Os impactos da desordem Informacional e os discursos políticos sobre a Covid-19

Entrevista com [egressa do PPGCI] Myllena Diniz


- Atualizado em
Fonte: Divulga-CI.
Fonte: Divulga-CI.

Sobre a entrevistada

Em 2024, Myllena Diniz defendeu sua dissertação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal de Alagoas, sob orientação do Prof. Dr. Marcos Prado.

Atualmente, Myllena atua como assessora de comunicação, professora de Jornalismo na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e apresenta o podcast “É Coisa da Nossa Cabeça?”. Além de cursar o doutorado em Ciência da Informação pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Sua dissertação, intitulada “Os impactos da Desordem Informacional para o fenômeno da Infodemia: uma análise a partir dos discursos políticos sobre a Covid-19”, analisa sete discursos do ex-presidente Jair Bolsonaro, proferidos em pronunciamentos oficiais e entrevistas televisivas no primeiro mês da pandemia no Brasil. Posteriormente, a pesquisa verifica a incidência desses conteúdos na agência de fact-checking “Aos Fatos”, evidenciando suas incongruências. A investigação aponta para um padrão narrativo marcado por contradições, imprecisões e falsidade informacional, contribuindo para compreender o fenômeno da desinformação.

Divulga-CI: O que te levou a fazer o mestrado e o que te inspirou na escolha do tema da dissertação?

Myllena Diniz (MD): Sempre fui uma apaixonada pela Comunicação e, por isso, me tornei jornalista. Mas sempre tive a consciência de que um ofício como esse não nasce apenas da técnica, mas do nosso repertório e do nosso olhar para o mundo.

Sou filha e neta de professores universitários, defensores absolutos da Ciência e da Educação. Então, o Mestrado e o Doutorado sempre despertaram em mim um interesse natural e genuíno, a partir do exemplo e do estímulo que sempre tive dentro de casa. Não à toa, fui uma criança curiosa, interessada em “assuntos de gente grande”, e me tornei uma adulta que segue atenta a assuntos espinhosos, sempre em busca de entender as entrelinhas, as contradições e os jogos de poder.

Essa iniciativa também veio da vontade de colaborar com a sociedade a partir do meu prazer pelos estudos, de retribuir tudo o que a universidade pública já me proporcionou e de colocar minha capacidade intelectual a serviço de reflexões críticas e diálogos importantes, para avançarmos como Humanidade. Por isso, quis desenvolver um trabalho coerente com os valores que defendo, como a justiça social e a democracia.

Como jornalista e pesquisadora, eu não poderia ser atravessada pela onda de desinformação – a serviço de interesses políticos –, que se perpetuou no Brasil, durante a  pandemia da Covid-19, sem denunciar o que aconteceu. Ciente da responsabilidade dos meus dois ofícios, sei o papel que nos cabe quando escrevemos a História, para que os erros do presente e do passado não se repitam.

DC: Quem será o principal beneficiado pelos resultados alçados?

MD: A sociedade como um todo, porque é um trabalho que cumpre um papel social ao denunciar a maior ameaça da Humanidade, a desinformação, conforme aponta o último relatório de riscos globais do Fórum Econômico Mundial, e o uso dessa estratégia a serviço de interesses políticos na maior crise sanitária que a nossa geração já vivenciou.

DC: Quais as principais contribuições que destacaria em sua dissertação para a ciência e a tecnologia e para a sociedade?

MD: Com essa pesquisa, evidenciamos que a pandemia da Covid-19 foi afetada não apenas por um problema de ordem biológica, o vírus Sars-CoV-2, mas por uma questão de ordem social: o fluxo exacerbado de informações, responsável pelo fenômeno da infodemia – a epidemia da informação, que, apesar de já estar em curso desde o início do milênio, com o avanço exponencial das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), tomou uma proporção inimaginável a partir da eclosão da crise sanitária, em 2020.

E o mais importante: este trabalho revela que a desordem informacional é um problema de saúde pública. Informações falsas, imprecisas ou retiradas de contexto implicam em mais ansiedade informacional, dificuldades para a tomada de decisão, proliferação de doenças, ambientes polarizados, disputas narrativas sem fundamentações, desconfiança nas instituições, instabilidade para a democracia e óbitos, como os mais de 700 mil registrados no Brasil, decorrentes da Covid-19, de março de 2020 a abril de 2023.

Além disso, a pesquisa evidencia como a desinformação sempre serviu de ferramenta para disputas narrativas pelo poder e causou instabilidades para políticas de Saúde no Brasil, como aconteceu durante a Gripe Espanhola e a Revolta da Vacina, no início do do Século XX, que representou o primeiro movimento “antivax” do País.

