Subjetividades Larvares: Deleuze leitor de Hume - Lucas Santos Marinho
Orientação: Prof. Dr. Fernando Meireles Monegalha Henriques | Data da Defesa: 12/02/2026
Dissertação - Lucas Santos Marinho.pdf
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS – UFAL
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS COMUNICAÇÃO E ARTES – ICHCA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
Lucas Santos Marinho
SUBJETIVIDADES LARVARES: DELEUZE LEITOR DE HUME
aceió/AL
M
Fevereiro/2026
2
Lucas Santos Marinho
SUBJETIVIDADES LARVARES: DELEUZE LEITOR DE HUME
issertaçãoapresentadaaoProgramadePós-Graduação
D
em Filosofia do Instituto de Ciências Humanas,
Comunicação e Artes da Universidade Federal de
Alagoas, como requisito para obtenção do título de
Mestre em Filosofia.
Orientador: Prof. Dr. Fernando Meireles Monegalha
enriques.
H
aceió/AL
M
Fevereiro/2026
3
Lucas Santos Marinho
SUBJETIVIDADES LARVARES: DELEUZE LEITOR DE HUME
issertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação
D
em Filosofia do Instituto de Ciências Humanas,
ComunicaçãoeArtesdaUniversidadeFederaldeAlagoas,
como requisito para obtenção do título de Mestre em
Filosofia.
_____________________________________________________
Prof. Dr.Fernando Meireles Monegalha Henriques
Orientador / PPGFIL-UFAL
Banca Examinadora:
_____________________________________________________
Profa. Dra.Silene Torres Marques
Examinador externo / UFSCAR
_____________________________________________________
Prof. Dr.Sacha Zilber Kontic
Examinador interno / PPGFIL-UFAL
Catalogação na fonte
Universidade Federal de Alagoas
Biblioteca Central
Divisão de Tratamento Técnico
Bibliotecária: Girlaine da Silva Santos – CRB-4 – 1127
M338s
Marinho, Lucas Santos.
Subjetividades larvares: Deleuze leitor de Hume / Lucas Santos
Marinho. – 2026.
184 f. : il.
Orientador: Fernando Meireles Monegalha Henriques.
Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Universidade Federal de
Alagoas, Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes. Maceió,
2026.
Bibliografia: f. 181- 184.
1. Deleuze, Gilles, 1925-1995. 2. Hume, Davi, 1711- 1776. 3. Empirismo.
4. Subjetividade. 5. Imanência (Filosofia). I. Título.
CDU: 17.032.4
5
RESUMO
Nosso trabalho busca compreender as condições de constituição da subjetividade filosófica a
partirdacriaçãoconceitual,tomandocomoeixosinterpretativosopensamentodeGillesDeleuze
eafilosofiaempiristadeDavidHume.Apartirdisso,emDeleuze,nossaanálisetomacomotese
central a subjetividade não como um dado estávelouumasubstânciainteriorestática,masum
efeito intensivo e movente que emerge em meio a processos pré-subjetivos e impessoais. A
subjetividade, nesse sentido, parece-nosresultardeforçasdediferenciaçãoqueseatualizamna
atividade conceitual, sendo mais um processo do que umaestruturadeterminada.Disso,nosso
texto segue um percurso argumentativo que, em um primeiro momento, analisa o fluxo da
imanência,partindodosátomosdaexperiênciadeHume(impressõeseideias)parachegaraum
campo pré-individualemqueocorreoque,paraopensamentodeleuziano,podemoschamarde
gênese sem sujeito. Em um segundo momento, nosso trabalho aborda o advento da natureza
humana,istoé,investigamoscomoasubjetividadeadquireconsistênciaatravésdarelaçãocoma
exterioridade, por meio demecanismoscomohábito,crençaeficçãodoeu.Nessaperspectiva,
ponderamos umatransvaloraçãoconceitual,ressignificandoafragilidadedaidentidade,exposta
por Hume, como uma precariedade ontológica frutífera; apontamos que a ausência de um eu
fundador, longedeserumproblemaintratável,éacondiçãodepossibilidadeparaosprocessos
de subjetivação. Assim, o detalhamento de tal condição de possibilidade foi tratado por nós
como aquilo que, seguindo o pensamento deleuziano, chamamos de subjetividade larvar (o
estado de devir em sua maior intensidade, que não passa senão de um processo aberto,
descontínuoeimanente).Emsíntese,expusemosqueasubjetividadeemumsentidodeleuziano
se dá no cruzamento entre a crença e a invenção e em uma lógica intensivadeprodução,que
pode nos oferecer uma renovação crítica a partir da noção de subjetividade como um algo
múltiplo, umdevir-larvarque extrai da precariedade novas formas de vida.
Palavras-chave:Deleuze. Hume. Empirismo. Subjetividade. Imanência.
6
ABSTRACT
Our work seeks to understand the conditions for the constitution of philosophical subjectivity
through conceptual creation, taking as interpretive axes the thought of Gilles Deleuze and the
empiricist philosophy of David Hume. Building on this, in Deleuze, our analysis takes as its
centralthesisthatsubjectivityisnotastablegivenorastaticinteriorsubstance,butanintensive
and moving effect that emerges amid pre-subjective and impersonalprocesses.Subjectivity,in
this sense, appears to us to result from forces of differentiation that actualize themselves in
conceptualactivity,beingmoreaprocessthanadeterminedstructure.Fromthis,ourtextfollows
an argumentative path that, in a first moment, analyzes the flow of immanence, starting from
Hume's atomsofexperience(impressionsandideas)toarriveatapre-individualfieldinwhich
what Deleuzian thought allows us to call a genesis without a subject takes place. In a second
moment,ourworkaddressestheadventofhumannature,thatis,weinvestigatehowsubjectivity
acquiresconsistencythroughitsrelationwithexteriority,bymeansofmechanismssuchashabit,
belief,andthefictionoftheself.Fromthisperspective,weconsideraconceptualtransvaluation,
reinterpretingthefragilityofidentityexposedbyHumeasafruitfulontologicalprecariousness;
we point out that the absence of a founding self, far from being an intractableproblem,isthe
condition of possibility for processes of subjectivation. Thus, the detailingofthisconditionof
possibility was treated by us as what, following Deleuzian thought, wecalllarvarsubjectivity
(thatis,asamoodofdevirinitsgreatestintensity,whichisnothingbutanopen,discontinuous,
andimmanentprocess).Insummary,weshowedthatsubjectivityinaDeleuziansenseoccursat
thecrossingbetweenbeliefandinventionandwithinanintensivelogicofproduction,whichcan
offer us a critical renewal based on the notion of subjectivity as something multiple, a
devir-larvarthat extracts new forms of life fromprecariousness.
Keywords:Deleuze. Hume. Empiricism. Subjectivity. Immanence.
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SUMÁRIO
1.INTRODUÇÃO.....................................................................................................................8
2.OFLUXODAIMANÊNCIA(IMPRESSÃO,IDEIA,ESPAÇOETEMPO)...............13
2 .1.Domundocomointerioridade:aconstruçãointernadasideiasnaparteIdolivroI
doTratadodaNaturezaHumana..........................................................................................14
2 .2. A imanência como plano de constituição: a subjetividade advinda de um campo
pré-individualoupré-reflexivosegundoopensamentodeleuziano...................................31
2 .3. As condições da experiência para Hume: tempo e espaço como modos da
imaginaçãonaparteIIdolivroIdoTratado.......................................................................41
2 .4. O ultrapassamento do dado enquanto gênese sem sujeito: a transcendência e os
processosimanentesdasafecçõesedosprincípiosnaimaginação.....................................59
3 . O ADVENTO DA NATUREZA HUMANA (OU A SUBJETIVIDADE
CONSISTENTE).....................................................................................................................73
3 .1. A lógica da experiência e o espírito que crê: ossentidos,amemóriaeafunçãoda
repetiçãonaparteIIIdolivroIdoTratado.........................................................................74
3 .2. Imaginário e ficção do eu: a subjetividade atravessada por virtualidades e
fabulações...............................................................................................................................113
3.3.AcontinuidadedaexperiêncianaparteIVdolivroIdoTratado............................127
3 .4. A construção do mundo vivido: a percepção eaimaginaçãocomobasedosituado
subjetivante............................................................................................................................147
4.SUBJETIVIDADESDESCONTÍNUAS(AREINVENÇÃODESI)...........................159
4.1.AfragilidadedesinaparteIVdolivroIdoTratado:seçãoDaidentidadepessoal.160
4 .2.Subjetividadelarvar:aprecariedadecomocondiçãoontológicaparaosprocessosde
subjetivação...........................................................................................................................167
CONCLUSÃO.......................................................................................................................173
REFERÊNCIAS....................................................................................................................176
8
1. INTRODUÇÃO
Nosso trabalho buscará desenvolver uma investigação filosófica sobre a constituição da
subjetividade, articulando de forma singular o empirismo do filósofo David Hume com a
filosofia da imanência do autor francês Gilles Deleuze. Disso, nossotextoestáestruturadoem
três capítulos principais (além da introdução e da conclusão) que traçam um percurso
progressivoquevaidosátomosdasensaçãoàemergênciadosujeito,dafragilidadedaidentidade
à precariedade como potência ontológica, tudo dentro de um único e consistente plano de
imanência1.
Daí, acerca do fluxo da imanência (impressão, ideia, espaço e tempo), nossos primeiros
passos dissertativos buscaram estabelecer os fundamentos da experiência e as condições do
plano em que o fluxo da subjetividade ocorre. O capítulo em questão se desdobra em quatro
seçõesinterdependentesqueconstroemprogressivamenteaimagemdeumdomíniopsicológico
em constante corrimento e constituição. Na Seção 1.1 (Do mundo como interioridade: a
construção interna das ideias na parte I do livro I do Tratado da Natureza Humana)
mergulhamos nos alicerces do empirismo humeano,analisandoaParteIdoTratado.Nisso,no
trechoemevidência,notamosadistinçãocrucialentreimpressão(dadosvívidoseimediatosda
experiência) e ideia (cópias mais fracas das impressões na memória e imaginação) feita por
nossofilósofoempirista.Ora,emtalconsideraçãoressaltadapornós,buscamosmostrarcomoo
mundo, enquanto interioridade, é construído a partir do fluxo de percepções organizado pelos
princípiosdeassociação(semelhança,contiguidadeecausalidade).Desdeagora,podemosdizer
quenossaprimeiraseçãonospossibilitouobteracompreensãodosátomosdaexperiênciaedas
leis que governam suas conexões iniciais.
Na Seção 1.2 (A imanência como plano de constituição: a subjetividade advinda de um
campopré-individualoupré-reflexivosegundoopensamentodeleuziano),buscamossubmetera
1
Semquenosaprofundemosmuitonestanotafrugal,podemosdizerqueoplanodeimanênciaéumdosprincipais
v eios da filosofia de Deleuze (filosofia esta que, não esqueçamos, foi desenvolvidaemintensacolaboraçãocom
Félix Guattari). Em seu cerne, o plano de imanência é a afirmação de uma realidade insigne, contínua e
auto-organizada, que não necessita de nenhum princípio externo ou transcendente (queestejaforadaimanência)
para existir, funcionar ou ser compreendida, ou seja, o plano de imanênciaéoopostodequalquerdualismoque
postule uma separação entre o mundo e uma instância superior que, enquanto o mais ideado ou simbólico no
pensamento (como a noção de Deus, um sujeito transcendental, um mundo apenas de formas ou mesmooutras
coisasquepossamsertidascomoconcepçõesperfeitasdopensamento),aeleestárelacionadadealgumamaneira.
Entretanto, para que não fiquemos detidos apenas em nossas palavras, Deleuze diz o seguinte: “O plano de
imanêncianãoéumconceitopensadonempensável,masaimagemdopensamento,aimagemqueelesedádoque
significa pensar, fazer uso do pensamento, seorientarnopensamento…”(DELEUZE;GUATTARI,2010,p.47);
nessesentido,oplanodeimanência(opensamento-Natureza,ditopeloduofrancês)éaimagemdopensamento,ou
mesmooqueelepensa,oqueelenãopensa,oqueelenãopodepensar.Daí,paraDeleuzeeGuattari,oplanoéo
que o pensamento pressupõe, o que ele não pode não pressupor, istoé,eleéosolosobreoqualosconceitosse
movem, mas que, apesar disso, não é ele mesmo um conceito.
9
construçãohumeanaaumasuaveeindispensáveltorçãofilosóficaatravésdaleituradeDeleuze;
ora, no trecho em foco, a noção de interioridade foi deslocada para a noção de plano de
imanência, um campo pré-individual em que a questão urgente tornou-se para nós a seguinte:
Como o espírito, esse campo de impressões e ideias, devém um sujeito2? A partir desse
questionamento, a subjetividade nos pareceu deixar de ser um marco inicial para ser
compreendidacomoumefeito,umresultadoqueemergedoplano.Disso,ofeixedepercepções
humeano se fez algo ressignificado para nós, ou seja, ele não foi senão ressignificado (pelas
concepções deleuzianas) como um campo vibrante de intensidades pré-individuais, trazendo à
tona odevir-sujeitocomo processo imanente.
Na Seção 1.3 (As condições da experiência paraHume:tempoeespaçocomomodosda
imaginação na parte II do livro I do Tratado), voltamos a Hume e investigamos as próprias
condições que estruturam o campo de experiência para ele. Ao retornarmos ao empirista
moderno,analisamosanaturezadoespaçoedotempo,quelongedeseremrecipientesabsolutos
(ouformasapriori,comooquisKant–postumamenteàiniciativadofilósofoescocês),nósos
pensamoscomomodosdaimaginação:produtosimanentesgeradospelamaneiracomoamente
organizaasucessãoeajustaposiçãodaspercepções.Emnossaanálise,procuramoscompreender
a própria tecitura do plano em que o fluxo ocorre.
JáaSeção1.4(Oultrapassamentododadoenquantogênesesemsujeito:atranscendência
e os processos imanentes das afecçõesedosprincípiosnaimaginação)culminounaanálisedo
processo preponderadamente dinâmico de subjetivação: o ultrapassamento do dado. Nela, os
elementos (impressão/ideia) e as condições (espaço/tempo) estabelecidos nas seçõesanteriores
foram explorados – principalmente a partir da ação dos princípios e das afecções sobre a
imaginação – como o que faz ocorrer a gênese sem sujeito. Nisso, também pensamos
acentuadamentesobreoatodecrer,inferirouinventarnãoenquantoobradeumeupreexistente,
mascomooprópriomovimentoimanentequeconstituiosujeitoenquantoumefeitoparadoxal,
isto é, uma transcendência que se dá inteiramente dentro da imanência.
2
Quanto a esta questão, formulada por Deleuze em sua singular leitura de Hume,demaneirapontual,podemos
a firmarqueelaconstituiaraizdoproblemaqueperpassatodaaobraEmpirismoeSubjetividadeerepresentauma
inversão radical em relação à tradição filosófica moderna. EnquantoDescartespartedocogitocomofundamento
indubitável, e Kant estabelece osujeitotranscendentalcomocondiçãodepossibilidadedaexperiência,Hume–e
Deleuzecomele–recusaqualquerprimaziadosujeito.Opontodepartidanãoéumeuquepensa,masumfluxo
impessoaldepercepções:“Oespíritonãoénatureza,nãotemnatureza.Eleéidênticoàideianoespírito.Aideiaéo
dadotalcomoéeledado,éaexperiência.Oespíritoédado”(DELEUZE,2012,p.5).Oespírito,nestaacepção,é
pura imanência, uma “coleção de ideias, [mas ainda] nem mesmo um sistema” (DELEUZE, 2001, p. 5), sem
unidade prévia ou centroorganizador.Ora,paraDeleuze,nãosesabenemmesmoolugarondeasrepresentações
ocorrem; isso faz do espírito o próprio fluxo de percepções, não um continente que as conteria.
10
Por fim, é razoável mencionarmos que, através do que veremos com mais detalhes, o
percursocompletodoprimeirocapítuloapresentadonosmostrouquedosátomosdasensaçãoà
emergência da subjetividade não há polos opostos, mas momentos de um único eininterrupto
fluxo da imanência.
Agora, em relação ao nosso segundo capítulo, que diz respeito ao advento da natureza
humana(exterioridadeesubjetividadeconsistente–quetratamoscomosemelhantesemmuitos
aspectos),cabedeantemãoaseguinteponderação:Seocapítuloanteriorvisouponderarsobreo
fluxo da pura imanência, o segundo momento de nosso trabalho buscou investigar como a
subjetividadeadquireconsistênciaatravésdarelaçãofundamentalcomaexterioridade.Portanto,
a questão centraldenossointentofoieaindaoéoquesesegue:Seasubjetividadeemergedo
fluxo,comoelaseestabilizaesetornacapazdecrer,agireserelacionarcomummundoquea
superabunda e a ultrapassa3?
Poisbem,aSeção2.1(Alógicadaexperiênciaeoespíritoquecrê:ossentidos,amemória
e a função da repetição na parte III do livroIdoTratado),aoapresentarmaisalgunsaspectos
pertinentes do pensamento humeano, explora desenvoltamente a lógica da experiência e o
espíritoquecrê.Nisso,expusemosqueHumedeslocousuaatençãodasverdadesdemonstrativas
(lógico-matemáticas)paraaprobabilidadeeacrençafundadasnohábito.Naseçãoemquestão,
Hume nos mostra que a causalidade, longedeserumaconexãonecessáriapercebidacomotal,
seria na verdade uma expectativa gerada pela repetição e pela memória. Ora, ao nosso ver, a
crença é definida por ele como uma vivacidade peculiar da ideia, reforçada pela experiência
habitual,emqueosujeitoemergecomofundamentalmenteumespíritoquecrê,constituídopela
repetição e pelo costume.
Na seção 2.2 (Imaginário e ficção do eu: a subjetividade atravessada por virtualidadese
fabulações) operamos uma leitura deleuziana acerca do espírito que crê (que, para Deleuze,
expõe-nos o imaginário eaficçãodoeu).Disso,tiramosque:Seacrençanomundoexterioré
3
Aquestãodecomoasubjetividade,umavezemergidadofluxocaóticodepercepções,alcançaumaestabilidade
q ue lhe permite crer, agir e se relacionar com o mundo, é crucial para a compreensão do projeto filosófico de
DeleuzenãoapenasemEmpirismoeSubjetividade.Ora,seopontodepartidaéumdelírioouacaso(DELEUZE,
2001, p. 6), a emergência de um sujeito funcional não pode ser um milagre. A solução deleuziana, extraída de
Hume,resideemumasériedemaquinismosque,agindosobreoespíritoemestadopassivo,ofixam,naturalizame
o organizam, transformando a coleção de átomos em um sistema. Tal estabilização ocorre em três níveis
interligados:odacrença(atravésdohábito),odaação(atravésdaspaixõesedasimpatia)eodarelação(atravésdo
artifícioedainstituição).Demaneiraresumida,aomenosporagora,podemosdizerqueasubjetividadeseestabiliza
nãoporumaforçainterior,masporumasériedecapturasefixaçõesimpostaspeloFora:ohábitocapturaofluxode
ideiasparacriaracrença;asimpatiacapturaaspaixõesparacriarasociedade;eainstituiçãocapturaosinteresses
para criar apolítica.Osujeitoéoresultadoprecárioesempreinacabadodessastrêssíntesespassivas,umaficção
funcionalqueemergenaintersecçãoentreanatureza(osprincípiosdeassociaçãoepaixão)eoartifício(asregrasda
cultura).
11
produto do hábito, a crença no eu interior é igualmente uma ficção útil provinda de alguma
camada de nossa interioridade. Ora, na seção, conforme o pensamento denossoautorfrancês,
pusemos ainda que a subjetividade não é senão exposta como algo que é atravessado por
virtualidades efabulaçõesqueindicamumefeitoprovisório,enãoumasubstânciapermanente.
Nisso, seguindo Deleuze bem de perto, buscamos falaradequadamentequeomesmopoderda
imaginaçãoquegeraacrençatambémfabulaoeu(ouumoumaiseus)comoficçãonecessária.
Seguindo, na seção 2.3 (A continuidade da experiência na parte IV do livro I do Tratado),
buscamos aprofundar nosso exame acerca da continuidade da experiência; daí Hume
demonstrou-nos que tanto a crença na existência contínua dos objetos quanto a identidade
pessoalsãoconstruçõesdaimaginaçãofundadasnocostume,ouseja,paranossoautorempirista,
o eu não passaria de um feixe de percepções sem centro unificador, e a continuidade do que
somos internamente é um efeito psicológico,nãoumarealidadedecunhometafísico.Assim,o
ceticismo mitigado de Hume nos apontou o reconhecimento de que as ficções quecompomos
são funcionais e indispensáveis, ainda que injustificáveis.
Jánaseção2.4(Aconstruçãodomundovivido:apercepçãoeaimaginaçãocomobasedo
situado subjetivante), tiramos a conclusão denossasponderaçõesdocapítulo,emquetratamos
da construção do mundo vivido, mostrando que a percepção e a imaginação são a arrimo do
situadosubjetivante.Ora,anoçãodesubjetividade,nessesentido,foivistacomoemergindonão
de uma introspecção,masdeumarelaçãoativacomoFora(istoé,ocampodeforçasexternas
queaconstitui).Paranós,emrelaçãoàúltimaseçãodosegundocapítulo,podemosafirmarcom
segurança menos frágil do que pode aparentar que o sujeito e o mundo se constituem
mutuamente em um processo dinâmico deatualizaçãodevirtualidades,emqueasubjetividade
não é senão situada, corporificada.
Por isso, em elementos resultantes do capítulo mencionado, chegamos a elementos
considerativos que nos levaram a pensar que o advento da naturezahumanaéoprocessopelo
qualofluxodaimanênciasedobrasobresimesmo,criando,pormeiodeatravessamentos,uma
subjetividade que, ainda que minimamente consistente, propicia-nos um mundo habitável.
Doravante, sobre o nosso terceiro grande movimento do trabalho (terceiro capítulo), em
que pensamos um tratamento que pudesse nos levar da fragilidade à potência do vivido (da
identidade pessoal – em sentido engessado – à subjetividade larvar), buscamos operar uma
transvaloração ousada, qual seja, da fragilidade da identidade como problema para a
precariedade (a subjetividade em seu sentido embrionário) enquanto potência ontológica. Pois
bem,estenossocapítulofoipensadonosentidodacríticahumeanamaisradicalmisturadacomo
12
conceitodeleuzianodesubjetividadelarvar.Nele,emmeioaocapítulofinalizante,compomosa
seção 3.1 (A fragilidade desinaparteIVdolivroIdoTratado:seçãoDaidentidadepessoal),
emquetratamoscommaisdestaquedanoçãodeidentidadepessoalnaParteIVdoTratado.Em
nossa ponderação, tratamos o autor moderno como aquele que fez uma aplicação rigorosa do
princípio empirista para desmantelar a noção de um eu substancial, colocando-o como uma
coleçãodediferentespercepçõesemperpétuofluxo.Estetrechodenossocapítulobuscouexpor
com densidade que, em Hume, a identidade é exposta como uma ficção produzida pela
imaginação: uma construção frágil que busca dar coesão a um fluxo que, em si, não a possui.
Já na seção 3.2 (Subjetividade larvar: a precariedade como condição ontológica para os
processos de subjetivação), buscamos apresentar a subjetividade larvar como condição
ontológica impreterível. Nisso, onde a filosofia clássica via um impasse cético, Deleuze
enxergou o começo para/de uma nova gênese; ora, para nosso filósofo, a ausência de um eu
enquanto algo fundador passou de um problema epistemológico para tornar-se uma afirmação
ontológica: dentro disso, a subjetividade foi pensado por ele não como algo a ser encontrado,
mas algo que é inevitavelmente produzido. Em Deleuze, o feixe de percepções fora
ressignificadocomoumcampovibrantedeintensidadespré-individuais,umestadoembrionário
em que a subjetividade pôde ser tida como algo em constante devir. Por conseguinte, ainda
apontamos que a precariedade – inferida por nós (das palavras de Deleuze) como oriunda do
estadoincipiente-intensivodasubjetividade–deixoudesercompreendidacomoumafalhapara
não ser senão afirmada como a própria potência do devir (a condição a partir da qual os
processos de subjetivação setornampossíveis).Assim,paranossoautorfrancês,nãofoidifícil
chegar à consideração axial de que o sujeito emerge como um efeito, uma dobradoFora,um
hóspede precário no imo do fluxo da imanência.
No mais, cabe-nos dizer que o intento de nosso trabalho, como se faz notório já de
antemão,foirealizarumaarticulaçãomaistrespassanteentreHumeeDeleuze(queressoasseum
tantodissímildaformamaiscontundentetrabalhadapornossofilósofofrancêsemEmpirismoe
subjetividade: Ensaio sobre a natureza humana segundo Hume, de 1953), mostrando que o
empirismo radical do primeiro preparou o terreno conceitual para a filosofia da imanência do
segundo; diante disso, a passagem de Hume a Deleuze é, em última análise, a passagem da
desconstrução de uma ilusão para a cartografia de um processo decriaçãocontínua,emqueo
sujeito erige não como mestre em sua própria casa, mas como um hóspede precário,
constantemente se fazendo e se desfazendo no fluxo da imanência.
13
2. O FLUXO DA IMANÊNCIA (IMPRESSÃO, IDEIA, ESPAÇO E TEMPO)
A investigação sobre a natureza da subjetividade, quando levada às suas últimas
consequências, exige um mergulho profundo nos elementosmaisfundamentaisdaexperiência.
Em nosso primeiro capítulo, propomo-nos a realizar precisamente esse percurso, mapeando o
movimento contínuo que vai da percepção mais elementar à complexa emergência do sujeito,
tudoissodentrodeumúnicoeconsistenteplanodeimanência,semrecursoaqualquerinstância
transcendentedescoladadetalplano.Paratanto,nossocaminhoargumentativosedesdobrouem
quatro momentosinterdependentes,queconstroemprogressivamenteaimagemdeumuniverso
psicológico e filosófico em constante fluxo constitutivo.
Iniciamos nossa jornada (seção 1.1. Do mundo como interioridade: a construção interna
dasideiasnaparteIdolivroIdoTratadodaNaturezaHumana)comosalicercesdoempirismo
exposto por Hume, estabelecendo a distinção crucial entre impressão e ideia. Nele, buscamos
analisar como o mundo, enquanto uma interioridade, é construído a partir do fluxo de
percepções, que por sua vez éorganizadopelosprincípiosdeassociação.Assim,esseprimeiro
trecho de nossotrabalhofoifeitonointuitodenosfornecerumacompreensãosobreosátomos
da experiência e as leis que governam suas conexões iniciais. Em seguida (na seção 1.2. A
imanência como planodeconstituição:asubjetividadeadvindadeumcampopré-individualou
pré-reflexivo segundo opensamentodeleuziano),asalgumasconcepçõesfocaisdopensamento
humeano são submetidas a torções filosóficas através da leitura de Deleuze. Ora, em nosso
segundo trecho, a noção de interioridade é radicalizada e deslocada para a de um plano de
imanência,umcampopré-individualemqueaquestãomedularsetorna:Comooespíritodevém
umsujeito?Disso,asubjetividadedeixadeserumpontodepartidaparasercompreendidacomo
um efeito, um resultado que erige desse plano.
Uma vez estabelecido o problema do devir-sujeito, tornou-se imperativo para nós
investigar as próprias condições que estruturam esse campo de experiência.Assim,naterceira
seção(1.3.AscondiçõesdaexperiênciaparaHume:tempoeespaçocomomodosdaimaginação
na parte II do livro I do Tratado), retornamos aHumeparaanalisaranaturezadoespaçoedo
tempo. Longe de serem recipientes absolutos ou formas a priori, eles foram tidos pelo
pensamento deleuzo-humeano como modos da imaginação: produtos imanentes gerados pela
maneiracomoamenteorganizaasucessãoeajustaposiçãodaspercepções.Diantedisso,emtal
seção, buscamos compreender a própria tecitura do plano em que os fluxos imanentes ocorrem.
Porconseguinte,naúltimaseçãodesteprimeirocapítulo(1.4.Oultrapassamentododado
enquanto gênese sem sujeito: a transcendência e os processos imanentes das afecções e dos
14
princípios na imaginação), com os elementos (impressão/ideia) e as condições (espaço/tempo)
devidamente estabelecidos, nosso trecho final culmina na análise do processo dinâmico de
subjetivação,ouseja,oultrapassamentododado.Nela,temosaexploraçãodecomo,apartirda
ação dos princípios e das afecções sobre a imaginação, ocorre uma gênese sem sujeito. Ora,
buscamosdemonstrarqueoatodecrer,inferirouinventarnãoéobradeumeupreexistente,mas
o próprio movimento imanente que constitui o sujeito como um efeito paradoxal, uma
transcendência que se dá inteiramente dentro do fluxo da experiência (ou melhor, da imanência).
Assim, o percurso completo desta primeira parte nos leva do átomo da sensação à
emergênciadasubjetividade,revelando-osnãocomopolosopostos,mascomomomentosdeum
incessante fluxo da imanência.
2.1.Domundocomointerioridade:aconstruçãointernadasideiasnaparteIdolivroIdo
Tratado da Natureza Humana
Inicialmente,podemosdizerque,quantoaosprimeirostrechosdaParteI–Dasideias,sua
origem, composição, conexão, abstração etc., do TratadodaNaturezaHumana,Humebuscou
exprimir claramente as bases de sua teoria das ideias, isto é, ele desenvolveu uma análise
detalhadasobreaorigem,anatureza,aestruturaeofuncionamentodelas.Nisso,comoprincipal
objetivo presente ao início da obra, nosso autor procurou saber de que maneira as ideias
poderiam vir a se formar na mente humana, como elas se relacionam com as impressões
sensíveis e quais os princípios que governam suas conexões possíveis. Ora, Hume iniciousua
SeçãoIexaminandoaorigemdenossasideias,eestabelecendoumadistinçãofundamentalentre
impressões (os dados vívidoseimediatosdaexperiência)easideias(ascópiasmaisfracasdas
impressões na memória e na imaginação4) . A partir de tal distinção, ele propôs uma melhor
divisãodotema–aserminuciosamentetratadoaseguir,quandocomentarmossobreaSeçãoII
–,paraque,organizadamente,pudéssemosperceberosdiferentestiposdepercepçõesmentaise
as delimitações do campo de investigação filosófica destacada na seção referida.
4
Sem que, neste momento de nosso trabalho, detalhemos com profundidade o que podemos falar sobre a
imaginação como princípio construtivo de subjetividade, podemos salientar ao menos que, em Hume, o papel
estruturante da imaginação na formação da experiência subjetivaedasexpectativasdomundosãoalgoapontado
mesmo porKempSmith,quereforçataisponderaçõescomasseguintesconsiderações:“Aimaginaçãoéoárbitro
supremo de todas as relações. Ela tem a liberdade, embora não o poder,defingirqualquernovarelaçãoquelhe
aprouver.” (SMITH, 2005, p.24,traduçãonossa).Eainda:“Aimaginaçãoéumafaculdadedeagrupar,unificare
projetar.” (SMITH, 2005, p. 87, tradução nossa); ou seja, para nosso comentador, a imaginação age como
organizadora plástica da realidade, coisa que podemos considerar como algo que antecipou aquilo que Deleuze
chamariadesíntesespassivas(paranossofilósofodaimanência,taissínteses,grossomodo,podemsertidascomo
um conceito fundamental em sua filosofia, especialmente na Diferença eRepetição,esedistinguemdassínteses
ativasdeKant,istoé,enquantoparaKantassíntesessãooperaçõesdarazãoedoconhecimentorealizadasporum
sujeito ativo, para Deleuze as sínteses passivas constituem o inconsciente e não são feitas pelo espírito, masno
espírito, precedendo a todo poder reflexivo que tenhamos.
15
Em continuidade, na Seção III, Hume explorou as diferenças entre a memória e a
imaginação, destacando que a primeira pode vir a preservar a ordem e a vivacidade das
impressões passadas, enquanto a segunda opera com maior liberdade na mente,combinandoe
modificando ideias. Disso, podemos considerar que é justamente a capacidade de combinação
descrita no trecho em questão que leva Hume a investigar, na Seção IV, os princípios de
associação entre ideias (semelhança,contiguidadeecausalidade)–quesãoosmecanismosque
visamexprimirporquecertospensamentosseguemunsaosoutrosdemaneiraregularemnossa
interioridade.JánaSeçãoV,nossoautordilatousuaanáliseaodiscutirasrelaçõesquepodemser
percebidas entre ideias (as relações são: identidade, oposição, proporção e causalidade – tais
relações foram algo fundamental para o projeto humeano de uma ciência empírica da mente).
Nessesentido,opensamentodeHumeseguiucomasreflexõesexpostasnaSeçãoVI,esta
se tratando de como as ideias complexas de modo e substância expressam muitas noções
filosóficas,comoadecausalidade,almaoumesmomatéria,que,paraHume,seriamconstruções
mentais que carecem de fundamento empírico direto. NaSeçãoVII,ofilósofoescocêsbuscou
confrontar a noção de ideias abstratas, questionando a existência de conceitos universais e
defendendo que todo pensamentoabstratoseancoraemimagensparticularesmoldadasporseu
usonalinguagem.Ademais,asseteseçõespresentesàprimeirapartedoLivroIdoTratado,em
conjunto, visam nos oferecer o alicerce da epistemologia empirista de Hume, posto que
estabelecem uma filosofia da mente que procurou rejeitar as noções inatas ou metafísicas e
substituiameraespeculaçãoporumainvestigaçãopsicológicarigorosasobreosmecanismosda
cognição humana. A partir das considerações de Hume – nesta I parte sublinhada pelas sete
seções (debase)mencionadas–,conseguimosnotarapontamentosimportantesqueculminaram
em discussões futuras sobre o estabelecimento adequado dos limites do conhecimento e para
críticas posteriores à causalidade, à identidade pessoal e às pretensões da metafísica racionalista.
À luz do que foi exposto nos parágrafos anteriores e também no topo a serapresentado
neste,aodiscorrermoscommaisdetalhessobrecadaumdostrechosdaprimeirapartedoLivroI
doTratado5,iremosagoralevaremconsideraçãomaisafundoaSeçãoI–Daorigemdenossas
ideias. Em tal seção, Hume deu início a seus argumentos com a afirmação de que todo o
conteúdodamentehumanapodeserreduzidoapercepções;emais:eletambémafirmouqueelas
podem ser divididas em duas categorias fundamentais, quais sejam, impressões, que
correspondem às percepções mais vívidas, oriundas da experiênciaimediata(istoé,sensações,
5
Para que, mais à frente, possamos falar de maneira mais profunda sobre as consequências subjetivas do
p ensamentoempiristadeHume,precisamosexporaomenosdeformapanorâmicaasparteseseçõesdetodooLivro
I de seuTratado.
16
emoções, sentimentos); e as ideias, que não seriam senão percepções menos intensas, que
podemos compreender como cópias ou reflexosdasimpressõesnamemóriaounaimaginação.
Sendo assim, conforme Hume,
[ ...]vemosquequalquerimpressão,damenteoudocorpo,éconstantemente
seguida por uma ideia que a ela se assemelha, e daqualdifereapenasnos
graus de força e vividez. A conjunção constante de nossas percepções
semelhanteséumaprovaconvincentedequeumassãoascausasdasoutras;e
essa anterioridade das impressões é uma prova equivalente de que nossas
impressões são as causas de nossasideias,enãonossasideiasascausasde
nossas impressões. (HUME, 2009, p. 29).
A partir de tal distinção, Humeprocurouestabelecerseuprimeiroprincípiofundamental,
isto é, todas as ideias derivamoriginalmentedeimpressões;ouseja,segundoseupensamento,
não há ideia que não se originedealgumaexperiênciasensível/emocional.Eparasustentartal
concepção,ofilósofoescocêsapeloutantoàintrospecção(exameinternodoindivíduo)quantoa
exemplospropriamenteempíricos–comoocasodeumapessoaquenascecegaousurdae,por
isso, não pode ter ideias correspondentes às cores ou sons que alguémnãosurdooucegotem
acesso. Nisso, no sentido de confirmar seu princípio, Hume diz:
[ ...]consideroumoutrofenômenobastanteclaroeconvincente:todavezque
algum acidente obstrui a operação das faculdades que geram determinadas
impressões,comonocasodeumcegoousurdodenascença,perdem-senão
apenasasimpressões,mastambémsuasideiascorrespondentes,demodoque
jamaisaparecenamentenenhumtraçodeumasoudeoutras.Issoéverdade,
não apenas quando há uma total destruição dos órgãos da sensação, mas
igualmentequandoestesnuncachegaramaseracionadosparaproduziruma
impressão particular. Não somos capazes de formar uma ideia correta do
sabor de um abacaxi sem tê-lo realmente provado. (HUME, 2009, p. 29).
Hume expôs tal exemplo para reforçar que sem uma impressão experimentada
anteriormente,nãosepodeterumaideiacorrespondente.Todavia,eletambémreconheceuuma
possívelexceçãoàregramencionada,comoocasodealguémquenuncaviuumtomespecífico
de azul, mas ainda sim conseguiria imaginá-lo ao ver outros tons próximos em escala: tal
exemplo foi usado porelenãopararefutarsuateoria,masparamostrarquemesmoumateoria
forte como a que exprimiu pode admitir exceções mínimas, sem invalidar totalmente a regra
geral na qual conforma-se; quanto a isso, citemo-lo:
uponhamos,assim,umapessoaquetenhagozadodesuavisãodurantetrinta
S
anos e tenha-se familiarizado perfeitamente com todos os tipos de cores,
excetocomumaúnicatonalidadedeazul,porexemplo,aqualelanuncateve
aocasiãodeencontrar.Imaginemosquetodasasdiferentestonalidadesdessa
cor, excetuando-se apenas aquela, sejam dispostas à sua frente, em ordem
gradualmentedescendente,damaisescuraàmaisclara.Éevidentequeessa
pessoairáperceberumvazionolugarondefaltaatonalidade,eserásensível
à existência de uma maior distância entreascorescontíguasàqueleespaço
que entre quaisquer outras. Pergunto, então, se lhe é possível suprir tal
deficiênciapormeiodesuaprópriaimaginação,produzindoparasimesmaa
ideia daquelatonalidadeparticular,muitoemboraestajamaislhetenhasido
17
transmitida por seus sentidos. Acredito que poucosdiscordarãodequeisso
sejapossível.Esseexemplopodeservircomoprovadequeasideiassimples
nem sempre derivam das impressões correspondentes–emboraocasoseja
tão particular e singular que quase não é digno de nossa atenção, não
merecendo que, apenas por sua causa, alteremos nossa máxima geral.
(HUME, 2009, p. 30).
Assim, cumpre mencionar que nos últimos momentos da seção que estamos tratando de
maneira resumida, nosso autor empirista enfatizou a importância de sua distinção adequada –
entre impressõeseideias–paraacríticafilosóficaaseseguir,vistoquenosésugeridoporele
que se alguém vier a nos apresentar umaideiacomplexa,oquedevemosfazerquantoaissoé
investigardequeimpressõeseladeriva;casonãosejapossívelencontrarnenhuma,talideiadeve
ser descartada como fictícia ou sem sentido, pois,paraHume,precisamostercritérioempírico
acerca do significado de uma ideia, ou seja, segundo seu pensamento, uma ideia só é
significativasepuderserrastreadaatéumaimpressãosensívelcorrespondente.Porisso,quanto
ao critério empírico mencionado nos parágrafos anteriores (sobre o princípio estabelecido por
Hume), ele afirma com veemência que
sse é, portanto, oprimeiroprincípioqueestabeleçonaciênciadanatureza
E
humana;enãoháquedesprezá-loporsuaaparênciasimples.Poiscabenotar
que a presente questão, a respeito da anterioridade denossaimpressõesou
ideias, é a mesma que produziu tanto barulho sob uma outra formulação,
quandosediscutiusehaveriaideiasinatas,ousetodasasideiasderivamda
sensaçãoedareflexão.Podemosobservarque,afimdeprovarqueasideias
deextensãoedecornãosãoinatas,osfilósofosnadamaisfazemquemostrar
que elas são transmitidas por nossos sentidos. Paraprovarqueasideiasde
paixão e desejo não são inatas, eles observam que experimentamos
previamente em nós mesmos essas emoções. Ora, se examinarmos
cuidadosamenteessesargumentos,veremosqueelesnadaprovam,senãoque
as ideias são precedidas por outras percepções mais vívidas, das quais
derivam e às quais elas representam. Espero que essa exposição clara do
problema possa pôr fim a todas as disputas a seu respeito, tornando esse
princípio mais útil para nossos raciocínios do que ele parece ter sido até
agora. (HUME, 2009, p. 31).
Ora, tal perspectiva apresentada já no início do Tratado fundamenta todo o projeto
filosófico a ser aludido nas partes posteriores que cabem a nossa análise do pensamento
humeano;eistomaispropriamentequerdizerqueHumeinvestigouanaturezahumananãopor
raciocínios meramente metafísicos, mas por uma ciência da experiência, que parte da
observaçãodasoperaçõesdamente–coisadasmaisvaliosasparanós.Destemodo,nossoautor
escocêsconsiderouque,alémdaciênciadohomemser“[...]oúnicofundamentosólidoparaas
outras ciências”, “[...] também oúnicofundamentosólidoquepodemosdaraeladeveestarna
experiência e na observação” (HUME, 2009, p. 22).
Doravante, ao darmos continuidade aoconteúdodaseçãoinicialdoTratado(SeçãoI:no
qual o principal objetivo não é senão organizar metodologicamente a investigação sobre as
18
ideias), após estabelecer que todas as ideias derivam das impressões e que essas são cópias
menos vívidas das experiências sensíveis, Hume propôs uma divisão sistemática do campode
estudo da mente na Seção II – Divisão do Tema. Ora, nosso filósofo empirista começa sua
segundaseçãoobservandoque,umavezadmitidaadiferençaentreimpressõeseideias,torna-se
necessário entender como as ideias se organizam entre si. Ele exprimiu que, aoanalisarmoso
fluxodopensamento,percebemosque,aomenosminimamente,asideiasnãosurgemdemaneira
desordenada ou aleatória, mas seguem certos padrões regulares de conexão. Ou seja,
omo a imaginação pode separar todas as ideias simples, e uni-las
C
novamentedaformaquebemlheaprouver,nadaseriamaisinexplicávelque
as operações dessa faculdade, seelanãofosseguiadaporalgunsprincípios
universais,queatornam,emcertamedida,uniformeemtodososmomentose
lugares.Fossemasideiasinteiramentesoltasedesconexas,apenasoacasoas
juntaria; e seria impossível que as mesmas ideias simples se reunissem de
maneira regular em ideais complexas (como normalmente fazem) se não
houvessealgumlaçodeuniãoentreelas,algumaqualidadeassociativa,pela
qual uma ideia naturalmente introduz outra. (HUME, 2009, p. 34).
E é com base nessa constatação que ele introduz um princípio fundamental,qualseja,a
mente, ao formar ideias,operacombaseemcertasrelaçõesqueligamumaideiaàoutra,etais
conexões regulares são chamadas por ele de princípios de associação6 – para Hume(2009,p.
34), os princípios de associação devem ser vistos “apenas como uma força suave, que
comumenteprevalece,equeéacausapelaqual,entreoutrascoisas,aslínguassecorrespondem
demodotãoestreitoumasàsoutras”.Emais,elenosdizque,maisespecificamente,oprincípio
fundamental e mais geral de união
[ ...]entreasideiasnãodeveserconsideradoumaconexãoinseparável–pois
isso já foi excluído daimaginação–;tampoucodevemosconcluirque,sem
ele,amentenãopoderiajuntarduasideias–poisnadaémaislivrequeessa
faculdade. Devemos vê-lo apenas como uma força suave, que comumente
prevalece, e que é a causa pela qual, entre outras coisas, as línguas se
correspondemdemodotãoestreitoumasàsoutras:poisanaturezadealguma
formaapontaacadaumdenósasideiassimplesmaisapropriadasparaserem
unidas em uma ideia complexa. (HUME, 2009, p. 34-35).
Sendo assim, para ele, a tarefa da filosofia é descobrir quais são essas leis naturais que
regulam a associação de ideias. Ora, talprojetopropostopornossofilósofosebaseouemuma
analogiacomasciênciasnaturaisdaépoca.Eleobservouque,assimcomoNewtondemonstrou
que os corpos físicos obedecem a leis de movimento e gravitação (após a publicação da obra
6
Sobreaassociaçãodeideiascomoparteestruturantedamente,cabe-nosnotabilizar(jánessemomentoincipiente
d e nosso trabalho) que a mente, para Hume, não tem uma estrutura lógica anterior a experiência e se organiza
segundo princípios naturais de associação (os ditos: semelhança, contiguidade e causalidade). Pois bem, Kemp
Smithosexpressadaseguintemaneira:“AteoriadaassociaçãodeHumeéoseusubstitutoparaaconexãoracional.
Éoprincípiodavidamental.”(SMITH,2005,p.64,traduçãonossa).E:“Osprincípiosassociativossãoocimento
[cola]douniverso,namedidaemquenoséconhecido.”(SMITH,2005,p.65,traduçãonossa).Taisafirmaçõesvão
no sentido de nosso discurso e sustentam diretamente a articulação entre associação esubjetividadecomoefeito
processual.
19
Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, de 1687), nossas ideias também seguiriam
padrõesregulares.Nisso,Humenãovisousenãodescobrirleisinternasdopensamentoatravésda
observação e discernimento cuidadosos de como nossa mente funciona em estadospadrõesde
apreensão;conseguindo,comisso,descreverhabilmenteosprodutoscriadospelamente(através
daempiriaquenelaviessearessoarpormeiodaobservaçãodiligentedosprocessospelosquais
ela possa vir a passar).
Nesse sentido, Hume buscou demonstrar a existência de três princípios fundamentais de
associação entre ideias7. E quais são especificamente esses princípios? Ora, o primeiro é o
princípiodesemelhança,que,segundonossoautor,éumaideiaquetendeaevocaroutraquese
lheassemelhaasi8; odecontiguidadenotempoounoespaço,queserefereaideiaspróximasna
experiênciaequeaparecemjuntasnopensamento9;eadecausalidade,emque,paraHume,uma
ideia representaria uma causa que naturalmente evoca a ideia de seu efeito (e vice-versa)10.À
vistadisso,paranossoautor,essestrêsprincípiosseriamabasedacontinuidadedopensamento
humano,ouseja:elesexplicariamporqueconseguimosmanterumfluxocoerentedeideiasepor
que certos conceitos apareceriam adequadamente encadeados com regularidade. Pois bem, a
partirdetaisprincípiosfundamentais,Humeexpõequepoderíamosinvestigarcomclarezacomo
nossamentefuncionaemtodasassituaçõespassíveisdeverificação.Destarte,ofilósofofinaliza
a seção observando que essa divisão e método de investigação seriam essenciais para a
7
Quantoaisso,Humeestabeleceuque“Asqualidadesquedãoorigematalassociação,equelevamamente,dessa
aneira, de uma ideia a outra, são três, a saber: SEMELHANÇA, CONTIGUIDADE notempoounoespaço,e
m
CAUSA e EFEITO.” (HUME, 2009, p. 35).
8
“Creioquenãohaverámuitanecessidadedeprovarqueessasqualidadesproduzemumaassociaçãoentreideiase,
quando do aparecimento de uma ideia, naturalmente introduzem outra. Está claro que, no curso de nosso
pensamentoenaconstantecirculaçãodenossasideias,aimaginaçãopassafacilmentedeumaideiaaqualqueroutra
que seja semelhante a ela; tal qualidade, por si só, constitui um vínculo e uma associação suficientes para a
fantasia.” (HUME, 2009, p. 35).
9
“Étambémevidenteque,comoossentidos,aopassaremdeumobjetoaoutro,precisamfazê-lodemodoregular,
tomando-osemsuacontiguidadeunsemrelaçãoaosoutros,aimaginaçãoadquire,porumlongocostume,omesmo
método de pensamento, e percorre as partes do espaço e do tempo ao conceber seus objetos.” (HUME, 2009, p. 35).
10
“Quantoàconexãofeitapelarelaçãodecausaeefeito,teremosadianteocasiãodeexaminá-laafundoe,poresse
motivo, não insistiremosagorasobreela.Bastaobservarquenenhumarelaçãoproduzumaconexãomaisfortena
fantasia e faz com que uma ideia evoquemaisprontamenteoutraideiaquearelaçãodecausaeefeitoentreseus
objetos.” (HUME, 2009, p. 35).
20
construção de uma ciência da natureza humana11, tal como ele segue desenvolvendo passo a
passo ao longo das outras partes doTratado.
Comisso,emnossatratamento,tambémpodemospontuarqueHumeantecipousuacrítica
ao racionalismo; crítica esta que não foi senão uma recusa a ideia de que o pensamento é
governadoporprincípiosracionaisoulógicosinatos,propondoqueasconexõesentreideiassão
regidas por mecanismos psicológicos naturais, empíricos e observáveis.
Agora, ao considerarmos o lugardaSeçãoIII–Dasideiasdamemóriaedaimaginação
dentro da teoria geral das percepçõesdesenvolvidaporHume.Ora,apósestabelecerdistinções
fundamentaisentreimpressõeseideias(SeçãoI)eapresentarosprincípiosdeassociação(Seção
II) como algo incontornável para se pensar a produção de ideias, nosso filósofo empirista
dedicou-se a um exame mais minucioso de duas faculdades de nossa mente que operam
agudamente com ideias, quais sejam, a memória e a imaginação12.Nessesentido,elesepõea
iniciar a seção destacando a diferença de vivacidade com queestasduasfaculdadesatuam,ou
melhor, ele afirma com justeza que tanto a memória quanto a imaginação se valem
pormenorizadamentedeideias,eque,atravésdelas,ambassãocapazesdereproduzirpercepções
passadas.
