas ruas e divergências políticas marcaram a deflagração
dessas manifestações.
O descontentamento com o sistema econômico e político, com o aumento na tarifa
do transporte público, com a atuação dos partidos políticos, dos coletivos anarquistas e do
movimento estudantil universitário e secundarista marcou a construção de um fenômeno
multicêntrico em junho de 2013. Esta dissertação, desse modo, procurou estudar os sentidos
desse fenômeno a partir desses descontentamentos e de outras questões surgidas no decorrer
das manifestações de junho, nas duas cidades alagoanas citadas acima.
Com esta dissertação que foi dividida em três capítulos chegamos a algumas
considerações. No primeiro capítulo intitulado “Manifestações de Junho de 2013 nas cidades
Delmiro Gouveia e Maceió: um fenômeno multicêntrico”, discutimos os possíveis motivos
que deram origem as manifestações de junho no Brasil, dentre eles, o aumento no valor da
tarifa do transporte público no estado de São Paulo. Nesta primeira parte, ao destacarmos
como as manifestações de rua na região Sudeste inspiraram a multidão em Alagoas a deflagrar
manifestações de rua em junho de 2013, percebemos muitas divergências.
Essas divergências surgiram primeiramente porque à reivindicação relacionada ao
transporte público apresentou um perfil diferente no estado de Alagoas em junho. Neste
estado, nas cidades de Delmiro Gouveia e de Maceió, a multidão foi às ruas com pautas de
reivindicação divergentes relacionadas à tarifa do transporte público. Isso porque em Maceió
não ocorreu aumento na tarifa nesse período; e em Delmiro Gouveia não havia transporte
público regularizado.
Nas cidades paulistanas, enquanto os R$ 20 (vinte centavos) de aumento no valor da
tarifa do transporte atribuiu um forte sentido econômico as manifestações ocorridas nos
primeiros dias de junho, nas cidades alagoanas esse não parece ter sido o sentido
preponderante. As manifestações de junho nestas cidades foram deflagradas por motivos
diversos, mas, principalmente, porque ambas possuíam uma base militante consolidada, ou
seja, grupos políticos que há anos atuavam nestes lugares.
Nesse sentido, provavelmente não foi apenas o aumento no valor da tarifa do
transporte público em São Paulo ou a cobertura jornalística da grande mídia e o uso das redes
sociais que levou milhares de pessoas as ruas em Alagoas, mas também as lideranças desses
grupos políticos que mantinham contato com militantes de outros estados e pareciam ter
130

construído uma rede de solidariedade e luta em junho de 2013.
A presença desses grupos políticos nas ruas da capital alagoana e na cidade de
Delmiro Gouveia acentuou a criação de sentimentos negativos entre a multidão. Nesse
contexto, alguns temas ganharam centralidade na grande mídia e nas redes sociais como o
argumento do antipartidarismo. Em Alagoas, o antipartidarismo ganhou notoriedade em
momentos específicos. Na cidade Maceió, por exemplo, essa questão possivelmente foi
acentuada depois da segunda manifestação de rua, dia 17 de junho de 2013, depois de uma
disputa nas ruas pela retirada das bandeiras dos partidos políticos.
Na cidade de Delmiro Gouveia, por outro lado, o antipartidarismo provavelmente
teve início logo após a primeira manifestação de rua, dia 20 de junho de 2013, devido à
atuação dos anarquistas. Em ambas as cidades, o argumento do antipartidarismo, entretanto,
não parece ter sido consequência apenas da atuação da grande mídia. Essa questão
aparentemente ganhou importância entre a multidão também em função da atuação de alguns
coletivos como o Movimento Passe Livre (MPL), Anonymouse dos grupos Black Bloc.
Em Alagoas, não havia liderança regional do MPL em junho de 2013 e diversas
pessoas usaram a máscara usada pelos ativistas do coletivo Anonymous, ou usaram trajes
pretos e máscara feita de pano ou capuz, inspiradas no coletivo Black Bloc. Essas pessoas
mascaradas estavam em toda parte, construindo um movimento multifacetado.
A máscara do Anonymous provavelmente não estava sendo usada por pessoas que
possuíam as habilidades de hacker dos integrantes deste coletivo. E, as pessoas que estavam
disfarçadas com trajes típicos do Black Bloc possivelmente não formavam apenas um coletivo
com a tática de luta dos Black Bloc
No segundo capítulo intitulado “A Manifestação de Junho em Maceió”, percebe-se
que na capital do estado de Alagoas as manifestações de junho apresentaram um perfil
diferente em relação àquele que marcou esse fenômeno no Sudeste do Brasil. Essa diferença
estava nas pautas de reivindicações, na cobertura jornalística da grande mídia, na militância
dos grupos envolvidos e em muitas questões controvérsias surgidas no decorrer dessas
manifestações.
Essas diferenças ficaram percebíveis ao analisarmos as interpretações a respeito
dessas manifestações, publicadas pela grande mídia de Maceió e produzidas por militantes
vinculados a distintos grupos políticos. Essas interpretações revelaram um fenômeno peculiar,
multicêntrico e marcado por disputas políticas. O jornal Gazeta de Alagoas, a esse respeito,
parece ter contribuído para acentuar disputas pelo sentido das vozes nas ruas, quando realizou
131