A gente percebe, portanto, que a desinformação em relação às vacinas é sempre revestida de manipulações e dados não científicos, que estimulam a hesitação vacinal, provocam insegurança na população e corroboram com o caos, tendo por trás um pano de fundo que atende a interesses políticos.

No caso da pandemia da Covid-19, foram identificadas estratégias que fizeram uso de pseudociência, ao mimetizarem a realidade e fontes confiáveis, com o intuito de descredibilizarem instituições consolidadas, como as Universidades, os pesquisadores e entidades sanitárias de relevância. E, no Brasil, os danos foram ainda maiores, uma vez que o ex-presidente, Jair Bolsonaro, tornou-se o principal porta-voz do negacionismo.

DC: Seu trabalho está inserido em que linha de pesquisa do Programa de Pós Graduação? Por quê?

MD: Linha de Pesquisa 1 – Produção, Mediação e Gestão da Informação. Primeiro, porque abordou a produção de (des)informação sobre a Covid-19, a partir dos discursos oficiais do ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, veiculados na TV aberta, no primeiro mês da pandemia no país. Segundo, porque evidencia o protagonismo social da mediação da informação, como um conjunto de interferências, que desempenha um papel crucial na comunicação para e da massa.

Por isso, o trabalho traz um olhar crítico para a forma como a desordem informacional foi produzida na estrutura dos regimes de informação vigentes, pensando não só no que é produzido, mas em quem produz, por quê, a serviço de quais interesses e por meio de quais formatos, narrativas e estratégias discursivas.

DC: Citaria algum trabalho ou ação decisiva para sua dissertação? Quem é o autor desse trabalho, ou ação, e onde ele foi desenvolvido?

MD: Há duas situações decisivas para a minha dissertação – mais do que um trabalho científico, propriamente dito. A primeira partiu do insight do tema do projeto, antes de submetê-lo. No início da pandemia, eu estava cursando uma segunda graduação, em Psicologia, e, durante um projeto de extensão sobre Psicologia Social, discutíamos o impacto do uso de discursos bélicos para o enfrentamento da crise sanitária. Estávamos pensando em salvar vidas, mas adotávamos termos como “hospital de campanha”, “inimigo em comum”, “heróis da saúde”, “luta contra o coronavírus”. Aquela reflexão me atravessou, de algum modo. Os impactos das construções narrativas acerca da Covid-19 para a saúde mental dos indivíduos somado ao fluxo exacerbado de (des)informação renderia muito pano para manga para alguém que era jornalista e entusiasta da Psicologia.

Outro ponto fundamental foi o apoio que tive, desde o início, de professores que acreditaram no meu projeto. A professora Rosaline Mota sempre foi uma entusiasta dos meus textos e da minha pesquisa e, certamente, seu estímulo foi decisivo para a minha jornada na pós-graduação. E o professor Marcos Prado, meu orientador, foi absolutamente fora da curva… Além da total competência profissional e do brilhantismo intelectual, me agraciou com sua generosidade, sua humanidade, seu acolhimento e, principalmente, sua amizade. Portanto, a troca humana foi imprescindível para que eu tivesse um ambiente plenamente propício para desenvolver meu potencial acadêmico, sem amarras, pressões ou desgaste emocional – ao contrário, tive, neles, a certeza de que conhecimento só vale quando compartilhado.

DC: Quais foram os passos que definiram sua metodologia de pesquisa?

MD: Desenvolvi uma pesquisa de natureza básica, com objetivos exploratórios, porque eu queria obter dados sobre o problema, mas ainda não tinha informações suficientemente estruturadas, inclusive por ser um fenômeno novo. Somente a partir disso, eu poderia partir para um trabalho descritivo, mais completo.

Como o intuito era analisar a manifestação da desordem informacional nos discursos políticos como contribuintes para a propagação do fenômeno da infodemia, compreendida como uma problemática social potencializadora da pandemia da Covid-19, optei por procedimentos bibliográficos e documentais, com abordagem qualitativa. Isso porque focalizei na análise dos impactos dos discursos de Bolsonaro, durante o primeiro mês da pandemia da Covid-19 no Brasil (março de 2020), a partir do olhar e da produção da Ciência da Informação brasileira. Então, do ponto de vista bibliográfico, recorri à Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (Brapci), para entender como a CI abordou o fenômeno da desinformação no país e enxergou a relação entre os discursos do ex-presidente e as práticas de desinformacionais. Já a coleta documental ocorreu por meio das transmissões dos pronunciamentos oficiais e das entrevistas em rede aberta de TV.