No entanto, segundo nosso autor, a diferença entre os dois tipos de ideias que cada
faculdade pode gerar é marcada pelos graus de vivacidade13 que elas podem atingir em dado
momentoepelaformacomoasorganizamosemnossainterioridade.Emoutrostermos,podemos
dizer que, conforme o pensamento de Hume, a memória conserva as ideias com maior
vivacidade, mais próximas das impressões originais que outrora tivemos; já aimaginação,por
11
Nesse ponto, em relação à ciência da natureza humana como alternativa à metafísica e Hume como filósofo
n aturalista da mente, precisamos indicar que, ao nos propor a reconstruçãodafilosofiaapartirdohumano(uma
filosofiaexperimental,queassumeamentecomoconstituídaporrelaçõesempíricas),atémesmoparaKempSmith,
Humeéenfáticoemtalconsideração.SegundoSmith:“OobjetivodoTratadoéestabelecerumaciênciadohomem.
Oobjetivonãoédestruir,masreinterpretaracrençahumanaemtermosdesuaorigemnatural.”(SMITH,2005,p.
64, tradução nossa). Portanto, parece-nos que, para nosso filósofo empirista, a subjetividade não seriasenãoum
dadodanatureza,enuncaumaconstruçãotranscendente,ouseja,Humepropõeumaciênciaempíricadanatureza
humana capaz de explicar nossas crenças, paixões e modos de agir não por princípios transcendentes, mas por
observações da experiência. Dessa forma, mesmoagora,podemosponderarqueasubjetividadenãoénegadapor
Hume, mas realocada como efeitodeforçasnaturaisepsicológicas,abrindocaminhoparaaleituradeleuzianada
subjetivação enquanto criação diferencial e intensiva que faremos mais a seguir.
12
Aqui,destacamosqueHumeestabeleceadistinçãofundamentalentreasduasfaculdadesnaseguintepassagem,
vejamos: “Pela experiência vemos que, quando uma determinada impressão esteve presente na mente, ela ali
reaparece sob a forma de uma ideia, o que pode se dar de duas maneiras diferentes: ouelaretém,emsuanova
aparição,umgrauconsideráveldesuavividezoriginal,constituindo-seemumaespéciedeintermediárioentreuma
impressãoeumaideia;ouperdeinteiramenteaquelavividez,tornando-seumaperfeitaideia.Afaculdadepelaqual
repetimos nossas impressões da primeira maneira se chama MEMÓRIA, e a outra, IMAGINAÇÃO.” (HUME,
2009, p. 33).
13
Em relação à diferença de vivacidade entre a memória e a imaginação,Ibidem,p. 33.
21
suavez,lidacomideiasmenosvívidas,maisfracas14 ecomliberdadecriativaemsuaconcepção
e possíveis transformações. Assim, na memória, as ideias são passivamente recebidas; já na
imaginação, elas são ativamente combinadas e transformadas.
Porconseguinte,aoanalisaraordemeorigemdasideias,Humenosexplicaqueamemória
preserva a ordem original das impressões, mantendo uma conexão real com a experiência
vivida15.Poroutrolado,aimaginaçãopoderomperessaordem16,agrupandoideiasdemaneiras
novas: por semelhança, contiguidade ou causalidade – ou mesmo por convenções subjetivas
muito singulares, mas pouco comuns. Nisso, enquanto a memória élimitadaaoquerealmente
foi/épercebido,aimaginaçãopodecriarnovascombinaçõesdeideias–embora,comovimosem
nosso comentário acerca da Seção I, essas ideias ainda precisem ser derivadas de impressões
originais17.
Daí, dando continuidade direta ao que sugerimos no parágrafo anterior, ao tratarmos do
papeldacrençaedarealidadequelhessãoatribuídas,umpontofundamentalqueHumebuscou
introduzir em sua Seção III, foi o de que as ideias vindas da memória têm uma relação mais
direta com a crença que podemos ter da realidade, ou seja, confiamos na memória como
14
m relação a memória conservar ideias mais próximas das impressões originais,Ibidem.
E
ParaHume,amemóriapreservaaformaoriginal,ouseja,“éevidentequeamemóriapreservaaformaoriginal
sobaqualseusobjetosseapresentaram.Sempreque,aonosrecordarmosdealgo,nósnosafastamosdessaforma,
isso se deve a algum defeito ou imperfeição dessafaculdade.Umhistoriadorpode,talvez,buscandofacilitarsua
narrativa,relatarumeventoantesdeoutroquelheéefetivamenteanterior;mas,seforrigoroso,elefaránotaressa
desordem, recolocando assim a ideia na posição devida. O mesmo ocorre com nossas recordaçõesdoslugarese
pessoas que alguma vez conhecemos. A principal função da memórianãoépreservarasideiassimples,massua
ordem e posição.” (HUME, 2009, p. 33-34).
16
Para além da noção da memória preservar a ordem original das impressões, Hume estabelece uma segunda
distinção fundamental – que se dá entre a memória e a imaginação –, citemo-lo: “Há uma outra diferença, não
menosevidente,entreessesdoistiposdeideias.Emboranemasideiasdamemórianemasdaimaginação,nemas
ideiasvívidasnemasfracaspossamsurgirnamenteantesqueimpressõescorrespondentestenhamvindoabrir-lhes
o caminho, a imaginação não se restringe à mesma ordem e forma das impressões originais, ao passo que a
memóriaestádecertamaneiraamarradaquantoaesseaspecto,semnenhumpoderdevariação.”(HUME,2009,p.
33, grifo nosso). Com isso, ele ainda destaca a liberdade criativa da imaginação com a seguinte passagem: “A
mesma evidência nos acompanha em nosso segundo princípio, a liberdade que tem a imaginação detranspore
transformarsuasideias.Asfábulasqueencontramosnospoemaseromanceseliminamqualquerdúvidasobreisso.
A natureza é ali inteiramente embaralhada, e não se fala senão de cavalos alados, dragões de fogo e gigantes
monstruosos.Talliberdadedafantasianãocausaráestranheza,porém,seconsiderarmosquetodasasnossasideias
sãocopiadasdenossasimpressões,equenãoháduasimpressõesquesejamcompletamenteinseparáveis–issopara
não mencionarmos o fato de que se trata aqui de uma consequênciaevidentedadivisãodasideiasemsimplese
complexas. Sempre que a imaginação percebe uma diferença entre ideias, ela pode facilmente produzir uma
separação.”(HUME,2009,p.34,grifodoautoreoutrofeitopornós–oúltimo).Sendoassim,Hume(2009,p.
34) nos mostra que “todas as nossas ideias são copiadas denossasimpressões”,mesmoquandoaimaginaçãoas
combina livremente.
17
Comodito,aimaginaçãocrianovascombinaçõesentreideias,massemprederivadasdeimpressõesquelhesdão
algumsustento;paratanto,vejamosapassagemaseguir:“Talliberdadedafantasianãocausaráestranheza,porém,
seconsiderarmosquetodasasnossasideiassãocopiadasdenossasimpressões,equenãoháduasimpressõesque
sejamcompletamenteinseparáveis–issoparanãomencionarmosofatodequesetrataaquideumaconsequência
evidente da divisão das ideias em simples e complexas. Sempre que a imaginação percebe uma diferença entre
ideias, ela pode facilmente produzir uma separação.” (HUME, 2009, p. 34).
15
22
produtora de representações do que de fato ocorreu; ao passo queasideiasdaimaginaçãosão
reconhecidascomoficçõesoupossibilidades.Talcoisasedáporqueamemóriamantémvínculos
mais fortes de causalidade e continuidade com a experiência. Apesar disso, nosso filósofo
reconheceu que a imaginação pode nos levar a crenças falsas, especialmente quando os
princípios de associação operam de maneira tão vívida que uma ideia imaginada ganha força
similar àdeumalembrança.Nessesentido,sobreaimaginaçãocomoprincípioativodamente,
Hume concebe ainda que a imaginação tem um papel criativo edinâmiconasoperaçõespelas
quais passaoâmbitomentalhumano.Ouseja,épormeiodelaqueproduzimosgeneralizações,
abstrações, projeções futuras, e até mesmo as noções complexas de identidade, substância ou
causalidade – todas elas, segundo ele, não têm base direta em impressões únicas, mas são
construídas a partir da ação da imaginação sobre impressões variadas.
Partindoagoraàquartaseçãodenossaparteinicial(SeçãoIV–Daconexãoouassociação
de ideias), podemos dizer que, nela, Hume aprofundou sua análise (já iniciada na Seção II)
acerca dos princípios que regem a sucessão de nossas ideias, com especial desdobramento
argumentativo para a associação mental espontânea que lidera ofluxodenossospensamentos.
Assim, com base no que Hume pensa sobre a experiência na seção em questão, podemos ao
menos supor que ele fez uma adequada exposição sobre amentehumananãooperardeforma
inteiramente caótica, massimobedeceraleisnaturaisdeconexãoentrepercepçõesdistintasou
mesmo compreendidas como semelhantes.
Nisso, quanto à experiência da sucessão ordenada de ideias, Hume parte de uma
observação simples, qual seja, nossas ideias raramente aparecem isoladas na mente; isto quer
dizer que, em geral, uma ideia é capaz de evocar outra, de maneira quase involuntária ou
automática, e é a regularidade evocativa entre ideias que permite a coerência (por vezes até
extremamenteconectadas)entreamemória,aimaginaçãoeoqueculminanodiscurso18.Nesse
sentido,atítulodeexemplo,aopensarmosemumbanquete,rapidamenteevocamosimagensde
comidasdetodasorte,deumafestacomoqueseesperadetal,músicasquepossamviraagitar
o corpo ou acalmar a mente etc. Daí tal conexão constante entreasideiasmencionadasnãoé
propriamente regidapelarazãooupelavontade,massimporhábitospsicológicosespontâneos,
18
Quantoaesteponto,Humeobservaque,seformosfalardaregularidadedaassociação,tal“[...]princípiodeunião
e ntre as ideias não deve ser considerado uma conexão inseparável – pois isso já foi excluído da imaginação –;
tampoucodevemosconcluirque,semele,amentenãopoderiajuntarduasideias–poisnadaémaislivrequeessa
faculdade.Devemosvê-loapenascomoumaforçasuave,quecomumenteprevalece,equeéacausapelaqual,entre
outras coisas, as línguas se correspondem de modo tão estreito umasàsoutras:poisanaturezadealgumaforma
apontaacadaumdenósasideiassimplesmaisapropriadasparaseremunidasemumaideiacomplexa.”(HUME,
2009, p. 34-35).
23
que seconsolidamcomousoearepetição19 devárioseventosanterioresquenosfazempensar
as ideias que expusemos enquanto relacionadas. À vista disso, Hume reafirma seus três
princípios de associação, ou melhor, ele retoma e confirma os trêsprincípiosfundamentaisde
associaçãoquenoshaviaproposto;comisso,vejamosnovamente,aSemelhança(quepossibilita
que, ao vermos um retrato,pensemosimediatamentenapessoaretratada);aContiguidade–no
tempoou/enoespaço–(quepossibilitaque,aomencionarmosumasalaemquestão,possamos
também pensar nas salas vizinhas); e a Causalidade (que possibilita que, ao observarmos um
machado, pensemos na madeira cortada que ele pode produzir). Os princípios aqui retomados
foram recapitulados por Hume para que ele pudesse balizar a seguinteinquirição,asaber,por
que certas ideias evocam outrasdemodonatural,formandoosencadeamentosmentaistípicos
da experiência humana?
Com a base empírica de sua teoria já inicialmente balizada, Hume buscou responder a
questãoacimaexplicitandoquearegularidadeporvezesexpressapelopensamentoédescoberta
pela observação empírica das coisas que se dão à percepção, e não por deduções lógicas ou
puramente metafísicas20; em outras palavras, os princípiosdeassociaçãotãorecorrentesàobra
sãofenômenospsicológicosverificáveis,queemergemdaestruturadaexperiênciaedarepetição
de certos padrões oriundos dela21. Por isso, ele se opõe à tradição racionalista, de Descartese
Leibniz – paraapontarapenasdoisdeseusprincipaisrepresentantes–,queviamopensamento
como dominadoporregrasuniversaistípicasdeumarazãoapenasemestadopuro.ParaHume,
entretanto, o funcionamento da mente não viria senão de hábitosnaturais22,nãoderaciocínios
anteriores à experiência.
Nesse sentido, Hume viu seus princípios como algo dos mais importantes para o
conhecimento humano, ou melhor, para ele, seus princípios seriam fundamentaisparaexplicar
comoconstruímosoconhecimento,mesmoemsuaformamaiscomplexa.Todaatividademental
–sejalembrar,imaginar,julgarouacreditar–depende,paraofilósofoescocês,dealgumtipode
19
Neste ponto, Hume trata sobre a conexão não ser regida pela razãoouvontade,masporhábitospsicológicos,
Ibidem, p. 34-35.
20
Em relação a regularidade descoberta por observação empírica, Hume nos fala não ser tal coisa advinda de
dedução lógica, sejamos: “Assim como aciênciadohomeméoúnicofundamentosólidoparaasoutrasciências,
assim também o único fundamento sólido que podemos dar a ela deve estar na experiência e na observação.”
(HUME, 2009, p. 22).
21
Aqui,sobreosprincípioscomofenômenospsicológicosverificáveis,Hume(2009,p.35)afirmaque“nãohaverá
muitanecessidadedeprovarqueessasqualidadesproduzemumaassociaçãoentreideiase,quandodoaparecimento
de uma ideia, naturalmente introduzem outra”, indicando que se trata de fenômenos empiricamente verificáveis.
22
Já neste ponto, quanto a oposição aos racionalismos vindos de pensadores como Descartes e Leibniz, Hume
(2009,p.31)rejeitaanoçãodeideiasinatasaoquestionar“sehaveriaideiasinatas,ousetodasasideiasderivamda
sensação e da reflexão’, opondo-se radicalmente ao racionalismo de sua época.
24
associação entre ideias23: até mesmo a crença na causalidade ou a continuidade do eu são
derivadas do funcionamento desses princípios24.
Por conseguinte, dando continuidade a sequência de seções da primeiraparte,temospor
certoqueofilósofoinglêsprocurouaprofundarsuainvestigaçãosobreaestruturadopensamento
humanonaSeçãoV–Dasrelações,desdobrando-seemmaisdetalhesimportantessobreomodo
como concebemos as relações entre ideias – passo essencial para explicar as operações de
julgamento, comparação, distinção e inferência que serão melhor detalhadas no decorrer de
nosso texto. À luzdisso,asrelaçõescomofundamentodoconhecimentoparaHumepartemda
observação de que, além de possuir ideias isoladas, a mente humana é capaz de estabelecer
relações entre elas, e que isso constitui uma das principais operações do entendimento25, qual
seja, que para que julguemos que dois objetos são semelhantes, diferentes, proporcionais ou
relacionados causalmente temos que envolver nisso sempre algum tipo de relação mental.Por
isso, segundo Hume, conhecer alguma coisa não é apenas representar uma ideia, mas
compreendercomoelaserelacionacomoutrasideias,fazendocomqueaanálisedasrelaçõesse
torne indispensável para o funcionamento do entendimento humano.
Àvistadisso,asseteespéciesderelaçãodescritasporHumesãoabordadaseclassificadas
da maneira que exporemos a seguir (tais relações que podemos estabelecer entre objetos ou
ideias são de sete tipos principais), quais sejam: 1) semelhança; 2) identidade (mesmidade
numérica);3)relaçãodetempoelugar(contiguidadeousucessão);4)quantidadeounúmero;5)
qualidade ou grau (o nível de alguma propriedade comum a algo); 6) contrariedade; 7)
causalidade (relação entre causa e efeito). Para Hume, taiscategoriasabrangemtodoocampo
23
Quantoaotrechoemquestão,Humereconheceaimportânciafundamentaldosprincípiosdeassociação,poisnos
d iz “nada seria mais inexplicávelqueasoperaçõesdessafaculdade,seelanãofosseguiadaporalgunsprincípios
universais, que a tornam, em certa medida, uniforme em todos os momentos e lugares” (HUME, 2009, p. 34).
24
ParaHume,osprincípiosdeassociaçãoexplicamcomoconstruímosideiascomplexas,pois“anaturezadealguma
forma aponta a cada um de nós as ideias simples mais apropriadas para serem unidas em uma ideiacomplexa”
(HUME, 2009, p. 35).
25
Já neste ponto, identificamos as passagens que tratamdasseterelaçõesfilosóficas,ouseja,asseteespéciesde
relação presentes no Tratado. Passagens: 1) “Todos os objetos que admitem quantidade ou número podem ser
comparados sob esse aspecto – que é outra fonte bastante fértil derelações”;2)“Quandodoisobjetosquaisquer
possuem em comum uma mesma qualidade, os graus dessas qualidades formam uma quinta espécie derelação.
Assim,dedoisobjetospesados,umpodeterumpesomaioroumenorqueooutro.Duascores,aindaquedomesmo
tipo, podem possuir tonalidades diferentes e, nesse sentido, ser passíveis de comparação”; 3) “A relação de
contrariedade[contrariety]pode,àprimeiravista,serconsideradaumaexceçãoàregradequenenhumarelação,de
nenhuma espécie, pode subsistir sem algum grau de semelhança. Mas observemos que nenhuma ideia, em si
mesma,écontráriaaoutra,excetoasideiasdeexistênciaedenão-existência,quesãoclaramentesemelhantes,uma
vezqueambasimplicamumaideiadoobjeto–emboraasegundaexcluaoobjetodetodosostemposelugaresem
quesesupõequeelenãoexiste”;4)“Quantoatodososoutrosobjetos,taiscomoofogoeaágua,ouocaloreofrio,
somente a experiência e a contrariedade de suas causas ou efeitospodemrevelarsesãocontrários.Arelaçãode
causa e efeito é, portanto, a sétima espécie de relação filosófica, além de ser também uma relação natural. A
semelhança implicada nessa relação será explicada mais tarde”. Disso, Hume (2009,p.35-36)estabeleceassete
espécies de relações filosóficas, incluindo quantidade, qualidade ou grau, contrariedade e causalidade.
25
possível deconexãoentreideiasouobjetos,econstituem,emsuaconcepçãogeral,agramática
fundamental dacognição26 –coisaque,decertomodo,tambémestápresentedentrodosistema
filosóficodeAristóteles,aindaquecomoutrosnuancesevariações.Devemosvê-loapenascomo
uma força suave, que comumente prevalece, e que é a causa pela qual, entre outrascoisas,as
línguas secorrespondemdemodotãoestreitoumasàsoutras:poisanaturezadealgumaforma
aponta a cada um de nós as ideias simples mais apropriadas para serem unidas em uma ideia
complexa.
Então, para o pensamento humeano, a divisão entre relações intuitivas e aquelas que
requerem raciocínio, distingue-se de duas grandes formas de apreensão das relações, quais
sejam, algumas relações são imediatamente percebidas pela mente, como a semelhança entre
dois triângulos ou a igualdade entre duas cores – estas são chamadas de relações intuitivas;
outras, como já mencionado, requerem raciocínios mais sofisticados ou comparações mais
elaboradas, de acordo com a causalidade ou a proporção entre quantidades complexas. Tal
distinção é crucial para Hume, pois marca os limites doconhecimentodiretoeoscamposque
exigem inferênciaindutiva–coisaque,aonossover,serádecisivaemsuacríticaàcausalidade
(explorada mais adiante ao longo de todo o primeiro livro).
Ademais, são em resumo, as relações e associações entre ideias tratadas na Seção V do
Tratado que fazem com que Hume também observe que muitas dessas relações estão
intimamente ligadas aos princípios de associação entre ideias discutidos e estritamente
estabelecidosnaSeçãoIIeretomadosetantomaisaprofundadosnaIV.Noentanto,nestaquinta
seção, nosso filósofomodernodiferenciouasrelaçõeslógicasouconceituais(comoidentidade,
número,proporção),dizendoqueelaspertencemaoentendimento;jáasassociaçõespsicológicas
(como a evocação espontânea de ideias), estas pertencem à imaginação: segundo Hume, tal
separaçãonosserviriaparadelimitaropapeldecadafaculdadementaleesclarecerquenemtoda
conexão entre ideias implica um julgamentoverdadeiroouracional,ouseja,muitasvezesuma
ou mais conexões são apenas fruto de hábitos psicológicos.
Nesse sentido, nossa análise da Seção V levou em consideração que Hume procurou
ampliar mais profundamente os fundamentos apresentados anteriormente. Isso posto, em tal
seçãoHumevaialémdasanterioresesistematizaostiposderelaçõesquesustentamojuízoeo
raciocínio, pois, sobre a distinção entrerelaçõespercebidasintuitivamenteerelaçõesinferidas,
ele antecipa detalhes medulares acerca de colocações posteriores, como a crítica à inferência
26
Quanto a este ponto, precisamos ressaltar que a ideia de que as relações apontadas por Hume constituem a
g ramática fundamental da cognição é uma interpretação feita a partir de seu texto, mas não algo diretamente
presente nele.
26
causal e àmetafísicaemsentidodesmedido.Demaisamais,oferece-nosumatipologiaclarae
precisadasmaneiraspelasquaisideiaspodemserrelacionadas,tantonoplanológicoquantono
planopsicológico.Esseéumpassodecisivoparafuturaspropostashumeanas,dadoqueopasso
em questão procura criar uma ciência da mentebaseadanaexperiênciaenaobservação,enão
em princípios abstratos da razão. Por isso, as sete relações apresentadas nesta parte de nosso
trabalho tornam-se relevantes instrumentos a serem levados em consideração na análise do
pensamento empirista que estamos tratando, visto ainda que, nos capítulos seguintes, elas
servirãoparaqueHumeexamineailusãodenominadaidentidadepessoal(relaçãodeidentidade),
bem como a crença na causalidade (relação causal) e as generalizações da moral e da ciência
(relações de semelhança e proporção).
Em suma, a quinta seção da primeira parte do primeiro livro do Tratado, sistematiza os
modos como pensamos, julgamoseinferimos,eaofazê-lo,dáàfilosofiaumvocabulárioclaro
paradescreverasoperaçõesdoentendimentohumanosemrecorreraentidadesmetafísicasoua
qualquer inatismo ingênuo.
Doutro modo, abordando agora a Seção VI – Dos modos e substâncias, podemos dizer
inicialmentequeHumededica-seaexaminardoisconceitosfundamentaisdatradiçãometafísica
da filosofia: modo e substância. Sua proposta é mostrar que tais noções, embora amplamente
utilizadaspelafilosofia,nãotêmfundamentoempíricosólido27 esão,naverdade,construçõesda
imaginação baseadas em hábitos mentais. Nesse sentido, podemos nos perguntar o que sãoos
modos e as substâncias segundo Hume? Ora, para ele, um modo éumacoleçãodequalidades
que não pode existir independentemente, mas sempre em algo mais (como a beleza, que
pressupõe um objeto belo); já uma substância, por sua vez, que é tradicionalmente entendida
como o suporte que dá existência a qualidades diversas28 (por exemplo,asubstânciadamaçã
comosuportedesuacor,sabor,forma,etc.),écompreendidaporHumedeoutramaneira,istoé,
ele contesta a validade do conceito tradicional de substância dizendo que nunca percebemos
diretamentetalsuporteoriundodoconceitocitado.Paraele,tudooqueaexperiêncianosfornece
são qualidades separadas – cores, sons, formas, resistências – e nunca uma substância em si29.
27
onforme a crítica aos conceitos demodoesubstância,Ibidem, p. 39.
C
Quanto a este ponto,Ibidem, p. 40.
29
Aqui, destacamos um ponto que consideramos importante, qual seja, sobre a impossibilidade de perceber a
substânciadiretamente.Nessesentido,Humedizque“[...]aideiadesubstância,seéqueelaexisterealmente,deve
serderivadadeumaimpressãodereflexão.Masasimpressõesdereflexãosereduzemàsnossaspaixõeseemoções,
nenhuma dasquaispoderiarepresentarumasubstância.Assimsendo,nãotemosnenhumaideiadesubstânciaque
seja distinta da ideia de uma coleção de qualidades particulares, e tampouco temos em mente qualquer outro
significado quando falamos ou quando raciocinamos a seu respeito.” (HUME, 2009, p. 40).
28
27
Comisso,podemosperguntar:Comosurgemessasideias,asideiasdemodoesubstância?
Ora, Hume diz que a substância ou mesmo o modo não se originam de nenhuma impressão
simples,massimdaassociaçãofrequenteentrecertasqualidadesquesemanifestamdascoisas.
Por isso, quando vemos várias propriedades coexistindoconstantemente(comoextensão,core
solidez em um objeto), nossa mente tende a unificá-las sob uma única ideia – e é isso que,
segundonossofilósofoescocês,podemoschamardesubstância30.Talunificaçãoéumaoperação
da imaginação, que supre uma conexão interna onde só existe contiguidade e constância de
associação31. Da mesma forma, para Hume, os modos são formados por uma combinação
arbitrária de qualidades (como a noção de triangularidade, virtude ou graça), que são unidas
mentalmente, mas não apontam para nenhum substrato ontológico real32.
Nesse sentido, a crítica à metafísica substancialista de Hume foi diretamente para os
filósofosquediziamqueasubstânciaseriaalgoquesubsisteporsi,alémdasqualidades.Nosso
filósofoempiristaargumentaqueessanoçãoéumaficçãoderivadadaestruturaassociativado
pensamento. Ou seja, para Hume, como não conseguimos conceber qualidadessoltas,semum
algoaoqualpertençam,criamosaideiadeumeuouobjetoqueasune,emboraessealgonunca
seja percebido emsimesmo33;trata-se,portanto,deumprodutodohábitoedalinguagem(que
busca lidar com as diversas explicitações do hábito), não de uma percepção originária34.
Por conseguinte, Hume também aplicou sua crítica à substância em relação ao caso da
mente (substância espiritual), isto é, ele generalizou sua crítica para a noção de substância
espiritual – a alma ou o eu imaterial. Isso quer dizer que, segundo nosso autor, como não
percebemos uma substância material subjacente aos objetosexternos,tambémnãopercebemos
nenhuma substância espiritual por trás dospensamentoseemoções35.Ora,oquechamamosde
30
m relação à formação da ideia de substância, ou melhor, sobre a substância como coleção de qualidades,Ibidem.
E
Quantoaunificaçãocomooperaçãodaimaginação,Humeestabeleceque“aideiadeumasubstância,bemcomoa
deummodo,nãopassadeumacoleçãodeideiassimples,quesãounidaspelaimaginaçãoeàsquaisseatribuium
nome particular [...].”; além disso, “supõe-se ao menos que as qualidades particulares são conectadas, estreita e
inseparavelmente, pelas relações de contiguidade e causalidade.” (HUME, 2009, p. 40).
32
Sobre os modos como combinação arbitrária de qualidades,Ibidem, p. 40-41.
33
Este ponto é sobre a substância como ficção derivada da estrutura associativa – algo até já mencionado
recentemente em nosso texto, ou seja: “as qualidades particulares que formam uma substância são comumente
referidas a um algo desconhecido,aquesupostamenteelassãoinerentes.Ou,mesmoqueessaficçãonãoocorra,
supõe-se ao menos que as qualidades particulares são conectadas, estreita e inseparavelmente, pelas relações de
contiguidade e causalidade.” (HUME, 2009, p. 40).
34
Entre outras coisas, a citação a seguir nos serve para pensar sobre a substância como produto do hábitoeda
linguagem, citemos Hume: “a ideia de uma substância, bem como a de um modo,nãopassadeumacoleçãode
ideiassimples,quesãounidaspelaimaginaçãoeàsquaisseatribuiumnomeparticular–nomeestequenospermite
evocar, para nós mesmos ou para os outros, aquela coleção [de ideias].” (HUME, 2009, p. 40).
35
Nesteponto,Humerejeitatantoanoçãodesubstânciamaterialquantoanoçãodesubstânciaespiritualaoafirmar
que“[...]aideiadesubstância,seéqueelaexisterealmente,deveserderivadadeumaimpressãodereflexão.Mas
as impressões de reflexão se reduzem às nossas paixões e emoções, nenhumadasquaispoderiarepresentaruma
substância. Assim sendo, não temos nenhuma ideia de substância que seja distinta da ideia de uma coleção de
31
28
mente ou alma é, paraele,umacoleçãodepercepçõesquesesucedemcomcertaconstância,e
cujaunidadeéprojetadapelaimaginação36 –concepçãoquesearticuladiretamenteàsuaanálise
da identidade pessoal, que melhor trataremos na Seção VI da Parte II.
Emsuma,naqueseçãoqueanalisamosagora,SeçãoVI–Dosmodosesubstâncias,Hume
buscou desconstruir totalmente as duasprincipaisnoçõesdametafísicatradicional(omodoea
substância), mostrando que não temos impressão da substância nem dos modos enquanto
entidadesindependentes;quetaisideiasderivamdehábitosdamentequeassociamqualidadese
criam a aparência de unidade ontológica; e que, caso levemos em consideração a noção de
substância(sejanosentidomaterial,sejanosentidoespiritual),elaéumprodutodaimaginação,
não da razão nem da experiência. Tal crítica elaborada por Hume prepara o terreno para os
desdobramentos mais radicais de sua filosofia, quais sejam, a rejeição de fundamentos
metafísicos fixos e a proposta de uma psicologia empírica como base para todainvestigação
que se pretendesse filosófica.
Agora, articulada com as seções anteriores e com a crítica humeana à metafísica e à
linguagem,abordaremosasétimaeúltimaseçãodaParteIdoLivroIdoTratado,asaber,Seção
VII – Das ideias abstratas. Nesta parte do Livro I, vemos que Humeconfrontaumadasmais
influentese,decertomodo,controversasdoutrinasdafilosofiamoderna,qualseja,adequenós
possuímosideiasabstratasgerais,completamentedistintasdasideiasparticularesesensíveisque
aspossibilitaramgerar-se.Ora,aotratartalquestão,Humevisoudesconstruiranoçãotradicional
de abstração37, proposta por autores como Locke38, e mostrou que todas as nossas ideias não
qualidades particulares, e tampouco temos em mente qualquer outro significado quando falamos ou quando
r aciocinamos a seu respeito.” (HUME, 2009, p. 40).
36
Aqui,precisamosdizerqueestaformulaçãoespecíficasobreamentecomocoleçãodepercepçõesédesenvolvida
maisdetalhadamentenaSeçãoVIdaParteIV(sobreidentidadepessoal).Noentanto,oprincípiogeralestáimplícito
na crítica à substância espiritual presente na Seção VI da Parte I.
37
Quanto a este ponto, Hume apoia a teoria de Berkeley; acerca disso,Ibidem,p. 41-42.
38
Nessapassagemdenossotexto,emqueressaltamosodiálogoeatémesmoacríticadeHumeànoçãodeLocke–
umtantomaistradicional–sobreaabstração,tivemoscomobasematerial(especialmente)asétimaseçãodaParteI
do Tratado – intitulada Das ideias abstratas. Nela, Hume, ao tratar da abstração,buscaresponderdiretamentea
concepção que, provinda da obra Ensaio sobre o Entendimento Humano (mais especificamente no Livro III,
CapítuloIV:Dasideiasabstratasougerais),Lockedefendeaoconsiderarqueamentehumanaécapazdeformar
ideias abstratas universais (por exemplo, a ideia de triânguloemgeral,quenãoénemequilátero,nemisósceles,
nem escaleno, mas representa todos em potencial). Nisso, o que Hume procurou apresentarcomocríticaemseu
Tratado foi uma certa rejeição de tal concepção indicada por Locke, argumentando que não existiria uma ideia
abstratanosentidodeumaimagemmentalpuramentegeralemsimesma,desgarradadomundo.Humeafirmouem
sua obra que toda ideia é particular e que aquilo quechamamosdeabstraçãoé,naverdade,umprocessodeuso
linguísticoefuncional,nãoumaoperaçãodamentesobreideiasgerais,vistoque,paranossoautorescocês,quando
examinamos nossas ideias, ou as imagens que a mente traça de seus objetos, descobrimos que elas são todas
perfeitamente particulares. Ou seja, Hume apontou que o que realmente acontece é que associamos uma ideia
particularcomumapalavraquepodeseraplicadaamúltiploscasos,eéissoquenosdáailusãodequeháumaideia
geral. Portanto, na passagem em questão, procuramos expor que Hume não visou senão desconstruir a noção
tradicional de abstração, proposta por autores como Locke e outros – que nem empiristas eram. Para a crítica
humeana(nopontoqueressaltamos),nossoautorbuscouporsuperaropensamentodeixadoporLockeaomostrar
29
podem ser senão particulares, mesmo quando usadas em contextos gerais. Ou seja, segundo a
concepçãoqueofilósofoescocêscritica,nocaso,suacríticaàdoutrinadasideiasabstratas,ele
expõeque,conformeopensadoporoutrosfilósofos,amentehumanaseriacapazdeformaruma
ideia geral abstrata, como a ideia de triângulo em geral, que não é nem equilátero, nem
isósceles,nemescaleno,massimplesmentetriângulo39.Paraosdefensoresdatesetradicionalde
abstração,talideiaseriapossívelgraçasaumafaculdadedeabstraçãoqueseparaasqualidades
individuais, para reter-se apenas ao que é comum.
Porém, Hume considera a hipótese mencionada ininteligível e contraditória, posto que,
para ele, toda ideia que temos é sempre imaginada com um certo grau de particularidade40:
exemplo disso é que, segundo suas colocações, quando pensamos em um triângulo,pensamos
emumtriângulocomladoseângulosespecíficos41 (mesmoquevagamentedeterminados),eque
porissonãoconseguiríamosconceberumafigurasemformaespecífica42,apenasusamostermos
gerais para designar conjuntos de casos particulares. Nesse sentido, nosso autor propõe uma
explicação alternativa à tesetradicionaldeabstração,ouseja,eletemageneralidadecomouso
funcional,emqueasideiasnãoseriamabstratas,masparticulares,etornar-se-iamgeraisapenas
pelomodocomoasusamos;ouseja,paraHume,umaideiaéusadademodogeralquandoestá
associada a um termo linguístico que pode ser aplicado a muitos casos diferentes43, graças a
hábitos mentais de associação. Para que exemplifiquemos melhor, podemos asseverar que,
quandodizemoshomem,nãoestamosevocandoumaimagemabstratadehomememgeral,mas
sim alguma imagem particular de um homem; daí, por hábito, somos capazes de aplicar essa
imagem a muitos indivíduos distintos, porque a linguagem ativa em nós a expectativa de
que as ideias abstratas não existiriam propriamente como entidades puramente mentais, mas sim efeitos do uso
p rático da linguagem e da associação entre ideias.
39
Sobre a doutrina tradicional das ideias abstratas,Ibidem.
40
Neste ponto, precisamos indicar que para se pensar com mais clareza a impossibilidade de conceber ideias
abstratas segundo Hume,Ibidem.
41
Sobreoexemplodotriângulo,Ibidem,p.45;comtalexemplo,Humebuscamostrarque,mesmonomaisgeral,
sempre pensamos em casos particulares.
42
Aqui,precisamospontuarsobreaimpossibilidadedeconceberquantidadesemgraupreciso.Quantoaisso,Hume
afirma categoricamente que “o que tentarei mostrar [...] é que essa inferência é errônea; em primeiro lugar,
provandoqueéinteiramenteimpossívelconceberqualquerquantidadeouqualidadesemformarumanoçãoprecisa
deseusgraus;e,emsegundolugar,mostrandoque,muitoemboraacapacidadedamentenãosejainfinita,podemos
formar de umasóvezumanoçãodetodososgrauspossíveisdequantidadeequalidade,deumamaneiratalque,
embora imperfeita, possa ao menos servir a todos os propósitos da reflexão e do diálogo.” (HUME, 2009, p. 42-43).
E também: “a mente é incapaz de formar qualquer noção de quantidade ou qualidade sem formar uma noção
precisa de seus graus” (HUME, 2009, p. 43).
43
Sobre ideias particulares usadas de modo geral,Ibidem, p. 46.
30
semelhança44. Assim, para o filósofo escocês, a generalidade não está na ideia em si, mas na
operação psicológica e linguística que a acompanha45.
Comisso,aindaquantoàimportânciadopapeldalinguagemedohábitoparaHume,háa
ênfasedesuapartedequeacapacidadedeusogeraldeideiasparticularessedeveàrepetiçãoda
experiênciaeaohábitolinguísticoemsi,ouseja,aoouvirrepetidamenteapalavracãoassociada
a diferentes cães, nossa mente adquire o hábito de ligar a palavra a qualquer um dos casos
semelhantes no qual possamos atribuí-la46. Para Hume, a linguagem não expressa abstrações
puras, mas dirige a imaginação para conjuntos de semelhanças particulares47. Além disso, ele
observa que tal explicação empirista resolveváriosproblemasfilosóficossemrecorrerànoção
obscura de abstração, posto que o que parece uma ideia abstrata é, na verdade, um uso
generalizante de uma ideia particular48, reforçado por padrões de linguagem e expectativa.
Nessesentido,aSeçãoVIIbuscoucomplementareconsolidarosfundamentosconstruídos
nas seções expostas anteriormente. Nisso, na Seção I, quando tivemos Hume sustentando que
todasasideiasvêmdasimpressões,nela,eletambémreforçouquemesmoideiasaparentemente
abstratassãobaseadasemimagenssensíveisparticulares49;naSeçãoII,eletratoudaassociação
de ideias, e mostrou-nos que a linguagem é um agente poderoso de associação generalizante,
44
Paraquepossamostornaressetrechomaispotenteemrelaçãoaopensamentohumeano,conseguimosafirmarque,
s obre o papel da linguagem e do hábito, nosso autor nos diz que “a palavra desperta uma ideia individual,
juntamente com um certo costume; e essecostumeproduzqualqueroutraideiaindividualquesefaçanecessária.
Mas como, na maior parte dos casos, é impossível produzir todas as ideias às quais o nome pode se aplicar,
limitamostaltrabalhoporumaconsideraçãomaisparcial,procedimentoquegeramuitopoucosinconvenientesem
nosso raciocínio.” (HUME, 2009, p. 45). E segue expondo que “[...] a ideia de um triângulo equilátero deuma
polegada dealturapodeservirparafalarmosdeumafigura,deumafiguraretilínea,deumafiguraregular,deum
triânguloedeumtriânguloequilátero.Todosessestermos,[...][fazem-se]acompanhardamesmaideia;mas,como
são usualmente aplicados em uma extensão ora maior ora menor, eles suscitam seushábitospróprios,mantendo
assimamentedeprontidãoparaquenãoseformequalquerconclusãocontráriaanenhumadasideiascomumente
por eles compreendidas.” (HUME, 2009, p. 46).
45
ParaHume(2009,p.46),“umaideiaparticularsetornageralquandoavinculamosaumtermogeral–istoé,aum
termo que, por uma conjunção habitual, relaciona-se com muitas outras ideias particulares, evocando-as
prontamente na imaginação”, evidenciando com isso que a generalidade é funcional, não ontológica.
46
Sobre o desenvolvimento do hábito linguístico,Ibidem, p. 46.
47
Paraesclareceresteponto,Hume(2009,p.46)colocaque,“sejacomofor,ocertoéque,semprequeempregamos
um termo geral, nós formamos a ideia de indivíduos;queraramente,oununca,conseguimosesgotaratotalidade
dessesindivíduos;equeaquelesquerestamsósãorepresentadosmedianteohábito,peloqualosevocamossempre
que uma ocasião presente o exige”, nãoabstraçõespuras.Daíénessesentidoquepodemosfalaratémesmoque,
para nosso autor escocês, sobre o costume que acompanha termos gerais, “uma das circunstâncias mais
extraordinárias da presente questão é o fatodeque,seporacasoformamosumraciocínioquenãoconcordacom
umaideiaindividualproduzidapelamente,eacercadaqualraciocinamos,ocostumequeaacompanha,reanimado
pelo termo geral ou abstrato, sugere imediatamente qualquer outro indivíduo.” (HUME, 2009, p. 45).
48
Sobre a resolução de problemas filosóficos nesse sentido,Ibidem, p. 48.
49
Aqui,sobreideiasbaseadasemimagenssensíveisparticulares,Humeestabeleceser“[...]evidenteque,aoformar
a maior parte de nossas ideias gerais, se não todas elas,fazemosabstraçãodetodoequalquergrauparticularde
quantidadeequalidade;equeumobjetonãodeixadepertenceraumaespécieparticularcadavezqueocorreuma
pequenaalteraçãoemsuaextensão,duraçãoeoutraspropriedades.(HUME,2009,p.42);nessesentido,“umaideia
é uma impressão mais fraca; e, como uma impressão fortedevenecessariamenteterumaquantidadeequalidade
determinadas, [sendo que] o mesmo deve valer para sua cópia ou representante.” (HUME, 2009, p. 43).
31
mas que não gera abstrações em sentido real; na Seção III, ele explicou como a imaginação
manipula ideias, e também nos fez ver que a imaginação não abstrai, mas generaliza por
semelhança e uso linguístico; na Seção IV, por sua vez, nosso filósofo falou da conexão de
ideias,e,nela,taisconexõesforamcompreendidascomodispostasnalinguagem,queestabelece
relaçõesdesemelhançaeusofrequente;jánasSeçõesVeVI,aodiscutirasrelaçõeseacríticaà
substância,Humedenunciouatendênciadametafísicadereificarentidadesbaseadasapenasem
operações da mente, e nelas, nas seções em questão, sua crítica à abstração foi mais uma
pertinente etapa em seu projeto de desmitificação do pensamento filosófico vigente à época.
diferentes contextos de uso
Ademais, ainda quanto a nossa Seção VII – Das ideiasabstratas,podemosarrazoarque
Hume realizou uma crítica decisiva à metafísica da linguagem e da cognição. Ele visou
demonstrarqueacrençaemideiasabstratasuniversaisnãoéfundamentadanaexperiência,mas
siméfrutodeconfusõesmentaiselinguísticas,istoé,todaideiaésensíveleparticular,mesmo
que seja usada de forma generalizante ou generalizada. Nisso,segundoseupensamento,oque
chamamos de abstração é, na verdade, o resultado do hábito de aplicar uma mesma imagem
particular a múltiplos casos semelhantes (mediado pela linguagem), pois, para Hume,amente
não busca operar por subtração de qualidades, como diziam osdefensoresdaabstraçãodeseu
tempo, mas por transferência e adaptação da ideia particular a diferentes contextos de uso.
Portanto, a análise desta última seção conclui a Parte I do Tratado, confirmando a
orientação empirista radical deHume,asaber,queaexperiênciaeohábito,enãoarazãooua
faculdade de abstração, são os fundamentos últimos do conhecimento humano.
2.2. A imanência como plano de constituição: a subjetividade advinda de um campo
pré-individual ou pré-reflexivo segundo o pensamento deleuziano
As considerações acerca da filosofia de Hume (a sua investigação sobre a origem e a
estrutura das ideias) mostrou-nos um projeto audacioso de fundar uma ciência da natureza
humana estritamente nos limites da experiência. Ao estabelecer a distinção fundamental entre
impressões–aspercepçõesvívidaseimediatasquetemosdomundo–eideias,quesãoassuas
cópias mais fracasnamemóriaenaimaginação,eledesmantelouanoçãodeumconhecimento
inato e propôs que a mente é, em sua essência, um fluxo de percepções. Para nosso filósofo
empirista, a ordem e a coerência que percebemos em nosso pensamento não provêm de uma
razão transcendente, mas de princípios deassociação(semelhança,contiguidadeecausalidade)
que operam de maneira suave e constante, unindo as ideias econstruindooquechamamosde
32
interioridade. O mundo, nessa perspectiva humeana, é umaconstruçãointerna,ummosaicode
percepções organizado por leis naturais da mente.
Todavia,essamesmaconstruçãointerna,aoserexaminadaemsuaradicalidade,abreuma
questão ainda mais profunda e vertiginosa.Ora,seoeueomundoqueelepercebesãoefeitos
dos princípios de associação que agem sobre uma coleção de percepções dispersas, o que é,
então,osujeito?Seriaeleapenasumpontodeconvergência,umailusãodefundogramaticalou
umefeitopassivogeradopelasforçasassociativas?Éprecisamentenessepontodetensãoquea
compreensão de Deleuze se insere, não como umarefutação,mascomoumaintensificaçãodo
empirismohumeano,ouseja,ainvestigaçãodeleuzianatomaopontodechegadadeHumecomo
seu ponto de partida, deslocando a questão da construção interna para a da constituição
imanente.
Nessesentido,oqueexporemosnotrechoaseguir,buscamostraromergulhodeDeleuze
nessa reinterpretação ousada. Para ele, não se trata mais de uma interioridade que organiza o
dado, mas de um plano de imanência – um campo pré-individual e pré-reflexivo em que a
própria subjetividade emerge como um efeito, e não como uma causa. O espírito, despido de
qualquer substancialidade, é o próprio fluxo da experiência. Nisso, tal concepção deleuziana
residenacompreensãodosprincípiosdanaturezahumana(associaçãoepaixão)nãomaiscomo
merosorganizadoresdeideias,mascomoforçasativasequalificativasqueafetamoespíritoeo
forçamaseconstituircomosujeito.Nisso,deantemão,podemosdizerqueasubjetividadenãoé
um dado prévio, mas um processo, um devir que ocorre noprópriocampodaexperiência.Ao
explorar essa passagem da psicologia do espírito para uma psicologia das afecções, a análise
deleuziana nos convida a repensar a própria natureza do sujeito, não como uma entidade que
transcende o mundo, mas como um acontecimento que se desdobra imanentemente a partir dele.
Antes de procedermos com nossa análise da subjetividade passível de ser constituída a
partir de campo pré-individual, precisamos balizar adequadamente o que é a imanência para
Deleuze no sentido do que vamos tratar mais adiante. Assim, para Deleuze, conforme a obra
EmpirismoeSubjetividade,aimanênciaéumanoçãodepoderosacomplexidadequeserevelana
críticaaumatranscendênciairrefreávelenamaneiracomoosujeitoseconstituinodado,enãoa
partir de uma entidade exterior ou conjunto de entidades metafísicas prévias a ele.
Aimanência,paraDeleuze,nãoseriasenãooplanoemqueosprocessosacontecem,onde
a subjetividade emerge comoumefeito,enãocomoumacausaprimeira.Aanálisedeleuziana
parte de uma reinterpretação radical do empirismo de Hume, e isso é importante para que
33
entendamosqueoespírito50 ouamentenãoétomadoporDeleuzecomoumasubstânciaouum
sujeito pré-existente que organiza a experiência; ao contrário, o espírito é idêntico ao próprio
fluxodepercepções(àcoleçãodeideias).DaíaquestãofundamentalqueDeleuzeidentificaem
Hume e que orienta sua própria filosofia é: “como oespíritodevémumsujeito?”(DELEUZE,
2012,p.11).Ora,arespostaparatalperguntadefineocampodaimanênciaparanossoautor,ou
seja,paraDeleuze,osujeitonãoéumdado,masumprocessoqueocorrenoespíritosoboefeito
de princípios que o ultrapassa, mas que não são transcendentes no sentido clássico. Tais
princípios são os princípios da natureza humana (associação e paixão);emDeleuze,podemos
dizer que eles não vêm de fora do mundo, mas operam dentro do campo da experiência para
qualificá-lo, isto é, segundo nosso autorfrancês,“oespíritodevémsujeitoaoserafetadopelos
princípios” (DELEUZE, 2012, p. 16). Quando Deleuze fala sobre o devir-sujeito gerado pela
afetaçãocausadapelosprincípios,elenãoestásereferindoaumaessênciafixaquesefaz(seja
ela biológica ou psicológica); pelo contrário, ele está descrevendo as funções ou forças
dinâmicas e impessoais que operam no espírito para transformá-lo, para fazer com que uma
simplescoleção de percepçõesse torne um “sujeito”.
À vista disso, os princípios são a consideração de Deleuze (através de Hume) para a
seguinte posição: Se o espírito em seu estado bruto é apenas um fluxo caótico de ideias e
impressões (uma fantasia), os princípios são aquilo que impõem uma constância, uma
regularidade e uma estrutura a esse fluxo, permitindo a constituição de um mundo e de um
sujeito possível.
A fim de tentarmos esclarecer ainda melhor mais alguns pontos relacionados aos
princípios, precisamos entendê-los através de três características importantes, quais sejam:
primeira,elessãoforçasqualificativasenãosubstâncias,istoé,osprincípiosnãosãocoisasou
faculdadesmentaisqueosujeitopossui.Elessãoforçasextrínsecaaoespírito(nosentidodeque
não são produzidas por ele), mas imanentes à experiência que nele incorre. Sua função é
qualificar o espírito, ou seja,dar-lhequalidadesqueelenãotemporsimesmo,eissosignifica
que a subjetividade não é a origem, mas o efeito da ação de tais princípios.Elessãocomoas
regras de um jogo que, ao serem aplicadas, não apenas guiam o jogo, mas criam o próprio
jogador;segunda,elessãodivididosemduasespéciesfundamentais,ouseja,Deleuze,seguindo
50
Emnossalíngua(português),otermoemquestãopodeserconsideradocomosinônimodotermomente,queno
inglês,comobemsesabe,correspondeapalavramind;jánofrancês,esprit.Contudo,paraaquelesqueoquiserem
considerarcomoainterioridadehumana,nosentidodaimanênciaqueemtudoseestabeleceulteriormenteaoser,
podeconsiderá-locomotal–aomenosemnossotexto.Aliás,outracoisamuitoimportantedeveserpontuada,qual
seja:emlínguafrancesa,otermoespritéhistórico-semanticamentecarregado;porém,emDeleuze,podemos,além
de outras coisas, considerá-lo como sinônimo demind, do inglês.
34
Hume bem de perto, identifica dois grandes tipos de princípios que, juntos, constituem a
subjetividade: os princípios de associação, que são a contiguidade, a semelhança e a
causalidade(tendocomofunçãoprincipalestabelecerrelaçõesentreideias),oumelhor,elessão
a cola que une as percepções, transformando a coleção perceptiva caótica em um sistema
organizado.Elessãoresponsáveispelaformaçãodoconhecimento,dacrençaedoentendimento.