a cobertura das manifestações de junho e decidiu destacar falas, argumentos e ideias que
geraram controvérsias, como a ideia do antipartidarismo.
O argumento do antipartidarismo na capital alagoana foi construído aos poucos entre
a multidão. Ele, entretanto, revelou muitas contradições entre os militantes das organizações
de esquerda e colaborou para a dispersão das manifestações de junho. Esses militantes quando
a questão do antipartidarismo se aprofundou se dispersaram e cada partido de esquerda
decidiu agir por si e a seu modo, para disputar através do carro do som, das reuniões e do
Facebook, a atenção da multidão, culpando o Partido dos Trabalhadores (PT) ou a cobertura
jornalística da grande mídia pela aversão aos partidos políticos.
Quando o argumento do antipartidarismo se aprofundou, as manifestações em
Maceió estavam se expandindo. Nesse contexto, diversas pessoas mascaradas com roupas
pretas e capuz ou com a máscara sorridente inspirada no personagem “v” do filme “V de
Vingança”, ganharam notoriedade nas ruas e nos jornais. Conforme os militantes do PCB,
PSTU, PCR e CAZP, entrevistados para este pesquisa, esses mascarados representavam
atitudes individualistas ou anarquistas, mas não existia uma única definição a respeito de
quem eram os mascarados.
Para esses militantes, os mascarados estavam vinculados aos coletivos Anonymous e
Black Blocs e apresentaram táticas de luta e resistência, que acentuou o discurso do
antipartidarismo, pois não apoiavam os partidos de esquerda e deixavam brechas para disputas.
Mas os mascarados parecem ter contribuído para a construção de diferentes formas de
manifestação em junho de 2013.
Alguns manifestantes em junho, mascarados ou não, formaram um movimento com
um sentido diferente daquele que aparentava ser. Muitas reivindicações levadas às ruas por
esses manifestantes, por exemplo, não buscavam mediação política com as instituições
governamentais. Isso ficou visível quando se tratava das reivindicações voltadas para os
setores sociais.
Quando se tratava dos problemas nos setores sociais administrados pelo Estado,
alguns manifestantes, principalmente àqueles vinculados ao “Movimento Caras-Pintadas”,
não pareciam buscar mediação política para resolver esses problemas. Eles apenas criticavam
os governos ou queriam se expor nas ruas. Mas, por outro lado, quando os problemas nos
setores sociais entravam na pauta de reivindicação de algumas organizações de esquerda, eles
eram apresentados de forma pontual, visando mediação política com o governo.
Desse modo, percebe-se que as manifestações de junho em Maceió e muitas pautas
132

de reivindicação levadas às ruas por uma multidão em alguns momentos, estiveram
relacionadas à construção de movimentos sociais antagonistas, ou seja, movimentos que
trazem temas, conteúdos e interesses diversos e não estão limitados a mediação política.
No terceiro capítulo intitulado “Faces das Manifestações de Junho no Sertão”,
discutimos a respeito de algumas reivindicações e sobre a atuação de alguns grupos políticos
nas manifestações de junho na cidade Delmiro Gouveia, como o grupo dos anarquistas. Neste
capítulo, também discutimos sobre o processo de unificação da luta em torno do transporte
público e destacamos a importância das redes sociais e da cobertura jornalística da grande
mídia.
No contexto daquelas manifestações, percebemos que os anarquistas possivelmente
ganharam mais destaque durante o fenômeno de junho em Delmiro Gouveia, porque eles
representavam a base militante mais articulada em termos de manifestações de rua e também
porque souberam usar a seu favor o argumento do antipartidarismo que ganhou relevância nas
redes sociais e nas ruas.
Em relação à participação do coletivo MPL durante as manifestações de junho nesta
cidade sertaneja, identificamos que mesmo sem uma liderança regional deste coletivo em
Alagoas, a pauta de reivindicação defendida por ele na região Sudeste durante o fenômeno de
junho, contribuiu para reunir a multidão de Delmiro Gouveia em torno de um sentimento de
solidariedade e luta pela regularização do transporte público no sertão.
Embora