Ao todo, foram identificados e analisados 4 pronunciamentos oficiais e 3 entrevistas, transcritos na dissertação e analisados a partir dos seguintes critérios: todos os pronunciamentos deveriam ter como porta-voz Jair Bolsonaro; ser proferidos em março de 2020; ser pronunciamento oficial ou entrevista completa; abordar os temas “coronavírus”, “Covid-19”, “ideologia”, “imprensa” e “saúde”; e exibição em veículos televisivos.

Depois disso, passaram por uma Análise do Discurso (AD), com base na tradição foucaultiana, que entende a natureza discursiva como uma produção da realidade, que não é resultado apenas da liberdade de quem fala, mas das condições sociohistóricas de produção discursiva – entendendo que quem fala sempre o faz a partir de um lugar e que a língua é uma prática de um sujeito ideológico. Ou seja, o discurso é a própria luta pelo poder.

Feito isso, partimos para uma AD minuciosa, realizada, sequencialmente, da seguinte forma: seleção do material discursivo; contextualização histórica e institucional do discurso; identificação das formações discursivas, a partir de conjuntos e práticas sociais ou linguísticas que produzem efeitos de verdade e poder; identificação dos dispositivos de poder-saber, como estruturas e práticas que entrelaçam o poder e o conhecimento em uma sociedade (ex.: o próprio pronunciamento oficial, que confere autoridade e verdade a quem discursa para todo o país, em horário nobre); identificação de estratégias discursivas, utilizadas para legitimar, normalizar, excluir ou resistir a algo; análise crítica e reflexiva; perguntas heurísticas (“qual é o conceito-análise presente no texto?”, “como o texto constrói o conceito-análise?” e “a que discurso pertence o conceito-análise construído da forma que o texto constrói?”); por fim, interpretação e conclusões.

Após a AD, realizamos um cruzamento desses conteúdos discursivos com os levantamentos feitos, no mesmo período, pela agência de fact-checking Aos Fatos (ao todo, nove), para dimensionarmos os efeitos informacionais das falas de Bolsonaro. A partir disso, elaboramos um quadro comparativo, com base nas classificações estabelecidas por Aos Fatos: impreciso, exagerado, insustentável, contraditório, distorcido e falso. 

Ao final, identificamos que, dos nove discursos proferidos por Bolsonaro, oito foram abordados pela agência pelo caráter inconsistente de suas informações. Desse quantitativo, foram retiradas 24 falas com conteúdo invalidado, sendo 10 contraditórias; 5 falsas; 5 imprecisas; e 4 insustentáveis. Também verificou-se as falas contraditórias foram replicadas 53 vezes; as insustentáveis, i22 vezes; as imprecisas, 18; e as falsas, 12.

DC: Quais foram as principais dificuldades no desenvolvimento e escrita da dissertação?

MD: Houve duas grandes preocupações. A primeira foi não deixar minhas convicções políticas serem maiores do que o trabalho. O tempo inteiro eu precisei lembrar, para mim mesma, de que eu estava fazendo pesquisa, não uma material político-panfletário, apesar de ter sempre a consciência de que somos seres políticos e de que neutralidade não existe – o que fica claro na escolha do tema da dissertação, no problema de pesquisa proposto e nas reflexões estabelecidas. E, ao final, eu percebi que consegui fazer isso. É um trabalho bem embasado, com total rigor científico, que expõe as feridas do nosso país e estabelece uma dura crítica à atuação da extrema-direita no Brasil, na condução da pandemia da Covid-19 e na propagação de desinformação, mas sem cair na armadilha do enviesamento político.

A outra preocupação foi estabelecer uma metodologia adequada para a AD, justamente, para não fazer uma análise enviesada, sem qualquer tipo de rigor. Para isso, contei com a grande contribuição do Professor Daniel Martínez-Ávila, que me supervisionou durante o intercâmbio na Universidad de León (Espanha), durante o Mestrado, e me apresentou alguns de seus estudos que revelam que qualquer tentativa de derivar uma metodologia da AD genealógica de Foucault tem de lidar primeiro com a recusa explícita do autor em estabelecer regras. Essa reflexão me deixou mais confortável para mergulhar nas análises. 

DC: Em termos percentuais, quanto teve de inspiração e de transpiração para fazer a dissertação?

MD: Eu não gosto de romantizar o fazer científico, mas entendo que boa parte da minha motivação vem da própria inspiração. É por isso que fiz tanta questão de falar de um tema que eu gostava, que eu tinha um interesse genuíno em dissertar. Estudar, pesquisar, escrever e falar sobre algo que nos motiva faz toda a diferença para que o trabalho aconteça com mais fluidez.