Elestambémdãoaoespíritoumaestrutura,umaossaturaquepermiteaexecuçãodacapacidade
inferencial(irdeumaideiaaoutra)eaconstituiçãodeummundocoerenteenquantoprodutode
nossa interioridade.
Agora, quanto aos princípios que governam a vida moral, práticaesentimental,Deleuze
nosexpõeosprincípiosdapaixão(ouafetividade):elesnãoapenasrelacionamideias,masdão
sentido,direçãoefinalidadeataisrelações.Ora,enquantoaassociaçãocriaaestrutura,apaixão
dáoimpulso,istoé,omotivo.Énessesentidoque,atravésdosprincípiosdapaixão,osujeitose
torna um ser que deseja, age e faz surgir instâncias (como a justiça e a propriedade) e
instituições(oscorposplenos–socius51 –queregistraroprocessodeproduçãodasociedade).À
vista disso, Deleuze nos deixa claro que a paixão éumdosprincípiosmaisconstitutivo,quiçá
não seja o mais fundamental, pois, segundo suas palavras, “os princípios da paixão são
absolutamente primeiros” (DELEUZE, 2012, p. 145); a associação, em última análise, está a
serviçodapaixão,postoque“aassociaçãodáaosujeitoumaestruturapossível;[e]sóapaixão
lhe dá um ser, uma existência”. Além disso,“éemseuvínculocomapaixãoqueaassociação
encontra seu sentido, [e] seu destino” (DELEUZE, 2012, p. 145).
Assim,acompanhandoparipassuDeleuze,osprincípiosmencionadosatuamcomosíntese
econstituiçãodoqueemnóssedáouépossíveldeexpressar-se.Ora,segundoDeleuze,aação
conjunta dos princípios opera ou produz uma síntese: eles reúnem os elementos dispersos da
experiência (o passado, o presente, as percepções) para constituir um sujeito que dispõe de
expectativas, adquire hábitos, constrói memória e um certo sensodeidentidade.ParaDeleuze,
“osprincípiosdeassociação,deumapartee,deoutraparte,osprincípiosdapaixão,[...]podem,
em certos aspectos, ser apresentados sob a forma geral de um princípio de utilidade”
(DELEUZE, 2012, p. 117). Nisso, acrença,porexemplo,nãoseriasenãoumasínteseoperada
pelosprincípiosdeassociação(especialmenteacausalidadeeohábito),quenospermiteprojetar
51
Vale a pena trazer uma passagemdeOanti-Édipoaesserespeito:“[...]osociuscomocorpoplenoformauma
s uperfícienaqualtodaaproduçãoseregistraepareceemanardasuperfíciederegistro.Asociedadeconstróioseu
próprio delírio ao registrar o processo de produção; mas não é um delírio da consciência, ou melhor, a falsa
consciência é consciência verdadeira de um falso movimento, percepção verdadeira de um movimento objetivo
aparente, percepção verdadeira do movimento que se produz na superfície de registro.” (DELEUZE, 2011, p.
22-23).
35
opassadonofuturoeagirnomundo.Poroutrolado,ainvenção(comoacriaçãodajustiça)seria
uma síntese operada pelos princípios da paixão, que nos permite superar nossa parcialidade
natural e criar umtodosocial e moral.
Como Deleuze nos assevera concisamente, o sujeito é o resultado da ação desses
princípios, pois
sujeito é essa instância que, sob o efeito de um princípio de utilidade,
O
persegueumalvo,umaintenção,organizameiosemvistadeumfim;eque,
sob o efeito deprincípiosdeassociação,estabelecerelaçõesentreasideias.
Assim, a coleção devém um sistema. A coleção daspercepçõesdevémum
sistemaquandoelassãoorganizadas,quandosãoreatadas(DELEUZE,2012,
p. 117).
Deste modo, para Deleuze, os princípios da natureza humana são as regras dinâmicase
constitutivas que transformam o fluxo bruto da experiência (o espírito) em uma subjetividade
prática,capazdeconhecer,sentir,agirecriar;emsuma,elesnãosãooqueosujeitoé,masoque
ofaz.
Não obstante, temos por adequado dizer que a subjetividade é um efeito imanente dos
processos de síntese gerados pelos princípios; à vista disso, um tanto mais propriamente,
segundoopensamentodeleuziano,issoquerdizerqueaimanênciaseopõediretamenteànoção
de que o conhecimento ou mesmo a moralidade derivam de uma razão ou de um eu apenas
possível de ser puramente transcendente que estaria ou pôr-se-ia dealgumamaneiraacimaou
fora da experiência. Para Deleuze, o que ultrapassaodado(ainferência,acrença,ainvenção)
não é o ato de um sujeito que transcende o mundo, mas um efeito que se constitui
imanentemente no próprio espírito, ou seja, é um ultrapassamento do dado, uma prática,uma
afecção.Nessesentido,Deleuzedescreveessadinâmicadeformaprecisaaoanalisaracríticade
Hume à psicologia do espírito de sua época:
[ Emrelaçãoao]dado,aexperiênciatemagoradoissentidos,einversos.[Em
umprimeirosentido]odadoéaideiatalqualéeladadanoespírito,semnada
que a ultrapasse, nem mesmo emuitomenosoespírito,desdejáidênticoà
ideia.Mas[deumasegundamaneira]tambémoultrapassamentoédado,em
sentido totalmente distinto e de uma outra maneira, como prática, como
afecção do espírito, como impressão de reflexão [...]. A subjetividade
empírica seconstituinoespíritosoboefeitodosprincípiosqueoafetam;o
espírito não tem as qualidades próprias de um sujeito prévio. (DELEUZE,
2012, p. 19,grifo nosso).
Ora,napassagemdestacadaanteriormente,ficaclaroqueasubjetividadeéumproduto,um
resultado que emerge no e do plano da experiência (isto é, o espírito) através da ação dos
princípios. Nisso, para Deleuze – de forma figurativa –, nãoháumeuportrásdascortinasda
peça;oeuéoprópriopalcoeosatoresemsuaperformance.DaíDeleuze,aoprosseguiremsuas
consideraçõessobreosprocessospsicológicosatravésdaanálisedaestruturaeorigemdasideias
36
nassensaçõesenoconjuntodefunçõesexercidaspeloespírito,considerandotantoaestruturada
qualerigeasideiasnãoapenastardiasquantoàsoperaçõesmentaisqueviabilizamaspercepções
promotoras de tais ideias, visoucompreendercomoosprocessospsicológicossãoformadosno
plano da experiência do qual mencionamos.
Atravésdesuaanálise,Deleuzenosapontaasubjetividadeapartirdaquiloqueconsiderou
enquantoumpensamentoempíricoímpar(istoé,oempirismohumeano),deenormesuficiência
e potente a um tal grau de ser revisitado e (re)despertado como fomentador deelementosque
possam servir para indicar a multiplicidade do objeto de uma ciência autêntica, e que esteja
determinado pelo efeito em aberto produzido por coordenadas oriundas de um princípio de
diferenciação propiciador de uma ciência humana que vem a encontrar seu caráter crucial na
substituiçãodeumapsicologiadoespíritoporumapsicologiadasafecçõesdoespírito52.Sendo
assim, a partir da conceituação de Deleuze sobre Hume, consideramos que tal substituição
poderia nos ajudar a bem compreender as linhas e traços dimensionais deumaciêncianatural
apenas possível de ser estudada em seus efeitossobreoespírito,eque,segundoDeleuze,para
seraúnicaeverdadeiraciênciadoespírito,nãodeveriasenãoterporobjetoanaturezahumanae
aprecisacompreensãodeatéondepodemosexpressaralgosobreasdisposiçõesdesuacondição
originária.
Àvistadisso,segundonosexpôsDeleuzeemEmpirismoesubjetividade,asduaspartesdo
entendimentonosentidohumeano,istoé,oatomismopsicológico53,queconsideraoselementos
52
Aqui, precisamos falar queessasubstituiçãocitadaéatesefundamentalqueDeleuzeidentificacomooprojeto
f ilosóficodeHumeemseuTratado.Paraentendê-lacommaisclareza,entendemoscomoadequadodefinirosdois
termos mencionados. Pois bem, a psicologia do Espírito (a que é“substituída”)seriaumapsicologiaquetratao
espírito(ouamente,aconsciência)comoumasubstância,umaentidadepré-existente,umeuouumarazãoquejá
estálá(emnossainterioridade),prontapararecebereorganizarasideias.Seriacomoumteatrovazio(oespírito)em
queascenas(asideias)sãorepresentadas.Talvisãopressupõequeoespíritoéumacoisasubstanciosa,umsujeito
ativo que possui faculdades (como a razão, a memória, a vontade) e que existe de forma independente das
percepçõesqueoatravessam.Todavia,Deleuzeargumentaque,paraHume,umaciênciabaseadanissoéimpossível,
pois esse espírito como substância não pode ser encontrado em nenhuma impressão; ele é uma ficção. Já a
psicologiadasafecçõesdoespírito(aquesubstitui)éaverdadeiraciênciadohumanopropostaporHume,segundo
Deleuze. Nessa nova ciência, o sujeito nãoécompreendidomaiscomoumasubstância,mascomoumefeito.Ou
seja,opontodepartidanãoéoeu,masofluxocaóticodepercepções.Nessesentido,araizdaperguntamudadeO
que é oespírito?paraComooespíritoéafetado?.Asafecções,portanto,sãoasmaneiraspelasquaisoespíritoé
modificado, qualificado e transformado pelos princípios da natureza humana (associação e paixão). Assim, no
sentido do que nos coloca Deleuze, a substituição significa o seguinte: Em vez de partir de umsujeitoquetem
experiências, devemos partir de uma experiência que constitui um sujeito. Por fim, podemos dizer em termos
simplesqueasubjetividadenãoéacausa,masaconsequência,queoeunãoéopontodepartida,masopontode
chegada, ele emerge quando o fluxo de ideias é afetado, organizado e qualificado pelos princípios. No mais, a
psicologiadasafecçõeséoestudodecomoessaconstituiçãoacontece,decomooespíritoéforçadoasetornaruma
natureza humana, isto é: um sujeito que crê, age e inventa.
53
Grossomodo,oatomismopsicológicoéateoriaquedescreveoestadobrutodoespírito.Ouseja,elaafirmaquea
menteé,fundamentalmente,umacoleçãodeátomosdepercepção(impressõeseideias).Nessesentido,cadaátomo
nãoseriasenãodistinto,separáveleindependentedosoutros,istoé,nãohánenhumaconexãonecessáriaentreeles.
SegundoDeleuze,oespírito,nonívelcolocado,éapenasumamontoadooumesmoumfluxosemorganização.Nas
palavrasdeDeleuze,podemosconsiderarque“Humenãofazumapsicologiaatomista;elemostra,noatomismo,um
37
condicionais mais básicos ou simples do pensamento conforme duas ideias fundamentais (a
saber, o espaço e o tempo); a outra, o associacionismo54, que étidocomoumapsicologiadas
tendências, que, para Deleuze, é a psicologia da natureza humana e “até mesmo uma
antropologia, uma ciência da prática e, sobretudo, da moral, da política e da história”
(DELEUZE, 2012, p. 16-17), em que as ideias no espírito, devindo natureza, fazendo da
experiênciahumanaumcampofluidoeconstantedeproduçãodesentido.Daí,deacordocomo
pensamentodenossoautor,asideiasnãopoderiamsertidascomosimplesimagenspassivasdos
objetos que nos chegam pela percepção, como aquilo queganhaconsistênciaevalorpormeio
das relações que o espírito estabelece com o mundo, que de certo modo é em nós: éaíqueo
associacionismo advindo de Hume não apenas revela uma dinâmica interna da mente, mas
também abre caminho para uma compreensão da ação humana em seus múltiplos contextos –
sejam eles político, moral, histórico – como processos de organização e reorganização de
experiências e hábitos consequentes a estas experiências.
Apoiados firmemente em Deleuze, por conseguinte, consideramos que a associação de
ideias carrega em si uma capacidade criadora, em que o espírito, ao se deparar com a
contingência e a multiplicidade do real, reconfigura suas próprias operações cognitivas e
afetivas,projetandoummundoemqueastendênciasehábitosadquiridostornam-seferramentas
(porvezesnecessárias)paraaintervençãopráticanarealidade.Nestesentido,noquesereferea
psicologia das tendências, da qual nos fala Deleuze pontualmente no início de Empirismo e
Subjetividade, podemos pensá-la também como aquilo que possibilitar-nos-ia uma verdadeira
crítica da psicologia, em todas as qualidades que ultrapassam o espírito e que podem estarna
e stadodoespíritoquenãopermiteumapsicologia.”,porissoafunçãodoatomismonopensamentodeHumenãoé,
paraDeleuze,suapsicologia,masacríticaqueelefazàpsicologiadoespírito.Nisso,aonosmostrarqueoespírito
éapenasumacoleçãodeátomos,Humedemonstraquenãoháumeusubstancialouumaunidadeprévia.Ora,para
Deleuze, oatomismohumeanodescreveoestadodoespíritoquetornaumapsicologianecessária,masque,porsi
só, não permite uma psicologia, pois falta constância e universalidade. Portanto, o atomismo é a descrição do
problema,nãoasoluçãodele,oumelhor,eledescreveooquê:oespíritocomoumacoleçãodepercepçõesdiscretas,
“Hume não faz uma psicologia atomista; ele mostra, no atomismo, um estado do espírito que não permite uma
psicologia” (DELEUZE, 2012, p. 17).
54
O associacionismo é a verdadeira psicologia de Hume, isto é, a psicologia das afecções em ação. Ele é a
concepção que explica comoeporqueosátomosdamenteseconectam;eleintroduzosprincípiosdeassociação
(semelhança, contiguidade, causalidade) como forças externas no espírito que agem sobre a coleção de átomos,
estabelecendo relações e criando tendências. Nisso, pensando Deleuze, podemos nos perguntar: Por que o
associacionismo é dito por nosso filósofo francês como uma psicologia das tendências? Ora, de certo modo,
podemos responder a isso dizendo que a associação crianoespíritoumadisposiçãoouinclinaçãoparapassarde
uma ideia a outra: por exemplo, devido ao hábito (um efeito da causalidade), ao ver fogo, o espírito tem uma
tendênciaaesperarocalor.Nessesentido,taltendêncianãoéumapropriedadedoátomofogo,masumefeitodos
princípiosqueagemsobreoespíritoqueoconcebe.Oassociacionismo,portanto,nãoestudaosátomosmentaisem
si,masasforçasqueosunemeastendênciasqueemergemdessasuniões;nisso,eleécompreendidoporDeleuze
como o estudo do espírito enquanto ele é qualificado, enquanto está por torna-se um sistema,enquantoestápor
desenvolver hábitos e expectativas. Por fim, tal concepção de nosso filósofo francês descreve o como, isto é, o
processopeloqualumacoleçãoéorganizadapelosprincípios,dandoorigemaum“sujeito”comtendências,crenças
e hábitos.
38
transição ou no fluxo de uma coleção de ideias a outra. Assim, Deleuze salienta que a
subjetividade está sempre em movimento,recriando-senopresente,talqualosconceitosqueo
pensamento é capaz de produzir. Ela permite que, para ele, os conceitos intervenham no
pensamentopararesolverquestõeslocais,mantendocoerênciacomelas:coerênciaestaquenão
vem dos próprios conceitos, mas da subjetividade e seus traços de imanência e significação.
Dessa maneira, a subjetividade faz-se intimamente ligada à consciência em constante
mudança pela qual passa o sujeito ao longo da vida: é por isso que Deleuze busca fiar a
subjetividadeaoempirismo.Noentanto,éimportantequeconsideremosqueasubjetividade,em
termosdesuaenlacecomoempirismo,nãosejareduzidaaparticularidadesempíricasnemaum
universal abstrato, posto que, para Deleuze, o empirismo é o processo no qual a experiência
contribui para a formação de um sujeito em constante transformação; tal sujeito, em virtude
disso, não está restrito ao que é dado pela experiência imediata, visto que é capaz de superá-la.
Doravante,aoretomarmosaimanência,observamosqueelasemanifestanarelaçãoentrea
Natureza (com N maiúsculo, que corresponderia aos poderes ocultos e produtores doreal)ea
natureza humana (os princípios que nos constituem). Porisso,oempirismo,segundoDeleuze,
não buscaria uma gênese psicológica, mas definiria-se por um duplo atípico, qual seja:deum
lado, as causas das percepções (poderes da Natureza) e, de outro, as causas das relações
(princípiosdanaturezahumana).Ora,paranossoautorfrancês,afilosofiamove-senesseplano
dualista, buscando um acordo, uma finalidade, que é ela mesma imanenteenãogarantidapor
umaentidadedivina.Nisso,aimanênciaemDeleuze,éoplanoúnicodaexperiênciaemquese
passa tudo que é de importante ao humano: é o campo das forças, dosfluxosedosprocessos
pré-subjetivos e impessoais apartirdosquaisoprópriosujeitoéconstituídocomoumefeito;é
uma filosofia que recusa modelos inalcançáveis advindosdoinefável(sejaDeusouoeucomo
substância)paraafirmarque“[...]asubjetividadeéprática[...][e]osujeitoseconstituinodado.
Seosujeitoseconstituinodado,somentehá,comefeito,sujeitoprático.”(DELEUZE,1953,p.
100).
Disso, por extensão, podemos dizer que a imanência não seria senão o campo de
constituição da própria subjetividade. No pensamento deleuziano, em diálogo com Hume, a
subjetividadenãoéconcebidacomoumpontooriginárioousubstancial,mascomoefeitodeum
processoimanente.Ora,antesdequalquerformadereflexividade,Deleuzedizexistirumcampo
39
pré-individual55 noqualseengendraosubjetivoapartirdeumfluxodeimpressõeseideias56,de
maneira incessante. Segundo seu pensamento, a subjetividade emerge de um plano impessoal,
contínuoepré-reflexivo,quegeraumcampodeforçasnoqualimpressõeseideiasseorganizam
semqueexistaaindaumeu;eénessefluxoimanentequeaquiloquechamamosdesujeito,como
efeitoenãocomoorigem,urde-se,ouseja,énofluxoincessanteeimpessoaldaimanênciaqueo
processodeconstituiçãodosujeitonãodependedeumainterioridadepreexistente;aocontrário,
ele se coloca como ininterrupto, movido por forças anônimas e indiferentes a consciência
enquantohábito,crençaeassociação.
Nesse sentido, precisamos mencionar a distinção que Hume estabelece, e que Deleuze
aprofunda,entredoistiposdepercepçõesoriginárias:asimpressõesdesensaçãoeasimpressões
de reflexão. Para Deleuze, em termos mais precisos, a subjetividade se trata de impressõesde
reflexão que emerge não comodadodaconsciência,mascomoproduçãonoplanodosensível;
ora, impressões de sensação (ou impressões primárias) são as que surgem no espírito sem
qualquer percepção anterior, provenientes de causas desconhecidas. Tanto para Hume quanto
paraDeleuze,elassãoosdadosbrutosdossentidos;elasconstituemamatéria-primadoespírito,
o fluxo caótico de percepções que o autor francês expõe como estado inicial do espírito, a
coleção de ideias humeana. Resumidamente, podemos dizer que as impressões de sensação
formam o espírito, dão-lhe um conteúdo, mas não o constituem ainda como um sujeito.
Poroutrolado,àsimpressõesdereflexãosurgemapartirdeoutraspercepções.Istoé,elas
são um efeito interno no espírito, uma reflexão do próprio espírito sobre si mesmo esobreas
suas ideias; elas não derivam diretamente do está posto no mundo, mas da maneira como o
espíritoéafetadoporsuasprópriasoperações.Deleuzeenfatizaque,enquantoasimpressõesde
sensaçãoapenasformamoespírito,“asimpressõesdereflexãoconstituemosujeitonoespírito,
55
Talcampoquemencionamosserefereaumplanoondeasubjetividadeaindanãoestáformada,emquenãoháeu
c onstituído. Nesse campo, existemapenaspercepções,impressões,imagens.Eleéoconjuntodosdadossensíveis
brutos, um campo de imanência em que os elementos ainda não vieram a se organizar em torno de uma noção
convencional desujeito.Quantoaisso,sobreaconstituiçãodosujeitoapartirdodado,Deleuzeafirmouque“[o]
sujeitoqueinventaecrêseconstituinodadodetalmaneiraqueelefazdoprópriodadoumasíntese,umsistema.”
(DELEUZE, 2012, p. 100), aquilo mesmo em que ele se entende.
56
Neste ponto, precisamos destacar duas coisas importantes:primeiro,quantoaoengendramentodosubjetivono
campo pré-individual, o sujeito não é anterior à experiência, mas uma consequência dela, isto é,éconstituídoa
partirdasrelaçõesqueseestabelecementreimpressõeseideias(pelarepetição,pelaassociação,pelacrençaetc.),de
maneirafuncional,comoumasínteseoperadaporprincípiosnaturais.Assim,aoconsideraraativaçãoimpessoaldo
espíritopelosprincípios,Deleuzeexpõeoseguinte:“Osujeitoéoespíritoativadopelosprincípios:essanoçãode
ativaçãoultrapassaaalternativa[entrepassivo(comomeroreceptordeimpressões)eativo(comofontedaação)].”
(DELEUZE, 2012, p. 135); segundo, quanto ao fluxo de impressões e ideias, Deleuze identifica que o que há
inicialmente são percepções sem unidade, ou seja, um fluxo impessoal e caótico de sensações. Nesse sentido,
podemos dizer que a subjetividade nasce da organização desse fluxo por mecanismos afetivos e associativos, e,
quantoaodadocomopromotordofluxodaspercepções,nossofilósofoafirmaqueeleé“ofluxodosensível,uma
coleção de impressões e de imagens, um conjunto de percepções. É o conjunto do que aparece, o ser igual à
aparência, é o movimento, a mudança, sem identidade nem lei.” (DELEUZE, 2012, p. 101).
40
qualificam diversamente o espírito como um sujeito” (DELEUZE, 2001, p.90).Porisso,para
ele, “a subjetividade será [...] impressão de reflexão, e nadaalémdisso”(DELEUZE,2012,p.
136); ora, segundo seu pensamento, a impressão de reflexão não é efeito de uma consciência
com existência anterior ao fluxodeondeelaflui,masocomeçodeumaconstituição.Decerto
modo, ela é o que antecede a figura do eu, sendo “uma marca, uma impressão deixada pelos
princípios, [...] que se converte progressivamente em uma máquina capaz de utilizar essa
impressão” (DELEUZE, 2012, p. 136).Nisso,estecampodeimanênciaquefruiàconstituição
do que é subjetivoexpressa-secomoumapuracoleçãodepercepções,oumelhor,odado,que,
nas palavras de Deleuze (2012, p. 101), é o fluxo do sensível, uma coleção de impressões e
imagens, e indica-nos que o sujeito não é pressuposto desse dado, mas constitui-se nele, de
forma imanente, sem a mediação de uma priori transcendental57.
Diantedisso,nossoautorconsideraquetalconstituiçãomencionadaimplicaaideiadeque
o sujeito não é nem ativo nem passivo, mas o resultado de um processo de ativação pelos
princípiosqueagemsobreoespírito.Porisso,aimanênciadesseprocessorevela-setambémna
naturezadaideia,istoé,paraDeleuze,elanãoérepresentação,“aideia[...]nãoé[...]oobjetode
um pensamento,aqualidadedeumacoisa;elanãoérepresentativa.Éumaregra,umesquema,
uma regra de construção” (DELEUZE, 2012, p. 67). Por extensão ao que citamos, seria
pertinente ressaltarnestemomentodaseçãooqueémaisprecisamenteaideiadasubjetividade
para Deleuze. Cito-o:
sujeitonãoéumaqualidade,masaqualificaçãodeumacoleçãodeideias.
O
[Nesse sentido] dizer que a imaginação é afetada pelosprincípiossignifica
que um conjunto qualquer é qualificado como um sujeito parcial, atual.
Portanto,aideiadasubjetividadeéareflexãodaafecçãonaimaginação,éa
própriaregrageral.[...]Ultrapassandoaparcialidadedosujeitodoqualelaé
a ideia, a ideia da subjetividade inclui, em cada coleção considerada, o
princípioearegradeumacordopossívelentre[subjetividades].(DELEUZE,
2012, p. 66-67).
Sendoassim,asubjetividadesemanifestacomorelaçãoentreoqueafeta(osprincípios)e
oqueéafetado(oespírito),atravésdetalprocessoimanenteasubjetividadeécriada.Nãoéuma
relaçãoentreduascoisasprontas,masoprópriomovimentodeconstituiçãoque,emumregime
dediferenciaçãocontínua,fazcomqueumfluxodeexperiênciasetorneumsujeitoqueconhece,
sente e age. Nesse sentido, a imanênciaseapresentacomoplanoconstitutivodasubjetividade:
57
Deleuze tratou o a priori transcendental de uma maneira radicalmente diferente da tradição filosófica,
e specialmentedadeKant.Paraele,aointerpretarHume,oaprioritranscendentalnãoserefereàsestruturasdeum
sujeito que tornam a experiência possível, mas sim aos princípiosdanaturezahumana(associaçãoepaixão)que
constituemoprópriosujeitodentrodaexperiência.Nessesentido,paraDeleuze,oaprioritranscendentalselevando
emconsideraçãoopensamentodeHumeéoconjuntodeprincípiosdanaturezahumanaque,agindosobreofluxo
de percepções, constituem a subjetividade como um efeito imanente, afetivo e prático.
41
nãohásujeitoqueprecedaomundo,masháummundodepercepçõesqueprecedeeengendra,
no seio de suas relações diferenciais, o devir-subjetivo (o vir a ser do que se constitui nos
sentidos multifatoriais da subjetividade). A constituição do sujeito, portanto, segundo o
pensamentodeleuziano,devesercompreendidacomoummovimento,ouseja,nãoalgoqueestá,
mas quese faz, posto que
sujeitosedefineporecomoummovimento,movimentodedesenvolver-se
O
asimesmo.Oquesedesenvolveésujeito.Aíestáoúnicoconteúdoquese
podedaràideiadesubjetividade:amediação,atranscendência.Porém,cabe
observarqueéduploomovimentodedesenvolver-seasimesmooudedevir
outro: o sujeito se ultrapassa, o sujeito se reflete. (DELEUZE, 2012, p. 99).
Nessesentido,talmovimentoéimanente,eopontoacimaaindanãoremeteriaaumplano
transcendentaldejustificação,masàimanênciadosensíveledaconstituiçãoafetivadoespírito.
Dessaforma,somoscapazesdeafirmarqueasubjetividade,segundoDeleuze,éconstituídapor
um campo de forças pré-individuais, no qual os princípios da natureza humana, tais como a
associação,acrençaeainvenção,operamcomoesquemasdeativaçãoediferenciação.Osujeito
emerge, então, não como dado,mascomodevir,comoumaatualizaçãodoplanodeimanência
em que impressão, ideia, espaço e tempo constituem o fluxo originário de sua formação.
2.3. As condições da experiência paraHume:tempoeespaçocomomodosdaimaginação
na parte II do livro I do Tratado
A análise anterior da subjetividade a partirdopensamentodeleuziano,fundamentadaem
umareinterpretaçãoveementedoempirismodeHume,visoumostrarnossosprimeirospassosno
reconhecimento do deslocamento do eixo da investigação filosófica. Expomos o abandono da
busca por uma substância ou um eu pré-existente para se concentrar na questão de como o
espíritodevémsujeito.Nossarespostaparcial,comovimos,residenoplanodeimanência58:um
campodeexperiênciapré-individualemqueforçaseprincípios–comoaassociaçãoeapaixão–
atuam sobre o fluxo bruto das percepções para constituir a subjetividade como um efeito, um
resultado impulsionador. Nesse processo, Deleuze identifica o atomismo psicológico de Hume
como o estado elementar do espírito, um fluxo de átomos de percepção cujas ideias mais
fundamentais e condicionantes são precisamente o espaço e o tempo.
Nesse sentido, ao considerarmos que se a subjetividade emerge desse campo imanente,
torna-se imperativo investigar as próprias condições que estruturam esse campo em seu nível
maisprimordial.Ora,comoseformamasnoçõesdeespaçoetempoqueservemdeteladefundo
para toda a experiência? Seriam elas estruturas absolutas e independentes, dadas antes de
58
AdespeitodesetratardeumconceitomaistardiodeDeleuze,podemosdizerque,decertomodo,elepodeser
detectado implicitamente emEmpirismo e Subjetividade.
42
qualquer experiência possível, ou seriam, também elas, produtos imanentes ao fluxo de
percepções? É para responder a essa questão crucial que nos voltamos agora para a análise
detalhada que o próprio Hume desenvolve na Parte II do Livro I de seuTratado.
Portanto, o trecho a seguir mergulha em uma importante parte do projeto humeano ao
examinar como as ideias de espaço e tempo são construídas. Longe de serem entidades
metafísicas ou formas puras da intuição, Hume demonstrou queespaçoetemposãomodosda
imaginação. Eles não são recipientes vazios onde as percepções ocorrem, mas são gerados a
partir da maneira como a mente organiza a sucessão e a justaposição das próprias impressões
sensíveis. Ao desnaturalizar o espaço e o tempo e revelá-los como construçõesdohábitoeda
imaginação, Hume não apenas solidificou sua críticaàmetafísica,mastambémnosforneceua
gramáticafundamentaldaimanência.Aanálisequesesegue,portanto,nãoéumdesvio,masum
aprofundamento necessário para compreender como o próprio tecido da experiência é tecido,
revelando as operações da mentequedãoformaaocampopré-individualdoqual,comovimos
com Deleuze, o sujeito finalmente emerge.
Porisso,nestesegundoterçodenossaobra,quetratadaParteII–Dasideiasdeespaçoe
tempo do Tratado,exporemoscomoHumededica-seaumainvestigaçãodetalhadadessasduas
ideias, procurando compreender seus limites, suas propriedades e, sobretudo, sua origem no
campodaexperiênciasensível.Emrelaçãoàsseçõesdaparteemquestão,odetalhamentoquese
seguirámarcaumpontoaltodoprojetoempiristadeHume,pois,nele,oautorconfrontanoções
tidascomofundamentaisàconstituiçãodomundoedaprópriaexperiência,istoé,oespaçoeo
tempo – e as submete ao exame rigoroso de sua filosofia empirista.
Nisso, já de início, Hume parte da tese de que as ideias de espaço e tempo são
infinitamentedivisíveis,masnãoporseremdadasdemodoabsolutoouindependentedamente;
ao contrário, tal divisibilidade infinita descrita por ele seria um produto da maneira como
percebemos e representamos a sucessão e a justaposição das impressões sensíveis. Ante o
exposto na Seção I, ele procurou demonstrar que, mesmo que não possamos representar
concretamente uma infinidade de partes, nossa ideia de divisibilidade não encontra,emsi,um
limite definido;naSeçãoII,eleaprofundousuaanálisemostrandoqueespaçoetemponãosão
substâncias, mas modos de organização da percepção, cujacontinuidadeeextensãosefundam
no hábito e na imaginação.
Nas seções seguintes, Hume primou por detalhar outras qualidades atribuídas às ideias
centrais daseção(espaçoetempo),distinguindoaquiloquepodeserlegitimamenteextraídoda
experiência do que constitui mera ficção filosófica. Ele respondeu a objeções (na Seção IV),
43
reafirmandoseucompromissocomummodeloempíricodejustificação,erejeitandofortemente
aideiadeespaçoetempoabsolutos(coisapropostaporcertosmetafísicosdesuaépoca:fossem
filósofos; fossem cientistas).Poroutrolado,naSeçãoV,elecontinuouatratardarelaçãoentre
divisibilidade,extensãoepercepção,aprofundandosuaanálisedaimaginaçãocomoresponsável
pela construção das ideias abstratas de tempo e espaço.Porfim,naSeçãoVI,Humeprocurou
ampliaradiscussãoparaaideiadeexistênciaeexistênciaexterna,buscandomostrarque,assim
comoespaçoetempo,taisnoçõesnãotêmorigemracional,masderivamdeimpressõesinternas
eelementosreconhecidoscomoexternos–queassociamoscomumacrençadepermanênciaou
realidade.
Tais seções que comentaremos melhor a seguir, portanto, não apenas esclarecem como
concebemosouimaginamosoespaçoeotempo,mastambémrevelamaslimitaçõesdarazãoao
tentarfundamentá-loscomoentidadesindependentesdaexperiência.Sendoassim,oqueestáem
jogo aqui é o modo como o sujeito, a partir da sucessão de impressões, constrói noções que,
embora pareçam objetivas e universais, são profundamente marcadas pelos mecanismos da
imaginação, da crença e do hábito. Nisso, ao desnaturalizar espaço e tempo, Hume procurou
contribuiràcríticadequetodametafísicatomaessesconceitoscomofundamentosabsolutosda
realidade.
Agora, ao prosseguirmos, faremos uma análise mais acurada da Seção I da Parte II do
Tratado. Nela, intitulada Da infinita divisibilidade de nossas ideias de espaço etempo,Hume
procurou examinar criticamente uma das suposições mais arraigadas da metafísica e da
matemática de seu tempo, qual seja, a de que oespaçoeotemposãoinfinitamentedivisíveis.
Pois bem, para examinar como realmente concebemos o espaço e o tempo, e se faz sentido
afirmarmos que nossas ideias de tais entidades são infinitamente divisíveis, nosso filósofo
empiristaobjetivouaplicaromesmométodoempíricoepsicológico(desenvolvidonaParteI)às
entidades em questão.
Na esteira da distinção entre divisibilidade real e imaginada, Hume começa a seção
observando que os filósofos frequentemente admitem, sem questionamento, que qualquer
quantidadedeespaçooudetempopodeserdivididaindefinidamente59.Noentanto,eleexpõeo
seguinte questionamento: Temos realmente uma ideia clara e concreta de tal divisão infinita?
Ora, para Hume, devemos semprelembrardoprimeiroprincípiojáconstatadoeenunciadopor
59
SobreoexamefeitoporHumeacercadasuposiçãodatradiçãomatemáticaemetafísicadadivisibilidadeinfinita,
Ibidem, p. 55.
44
ele,qualseja,todaideialegítimadevederivardeumaimpressão60.Sendoassim,segundonosso
autor, devemos nos perguntar: De ondevemaideiadedivisibilidadeinfinita?Elatemouteria
umcorrespondentenaexperiência?Pararespondertaisquestionamentos,Humeargumentaque,
quanto à divisibilidadeeavivênciasensível,nossasimpressõessensoriaissãosemprefinitas,e
que, mesmo ao usarmos a imaginação, nunca conseguimos formar uma ideia clara de uma
subdivisão sem fim61. Então, para ele, toda divisão querealizamosemumaideiadeespaçoou
tempo termina em partes mínimas – pontos ou instantes – que não são mais divisíveis para a
mente62. Assim, segundo nosso autor, a noção de divisibilidade infinita não pode vir da
experiência, e sim de uma operação abstrata e fictícia da razão ou da linguagem de que
dispomos.
Por conseguinte, em relação a sua crítica à ideia de pontos einstantesindivisíveisreais,
Hume reconhece que, ao dividir mentalmente um espaço ou um tempo em partes cada vez
menores, chegamos inevitavelmente a unidades mínimas (como pontos sem extensão ou
instantes sem duração63). No entanto, ele busca mostrar que tais unidades não são reais, no
sentido de existirem por si mesmas, mas apenas limites de nossa percepção e concepção das
coisas.Ouseja,opontoeoinstantenãosãocoisasemsi,masextremoslimitesdeumadivisão
que só faz sentido enquanto operação mental64. Nesse sentido, a confusão metafísica e o uso
60
Aqui, sobreoprincípiodequetodaideiaderivadeumaimpressãocriandoumarepresentaçãoadequada,Hume
e stabelece que, “quando as ideias representam adequadamente seus objetos, todas as relações, contradições e
concordânciasentreelassãoaplicáveistambémaestes.Talé,comopodemosobservaremgeral,ofundamentode
todo o conhecimento humano. Ora, nossas ideias são representações adequadas das mais diminutas partes da
extensão; e, não obstante todas as divisões e subdivisões que possam ter sido necessáriasparasechegaraessas
partes, elas jamais poderão se tornar inferiores a algumas ideias que formamos.” (HUME, 2009, p. 54-55).
61
Sobre as impressões sensoriais serem sempre finitas, Hume descreve o processo de formação de ideias de
extensão(emqueamenteoperacomunidadesmínimas–pontossensíveis)daseguintemaneira:“Ora,aoexaminar
minhas ideias claras, convenço-me facilmente de que tal suposição é absurda. Emprimeirolugar,tomoamenor
ideiaqueconsigoformardeumapartedaextensão;e,certodequenãoexistenadamenorqueessaideia,concluo
quetudoquedescubropormeiodelatemdeserumaqualidaderealdaextensão.Repito,então,essaideiauma,duas,
três vezes, e assim por diante, e vejo que a ideia composta de extensão produzida por essa repetição aumenta
sempre, tornando-se duas, três, quatro vezes maior etc., expandindo-se até finalmente atingir um tamanho
considerável, que pode ser maior ou menor, conforme eu repita mais ou menos vezes amesmaideia.”(HUME,
2009, p. 55).
62
Ora,sobreadivisãoterminarempartesmínimasesobreamenteprojetarapossibilidadederepetiçãosemrealizar
a infinidade,Ibidem, p. 55-56.
63
Nestepontodenossotexto,sobrepontoseinstantesindivisíveis,Humecriticaanoçãometafísicadeunidadeda
seguintemaneira:“Éinteiramenteabsurdo[...]suporaexistênciadeumnúmeroqualquer,masnegaraexistênciade
unidades.Ecomo–conformeaopiniãocomumdosmetafísicos–aextensãoésempreumnúmeroenuncapodeser
resolvida em unidades ou quantidades indivisíveis, segue-se que a extensão nãopodedemaneiraalgumaexistir.
Seria inútil replicar que uma quantidadedeterminadadeextensãoéumaunidade,mastalqueadmiteumnúmero
infinitodefrações,sendoinesgotávelemsuassubdivisões;pois,pelamesmaregra,essesvintehomenspodemser
consideradoscomoumaunidade.Todoogloboterrestre,ou,melhorainda,ouniversointeiropodeserconsiderado
uma unidade. O termo ‘unidade’ é apenas uma denominação fictícia, que a mente pode aplicar a qualquer
quantidade de objetos por ela reunidos.” (HUME, 2009, p. 56).
64
Sobrepontoseinstantescomolimitesdapercepção,Humeafirmaque“aunidadequepodeexistirsozinha,ecuja
existência é necessária à existênciadetodososnúmeros,éumaunidadedeoutrotipo;eladeveserperfeitamente
indivisíveleincapazdeserresolvidaemqualquerunidademenor”(HUME,2009,p.56);assimtambém,eledizque
45
indevido da razão é algo destacado por Hume da seguinte maneira, a saber, ele acusa os
metafísicos de transgredirem os limites da experiência ao transformarem arbitrariamente
operações mentais em entidades reais65. Para Hume, a ideia de divisibilidade infinita é um
exemplodequeumaconcepçãopodepartirdeumaoperaçãolegítima,ouseja,adivisãodeuma
ideia de extensão, mas ainda assim, segundo seu pensamento empirista, há quem queira
extrapolar tal ideia e afirmar que a própria realidade é composta de partes infinitas66 (estes
seriam os filósofos de seu tempo e também outros tantosdatradição,segundopensouHume).
Tal extrapolação, para nosso empirista, não pode ser comprovada nem imaginada com boa
intelecção, visto que a suposição de partes infinitas é um abuso da linguagem e da abstração,
semelhante ao erro da ideia de substância ou de eu permanente67 (já brevemente aludidas na
Parte I).
Diantedisso,aoexporopensamentoquepoderiavirapossibilitaraaplicaçãodasideiasde
espaço e tempo de maneira adequada, Hume conclui que essas ideias são formadasporpartes
finitas,equenãohácomorepresentá-lascomoinfinitamentedivisíveis68,ouseja,anoçãodeque
o espaço e o tempo são contínuos epodemsersubdivididosaoinfinitoéumaficçãosembase
empírica69. Segundo nosso autor, o que temos são representações mentais compostas por
“ em todo caso,umacoisaécerta:somoscapazesdeformarideiasquenãoserãomaioresqueomenorátomodos
espíritosanimaisdeuminsetomilvezesmenorqueumapulga.Edevemosantesconcluirqueadificuldadeestáem
ampliarnossasconcepçõesatéconseguirmosformarumanoçãocorretadeumapulga,oumesmodeuminsetomil
vezes menor que uma pulga” (HUME, 2009, p. 54), estabelecendo com isso limites à nossa percepção.
65
Aqui,emsuacríticaaosmetafísicos,Humeexpõeque“éumamáximaestabelecidadametafísicaquetudoquea
menteconcebeclaramenteincluiaideiadaexistênciapossível,ou,emoutraspalavras,quenadaqueimaginamosé
absolutamenteimpossível.Comopodemosformaraideiadeumamontanhadeouro,concluímosqueumamontanha
assim poderealmenteexistir.Nãosomoscapazes,porém,deformaraideiadeumamontanhasemumvale,epor
isso a vemos como impossível” (HUME, 2009, p. 58); daí expõe-nos que “[...] é certo que temos umaideiade
extensão–pois,senão,porquefalamoseraciocinamosaseurespeito?Éigualmentecertoqueessaideia,talcomo
concebidapelaimaginação,emborasejadivisívelempartesouideiasinferiores,nãoéinfinitamentedivisível,nemé
composta de umnúmeroinfinitodepartes–poisissoexcederiaoâmbitodenossalimitadacapacidade”(HUME,
2009, p. 58). Portanto, Hume critica a máxima metafísicasegundoaqual“tudoqueamenteconcebeclaramente
inclui a ideia da existência possível”, aplicando-a à questão da divisibilidade.
66
Hume concebe a divisibilidade infinita como ficção,Ibidem, p. 58.
67
Sobreoabusodalinguagemedaabstraçãoetambémsobreconfundiroperaçãosimbólicacompossibilidadereal
de percepção,Ibidem, p. 56.
68
Emrelaçãoaideiasformadasporpartesfinitas,Humeestabeleceque“aconsequênciaevidentedissoéquetudo
que parece impossível e contraditório pela comparação entre essas ideias têm de ser realmente impossível e
contraditório,semescapatória”(HUME,2009,p.55);porisso,eleconcluique“[...]aideiadeumnúmeroinfinito
departeseaideiadeumaextensãoinfinitasãonumericamenteidênticas;quenenhumaextensãofinitaécapazde
conter um número infinito de partes;econsequentemente,quenenhumaextensãofinitaéinfinitamentedivisível”
(HUME, 2009, p. 55-56).
69
Já sobre a noção de espaço e tempo contínuos como ficção, primeiramente, Hume pondera que “todo esse
raciocínioseaplicatambémaotempo,juntamentecomumargumentoadicional,quevaleriaapenaconsiderar.Uma
propriedade inseparável do tempo, e que constitui de certa maneira sua essência, é que suas partes são todas
sucessivas,nenhumadelaspodendocoexistircomoutra,aindaquesejamcontíguas.Amesmarazãopelaqualoano
de 1737 não pode coincidir comopresenteanode1738fazquetodomomentodevaserdistintodeoutro,istoé,
devaserposteriorouanterioraele.Portanto,écertoqueotempo,talcomoexiste,devesercompostodemomentos
indivisíveis.Poisse,nocasodotempo,nuncapudéssemoschegaraofimdadivisão,esecadamomento,aosuceder
outro, não fosse perfeitamente singular e indivisível, haveria um número infinito de momentos ou partes
46
quantidades limitadas, cujas subdivisões também são limitadas pela capacidade da mente de
conceber distinções70.
Resumindo,nestaanálisedaSeçãoIdaParteII,deformageral,temosemvistaqueHume
realizou um exame epistemológica e psicológica meticulosodanoçãodedivisibilidadeinfinita
do espaço e do tempo, demonstrando que essa ideia não possui fundamento nas impressões
sensíveis nem nas operaçõesmaislegítimasdamentehumana.Segundonossoautor,aideiade
espaço e tempo infinitamente divisíveis é uma ficção gerada pela extrapolação dos hábitos
mentaisdedivisão,enãocorrespondeanenhumaexperiênciaconcreta.Assim,Humeterminaa
seçãopordefenderquenossasconcepçõesdeespaçoetemposãolimitadaspeloadequadousoda
capacidade da imaginação e pela estrutura da percepção, e que tentar ir além dissoéproduzir
confusão e pseudoprofundidade metafísica71.
Emcontinuaçãodiretaaoexamedaseçãoemdestaquenosparágrafosanteriores,naseção
que analisaremos agora (Seção II Da divisibilidade infinita do espaço e do tempo), Hume
retomaeaprofundaoexamecríticodanoçãodedivisibilidadeinfinita,eofazvoltandoseufoco
não apenas para as ideias, mas sim para as supostas realidades espaciais e temporais, ouseja,
nosso filósofo nos expõe que a intenção de seu exame é testar se as entidades espaciais e
temporais são realmentedivisíveisaoinfinito,eseelassesustentamquandoconfrontadascom
as faculdades reais da mente humana, sobretudo a percepção e a imaginação72.
Nesse sentido, o autor escocês, através de uma questão cabível, levanta o seguinte
problema fundamental, a saber, a possível divisibilidade infinita do espaço e do tempo é uma
c oexistentesdetempo.Acreditoquetodosirãoconcordarqueissoseriaumapuraesimplescontradição.”(HUME,
2009,p.57).Assim,elearremataque“[...]écertoqueotempo,talcomoexiste,devesercompostodemomentos
indivisíveis.Poisse,nocasodotempo,nuncapudéssemoschegaraofimdadivisão,esecadamomento,aosuceder
outro, não fosse perfeitamente singular e indivisível, haveria um número infinito de momentos ou partes
coexistentes de tempo.” (HUME, 2009, p. 57).
70
Nesteponto,sobrerepresentaçõesmentaiscompostasporquantidadeslimitadasesobreadivisãomentalchegara
partesindivisíveisparanossossentidos,Humeconcluisobreaslimitaçõesdamenteesobrenãopodermosperceber
ourepresentarumespaçocominfinitaspartesfalando-nososeguinte:“Ora,écertoquetemosumaideiadeextensão
–pois,senão,porquefalamoseraciocinamosaseurespeito?Éigualmentecertoqueessaideia,talcomoconcebida
pelaimaginação,emborasejadivisívelempartesouideiasinferiores,nãoéinfinitamentedivisível,nemécomposta
de um número infinito de partes – poisissoexcederiaoâmbitodenossalimitadacapacidade.Eis,portanto,uma
ideiadeextensão,quesecompõedepartesouideiasinferioresperfeitamenteindivisíveis;consequentemente,essa
ideianãoimplicacontradição;consequentemente,épossívelqueaextensãoexistarealmenteconformeaessaideia;
e, consequentemente, todos os argumentos empregados contra a possibilidadedospontosmatemáticossãomeras
tergiversações escolásticas,indignasdenossaatenção.”(HUME,2009,p.58);nisso,eleconcluisobreanoçãode
taislimitaçõesdamentedizendoque“[...]essaideia,talcomoconcebidapelaimaginação,emborasejadivisívelem
partesouideiasinferiores,nãoéinfinitamentedivisível,nemécompostadeumnúmeroinfinitodepartes–poisisso
excederia o âmbito de nossa limitada capacidade.” (HUME, 2009, p. 58).
71
No sentido desseparágrafo,quantoàdivisibilidadeinfinitaeacríticaàsdemonstraçõesmatemáticasdotempo,
Ibidem,p. 57-58.
72
Aqui,sobreoqueHumefalaemrelaçãoatestarseasentidadesespaciaisetemporaissãorealmentedivisíveisao
infinito e sobre a extensão sensível composta por partes com limite inferior de divisibilidade,Ibidem, p. 54-55.
47
noção matematicamente aceita, mas é psicologicamente ininteligível?73 Pois bem, Hume
reconhece que, até seus dias, a tradição matemática e metafísica sustentou que o espaço e o
tempo eram divisíveis infinitamente, isto é, que sempre seria possível conceber uma nova
subdivisão–pormenorquefosse–dequalquerquantidadedeextensãoouduração.Contudo,ele
se perguntou muito habilmente se essa suposição é coerente com o modo como realmente
percebemos e concebemos espaço e tempo. Ora, para ele, tal ideia, embora útil no raciocínio
matemático, não corresponderiaanenhumapercepçãoouideiainequívocadamente,vistoque,
para nosso filósofo empirista, a mente operaria com unidades mínimas (pontos sensíveis), ou
melhor,apercepçãohumana,paranossoautor,seriaconstituídaporelementosfinitos,elementos
estes que estariam presentes nas coisas; aliás,segundoseuempirismo,quandopercebemosum
objetovisualmente,sóconseguimosperceberpartesmínimasdecorouformaatéopontoemque
essas unidades deixam de ser distinguíveis74, portanto, para ele, toda extensão sensível seria
composta por partes que têm um limite inferior de divisibilidade, determinado pela própria
estrutura da mente e da sensibilidade.Istosignificaque,paraHume,nãopodemosperceberou
representar um espaço que tenha infinitas partes, pois nossa experiência é sempre finita e
limitada.
Emcontinuidade,pensando-semaispontualmenteoerronoraciocíniometafísicodescrito
pelo empirismo humeano, que levava da conveniência à ilusão, podemos colocar ainda que
Hume buscou nos apontar que os filósofos e matemáticos cometeram e continuam a cometer
(mesmo em seus dias) um erro peculiar, qual seja, estes confundiam a operação simbólica de
divisãocomapossibilidaderealdepercepçãoouconcepçãodetaldivisão.Istoquerdizermais
propriamenteque,comoesclareceHume,quandodizemosqueumcentímetropodeserdividido
infinitamente, estamos lidando com símbolos e abstrações, mas não com percepções reais75; a
mente, para ele, mesmoemsuaimaginação,nãoconseguerepresentarouconceberumnúmero
infinito de partes distintas – ela apenas projeta a possibilidade da repetição da divisão, sem
jamais realizar essa infinidade de fato. Assim, para nosso autor, a divisibilidade infinitanãoé
algo dado, mas um limite hipotético sustentado pela linguagem e pelas convenções matemáticas.