alguns

anarquistas

entrevistados

para

esta

pesquisa

tenham

aparentementetentado ofuscar a importância do coletivo MPL no contexto de junho nesta
cidade sertaneja, as reivindicações defendidas por esse coletivo tiveram relevância nas mídias
e nas ruas, sobretudo no Sertão de Alagoas. Isso porque nesse lugar havia um publico aflito
com o problema no setor da mobilidade urbana, o qual se identificou com o tema do Passe
Livre. Inspirados na luta pelo não aumento no valor da tarifa em junho de 2013, deflagrada
inicialmente no estado de São Paulo, os manifestantes em Delmiro Gouveia descortinaram
problemas do passado mal resolvidos em relação à mobilidade urbana no Sertão.
E, além da questão da mobilidade urbana, os temas da educação e da Fábrica da
Pedra também formaram um conjunto de protestos. Esses dois temas estiveram nas ruas de
maneiras diversas. E as interpretações a respeito desses temas variavam de acordo com os
grupos sociais participantes. Anarquistas, professores, estudantes, militantes vinculados a
partidos políticos, por exemplo, apresentaram interpretações diferentes para explicar a
presença do tema da educação e da Fábrica da Pedra nas ruas em junho, revelando um
133

fenômeno social que inter-relacionou gerações em torno de problemas mal resolvidos.
Por último, a respeito da atuação da grande mídia e do uso das redes sociais,
percebemos que durante as manifestações de junho, a grande mídia e a mídia social estavam
funcionando em ritmos distintos. Elas foram usadas para a reprodução das relações de poder,
sendo aproveitadas para inflamar as disputas políticas pelo controle da multidão. Naquele
contexto, enquanto alguns manifestantes nas redes sociais procuravam deslegitimar a
cobertura jornalística da grande mídia, outros manifestantes tentavam corroborar com alguns
argumentos, como o argumento do antipartidarismo.
As manifestações de junho se encerraram deixando em aberto muitas situações do
presente recente. Em nível nacional, regional e local, elas despertaram muitas polêmicas,
catalisaram problemas antigos e chamaram a atenção dos governos federal, estadual e
municipal, os quais foram criticados pelos manifestantes. Mas a história desse fenômeno,
como dito anteriormente, não se encerra aqui. Desse modo, esperamos que esta dissertação
contribua para despertar o interesse de outros pesquisadores para esse fenômeno multicêntrico,
controverso e inquietante.

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História, Sociedade e Cultura - GEPHISC/PPGH/UFAL.

Ver:

galeria

de

fotos

do

site

G1

Alagoas.

Disponível

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<http://g1.globo.com/al/alagoas/fotos/2013/06/fotos-maceio-tem-terceiro-dia-deprotestos.html#F845160>. Acessado em 20/12/2015.

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Youtube(23min

e

57

seg).

Produção

da

Rede

Globo.

<https://www.youtube.com/watch?v=iQoBOJUsNps&spfreload=10>.

Disponível

em:

Acessado

em

12/02/2016.

Manifestação na Orla de Maceió. Produção de Laissantg. In: Maceió: Youtube, publicado em
20/06/2013.

1

Vídeo

(Duração

8min59seg).

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<https://www.youtube.com/watch?v=VGQjNnyPT7M>. Acessado em 20/12/2015.

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GEPHISC\

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de

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Delmiro

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11/09/2015. In: Acervo do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do
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Acervo do GEPHISC\ Centro de Documentação, Cultura e Imagem do Sertão. Delmiro
Gouveia/Alagoas.

LOPES, Wibsson Ribeiro. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 26/ 04/ 2015. In:
Acervo do GEPHISC\ Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro
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Delmiro Gouveia /Alagoas.

NASCIMENTO, Edvaldo Francisco do. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em
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Delmiro Gouvia/Alagoas.

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Gouvia/Alagoas.
SANTOS, José Ferreira dos. Entrevistado por Sara Angélica Bezerra Gomes em 16/02/2016.
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Acervo do GEPHISC\Centro de Documentação, cultura e imagem do Sertão. Delmiro
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