No entanto, sem transpiração, sem o exercício diário e o compromisso com o projeto, nada evolui. Por muitas vezes, foi preciso bastante transpiração, foco e determinação, para que a inspiração também pudesse chegar, parecendo intuição, quando, na verdade, é o seu repertório sendo ampliado de forma inimaginável, por meio de muito estudo e muita dedicação.

DC: Teria algum desabafo ou considerações a fazer em relação à caminhada até a defesa e o sucesso da dissertação?

MD: Muitas vezes, vamos nos sabotar. Haverá momentos em que tudo parecerá inerte. Sempre que isso acontecer, não desista. Quando o mundo externo demandar demais, priorize o quê e quem realmente importa. Quando dores ou preocupações externas tentarem tirar o seu foco, continue, sem desistir. Ao contrário, estude. Foque no seu projeto, que é só seu. Uma dissertação não é apenas um projeto acadêmico, mas de vida. Portanto, quando o mundo parecer duro demais, não se afaste dos seus estudos, mergulhe neles e tome as rédeas daquilo que é seu e que ninguém poderá tirar de você. O resultado sempre virá.

DC: Como foi o relacionamento com a família durante este tempo?

MD: Minha família é minha grande fonte de vida e de amor. Meus pais, meus avós e meu irmão sempre acreditaram mais em mim do que eu mesma e me oportunizaram com que há de mais nobre: amor e educação. E isso fez toda a diferença, porque, por meio deles, me senti ainda mais segura para mergulhar neste sonho. Eles vibraram em cada etapa, desde a aprovação no Mestrado até a defesa. Foram ouvidos a postos, ombro amigo e mão estendida. Digo, com plena convicção, que cada linha da minha dissertação carrega a força do amor das duas mulheres da minha vida: minha mãe, Janaína, e minha avó, Francinete, que tornaram o mundo um lugar bonito para que eu pudesse ser e estar – não há conquista que não seja por causa delas e para elas. E, também, do meu pai, Fábio, meu professor da vida e da academia, um homem cuja integridade antecede todos os seus títulos e que sempre me oportunizou com o que há de mais nobre: amor, educação, presença e dignidade. Parafraseando Rubem Alves, eu somos!

DC: Agora que concluiu a dissertação, o que mais recomendaria a outros mestrandos que tomassem seu trabalho como ponto de partida?

MD: Busque tudo aquilo que faz seu olho brilhar, que tenha sentido para você e para o mundo. Pesquise com compromisso social e pense, de verdade, na contribuição que a sua pesquisa deixará para o seu campo e para quem está à sua volta.

E, para aqueles que, assim como eu, têm interesse em estudar desordem informacional, eu recomendo que não desistam. Temos um longo trabalho pela frente, em busca de políticas que assegurem a Integridade da Informação. Por mais que pareça um trabalho exaustivo, inconclusivo ou utópico, precisamos de profissionais comprometidos com a ética informacional. As possibilidades de atuação e recorte são inúmeras, com impactos significativos para todo o nosso ecossistema.

DC: Como você avalia a sua produção científica durante o mestrado? Já publicou artigos ou trabalhos resultantes da pesquisa? Quais você aponta como os mais importantes?

MD: Minha dissertação rendeu ótimos frutos, com publicações em periódicos brasileiros e estrangeiros, participações em eventos nacionais e internacionais, capítulo de livro, publicações em veículos de comunicação de relevância, e, agora, com o Prêmio Ancib de Melhor Dissertação, terei a alegria de publicá-la como livro. Além disso, me oportunizou com um período como pesquisadora convidada na Universidad de León e no Instituto de Estudios de Género da Universidad Carlos III de Madrid, ambos na Espanha. E, principalmente, me preparou para o Doutorado, que foi um divisor de águas e onde pude, de fato, dar mais evidência às pesquisas já iniciadas no Mestrado.

Abaixo, alguns trabalhos:

Negacionismo à brasileira: os impactos da desordem informacional para o fenômeno da (des)infodemia no Brasil durante a pandemia da Covid-19 – Revista Comunicação Midiática (Unesp).

Análise do discurso pecheuxtiana –  Scire – Representacion Y Organizacion Del Conocimiento (Espanha).

Por que fim da checagem de fatos favorece ódio e assédio contra mulheres? – Portal UOL. 

Fim da checagem de fatos também é questão de gênero: como o problema impacta as mulheres e outros grupos minorizados – The Conversation Brasil.