73
Ora, sobre a divisibilidade infinita ser matematicamente aceita, mas psicologicamente ininteligível, Hume diz
e star certo de que mesmo os mais obstinados defensores da doutrina da divisibilidade infinita admitirão que os
argumentos favoráveis a esta “[...] contêm dificuldades e queéimpossíveldaraelesumarespostaperfeitamente
claraesatisfatória.Ecomplementa:“Maspodemosaquiobservarquenadapodesermaisabsurdoqueessecostume
de atribuir uma dificuldade àquilo que pretende ser uma demonstração, tentando desse modo eludir sua força e
evidência.” (HUME, 2009, p. 57); e isso, para ele, mostra a incoerência psicológica da noção matemática.
74
Aqui,Humefalasobrepartesmínimasdecorouformaatéopontoemquedeixamdeserdistinguíveis,Ibidem,p.
54.
75
Sobrelidarcomsímboloseabstrações,nãocompercepçõesreaisesobreadivisibilidadeinfinitanãorepresentar
verdade empírica nem psicológica,Ibidem, p. 58.
48
Sendo assim, ao expor que os limites de nossas percepções são os limites de nosso
conhecimento, Hume reafirmaseuprincípioepistemológicomaissignificativo,istoé,nenhuma
ideia é legítima se não tiver origem emumaimpressão.Comonãotemosimpressãonemideia
clara de uma extensão ou duração com partes infinitas, a noção de divisibilidade infinita é
ilegítima se tomada como descrição do real. Para Hume, a divisão mental de uma extensão
sempre chega a partes indivisíveis paranossossentidos–oquenãosignificaqueoobjetoseja
absolutamente indivisível, mas que nossos modos de percebê-lo o são. Assim, nosso filósofo
empirista conclui esta seçãocomumafortecríticaàmetafísicaeàmatemáticaabstrataemque
busca encerrá-la, reiterando que, embora a ideia de divisibilidade infinita possa ser útil no
discursomatemático,elanãorepresentaumaverdadeempíricanempsicológica,poispertenceria
aoreinodaficçãoútil,comotantasoutrasnoçõesque,aoextrapolaremoslimitesdaexperiência,
criam ilusões de profundidade onde só há hábito e abstração76.
Portanto,nestasegundaseçãodasegundapartedoTratado,Humeprimoudesmontarmais
umpilardametafísicaclássicaedamatemáticaespeculativa,qualseja,acrençadequeespaçoe
temposãoinfinitamentedivisíveisemsimesmos.Paraele,issonãoéumaverdadeconstatável,
mas uma extrapolação que vai além da experiência e da imaginação possível. Em seu lugar,
Hume propõe uma visão epistemológica mais modesta, porém mais segura; nela, devemos
aceitar que a nossa percepção do espaço e do tempo tem limites, e que qualquer ideia que
ultrapasse esses limites é um produto da linguagem ou da abstração simbólica, não da razão
adequada nem da experiência sensível.
Agora,quantoàseçãointituladaDasoutrasqualidadesdenossasideiasdeespaçoetempo
(Seção III),Humebuscaampliarsuainvestigaçãoempíricaepsicológicaaindasobreasnoções
de espaço e tempo, examinando características adicionais dessas ideias que vão para além do
conceito de divisibilidade. Nessa investigação ampliada, Hume volta-se para os aspectos
positivos, estruturantes e operacionais do modo como concebemos o espaço e o tempo,
considerando suas origens, seus limites e suas implicações cognitivas. Nisso, em um primeiro
momento, ao considerar a origem das ideias de espaço e tempo, Hume reafirma seu princípio
fundamental(istoé,quetodasasideiasderivamdeimpressões)paraque,nocasodoespaçoedo
tempo, possa dizer que tais ideias têm origem nas impressões do sentirexterno(comovisãoe
tato)etambémemimpressõesinternas(comoasucessãodasideiasnamente).Diantedisso,para
nosso filósofo, a ideia de espaço não nasce senão da apreensão da disposição de objetos
76
Aqui, sobre ficções que criam ilusões de profundidade, Hume critica fortemente tais ilusões,Ibidem, p. 57-59).
49
sensíveis; a de tempo, da apreensão da sequência de nossas experiências77. Isso significa que,
segundo o pensamento de Hume,oespaçoeotemponãosãoformasdasensibilidadeapriori,
comopensouKantanosdepoisdapublicaçãodoTratado,masformasderivadasdaexperiência
sensível78 e organizadas pela imaginação e pela memória.
Em seguida, quanto à inseparabilidadedoespaçoedacor(ouqualidadesensível),Hume
nos destaca uma característica essencial de nossas percepções espaciais, qual seja, não
percebemosoespaçopuroouvazio.Masoqueistoquerdizerpropriamente?Paranossofilósofo
empirista,todapercepçãodeextensãoestásempreassociadaaalgumaqualidadesensível,istoé,
umacor,umatextura,umsom79;nisso,segundoopensamentodeHume,aideiadeespaçonunca
aparece isolada, masemconjuntocomqualidadesparticulares,comoumcampodecorousom
com extensão. Tal constatação reforça a tese de nosso autor de que a mente só trabalha com
conteúdosderivadosdaexperiência,equeaabstraçãodeumespaçovazioéumaficçãodarazão,
não uma ideia legítima derivada de alguma impressão80. Nesse sentido, Hume busca lidar
também com a ideia de tempo emparelhada a sua dependência da mudança, istoé,paraele,a
77
Quantoaestetrecho,sobreaorigemdasideiasdeespaçoetemponasimpressões,Humeafirmouoseguinte:“A
ideia de espaço é transmitidaàmentepordoissentidos,avisãoeotato;nadajamaispareceráextensosenãofor
visível ou tangível. A impressãocompostaquerepresentaaextensãoconsisteemváriasimpressõesmenores,que
sãoindivisíveisaoolharouaotato,equepodemserdenominadasimpressõesdeátomosoucorpúsculosdotadosde
cor e solidez.” (HUME, 2009, p. 64); e mais, ele também colocou que tal “ideia tem de ser derivada de uma
sucessãodeobjetosemmudança.Emsuaprimeiraaparição,otemponãopodeserseparadodetalsucessão.[...]A
ideia de tempo não é derivada de uma impressão particular misturada a outras, das quais seria claramente
distinguível. Ela surge exclusivamente da maneira como as impressões aparecem à mente, sem ser uma delas.”
(HUME, 2009, p. 62-63).
78
Aqui,sobreespaçoetemponãoserementidadesdadasapriori,Humeafirmaque“essaideiatemdeserderivada
deumasucessãodeobjetosemmudança.Emsuaprimeiraaparição,otemponãopodeserseparadodetalsucessão.
[...] O tempo, [...] uma vez que não aparece como uma impressão primáriadistinta,nãopodeevidentementeser
outra coisa quediferentesideias,impressõesouobjetos,dispostosdeumacertamaneira,istoé,sucedendo-seuns
aosoutros.”(HUME,2009,p.62-63).Nisso,aoestabeleceranaturezaderivadadoespaçoedotempo,eletambém
nosexpõeque“asideiasdeespaçoetempo[...]nãosãoideiasseparadasoudistintas,massimplesmenteideiasda
maneira ou ordem como os objetos existem. Em outras palavras, é impossível conceber seja um vácuo e uma
extensãosemmatéria,sejaumtempoemquenãohouvenenhumasucessãooualteraçãoemumaexistênciareal.”
(HUME, 2009, p. 66,grifo nosso).
79
ParaHume,sobrenãopodermosperceberoespaçopuroouvazioesobreopapeldaimaginaçãonaorganização
das percepçõessensíveis,podemoscitardiretamenteque,conformenosexpôsarespeitodainseparabilidadeentre
espaçoequalidadessensíveis,“nãoéprecisoapenasqueessesátomossejamcoloridosoutangíveisparaquepossam
semostraranossossentidos;éigualmentenecessárioquepreservemosaideiadesuacoroutangibilidadeparaque
ospossamoscompreenderpormeiodenossaimaginação.Somenteaideiadesuacoroutangibilidadepodetorná-los
concebíveispelamente.Sesuprimirmosessasqualidadessensíveis,taisátomosserãointeiramenteaniquiladospara
opensamentoouimaginação.”(HUME,2009,p.64-65);emais:“Ora,taisaspartes,talotodo.Seumpontonãofor
considerado colorido ou tangível, ele não poderá nostransmitirnenhumaideia;e,comoconsequência,aideiade
extensão,queécompostadasideiasdessespontos,jamaispoderáexistir.Masseaideiadeextensãorealmentepode
existir (e temos plena consciência de que o pode), suas partes também têm de existir; e, para isso, devem ser
consideradas como coloridas ou tangíveis.Portanto,sópossuímosideiadeespaçoouextensãoseoconsideramos
como um objeto de nossa visão ou de nosso tato.” (HUME, 2009, p. 65).
80
Neste ponto, sobre a abstração de um espaço vazio como ficção para Hume, podemos dizer que, “em outras
palavras, é impossível conceber seja um vácuo e uma extensão sem matéria, seja um tempo em que nãohouve
nenhuma sucessão ou alteração em uma existência real”. (HUME, 2009, p. 66).
50
ideia de tempo pressupõe mudança ousucessão,pois,segundosuaconcepção,nãopoderíamos
conceberotemposenãohouvessevariaçãodeleounele81.Assim,seguindoHumebemdeperto,
o tempo só seria perceptível porque uma percepção sucede à outra; em uma experiência
completamente estática não haveria consciência do tempo82 enquanto passando de um estágio
paraoutro.Nessecaso,paraofilósofoescocês,aideiadetemposeriadesdesempreinseparável
daexperiênciademudança,enossapercepçãodaduraçãoestariasemexceçãoligadaaonúmero
desucessõesmentais83 quepoderíamosvirafazer(comobatidas,pulsações,movimentos),nãoa
uma substância temporal em si.
PassandoaoutracaracterísticarelevantedoargumentoelaboradoporHumequantoaesta
Seção III que estamos apurando, ele diz que, ao pensarmos a extensão do espaço e do tempo
como construções acumulativas, as ideias de espaço e tempo são sempre limitadas, e sua
ampliação se dáporjustaposiçãoouadiçãosucessivadepartes84,istoé,paraHume,nãotemos
uma ideia de totalidade espacial ou temporal infinita por intuição direta, mas a construímos
progressivamente, somando unidades perceptivas. Por meio disso, nosso filósofo mostra que
nossas ideias de grandes extensõesoulongasduraçõessão,portanto,compostasecumulativas,
não simples nem absolutas. Ora, isso seopõeàconcepçãometafísicadeespaçoetempocomo
infinitos e homogêneos desde sempre85, pois, ao tratar mais detalhadamente da faculdade da
imaginação e da memória, nosso autor enfatiza o papel das duas na construção das noções
espaciais e temporais da seguinte forma: a imaginação seria responsável por organizar as
percepções sensíveis, estabelecendo relações de posição (espaço) e de sucessão (tempo); já a
memória forneceria a continuidade necessária para representar durações ou a persistência de
81
Quantoàideiadetempopressupormudançaousucessão,Humeestabeleceadependênciadotempoemrelaçãoà
mudança,Ibidem, p. 63.
82
Emrelaçãoaotemposerperceptívelporqueumapercepçãosucedeàoutra,comaspassagensaseguir,Humenos
explica como o tempo surge da sucessão, citemo-lo: “Tendo assim descoberto que o tempo, em sua primeira
apariçãoàmente,ocorresempreemconjunçãocomumasucessãodeobjetosemmudança,eque,senãofossedesse
modo, nós nunca o notaríamos, devemos agora examinar se podemosconcebê-losemconceberumasucessãode
objetos, e se ele sozinho écapazdeformarumaideiadistintanaimaginação.”(HUME,2009,p.62);emais:“A
ideia de tempo não é derivada de uma impressão particular misturada a outras, das quais seria claramente
distinguível.Elasurgeexclusivamentedamaneiracomoasimpressõesaparecemàmente,semserumadelas.Cinco
notastocadasnumaflautanosdãoaimpressãoeaideiadetempo–emboraotemponãosejaumasextaimpressão,
queseapresentariaàaudiçãoouaalgumoutrosentido.Tampoucoéumasextaimpressãoqueamenteencontraria
dentro de si pela reflexão.” (HUME, 2009, p. 62-63).
83
Neste ponto, sobre a ideia detempoinseparáveldaexperiênciademudança,Hume(2009,p.64)estabelecena
passagemaseguirquepodemosconsiderar“pormeiodequeficçãoaplicamosaideiadetempotambémàquiloque
éimutável, supondo (comoéusual) que a duração é uma medida tanto do repousocomo do movimento”.
84
Aqui, sobre a extensão do espaço e do tempo como construções acumulativas e sobre não termos ideia de
totalidade espacial ou temporal infinita por intuição direta,Ibidem, p. 63-65.
85
Nesteponto,sobreaoposiçãoàconcepçãometafísicadeespaçoetempoinfinitosehomogêneos,Humerejeitaa
concepção metafísica,Ibidem, p. 66.
51
objetosnoespaço86.Portanto,segundoHume,espaçoetemponãoseriamestruturasexternasda
realidade,masoperaçõesinternasdamentequearticulamimpressões87,combasenosprincípios
de associação.
Nessesentido,aconclusãogeraldaSeçãoIII(daParteII),segundoopensamentodenosso
autor,édemonstrarqueasideiasdeespaçoetemposãoderivadasdaexperiênciasensível,enão
entidades metafísicas independentes; que surgem sempre associadas aqualidadessensíveis(no
casodoespaço)ouamudançassucessivas(nocasodotempo);quesãolimitadasecompostas,e
que sua ampliação se dá por adição sucessiva de partes percebidas; e que dependem da
imaginação e da memória para serem articuladas, não podendo ser concebidas como purasou
absolutas realmente. Por fim, ao pensarmos Hume com certa acuidade, o exame feito pornós
quantaaestaSeçãoIIIencaminhou-senosentidodeexporsemhesitaçãoacríticaqueelefezàs
abstrações metafísicas, reafirmando seu compromisso com uma epistemologia estritamente
empirista e psicológica, que parte da experiência real e rejeita os excessos especulativos da
razão.
Agora, ao darmos continuidade a nossa linha expositiva, falaremos sobre a Seção IV –
Resposta às objeções. Então, tal seção funciona como defesa e consolidação das teses
apresentadas nas seções anteriores sobre espaço e tempo; nela, Hume antecipa respostas às
críticas que poderiam ser feitas às suas conclusões sobre as ideias de espaço e tempo,
especialmentesuarejeiçãodadivisibilidadeinfinita,daexistênciadepontosindivisíveisreaise
daideiadeespaçooutempoabsolutoseinfinitos.Nessesentido,nossoautorempiristaprocurou
organizar ao longo da seção uma defesa profundamente metódica, visando mostrar que seus
argumentos no trecho são coerentes com a experiência, a percepção e as operações reais da
mente humana; ao passo que as objeções que aponta dependeriam de noções metafísicas sem
base empírica clara.
Nisso, ao defender a ideia de pontos e instantes como limites da percepção, Hume
condicionou uma de suas primeiras objeções ao seguinte caminho depurativo, a saber, se
afirmarmosqueespaçoetemposãoconstituídosporpartesfinitasperceptíveis,issoimplicariaa
existência de pontosindivisíveisreais,oqueparececontradizeracríticaàmetafísicafeitapor
86
Neste trecho, que diz respeito ao papel da memória em fornecer-nos continuidade sobre o que se dá, Hume
esclarece como a memória atua para nossa concepção do tempo,Ibidem, p. 63.
87
Aqui,sobreespaçoetemponãoseremestruturasexternasdarealidade,Humeestabeleceuqueasideiasdeespaço
etemponãoseriam“ideiasseparadasoudistintas,massimplesmenteideiasdamaneiraouordemcomoosobjetos
existem”. (HUME, 2009, p. 66); para mais, ele escreve que “o tempo, [...] uma vezquenãoaparececomouma
impressão primária distinta, não pode evidentemente ser outracoisaquediferentesideias,impressõesouobjetos,
dispostos de uma certa maneira, isto é, sucedendo-se uns aos outros”. (HUME, 2009, p. 62-63).
52
ele.Àluzdisso,nossofilósofoafirmouprontamentequeospontos(noespaço)eosinstantes(no
tempo)nãosãoentidadesreaisexistentesporsi,massimlimitesdapercepção88,istoé,elesnão
são partes de uma realidade objetiva, mas marcadores psicológicos, sinais de que apercepção
atingiu seu mínimo possível89. Portanto, para Hume, não se trataria de afirmar a existênciade
átomos espaciais ou momentosabsolutos,masapenasdereconheceroslimitesoperacionaisda
imaginação e do sentir90.
Alémdisso,aosevoltaraindamaiseminentementeparaacríticaàideiadeespaçoetempo
absolutos, o empirista escocês também buscou responder à tese – típica do racionalismo e da
física newtoniana – de que espaço e tempo só poderiam existir independentemente da
experiência sensível, como meios infinitos nos quais os corpos e os eventos se situam. Ora,
Hume rejeitou a ideia em proeminência combaseemseuprincípiofundamentaljásupracitado
algumasvezes.Comefeito,segundosuasideias,nãotemosaimpressãodoespaçooudotempo
enquantoentidadesabsolutaseindependentes,nãotemosideialegítimadetalcoisa;anoçãode
espaço e tempo absolutos é, segundo nosso filósofo, um produto da abstração indevida e da
extrapolação de operações úteis da linguagem matemática91, mas que não encontra nenhum
respaldonaexperiênciahumanareal.Daípensando-seaideiadecontinuidadeversusaideiade
divisão infinita do espaço-temporalidade, Hume vai de encontro a seguinte questão pivô: Ao
negar a divisibilidade infinita, não estaríamos negando a continuidade do espaço e do tempo?
Pois bem, ele responde a colocação acima dizendo que a continuidade percebida é uma
impressão da imaginação, mas não uma realidade física infinitamente estruturada92, isto é, a
mente constrói a ideia de continuidade apartirdeumajustaposiçãodepartespercebidascomo
conectadas93.Nisso,talcontinuidade–diga-sedepassagemevoltando-semaisàfrentenolinha
históricadafilosofia–,éfenomenaloufenomênica,nãopropriamenteontológica,ouseja,oque
percebemoscomocontínuoé,naverdade,umasequênciadepartessuficientementeunidaspara
quenãonotemosatransiçãoentreelas94 eque,porvezes,cometamosoequívocodeastomarmos
88
Neste trecho, sobre pontos e instantes comolimitesdapercepção(enãocomoentidadesreais),Humenosfala
acerca dos limites da percepção,Ibidem, p. 70.
89
Aqui, sobre pontos como marcadores psicológicos, não partes da realidade objetiva,Ibidem.
90
Ora, quanto ao não afirmar a existência de momentos absolutos e sobre espaçoetempocomoconstruçõesda
mente baseadas em percepções finitas, Hume esclarece a natureza das partes indivisíveis (como até mesmo os
verdadeiros fundamentos das ideias de extensão e duração),Ibidem, p. 65-66.
91
Aqui,sobreespaçoetempoabsolutoscomoprodutodeabstraçãoindevida(emquetambémdeterminadasideias
podem nos ajudar a pensar a divisibilidade infinita como não tendo fundamento empírico) esobredeterminadas
teses explicarem de forma mais simples e coerente os fenômenos, Hume fala criticamente sobre as abstrações
matemáticas,Ibidem, p. 71.
92
Neste ponto, sobre a continuidade percebida como impressão da imaginação,Ibidem,p. 73.
93
Sobre a mente construir a ideia de continuidade por justaposição,Ibidem,p. 70.
94
Ora, ao perceber como contínuo uma sequência de partes unidas, Hume nos explica a impossibilidade de
percebermos partes infinitamente divisíveis,Ibidem, p. 72.
53
algo que poderia exigir a existência de infinitas divisões reais. Por isso, em sua defesa da
autoridadedaexperiênciasobreaabstração,Humeinsistequesuaabordagemestáenraizadana
experiência direta e na análise psicológica, enquanto as objeções dependeriam de construções
abstratas que extrapolam os dados da percepção.
Paranossoautor,muitoserrosfilosóficosnascemjustamentequandosedáàimaginaçãoo
poderdelegislarsobrearealidade,semsubmetersuascriaçõesàverificaçãosensível95.Oâmbito
mental, segundo Hume, ao criar conceitos como tempo absoluto, espaço puro ou divisões
infinitas, rompe com a base empírica do conhecimento e produz ficções metafísicas sem
validade96. Nisso, ao ponderarmos a clareza e a economia de seu sistema, precisamos ainda
mencionarque,emborasuastesescontrariemosensocomumouasdoutrinastradicionais,Hume
conclui que elas explicam de forma mais simples e coerente os fenômenos da percepçãoedo
pensamento humano. Se suas ideias parecem contraintuitivas, é porque estão em conflitocom
hábitosmentaisenraizados,nãocomarealidadeobservável97.Porisso,paraoempiristaescocês,
sua explicação dos conceitos de espaço e tempo – como formados por percepçõescompostas,
limitadas e organizadas por hábito – é mais fiel à natureza humana do que os sistemas
metafísicos abstratos.
Nesse sentido, a Seção IV da Parte II fez-se enquanto defesa firme da metodologia
empírica denossofilósofoempiristadiantedepossíveisobjeçõesmetafísicas.Ora,nestaseção,
ele afirmou que espaço e tempo, comoosconcebemos,sãoconstruçõesdamentebaseadasem
percepções finitas, e que ideias como divisibilidade infinita, espaço absoluto ou tempo
independentedamudançanãotêmfundamentoempírico.Eletambémafirmouqueaexperiência
sensível, os limites pelos quais passam nossa percepção e os hábitos da imaginação são os
verdadeirosfundamentosdasnossasideiasdeextensãoeduração.Portanto,Humeconsumasua
críticaàsdoutrinasespeculativassobreespaçoetemporeafirmandoseucompromissocomuma
filosofiaancoradanarealidadehumanadapercepção,damemória,daimaginaçãoedohábito–
em oposição aos sistemas metafísicos que buscam ignorar a mente em seu sentido concreto.
Passando a outro ponto relacionado, consideremos agora a Seção V – Continuação do
mesmo tema.Naseçãoemquestão,vemosprosseguireconcluir-seoexamedeHumeàsideias
tradicionais sobre espaço e tempo, abordando objeções residuais e refinando argumentos
95
Quanto a este ponto, sobre erros filosóficos nascendo quando a imaginação é utilizada para legislar sobre a
realidade,Ibidem, p. 69.
96
Aqui, sobre noções como tempo absoluto e espaço puro romperem com a base empírica, Hume denuncia as
ficções de cunho puramente metafísico,Ibidem.
97
Neste ponto, que trata sobre ideias contraintuitivas estarem em conflito com hábitos mentais,Humecriticaos
hábitos mentais escolásticos,Ibidem, p. 70-71.
54
positivossobretaisobjeções.Disso,nossoautorprocurareforçarvigorosamenteatesedequeo
espaçoeotempo,talcomoconcebidospelamentehumana,sãoprodutosfinitosecompostosda
experiência sensível e que qualquer suposição sobre infinitude, divisibilidade infinita ou
existência independente de espaço e tempo é ilegítima do ponto devistaempírico98 –comojá
mencionado.
Nisso, ao esclarecer melhor sobre a continuidade e a composiçãodoespaçoedotempo,
Hume revisita a noção de continuidade, reconhecendo que nossas percepções do espaço e do
tempoaparecemcomocontínuasparaaconsciênciacomum.Noentanto,eleinsistequeissonão
implicaria que o espaço ou o temposejamcompostosdepartesinfinitamentenumerosasoude
umasubstânciacontínuareal.Acontinuidade,segundoHume,éumefeitopsicológico,emquea
menteligapercepçõessensíveisdiscretasdemaneiratãosuaveehabitualqueapassagementre
elas não é notada99. Para nosso filósofo, o espaço e o tempo percebidos por nós seriam
compostos de partes finitasqueaimaginaçãoconectasemperceberdevidamenteasseparações
ou transições100. Apartirdisso,narecusadehipótesesmetafísicassobreaextensãoeaduração
em sentido puro, Hume passa a valer-se novamente de uma rejeição a qualquer tentativa de
postular espaço e tempo como existindo por si mesmos, independentemente de objetos ou
sucessões perceptíveis de tais objetos. Nisso, para ele, não poder-se-ia ser afirmado que há
espaçosemextensãosensível(cor,forma,textura),nemtemposemmudançapercebida101,posto
queaexistênciadeespaçoetempoestariaminseparáveisdapercepçãodequalidadessensíveise
da sucessão de impressões. Para nosso filósofo escocês, eles (o tempo e oespaço)nãoseriam
meiosnosquaisascoisasestariamouaconteceriamprecisamente,masformascompostasapartir
da experiência das qualidades e dos eventos verificavelmente perceptíveis102.
98
Aqui, sobre a ideia de espaço nãosersenãoaideiadepontosvisíveisdistribuídossegundoumacertaordeme
sobre respeitar os limites da experiência sensível,Ibidem, p. 81.
99
Aqui,sobreacontinuidadecomoefeitopsicológicoesobreamenteoperarcomimpressõescompostaselimitadas
(bemcomosobreacontinuidadepercebidaserefeitodehábitomental),Humeexplicadetalhadamenteomecanismo
psicológico da continuidade,Ibidem, p. 88-89.
100
Quanto a este ponto, sobre oespaçoeotempocomocompostosdepartesfinitasconectadaspelaimaginação,
Hume estabelece que as percepções são simples e indivisíveis,Ibidem, p. 85.
101
Neste ponto, a respeito de nãohaverespaçosemextensãosensível,Humenegaaexistênciadeumespaçoem
sentido puro com as seguintes passagens: “[...] pode-se pensar que existe aqui um vácuo ou extensão pura, não
apenas inteligível à mente, masevidenteparaosprópriossentidos.”(HUME,2009,p.81);emais:“Esseénosso
modomaisnaturalefamiliardepensar;masumapequenareflexãonosensinaráacorrigi-lo.Podemosobservarque,
quandodoisobjetosseapresentamláondeanteshaviaumatotalescuridão,aúnicamudançaquesepodedescobrir
estánaapariçãodessesdoisobjetos;todoorestocontinuacomoantes:umaperfeitanegaçãodaluzedetodoobjeto
colorido ou visível. Isso vale não apenas para aquilo que se pode considerar distante desses corpos, mas paraa
própria distância entre eles – e esta não é senão a escuridão ou negação da luz, sem partes, sem composição,
invariável e indivisível.” (HUME, 2009, p. 85).
102
Sobre espaço e tempo não serem meios independentes e sobre se recusar definitivamente espaço e tempo
absolutos, Hume explica mais claramente a relação entre distância e objetos sensíveis: “Mas, embora nem o
movimento nem a escuridão, quer quando isolados, quer quando acompanhados de objetos tangíveis e visíveis,
possam nos transmitir qualquer ideia de um vácuo ou de uma extensão sem matéria, elessãoascausasquenos
55
Sendo assim, segundo Hume, ao nos voltarmos com profundidade para o papel da
imaginação e da linguagem na construção de conceitos equivocados103, isto é, ao nos
direcionarmos à relação da imaginação com os hábitos linguísticos na formação de noções
errôneas, podemos destacar que, para o escocês, a imaginação, ao perceber a regularidade na
justaposição de partes sensíveis, criaria em nós a ilusão de continuidade absoluta104;poroutro
lado,alinguagem,aofalardeespaçoetempocomoentidadesseparadas(porexemplo,aodizer
que o espaço se estende ou o tempo passa), reforça-nos-ia a ilusão metafísica que converte
operações mentais em supostas realidades independentes105. Portanto, a confusão entre nossas
operaçõesmentaisearealidadeexternaé,segundoHume,afontedacrençainfundadanainfinita
divisibilidade ou na substancialidade do espaço e do tempo106.
Nisso,aobuscarumavisãocoerenteeempíricadamentehumana,Humepropõe,aofinal
daseçãoemquestão,umaimagemconcisadofuncionamentodamente,emque,aocompreender
que a faculdade do entendimentonãopercebequalidadesmetafísicascomoinfinitude,absoluta
continuidade ou espaço/tempo puros, operacomimpressõescompostas,limitadas,organizadas
por hábitos associativos, que criam as aparências de extensão e duração; para ele, toda
extrapolação para além disso seria fruto da imaginação não controlada ou de abstrações
linguísticasindevidas.Suaabordagem,portanto,respeitaoslimitesdaexperiênciasensíveleda
capacidade real da mente humana, evitando cair nos excessos especulativos da metafísica
tradicional que, em sua época, ele combateu com máxima veemência.
Porfim,aonosencaminharmosàconclusãodenossaSeçãoV,vemosqueHumeconsolida
suas concepções sobre o espaço e o tempo como realidades mentais compostas, surgidas da
experiênciasensível.Comisso,elerecusadefinitivamenteanoçãodeespaçoetempoabsolutos,
infinitos ou independentes da percepção; reafirmaqueacontinuidadepercebidaéumefeitode
hábito mental, não uma realidade obscura ou enigmática em sentido metafísico; busca
levam a imaginarfalsamentequesomoscapazesdeformartalideia.Poisexisteumarelaçãoestreitaentre,deum
lado,talmovimentoeescuridãoe,deoutro,umaextensãorealoucomposiçãodeobjetosvisíveisetangíveis.[...]
Em outras palavras, uma distância invisível e intangível pode se tornar uma distância visível e tangível, sem
nenhuma mudança nos objetos distantes.” (HUME, 2009, p. 86-87).
103
Aqui, ao falarmos mais propriamente sobre a semelhança como fonte de erros filosóficos,Ibidem, p. 89.
104
Quanto à imaginação criarailusãodecontinuidadeabsoluta,Humeexplicatalconfusãoentreosdoistiposde
distância de maneira patente,Ibidem, p. 87-88.
105
Aqui, sobre a linguagem reforçar a ilusão metafísica e sobre extrapolações serem fruto da imaginação não
controlada (ou as extrapolações serem ilusões produzidas por linguagem inadequada), Hume coloca (ou melhor
denuncia o abuso da linguagem no seguinte sentido): “[...] é muito comum queoshomensutilizempalavrasem
lugardeideiase,emseusraciocínios,falemaoinvésdepensar.Utilizamospalavrasemlugardeideias,porqueelas
normalmente estão conectadas de forma tão estreita queamenteasconfundecomfacilidade.Eessatambéméa
razãodeutilizarmosaideiadeumadistânciaquenãoéconsideradanemcomovisívelnemcomotangível,porque
ela está tão estreitamente relacionada com ambas.” (HUME, 2009, p. 89).
106
Sobreaconfusãoentreoperaçõesmentaiserealidadeexterna,emqueHumedistingueentreofenômenoesuas
causas,Ibidem, p. 88.
56
demonstrar que nossos conceitos de extensão e duração são limitados, compostos e mediados
pela imaginação107, e que extrapolações além disso são ilusões produzidas por linguagem
inadequada e abstração excessiva. No mais, Hume encerra sua análise do espaço e do tempo,
mantendo-se fiel a seu programa filosófico, qual seja, construir uma teoria do conhecimento
analisandoaestruturarealdamentehumana,baseadaempercepção,hábitoeimaginação–enão
ancorado em um nebuloso racionalismo.
Seguindo nosso fluxo expositivo, quanto a Seção VI – Da ideia de existência e de
existênciaexterna,Humevoltouseuexameparaduasideiascentraisedelicadas,quaissejam,a
ideia de existência em si e a ideia de existência externa. Pois bem, a proposta da seção
encaminhou-se no sentido de entendermos como essas ideias surgem, se têm fundamento
empírico legítimo, qual éopapeldapercepção,daimaginaçãoedohábitoemsuasformações.
Tal reflexão funcionou para Hume como um fecho da análise das ideias de espaço e tempo,
ampliando seu exame acerca das noções que podem extrapolar a experiência direta da realidade.
Para nosso filósofo, a ideia deexistênciacomoinseparáveldapercepçãocomeçaquando
estabelecemos que não existe uma ideia separada de existência enquanto propriedade distinta
adicionada a uma percepção ou objeto108.Paraele,quandopercebemosumacor,umsom,uma
forma, não percebemos uma cor existente ou um som existente como algo adicional –
percebemos simplesmente a cor, osom,aforma109.Assim,paraoautorempirista,existirnãoé
umaqualidadesuplementar,masésimplesmenteapresençadapercepçãoquetemos;aideiade
existência, portanto, não é diferente da impressão ou da ideia da coisa mesma110. Ora, para
Hume, não temos uma impressão separada deexistirpara além das impressões sensíveis.
Nessesentido,emsuacríticaàexistênciacomoatributoadicional,Humerejeitouanoção
metafísica de que possamos conceber a existência como uma propriedade que se acrescenta a
107
Aqui,Humeestabelece“[...]trêsrelaçõesentreaqueladistânciaquetransmiteaideiadeextensãoe[uma]outra,
q ue não é preenchida por nenhum objeto colorido ou sólido” (HUME, 2009,p.87).Nessesentido,paraele,“os
objetos distantes afetam os sentidos da mesma maneira, não importando qualdasduasdistânciasossepara.[Por
outrolado]asegundaespéciededistânciasemostracapazdeacolheraprimeira;eambasdiminuemigualmentea
forçadetodasasqualidades”(HUME,2009,p.87).Ora,issomencionadopornossoautorempiristaindicaqueos
conceitos de extensão e duração culminam em uma noção limitada e composta.
108
Nesteponto,sobreaideiadeexistênciacomoinseparáveldapercepção,Humeestabelecesuatesefundamental
sobre a existência,Ibidem, p. 94.
109
Aqui,sobreexistirnãoserumaqualidadesuplementar(oumelhor,sobreelenãoserumapropriedadedistintada
percepção)esobreconceberumacoisajáserconcebê-lacomoexistente,Humeafirmaqueaexistêncianãoéuma
qualidade adicional,Ibidem.
110
Nestetrecho,sobreaideiadeexistêncianãoserdiferentedaimpressãooudaideiadacoisamesmaousobrea
existêncianãoserumconceitoqueadicionamosaumaideia,podemosdizerqueHumenosexpõeque“[...]embora
todaimpressãoeideiadequenosrecordamossejaconsideradacomoexistente,aideiadeexistêncianãoéderivada
de nenhuma impressão particular” (HUME, 2009, p. 94).
57
uma ideia ou a um objeto111, posto que, se a existência fosse uma propriedade separada,
poderíamos conceber um objeto sem existência (um círculo sem ser) da mesma maneira que
concebemosumcírculosemcorespecífica.Contudo,issonãoacontece,oumelhor,paraHume,
conceber uma coisa já é concebê-la como existente para a percepção. Portanto, segundo seu
empirismo,existêncianãoéumconceitoqueadicionamosaumaideia;elaésimplesmenteofato
de termos a percepção operando no que somos. Tal consideração antecipa discussões
fundamentais na história da filosofia, especialmente a objeção de Kant à prova ontológica da
existência de Deus (embora, mesmo antesdofilósofoidealista,Humeatenhafeitodemaneira
ainda mais radical em seu empirismo).
Quanto à existência externa, em relação à formação da crença em um mundo fora da
mente,depoisdediscutiraexistênciaemgeral,Humepassaparaaideiadeexistênciaexternaou
a crença de queascoisasexistemindependentementedanossapercepçãodelas.Nessadireção,
ele afirma que, no uso cotidiano, não distinguimos entre o que percebemos e o que dizemos
existirexternamente.Nãopercebemosdiretamenteaexistênciaexternadosobjetos;naverdade,
o que experimentamos são impressões sensíveis (formas, cores, texturas) que aparecem
regularmenteedeformarelativamenteconstante112.Ora,paraHume,acrençaemumarealidade
externa não origina-se de uma impressão específica que temos, mas é o resultado de certos
hábitosmentaisquedispomos,baseadosnaconstânciaeregularidadedasimpressões113.Porisso,
segundo nosso filósofo, quandopercebemosqueobjetospersistememnós,mesmoquandonão
estamosolhandodiretamenteparaeles(porexemplo,umamesaqueencontramosondedeixamos
para trás em nosso campo de visão de outrora), nossa mente tende a associar a ideia de uma
existência independente das impressõesquetivemosinicialmente,nãopordeduçãológica,mas
por hábito psicológico.
Diantedisso,aobuscarmospensaropapeldaconstânciaedacoerêncianaspercepçõesque
temosoupodemosadquirir,Humeaindaexpõequeamenteformaaideiadeummundoexterno
porque:primeiro,tendemosaobservarconstâncianomundo,oumelhor,temosatendênciaaver
111
Hume rejeita a existência como propriedade adicional dizendo que “quem se opuser a isso deverá
n ecessariamente apontar a impressão distinta de que deriva a ideia de entidade, e provar que essa impressão é
inseparável de toda percepção que acreditamos ser existente. Mas podemos concluir, sem hesitar, que isso é
impossível.” (HUME, 2009, p. 95).
112
Aqui, sobre não percebermos diretamente a existência externa dos objetos, Hume estabelece um princípio
importantíssimo,asaber:“Podemosobservarquetodososfilósofosadmitem,ealiásébastanteóbvioporsisó,que
nadajamaisestápresenteàmentealémdesuaspercepções,istoé,suasimpressõeseideias;equesóconhecemosos
objetos externos pelas percepções que eles ocasionam. Odiar, amar, pensar, sentir, ver – tudo isso não é senão
perceber.” (HUME, 2009, p. 95).
113
Nesteponto,sobreacrençaemumarealidadeexternanãooriginar-sedeumaimpressãoespecífica(oumesmo
ser um fenômeno psicológico inevitável) e sobre a crença na existência externanãoserprodutodarazão,Hume
descreve os limites da imaginação e explica os limites de nossas percepções,Ibidem, p. 95.
58
certosobjetoscomomantendo-seestáveisaolongodotempo(comoumamontanha,umrio,uma
casa); segundo, tendemos a perceber coerência naquilo que observamos, isto é, ao termos
diferentes percepções, tendemosaharmonizá-lasdealgumaforma,reforçandoaexpectativade
regularidade nas coisas observadas por nós. Nisso, para Hume, a partir dessas experiências, o
hábitomentalpodenoslevarasuporqueháalgoalémdaspercepçõesimediatas,algoqueexiste
de maneira independente de nossas percepções, mesmo quenãotenhamosnenhumaimpressão
direta desse algo que qualificamos enquanto existência externa.
Além disso, ao se perguntar sobre a existência externa como uma crença natural (não
racional), Hume enfatiza que a crença em um mundo externo não é produto da razão ou da
inferênciademonstrativa,ouditodeoutromodo,elanãoprovémdeumargumentológicoenem
se baseia em nenhuma prova empírica isolada. Na verdade, segundo Hume, ela é um efeito
naturaldofuncionamentodamente,umprodutodocostumeedaimaginaçãoassociativa114,que
sãoosmesmosprincípiosqueexplicamoencadeamentoentreideias,aformaçãodeexpectativas
e a crença na causalidade. Porisso,paraHume,acrençanaexistênciaexternanãoésenãoum
fenômeno psicológico inevitável, mas não logicamente garantido.
Ademais,aapreciaçãoacercadasideiasdeespaçoetempo(SeçõesI–V)nosmostrouque,
segundo o empirismo humeano, nossas noções de continuidade e divisibilidade são formas
psicológicas construídas pela percepção e pela imaginação. Não obstante, nesta última seção,
Humeestendesuacríticaànoçãodeexistência(emgeral)edeexistênciaexterna(emparticular)
discorrendo que ambas são efeitos de operações habituais da mente, e não de conhecimentos
baseados em impressões específicas ou raciocínios demonstrativos infalíveis. Nesse sentido,
podemos dizer que Hume radicalizou sua apreciação empirista ao considerar que o existir de
algonãosejaumapropriedadedistintadapercepção,ouseja,eleéapercepçãomesma.Aliás,a
ideia de existência externa pensada como um hábito psicológico, fundada na constância e na
coerência das impressões, e não em uma demonstração racional, faz tanto doespaçocomodo
tempo pensados pelo autor, bem como da noção de existência e mundo externo, modos de
organização da experiência sensível feitos pela mente, e não revelações de uma realidade
metafísica independente115.
114
Nestetrecho,sobreacrençanaexistênciaexternacomoprodutodocostumeedaimaginaçãoesobreadistinção
e ntrepercepçãoeexistênciaexterna,Humeexplicadetalhadamenteaformaçãodaideiadeobjetosexternos,Ibidem,
p. 95-96.
115
Nessa nossa última nota deste parágrafo, sobre existência e mundo externo como formas de organização da
experiência,Humenosindicasuasconclusões,asaber:“Taléouniversodaimaginação,enãopossuímosnenhuma
ideiasenãoasquealiseproduzem”(HUME,2009,p.95);e“odiar,amar,pensar,sentir,ver–tudoissonãoésenão
perceber” (HUME, 2009, p. 95).
59
Porfim,comnossaanálisedesteúltimotrechodaParteIIdoLivroI,finalizamosalgumas
das principais considerações de Hume sobre o papel das nossasexperiências,nossascrençase
nossasmaisbásicasconcepçõesderealidadeenquantoprodutosdapercepção,daassociaçãoedo
hábito, e não de um acesso racional a essências transcendentes.
2.4. O ultrapassamento do dado enquanto gênese sem sujeito: a transcendência e os
processos imanentes das afecções e dos princípios na imaginação
Ainvestigaçãodetalhadadasideiasdeespaçoetempo,conformedesenvolvidaporHume
naParteIIdeseuTratado,culminaemumaconclusãodeprofundaimportânciaparaaciênciada
naturezahumana,qualseja,ascoordenadasfundamentaisdanossaexperiêncianãosãoentidades
absolutasouformasapriori,massimmodosdaimaginação.Nisso,aodesnaturalizaroespaçoe
otempo,expondo-oscomoconstruçõesderivadasdamaneiracomoamenteorganizaasucessão
eajustaposiçãodasimpressõessensíveis,Humeposicionouaimaginaçãonãoapenascomouma
faculdade entre outras, mas como a instância crucial que tece a própria estrutura do mundo
percebido.Portanto,paraele,podemosdizerqueoespaçoeotemponãosãosenãooprodutode
uma síntese operada pela imaginação a partir do fluxo de percepções.
Contudo,taldescoberta,aoinvésdeencerraraquestão,abriuumnovoemaisvertiginoso
campo de investigação, em que se a imaginação é poderosa o suficiente para construir as
próprias condições da experiência, como ela opera para nos permitir ir além do que é
imediatamentedado?Ora,deHumeparaDeleuze,temosqueavidahumananãoseresumiriaa
registrar percepções em um quadro espaço-temporal; na verdade, ela consiste, precipuamente,
em ultrapassar o dado: em crer na existência de objetos quenãovemos,eminferirofuturoa
partir do passado, em inventar regras e em sentir paixões que nos projetam para além de nós
mesmos. Daí precisamos nos perguntar: Se a imaginação constrói o palco, como ela também
dirige apeçaquenelesedesenrola,umapeçaqueconstantementeexcedeoslimitesdocenário
visível?
Éprecisamenteessaquestãoquenosmovenestetrecho(sobreoultrapassamentododado
enquantoumagênesesemsujeito).Assim,nossasconsideraçõesaseguiraprofundamopapelda
imaginação, mostrando-a não apenas como uma construtoradecondições,mascomooterreno
emqueosprincípiosdanaturezahumana–associaçãoepaixão–atuamcomoforçasimanentes.
Veremos que a imaginação,emseuestadobruto,éumfluxodelirante,equeésomenteatravés
das afecções e dos processos de síntese impostos por esses princípios que ela se qualifica,
organiza-se e permite a emergência do sujeito como um efeito. O ultrapassamento do dado,
portanto,nãoserácompreendidocomooatodeumsujeitotranscendentalqueseelevaacimada
60
experiência, mas como um processo paradoxalmente imanente, uma transcendência no
imanênciaque constitui o sujeito na própria prática de ir além do que é ou está dado.
Assimsendo,nestemomentodenossotrabalho,temosumaprofundamentodaarticulação
entre a concepção empirista de Deleuze (em conformidade com o pensamento humeano) e a
constituição do sujeito como efeito116. Paratanto,emsualeituradaobradeHume,entreoutras
coisas,Deleuzesugereque,emseuprojetodeestabelecerumaverdadeiraciênciadohumano,a
filosofiafoilevadaasedepararcomumaescolhafundamentalemfavordedefinirsuatrajetória
enquanto disciplina. Já no começo de Empirismo e subjetividade, Deleuze nos aponta em que
consistiria tal escolha, a saber, uma substituição radical: abandonarumapsicologiadoespírito
em prol de umapsicologia das afecções do espírito.
Em certo sentido, a primeira (a psicologia do espírito), centrada na noção de um
espírito-substância (um sujeito pré-existente que possui faculdades), é declarada por Deleuze
como impossível, pois carece da constância e universalidade necessárias a umaciênciaquese
pretenda como tal (ou seja, constante e universal). A segunda (a psicologia das afecções do
espírito), aocontrário,encontraseuobjetonãonoespíritocomocausa,mascomoefeito;nisso,
segundo Deleuze, seu ponto de partida não é mais o sujeito, mas o dado:estesendo,comojá
mencionado, um fluxo caótico e movente de percepções, um conjunto de impressões e ideias
que, em seu estado bruto, é idêntico ao próprio espírito. Nesse sentido, para o pensamento
deleuziano,noplanoradicaldaimanência,aquestãofilosóficaseinverte,istoé,nãosepergunta
mais sobre as faculdades de um sujeito, mas sobre a sua gênese.Daí,paraDeleuze,aquestão
torna-se a seguinte: Como o espírito devém um sujeito possível não apenas desermeramente
considerado, mas plausível de consistência atestável na experiência que o suscita?
Pois bem, a resposta para tal pergunta reside no conceito de ultrapassamento (ou
transcendência117), compreendido por nosso autor nãocomoummovimentoparaforadoplano
116
AtesedeleuzianadequeosujeitoéumefeitofoitalvezadescobertamaisradicalqueDeleuzeatribuiuaHume
e mEmpirismoesubjetividade,etalveztambémopilardesuafilosofiaaolongodacarreiraenquantofilósofo.Em
outro termos, para Deleuze, sua descoberta advinda da filosofia humeana significou uma inversão completa da
metafísica tradicional. Nessa perspectiva, o sujeito não foi considerado como uma causa, uma origem ou uma
substância queexisteantesdaexperiência;pelocontrário,osujeitofoitratadocomooproduto,aconsequência,o
resultadodeumprocessoqueocorreinteiramentenocampodaexperiência.Emsíntese,talconcepçãolidoucoma
noçãodequesujeitonãoéumasubstânciaquepropriamentepensa(nosentidodocogito–eufechado),nemuma
entidadepré-existentepossuidoradefaculdadestambémpré-existente.Assim,podemosafirmarque,aoseguirmos
bemdepertoDeleuze,osujeitonãoéalgoquetem(ouapenastem)experiências;naverdade,eleéoqueresultada
experiência. Ele é o produto final de um processo, não seu ponto de partida.
117
Em termos deleuzianos, anoçãodeumultrapassamentocomotranscendênciadescreveoatofundamentalque
defineasubjetividade.Noentanto,Deleuzelhedáumsentidomuitoespecíficoeatéumtantoparadoxal,queprecisa
ser diferenciadodanoçãoclássicadetranscendência.Emtermosmaispalatáveis,oultrapassamento(dépassement
em francês) é o ato de ir além do dado imediato, ou melhor, éafirmar,pensarouatémesmosentirmaisdoque
aquiloqueéestritamentepercebidopelossentidosnomomentopresente.Nessesentido,agenialidadedaanálisede
61
daexperiência,mascomoumprocessoqueocorreinteiramentedentrodele,demodoqueofato
de queoserhumanoconstantementeafirmamaisdoquesabe,crênaexistênciadeobjetosnão
percebidosmaterialmenteouatémesmoinfereofuturoapartirdopassado,éumfatoempírico
(uma prática118). No entanto, temosquedeixarclaroqueoultrapassamentonãoépropriamente
obradeumsujeitoquetranscendeomundo(vistoquetranscendenomundocriadoporpotências
internas), ou seja, ele é, paradoxalmente, um ultrapassamento dado, uma afecção119, uma
impressão de reflexão, e isso quer dizer apenas que a subjetividade não é a origem desse
movimento, mas seu resultado. Assim, o ultrapassamento não é dado como ideia, mas como
afecção prática do espírito, posto que ele se produz como crença, invenção, ou mesmo como
ações imanentes que constituem osujeitonaprópriaimanênciadoprocessodeultrapassar-seo
dado. E, quanto a isso, Deleuze expõe o seguinte:
eremos que, na crença e por causalidade, o sujeito ultrapassa o dado.
V
Literalmente, ele ultrapassa aquilo que o espírito lhe dá: creio naquiloque
nemvinemtoquei.Masseosujeitopode,assim,ultrapassarodado,éporque
ele,noespírito,éantesdemaisnadaoefeitodeprincípiosqueultrapassamo
espírito, que o afetam. Antes que possa haver aí uma crença, os três
princípios de associação organizaram o dado como umsistema,impondoà
imaginação uma constância que elanãotemporsimesmaesemaqualela
jamaisseriaumanaturezahumana,atribuindoliamesàsideias,princípiosde
união, que são as qualidades originais dessa natureza e não qualidades
próprias da ideia. (DELEUZE, 2012, p. 12).
eleuzesobreHumeestáemmostrarqueesseultrapassamento,essa“transcendência”,nãoéoatodeumsujeitoque
D
seelevaacimaouparaforadomundodaexperiência;pelocontrário,éumeventoqueaconteceinteiramentedentro
do plano de imanência.
118
Estanoçãodepráticaquerdizerque,emrelaçãoàfilosofiatradicional,osujeito(oeu)foipensadocomoquem
realizaaprática(oumelhor,ohábitoacontecendoapartirdoeu).Contudo,paraDeleuze,bemcomoparaHume,a
relaçãoinverte-se,ouseja,apráticaéoqueconstituiosujeito.Nossoautorconsideraqueosujeitonãoexisteantes
doatodecreroudeinventar,vistoqueteriasuaemergênciadoeatravésdessesatos;paraele,aliás,asubjetividade
éoefeitodessaspráticas:porumlado,quandorealizamosapráticadeinferircausalmente,somosconstituídoscomo
um sujeito quecrê;poroutro,quandorealizamosapráticadeinventarregrasdejustiça,somosconstituídoscomo
umsujeitomoral.Porisso,Deleuzebuscadescreveroultrapassamentocomoalgoqueé,elemesmo,umfatodado,
mas de uma maneira diferente, isto é: ele é dado, em sentido totalmente distinto e deumaoutramaneira,como
prática – o fato empírico como prática –, como afecção do espírito, comoimpressãodereflexão(sendoestaum
sentimento, uma afecção que emerge no espírito como resultado da ação dos princípios). Em suma, o
ultrapassamento é um fato sentido, vivido, uma operação, e não um objeto contemplado.
119
AomenosnaobraEmpirismoeSubjetividade,anoçãodeafecçãonospareceserabsolutamenteimprescindívele
Deleuze a utiliza de uma maneira muito precisa e poderosa, a saber, para ele,aafecçãonãoésimplesmenteum
sinônimodeemoçãoousentimento,comopodeparecerdeantemão.ParaDeleuze,aafecçãoéopróprioprocesso
pelo qual o espíritoémodificado,qualificadoeforçadoasetornarumsujeito.Asafecções,nessesentido,sãoas
forças que nosmovemparaaação;sãoaspaixõesquenosfazembuscaroprazer,evitaradorecriarinstituições
sociais. Ora, a “desigualdade de afecção” (DELEUZE, 2012, p.32),porexemplo,éanossatendêncianaturalde
simpatizar mais com nossospróximos,umaafecçãoque,segundoDeleuze,precisasercorrigidapelainvençãoda
justiça.Arazãoeoentendimento,emúltimaanálise,estãoaserviçodessasafecçõesprimordiais,postoquerazãoé,
ela mesma, uma “afecção calma”, uma “determinação geral e calma daspaixões”(DELEUZE,2012,p.21).Em
síntese, em Empirismo e subjetividade, a afecção é o tipo de noção dinâmica que descreve o processo de
modificação do espírito pelos princípios da natureza humana. Ela é o nome do evento que transforma o fluxo
impessoal de percepções em um sujeito qualificado, passional e prático; é sinônimo do próprio processo de
constituição da subjetividade, sendo aimpressão de reflexãoa sua manifestaçãomais concreta.
62
São nas diretrizes dos pontos da citação acima que vemos queaimaginaçãoassumeseu
papel central. O espírito, em sua identidade com a coleção de ideias, é a imaginação em seu
estadomaispuroefantasista.Porsimesma,ela“carecedeconstânciaeuniformidade,[...][pois]
é [...] delirante” (DELEUZE, 2012,p.11).Ora,segundoDeleuze,paraqueessaimaginaçãose
torne uma natureza humana, para que o espírito setornesujeito,éprecisoqueelasejaafetada
por forças que a organizam e lhe impõem umaregra.Taisforçassãoosprincípiosdanatureza
humana, ou seja, os princípios de associação e os princípios da paixão. Tais princípios são a
condiçãodepossibilidadeparaaconstituiçãodosujeito,oumelhor,elesoperamumasínteseno
fluxododado,masofazemdemaneiraimanente,postoquenemdepertosãofaculdadesdeum
sujeitotranscendentalàmodakantiana120,masfunçõesquequalificamoespírito.Quantoaisso,
Deleuze expõe
egundoHume,aimaginaçãodevémumafaculdadequando,soboefeitode
S
princípios,seconstituiumaleidereproduçãoderepresentações,umasíntese
da reprodução. Onde começa a crítica de Kant? Em todo caso, Kant não
duvidaqueaimaginaçãosejaefetivamenteomelhorterrenosobreoqualse
pode colocar o problema do conhecimento. Das três sínteses que [Kant]
distingue, ele próprio apresenta-nos a síntese da imaginação comosendoo
fundo das duas outras. Mas o que Kant censura em Hume foi ter este
colocadomaloproblemasobreessebomterreno:aprópriamaneirapelaqual
Hume colocou a questão, isto é,seudualismo[atomismoeassociacionais],
obrigava a conceber o nexo entre o dado e o sujeito como um acordo do
sujeito com o dado, um acordo da natureza humana comaNatureza.Mas,
justamente, se o próprio dadonãofossedeantemãosubmetidoaprincípios
domesmogênerodaquelesqueregramaligaçãodasrepresentaçõesparaum
sujeitoempírico,osujeitojamaispoderiaencontraresseacordo,anãoserde
umamaneiraabsolutamenteacidental,enemmesmoteriaaocasiãodeligar
suas representações segundo as regras das quais, todavia, ele teria a
faculdade.ParaKant,portanto,éprecisoinverteroproblema,reportarodado
ao sujeito, conceber o acordo como um acordo do dadocomosujeito,um
acordodaNaturezacomanaturezadoserracional.Porquê?Porqueodado
nãoéumacoisaemsi,masumconjuntodefenômenos,conjuntoquesópode
ser apresentado como uma Natureza por uma síntese a priori,aqualtorna
possível uma regra das representações na imaginação empírica,mascoma
condição de constituir, primeiramente, uma regra dos fenômenos nessa
própria Natureza. Assim, em Kant, as relações dependem da natureza das
coisas no sentido de que, como fenômenos, as coisas supõem uma síntese
cuja fonte é a mesma queadasrelações.Eisporqueocriticismonãoéum
empirismo.Asimplicaçõesdoproblemaassiminvertidosãoasseguintes:há
o a priori, isto é, deve-se reconhecer uma imaginação produtiva, uma
atividade transcendental. A transcendência era o fato empírico; o
120
Com essa passagem queremos dizer propriamente o seguinte: Deleuze entende que a afecçãoéomecanismo
f undamentalparaaformaçãodasubjetividade,nãoumaemoçãoisolada,masoefeitopassivodasforçasdanatureza
humanaquequalificamoespírito.Nessesentido,elaépassiva,constituiosujeitoaoaconteceraoespírito,esemela,
a subjetividade não surge. Portanto, Deleuze critica a ideia de um sujeito transcendental, pois acredita que a
subjetividadenasceimanentementeatravésdasafecções,semrecorreraumaessênciatranscendental.Nomais,para
nosso filósofo francês, Hume já havia proposto algo que, de certo modo, seriacapazdesubverteraideiadeum
sujeito transcendental como fundamento da experiência, ou seja, “em Hume, [Deleuze afirma que poderíamos
compreender que] nada no pensamento ultrapassa a imaginação, nada é transcendental, [visto que os princípios
seriam][...]apenasprincípiosdenossanatureza,[poistornariam][...]possívelumaexperiênciasemqueaomesmo
tempo [tornassem] [...] necessários objetos para essa própria experiência.” (DELEUZE, 2012, p. 134).
63
transcendentaléoquetornaatranscendênciaimanenteaalgo=x.Ou,oque
dá na mesma, algo no pensamento ultrapassará a imaginação sem poder
prescindir dela: asínteseaprioridaimaginaçãoremete-nosaumaunidade
sintética da apercepção que a encerra. (DELEUZE, 2012, p. 133-134)
Através da passagem apresentada acima, a imaginação pode ser vista como o campo de
batalha entre Hume, Kant eaquestãodasíntese,oumelhor,apassagemabordadaporDeleuze
aponta um dos momentos mais decisivos dahistóriadafilosofiamoderna,asaber,oconfronto
entreoempirismodeHumeeocriticismodeKantsobreanaturezadaimaginaçãoesuafunção
na constituição do conhecimento. Ou seja, trata-se de uma divergência que não é meramente
técnica, mas que define duas maneiras radicalmente distintas de compreender a relação entre
sujeito e experiência, entre mente e mundo.
Nesse sentido,aobuscarmosinicialmenteopontodeconvergênciaentreosdoisfilósofos
modernos em Deleuze, vemos a imaginação como terreno fundamental. Isto quer dizer mais
propriamente que tanto Hume quanto Kant reconhecem que a imaginação éo“melhorterreno
sobre o qual se pode colocar o problema do conhecimento” (DELEUZE, 2012, p. 133). Para
ambos,elanãoéumafaculdadesecundáriaoumeramenteornamental,masonúcleomesmoda
experiência cognitiva. Em Hume, já vimos que a imaginação é inicialmente o próprioespírito
como coleção de ideias, que se torna uma faculdade quando é organizada pelos princípios de
associação,estabelecendo“umaleidereproduçãoderepresentações”(DELEUZE,2012,p.133).
Em Kant, por outro lado, a imaginação é apresentada como “o fundo das duas outras”
(DELEUZE,2012,p.133)sínteses(apreensãoerecognição121),sendoamediadorafundamental
entre a sensibilidadeeoentendimento.Entretanto,aconvergênciamencionadapornós,através
deDeleuze,camuflaumadivergênciamaisprofundasobreanaturezaeafunçãodaimaginação,
isto é, o que se coloca entre os doisfilósofosmodernosnãoéapenasumaquestãopsicológica
sobrecomoamente(espírito)funciona,masumaquestãoontológicasobreaprópriaestruturada
realidade e nossa relação com ela (que diga-se de passagem, é uma íntima relação).
121
Na obra DiferençaeRepetição,Deleuzeabordaanoçãoderecognição(oureconhecimento)deformabastante
c rítica,utilizando-aparademarcarsuadistânciadafilosofiakantianae,maisamplamente,daquiloqueelechamade
imagem dogmática do pensamento que ele busca subverter. Nisso, para nosso autor, a recognição não é uma
operação neutra ou universal da mente, mas uma compreensãoquerevelaaslimitaçõesdeumacertamaneirade
conceberoconhecimentoeosujeito.Deleuze,aoanalisarassíntesesemHume,distingueasíntesepassiva(comoo
hábitoeacrença)dasínteseativa.Énestecontextoquearecogniçãosurgecomoumaformadesínteseativa,ligada
à prova de realidade e à constituição de um eu unificadoporforçasdeconjunçõesassociativas.Sendoassim,“a
partirdasíntesepassiva,apareceumduplodesenvolvimento,emduasdireçõesmuitodiferentes.Deumlado,uma
síntese ativa se estabelecesobreafundaçãodesíntesespassivas:elaconsisteemreportaraexcitaçãoligadaaum
objeto posto como real e como termo de nossas ações (síntesederecognição,queseapoianasíntesepassivade
reprodução). É o teste derealidadenumarelação[relation]dita‘objetal’quedefineasínteseativa.”(DELEUZE,
2018, p. 138).
64
Daí,nalinhadeEmpirismoeSubjetividade,acríticadeKantsefazsobreoquepodemos
considerar como o problema do dualismo humeano. Ou melhor, a crítica de Kant a Hume,
conformeapresentadaporDeleuze,concentra-senoqueeleidentificacomoodualismodeHume
entre o atomismo e o associacionismo. Para Kant, esse dualismo força Hume a conceber o
conhecimento como um “acordo do sujeito com o dado” (DELEUZE, 2012, p. 133), ou seja,
como uma harmonia contingente entre a natureza humana e a natureza em sentido geral (que
Deleuzedescrevecomo“Natureza”).Oproblema,segundoKantaoolhosdeDeleuze,équeseo
próprio dado não fosse previamente estruturado por princípios similares àqueles que regem a
ligação das representações nosujeito,esseacordoseria“absolutamenteacidental”(DELEUZE,
2012,p.133);emoutraspalavras,seriaum“milagre”inexplicávelquenossamenteconseguisse
ser conciliada com um mundo que lhe é fundamentalmente estranho. Sendo assim, a crítica
mensurada por Deleuze revela a preocupação central de Kant, qual seja, como garantir a
universalidade e a necessidade do conhecimento? Se, como propõe Hume, a síntese das
representações é apenas um efeito dos princípios da natureza humana agindo sobre um dado
bruto e caótico, então o conhecimento seria sempre contingente, sempre dependente de uma
uníssono fortuito entre nossa constituição psicológica e a estrutura do mundo.
Nesse sentido, para Deleuze, Kant fez sua própria inversão; ora, tal inversão propôs
sairmosdosujeitoaodado,parairmosdodadoaosujeito.Equantoaisso,asoluçãodeKantnão
foi senão radical, e também inverteu completamente o problema:emvezdeperguntarcomoo
sujeitoseadaptaaodado,Kantperguntoucomoodadoseconformaaosujeito.Talinversão,que
eleprópriochamouderevoluçãocopernicana(suareviravoltaprofundanocampodafilosofia).
implicouqueodadonãoéumacoisaemsiindependente,masumconjuntodefenômenosquesó
pode ser apresentado como uma Natureza através de uma sínteseapriori.Issosignificaquea
própriaobjetividadedomundo(suaestruturacomoNaturezaregidaporleis)éoprodutodeuma
atividade sintética do sujeito transcendental firmemente concebido por Kant: as relações que
descobrimosnomundonãosãopropriedadesintrínsecasdascoisas,masestruturasqueosujeito
impõe ao dado através de suas formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e suas
categorias do entendimento.
Contudo, a consideração feitaporDeleuzearespeitodainversãoproduzidaporKantnos
leva a pensar às seguintes consequências:primeira,elaexigeoreconhecimentodeumapriori
genuíno, ou seja, estruturas que não derivam da experiência, mas que a tornam possível;
segunda,elademandaumaimaginaçãoprodutiva,umaatividadetranscendentalquenãoapenas
reproduz representações passadas (como em Hume), mas que produz ativamente asínteseque
65
constitui a própria experiência. Daí a fórmula de Deleuze é precisa: “a transcendência [para
Hume]eraofatoempírico;otranscendentaléoquetornaatranscendênciaimanenteaalgo=x
[uma variável]” (DELEUZE, 2012,p.134).Portanto,emHume,ofatodequeultrapassamoso
dado (transcendência) é um fato empírico, uma prática. Já em Kant, o transcendental é a
condição que explica como essa transcendência é possível, e essa condição é o sujeito
transcendental (o “algo = x”). À vista disso, ao tecermos um comentário crítico ainda mais
completocalcadosemDeleuze,estabelecendoasduasfilosofias(criticismoeempirismo)como
filosofias da imanência, podemos dizer que a longa citação que fizemos anteriormente é uma
passagemparticularmenteinteressante(deEmpirismoeSubjetividade)paraqueconsigamosbem
compreenderasduasestratégiasdistintasparaseresolveromesmoproblemadecomoexplicara
síntese subjetiva sem recorreraumatranscendênciametafísica.DeleuzepensaquetantoHume
quanto Kant querem manter-se no plano da imanência, mas definem esse plano de maneiras
opostas. Para Hume, a imanência significaria que tudo acontece no campo da experiência,
incluindoaprópriaconstituiçãodosujeito,ouseja,osujeitoé,nessesentido,umefeitoimanente
dosprincípiosqueagemsobreofluxodepercepções.JáparaKant,aimanênciasignificariaque
o sujeito transcendental é a condição imanente (não transcendente em sentido forte) de toda
experiência possível.
Ora,adiferençaésutil,mascrucial.SegundoDeleuze,emHume,osprincípiosdanatureza
humanapropiciamaconstituiçãodosujeito(semobjeto).EmKant,otranscendentaléopróprio
sujeitoconstituinte(sempreemrelaçãoaoobjeto).Nessesentido,paraDeleuze,adiferençaentre
os dois filósofos define duas tradições filosóficas que podem ser pensadas como uma
conjunção-disjuntiva(ouquemsabeatémesmooinverso),postoqueumapensaasubjetividade
como processo e efeito; já a outra, pensa-a como estruturaecondição.Nisso,talconsideração
nãoapenasexpõeumadivergênciahistóricaentredoisfilósofosdesumaimportânciaparanosso
trabalho e para a história das ideias, mas também mostra como a questão daimaginaçãoeda
66
síntese122 é indispensável para decidir as questões mais fundamentais sobre a natureza da
experiência e mesmo da própria realidade.
Nesse rumo, um ponto nodalparacompreenderaoriginalidadedoempirismohumeanoe
sua distinção fundamental em relação aocriticismokantiano,éoretornoàquestãomedularde
Hume (o erigir do conhecimento inevitavelmente experiencial, que nos leva à busca do
nascedouro da subjetividade), mas com uma nova chave de leitura, a saber, a constituição
processual do sujeito e a sua finalidade. Assim, quanto aos princípios constituintes do
conhecimento,HumeeKant(emdivergente-convergência)sãotratadosporDeleuzedaseguinte
maneira:nossofilósofodaimanênciaafirmaumaaparenteconvergênciaentreambos,istoé,“em
Hume, [assim] como em Kant, os princípios do conhecimento não derivam da experiência”
(DELEUZE, 2012, p. 134). Ora, tal afirmação é nuclear, pois, para o pensamento deleuziano,
tantooempiristaHumequantoocríticoKantreconhecemqueavalidadeuniversalenecessária
decertasconexões(comoacausalidade)nãopodeserextraídadamerarepetiçãodeexperiências
passadas, visto que, se fosse assim, o conhecimento seria sempre contingente e particular;daí
ambosbuscamumfundamentoprévioparaoconhecimento.Noentanto,aconvergênciatermina
aí, posto que, para Deleuze, elementos poderosamente divergentes se aprofundam entre eles.
Então, para Kant, esse fundamento prévio ou anterior (ou melhor, a priori) reside nas
estruturas do sujeito transcendental, que ativamente impõe ordem ao dado sensível. Em
contraste,Deleuzesublinhaque,emHume,“nadanopensamentoultrapassaaimaginação,nada
é transcendental, pois esses princípios são apenas princípios de nossa natureza” (DELEUZE,
2012, p. 134). Isso significa que os princípios (associaçãoepaixão)nãosãofaculdadesdeum
sujeito pré-existente que pairam acima da experiência. Na verdade, eles são imanentes,sãoas
forçasqueoperamnaecomaimaginação,constituindo-ae,porextensão,constituindoopróprio
122
A noção de síntese percorre quase toda a obra de Deleuze,desdeseusprimeirostrabalhossobreahistóriada
f ilosofia até suas obras de maturidade. Todavia, duas de suas obras são particularmente importantes para se
compreenderaevoluçãoeaespecificidadedetalconcepção:EmpirismoeSubjetividade(1953),suaprimeiraobra
publicada, e Diferença e Repetição (1968), sua tese de doutorado. Pois bem, quanto a obra Empirismo e
Subjetividade, a noção de síntese aparece como o problema doeu,istoé,“eleésíntese,masincompreensível,e,
[mesmo] semconciliá-las[outrastantassínteses],reúneemsuanoçãoaorigemeaqualificação[doquepodemos
compreender como eu]” (DELEUZE, 2012, p. 23); nesse sentido, para o pensamento deleuziano, o eu deve ser
simultaneamente: coleção de ideias (enquanto sua origem), tendências (enquanto sua qualificação), espírito e
inclusive a consistência sujeitada que dele pode emergir. Por isso, para além do eu enquanto a síntese
incompreensível, háasínteseconstitutivadoeu,queDeleuzeidentificadaseguinteforma:“[Asínteseespecífica]
[...] que constitui o eu [...] é a síntese da própria afecção e de suareflexão,asíntesedeumaafecçãoquefixaa
imaginaçãoedeumaimaginaçãoquerefleteaafecção”(DELEUZE,2012,p.67).Estasínteseenvolve,portanto,a
afecção (que fixa a imaginação), a reflexão (enquanto a imaginaçãoquerefleteaafecção)eoresultado(queéa
constituição do eu como sujeito); a propósito, também precisamos dizer que, para Deleuze,ostrêsprincípiosde
associação (semelhança, contiguidade, causalidade) funcionam como sínteses passivas que organizam o dado,
transformando a imaginação (coleção de ideias) em entendimento (sistema de ideias), operandocomoprincípios
extrínsecos à mente que determinam a constituição do sujeito e produzem relações naturais a partir de relações
filosóficas.
67
sujeitopossível.Nisso,aimaginação,emHume,nãoéapenasocampoondeasrepresentaçõesse
reproduzem,masopróprioespíritoque,sobaaçãodosprincípios,devémumafaculdadeeuma
leidereprodução.Diantedessaausênciadeumsujeitotranscendentalkantiano,surgeaquestão:
comoHumeexplicaoacordoentreanaturezahumana(nossosprincípios)eaNatureza?Ora,se
não há um sujeito queimpõesuasleisaomundo,comoevitarqueesseacordosejameramente
“acidental, indeterminado, contingente” (DELEUZE, 2012, p. 135)? A resposta de Deleuze é
enfática, isto é, para ele, o único recurso de Hume é a finalidade, ou melhor, “um só recurso
permitiráaHumeapresentaroacordodanaturezahumanacomaNaturezacomoalgodistintode
um acordo acidental, indeterminado, contingente: a finalidade.” (DELEUZE, 2012, p. 134-135).
Assim, a finalidade mencionada por Deleuze em Hume não é umateleologiaexternaou
divina (um finalismo de qualquer tipo), nem mesmo pode ser compreendida como uma
finalidade a priori imposta pela razão kantiana. Então, o que é? Pois bem, é uma finalidade
imanente, que se manifesta na própria constituição do sujeito. Daí o acordo entre a natureza
humana e a Natureza não é um milagre, mas o resultado de um processo em que o sujeito é
constituído para aadequaçãocomomundoemsentidoempírico,nãoporumacorrespondência
de estruturas, mas por uma adequação prática e afetiva. A finalidade humeana, portanto, de
acordo com Deleuze, é a razão pela qual nossos hábitos e crenças funcionam, permitindo-nos
agiresobrevivernomundo.Demaisamais,issoculminarianaideiadequeosujeitonãoéuma
entidade estática, mas um processo em múltiplas etapas,uma“ressonância,àrepercussãocada
vez mais profundadosprincípiosnaespessuradoespírito”(DELEUZE,2012,p.135),ouseja,
isso significa que a constituição da subjetividade é um desenvolvimento gradual, em que os
princípios de associação e paixão atuam em conjunto, conferindo ao sujeito suas “estruturas
sucessivas” (DELEUZE, 2012, p. 135).
Dando continuidade, Deleuze nos sugere que o “problema prático de um liame dos
diversosmomentosdeumasubjetividadedeveprecederaafirmaçãodafinalidade”(DELEUZE,
2012, p. 135);issoimplicaqueafinalidadenãoéumpontodepartida,masumresultado,uma
adequação que se revela à medida que o sujeito se constitui. Nesse sentido,cadamomentoou
etapadasubjetividade(desdeasimplesassociaçãodeideiasatéaformaçãodecrenças,paixões
e mesmo instituições morais) é uma nova dimensão do acordo entre a natureza humana e a
Natureza, mediadapelafinalidade.Issoéumdospontosmaisricosdainterpretaçãodeleuziana
de Hume, pois subverte a noção tradicionaldesujeitocomofundamentoeoreposicionacomo
um efeito, um processo. Sendo assim, para Deleuze, o sujeito não é uma essência, mas uma
ressonância – esta expressão não é senãoumtermometafóricoqueevocaaideiadeumcorpo
68
que vibra e se aprofunda à medidaqueéafetadoporforçasmil.Destemodo,aressonânciada
qualnosfalaDeleuzenãoépassiva;ora,elaéaprópriaconstituiçãodeumasubjetividadeque,
embora nasça de princípios impessoais, adquire complexidade e capacidade de ação.
No mais e em retomada, quanto à finalidade em Hume (segundo o pensamento de
Deleuze), esta érevolucionária,postoquenãoétranscendente(comoemKant,emquearazão
impõefinsànatureza).Hume,naleituradeDeleuze,propõeumafinalidadenosentidoimanente
porque,emrelaçãoanaturezahumanaeaNaturezaemumaequilíbrioquenãosedáporumalei
universalaprioriqueasprecede,estaadviriadeumajustecontínuo,práticoeafetivoquesedá
na própria experiência. Portanto, para nosso autor francês, a finalidade é a adequação que se
constrói passo a passo, à medida que o sujeito se constitui e se relaciona com o mundo.
Diante disso, a perspectiva de Hume (segundo Deleuze), além de outras coisas, oferece
umaalternativapoderosatantoaoracionalismo(dogmático)quantoaoceticismo(radical),posto
que, ao invés de buscar um fundamento último para o conhecimento e a moralidade em uma
razão transcendente, Deleuze mostra que Hume encontra esse fundamento nas dinâmicas da
natureza humana, em seus princípios imanentes e em sua capacidade de constituir uma
subjetividade que, por sua própria natureza, tende à finalidade. O sujeito, por isso, como já
mencionado,nãoéumdado,masumdevir,umaconstruçãoemconstanteaprofundamento,cuja
existênciaéaprópriaprovadeumacordopráticoevitalcomomundo(daempiria).Ademais,a
filosofiadeHume,sobolampiãodeDeleuze,revela-senãocomoumceticismodestrutivo,mas
como um construtivismo empírico e vitalista, capaz de pensar a gênese da subjetividade e do
conhecimento a partir do fluxo da imanência.
Destarte, “vê-se o fundo único do empirismo”, escreve Deleuze, “é porque a natureza
humana em seus princípios ultrapassa o espírito, que nada no espírito ultrapassa a natureza
humana;nadaétranscendental”(DELEUZE,2012,p.13).Ora,conformenossofilósofofrancês,
a transcendência do sujeito que crê e inventa é, na verdade, o efeito imanente da ação desses
princípios, ou seja, a associação, por exemplo, “ultrapassa a imaginação, [mas]éalgodistinto
desta”, e “encontra nesta seu termo e seuobjeto,nãosuaorigem”(DELEUZE,2012,p.12);e
mais:“aassociaçãoéumaregradaimaginação,nãoumproduto,nãoumamanifestaçãodolivre
exercíciodesta”(DELEUZE,2012,p.13).Elaguiaaimaginação,“torna-auniformeeacoage”
(DELEUZE, 2012, p. 13).
Neste contexto, ao aprofundarmos outras camadaspertinentesaoconceitodeimaginação
na leitura que Deleuze fez deHume,mergulhamosnocoraçãodoquehádemaisessencialem
suasconsideraçõeshumeanas,asaber,suacompreensãodaconcepçãodeimaginaçãocomoalgo
69
que nem de perto é simples ou mesmo unívoco, visto que, para o filósofo francês, ela é um
campo de forças que se transforma radicalmente.
Paraquemelhordetalhemosisso,vamosanalisá-laemsuastrêsmetamorfoses,quesão,na
verdade, os três momentos da constituição da própria subjetividade. A primeira delas é a
imaginação como o caos originário (o plano de imanência bruto e até mesmo brutal). Neste
primeiro ponto, que pode ser considerado o ponto de partida da filosofia, antes de qualquer
sujeito, perguntemo-nos: O que existe? Para Deleuze (seguindo bem de perto Hume), existe
apenas o Dado. E o que é o Dado? É o fluxo incessante e caótico de percepções. Ora, a
imaginação, em seu primeiro e mais fundamental sentido, é esse fluxo; agora, quanto a sua
identidade com o espírito, não há distinção entre espírito, ideia e imaginação, isto é, essas
noções são apenas nomes diferentes para a mesma realidade: a coleção de percepções. Daí,
segundo Deleuze, “Hume afirma constantemente a identidade do espírito, da imaginação e da
ideia” (DELEUZE, 2012, p. 10), e tal consideração feita por Deleuze é indispensável para se
entender que a imaginação não é uma faculdade do espírito, ela é o próprio espírito.
Diante disso, podemos afirmar que a natureza da imaginação é passiva e determinável.
Para Deleuze, a imaginação enquanto fluxo da imanência (imaginação-fluxo) é inteiramente
passiva, mas não no sentidodeserinerte,esimnosentidodeserumcampodeterminável.Ela
nãotempoderdeorganizaçãopróprio.Istoquerdizerque,paraDeleuze,elaéum“delírio”,uma
“fantasia”, um “acaso” (DELEUZE, 2012, p. 11): é como um rio sem leito, cujas águas (as
percepções) correm em todas as direções sem nenhuma lei. Nisso, um ponto nos é claro ao
levarmos Deleuze em forte consideração, asaber,aausênciadesujeitoemmeioaspercepções
que fluem por este lugar-imaginação do possível determinável que se faz presente em
Empirismo e Subjetividade. Contudo, o ponto mais radical queestamostentandodestacarcom
essa noção de lugar-imaginação é a ausência total de um sujeito, ou seja, as percepções não
pertencemaninguém.Veremos,aseguir,Deleuzedestacarametáforadoteatro(feitaporHume)
para sublinhar isso muito bem: para ele, a imaginação é uma
[ ...] coleção sem álbum, peça sem teatro ou fluxo de percepções. “A
comparação comoteatronãonosdeveenganar...Nãotemosomaisremoto
conhecimentodolugaremqueserepresentamessascenas,nemdosmateriais
de que ele seria constituído”. [...] A representação nãoestáemumsujeito.
(DELEUZE, 2012, p. 11).
70
Porisso,conformeacolocação,nãoháumeuassistindoàscenas,nemumpalcoondeelas
acontecem, postoqueo“lugarnãoédiferentedaquiloquenelesepassa”(DELEUZE,2012,p.
11): nesse sentido, a imaginação é o próprio acontecimento123.
Agora, quanto a nosso segundo momento, colocamo-nos a compreender a imaginação
comoocampodebatalhaquealevaumafixaçãodesipelosprincípios,ouseja,seaimaginação
for apenas o caos do primeiromomentocolocadopornósconformeopensamentodeDeleuze,
nenhuma experiência coerente, nenhum conhecimento e nenhum sujeito seriam possíveis;
portanto,agrandeviradaacontecequandotalcampocaóticoéafetado.Nisso,aimaginaçãoéo
afetado,olugarondeosprincípiosdanaturezahumana(associaçãoepaixão)impõemsuaforça;
a imaginação é fixada, isto é, os princípios agem sobre a imaginaçãoparafixá-la,esãocomo
forças de intensidade que começam a organizar o fluxo. Assim, a associação (seja ela por
semelhança, contiguidade ou por causalidade) força as ideias a se conectarem, criando
regularidadeeconstância.“Aconstânciaeauniformidadeestãosomentenamaneirapelaqualas
ideias são associadas na imaginação” (DELEUZE, 2012, p. 12), sendo que, tal movimento
produzido na imaginação,torna-seàquiloqueDeleuzeconsiderapornaturezahumana,ouseja,
aosercoagidaeguiadaporessesprincípios,aimaginaçãodeixadeserincontaminadafantasiae
devém uma naturezahumana.Ora,sefalarmosaindamaisfigurativamentesobreessepontodo
pensamentodeleuziano,podemosdizeroseguinte:oriocaóticocomeçaacavarumleito;daíé
neste momento que o hábito, a crença e a expectativa se tornam possíveis. Por isso, a
imaginação, agora como coisa “regrada”, torna-se a base para o entendimento124.
Além disso, quanto a passividadequepermiteaatividadenoespírito,emquasetudoque
dissemos até aqui, a imaginação ainda é passiva no que colocamos, pois ela sofre a ação dos
princípios.Noentanto,conformenosfalanossofilósofofrancês,éessapassividadequepermite
123
Semquedetalhemosmuitoanoçãodeacontecimentonestemomento,podemosdizerqueeleconstituiumadas
c ontribuições mais originais e complexas de Deleuze àfilosofiacontemporânea.Ditoisto,emLógicadoSentido
(1969), obra que marcou um momento decisivo em seu percursointelectual,Deleuzedesenvolveuumateoriado
acontecimento que rompe radicalmente com as concepções tradicionais dentro da metafísica ocidental. Nesse
sentido, o acontecimento deleuziano não foi pensado por nosso filósofofrancêsnemcomoumacoisanemcomo
uma representação, nem como um fato empírico nemmesmocomoumaideiaabstrata;naverdade,paraDeleuze
(2015, p. 23), ele se situaria numa região paradoxal que o autor denomina como “extra-ser”, operando como
condição de possibilidade tanto da linguagem quanto da experiência.Estaposiçãosingularfazdoacontecimento
uma concepção-chave para compreender o pensamento deleuziano e sua crítica às filosofias da representação.
124
A concepção de entendimento (em francês, entendement) em Deleuze é profundamenteoriginalesubversiva,
poisoentendimentonãoéumafaculdadedarazãoemestadopuro,nemumpoderinatodosujeitoqueorganizaa
experiência;pelocontrário,paraDeleuze,oentendimentoéumefeito,umresultado,umaqualificaçãoqueoespírito
adquiresobaaçãodeprincípiosespecíficos.Segundonossoautor,oentendimentonãoéumafaculdadesoberana,
masumsistemadehábitoseregrasqueemergedaimaginaçãoquandoestaéfixadapelosprincípiosdeassociação.
Nessesentido,suanaturezaéadeumapráticaquenospermitefazerinferênciaseagirnomundo,masque,porsua
origem, tende a transbordareprecisaseautocorrigirconstantemente.Nomais,precisamoscolocaraindaquetoda
essa complexa maquinaria está, em última análise, subordinada aos fins práticos e afetivos ditados pela paixão.
71
a emergência de uma atividade. Para Deleuze em Hume, é porque a imaginaçãoéfixadapelo
hábito quepodemosfazerinferênciaseagirnomundo:aestruturaquelheéimpostatorna-sea
condição para a sua futura atividade (em estado de concretude). Em continuidade a isso,
falaremosaseguirsobreoterceiromomento(doqualnãonosdeteremostanto,dadoainiciativa
de nosso trabalho), a saber, a imaginação como o motor da cultura: o poder de reflexão e a
criação dele advinda.
Poisbem,esteéonívelmaiscomplexoecriativoquandosetratadanoçãodeimaginação
emEmpirismoesubjetividade,umavezque,paraDeleuze,aoconsiderarmosqueaimaginação
foi estruturada e se tornouumanatureza,elaadquireumnovoeparadoxalpoder,asaber,ode
refletir as próprias afecções que a constituíram; ela se dobra sobre si mesma.
Nessesentido,aofalarsobreascondiçõesqueaimaginaçãoassumeaosedobrarsobresi
mesma, podemos dizer que, a primeira delas, é a imaginação refletindo a paixão, ou melhor,
segundoopensamentodeleuziano,elanãoapenassofreapaixão,elaarefletee,aofazê-lo,elaa
transforma.ParaDeleuze,umapaixãorealeimediata(comoomedoouatristeza)érefletidana
imaginação e pode vir a se tornar um sentimento estético (o prazer de ler uma tragédia, por
exemplo),eénessepontoqueapontamosque“apaixãoseimaginaeaimaginaçãoseapaixona”
(DELEUZE,2012,p.56).Daítambémpodemosdizerqueaimaginaçãosetornaomóbil(aquilo
que pode mover ao estar em movimento) da arte e do gosto. Há mais: seguindo um outro
caminho de compreensão, a imaginação pode estender os princípios, isto é, a imaginação
tambémpodevirarefletirosprincípiosdeassociação,maspara“liberá-los”deseuslimites,ou
seja,elaosusadeformafantasista,estendendoacausalidadeparacriarsuperstições,oumesmo
usandoasemelhançaparacriarregrasgeraisquevãonobojoeatéalémdaexperiência.Assim,
elatoma“emprestadaaroupagemdanatureza”(DELEUZE,2012,p.15)paraseusprópriosfins.
Ao seguir seu caminho, ao menos no que compreendemos em Deleuze,aimaginaçãotambém
tem um poder constituinte: ela se torna verdadeiramente construtiva e criadora,nãoapenasao
constituir o sujeito da crença, mas também o sujeito da moralidade e da cultura, ou seja, ao
refletirointeresseparticulareparcial,elaoestendeeotransformanointeressegeral,inventando
ajustiça,apropriedadeeasinstituições.Daí,paraDeleuze,elaéomóbildoartifício,istoé,éa
imaginaçãoque,aorefletirsobreatendência,criaosmodelosdeaçãoquedefinemasociedade.
Portanto, a imaginação em Deleuze não seria senão o conceito que unifica toda a filosofia de
Hume; elaéoprocessototaldasubjetivação:começacomoofluxoimpessoaldodado,sofrea
violênciaorganizadoradosprincípiosparasetornarumanatureza,efinalmentesedobrasobresi
72
mesma em um ato de reflexão que a torna a fonte criadora da cultura, da arteedamoral.No
mais, ela é, ao mesmo tempo, o campo passivo da constituição e o móbil ativo da criação.
À vista disso, consideramos que a imaginação seja o campo onde a gênese sem sujeito
acontece; ela é, ao mesmo tempo e ao nosso ver, o afetado (o fluxo de percepções)eopalco
ondeasafecções(osefeitosdosprincípios)sedesdobram.Nisso,quandoosprincípiosdapaixão
edaassociaçãoagemsobreaimaginação,elesafixam,mas,emumsegundomomento,aprópria
imaginação reflete essas afecções, liberando-as de seus limites e estendendo-as para além do
conhecimentolegítimo,criandoum“mundodacultura”(DELEUZE,2012,p.56).Então,énesse
jogocomplexoentreafixaçãopelosprincípioseareflexãonafantasiaqueosujeitoseconstitui,
e a imaginação é o lugar onde a paixão se reflete e se estende.
Em suma, ao tocarmos em um último ponto sobre o ultrapassamento, somos capazesde
dizerque,combasenoqueexpusemosatéaqui,odadonãoéumatodeumsujeitoconstituído,
masopróprioprocessodesuaconstituição.Istoquerdizerqueeleéumagênesequeocorreno
plano da imanência, movida por princípios que são eles mesmos imanentes. A transcendência
(crer,inventar,esperar)éoefeitovisíveldaaçãodessesprincípiossobreaimaginação,queforça
o fluxo anônimo de percepções a se organizar como um sistema e a se qualificar como um
sujeito. Portanto, a subjetividade não é uma substância ou uma causa primeira, mas uma
impressãodereflexão,oprodutodeumasíntesecomplexaentreaafecçãoquefixaaimaginação
e a própria imaginaçãoquerefleteessaafecção,emumprocessocontínuoqueéaprópriavida
do espírito.
73
3. O ADVENTO DA NATUREZA HUMANA (OU A SUBJETIVIDADE CONSISTENTE)
No capítulo anterior, fomos no sentido de uma investigação sobre os elementos mais
fundamentais da experiência, esquadrinhando o movimento que vai da percepção elementar à
emergênciadosujeito,tudodentrodeumplanodeimanência.Nossopercursosedesdobrouem
quatromomentosinterdependentesquenosajudaramaconstruirprogressivamenteaimagemde
um âmbito em constante fluxo e constituição de seus elementos.
Ademais, o percurso completo do primeiro capítulo nos levou dos fluidos átomos da
sensação à emergência da subjetividade. Daí pudemos ter que a subjetividade não seria uma
substância, mas um efeito processual que emerge quando o fluxo caótico de percepções é
organizado pelos princípios de associação e pelas afecções: ou seja, partindo de nossos dois
autores principais, o sujeito não seria senão constituído no próprio fluxo da experiência, uma
transcendência que, digamos, dá-se inteiramente dentro da imanência. Assim, o capítulo
estabeleceu os fundamentos para compreender a subjetividade como um processo de
constituição,nãocomoumdadopreexistente,preparandocomissooterrenoparainvestigar,em
nosso atual capítulo, como a subjetividade adquire consistência.
Ora, em nosso segundo capítulo, buscamos investigar como a subjetividade, embora
imanenteemsuaorigem,adquireconsistênciaatravésdeumarelaçãocomelementosquepodem
ser tidos como extrínsecos a ela. Seocapítuloanteriorcartografouofluxopurodaimanência,
esteanalisaosmecanismosquelheconferemformaeestabilidade,mostrandocomoadvémuma
natureza humana. Aqui, em O advento da natureza humana: exterioridade e subjetividade
consistente, investigaremos como a subjetividade – não obstante imanente em sua origem –
constitui-seatravésdesuarelaçãofundamentalcomaimanência.Nisso,nossasquatroseçõesa
seguir visam demonstrar como a consistência do sujeito é forjada na crença, na ficção e na
construção de um mundo vivido.
Sendo assim, a primeira de nossas seções do capítulo em questão é a 2.1. (intitulada A
lógicadaexperiênciaeoespíritoquecrê:ossentidos,amemóriaeafunçãodarepetiçãonaparte
III do livro I do Tratado). Nela, dentro da Parte III do Tratado, buscamos os elementos
pertinentes às considerações que nos levaram a pensar como a crença, fundadanohábitoena
repetição, torna-se o motor da vida cotidiana, deslocando a certeza racional para o plano
secundário.Emseguida,naseção2.2.Imaginárioeficçãodoeu:asubjetividadeatravessadapor
virtualidades e fabulações, aprofundaremos a noçãodequeopróprioeuéumafabulação,uma
ficçãoútilqueaimaginaçãoconstróiparadarunidadeaumfeixedepercepções.Apartirdaí,em
nossa parte 2.3. AcontinuidadedaexperiêncianaparteIVdolivroIdoTratado,retornamosà
74
Parte IV do Tratado para mostrar que a crença na permanência dos objetos e na identidade
pessoal sãoconstruçõesdaimaginação,ficçõesque,emborafilosoficamenteinjustificáveis,são
indispensáveis.Porfim,naparte2.4.Aconstruçãodomundovivido:apercepçãoeaimaginação
comobasedosituadosubjetivante,debruçamo-nossobreacompreensãodequeapercepçãoea
imaginação, em sua relação com o Fora, constituem um situado subjetivante, que não apenas
habita um mundo, mas o constrói ativamente.
No mais, ainda nos cabe ponderar que, juntas, nossas quatro seções a seguir foram
conduzidas para uma iniciativa que visou ressaltar que o advento da natureza humana não
poderiasertidosenãocomooprocessopeloqualofluxodaimanênciasedobrasobresimesmo,
criando uma subjetividade consistente e um mundo habitável.
3.1. A lógica da experiência e o espírito que crê: os sentidos, a memória e a função da
repetição na parte III do livro I do Tratado
Seguindo agora para a Parte III do Tratado, intitulada Do conhecimento e da
probabilidade, podemos dizer de antemão que Hume empreende uma das mais influentes
investigações da filosofia moderna sobre a origem, os limites e o funcionamento da razão
humana.Sendoassim,apartirdesuaepistemologiaempiristaecética,podemosdizerqueHume
procurou examinar a diferença entre o conhecimento demonstrativo e a probabilidade,
deslocandoofocodasverdadesnecessáriasparaosprocessoscotidianosdeinferência,crençae
causalidade; esta parte da obra de Hume que observamos alude um sistema psicológico e
filosófico que busca compreender não apenas como pensamos, mas por que acreditamos e
agimos como acreditamos.
Porisso,emnossoexame,apartirdeHume,aSeçãoIdestaterceirapartedelimitaoque
entendemos por conhecimento restrito àquilo que pode ser demonstrado porrelaçõesdeideias
lógico-matemáticas; no entanto, ao continuar a seção, Hume reconhece que a maior parte de
nossasconvicçõesnãoprovémdessetipodecerteza,massimdaexperiência.Nãoobstante,éna
Seção II que ele introduz para nós a ideia de probabilidade como o princípio que governa o
pensamento humano na ausência de certeza, e nela insere sua análise seminal sobre causa e
efeito:umarelaçãoque,segundoHume,nãosebaseiaemrazãoouevidêncialógica,massimem
hábitoeexpectativa.TaldiagnósticofeitoporHumenaSeçãoIIseaprofundanaSeçãoIII;nela,
nosso autor defende que a ideia de causa é sempre acompanhada de uma pressuposição de
necessidade, ou seja, um elo que, na realidade, não está presente nas impressões, mas é
construído subjetivamente. Doravante, as seções V a IX exploram como formamosasideiase
crenças presentes nas primeiras três seções da parte que estamos nos remetendo agora; para
75
tanto,Humedestacaquetalformaçãoacontecepormeiodamemória,dasimpressõessensíveis,
dainferênciaedarepetiçãodeassociaçõesentreeventos.Alémdisso,nossofilósofosalientaque
noconjuntodasseçõesmencionadashápoucoacrençaseriaumtipoparticulardevivacidadeda
ideia, resultado do hábitodetransitardaimpressãoàideiacomconfiança,mesmosemcerteza.
Nisso, segundo Hume, as causas da crença, suas variações e seus efeitos sobre o pensamento
seriam analisados como fenômenos mentais mais do que lógicos.
Na sequência, Hume procurou distinguir entre diferentes tipos de probabilidade, comoa
probabilidadedechances(SeçãoXI)eaprobabilidadedecausas(SeçãoXII),alémdeapresentar
sua célebre crítica àprobabilidadenãofilosófica(SeçãoXIII),queregeasopiniõescomunsdo
diaadia.NoquetangeàSeçãoXIV,Humeconstituiuumdosmomentoscentraisdaobra,pois,
nela, ele investiga a tão debatida ideia de conexão necessária, mostrando que tal noção não
deriva da razão, mas deumsentimentosubjetivoadquiridopelarepetiçãodeexperiências.Nas
Seções XV e XVI, ele propôs regras para julgar causas e efeitos e, de forma inovadora,
reconheceuqueosanimaistambémraciocinamporhábito,oquereforçasuatesedequearazão
humana está enraizada em disposições naturais e não em princípios racionais abstratos.
Assim, ao reunir todas essas análises, a Parte III é o caminho de consolidação à crítica
humeana da metafísica racionalista e oferece uma concepção de conhecimento baseada na
experiência, na probabilidade e na psicologia da crença. Ora, em vezdeconfiaremprincípios
necessários e eternos, Hume nos propõe umafilosofiaquereconheceoslimitesdarazãoeque
busca entender o funcionamento real da mente humana, posto que, para nosso autor, mesmo
diantedaincerteza,amentecontinuaaacreditar,inferireagir.Ademais,talviradaantropológica
na epistemologia moderna inaugurou um novo paradigma para se pensar a razão, isto é, não
como instância divina ou infalível, mas como um hábito vivido, finito e profundamente humano.
Em face do que foi apresentado nos parágrafos iniciais deste trecho de nosso trabalho,
prosseguiremos um exame mais acurado da Seção I, intitulado por Hume como Do
conhecimento. Pois bem, comecemos por dizer que, ao abordar a natureza do conhecimento
humano, Hume dá um passo decisivo em sua investigação tratadística. Depois de analisarmos
comoelepensouasideias,suaorigemeestrutura(PartesIeII);agora,passaremosanalisaroque
ele tem a dizer sobre como afirmamos verdades, julgamos e até que ponto a razão pode
realmentenosconduziràcerteza.Nessecaminho,doconhecimentocomopercepçãoderelações
necessárias entre ideias, Hume busca tornar compreensível que o conhecimento verdadeiro só
76
podeviraocorrerquandoamentecompreendecomclarezaaconexãonecessáriaentreideias125,
seja ela por intuição ou por demonstração.
À vista disso, nosso filósofo empirista visa inicialmente distinguir o conhecimento
intuitivo (este sendo o conhecimento em sentido imediato, que, por exemplo, dá-se quando
reconhecemos que 3 é menor que 7) do conhecimento demonstrativo (este exigindo passos
intermediários ou até avançados,comoemprovasmatemáticasgeraisouespecíficas).Segundo
Hume, ambos se dão dentro da esfera das relações entre ideias, especialmente relações de
igualdade, proporção, número e identidade126. Por sua vez, para nosso filósofo, tais relações
fazem do conhecimento algo restritoaverdadesformaiseracionais,comopodemosconsiderar
na geometria e na aritmética. Aliás, quanto ao que pode considerar do campo restrito do
conhecimentohumano,Humeenfatizaque,emborasólido,essetipodeconhecimentoélimitado,
pois,paraele,amaiorpartedasnossasconvicçõessobreomundo(comoacrençadequeosol
nascerá amanhã, ou de que uma pedra cairá) não nasce da razão demonstrativa, mas de algo
diferente, a saber, a experiência, a repetição, o costume127. Nesse sentido, a razão pode
estabelecer poucas certezas diante da vastidão de considerações que podemos formar,pois,de
acordo com Hume, o resto do que acreditamos – para além do conhecimento sólido – não se
qualificaria como conhecimento rigoroso, mas sim como crença ou probabilidade(noçõesque
serão melhor abordadas nas seções seguintes).
Passando a outro ponto relacionado, quanto ao que podemos expor neste momento de
nosso texto, em relação uma distinção fundamental entre conhecimento versus probabilidade,
podemos dizer que, segundo Hume, o conhecimento pode não depender cabalmente da
experiência sensível,masdacomparaçãoentreideiasabstratas128.Paraele,exemplosdissosão:
Um círculo é uma figura com todos os pontos equidistantes de um centro – conhecimento
125
Aofalarmosmaisparticularmentesobreoraciocínioconsistiremcomparaçãoedescobertaderelações,Ibidem,
p. 101.
126
Nesteponto,sobreasquatrorelaçõesqueconstituemofundamentodaciência,Humeestabelecequaissãoastrês
mais pujantes relações através doseguinteraciocínio,citemo-lo:“Issoétudoquepensosernecessárioobservara
respeitodasquatrorelaçõesqueconstituemofundamentodaciência.Quantoàsoutrastrês,quenãodependemda
ideia e podem estar presentes ou ausentes enquanto aquela permanece a mesma, cabe explicá-las mais
detalhadamente.Essastrêsrelaçõessãoidentidade,situaçõesnotempoenoespaço,ecausalidade.”(HUME,2009,
p. 101). Para mais, ao pontuarmos sobre a única relação que remete para além dos sentidos ser a causalidade,
podemos dizer que, segundo Hume, a centralidade da causalidade tem o seguintecaráter,citemosnossofilósofo
escocês: “Vemos [...] que, dessas três relações quenãodependemmeramentedasideias,aúnicaqueremetepara
alémdenossossentidos,enosinformaacercadeexistênciaseobjetosquenãovemosoutocamos,éacausalidade.