A desinformação é considerada o maior risco para a Humanidade em 2025. O que fazer para combatê-la? – The Conversation Brasil.

Covid-19: discurso, ideologia e o negacionismo brasileiro – XXIV ENANCIB.

Desordem informacional: suas contribuições para o fenômeno da infodemia no contexto da covid-19 – V Seminário Internacional de Informação, Tecnologia e Inovação.

Participação no Edicic Ibérico (Portugal) e Capítulo de Livro – A Desordem Informacional nos Discursos de Jais Bolsonaro no primeiro mês da pandemia da Covid-19 no Brasil. In: Carlos Guardado da Silva; Jorge Revez; Luís Corujo. (Org.). Diálogos na Ciência da Informação: Atas do XIV Encontro EDICIC. 1ed.Lisboa: Edições Colibri e EDICIC, 2024, v. , p. 1139-1145.

DC: Desde a conclusão da dissertação, o que tem feito e o que pretende fazer em termos profissionais?

MD: Antes de concluir o Mestrado, passei no Doutorado do PPGCI do Ibict em cooperação com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com isso, precisei defender às pressas – uma situação inusitada, mas muito feliz, pois passei numa quinta-feira, defendi a dissertação na quarta-feira seguinte, me mudei para o Rio de Janeiro no domingo e comecei as aulas na segunda. 

Desde então, muitas coisas aconteceram: passei a integrar: o Grupo de Pesquisa Perspectivas Filosóficas em Informação (Perfil-i/Ibict); o Centro de Pesquisa em Engenharia e Sistemas (Easy/Ufal), onde atuo como pesquisadora no Núcleo de Telessaúde de Alagoas, financiado pelo Ministério da Saúde; e me tornei colaboradora temporária na Comunicação da Liinc em Revista (Ibict).

E, mais recentemente, me tornei Professora Substituta da Escola de Comunicação da UFRJ, lecionando disciplinas de Inovação, Fact-checking e Combate à Desinformação. Além disso, sigo atuando como Assessora de Comunicação, em projetos paralelos.

DC: O que faria diferente se tivesse a chance de ter começado sabendo o que sabe agora?

MD: Não faria nada diferente. Talvez, teria menos medo. Acreditaria mais em mim. Enquanto fazia o projeto para o Mestrado, pensava: “nunca vou passar nisso”. No final, passei em segundo lugar e tive uma dissertação premiada. Quando enviei o projeto para o Doutorado no Ibict e estava no processo seletivo, pensava: “Por que estou fazendo isso? É óbvio que não vou passar. É muito concorrido”. E passei. Então, teria mais cuidado para não me sabotar.

DC: O que o Programa de Pós-Graduação fez por você e o que você fez pelo Programa nesse período de mestrado?

MD: O PPGCI da Ufal foi incrível, me oportunizou com professores generosos, acolhedores e acessíveis. Foi um momento muito feliz, onde pude estar em comunhão com todos – não me recordo de nenhum momento hostil. Tive liberdade e apoio para mergulhar de cabeça na minha pesquisa, com orientações sempre muito válidas. E permitiu que eu ganhasse o mundo com a minha pesquisa, fazendo a ponte com as universidades da Espanha.

E acredito que, como uma forma de retribuição, eu consegui, de algum modo, dar visibilidade ao PPGCI, que é novo. Mostramos que reside uma potência científica na Ufal, em Alagoas, no Nordeste. Fazemos ciência de qualidade!

DC: Você por você:

MD: Eu sou resultado da menina cheia de sonhos, da criança que se metia em assunto de gente grande, da adolescente que sempre questionou os privilégios da própria bolha, em um país tão desigual. Sou uma mulher que insistiu em falar de política e se posicionar, em um mundo machista e misógino. Sou uma jornalista que buscou um propósito ainda maior para o seu ofício. Sou uma pesquisadora que, para além do título, quis cumprir seu dever social, denunciando o uso da desinformação na maior crise sanitária da Humanidade. 

Mas, sobretudo, sou uma filha, uma neta, uma irmã, uma sobrinha e uma amiga que sempre encontrou nas suas pessoas a maior das suas alegrias. Me sinto uma pessoa cheia de sorte, que não anda só, que tem fé na vida e nas pessoas.


Entrevistada: Olga Myllena Diniz Botelho Santana

Entrevista concedida em:  2 de fevereiro de 2026

Formato de entrevista: Escrita

Redação da Apresentação: Iasmim Farias Campos Lima

Fotografia: Olga Myllena Diniz Botelho Santana

Diagramação: Iasmim Farias Campos Lima

Fonte: Divulga-CI