Por isso, procuraremos explicar essa relação de maneira mais completa antes de abandonarmos o tema do
entendimento.” (HUME, 2009, p. 102-103).
127
Sobre a causalidade produzir uma conexão capaz de proporcionar convicção,Ibidem, p. 102.
128
Aqui, sobre a relação de causa e efeito não depender das qualidadesconhecidasdosobjetos,Humediz:“[...]
quandodirijomeuolharparaasqualidadesconhecidasdosobjetos,descubroimediatamentequearelaçãodecausa
e efeito não depende em nadadelas[dasqualidadesconhecidasdosobjetos].Quandoconsiderosuasrelações,as
únicas que encontro são as de contiguidade e sucessão.” (HUME, 2009, p. 105).
77
intuitivo; ou mesmo: A soma dos ângulos de um triângulo é igual a dois ângulos retos –
conhecimento demonstrativo. Tais proposições não dizem nada sobre o mundo em sentido
empírico; em contrapartida, as afirmações sobre causalidade, continuidade, existência ou
mudança não são conhecidas, mas acreditadascombaseemhábitoesensaçãoderegularidade.
Ora, as consequências filosóficas darupturacomoracionalismoecomametafísicanosentido
do que está sendo apontado por Hume nos comentários daseçãoexaminada,fizeramcomque
nossofilósofobuscassedelinearumaepistemologiacéticaeextremamentevoltadaparaempiria.
Nessesentido,Humemostrouque,nomáximo,arazãoemsentidopuroalcançaapenasverdades
formais, e que dissonãopoderíamosinferirnenhumaverdadesobremundo(sobrecausalidade,
existência ou futuro) por raciocínio puro129. Em certosentido,oqueHumenosexpôscomtais
considerações foi algo revolucionário para seu momento histórico-filosófico, posto que, o
significadoatribuídoàciênciadanaturezadesuaépoca,nãopoderiamaisestarnoseiodeuma
consideração baseado em um conhecimento necessário, mas em inferência habitual (que fosse
extremamente útil e confiável).
Partindo disso, ele se encaminhou para uma análise mais detalhada da crença. Quaseao
finaldaseção,Humefezapreparaçãodoterrenoparaoqueviriaaseguiremseutexto,ouseja,
a análise da crença, da probabilidade e da causalidade como os verdadeiros motores do
pensamentohumanonomundotidocomoempírico.Ora,aindaqueimplicitamente,eleafirmou
quearazãoéimpotenteparalidarsozinhacomosfatos,equeoentendimentohumanoagemais
por costumes mentais do que por demonstrações formais130.
Ademais, esta Seção I da Parte III representou para nós o marcodaviradaentreosaber
racionaleacrençapráticaqueHumebuscounosapontardemodotãodilacerante,bemcomoo
estabelecimento de que o verdadeiro conhecimento é sempre demonstrativo ou intuitivo,
limitado a relações entre ideias abstratas131; que nossas certezas sobre o mundo não são
conhecimento propriamente dito, mas efeitos da experiência repetida; e que o entendimento
129
Nisso,podemosdizerque,sobreaimpossibilidadederaciocinarsemcompreenderperfeitamenteasideias,Hume
e stabeleceométododeinvestigaçãomaisadequadoparatal,asaber,“paracomeçardemaneiraordenada,devemos
considerar a ideia de causação e examinar qual sua origem. É impossível raciocinar de maneira correta sem
compreenderperfeitamenteaideiasobreaqualraciocinamos;eéimpossívelcompreenderperfeitamenteumaideia
sem referi-laàsuaorigem,esemexaminaraquelaimpressãoprimeiradaqualelasurge.”(HUME,2009,p.103).
Destemodo,oexamedaimpressãoconfereclarezaàideia,vejamos:“Oexamedaimpressãoconfereclarezaàideia;
e o exame da ideia confere uma clareza semelhante a todos os nossos raciocínios” (HUME, 2009, p. 103).
130
Nesteponto,aofalarmossobrearazãoserimpotenteparalidarsozinhacomosfatos,temosqueHumeestabelece
oslimitesdarazãodaseguintemaneira:“[...]dessastrêsrelaçõesquenãodependemmeramentedasideias,aúnica
queremeteparaalémdenossossentidos,enosinformaacercadeexistênciaseobjetosquenãovemosoutocamos,é
a causalidade” (HUME, 2009, p. 102-103).
131
Aqui, sobre o conhecimento ser limitado a relações entre ideias abstratas,Ibidem,p. 102.
78
humano, em sua maior parte, opera por probabilidade e hábito, não por necessidade lógica132.
Assim,estaseçãosefazfundamentalparaandamentodotexto,postoqueeladeslocaocentroda
epistemologia moderna da razão para a experiência prática, lançando as bases da análise
humeana da causalidade, da inferência e da crença, e influenciando decisivamente a filosofia
posterior (de Kant ao empirismo lógico).
Dando andamento ao exame das seções, a Seção II – Da probabilidade; e da ideia de
causaeefeito133 queiremosanalisaragoraéumdostrechosmaisimportantesdoTratado,posto
que, nela, Humebuscounosimergiremsuafamosaerevolucionáriateoriadacausalidade,que
marcou profundamente o pensamento científico-filosófico moderno.Ora,naseçãoemquestão,
nosso filósofo investigou como a mente humana, por vezes, tende a transcender o que é
imediatamente dado nos sentidos ou na memória para formar expectativas sobre o futuro,
inferênciassobreodesconhecido,oucertezaspráticassobreomundo.Ouseja,napassagemque
estamos tratando, Hume reconheceu que a maior partedenossascrençasnãosãofundadasem
demonstraçõeslógicas,masemalgoqueelechamoudeprobabilidade134 (eénesseterrenoquea
noção de causa e efeito se insere).
Poisbem,aotratarcommaisprofundidadealimitaçãodoconhecimentodemonstrativoeo
papel da probabilidade, Hume retomou em nossa seção um ponto importantíssimo da seção
anterior, qual seja, o conhecimento verdadeiro, obtido por demonstração ou intuição, é
extremamente limitado. No entanto, pensando na limitação do pensamento descrito por nosso
filósofo, poderíamos nos perguntar como, então, formamos juízos sobre fatos? Por que
acreditamos que o pão nos sustentará, que o sol nascerá amanhã ou que uma bola rolando
empurraráoutra?Ora,paraHume,essascrençasnãoderivariamdeumadeduçãoracional,mas
da experiência repetida. A isso, essa tal experiência repetida, nosso autor chamou de
probabilidade, mas não no sentido matemático, e sim como uma crença baseada na repetição
constante de relações entre fenômenos.
Por conseguinte, ao nos voltarmos para a origem da ideia de causa e efeito, podemos
considerar que, ao tratar de tal gênese, Hume veio a sustentar que essa ideia não derivariada
razãoemseuestadomaispuro,masdaobservaçãohabitualdeconjunçõesconstantesentredois
132
Quantoaisso,sobreoentendimentohumanooperarporprobabilidadeehábito,Humeestabeleceanecessidade
d e ir além da contiguidade e da sucessão, citemo-lo: “Um objeto pode ser contíguo e anterior a outro, sem ser
considerado sua causa. Há umaCONEXÃONECESSÁRIAaserlevadaemconsideração;eessarelaçãoémuito
mais importante que as outras duas anteriormentemencionadas[acontiguidadeeasucessão].”(HUME,2009,p.
105).
133
Neste ponto, sobre a prioridade temporal da causa em relação ao efeito,Ibidem,p. 104.
134
Sobreaprobabilidadecomocrençabaseadanarepetiçãoconstanteesobreacausalidadeserumaconstruçãodo
entendimento baseada no costume,Ibidem, p. 109-110.
79
eventos135.Porexemplo:quandovemosfogoesomoscapazesdesentirseucalor,evivenciamos
repetidamenteessasequência:Fogo,logocalor;nossamente,então,passaaesperarqueofogo
sejaseguidodecalor.Istoé,talexpectativaqueadquirimosemumsequencialdeexperiênciasse
torna o que, em Hume, podemos chamar de ligação causal. A causa, nesse caso, segundo o
empirista,éapenasaquiloqueéregularmenteseguidoporumefeito.Nãohánenhumaconexão
necessariamente visível ou intuitiva entre os dois eventos, apenas hábito psicológico de
associação.
À luzdisso,adiferençaentreconjunçãoeconexãonecessáriafoiumpontodecisivopara
que Hume expusesse que o que observamos na realidade são conjunções constantes, não
conexões necessárias. A necessidade que parece haver na relação causa-efeito não está nos
objetos,masemnossamente136.Ora,éohábitodeverdoiseventosligadosquecriaaimpressão
subjetiva de uma ligação necessária. Nisso, cabe ressaltar que, em Hume,aideiadecausafoi
composta como tendo três elementosquerobusteceaimpressãosubjetivaquepodemosformar
emnós,quaissejam,apercepçãodedoiseventosdistintosesucessivos;arepetiçãoconstanteda
mesma sequência; e aexpectativaque,comotempo,geraumsentimentodeconexão137.Sendo
assim, conforme o pensamento de Hume, a causalidade é uma construção do entendimento
baseada no costume, e não uma verdade deduzida ou observada diretamente.
Agora, ao passarmos ao fundamento psicológico da inferência causal, podemos afirmar
que Hume recusou a ideia de que inferimos causalidade por raciocínio138. Quanto a isso, ele
135
Aqui, sobre a origem da ideia de causa e efeito na observação habitual, Hume bem expõe o processo de
inferência,Ibidem, p. 111.
136
Neste ponto, sobre a necessidade estar na mente (não nos objetos), vemos que, para Hume, a origem das
impressõessedáseguintemaneira:“Quantoàsimpressõesprovenientesdossentidos,suacausaúltimaé,emminha
opinião, inteiramente inexplicável pela razão humana, e será para sempre impossíveldecidircomcertezaseelas
surgemimediatamentedoobjeto,sesãoproduzidaspelopodercriativodamente,ouaindasederivamdoautorde
nosso ser.” (HUME,2009,p.113).Emais:“Édesnecessárioobservarquenãosetratadeumaobjeçãolegítimaà
presentedoutrinadizerquepodemosraciocinarcombaseemnossasconclusõesouprincípiospassados,semterde
recorrer às impressões de que estes derivaram em primeiro lugar. Pois,mesmosupondoqueessasimpressõesse
apaguem inteiramente de nossa memória, a convicção por elas produzida pode ainda permanecer. Por isso, é
igualmenteverdadeiroquetodoraciocínioacercadecausaseefeitosderivaoriginalmentedealgumaimpressão,do
mesmo modo que a certeza de uma demonstração procede sempre de uma comparação de ideias, emborapossa
permanecer mesmo depois de esquecida essa comparação.” (HUME, 2009, p. 112).
137
Aqui,sobreostrêselementosdaideiadecausa,podemosdestacaralgumascitaçõesjáexploradas:“Emprimeiro
lugar,vejoquetodososobjetosconsideradoscausasouefeitossãocontíguos;equenenhumobjetopodeatuarem
ummomentooulugarafastados,pormenosqueseja,domomentoelugardesuaprópriaexistência.”(HUME,2009,
p.103);“asegundarelaçãoqueassinalareicomoessencialàscausaseefeitosnãoétãouniversalmentereconhecida,
estando, ao contrário, sujeita a alguma controvérsia. Trata-se daPRIORIDADEtemporaldacausaemrelaçãoao
efeito.”(HUME,2009,p.104);“umobjetopodesercontíguoeanterioraoutro,semserconsideradosuacausa.Há
umaCONEXÃONECESSÁRIAaserlevadaemconsideração;eessarelaçãoémuitomaisimportantequeasoutras
duas anteriormente mencionadas.” (HUME, 2009, p. 105).
138
QuantoaoqueconsideramosqueHumerecusaquevenhamosainferircausalidadeporraciocínioesobrearazão
nãoexigirquetudotenhaumacausa,elerejeitaoraciocíniocomofontedacausalidade,dizendoque“umavezque
nãoédoconhecimentooudeumraciocíniocientíficoquederivamosaopiniãodequeumacausaénecessáriapara
toda nova produção, tal opinião deve vir necessariamente da observação e da experiência” (HUME, 2009, p.
80
buscou mostrar que, quandoencontramosumanovarelaçãodecausaeefeito(porexemplo,ao
ver uma máquina funcionar pela primeira vez), não raciocinamos, mas aprendemos por
repetição. Para Hume, nosso entendimento se forma (ao menos em seu começo) pela
familiaridade,nãopelalógica139,ouseja,amenterespondeautomaticamenteàsregularidades140.
Isto quer dizer que, para ele, a expectativa do efeito nasce do costume, e nãodarazão,eisso
cabeouvaleparacrianças,animaiseadultos(formascognitivasdiferenteseemdiferentesetapas
da vida). Sendo assim, nosso filósofo empirista procuroumostrar-nosqueacausalidadeéuma
operação natural da mente(nãoumadeduçãoracional);contudo,elevaiumtantoalémemsua
análise ao fazer implicações filosóficas radicais, que podemos destacar da seguinte maneira:
mostrarqueacausalidadenãoéumarelaçãoobjetivaentrecoisas,masumaconstruçãosubjetiva
damente;questionar,emsuaobra,asbasesdetodaciênciaempíricaproduzidaemsuaobra,que
depende da ideia de que causas produzem efeitos com necessidade; estabelecer que não há
garantiaracionaldequeofuturoserácomoopassado,postoque,emnós,sóháumaexpectativa
probabilística baseada na repetição141. Com isso, Hume inaugura o ceticismomodernosobreo
conhecimento causal e põe em xeque a pretensão de certeza na ciência natural de sua época.
Ademais, podemos dizer ainda que, neste momento de nosso texto, com base em nosso
filósofo,vemosexpostoqueasinferênciasquesustentamnossacompreensãodomundonãosão
conhecimento lógico, mas crença psicológica fundada no hábito. Com base nisso, em nossa
análisedaSeçãoII,podemosdizerqueHumebuscouredefiniraideiadecausalidadecomoum
produto do hábito mental diante de repetições, mas não como uma relação necessária entre
objetos. Ele nos explica a probabilidade como o grau de vivacidade com que a menteassocia
certos efeitos a causas passadas. E também nos mostra que a razão não tem papel direto nas
inferências causais, posto que, para ele, elas decorriam de processos não racionais, mas
inevitavelmente naturais à mente. Assim, nossa seção procurou mostrar que Hume deslocoua
1 09-110). E mais: “Basta apenas observar que,aoexcluirmostodasascausas,nósrealmenteasexcluímos,enão
supomos nem que o nada nem que o objeto mesmo sejamascausasdaexistênciadeste.Consequentemente,não
podemosextrairdoabsurdodessassuposiçõesnenhumargumentoparaprovaroabsurdodaquelaexclusão.Setudo
deveterumacausa,segue-seque,aoexcluirmosoutrascausas,devemosaceitarqueopróprioobjetoouonadasão
causas.Masoqueestáemquestãoéjustamentesetudodeveounãoterumacausa.Portanto,deacordocomtodasas
regras do bom raciocínio, isso é algo que nunca se deve dar por suposto.” (HUME, 2009, p. 110).
139
Sobreoentendimentoseformarpelafamiliaridade,nãopelalógica(ouseja,sobrefilósofosracionalistastratarem
inferências causais como proposições dedutivas), Hume fala de onde advém a base da inferência, Ibidem, p.
111-112.
140
Aqui, sobre a mente responder automaticamente às regularidades e sobre a razão não ter papel direto nas
inferências causais,Ibidem, p. 113.
141
Nesteponto,sobrenãohavergarantiaracionaldequeofuturoserácomoopassado,Humeestabeleceaquestão
crucial, qual seja, “por que concluímos que tais causas particulares devem necessariamente ter tais efeitos
particulares, e por que realizamos uma inferência daquelas para estes últimos?” (HUME,2009, p. 110).
81
noção de causalidade do mundo externo para o campo da mente, tornando-a um fenômeno
psicológico e subjetivo (possível até mesmo de ser considerado como universal e regular).
Dando prosseguimento na análise das seções, aSeçãoIII–Porqueumacausaésempre
necessáriaaprofundaaanáliseiniciadanasseçõesanterioresaodiscutirporquesomoslevadosa
afirmar quetodoeventodeveterumacausa,ouseja,porquenuncaconcebemosumamudança
sem que a relacionemos a algo anterior que julgamos capaz de produzi-la. Pois bem, Hume
investiga nessemomentodeseutextoaorigemdoprincípiodacausalidadeuniversal,daideia
dequetodoeventodeveterumacausa142.Paraele,aideiadecausalidadenãoéalgoinatoaoser
humano nem logicamente necessário, mas sim derivada da experiência e do funcionamento
habitual da mente.
Àvistadisso,Humesegueumatratativaqueolevaaoseguinteproblemamotordaseção,
qualseja:Épossívelconceberumeventosemcausa?Ora,nossofilósofoiniciacomtalpergunta
central porque considera que, ao menos na maior parte das vezes, assumimos que todo novo
evento deve ter uma causa que o motiva; porém, logo em seguida, ele argumenta que tal
pensamento pode estarequivocado,postoquenãohánenhumacontradiçãológicaemconceber
um evento surgindo sem causa alguma – de certo modo, este é um dos pontos mais fortes e
surpreendentesdoTratadonoquedizrespeitoapôremxequeoprincípioderazãosuficiente143.
Ouseja,paraHume,emseuâmago,arazãonãoexigenecessariamentequenóspensemostudo
comotendoumacausadeorigem,vistoqueocontrárionãoéininteligívelouautocontraditório.
Nesse sentido, nosso autor rejeita a tese de queanecessidadedeumacausaéumprincípioda
razãoemumaconcepçãopura,pois,segundosuaconcepção,sefosse,bastariaapenasousodo
pensamento para rejeitar qualquer evento sem causa, o que não é o caso, já que podemos
imaginar, sem inconsistência lógica, que algo possa surgir subitamente.
Nomesmosentido,aosepensaraorigemdoprincípiodacausalidadepormeiodohábito
mental, Hume busca estabeleceradequadamentecomosurgeacrençauniversaldecausalidade.
Paratanto,eleexpõequeoprincípiodequetudoquecomeçaaexistirdeveterumacausaéuma
projeção do costume, ou em outras palavras, quando observamos constantemente que eventos
são precedidos por outros, essa repetição que observamos criaumaexpectativanaturaldeque
142
Nesteponto,sobreaorigemdoprincípiodacausalidadeuniversalesobrefilósofosconfundiremhábitosdamente
com necessidade lógica, Hume critica o argumento de que tudo deve ter uma causa,Ibidem, p. 109.
143
Grosso modo, podemos dizer que o princípio de razão suficiente é um postuladofundamentaldalógicaeda
metafísicaquesefirma,emtermossimples,naconcepçãodequenadaacontecesemquehajaumarazãoparatal.
Nesse sentido, embora aideiadequetudotemumacausaremonteàAntiguidade(comoemAnaximandroouem
outrospré-socráticos),foiofilósofoematemáticoGottfriedWilhelmLeibnizquemformalizoudemaneiraestritao
princípio no século XVII.
82
um novo evento deve ter algo que o preceda e explique. Daí, para nosso filósofo empirista,a
necessidade de uma causa não é percebida no mundo, nem deduzida propriamentepelarazão,
mas é um produto psicológico da associação constante entre eventos contíguos e sucessivos.
Em face do exposto, o equívoco surgido do hábito mental mencionado por Hume no
parágrafo anterior gera uma confusão em sentido filosófico. Mas como assim? Segundo as
colocaçõesdenossoautor,osfilósofosconfundemhábitosdamentecomnecessidadelógica,ou
seja,Humeacusaosfilósofosdeseutempoedemomentoshistóricosanterioresdeconfundira
força do hábito com a força da lógica. Eles assim o fizeram quando, para nosso filósofo, não
levaram em consideração que, quando experimentamos repetidamente que certos eventos são
seguidos por outros, a mente tendeadquirirumavivacidadedecrença,queacabaporsetornar
erroneamenteprojetadacomoumanecessidadeontológicaentrecausaeefeito.Ora,talconfusão
éperigosa,pois,conformepensouHume,leva-nosatratarcomoaxiomaracionaloqueéapenas
uma conclusão daexperiênciahabitual.Paranossoempirista,éinteressantequeenxergamosos
limites da experiência e a impossibilidade de deduzir a causa deumeventoisolado.Aliás,ele
reforça esse ponto ao mostrar que, ao observarmos um evento pela primeira vez, não
conseguimos prever o que o seguirá nem inferir o que o causou, a não ser pela experiência
prévia. A títulodeexemplo,aoverpelaprimeiravezumaboladebilharmovendooutra,nãoé
pelarazãoqueinferimosqueumacausarámovimentonaoutra,masésomentepelaexperiência
repetida(quetivemos)quecriamostalconexão.Issoprovaque,conformeconsiderouHume,não
temosimpressãonemideiadeumaconexãonecessáriareal;naverdade,oquetemoséohábito
de esperar que eventos similares se sigam.
Sendo assim, Hume asseverou o princípio da causalidade comoumaleipsicológica;não
lógica. E concluiu também que a afirmação de que todo efeito deve ter umacausanãoéuma
verdade universal da razão, mas um princípio adquirido pela repetição da experiência. No
entanto, ele deixou nítido que tal princípio é absolutamente necessário para a vida prática eo
pensamentocomum,masnãopossuiostatusdeverdaderacionalabsoluta.Portanto,oprincípio
do qual nos falou Hume é um fundamentodanaturezahumana,nãodalógicaemestadopuro.
Ora, cabe dizermos ainda nestepontoderradeirodoparágrafoque,aoelucidaracentuadamente
que nosso comportamento e expectativas, ainda que tomados como algo puramente dedutivo,
não nos garante a existência de conexões necessárias no mundo objetivo, Hume fechara sua
seção estabelecendo que o princípio da causalidade é oportunamente construído por hábito
(tendência natural da mente).
83
Portanto, a Seção III da Parte III do Tratado, em termos gerais, foi uma reafirmaçãode
Hume da crítica fundamental ao racionalismo e à metafísica, em que ele considerou com
veemênciaacrençadequetodoeventoexigeumacausanãoélógica,maspsicológica;segundo
suas palavras, não podemos provar, por raciocínios retirados de um estado puro darazão,que
nada pode surgir sem causa, ou seja, a noção de causalidade não passaria de inferências que
derivamdasrepetiçõespresentesnaexperiência,ouseja,elaéumaconstruçãointerna,nãouma
conexão externa observável. Essa visão de nossofilósofoinaugurouumnovomododepensar,
istoé,emvezdebuscarfundamentosracionaisuniversais,elepropôsumafilosofiadanatureza
humanaquereconheceoslimitesdarazãoevalorizaosprocessosdamentecomoexplicaçãodas
nossas certezas práticas.
PartindoagoraparaaSeçãoIV–Daspartescomponentesdenossosraciocíniosacercada
causa e do efeito, vemosqueHumebuscoudesmembraroprocessopeloqualamentehumana
realiza inferências causais, revelando quais são os elementos mentais envolvidos nesse
raciocínio144.Nessesentido,demaneiramaisespecíficadentrodaseçãomencionada,nossoautor
objetivou demonstrar que tais inferências são de cunho estritamente psicológico eempírico145.
Depois de estabelecer que a ideia de causalidade é construída por hábito (não pela razão ou
observaçãodiretadeconexãonecessária),Humeaprofundasuaanálisesobreoraciocíniocausal
pormeiodeperguntascomo:Doqueexatamenteéfeitoumraciocíniocausal?Oqueocorrena
mentequandojulgamosqueAcausaB?Quaissãooselementosmentaisbásicosquecompõem
esse tipo simples de inferência?
Ora,aobuscarcompreenderoraciocíniocausalcomotransiçãoentreimpressõeseideias,
Hume procurou nos esclarecer que todo raciocínio causal envolve duaspartesfundamentais,a
saber, a impressão presente – uma percepção sensível ou recordação que atua em nós como
ponto de partida146 (por exemplo, osomdeumtrovão)eaideiaassociada–oconceitodeum
evento conectado, que se segue à impressão a ele correspondente147 (por exemplo, a ideia de
relâmpago).Assim,paraHume,amenterealizaumatransiçãodaimpressãoatualparaaideiado
que a precedeu ou do que a seguirá, com base em experiênciasanterioresemquetaiseventos
ocorreram juntos com regularidade: tal processo detransiçãoéautomáticoenãoracional,pois
ele se dá por costume e associação, não por demonstração.
144
Aqui,sobredesmembraroprocessopeloqualamenterealizainferênciascausais,Humeapresentaaestruturado
raciocínio causal,Ibidem, p. 111.
145
Neste ponto, sobre as inferências para Hume serem de cunho estritamente psicológico eempírico,Ibidem,p.
111-112.
146
Ora, sobre o que Hume fala a respeito da impressão presente como ponto de partida,Ibidem, p. 112.
147
Sobre a ideia associada que se segue à impressão e sobre aprofundar a distinção entre diferentes tipos de
percepção, Hume expõe acerca de tal transição que ocorre para a ideia,Ibidem, p.113.
84
À vista disso, ao pensar-se junto a Humeaestruturamentaldainferênciacausal,elenos
explica que, ao vermos um objeto ou evento, a mente busca em sua memória eventos
semelhantes no passado. Se o mesmo tipo de situação ocorreu repetidas vezes, e sempre
acompanhado de outro evento específico, a imaginação projeta mecanicamente esse segundo
eventocomoconsequênciaprováveldoprimeiro.Essatransiçãosedáporumaforçainterna,que
Hume identifica como a vivacidade com que a ideia do efeito surge após a causa148. Assim,
segundoseupensamentoempirista,oraciocíniocausalquenosexpõeHumeécompostodeuma
percepçãoatualetambémdalembrançadeumaconjunçãopassadaentreumpercepçãoeoutra,
bemcomoumaideiaquesetornatãovívidaquantoumacrença(semqueestaprecisedeprova
racional).
Sendoassim,levando-seemconsideraçãodemaneiramaisrefinadanessemomentodesua
obra a distinção entre crença e mera imaginação, Hume introduz uma distinção decisiva, qual
seja,adiferençaentrecreresimplesmenteimaginar:ambascoisasenvolvemideias,masacrença
é uma ideia dotada de vivacidade ou força particular, adquirida pelo costume. Para Hume,
quandoumaideiadeefeitovemàmentecomintensidadeenaturalidadeapósapercepçãoquea
causa, chamamos isso de crença; quando ela surge de forma fraca ou arbitrária, chamamos
imaginação. Essa distinção éimportanteparanossofilósofoempiristaporquemostramaisuma
vez que a convicção associada ao raciocínio causal não é racional, mas psicológica.
Por outro lado, em relação ao erro darazãofilosóficaentendidacomotradicional,Hume
faz uma crítica mordaz aos filósofos racionalistas por tratarem as inferências causais como se
fossem compostas por proposições dedutivas, ignorando que elas dependem de princípios não
racionais da mente, como a repetição; a constância da associação; aforçadavivacidadeque
transformaumaideiaemcrença.Segundoseupensamento,oerrodatradiçãofilosóficaestáem
atribuiràrazãooqueéobradocostume.Daíasimplicaçõesquesederivamdessaanáliseparaa
epistemologiaqueHumepropôssãoasmesmasqueoajudamnareconstruçãodosfundamentos
do pensamento que ele ponderou como sendo empírico, isto é, Hume procurou mostrar que
nossos raciocínios sobre causas e efeitos não são logicamente válidos, apesar de naturalmente
inevitáveis; para ele, a mente humana, ao ver eventos repetidos, forma expectativas que se
cristalizam em crenças, mesmo sem justificativa racional. Portanto, nosso filósofo deixa
explícito não haver garantia lógica na inferência causal, apenas uma propensãopsicológicada
mente que atua de modo consistente e regular, ainda que sem fundamento absoluto.
148
Nesteponto,sobreavivacidadecomqueaideiadoefeitosurgeapósacausaouarelaçãoentrecrençaegraude
vivacidade, Hume bem estabelece tal vivacidade,Ibidem.
85
Ademais, em nosso exame da Seção IV, vimos de forma resumida que Hume propôs
dissolver a noção de inferência causal em elementos psicológicos,tornandoexplícitoquetodo
raciocíniodessetipoéumatransiçãomentalgovernadaporhábitoevivacidade,enãoporprovas
ouprincípiospuramentelógicos.Àvistadisso,nossofilósofoprocuroudemonstrartambémque
todoraciocíniocausalécompostoporumaimpressãoatualeumaideiaquelheéassociadapor
hábito; que a força com que essa ideia se impõe à mente é o que chamamosdecrença,enão
podemos considerá-la como resultado de uma dedução, mas da repetição e vivacidade
psicológica; que a inferência causal é uma operação natural da imaginação, e não uma cadeia
racionaldesilogismos.Comisso,Humeredefineoraciocíniocausalcomoumatonãoderazão,
mas mais propriamente de tudo aquilo que podemos considerar como natureza humana,
estabelecendoumaepistemologiafundadanapsicologiadapercepção,enãonalógicanãomais
que formal.
Paracontinuarmosonossopercursoargumentativo,passemosagoraparaaSeçãoV–Das
impressõesdossentidosedamemória.Deantemão,podemosdizerqueHumevisouaprofundar
nestaseçãoadistinçãoentrediferentestiposdepercepção(impressõesdossentidos,memóriase
imaginação), articulando isso com a questão da crençaedacertezaadvindasdacapacidadede
raciocíniohumano149.Ora,Humeexaminouaorigemeosgrausdacrençanasdiferentesformas
depercepção150,ecomoelasinfluenciamnossosjuízosfilosóficossobreomundo.Paraisso,ele
retomou sua classificação das percepções, istoé,asimpressões(vivazes,imediatas)easideias
(menos intensas, derivadas das impressões). Todavia, o filósofo também buscou considerar os
diferentes níveis de vivacidade dentro do que elas são151, com foco especial na crença que
depositamos nelas. Nisso, Hume expôs as diferenças que distinguem três fontes perceptivas
principais, a saber, os sentidos, que produzem impressões vívidas e imediatas, sendo estas
acompanhadasporumfortesentimentoderealidade;amemória,quetambémofereceimpressões
vivas(maisdoqueaimaginação),masmenosintensasqueasdossentidos,poisestesconferem
crença moderada; e aimaginação, que gera ideias com pouca vivacidade.
Em prosseguimento, precisamos pontuar um detalhe importante, a saber, para Hume,
apenas em certos contextos, como nas inferências causais, a imaginação adquire vivacidade
149
A respeito da crença e dacertezaadvindasdacapacidadederaciocíniohumanoesobretodainferênciacausal
partir de uma impressão presente ou recente,Ibidem, p. 118.
150
Nesteponto,sobreexaminaraorigemeosgrausdacrençanasdiferentesformasdepercepção,Humenosdizque
“[...]emboraacausalidadesejaumarelaçãofilosófica,porimplicarcontiguidade,sucessãoeconjunçãoconstante,é
apenas enquanto ela é uma relação natural, produzindo uma união entre nossas ideias, que somos capazes de
raciocinar ou fazer qualquer inferência a partir dela” (HUME, 2009, p. 122).
151
Aqui,sobreosdiferentesníveisdevivacidadedentrodaspercepçõeseatémesmosobreanaturezadainferência,
da causalidade e da crença, Hume expõe os níveis de vivacidade,Ibidem, p.115.
86
suficienteparagerarcrençagenuína,sendoqueograudevivacidadeé,segundonossoempirista,
a chave para compreendermos o nível de certeza ou crença que temos em relação a algo
percebidooupensado.Nessesentido,acrençacomointensidadedaideiaésustentadaporHume
da seguintemaneira:creremalgoésimplesmenteterumaideiamaisvívidadaquilonoqualse
crê,istoé,nãohádiferençaformalentreumacrençaeumaideiacomum,apenashádiferençade
grau de força e impressão. Portanto, para nosso filósofo, as impressões dos sentidos nos
convencemdaexistênciadomundoexternoporquenosvêmcomintensidadesensívelinegável.
Nisso, a memória nos convence por sua constância efamiliaridade;jáaimaginação,porsisó,
não gera crença, exceto quando é fortalecida pelo hábito (como no caso da causalidade).
Por conseguinte, ao pensarmos a memória como intermediária entre o sentido e a
imaginação,elaocupa,paraHume,umlugarnotáveldeintermediária,istoé,elaédiferentedos
sentidos porque não apresenta objetos presentes, mas passados; e também diferente da
imaginação porque não é livre ou arbitrária, mas segue a ordem e o encadeamento das
impressões originais. Isso confere à memória uma estrutura e regularidade que a aproximado
sensocomumedaexperiênciacontínuadomundo152.Assim,amemória,sugereHume,garantea
persistência da identidade pessoal edacontinuidadedoeu,aindaquetambémsejaapenasuma
função da mente e não uma prova da realidade exterior.
Nesse sentido, convém acrescentar que a relação entre crença e o grau de vivacidade é
tratada por nosso filósofo da seguinte maneira: quanto mais viva for uma impressão ou ideia,
maior será nossa crença em sua realidade. Ou seja, a visão de uma árvore (impressão dos
sentidos)geracrençaimediata;arecordaçãodessaárvore(memória)geracrençamaisfraca,mas
ainda deverasfirme;eaimaginaçãodeumaárvoreemoutroplaneta(sembasenaexperiência)
podeservivaz,masnãonosconvencedesuarealidadeemsentidoestritamenteempírico.Assim,
conformeconsiderouopensadorescocês,essanoçãodegradaçãonosmostraqueacertezacom
que cremos nas coisas é rebento de uma função psicológica, e não metafísico-racional.
Àvistadisso,aodarmoscontinuidadeaoexamequeHumeforjousobreanoçãodecrença
(estatidacomonascidadaforçainternadenossacondiçãonaturalhumana,masnãodaconexão
externa que se pode imaginar relacionada a tal condição), podemoscolocarquenossofilósofo
trouxe-nos à tona uma lição final muito clara na seção que estamos tratando, qual seja, quea
crençanãovemdenenhumarelaçãoobjetivaentreasideiasearealidade,masdeumaqualidade
152
Aqui, sobre a memória conferir estrutura e regularidade, Hume afirma que “é uma propriedade peculiar da
emória preservar a ordem e posição originais de suas ideias, enquanto a imaginação astranspõeealteraaseu
m
bel-prazer” (HUME, 2009, p. 113).
87
subjetiva interna da mente153 (a intensidade com que uma ideia é ou torna-se vívida154). Com
isso,eledesconstróiaideiadequeacrençaéumjulgamentoracionaloulógicofeitopornossa
aparelhagem cognitiva155, esubstituiaepistemologiatradicionalporumateoriapsicológicadas
crenças humanas, bem como reforça sua tese de que toda forma de saber deriva da estrutura
natural da percepção e do hábito, não da razão.
Diante disso, nosso filósofo nos apresentou uma teoria da crença baseada em graus de
vivacidade das percepções; uma distinção precisa entre os modos de acesso à experiência
(sentido, memória, imaginação); a ideia de que a certeza que temos nas coisas não deriva de
lógica ou metafísica, mas daforçacomqueassentimosoulembramos.Porfim,acrença,para
nosso autor, não seria umatoracional,masumefeitodeintensidadeperceptiva,coisaquefora
compreendidopornóscomoumpontocentraldateoriadoconhecimentodeHumeeabasepara
toda a sua filosofia empírica da mente suscitou.
Passando a outro ponto, a saber, a Seção VI – Da inferência da impressão à ideia,
podemos assegurar que a seção conclui a análise iniciada nas seções anteriores ao investigar
como, a partir de uma impressão presente, a mente é conduzida à formação de uma ideia
associada156 e o que isso acarreta sobre a natureza da inferência, da causalidade e da crença.
Nessesentido,Humeconcentra-seemexplicarcomoamentehumanatransitaautomaticamente
deumaimpressãopresenteparaumaideiafutura157,associadaaelaporexperiênciapassada.Tal
transição é o cerne do que ele entende por inferência causal e, no que exporemos a seguir, o
processo que nos deseja esmiuçar com ênfase no aspecto psicológico humano.
Seguindooarrazoadodoparágrafoanterior,Humenosexpõecomdetalhesaimportância
desepensaraimpressãosensíveldoseguintemodo,asaber,todainferênciacausalpartedeuma
impressãopresenteourecente,como,porexemplo,verumanuvemescuranocéu;ora,combase
153
Quanto a isso (em relaçãoacrençacomoefeitodohábito,nãodarazão),nossoprincipalcomentadorNorman
emp Smith corrobora a passagemacimacomaseguinteafirmação:“Acrençanãoénadaalémdeumamaneira
K
particular de formar uma ideia, ou umavivacidadepeculiarnaconcepçãodela.”(SMITH,2005,p.108,tradução
nossa);ecompleta:“[EmHume],Ainferênciacausalnãosurgedoraciocínio,masdocostumeouhábito.”(SMITH,
2005, p. 88, tradução nossa). Assim, formulações como as apresentadas por Kemp Smith são pertinentes para
embasar nossa leitura de Hume como fundador de uma epistemologia afetiva, anterior à subjetividade ativa
deleuziana.
154
Sobreaintensidadecomqueumaideiaéoutorna-sevívida,Humedizque“quandoaimpressãodeumdelesse
tornapresenteanós,formamosimediatamenteumaideiadaquelequecomumenteoacompanha”(HUME,2009,p.
115).
155
Aqui, sobre desconstruir a ideia de que a crença é um julgamento racional ou lógico, Hume nos aponta a
desconstrução da crença racional,Ibidem, p. 121.
156
Sobreinvestigarcomoamenteéconduzidaàformaçãodeumaideiaassociada,Humeexpõeabasedoqueele
pensa sobre a inferênciaIbidem, p. 118.
157
Neste ponto, sobre como a mente transita automaticamente de umaimpressãopresenteparaumaideiafutura,
Ibidem, p. 121.
88
na repetição deexperiênciasanteriores,amentenãopermanecefixadaapenasnessaimpressão,
mas, segundo o filósofo, é imediatamente levada à ideia de um efeito futuro (como a chuva).
Com isso, Hume observou que a transição mencionada ocorreria sem qualquer reflexão ou
deliberaçãodenossaparte,pois,paraele,trata-sedeummovimentonatural,instintivo,fundado
na repetição de experiências similares. À vista disso, a associação por hábitoétidaporHume
nãocomoalgoracional,maspsicológico,emqueaforçaqueconduzamentedeumaimpressão
aumaideianãoéumraciocíniodedutivo,nemumaintuiçãometafísica,é,naverdade,ohábito
adquirido pela repetição. Exemplo disso pode ser o que Hume coloca da seguinte maneira:
quando eventos A e B são regularmente emparelhados no passado, a presença de A desperta
automaticamente a ideia de B, com intensidade suficiente para gerar crença. Tal inferência é,
portanto, psicológica, não lógica, isto é, não garantida pela razão, mas eficaz na prática
(essencial à vida cotidiana e à sobrevivência, ainda que não infalível).Porconseguinte,Hume
nosmostraqueprocuroucompreenderavivacidadecomocritériodecrença,oumelhor,elenos
afirmou na seção emquestãoqueadiferençaentrepensaremumpossívelefeitoecrerqueele
acontecerá estánograudevivacidadedaideia.Segundoseupensamento,aimpressãoatual,ao
ser associada a uma ideia futura (o efeito), transmite parte de sua vivacidade a essa ideia,
tornando-a forte o bastante para ser acreditada. Uma lição disso pode ser descrita da seguinte
maneira:verfumaça→imaginarfogo;poisbem,avivacidadedavisãodafumaçarevesteaideia
de fogo com força psicológica,tornando-aumacrença.Taltransferênciadevivacidadeéoque
constitui a inferência causal.
Destarte, mantendo o fio argumentativo, ao se colocar mais uma vez contra a razão
tradicionaledesafiá-ladiretamente158,Humedizquearacionalidadenãosetratademerousoda
deduçãodenossoentendimentosobreeventosassociados,queelanãosetratadeumainferência
que se aplica apenas por princípios analíticos, posto que, de acordo com sua visão, nenhuma
operação lógica poderia nos levar da observação de um único evento ao conhecimento
maximamente efetivo de sua causa ouefeito.Nisso,paranossofilósofo,ainferênciasóocorre
porqueoentendimentofoimoldadoporexperiênciaspassadas,nocaso,eleéumatodanatureza
humana, não da ciência lógica; e mais ainda, o valor prático e limitado da inferência causal
158
Sobredesafiararazãotradicionaldiretamenteesobrenenhumaoperaçãológicapodernoslevardaobservaçãode
u múnicoeventoaoconhecimentodesuacausaouefeito,Hume–aodesafiá-la(arazãoemsentidotradicional)–
nosfalaque“arazãojamaispodenosmostraraconexãoentredoisobjetos,mesmocomaajudadaexperiênciaeda
observação de sua conjunção constante em todos os casos passados” (HUME, 2009, p. 121). E mais: “[...] não
apenasnossarazãonosfalhanadescobertadaconexãoúltimaentrecausaseefeitos,mas,mesmoapósaexperiência
ter-nos informado de sua conjunção constante, é impossível nos convencermos, pela razão, de que deveríamos
estender essa experiência para além dos casos particulares que pudemos observar. Nós supomos, mas nunca
conseguimos provar, que deve haver uma semelhançaentreosobjetosdequetivemosexperiênciaeosqueestão
além do alcance de nossas descobertas.” (HUME, 2009, p. 120).
89
estabelece o seguinte caminho discutido por Hume, qual seja, ainda que tal valor não seja
racional em sentido estrito,ainferênciacausaléessencialparaaação,paraaprevisãoeparaa
ciência e, por isso, elenãoadescarta;pelocontrário,estima-acomoummecanismonaturalde
sobrevivência, que, ao revelar sua natureza psicológica, esvazia nossas possíveis pretensões
metafísico-racionalistas.
Ademais,alémdoquefoicolocadonaSeçãoV,quemostrouqueograudevivacidadedas
impressões gera diferentes graus de crença, agora, em relação a Seção VI, nosso filósofo nos
mostrou como a vivacidade de uma impressão atual é transferida para uma ideia associada,
formando o que chamamos de inferência oujulgamentocausal.Ora,Humeconcluisuaanálise
dainferênciacausalaorevelarquetodainferênciadacausaaoefeito(ouvice-versa)sedápela
transição psicológica da impressão à ideia. Tal transição é fundada na repetição passada e no
hábito,enãoemprincípioslógicos,porissoque,paraHume,oquechamamosderaciocínioé,
muitas vezes, um processo associativo automático, baseado na força vivencial da experiência.
Portanto,emsuaconcepção,nossofilósofovisoudesmantelaravisãotradicionaldecausalidade
como relação necessária objetiva e revelar a mente como uma máquina de conexões práticas,
regida por regularidades e costumes e não pela razão abstrata.
Prosseguindo,naSeçãoVII–Danaturezadaideiaoucrença,podemosafirmarqueHume
procurouproporumadefiniçãocristalinaeoriginaldoqueécrer,distinguindoacrençadeoutras
operaçõesmentais,comoimaginarouconceberideias.Apropósitodisso,eleenfrentouumadas
questões mais difíceisdaepistemologiamodernadeseutempo,qualseja:Oquedistingueuma
simples ideia de uma crença verdadeira?Porquealgumasideiasnosparecemreais,enquanto
outras nos parecem fictícias?1 59
Pois bem, o objetivo de Hume com tais questões é poder respondê-lasvisandoformular
uma teoria psicológica da crença, em vez de buscar uma definição lógico-metafísica160. Nesse
sentido, ele compreendeu a crença como vivacidade diferenciada da ideia, isto é, para nosso
empirista, crer seria terumaideiaqueseapresentacomumavivacidadeparticular161,emquea
crença não seria uma novaideiaouumaideiadesegundaordem,masumaideiacomumqueé
sentida de modo mais forte162, mais firme e mais determinada que uma mera ficção. Tal
159
obre o que distingue uma simples ideia de uma crença verdadeira,Ibidem,p. 127.
S
Sobre a crença não consistir à natureza ou à ordemdenossasideias,Humedizqueanaturezapsicológicada
crença se dá da seguinte maneira: “[...] como éimpossívelqueessafaculdadepossajamais,porsisó,alcançara
crença, é evidente que esta não consiste na natureza ou na ordem de nossas ideias, mas na maneira como as
concebemos e como são sentidas pela mente.” (HUME, 2009, p. 127).
161
Aqui, sobre a crença ser algo sentido pela mente, Hume define crença também como sentimento,Ibidem.
162
Nesteponto,sobreacrençanãoserumanovaideiaouumaideiadesegundaordem,Humeexpõequeacrença
não adiciona conteúdo,Ibidem, p. 131.
160
90
vivacidadedescritaporHumepodesercompreendidacomootraçofundamentaldacrença,posto
que, para ele, ela não altera o conteúdo da ideia, mas modifica o modo como a ideia é
representadanamente163,asaber,commaisintensidade,confiançaefixidez.Assim,acrençaé,
segundo nosso autor, uma forma intensificada de representação, não algo ontologicamente
distinto.
Dando continuidade, a crença como um tipo de sentimento é compreendida por Hume
como uma impressão interna164 que, por meio de sua viveza, deve ser classificada ou mesmo
consideradacomotal.Segundooautor,adiferençaentrecreremeramentepensarnãoéracional,
mas afetiva,ouseja,acrençaéummododesentirumaideia,nãoderaciocinarsobreela(com
isso,Humefazdacrençaalgoemtermosacentuadamentepsicológicoseemocionais,emvezde
racionais ou formais). Por outro lado, ao tratar da relação da crença com a causalidade e a
repetição,vimosqueHumerecuperoutemasanteriores,quaissejam,aideiadecausaeefeitoea
inferência baseada no hábito. Nisso, ele mostrou que a repetição de experiências faz comque
certas ideias ganhem vivacidade ao serem associadas a impressões165; essa vivacidade é
transmitida para a ideia do efeito, criando a sensação de certeza, ou seja, a crença166. Como
exemplo disso, poderia-se exprimir a seguinte colocação semelhante àcolocaçãodaseçãoque
comentamos anteriormente: ao vermos nuvens escuras repetidamente seguidas de chuva,
formamos o hábito de esperar chuva → se essa ideia torna-se vívida → acreditamos que choverá.
Agora, passando a outro ponto, a diferença entre crença e ficção167 para Hume se dá da
seguinte maneira: embora possamos imaginar muitas coisas com clareza (um castelo voador,
uma criatura fantástica), essas ideias não se tornam crenças porque não possuem vivacidade
suficiente168.Mesmoideiasfalsaspodemservívidas;porém,semovínculocomumaimpressão
presente ou com uma repetição passada, não geram convicção169. Assim, segundo Hume, a
163
obre a vivacidade não alterar o conteúdo da ideia, mas modificar o modo como é representada,Ibidem.
S
Ora, sobre a crença como umtipodesentimentoouimpressãointerna,Humedefinecrençacomosentimento,
Ibidem, p. 127.
165
Sobre a repetição de experiências fazer com que certas ideias ganhem vivacidade,Ibidem, p. 128.
166
Sobre a vivacidade ser transmitida para a ideia do efeitoesobreacrençaserumefeitonaturaldepadrõesde
experiência, criando a sensação de certeza e sobre a presençacontínuaestimularatransiçãodaimpressãoparaa
ideia, Hume descreve tal transmissão ou transição natural da mente,Ibidem,p. 129.
167
Aqui,temosaseguinteponderação:Sobreasideiasaquedamosnossoassentimentoseremmaisfortes,firmese
cheiasdevida,temosqueHumeestabeleceaconformidadedasideiascomaexperiênciadaseguintemaneira:“Essa
definição também irá se mostrar inteiramente conforme à sensação [feeling] e à experiência decadaumdenós.
Nadaémaisevidentequeofatodequeasideiasaquedamosnossoassentimentosãomaisfortes,firmesecheiasde
vida que os vagos devaneios de um sonhador.” (HUME, 2009, p. 127-128).
168
Nesteponto,sobreemborapossamosimaginarmuitascoisascomclareza,essasideiasnãosetornaremcrenças,
Hume aponta a diferença entre imaginação e crença,Ibidem, p. 127.
169
Aqui, sobre mesmo ideias falsas poderem ser vívidas, Hume nos aponta a necessidade de sua relação coma
impressão,Ibidem, p. 131.
164
91
crençacomoumaoperaçãonatural,masnãovoluntária(comoalgoquenãodecidimoster)170,é
produzidaautomaticamentepelofuncionamentonaturaldamentequandocertascondiçõesestão
presentes (impressões + hábito). Com isso, nosso autor sustentou que a crença é involuntária,
mas necessária, ou seja, não cremos porque escolhemos, mas porque a mente opera desse modo.
Nomais,aindaquantoaestaseção,precisamosponderarqueHumetratouacrençacomo
umaideiarevestidadevivacidadepeculiar,coisaresultadadaassociaçãohabitualentreeventosa
que esta se refere171; sustentou que a crença é um sentimento, e não uma conclusão racional;
deslocou o conceito de crença para o campo da psicologia natural, dissolvendo pretensões
metafísicas e racionalistas sobre o conhecimento172 e, com isso, finalizousuasconsideraçõesà
seção com um movimento de transição da epistemologia clássica para uma epistemologia
empírico-afetiva,naqualpodemosapontarqueosaberéresultadodofuncionamentodanatureza
humana e não da pura dedução lógica – nem de quaisquer revelações ontológicas genéricas.
Falamos agoradaSeçãoVIII–Dascausasdacrença.Elarepresentaumaculminaçãoda
análise iniciada desde adefiniçãodeconhecimento,probabilidadeecausalidade173,emquenos
voltamosparaainvestigaçãodascondiçõesqueinfluenciamosurgimentoeaforçadascrenças
humanas.Ora,nestaseção,Humequernosexplicarcomclarezaporquecremosemcertasideias
commaisintensidadedoqueemoutras,mesmoquenãohajadiferençalógicaentreelas.Diante
disso, conseguimos apontar que nosso autor já havia definido a crença como uma ideia mais
vívida,masagoraelebuscacompreenderquaissãoosfatoresqueaumentamessavivacidadeea
tornam uma crença efetiva.
Porconseguinte,aotratarmosnovamentearepetiçãocomocausaprincipaldacrençapara
Hume,destacamosque,alémdeconsiderararepetiçãodaconjunçãoconstanteentredoiseventos
a primeira e principal causa da crença174, ele aafirmacomoaquiloquegeraamantenedurado
hábito.Istoquerdizerque,quandoobservamosfrequentementequeoeventoAéseguidoporB,
170
Sobre acrençacomoumaoperaçãonatural,masnãovoluntária,Humeexpõeanaturezaautomáticadacrença:
“ [...]passos;ecadapassomepareceseguroeinfalível.Asúnicascoisasqueentramnessaoperaçãodamentesão
uma impressão presente, uma ideia vívida e uma relação ou associação na fantasia entreaimpressãoeaideia.”
(HUME, 2009, p. 131).
171
Sobreacrençaresultardaassociaçãohabitualentreeventos,Humenosfalaprecisamentesobrearelaçãoentre
crença e causalidade,Ibidem, p. 131.
172
“Objetos sensíveis exercem sempre umainfluênciamaiorsobreafantasiaquequalqueroutrotipodeobjeto;e
transmitem essa influência facilmente às ideias com que estão relacionados eàsquaisseassemelham.”(HUME,
2009, p. 130).
173
Quantoaisso,sobreporquecremosemcertasideiascommaisintensidadeousobreaintensidadedaimpressão
sensível afetar a crença,Ibidem, p. 136.
174
Aqui,sobrearepetiçãodaconjunçãoconstantecomoprimeiracausadacrençaesobreideiasassociadasaoutras
já presentes serem reforçadas, Hume estabelece os princípios de associação e sua força,Ibidem, p. 137.
92
a mente adquire o hábito de associar A a B1 75. Isso faz com que, ao observarmos A, surja
prontamenteaideiadeBcomforçasuficienteparagerarcrença;essarepetiçãoéoquealimenta
o costume ou hábito (conceito dos mais importantes para além da epistemologia humeana)176.
Todavia, a influência da semelhançaéalgoquepodemosteremHumecomoequiparadoaoda
repetição, tendo em vista que a semelhança entre eventos também reforça aconexãocausale,
comisso,acrença177.Daí,seonovoeventoseassemelhamuitoaeventospassadosemqueuma
determinadarelaçãocausalocorreu,amenterapidamenteinferequeomesmoefeitoseseguirá.
Assim, a semelhança substitui a repetição quantitativa por uma analogia qualitativa178.
Em correspondência ao disposto acima, outro fator que Hume destaca é a contiguidade
espacial e temporal como facilitadoras da associação179, pois, quando dois eventos ocorrem
próximos no espaçoenotempo,amentetendeaassociá-loscommaisforça.Eéapartirdisso
que Hume expõe que a presença contínua ou a proximidade de elementos no campo da
experiência estimula a transição da impressão para a ideia associada, gerando a crença. Tal
contiguidade serve como um gatilho para o hábito se manifestar com mais eficácia.
Maisadiantenaseção,Humecomentaqueaintensidadedaimpressãosensíveldeorigem
afetagrandementeacrença,porcontadesuaforçaoriginária.Ora,quantomaisvívidaeintensaa
impressãoquetemosdeumacausa,maisvívidaseráaideiadoefeitocorrespondente,emaiora
probabilidadedeacreditarmosnela.Nisso,aideiaquesesegueaumaimpressãointensarecebe
delaumimpulsodevivacidade,oquetransformaessaideiaemcrençapatente.Comisso,Hume
observou que ideias associadas a outras que já estão presentes na mente (por semelhança,
175
Nesteponto,sobrearepetiçãogerarohábitoesobreacrençaserumimpulsonatural,masnãoracional,Hume
descreve a fixidez da relação causal,Ibidem, p. 140.
176
Sobre a repetiçãoalimentarocostumeouhábito,Humeexpõeopapeldamemórianaformaçãodosistemade
realidades:“Quandoamemóriaproporcionaumaideiadistoearepresentacomopassada,éfácilconceberporque
essa ideia podetermaisvigorefirmezadoquequandopensamosemumpensamentopassadodoqualnãotemos
nenhuma lembrança.” (HUME, 2009, p. 136); e mais: “Dessas impressões ou ideiasdamemóriaformamosuma
espéciedesistema,quecompreendetudooquenoslembramosterestadopresenteanossapercepçãointernaoua
nossossentidos;eacadaelementoparticulardessesistema,juntamentecomasimpressõespresentes,costumamos
chamar de umarealidade.” (HUME, 2009, p. 138).
177
Sobreasemelhançareforçaraconexãocausaleacrençaesobreacontiguidadeservircomogatilhoparaohábito
semanifestar,podemosdizerqueHumeestabeleceainfluênciadasemelhançaecontiguidadedaseguintemaneira:
“Observei várias vezes que, além da causa e efeito, as relações de semelhança e contiguidade devem ser
consideradas como princípios de associação do pensamento, e capazes de conduzir aimaginaçãodeumaideiaa
outra.” (HUME, 2009, p.137);emais:“Quantoàinfluênciadacontiguidadeedasemelhança,podemosobservar
que, se o objeto contíguo e semelhante estiver compreendido nesse sistema de realidades, nãohádúvidadeque
essas duas relações irão auxiliar adecausaeefeito,fixandomaisfortementenaimaginaçãoaideiarelacionada.”
(HUME, 2009, p. 139).
178
Aqui, sobre a semelhança substituir a repetição quantitativa por analogia qualitativaesobreoutrasformasde
relaçãoproduziremefeitosanálogoscommenosvigor,Humeexemplificaainfluênciadasemelhançaecontiguidade
na imaginação para que tais relações ocorram,Ibidem, p. 139.
179
Sobre a contiguidade espacial e temporal como facilitadoras da associação e sobre todasasrelaçõesgerarem
efeitos semelhantes aos da inferência causal, Hume expõe a necessidade da causalidade para darforçaàsoutras
relações,Ibidem, p. 140.
93
contiguidade ou causalidade) tendem a ser reforçadas em sua intensidade, ou seja, o contexto
mental em que uma ideia surge pode ampliar sua força emocional e sua autoridade subjetiva,
contribuindoparasuaaceitaçãocomocrença180.Ésobessaperspectivaque,paranossofilósofo,
podemos dizer que a associação entre ideias presentes tem enorme e notória influência
psicológica, posto que, o que Hume nos expõe, aponta para o caráter dinâmico e afetivo da
crença, que depende da organização interna das percepções e ideias181.
Por conseguinte, ao falarmos mais pontualmente da memória e da experiência pessoal–
coisa que estádiretamenteconectadacomoparágrafoanterior–,Humedistingueentreopapel
quecadaumadelastêm,afirmandoqueeventosqueocorrerampessoalmenteconoscoproduzem
impressõesmaisvívidas,eportantocrençasmaisfortes(doquerelatosindiretos)182.Nisso,para
nossoautor,aexperiênciapessoalémaisconvincentequeatestemunhal,postoqueaprimeiraé
diretaeasegundaapenasmediadaporideiasmenosvivas.Disso,Humeacabaporreforçarsua
ideiadequeacrençanãoresultadededuçõesracionais,masdemecanismosnaturaisdamente183,
ativados por fatores como repetição, intensidade da impressão e semelhança. Pois bem, para
nossoempirista,acrençaadvémoupodesertidacomoumimpulsonatural,masnãoracional:a
crença é um efeito passivo da natureza psicológica humana, e não uma conclusão da
racionalização.
Ademais, ao vermos que, naSeçãoVII,Humedefiniuacrençacomoumaideiamarcada
porumavivacidadeparticular;agora,naSeçãoVIII,primouporexplicarcomoessavivacidade
se forma e o que a intensifica ou enfraquece. A partir disso, Humenosmostrouqueacrença,
longe de ser uma operação intelectual controlada, é um efeito natural de certos padrões de
experiênciaedisposiçãoperceptiva.Quantoaomais,Humeprocurouestabelecerqueacrençaé
produzida por causas naturais como repetição, semelhança e contiguidade; já a vivacidade da
ideia,quecaracterizaacrença,éreforçadaporessascondiçõespsicológicas.Nessesentido,para
nosso filósofo, a mente humana não necessariamente escolhe crer, posto que ela é levada à
crençaporsuasestruturasinternasdefuncionamentoassociativo.Nisso,podemosdizerqueuma
180
Nesteponto,sobreocontextomentalampliaraforçaemocionaleaautoridadesubjetivaesobrecertasrelaçõese
h ábitos serem mais fortes ou fracosconformeaexperiência,Humedescrevecomoaimaginaçãopovoaomundo,
Ibidem, p. 138.
181
Sobre o caráter dinâmico e afetivo da crença, Hume descreve a formação de sistemas de realidades,Ibidem.
182
Sobre eventos que ocorreram pessoalmente produzirem impressões mais vívidas, Hume estabelece a
superioridade da memória sobre a imaginação,Ibidem, p. 136.
183
Sobreaexperiênciapessoalsermaisconvincentequeatestemunhal,temosque:“Dessasimpressõesouideiasda
memóriaformamosumaespéciedesistema,quecompreendetudooquenoslembramosterestadopresenteanossa
percepçãointernaouanossossentidos;eacadaelementoparticulardessesistema,juntamentecomasimpressões
presentes,costumamoschamardeumarealidade.”(HUME,2009,p.138).Emais:“Oprimeirosistemaéobjetoda
memória e dos sentidos; o segundo, do juízo.” (HUME, 2009, p. 138).
94
das maiores inovações sugeridas por Hume se dá quando ele transforma a teoria do
conhecimentoempsicologiaempírica,abrindomãodalógicaedametafísicacomofundamentos
de uma certeza absoluta sobre os processos cognitivos184.
Por extensão, examinando como diferentes tipos de relações entre ideias (para além da
causalidade estrita) e hábitos mentais influenciam nosso entendimento e nossa disposição
psicológica, após expormos que Hume procurou definir a crença como uma ideia com
vivacidadepeculiar(SeçãoVII)eexplicarascausasdaintensidadequeapromove(SeçãoVIII),
naSeçãoIX–Dosefeitosdeoutrasrelaçõeseoutroshábitos,elevolta-separaumpontomais
amplo, a saber, quer compreender como outras formas de associação, além das que envolvem
causaeefeito,tambémproduzemcrenças,emoçõeseconvicções.Paraisso,quantoaocampode
sua análise psicológica, nosso filósofo procurouampliaraindamaisseuexamedacrença(para
além do raciocínio causal).
Sob essa perspectiva, ao falarmos sobre as relações naturais como fontes de associação,
Hume retomou à seção a tipologia das relações naturais entre ideias, isto é, a semelhança, a
contiguidadenotempoenoespaçoeacausalidade.Eleafirmouquetodasasrelaçõesdestacadas
podem gerar efeitos semelhantes aos da inferência causal, ainda que com menor intensidade.
Exemplo disso pode ser exposto da seguinte maneira: ao pensar em um objeto, a mente pode
automaticamente ser levada a outro objeto semelhante (por semelhança), próximo (por
contiguidade) ou usualmente conectado (por causalidade); associações feitas de tal maneira
podemproduzirideiassuficientementevívidasparagerarcrençasouemoçõesdediversosníveis.
Nesse sentido, ao tratarmos ainfluênciadoshábitosformadosporoutrasrelaçõesquenãosóa
causalidade, vemos que não apenas o hábito formado pela relação mencionada pode reforçar
crenças.Ouseja,Humebuscanosmostrarquehábitosassociadosarepetiçõesdeideiasligadas
por semelhança ou proximidade também fortalecem expectativas e convicções, pois o
entendimento humano é moldado por um conjunto variadodehábitosmentais,todosfundados
em experiências passadas e repetições de padrões relacionais.
À vistadisso,convémacrescentarnessemomentoque,paraHume,assimcomoacrença,
as emoções, como resultado das relações que mencionamos acima, podem ser suscitadas por
associações entre ideias, ou seja, ao lembrar de uma pessoa querida, por exemplo, podemos
experimentar ternura não apenas pela recordação em si, mas por conta de ideias contíguas ou
semelhantes associadas a ela (um local, uma música, uma situação repetida). Nosso exemplo
184
Sobre abrir mãodalógicaedametafísicacomofundamentosesobrediferençasdeforçaentreasrelaçõesque
promovem crenças e emoções, Hume expõe a fragilidade das relações sem causalidade,Ibidem, p. 140.
95
mostra que, segundo Hume, o sistema associativo da mente é afetivo e intelectual ao mesmo
tempo. Por isso, podemos dizer que há diferenças de força entre as relações que promovem
crenças e emoções. Ora, Hume reconhece que a causalidade continua sendo a relação mais
poderosa em termos de produção de crença185; entretanto, as outras formas de relação
(semelhança e contiguidade) podem produzir efeitos análogos, embora commenosvigor.Essa
gradação de intensidade revela uma hierarquia psicológica entre os tipos de associação.
Agora, quanto ao papel das expectativas culturais e individuais ligadas às relações de
associação, ainda que Hume foque nas operações universais da mente, ele admite que certas
relações e hábitos podem ser mais fortes ou mais fracos conformeaexperiênciaindividualou
culturalquetivermos.Issoexplicaporquecrençaseemoçõesvariamentrepessoasecontextos,
embora tais pessoas obedeçam às mesmas leis fundamentais de associação.
De mais a mais, vimosqueaSeçãoVIIapresentouacrençacomovivacidadepeculiar;a
Seção VIII explicou as causas dessa vivacidade; agora, dentrodaSeçãoIX,Humebuscounos
mostrarquemesmorelaçõesnãocausaispodemgerarcrençaseemoções.Assim,nossofilósofo
buscouexpandirsuateoriadamentecomoumsistemaassociativomultifacetado,governadopor
princípiosnaturais,massensívelàsnuancesdaexperiência186.Emsuma,aoconcluirmosnossos
comentários à seção, cabe-nos dizer ainda que Hume dilatou sua explicação da crença e das
emoções, ao mostrar que diversas formas de associação entre ideias podem produzir efeitos
psicológicos intensos; reafirmouqueamentehumanaoperacombaseemhábitosadquiridos,e
que a crença é um fenômeno afetivo, não lógico; estabeleceu que as relações naturais
(semelhança, contiguidade e causalidade) são os pilares da associação de ideias, com graus
distintosdeforçaeimpactoemocional;nisso,Humeconsolidousuavisãodequeopensamento
humano é regido pelas leis da natureza psicológica de seus agentes.
JánaSeçãoX–Dainferênciadacrença,Humeconcluisuaanálisesobreofenômenoda
crença, oferecendo uma síntese das causas que nos fazemtransitardameraconcepçãodeuma
ideia para sua aceitação como verdadeira187. Tal movimento, segundo ele, não se dá por um
processológico-racional–comojácolocado–,masporumatransiçãopsicológicamarcadapor
185
Sobre a causalidade como relação mais poderosa, Hume afirma que“arelaçãodecausaeefeitotemtodasas
v antagens opostas”, isto é, “os objetos que apresentasãofixoseinalteráveis”,umavezque“opensamentovê-se
sempredeterminadoapassardaimpressãoàideia,edessaimpressãoparticularàquelaideiaparticular,semescolha
ou hesitação” (HUME, 2009, p. 140).
186
Sobre a expansão da teoria da mente como sistema associativo multifacetado, Hume afirma que “dessas
impressõesouideiasdamemóriaformamosumaespéciedesistema,quecompreendetudooquenoslembramoster
estado presente a nossa percepção interna ou a nossos sentidos” (HUME, 2009, p. 138).
187
Quanto a este ponto,sobreasíntesedascausasquefazemcomquenosmovamosparaaaceitaçãogerminada
pelo costume,Ibidem, p. 146.
96
sentimentosehábitosmentais188.ParaHume,trata-sedeumaprofundamentodesuatesedequea
inferênciacausal,quefundamentaboapartedenossascrençassobreomundo,éessencialmente
um processo afetivo e automatizado, natural à mente humana189.
Atéaqui,aolongodaParteIII,Humehaviadesmistificadoarazãocomoofundamentodas
crenças, demonstrando que sua origem está na vivacidade com que certas ideias se impõemà
mente.Acrença,emtalcontexto,nãofoitomadacomoumaideianovaouumaqualidadelógica,
mas sim um sentimento peculiar que acompanha a ideia, conferindo-lhe maior intensidade190.
Segundonossoautor,talsentimento,distintoevívido,transformaumarepresentaçãomentalem
umacrençaverdadeiraparaosujeitorelacional.Assim,Humeafirmaqueainferêncianãoseria
propriamenteumencadeamentológicoentreproposições,masumaexperiênciainternadamente,
umatransiçãosentidaqueseestruturadeformanatural,irrefletida–coisadeverasapontadapor
nós nessa terceira parte do Livro I.
Àluzdisso,oprocessodeinferênciadestacadoporHumesedápormeiodaexperiência,e
isso quer dizer que, quando a mente é afetada por uma impressão presente, ela, de maneira
espontânea, evoca uma ideia frequentemente associada a essaimpressãonopassado.Daí,para
nosso filósofo, tal evocação ocorreria pela repetição de conjunções constantes entre eventos,
criandohábitosassociativos191.Atítulodeexemplo(eusaremosumjáconhecidopornósaessa
altura de nosso texto): ao observar nuvens escuras, não inferimos racionalmente que choverá;
simplesmenteesperamosachuva,poisessasequênciajáfoiobservadaváriasvezes.Ora,quanto
maior o número de conjunções entre dois eventos – comovernuvensedepoischuva–,maior
será a expectativa e a força da crença; todavia, segundo Hume, mesmo uma única conjunção
poderia gerar alguma expectativa, especialmente se acompanhada de uma impressão intensa.
Além disso, nosso filósofo empirista destacou-nos que a mente humana possui uma
disposição natural para formar crenças, sobretudo sob a influência de impressões vívidas192.
Assim, a inferência da crença seriaumresultadomaquinaldaestruturaassociativadamente,e
não exigiria de nós uma deliberação consciente. Para Hume, a crença nasce do modo como a
menteestáconfiguradaparaoperar,istoé,associandoideiaspormeiodosprincípiosdoespírito.
188
obre transição psicológica marcada por sentimentos e hábitos mentais,Ibidem,p. 149.
S
Aqui, sobre a inferência causal como processo afetivo e automatizado e sobre crer comosentimentointenso,
Ibidem, p. 149-150.
190
Nesteponto,quantoàcrençacomosentimentopeculiarqueacompanhaaideiaequantoainferênciacausalcomo
hábito afetivo (não dedução racional),Ibidem, p. 147.
191
Aqui, quanto a evocação ocorrer pela repetição de conjunçõesconstantesequantoàscertezassobreomundo
como produtos da natureza humana,Ibidem, p. 146-147.
192
Ora, quanto àmentepossuirdisposiçãonaturalparaformarcrenças,Humenosdizoseguinte:“Asimpressões
sempreativamamentenomaisaltograu,masnemtodaideiatemesseefeito”(HUME,2009,p.149),dadoquea
natureza age com prudência nesse sentido.
189
97
Aliás,outroaspectocentralnosentidodaconcepçãoapresentadaéopapeldasemoções:nelas,a
crençanãoéapenasumaideiaintensificada,mastambémumaideiasentidacomoverdadeirapor
estar associada a elas como antecipação (medo, desejo ou confiança), ou seja, para Hume, as
emoções atuam como reforçadores afetivos da ideia, distinguindo-a da simples imaginação.
Assim, a inferência quepodegerarcrençaéumaoperaçãomistadecogniçãoesentimento,em
que não apenas demonstra pensamento, mas também paixão (ou seja, emoção).
Nomais,Humesintetizouessepercurso,explicandocomotodasessascondiçõesculminam
no fenômeno psicológico da inferência que leva à crença. Com isso, nosso filósofo escocês
consolida uma das teses mais radicais de sua filosofia,istoé,oconhecimentoempíriconãose
funda em princípios racionais ou lógicos universais,masnasdisposiçõesafetivasenaturaisda
mente humana193. A inferência causal, base de boa parte de nosso conhecimento cotidiano, é,
paraHume,umhábitoafetivo,nãoumadeduçãocompostadepuraracionalidade.Acrençaé,em
sua essência, um sentimento intenso, em que crer é sentir com intensidade, por fim, segundo
Hume, nossas certezas sobre o mundo são produtos da natureza humana.
Agora,quantoaSeçãoXI–Daprobabilidadedechances,Humebuscaavolumardetalhes
importantes a sua teoria da crença e dainferênciacausalaoabordarumnovodesafio:Comoa
mentehumanareagediantedaincertezaquantitativa?Diferentedoscasosdecausalidadedireta,
em que a repetição de uma conjunção constante entre eventos gera uma crença firme, aqui,
Hume busca compreender como formamos expectativas quando lidamos com múltiplas
possibilidadesechancesprobabilísticas,comoocorre,porexemplo,nolançamentodeumdado.
Apropostaéinvestigardequemodoohábito,avivacidadeeaassociaçãodeideiascontinuama
operar mesmo quando não há uma causa predominante absoluta.
Nesse sentido, Hume distingue dois tipos de inferência: a causalidade baseada na
experiênciaconstante,queresultaemumacrençaforteefirme;eainferênciaporchance,naqual
a conjunção entre causa e efeito é irregular ou incompleta, gerando uma expectativa mais
fraca194. Nessassituações,amentedistribuisuacrençadeformaproporcionalàfrequênciacom
que determinados efeitos foram observados no passado. Surge assim o conceito de
probabilidade: uma expectativa graduada, fundada na proporção entre diferentes causas
observadas.
193
obre o conhecimento empírico não se funda em princípios racionais ou lógicos universais,Ibidem, p. 148.
S
Sobre a distinção entre causalidade constante e inferência por chance, Hume diz que “a probabilidade, ou
raciocínioporconjetura,podeserdivididaemdoistipos,asaber,aquesefundanoacasoearesultantedecausas”,
e é interessante que “examinemos cada uma delas por ordem” (HUME, 2009, p. 157).
194
98
Porconseguinte,paraHume,anoçãodechancenãosereduziriaapossibilidadesabstratas
ou puramente matemáticas: na verdade, ela seria definida por nosso filósofo como a presença
simultânea de várias causas potenciais para diferentes efeitos195. E quanto a isso, a título de
exemplo, podemos colocar que, ao lançar um dado equilibrado, existem seis causas em jogo,
cadaumaassociadaaumnúmeropossível.Ora,amentedividesuaexpectativaigualmenteentre
essaspossibilidades196;noentanto,seaolongodesucessivoslançamentosumadasfacesaparece
com maior frequência, essa experiência fortalece o hábito associativo em relação a esse
resultado,aumentandoavivacidadedaideiacorrespondentee,consequentemente,aintensidade
dacrença197.Poisbem,essemecanismodescritoantecipaoqueposteriormenteseriareconhecido
como uma concepção empírica e subjetiva de probabilidade: ou seja, acreditamos com mais
intensidade naquilo que, segundo Hume, mais frequentemente aconteceu diante de nós.
Além do aspecto quantitativo, Hume também introduziu em suas considerações um
componente afetivo importante, qual seja,quandoconfrontadacommúltiplaschances,amente
não apenas pondera probabilidades demaneirafriaeracional,massenteumaoscilaçãointerna
entrepossíveiscrenças.Essahesitação198 –essesentimentoderiscoquepodemossentir–revela
a natureza sensível dacrençaprobabilística.Emoutraspalavras,mesmoosjuízosqueparecem
maisracionais,comoosutilizadosemjogosdeazarounatomadadedecisõessobincerteza,são,
para Hume, governados por disposições sentimentais: a razão, portanto, continua sendo
subordinada às paixões, conforme suacélebreteseanteriormentemencionada.Nessesentido,a
afetividade presente à ponderaçãosobrechanceséilustradaporHumepormeiodeseuparecer
sobrejogosdeazar.Segundonossoautor,taisjogosnãooferecemcerteza,massimumnúmero
195
Sobre a noção dechancecomopresençadecausasmúltiplas,Humeesclarecequeoacasonãoéumaentidade
a bstrata, mas sim “somente a negação deumacausa”(HUME,2009,p.158).Segundoofilósofo,temosque:“A
ideia de causa e efeito é derivada da experiência, que, ao nos apresentar certosobjetosemconjunçãoconstante,
habitua-nos a tal ponto a considerá-los nessa relação que só com uma sensível violência somos capazes de
concebê-los em uma relação diferente. Por outro lado, como o acaso em si mesmo não é nada de real e,
propriamentefalando,ésomenteanegaçãodeumacausa,suainfluênciasobreamenteécontráriaàdacausalidade.
Fazpartedesuaessênciadeixaraimaginaçãointeiramenteindiferenteparaconsideraraexistênciaouainexistência
daqueleobjetoqueévistocomocontingente.Umacausatraçaocaminhoparanossopensamentoe,decertomodo,
nos força aconsiderarobjetosdeterminadosemrelaçõesdeterminadas.Tudoqueoacasopodefazerédestruirtal
determinação do pensamento,deixandoamenteemseuestadooriginaldeindiferença,aque,naausênciadeuma
causa, ela retorna instantaneamente.” (HUME, 2009, p. 158). Tal concepção mostra que a chance opera pela
ausência de determinação causal absoluta, permitindo múltiplas possibilidades.
196
Aqui,sobreoexemplododadoeadivisãoproporcionaldacrença,Ibidem,p.162;assim,paraHume,amente
distribui sua força de crença proporcionalmente entre as possibilidades disponíveis.
197
Sobre a influência das figuras inscritas nas faces do dado, Hume demonstra como a frequência altera a
distribuição da crença ao analisar as figuras inscritasnasfacesdodado,Ibidem,p.162-163.Porisso,paranosso
filósofoempirista,arepetiçãodeumamesmafigurafortaleceacrençaassociadaaela,antecipandoumaconcepção
empírica de probabilidade.
198
Sobre a transição imperfeita e a crença hesitante, Hume explica comoaexperiênciacontraditóriageracrença
hesitante, Ibidem, p. 165-166. Ora, ao pensarmos a passagem, temos que atransiçãoimperfeitaresultaemgraus
variados de crença, proporcionais à regularidade observada na experiência passada.
99
conhecidodechancesparacadaresultado.Amente,aoanalisaressesjogos,distribuisuaatenção
e expectativa com base nas probabilidades, ativando o sistema mental que pondera causas e
efeitos conforme pesos emocionais e racionais em fluxo conectivo. Nisso,nãosetratadeuma
dedução lógica, mas de uma operação da natureza humana que responde aos padrões de
experiência e sentimento.
Paramais,vimosque,naSeçãoX,Humemostrouqueainferênciadacrençaocorrecomo
uma transição psicológica natural, enquanto, na Seção IX, ele apontou que relações, como
semelhançaecontiguidade,geramexpectativas;agora,eleintroduziuadimensãoquantitativaem
relação a tais expectativas possíveis de serem geradas por meio de relações diversas: nesse
sentido,segundoempirismohumeano,podemosdizerqueamentehumananãoapenasacredita,
masgraduaaintensidadedesuacrençacombasenafrequênciaestatísticadeeventospassados.
Com isso, nosso filósofo nos ofereceu na seção comentada uma das mais significativas
contribuições à compreensão da crença, isto é, ele demonstrou como, diante da incerteza, a
mente écapazdeformarexpectativasproporcionaisàschancesobservadas,estendendoopapel
do hábito para além das relações causais estritas. A probabilidade torna-se, assim, uma
manifestaçãodohábitoemcontextosdecausalidadeincompleta.Porfim,acrençafoireafirmada
como uma operação psicológica movida por sentimentos e associações, mesmo quando se
apresenta sob a aparência racional e matemática, e a razão, nesse sentido, não seria capaz de
escaparàcondiçãohumana,postoque,segundoHume,estaésempreumprodutosecundárioda
experiência e da sensibilidade.
Doravante,combasenoquetratamoshápouco,aSeçãoXI–Daprobabilidadedecausas
éoencerramentodeumciclocrucialdaanáliseepistemológicadeHume,postoque,paranosso
filósofo –naseçãoquecomentaremosagora–,hásituaçõesemqueaincertezaseapresentade
formaaindamaiscomplexa199.Ora,ofocodeHumeaquirecaisobreoscasosemquearelação
causalentreeventosnãoéclara,uniformeoudiretamenteobservada.Nessaetapa,Humebuscou
compreendercomoamentehumanaconsegue,mesmocomevidênciaparcialoulimitada,formar
juízos probabilísticos sobre a origem de um fenômeno (reforçando sua tese de que o
conhecimento empírico repousa não na razão, mas na experiência e no hábito).
Inicialmente, Hume descreve cenários nos quais um mesmo efeito pode ser causadopor
múltiplas origens, cada uma com diferentes graus de frequência e força causal. Nessas
circunstâncias,paranossoautor,amentenãoabandonaojulgamento;aocontrário,elaorganiza
199
Antes de começarmos a compor nossas considerações, precisamos falar que, ao considerarmos sobre a
c oncordância e oposição de experiências passadas,Humeanalisacomoexperiênciaspassadassecombinamouse
opõem na formação de crenças probabilísticas,Ibidem, p. 171.
100
suascrençasdemodoproporcionalàregularidadecomquecadacausafoiassociadaaoefeitono
passado200. Isso nos aponta que, mesmo diante de causas apenas parcialmente confirmadas, a
mente humana é capaz de atribuir diferentes intensidades de crença, o que nos levaateruma
distribuição de expectativas fundamentada em experiências anteriores, e não em certezas lógicas.
Diante disso, segundo o pensamento de Hume, tal mecanismo citado opera por meio da
repetição,istoé,quandoumacausaAproduzumefeitoEcommaisfrequênciadoqueumacausa
B, a mente passa a atribuir maior vivacidade e força à relação entre A e E201. Acrença,nesse
caso, não resultaria de uma dedução racional, mas do fortalecimento do hábito. A mente
naturalmente pesa as causas concorrentes conforme sua frequência observada, ainda que
nenhumadelastenhaocorridodeformaabsolutamenteconstante.Issosetratadeumaavaliação
intuitivaesensível,nãoformalizada,masoperantenoníveldapsicologiaassociativa.Comisso,
Hume distende ainda mais o conceito de associação ao abordar situações em que não
observamos diretamente a causa, mas conhecemos o efeito e tentamos inferir suaorigemcom
base em indícios parciais. Assim, o tipo de inferência daqualestamosfalandoeàqualinsiste
Hume,sepensadaemnossosdias,étípicadecontextosforenses,diagnósticosouinvestigativos,
nosquaissepartedesinaisparareconstituircausaspossíveis202.Diantedisso,nesseprocessode
inferêncianoqualestamosnosremetendo,amenterecorreàanalogiacomexperiênciaspassadas
semelhantes, atribuindo uma probabilidade retrospectiva que, embora incerta, ésuficientepara
sustentar um grau de crença. Nisso, segundo Hume, mesmo diante da ausência de certeza,
conseguimos formar juízos baseados em padrões empíricos anteriores.
Outro ponto relevante abordado por nosso filósofo é a existência das chamadas
probabilidadescompostas.Aqui,conformeopensamentodeHume,aincertezasemanifestaem
200
Neste ponto, sobre a origem da probabilidade de causas na associação de ideias, Hume fundamenta a
p robabilidadedecausasnaexperiênciarepetida,afirmandoque:“Háváriostiposdeprobabilidadesdecausas,mas
todos derivam da mesma origem:aassociaçãodeideiasaumaimpressãopresente.Comoohábitoqueproduza
associaçãonascedaconjunçãofrequentedeobjetos,eledeveatingirsuaperfeiçãogradativamente,adquirindomais
forçaacadacasoobservado.Oprimeirocasotempoucaounenhumaforça;osegundoacrescentaalgumaforçaao
primeiro; o terceirotorna-seaindamaissensível;eéassim,apassoslentos,quenossojuízochegaaumaperfeita
certeza.Antesdeatingirtalgraudeperfeição,porém,passapordiversosgrausinferiores;eemtodoselesdeveser
consideradoapenasumasuposiçãoouprobabilidade.Portanto,agradaçãoquevaideprobabilidadesaprovasé,em
muitos casos, insensível; e a diferença entre essestiposdeevidênciaémaisfacilmentepercebidanosgrausmais
afastados que naqueles mais próximos ou contíguos.” (HUME, 2009,p.163-164).Nossofilósofoexplicaque“o
hábito que produz a associação nasce da conjunção frequente de objetos, ele deve atingir sua perfeição
gradativamente,adquirindomaisforçaacadacasoobservado”(HUME,2009,p.163),demonstrandocomoamente
organiza suas crenças proporcionalmente à frequência observada.
201
Sobreacontrariedadedeacontecimentosecausassecretas,Humedistingueaperspectivavulgardafilosofiaao
tratar da incerteza causal,Ibidem,p.165.Nisso,aanálisedenossoautorfundamentaaatribuiçãodiferenciadade
vivacidade às relações causais conforme sua frequência observada.
202
Aqui, sobre a experiência imperfeita e a construção de hábitos, Hume reconhece que mesmo experiências
imperfeitaspodemgerarinferênciasválidas.Ibidem,p.164.Talcapacidadedeinferirapartirdeevidênciasparciais
fundamenta raciocínios investigativos e diagnósticos, nos quais reconstruímos causas a partir de efeitos observados.
101
camadas: não apenas a causa do efeito é incerta, como também a própria relação causalentre
eventospodesercolocadaouestaremdúvida203.Nisso,Humepensaqueamenterealizaumtipo
de cálculoimplícito,computandomúltiplosníveisdechancecombasenasestruturascausaisjá
observadas e no grau de conexão entre elas204. Para Hume, tal operação não é fruto da razão
deliberada,masdohábitopsicológicoqueseconsolidouapartirdaexperiênciaacumulada.Em
continuidade, nosso filósofo também faz uma distinção importante entre dois estados mentais
diferentes,istoé,quandosabemosqueháváriascausaspossíveisparaumefeito,aindaquenão
possamosdeterminarqualdelasocorreu,formamosumacrençaprobabilísticafundamentadaem
evidência parcial205. No entanto, quando não há qualquer base de experiência ou analogia
disponível, a mente não consegue formar uma expectativa fundamentada, restando apenas a
suspensão do juízo ou uma conjectura débil. Tal distinção de nossa empirista reforça a
centralidade da experiência como critério de validade para o conhecimento.
À vista disso, ao se encaminhar para a conclusão da seção, Hume retomou o princípio
metodológico que orientou a estrutura de sua filosofia, a saber: toda inferência causal é
construída com base na experiência e na repetição, jamais na razão em estadopuro206.Assim,
para nosso filósofo, mesmo quando lidamoscomcausasincertasouconcorrentes,éoacúmulo
empírico – mediado pelo hábito – que organiza nossa capacidade de formular crenças
proporcionais. Portanto, conforme o empirismo apresentado por ele,amentehumanaseriaum
instrumentonaturaldeantecipação,funcionandopormeiodemecanismosassociativosenãopor
princípios lógicos universais. Nisso, a abordagem presente aqui, na Seção XII, comunica-se
diretamentecomaSeçãoXI,quetratoudaprobabilidadeaplicadaaeventosfuturos,baseando-se
203
Sobre as probabilidades compostas e visões múltiplas, Hume desenvolve uma concepção sofisticada das
p robabilidades compostas, Ibidem, p. 170. Tal análise de nosso autor expõe como a mente computa múltiplas
camadas de incerteza, unindo visões parciais em uma imagem geral mais forte.
204
Sobreoraciocíniooblíquoeaponderaçãodeexperiênciascontrárias,Humedistinguedoismodosdeoperaçãoda
mente diante de experiências contraditórias. Enquanto o hábito opera imediatamente (nosraciocíniosprováveis),
Humediztambémque:“Nãohádúvidadequeesseprincípioàsvezessemanifesta,produzindoasinferênciasque
extraímosdefenômenoscontrários.Estouconvencido,porém,dequeumexameadequadomostraránãoseresseo
princípio que mais comumente influencia a mente nessa espécie de raciocínio. Quando seguimos apenas a
determinaçãohabitualdamente,fazemosatransiçãosemrefletiresemdeixarpassarumsómomentoentreavisão
doobjetoeacrençanaquelequesemprevimosacompanhá-lo.Comoocostumenãodependedeumadeliberação,
eleoperaimediatamente,semdartempoàreflexão.Masemnossosraciocíniosprováveis,temospoucosexemplos
dessamaneiradeproceder;menosaindaquenaquelesquesãoderivadosdaconjunçãoininterruptadosobjetos.Na
primeira espécie de raciocínio, costumamos levar conscientemente em consideração a contrariedade dos
acontecimentospassados;comparamososdiferentesladosdacontrariedade,epesamoscomcuidadoasexperiências
quetemosdecadalado.Podemosconcluirdaíqueessaespéciederaciocínionãosurgediretamentedohábito,mas
apenas de maneira oblíqua. É isso que devemos agora tentar explicar.” (HUME, 2009, p. 166). Tal raciocínio
oblíquo representa um cálculo implícito que pondera múltiplas experiências causais.
205
Neste ponto,sobreaexperiênciapassadaeojuízosobreprobabilidade,Humeconsideraqueésempreoefeito
mais comum que determina nossa expectativa, regulando igualmente o juízo sobre sua probabilidade; daí ele
estabelece que a experiência passada é o fundamento de toda expectativa probabilística,Ibidem, p. 166.
206
Sobreaconclusãoepistemológicasobrerazãoeexperiência,Humeconcluisuaanálisereafirmandoosprincípios
fundamentais de sua epistemologia,Ibidem, p. 172.
102
na frequência observada de ocorrências possíveis. Somado a isso, a seção que nos valemos
introduziu a probabilidade retrospectiva, voltada para a reconstrução de causas com base em
efeitos e circunstâncias incertas, em que ambas reforçam a ideia de que a crença não é um
produto da lógica dedutiva, mas da experiência e das tendências associativas da mente.
Porfim,podemosdizerqueaSeçãoXIIbuscouconsolidareexpandirateoriahumeanada
inferênciacausalaomostrarcomomesmoascrençasmaisincertassefundamentamempadrões
psicológicos de repetição, vivacidade e associação, antecipando elementos da teoria da
probabilidade subjetiva e dainferênciabayesiana207.Nisso,Humenosdemonstrouqueamente
ajusta continuamente seus graus de crença de acordo com a evidência acumulada, e nos
reafirmou sobre uma de suas teses fundamentais, qual seja: a razão é um prolongamento do
hábito; e a crença, uma expressão da sensibilidade moldada pela experiência.
Agora, ao analisarmos mais uma seção, a saber, a Seção XIII – Da probabilidade não
filosófica,podemosdizerque,jáemseuinício,Humebuscaaprofundarumtantomaissuateoria
dacrençaaovoltar-separaumcampoatéentãopoucoexplorado,qualseja:amaneiracomoos
seres humanos lidam com incertezas no cotidiano. Após examinar, nas seções anteriores, a
inferênciacausaleaprobabilidadeemseuaspectofilosófico–istoé,comoconstruçõesbaseadas
em repetições e relações empíricas –, Hume passa agora a investigar o que denomina de
probabilidade comum ou não filosófica: esta se refere à forma espontânea, emocional e
imaginativacomqueaspessoasjulgamedecidem,mesmosemrecorreràrazãoouàexperiência
quantificada.
Para Hume, o julgamento cotidiano sobre probabilidades não decorre exclusivamente da
observação empírica ou de cálculos lógicos, posto que ele é também moldado por fatores
subjetivos como o temperamento individual, as emoções momentâneaseoshábitosculturaise
psicológicos208.Issosignificaque,paranossoautor,duaspessoasexpostasexatamenteàmesma
situaçãopodemreagircomníveisdiferentesdecrençaeexpectativa,etaldiferençanãoestána
discordância quanto aos fatos, mas na forma como cada uma sente, interpreta e imagina a
situação.Aimaginação,nessesentido,desempenhaumpapelcrucialparaHume,ouseja,mesmo
207
Precisamos destacar neste ponto que a inferência bayesiana é um método estatístico baseado no Teoremade
ayes,quepermiteatualizaraprobabilidadedeumahipóteseàmedidaquenovasevidênciassãoincorporadasaela,
B
ouseja,emvezdetratarmosasprobabilidadescomoverdadesfixas,aousarmosainferênciabayesianapodemoster
o entendimento de que, na verdade, o conhecimento dispõe de um dinamismo mensurável, ajustado conformea
informação disponível que adquirimos. Daí, em termos simples, podemos dispor que a inferência bayesiana foi
elaborada pararesponderaseguintepergunta:Dadooqueeujásabia(crençaanterior),eagoraobservandoesse
novo dado, qual é a nova probabilidade de que minha hipótese seja verdadeira?
208
Aqui, sobre as regras gerais e os preconceitos na formação de juízos, Hume reconhece que os juízos são
frequentemente influenciados por fatores não empíricos, Ibidem, p. 179-180. Tal análise revela como fatores
culturais e emocionais moldam nossas expectativas, independentemente da experiência objetiva.
103
sembaseempíricasólida,umaideiapodeganharforçadecrençaseforvividamenteconcebida;
quantomaisintensaforarepresentaçãomentaldeumevento,maiorseráatendênciadamentede
tratá-locomoprovável.Éassimque,conformeopensamentodenossoempirista,explicam-seas
superstições, previsões emocionais e decisõesintuitivasquedesafiamqualqueranáliseracional
de causas209, ou melhor, a mente exagera ou subestima probabilidades conforme a vivacidade
com que essas ideias são imaginadas, não com base em sua frequência observada.
Além disso, Hume nos mostra como exemplos recentes em nossa mente, dramáticos ou
impressionantes, influenciam de forma desproporcional nossas expectativas210. Umacidentede
aviãoouumcrimeviolentoamplamentedivulgado,porexemplo,tendeasersuperestimadopor
nós como algo muito provável, ainda que estatisticamente seja menos comum do que se
acredita211. Nosso filósofo empirista expõe que isso ocorre porque tais eventos ativam a
imaginação com muito força, conferindo-lhes uma aparência de maior probabilidade do que
realmente possuem. Na esteira disso, outro aspecto tratado na seção de maneira refinada por
Humeéopapeldarepetição–jádiscutidoanteriormentecomofundamentodohábito–,emque
ele acrescenta que a repetição também intensifica a emoção associada à ideia, e não apenaso
conhecimentoracional.Assim,repetirmentalmenteumcenário–mesmosemnovasevidências–
fazcomqueelepareçamaisreal;aforçadacrença,portanto,crescenãoapenaspelaconstância
observada no mundo, mas também pela frequência com que uma imagem mental é revivida
internamente.
209
Aqui,faz-seinteressantequecoloquemosumdetalhesobreohábitoeaformaçãodejuízossobrecausaseefeitos,
v isto que, comoHumebuscanosexplicarsobreomecanismopsicológicosubjacenteàformaçãodepreconceitos,
pode-se dizer que os juízosaparentementeirracionaisseguemosmesmosprincípiosassociativosquegovernamo
raciocínio causal,Ibidem, p. 180.
210
Sobre as circunstâncias “supérfluas” e a imaginação, Hume analisa como as circunstâncias acidentais podem
influenciardesproporcionalmentenossasexpectativas,Ibidem,p.181.Talanálisedenossofilósofoexplicaporque
eventos dramáticos ou recentes tendem a ser superestimados em nossas avaliações probabilísticas.
211
Em corroboração com este ponto, sobre o exemplo da gaiola de ferro, Hume ilustra vividamente como a
imaginação pode sobrepor-se ao raciocínio empírico, vejamos: “Para ilustrar essetemapormeiodeumexemplo
familiar, consideremos o casodeumhomemqueseencontradentrodeumagaioladeferropendentedeumaalta
torre.Aoolharparaoprecipícioembaixodele,essehomemnãopodeseimpedirdetremer,emborasaibaqueestá
perfeitamente seguro e que não cairá, pois tem experiência de queoferroqueosustentaésólido,easideiasda
queda, dos ferimentosedamortederivamsomentedocostumeedaexperiência.Omesmocostumeultrapassaos
casosdequeseoriginaeaquecorrespondeperfeitamente;einfluenciaasideiasdeobjetosquesãosemelhantesem
alguns aspectos,masquenãoseenquadramprecisamentenamesmaregra.Ascircunstânciasdaalturaedaqueda
têm tal impacto sobre esse homem que sua influência não pode ser destruída pelas circunstâncias contrárias da
sustentaçãoedasolidez,queentretantodeveriamdaraeleumaperfeitasegurança.Aimaginaçãosedeixalevarpor
seuobjetoedespertaumapaixãoproporcionalaeste.Apaixãoincidenovamentesobreaimaginaçãoeavivaaideia.
Essaideiavívidaexerceumanovainfluênciasobreapaixão,aumentandosuaforçaeviolência.”(HUME,2009,p.
181-182). Assim, o filósofo demonstra que“afantasiaeosafetos,sustentando-semutuamente,fazemquetodoo
conjunto tenha uma grande influência sobre ele” (HUME, 2009, p. 182),explicandoporqueeventosdramáticos
afetam desproporcionalmente nossas expectativas.
104
Por conseguinte, adistinçãoentreofilósofoeohomemcomumécentralnestetrechodo
primeiro livro de nosso autor, posto que, segundo Hume, o filósofo(oumaishodiernamenteo
matemático ouintelectualanalítico)tentacalcularracionalmenteasprobabilidades,guiadopela
crítica e pela experiênciaquantificável;jáohomemcomumjulgadeformainstintiva,parciale
afetiva – o que paraHume,noentanto,nãodesvalorizaumatalabordagemconcisaemsentido
popular feita pelo agente da razão cotidiana212. Pois bem, ele reconhece que tais mecanismos
fazempartedapróprianaturezahumana,equenemmesmoofilósofoestáisentodeagirsegundo
disposiçõesmaisespontâneas.Adistinção,portanto,émaismetodológicadoquereal,vistoque,
para nosso filósofo, ambos estão sujeitos às mesmas estruturas psicológicas.
Assim, a análise Hume, no sentido do que acabamos de colocar acima,revelaumponto
fulcral da teoria do conhecimento que compôs, ou seja, o saber humano não é um produto
exclusivo da razão, mas o resultado de uma complexa interação entre emoções, imaginação,
hábitos mentais e contexto pensando de maneira pessoal. A crença, longe de ser um ato
puramentelógico,emergedafusãoentreumaideiaeumsentimento–eénessevínculoafetivo
que reside sua força. Ora, em conexão com as seçõesanteriores,quetrataramdacrençacomo
efeitodaexperiênciarepetidaedainferênciacausal,aSeçãoXIIIfoicompostaparacompletaro
quadro, isto é, nela, Hume nos mostra que, fora do campo da filosofia estrita, as crenças
cotidianas seguem caminhos ainda mais instintivos, subjetivos e emocionais. Nesse sentido, a
estrutura lógica que nos é atribuída pelos racionalistas pode ser considerada em Hume como
apenas uma parte da formação do juízo, ou seja, para nosso autor empirista, o sentimento, a
imaginação e os hábitos internos213 exercem influência igualmente poderosa em nossa
interioridade.
Emsuma,aSeçãoXIIIdistinguedoistiposdeprobabilidade:afilosófica,baseadanarazão
e na experiência controlada, e a não filosófica, que se forma por vias afetivas e espontâneas.
Com isso, Hume busca demonstrar que o juízo humano é frequentemente governado por
sensaçõesinternas,emoçõesepadrõespsicológicosnãocríticos,equeasfronteirasentrerazãoe
sentimento,entrecálculoeimaginação,deixam-nosamercêdaconcepçãodequecreré,antesde
tudo, um ato da imaginação modulada pelo contexto interno da mente – e não uma resposta
racional pura ao mundo exterior. Enfim, a probabilidade não filosófica foi vista por nosso
212
Quantoaesteponto,podemosdizerqueotermoagentedarazãocotidianafoiumtermocriadoexclusivamente
para darmos conta da última parte de nossa sentença da análise.
213
Aqui,podemospontuaraindaque,alémdeserporhábitoquefazemosatransiçãodacausaaoefeito,édealguma
impressãopresentequeretiramosavivacidadequetransmitimosparaaideiacorrelata,ouseja,segundonossoautor,
háfatoresqueenfraquecemacrençaprobabilística,Ibidem,p.187.Nisso,cabedizerqueapassagemconsolidaao
menosacompreensãodequeaprobabilidadenãofilosóficaoperapelosmesmosmecanismosdacrençafilosófica,
mas com intensidades variadas.
105
filósofo como algo profundamente humano e,dopontodevistadoconhecimento,realista,que
reconhece o peso das emoções na construção da crença e das expectativas.
Sob outro enfoque, a Seção XIV – Da ideia de conexão necessária, assim como outras
seçõesjátratadas,buscoudesconstruiremváriosaspectosoconceitotradicionaldecausalidade,
especialmenteanoçãodequeexisteumaconexãonecessária,objetivaeuniversalentrecausae
efeito.Apartirdeumaperguntamolar:Oqueexatamentequeremosdizerquandoafirmamosque
há uma conexão necessária entre dois eventos? Hume coloca em xeque uma das ideias mais
fundamentais não apenas da metafísica, mas também da ciência e do senso comum214.
Contrariandoatradiçãoracionalistadeentão,Humerejeitouaideiadequeaconexãonecessária
possa ser conhecida por meio da razão em seu estado mais analítico215, em que esta intuiria
relações diretamente da mente ou as perceberia como anteriores aos próprios eventos (ou até
mesmopercebidanospróprioseventos).Segundonossoautor,aoobservarmosdoiseventosque
sesucederemnotempo,jamaisvemos–comossentidos–qualquereloouforçaqueosunade
modo necessário, ou melhor, o que a experiência nos mostra são apenas eventoscontíguosno
espaço e no tempo, ocorrendo de forma constante216. Daí a suposta necessidade que sentimos
entre eles não está nos eventos em si, mas em produtos formados pela mente humana.
Nesse sentido, o pensamento de Hume na seçãoqueestamostratandonosconduzauma
redefiniçãoradicaldaideiadecausalidade.Paraele,aorigemdanoçãodenecessidadecausalé
empírica e psicológica, e não metafísico-racional, posto que o que ocorre com ela em nossa
interioridade é que, ao observarmos repetidamente que um tipodeeventoéseguidoporoutro,
nossa mente desenvolve um hábito que nosfazesperarinvoluntariamenteoumaquinalmenteo
segundo eventoapósoprimeiro.Comotempo,talexpectativatorna-setãovivazefirmequea
confundimoscomumanecessidadereal.Assim,oquechamamosdenecessidadeé,naverdade,
um sentimento internogeradopelarepetiçãodaexperiência–umefeitodohábitomencionado,
não uma propriedade do mundo. Isso nos possibilita dizer ainda que a conexão necessária,
portanto,nãoéalgoque,emHume,percebamosnosobjetos,massimumatransiçãointeriorda
mente. Segundo seu pensamento empirista, quando vemos constantemente que o fogo aquece,
por exemplo, passamos a sentir uma compulsão em esperar o calor sempre que observamoso
fogo. Essa compulsão, fruto de associações passadas edavivacidadedaimpressão,éoquedá
214
Nesteponto,quantoàquestãofundamentalsobreaconexãonecessária,Humeformulaaquestãoacercadesua
investigação sobre a causalidade,Ibidem, p. 188.
215
Quanto a este ponto, sobre a impossibilidade de perceber o podercausalnosobjetos,Humecriticaatradição
filosófica por não ter examinado adequadamente a origem da ideia de eficácia causal,Ibidem, p. 189.
216
Sobre a contiguidade e a sucessão, isto é, o que observamos nos objetos, Hume descreve o método de sua
investigaçãosobreaconexãonecessária,Ibidem,p.188-189.Nessesentido,podemosdizerqueanecessidadenão
está nos objetos, mas na determinação mental produzida pelo hábito.
106
origemaosentimentodenecessidade;oprocessocausal,assim,passaaserentendidocomouma
experiência subjetiva, uma transição psicológica entre ideias, e não uma conexão ontológica
necessária entre coisas.
Àvistadisso,Humeestabeleceuumadistinçãoessencialentreoqueéobserváveleoqueé
inventado pela imaginação, isto é, para ele, podemos observar a sucessão constante e a
contiguidade entre eventos, mas a ideia de que há um elo invisível entre eles (uma força
obrigatóriaqueligacausaeefeito)éalgoacrescentadopelamente.Porisso,acreditamosqueo
sol nascerá amanhã: não porque percebemos uma força queoobrigaaaparecer,masporqueo
vimosnascertantasvezesquenossamenteseacostumouaessasequência,transformando-aem
uma expectativa firme, que nos parece necessária. À luz disso, as implicações filosóficas são
multiplamente profundas, posto que Hume conclui que não existe, na experiência sensível,
nenhumajustificativaparaacrençaemumaconexãonecessáriaentreoseventos.Paraele,oque
hásãohábitosmentaisoriginadospelarepetição,queproduzemacrençanaregularidadecausal,
umsentimentodeconvicçãoeailusãodeumanecessidadeobjetiva.Todavia,issonãosignifica
que Hume negue a utilidade do conceito de causalidadenaciênciaounavidacotidiana,ainda
quedesloqueseufundamento,ouseja,suacríticaemrelaçãoacausalidadefezqueeladeixasse
deseraomenosouapenascompreendidacomoumaestruturametafísicadomundoepassassea
ser compreendida mais como um fenômeno psicológico,útilparaorganizaraexperiência,mas
sem existência independente.
Deste modo, a última concepção apresentada no parágrafo acima se conecta fortemente
com o que foi desenvolvido nas seções anteriormente quecomentamos.Nelas,deixamosclaro
queHumejáhaviamostradoqueacrençanãonascedarazão,masdarepetiçãoedaassociação
de ideias; agora,mostramosque,decertomodo,eleradicalizouesseponto,mostrando-nosque
atémesmoanoçãocentraldecausalidade–adenecessidade217 –éumaficçãomental.Comisso,
temos ressaltado mais uma vez que, em suas concepções,eleinaugurouumempirismoradical
que transformou a forma como compreendemos o conhecimento. Assim, ao finalizar a Seção
XIV, Hume redefiniu completamente o conceito de causalidade. Ele mostrou que a conexão
necessárianãoéumapropriedadeobjetivadomundo,masumefeitosubjetivodarepetiçãosobre
a mente humana218, visto que, para seu pensamento, o elo invisível que supomos existir entre
217
Sobre a necessidade como impressão interna de reflexão, Hume apresenta suadefiniçãofinaldanecessidade,
Ibidem, p. 199.
218
Neste contexto, sobre a mente projetar suas impressões internas nosobjetosexternos,podemosapontaroque
Hume expõe acerca do mecanismo psicológicoquenoslevaaprojetaranecessidadenosobjetos,Ibidem,p.200.
Ora, tal tendência natural tratada por Hume na passagem apontada explica por que erroneamente atribuímos a
conexão necessária aos objetos externos, quando ela é, na verdade, uma determinação interna da mente.
107
causaeefeitoé,naverdade,umsentimentodeexpectativaquesentimosinternamente.Comessa
reformulação,Humetambémmudouoeixodafilosofiamoderna:acausalidade,antestidacomo
fundamento do conhecimento e da ciência, passou a ser tratada como uma projeção da mente
sobre a realidade – útil, mas sem garantia que espera o metafísico.
Agora, quanto à Seção XV – Regras para se julgar sobre causas e efeitos, Hume dá
continuidade à análise da causalidade por mais caminhos pertinentes. Nisso, ele a faz com o
intuitodeformalizarosprincípiosque,defato,orientamnossojulgamentocausalnocotidianoe
na prática científica. Após ter desconstruído, na seção anterior, anoçãometafísicadeconexão
necessária entre causa e efeito, Hume reconhece nesta ocasião que, apesar da ausência de um
fundamento racional ou,comoditoemnossosdias,apriorístico,ossereshumanoscontinuama
formular inferências causais confiáveis. Sendo assim, o objetivo da seção que nos
desdobraremos melhor a seguir é identificar quais regras práticas seguimos (ainda que
inconscientemente) para julgar relações causais com base na experiência219.
À vista disso, o ponto de partida de Hume é claro e decisivo a um nível maximamente
elevado nessa parte de sua obra, em outros termos, em sua SeçãoXV,eleafirmaquetodasas
inferências sobre causas e efeitos derivam exclusivamente da experiência220, e que,emfunção
disso, qualquer princípio legítimo de julgamento causal deveria ter um caráter empírico e
observacional, que nos ajudasse a descartar raciocínios abstratos em sentido estrito, deduções
puramentelógicasouconstruçõesapenasmetafísicas.Comessapremissa,Humepassaalistare
analisar com notas mais profundas as regras empíricas fundamentais que, de forma quase
irrefletida ou automática, utilizamos para formar nossas crenças causais.
Pois bem, segundo Hume, essas regras que mencionamos são as seguintes: 1) Causas
semelhantes produzem efeitos semelhantes, ou seja, esta diz respeito a se um fenômeno já foi
causado por um determinado agente, esperamos que agentes semelhantes produzam o mesmo
219
Quantoaesteponto,apósdesconstruiranoçãometafísicadecausalidade,Humereconheceanecessidadeprática
de estabelecer critérios empíricos (a necessidade de fixar regras gerais),Ibidem,p. 207.
220
Aqui, sobre a doutrina precedente e a necessidade de consultar a experiência, Hume expõe algo muito
interessanteacercadesuaanálisecausal:“Deacordocomadoutrinaprecedente,nãoexisteumsóobjetoque,por
ummeroexameesemconsultaraexperiência,possamosdeterminarser,comcerteza,acausadealgumoutro;enão
háumsóobjetoquepossamosdeterminar,dessemesmomodo,nãoseracausadeoutro.”(HUME,2009,p.206).O
filósofo afirma categoricamente que “qualquer coisa pode produzir qualquer coisa” (HUME, 2009, p. 206),
rejeitando qualquer fundamento a priori para o conhecimento causal.Emais:“Criação,aniquilação,movimento,
razão, volição – todas essas coisas podem surgir umas das outras ou de qualquer outro objeto que possamos
imaginar.Issonãopareceráestranhosecompararmosdoisprincípiosacimaexplicados:queaconjunçãoconstante
entreobjetosdeterminasuacausalidade,eque,propriamentefalando,nenhumobjetoécontrárioaoutro,senãoa
existênciaeanão-existência.Quandoosobjetosnãosãocontrários,nadaosimpededeteressaconjunçãoconstante
de que depende inteiramente a relação de causa e efeito.” (HUME, 2009, p. 206).
108
tipodeefeito(talexpectativanascedarepetiçãodepadrõesobservados)221;2)Acausadeveser
contígua ao efeito no espaço e no tempo, isto é,julgamoscomocausasapenasoseventosque
ocorrem próximos ao efeito, não consideramos causas remotas ou desconectadas, pois, para
Hume,amentebuscarelaçõesdiretaseimediatas222;3)Acausadeveprecederoefeito,ouseja,
nunca observamos um efeito que ocorra antes de sua causa (por isso, segundo pensamento
humeano,aordemtemporalémantidacomocritérioempíricobásiconainferênciacausal)223;4)
Causa e efeito devem estar conectados porumaconjunçãoconstante,ouseja,acreditamosem
uma relação causal quando dois eventos ocorrem juntos de forma recorrente e com clareza
temporal, pois a regularidade de tais eventos é o que sustenta a expectativa em nós)224; 5)
Quandoháváriascausaspossíveis,devemosisolarasconstantes,istoé,oprincípiodecontrole
empírico do qual nos fala Hume nos levaaeliminarcausasvariáveis,mantendoapenasasque
permanecemconstantesemrelaçãoaoefeito(oque,emcasosmil,permite-nosinferirqualdelas
é a mais provável)225; 6) Efeitos complexos demandam causas complexas, em outras palavras,
quando lidamos com fenômenos que envolvem múltiplos aspectos (como forma, duração,
intensidade), podemos inferir que eles exigem umconjuntoproporcionaldecausas,enãouma
única causa simples226.
221
Aqui,sobreamesmacausasempreproduzomesmoefeito,Humeformulaoprincípiodauniformidadecausal,
I bidem, p. 207. Tal regra expressa a expectativa de que fenômenos semelhantes produzam efeitos semelhantes,
fundamentandoageneralizaçãocientíficaapartirdaexperiência;assim,podemosdizerqueessaexpectativanasce
da repetição de padrões observados.
222
UmadasprimeirasregrasestabelecidasporHumeédacontiguidadeespacialetemporal.Ora,paraele,“acausae
oefeitotêmdesercontíguosnoespaçoenotempo”(HUME,2009,p.207).Talregrarefleteaobservaçãoempírica
de que julgamos como causas apenas eventos próximos ao efeito, não considerando causas remotas ou
desconectadas.
223
UmaoutraregraimportanteéoqueHumeestabelecedizendoqueaprioridadetemporalécritériobásico,posto
que “a causa tem de ser anterior ao efeito” (HUME, 2009, p. 207). Segundo o pensamento humeano, nunca
observamosumefeitoqueocorraantesdesuacausa,tornandoaordemtemporalumcritérioempíricofundamental
na inferência causal.
224
Há também a regra da união constante entre causa e efeito, em que Hume enfatiza a conjunção constante,
vejamos: “Tem de haver umauniãoconstanteentreacausaeoefeito.Ésobretudoessaqualidadequeconstituia
relação”(HUME,2009,p.207).Paranossoautor,acreditamosemumarelaçãocausalquandodoiseventosocorrem
juntos de forma recorrente, sendo a regularidade o que sustenta a expectativa.
225
Nesteponto,sobrequandoobjetosdiferentesproduzemomesmoefeito,Humeexpõeoprincípiodoisolamento
de variáveis, Ibidem; tal regra antecipa o método de concordância, fundamentalparaainvestigaçãocientífica.O
princípiodecontroleempíricoleva-nosaeliminarcausasvariáveis,mantendoapenasasquepermanecemconstantes
emrelaçãoaoefeito.Alémdisso,tambémpodemosponderarsobreadiferençanosefeitosprocederdadiferençanas
causas, ou seja, Hume formula o princípio da diferença causal,Ibidem;talregraexpõequevariaçõesnosefeitos
devem ser explicadas por variações nas causas.
226
Aqui, sobre os efeitos compostos que demandam causas complexas, Hume expõe a proporcionalidade entre
causas e efeitos complexos, Ibidem, p. 207-208. Assim, ele busca reconhecer a complexidade dos fenômenos
naturais; ora, quandolidamoscomfenômenosqueenvolvemmúltiplosaspectos,podemosinferirqueelesexigem
um conjunto proporcional de causas, e não uma única causa simples. No mais, quanto à necessidade de causas
auxiliares,Humetambémestabeleceanecessidadedecausasauxiliaresquandoháatrasotemporal,Ibidem,p.208;
tal regra reconhece que a ausência imediata de efeito indica a incompletude da causa observada.
109
Ora, Hume é enfático ao afirmar queessasregrasnãosãogarantiasdeverdade,massim
instrumentospráticosderivadosdohábitoedaexperiência:issoquerdizerqueamentehumana
as utiliza não porque sejam logicamente válidas, mas porque funcionam na prática e foram
reforçadas pela repetição ao longo do tempo227. Assim, para nosso autor, a inferênciacausalé
uma operação natural, não lógica, visto queconfiamosnessasregrasporqueelassemostraram
úteis, e não porque possam ser demonstradas racionalmente228. À guisa de continuação, tal
conjunto de princípios, embora falível, possui grande valor prático, e nos permite que
antecipemos eventos com algum grau de confiança, que formulemos hipóteses científicas
consistentes e que evitemos enganos comuns, como superstições e ilusões causais229.
Porconseguinte,aoexplicitarcommaisdetalhesosprincípioscitados,Humeprocurounos
mostrar que a ausência de uma conexão metafísica entre causa e efeito não compromete a
eficácia dos julgamentos causais, desde que esses estejam fundamentadosemumaexperiência
bem estruturada. Ao mesmo tempo, ele tece uma crítica implícita tanto ao racionalismo
cartesiano quanto à teologia natural,rejeitandoqualquertentativadededuzirrelaçõescausaisa
partirdarazãoemestadopurooudaideiadeumprojetodivino230.Paraele,todoconhecimento
quevaialémdaexperiênciaobservávelémeramenteespeculativoecarecedevalidadeempírica.
De mais a mais, na Seção XIV, comentada anteriormente,Humehavia-nosdemonstradoquea
crença na conexão necessária faz parte de umaconstruçãosubjetivadamente,frutodohábito.
Agora, na Seção XV, ele avançou sua apreciação ao mostrar como formamos julgamentos
causais confiáveis mesmo sem qualquer necessidade objetiva, a partir de regras empíricas
derivadas da repetição e da associação. Com isso, Hume fortaleceu sua proposta de uma
227
Aqui, sobre a lógica empíricadeHume,vemosqueeleconcluisuaapresentaçãodasregrascomumareflexão
etodológica,Ibidem.Assim,nossofilósofoempiristaenfatizaodesafiopráticodainvestigaçãoempíricaaoafirmar
m
que as regras que expôs não são garantias de verdade, mas sim instrumentos práticos derivados do hábito e da
experiência.
228
Sobre a naturezapráticadasregrascausais,temosque,paraHume,ainferênciacausaléumaoperaçãonatural
(nãológica),Ibidem.Assim,conformeapassagemcitada,podemosdizerque,paraHume,confiamosnessasregras
porque elas se mostraram úteis, e não porque possam ser demonstradas racionalmente.
229
Neste ponto, Hume reconhece o valor prático das regras causais ao afirmar que o princípio da uniformidade
causal “é a fonte da maior parte de nossos raciocínios filosóficos” (HUME, 2009, p.207).Emais,segundoele,
“quando, mediante um experimento claro, descobrimos as causas ou os efeitos de um fenômeno,imediatamente
estendemosnossaobservaçãoatodososfenômenosdomesmotipo,semesperarporsuarepetiçãoconstante,daqual
derivamos a primeira ideia dessa relação” (HUME, 2009, p. 207). Tal conjunto de princípios, embora falível,
permite-nos antecipar eventos com algum grau de confiança, formular hipóteses científicas consistentes e evitar
enganos comuns, como superstições e ilusões causais.
230
Sobre a crítica ao racionalismo e à teologia natural, Hume tece uma crítica implícita tanto ao racionalismo
cartesianoquantoàteologianatural,Ibidem,p.206;nisso,elerejeitaqualquertentativadededuzirrelaçõescausaisa
partir da razão em estado puro ou da ideia de um projeto divino.
110
epistemologia baseada na psicologiadamentehumana,substituindoosfundamentosuniversais
da razão por princípios derivados da experiência231.
Em síntese, Hume concluiu que os julgamentos causais, ainda que não sejam
metafisicamente certos, são indispensáveis e eficientes na vida prática e na ciência. Ele nos
apresentou, assim, um manual de inferência causal baseado naexperiência;aoreafirmarquea
ciência humana deve se apoiar nos hábitos da mente e não em princípios absolutos, nosso
filósofo empirista oferece uma das mais duradouras e influentes contribuições para a área da
filosofia do conhecimento.
Por último, Hume conclui sua análise sobre a natureza da crença, doconhecimentoeda
probabilidadecomumaprovocaçãofilosóficadecisiva:Osanimaistambémraciocinam?Ora,na
Seção XVI – Darazãodosanimais,suarespostaéafirmativa,vistoquenossofilósofolevaao
extremo sua tese de que o conhecimento humano não é fundado na razão, mas sim na
experiência e no hábito. A seção agora destacadaencerraaParteIIIcomumadasproposições
mais radicais do empirismomoderno,asaber,dequearazãonãoéumprivilégioexclusivodo
ser humano, mas sim um desdobramento de processos naturais e associativos que também se
manifestam nos animais232. Para Hume, os animais, embora desprovidos de linguagem e de
capacidade de reflexão abstrata, são capazes de aprender com a experiência demaneiramuito
semelhante aos humanos, ou melhor, segundo seu pensamento, eles formam expectativas com
basenarepetiçãodeeventos,antecipamefeitosapartirdecausashabituais–comofugiraoouvir
umsomameaçador–,eajustamseuscomportamentosportentativaeerro233.Taisconsiderações
buscaram demonstrar que os animais raciocinam por associação, operando com base em
inferências construídas ao longo da vivência, exatamente como os humanos fazem no
231
Neste ponto, Hume fortalece sua proposta de uma epistemologia baseada na psicologia da mente humanaao
a firmarquesualógica“poderiatersidosupridapelosprincípiosnaturaisdenossoentendimento”(HUME,2009,p.
208); com isso, o filósofo substitui os fundamentos universais da razão por princípios derivadosdaexperiência,
observando que os lógicos escolásticos “não mostram, em seus raciocínios habilidosos, tanta superioridade em
relação ao mero vulgo” (HUME, 2009, p. 208).
232
Neste ponto, sobre possível pedra de toque para testar sistemas filosóficos, Hume estabelece o princípio da
continuidadeentrehumanoseanimaiscomocritériodevalidadefilosófica,Ibidem,p.209-210.Daínossofilósofo
também afirma que “qualquer hipótese verdadeira sobreviverá a esse teste, e arrisco-me a afirmar quenenhuma
hipótese falsa jamais resistirá a ele” (HUME,2009,p.210),propondoumadastesesmaisradicaisdoempirismo
moderno, isto é, segundo sua concepção, a razão não é um privilégio exclusivo do ser humano, mas sim um
desdobramento de processos naturais e associativos que também se manifestam nos animais.
233
Aqui, sobre a distinção entre ações ordinárias e extraordinárias dos animais, Hume distingue dois tipos de
comportamentoanimal,Ibidem,p.210-211.Paraele,osanimais,emboradesprovidosdelinguagemedecapacidade
de reflexão abstrata, são capazes de aprender comaexperiênciademaneiramuitosemelhanteaoshumanos:eles
formamexpectativascombasenarepetiçãodeeventos,antecipamefeitosapartirdecausashabituaiseajustamseus
comportamentos por tentativa e erro.
111
cotidiano234 (para mais, importa destacar que, seguindobemdepertonossoautorempirista,tal
raciocínio presente nos animais não seria de modo algum lógico no sentido tradicional).
Assim,Humeenfatizouaindaqueosanimaisnãoutilizamsilogismos,nemsebaseiamem
princípios abstratos ou universais, visto que, para ele, afirmar algodessetiposerianomínimo
rídiculo235. Conforme seu pensamento, o comportamento dos animais demonstra uma forma
eficiente de inferência, e isso enfraquece a concepção clássica da razão como uma faculdade
superior,independenteeformalmentededutiva236.Aocontrário,arazãoéapresentadaporHume
como uma extensão sofisticada doinstinto,oumelhor,comouminstintoassociativoqueopera
com maior complexidade nos seres humanos, mas que possui a mesma base fundamental nos
animais237. Tal concepção é sustentada por um argumento de continuidade, a saber, se os
humanosnãopercebemconexõesnecessárias,masapenasconjunçõesconstantesentreeventos–
como Hume demonstrou nas seções anteriores –, e se os animais se comportam da mesma
maneira,antecipandoefeitoscombaseemcausasrecorrentes,entãoadiferençaentrehumanose
animais não é de natureza, mas apenas de grau238. Ante o exposto, para nosso autor, o
comportamento inferencial não exige linguagem ou reflexão consciente, mas sim experiência
repetida e associação de ideias, o que, para ele, os animais claramente demonstram possuir.
234
Aqui,sobreoraciocíniodosanimaisprocederemdomesmoprincípioqueohumano,Humeexpõeaidentidade
f undamentalentreraciocíniohumanoeanimal,Ibidem,p.211.Ora,taisconsideraçõeshumeanasdemonstramque
os animais raciocinam por associação, operando com base em inferências construídas ao longo da vivência,
exatamente como os humanos fazem no cotidiano.
235
Sobre o defeito comum aos sistemas filosóficos, Hume critica asteoriasfilosóficasqueatribuemcapacidades
cognitivas excessivamente sofisticadas a seus conteúdos, Ibidem, p. 210. Disso, nosso filósofo conclui que “tal
sutileza [excessiva] é uma prova clara da falsidade de um sistema, enquantoasimplicidade,aocontrário,éuma
provadesuaverdade”(HUME,2009,p.210).Nomais,atravésdaspartesreferidas,Humeenfatiza–paraquefique
claroaqueminsinuartalabsurdo–queosanimaisnãoutilizamsilogismos,nemsebaseiamemprincípiosabstratos
ou universais.
236
Apartirdanoçãodequeosanimaisnãoraciocinamporargumentos,masporcostume,Humenosapresentaseu
argumento sobre a natureza da crença, Ibidem, p. 211. Nisso, ele conclui que “os animais, certamente, nunca
percebem nenhuma conexão real entre os objetos. É pela experiência, portanto, que inferem uns dos outros”
(HUME,2009,p.211),demonstrandoque“éunicamentepormeiodocostumequeaexperiênciaoperasobreeles”
(HUME,2009,p.212).Assim,podemosdizerqueocomportamentodosanimaisdemonstraumaformaeficientede
inferência,enfraquecendoaconcepçãoclássicadarazãocomoumafaculdadesuperior,independenteeformalmente
dedutiva.
237
Aqui, sobre a razão como instinto refinado, Hume apresenta sua concepção mais radical sobre a naturezada
razão, Ibidem, p. 212. Daí eleconcluique“arazãonãoésenãoummaravilhosoeininteligívelinstintodenossas
almas,quenosconduzporumacertasequênciadeideias,conferindo-lhesqualidadesparticularesemvirtudedesuas
situações e relações particulares” (HUME, 2009, p. 212). Assim, a razão nos é apresentada comoumaextensão
sofisticada do instinto, um instinto associativo que opera com maior complexidade nos seres humanos,masque
possuiamesmabasefundamentalnosanimais.Demaisamais,podemosdizerqueHumedissolveadistinçãoentre
razão e instinto: “O hábito não é senão um dos princípios da natureza, e extrai toda a sua força dessa origem”
(HUME, 2009, p. 212).
238
Sobre a noção de continuidade entre humanos eanimais,Humesustentasuaconcepçãoporumargumentode
continuidade, Ibidem, p. 211-212. Assim, seguindo hume bem de perto, se os humanos não percebem conexões
necessárias, mas apenas conjunções constantes entre eventos, e se os animais se comportamdamesmamaneira,
antecipandoefeitoscombaseemcausasrecorrentes,entãoadiferençaentrehumanoseanimaisnãoédenatureza,
mas apenas de grau.
112
Àvistadisso,Humereforçaaideiaanterioraoconsideraraimportânciadaeducaçãoedo
costumenosanimais,istoé,animaistreinados,porexemplo,aprendemaresponderacomandos,
evitarpuniçõesebuscarrecompensas239.ÉnessesentidoqueHumeexprimequetalaprendizado
não depende de instruçõesverbais,masdarepetiçãodeexperiências,oquedemonstrariaquea
razão prática se fundamenta no hábito, não na dedução240. Daí, para nosso autor empirista,tal
como nos humanos, a experiência molda o comportamento animal, tornando dispensável
qualquer referência à lógica formal ou à metafísica241. As implicações filosóficas dessa tese
composta por Hume são profundas, posto que, através dela, ele propõeumdescentramentodo
humano,aodissolveraindaqueminimamenteafronteiraentrerazãoeinstinto.Nocaso,emsuas
palavras,vemosclaramenteaafirmativadequeacrençaeoconhecimentonãoderivamdeuma
faculdade superior e racional, mas de disposições naturais, afetivas e psicológicas, comuns a
todos os seres sensíveis242. Essa ideia representa um giro na filosofia moderna: em vez de
celebrararazãocomoessênciadistintivadahumanidade,Humenosmostraqueoconhecimento
empírico é, antes de tudo, animal. Para nosso filósofo não somos racionais porque
transcendemos os outros seres vivos, mas porque refinamos uma capacidade básica de
associação e aprendizado que também existe entre eles.
Sendo assim, essa última seção se correlaciona de modo coeso com os argumentos
desenvolvidos ao longo da Parte III, as seções anteriores já haviam estabelecido que a crença
surge da repetição e do hábito, e que não existe uma conexão necessária visível entrecausae
efeito – apenas um sentimento de expectativaformadopelaexperiência;agora,Humelevasua
análiseaolimiteaoincluirosanimaisnomesmomodeloexplicativo.Elemostraqueainferência
causalporhábitoéummecanismopsicológicocompartilhado,eliminandoqualquerpretensãode
superioridade metafísica da razão humana243. Em sua conclusão geral, Hume afirma que os
239
Nesteponto,quantoainferênciaanimalserconstruídasobreaexperiência,Humedemonstraqueoaprendizado
a nimalsegueosmesmosprincípiosdohumano:Ibidem,p.211.Talobservaçãodenossoautorbuscaconfirmarque
ocomportamentoanimalémoldadopelaexperiênciarepetida:animaistreinadosaprendemaresponderacomandos,
evitar punições e buscar recompensas, demonstrando a importância da educação e do costume.
240
Aqui,sobreHumemostrarquearazãopráticasefundamentanohábito,nãonadedução,Ibidem.Nisso,podemos
dizer que o aprendizado não dependedeinstruçõesverbais,masdarepetiçãodeexperiências,demonstrandocom
isso que a razão prática se fundamenta no hábito.
241
Neste ponto, sobreHumeafirmarqueaexperiênciamoldaocomportamentoanimal,Ibidem,p.212.Talcomo
nos humanos, a experiência molda o comportamento animal, tornando dispensável qualquer referência à lógica
formal ou à metafísica para bem descrevê-lo.
242
Nesteponto,Humeafirmaclaramentequeacrençaeoconhecimentonãoderivamdeumafaculdadesuperiore
racional, mas de disposições naturais:Ibidem.Assim,podemosinferirqueacrençaeoconhecimentoderivamde
disposições naturais, afetivas e psicológicas, comuns a todos os seres sensíveis.
243
Aqui,Humedemonstraqueainferênciacausalporhábitoéummecanismopsicológicocompartilhado,citemo-lo:
“Tudoissoerasuficientementeevidenteapropósitodohomem.Mas,quantoaosanimais,nãopodehaveramenor
suspeita de engano – o quedeveservistocomoumaforteconfirmação,ouantes,comoumaprovainvencívelde
meu sistema.” (HUME, 2009, p. 212); tal consideração busca eliminar qualquer pretensão de superioridade
metafísica da razão humana.
113
animaisraciocinamporhábitoeexperiência,domesmomodoqueossereshumanos;quearazão
humana é apenas um instinto refinado, não uma faculdade autônoma e pura244; e que o
conhecimento – emhomenseanimais–derivadeimpressõesrepetidasedaassociaçãonatural
entreideias.Comisso,eledesfazailusãodequearazãoseriaumdomexclusivoeabsolutodo
serhumano,revelandoqueabasedoconhecimentoécomumatodososseressencientes.Estaé,
sem dúvida, uma das teses maisousadasetransformadorasdopensamentohumeano.Portanto,
ao final da Parte III, Hume não apenas desconstrói a razão como fundamento dosaber,masa
reconstrói como uma função orgânica, afetiva e empírica da mente viva.
3.2. Imaginário e ficção doeu: a subjetividade atravessada por virtualidades e fabulações
Nossa análise da Parte III do Tratado da Natureza Humana mostra uma profunda
transformação na compreensão da racionalidade. Ao deslocar o foco das verdades
demonstrativasparaalógicadaexperiência,Humenosexpõequeavidamentalnãosesustenta
sobrecertezasabsolutas,massobreaprobabilidade,ohábitoe,fundamentalmente,acrençaem
seu sentido até mesmo mais voraz. Para ele,acrença,essavivacidadeparticulardeumaideia,
emergenãodarazãopura,masdarepetiçãodeexperiências,damemóriaedainferênciacausal,
queporsuavezsepõeenquantoumsentimentosubjetivodeconexão.Oespírito,nessesentido,
é antes de tudo um espírito que crê, um feixe de hábitos que navega no mundo através de
expectativas geradas pela repetição.
Todavia, tal constatação feita por Hume, ao invés de encerrar a investigação, abre uma
portaparaumaquestãoaindamaisradical,qualseja,seacrençaéoquenospermiteagirenos
orientarnomundo,eseelaéfrutodemecanismoshabituais,oqueissoimplicaparaaprópria
identidade de quem crê? Ora, a lógica da experiência, ao desmantelar a soberania da razão,
preparaoterrenoparadesmantelartambémasoberaniadoeucomoumaentidadepré-existentee
estável.Disso,oespíritoquecrê,queseformaatravésdarepetiçãoedohábito,éinseparáveldo
processo que o constitui. E a crença em um mundo exterior contínuo e a crença em um eu
interior contínuoparecemserdoisladosdamesmamoeda,forjadospelomesmomecanismoda
imaginação.
Éprecisamentetalconexãoquenosimpulsionaaoexamedoimaginárioedaficçãodoeu.
A seção a seguir aprofundará essa intuição, mostrandoqueomesmopoderdaimaginaçãoque
gera a crença através do hábito é também aquele que fabula o eu como uma ficção útil e até
244
Neste ponto, Hume expõe que a razão humana éapenasuminstintorefinado,nãoumafaculdadeautônomae
p ura,Ibidem.Dessemodo,podemosdizerqueosanimaisraciocinamporhábitoeexperiência,domesmomodoque
os seres humanos.
114
mesmonecessária.Veremosqueasubjetividadenãoéumasubstância,masumefeitocomplexo,
uma estabilizaçãoprovisóriadeumfluxoincessante,atravessadaporvirtualidadesefabulações
várias. Em nossa concepção,oespíritoquecrêé,emseuâmago,umespíritoinventivodesuas
muitos nuances, que se projeta em um domínio artificial para poder agir e dar sentido à sua
existência.Porisso,apassagemdalógicadaexperiênciaparaaficçãodoeunãoéumaruptura,
mas a consequência natural de levar o empirismo às suasúltimasconsequências,expondoque
nas entranhas da crença resideumatocrucialdeimaginação–ésobreissoquefalaremoscom
mais detalhes a seguir.
Ora, no campo da filosofia contemporânea, a compreensão da subjetividade tem sidohá
muito objeto de intensos debates, especialmente quando se exploram as intersecções entre
pensadores que desafiam as noções mais correntes do eu. Ao longo de nossas colocações, a
perspectiva deDeleuze,aorevisitarasideiasdeDavidHume,vemnosoferecendoumenfoque
singularquedesmistificaaconcepçãodeumsujeitoque,apesardepré-existente,nãoéestático.
Nessesentido,aconstituiçãodasubjetividadeemDeleuzesuperaameradescriçãodeumsujeito
empírico, mas sem se afastar totalmente disso. Paranossoautorfrancês,longedeserumdado
estável ou uma substância interior, o eu erige como um efeito complexo, atravessado por
processos pré-subjetivos e impessoaisque se desdobram no plano da imanência.
Ora, diante tal quadro, para o pensamento deleuziano, o imaginário e a ficção não
poderiamsenãodesempenharumafunçãopreponderanteemrelaçãoasubjetividade,enãocomo
merasilusõesourepresentaçõessecundárias,mascomoforçasconstitutivasquefabulamoeueo
inserem em um campo de virtualidades e devires245. A subjetividade, assim, não poderia ser
245
As noções de virtualidade e devirsãoimportantíssimosparasecompreenderumamaneiraradicaldepensara
r ealidade enquanto apenas fruto da imanente, bem como nos serve para pensar a mudança e a constituição do
sujeito,fazendocomquenosdistanciemosdemodelos(nosentidodesistemas)queprivilegiamoestável,oidêntico
e o substancial. Assim, tais conceitos estão intrinsecamente ligados e são cruciais para que compreendamos as
dinâmicas da criação, da transformaçãoedamultiplicidadeparaopensamentodeleuziano.Porumlado,ovirtual
não é oopostodoreal,massimdoatual:istosignificaque,paranossoautorfrancês,ovirtualéplenamentereal,
embora ainda não esteja atualizado em uma forma concreta ou visível, ou melhor, ele é a dimensão das
potencialidades, das multiplicidades que coexistem e que podem ser fabuladas em e de diferentesformas.Além
disso,seguindobemdepertoDeleuze,ovirtualnãoésenãoocampodeproblemas(talvezinfindáveis),deforçase
de relações diferenciais que precede e condiciona a atualização; daí, na obra Diferença e Repetição, Deleuze
esclarecetaldistinçãodaseguintemaneira:“Ovirtual[...]éacaracterísticadaIdeia;éapartirdesuarealidadequea
existênciaéproduzida,eproduzidaemconformidadecomumtempoeumespaçoimanentesàIdeia”(DELEUZE,
2018,p.280);“ovirtual[...]nãoseopõeaoreal;possuiumaplenarealidade”(DELEUZE,2018,p.279);ele“éa
modalidade do diferencial no âmago da Ideia” (DELEUZE, 2018, p. 369), ou seja, “no virtual, a diferença e a
repetiçãofundamomovimentodaatualização,dadiferenciaçãocomocriação,substituindo,assim,aidentidadeea
semelhança do possível, que sóinspiramumpseudomovimento,ofalsomovimentodarealizaçãocomolimitação
abstrata”(DELEUZE,2018,p.281).Sendoassim,paraDeleuze,ovirtualnãoéorealquefalta,masorealqueestá
porvir.Elenãoéopossível,masorealemsuapotência,emsuacapacidadedeseatualizar.Poroutrolado,anoção
dedevirpodesercompreendidaenquantoumprocessodetransformaçãocontínua,umalinhadefugaquelevaum
ser a se tornar algo diferente do que era, sem, contudo, se tornar esse algo. É um movimento que dissolve as
identidadesfixaseascategoriasestabelecidas.SegundoDeleuze,odevirnãoéumaimitação,nemumaevoluçãode
115
tomada como umpressuposto,masumaemergência,umafabulação246 contínuaqueseconstrói
na intersecção entre o dado e o ultrapassamento, entre o atual e o virtual.
Através disso, em nossa obra prevalente (Empirismo e Subjetividade), Deleuze busca
estabelecer as bases para a compreensão apontada no parágrafo anterior ao demonstrar que o
espírito,emseuestadobruto,éumacoleçãodeideiasquenãoénemmesmoumsistema.Ora,a
imaginação de forma inicial, caótica e fantasista, é-nos apontada pelo filósofo francês como
sendo o terreno em que a subjetividade serátecida,emqueelatemsuatessitura.Segundonos
falaDeleuze,aoquetudoíndica,elanãoéumafaculdade,masoprópriofluxodepercepções,ou
até mesmo um “fluxo de percepções” (DELEUZE, 2012, p. 11). Sendoassim,emretomada,a
constituição do sujeito ocorre quando essa imaginação é afetada pelos princípios da natureza
humana–associaçãoepaixão–queimpõemumaordemeumaconstânciaaessecaos;oeu,por
assim dizer, é um efeito, uma impressão de reflexão, resultante da ação desses princípios que
qualificam o espírito.
Noentanto,conformeDeleuze,aimaginaçãonãoselimitaaserocampopassivoondeos
princípios operam. Ela possui um poder intrínseco de reflexão e extensão que a eleva a um
patamar criativo, capaz de fabular e de ir além do dado imediato: é nesse movimento que o
imagináriosetornaummotordasubjetividadeedacultura,ouseja,aimaginação,aorefletiras
paixões e os princípios que a constituíram, libera-os de seus limites e os estende, criando um
“domínioartificial”(DELEUZE,2012,p.56);paraDeleuze,essedomínioéoespaçodaficção,
u mestadoparaoutro,masumadesterritorialização,umapassagementremundos,umaaberturaparaoFora;assim,
em Mil Platôs, Deleuze e Guattari exploram diversos tipos de devires (devir-mulher, devir-animal,
devir-imperceptível),enosmostrandoquetaisdeviresnãosãometáforas,masprocessosreaisdeexperimentaçãoe
de criação de novas formas de vida e de pensamento. Ora, para nossos autores, o devir não é imitar, nem se
identificar,masconjugar,agenciar,entraremumblocodemudançasemestadocontínuo;ouainda,odevirésempre
um processo de desterritorialização, de abandono de uma identidade fixa em favor de uma multiplicidade em
movimento.
246
A noção de fabulação em Deleuzesubverteacompreensãocorrente,asaber,aficçãocomomerainvençãoou
falsidade.Longedeserumaatividadesecundáriaouilusória,afabulaçãoé,paranossofilósofo,umaforçaprodutiva
e criativa que opera na constituição da realidade, da subjetividade e do pensamento. Ou seja, ela está
intrinsecamente ligada à imaginação, à virtualidade e ao devir (estessendoconsideradospornóscomotríadeda
criação em Deleuze). Nesse sentido, em A Ilha Deserta, nossoautorassociaoempirismoemsentidoforteaum
“universodeficçãocientífica”(DELEUZE,2005,p.107);ora,talconcepçãonãoéumametáforavazia,masuma
maneira de descrever um mundo onde as conexões não são dadas de antemão, mas são construídas, onde o
pensamento está em uma relação fundamental com o Fora,eondearealidadeéumcampodeexterioridadeede
agenciamentos.Assim,paraDeleuze,“overdadeiromundoempiristadesdobra-sepelaprimeiravezemtodaasua
extensão:mundodeexterioridade,mundoemqueoprópriopensamentoestánumarelaçãofundamentalcomoFora,
mundo onde há termos que são verdadeiros átomos, e relações que são verdadeiraspassagensexternas–mundo
ondeaconjunção‘e’destronaainterioridadedoverbo‘é’,mundodeArlequim,mundodisparatadoedefragmentos
nãototalizáveisondenoscomunicamospormeioderelaçõesexteriores.”(DELEUZE,2005,p.107).Nessemundo
deficçãocientífica,afabulaçãoéaatividadequepermiteaosujeitoseorientar,criarsentidoeconstruirummundo
vivido;elaéacapacidadedeinventarconexões,detraçarlinhasdefuga,decriarnovasrealidadesapartirdocaos.
No mais, a fabulação éoquenospermitehabitaromundodeexterioridadeedemultiplicidadesdoqualnosfala
Deleuze.
116
em que o eu se constrói e se projeta em virtualidades. A subjetividade, em vista disso, é a
“repercussãocadavezmaisprofundadosprincípiosnaespessuradoespírito”(DELEUZE,2012,
p. 135); tal repercussão (ressonância247) é o próprio processo defabulaçãodoeu,quesedána
exterioridade das relações e na imanência dos afetos.
Nesse sentido, para nosso autor, a ficção do eu não é uma falsidade, mas uma verdade
produtiva, ou melhor, o eu é uma “ficção útil248”, uma estabilização provisória de um fluxo
incessante da internalidade do ser. Tal fabulação do eu é o que permite a ação, a crença e a
constituiçãodeummundocomumentreosvárioseuspossíveisinstanciadosemcorpos-próprios
independentes. A subjetividade é, assim, atravessada por virtualidades, que são as
potencialidadesnãorealizadasouaindanãorealizadas,osdeviresquesedesdobramnoplanoda
imanência. Por isso, para Deleuze, o virtual não se opõe ao real, posto que coexiste com ele,
sendoadimensãoemqueonovoeoinesperadopodemviraemergir;porisso,afabulaçãodoeu
nãoseriasenãooatodeatualizaressasvirtualidades,dedarformaaumeuqueestásempreem
processo de devir, sempre aberto a novas transformações.
Àvistadisso,acompreensãodeleuzianadasubjetividadecomoefeitoenãocomoorigem
ganhacamadasmaisprofundasquandoconsideramosveementementeadistinçãoentreovirtual
e o atual.AdistinçãoentreovirtualeoatualemDeleuzeconstituiumdoseixosmarcantesde
sua filosofia (desenvolvida em obrascomoDiferençaeRepetição,1968,eBergsonismo,1966;
ora,taldistinçãosepropôsaumaimensaprofundidadeontológica,postoqueelatemapotência
de articular uma nova compreensão do ser, do tempo e da criação que romperia radicalmente
comfilosofiastradicionaisdapossibilidadeedarepresentação.Poisbem,inspiradoemBergson,
mas transformando profundamente seus conceitos, Deleuze buscou elaborar um pensamento
ontológicoemqueovirtualnãoseopõeaoreal,masconstituiumadimensãodoreal,comoele
afirmaclaramentenaseguintepassagem:“Ovirtualnãoseopõeaoreal,masapenasaoatual.O
virtual possui uma plena realidade como virtual” (DELEUZE, 2018, p. 276).
247
Destacamos mais esta noção por entendermos que ela ocupa um lugar especial na filosofia de Deleuze,
c onstituindo-se um dos operadores primordiais de suas considerações sobre a diferença e as multiplicidades.
Presente deformaexplícitaouimplícitaemtodasuaobra,destaqueaquiparaDiferençaeRepetição(1968)eMil
Platôs (1980), a noção de ressonância em Deleuze oferece-nos uma alternativa arrojada às concepções de
comunicação, relação e produção de sentido. Pois bem, diferentemente daressonânciafísica,quepressupõeuma
frequência comum entre elementos que vibram simpaticamente, a ressonância deleuziana opera entre elementos
heterogêneos que mantêm suas diferenças enquanto entram em comunicação produtiva: ela não harmoniza nem
unifica,masproduzefeitosdiferenciaisquetransformamospróprioselementosqueentramemressonância.Assim,
esta noção nos serve para compreender como Deleuze pensa a comunicação entre domínios aparentemente
separados, a produção imanente do sentido e sua crítica mordaz às filosofias da representação.
248
Quantoaesteponto:“[...]devemosnosservirdeficçõesedeabstrações,massomentenamedidanecessáriapara
aceder a um plano, onde caminharíamos de ser real em ser real e procederíamos por construção de conceitos”
(DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 244).
117
Nisso, a distinção feita por ele permite-nos pensar a criação comoprocessoimanentede
diferenciação, escapando às alternativas mais canônicas entre ser e devir, uno e múltiplo,
necessidade e contingência. Nesse sentido, o aprofundamento da compreensão detaldistinção
nosécrucialparaquepossamosapreenderaoriginalidadedacontribuiçãodeleuzianaàfilosofia
contemporânea e sua relevância para se pensar questões diluidoras de certos enfoques
ontológicasconsagrados–comonoçõesinertessobretemporalidade,criaçãoeindividuação.Éa
partirdissoquepodemosdizerqueovirtualemDeleuzenãoépossibilidadeabstrata(emsentido
negativo–quesepodepensarouatribuiratalexpressão)oupotencialidadeindeterminada,mas
umarealidadeconcretadotadadeconsistênciaprópria.Parademonstrativodetalcoisa,Deleuze
seutilizadeumafórmulaprecisaadvindadeProustparadefinirosestadosdevirtualidade,isto
é:
o virtual, é preciso dizer exatamente o que Proust dizia dos estados de
D
ressonância: “Reais sem serem atuais, ideais sem serem abstratos”, e
simbólicossemseremfictícios.Ovirtualdevesermesmodefinidocomouma
estritapartedoobjetoreal–comoseoobjetotivesseumadesuaspartesno
virtualeaímergulhassecomonumadimensãoobjetiva.(DELEUZE,2018,p.
276).
Sendo assim, para Deleuze, a realidade do virtual não é vaga ou indeterminada, como
podemos ver naobraBergsonismo;nela,Deleuzeafirma:“Umatalfilosofiasupõequeanoção
devirtualdeixedeservaga,indeterminada.Éprecisoqueelatenhaemsimesmaummáximode
precisão” (DELEUZE, 2008, p. 75). Ora, segundo seu pensamento, a realidade específica do
virtual consiste em sua estrutura diferencial, ou seja, “a realidade do virtual consiste nos
elementoserelaçõesdiferenciaisenospontossingularesquelhescorrespondem” (DELEUZE,
2018, p. 276), fazendo assim que compreendamos que “a estrutura é a realidade do virtual”
(DELEUZE, 2018, p. 276), visto que ele se caracteriza por propriedades específicas que o
distinguem tanto do atual quanto do possível. Tais características são o diferencial, o
problemático, amultiplicidadee acoexistência temporal.
Porisso,naprimeira(odiferencial),ovirtualéconstituídoporrelaçõesdiferenciaispuras,
anteriores aos termos que elas relacionam, ou seja, tais relações não são abstrações, mas
realidadesconcretasquedeterminamascondiçõesdeatualização.Nasegunda(oproblemático),
o virtual tem estrutura de problema, não de solução, como nos explica Deleuze, a saber: “o
virtualtemarealidadedeumatarefaasercumprida,assimcomoarealidadedeumproblemaa
ser resolvido; é o problema que orienta, condiciona, engendra as soluções, mas estas não se
assemelham às condições do problema. (DELEUZE, 2018, p. 281). Na terceira (a
multiplicidade),ovirtualémultiplicidadepura,sistemaabertoderelaçõesemvariaçãocontínua,
118
nãosendounonemmúltiplonosentidocorrentementehistórico,masconstituindooqueDeleuze
chama de “n-1249”, sempre subtraindo a unidade que totalizaria o múltiplo; inclusive, ao nos
remetermos a obra Bergsonismo, Deleuze nos mostra que “todos os níveis de distensão e de
contração coexistem em um Tempo único, formam uma totalidade; mas esseTodoeesseUno
sãovirtualidadepura”(DELEUZE,2008,p.75),nocaso,sãoaquiloquechamamosnoparágrafo
anterior decaracterística dacoexistência temporal.
Por conseguinte, Deleuze também nos aponta uma distinção pertinente entre virtual e
possível – e isso torna admissível que compreendamos um tanto melhor suas considerações
ontológicas.Assim,conformeDeleuze,“emtudoisto,oúnicoperigoéconfundirovirtualcomo
possível. Com efeito, o possível opõe-se ao real; o processo do possível é, pois, uma
‘realização’” (DELEUZE, 2018, p. 279). Nisso, nosso filósofofrancêsinsistequetaldistinção
concerne à própriaexistência, posto que
um erro ver nisso apenas uma disputa de palavras: trata-se da própria
É
existência.Cadavezquecolocamosoproblemaemtermosdepossívelede
real,somosforçadosaconceberaexistênciacomoumsurgimentobruto,ato
puro, salto que se opera sempre atrás de nossas costas, submetido àleido
tudo ou nada. (DELEUZE, 2018, p. 280).
Apartirdisso,Deleuzeaprofundaasuacríticasobreopossívelafirmandoqueele“éuma
falsa noção, fonte de falsos problemas” (DELEUZE, 2008, p. 79); ora, para ele,
[ ...] não é o real que se assemelha ao possível, mas o possível é que se
assemelha ao real, e isso porque nós o abstraímos do real, uma vez
acontecidoeste;nósoextraímosarbitrariamentedorealcomo[seestefosse]
um duplo estéril. [E com isso] [...] nada mais se compreende nem do
mecanismo dadiferença,nemdomecanismodacriação.(DELEUZE,2008,
p. 79).
Nesse sentido, o atualé,paraDeleuze,produtodadiferenciação,éoquesemanifestano
presentedaexperiência,oqueédadoempiricamente.Contudo,Deleuzenosressaltaqueoatual
não é simplesmente o que existe de fato, mas o resultado de um processo complexo de
atualizaçãodovirtual;daípodemosdizerqueoatualsecaracterizaporpropriedadesespecíficas
queodistinguemdovirtual.Estassendo:extensividade,quepossuiextensãoespacialetemporal
determinada,istoé,ocupalugarnoespaçoenotempo;qualidade,queofazserconstituídopor
249
Aonosvoltarmosparaosentidoorigináriodafórmulacitada,adefiniçãomaisprecisaefundamentaldoconceito
n -1 encontra-senaintroduçãodeMilPlatôs,emqueDeleuzeeGuattariestabelecemosprincípiosdopensamento
rizomático, a saber: “Na verdade não basta dizer Viva o múltiplo, grito de resto difícil de emitir. Nenhuma
habilidadetipográfica,lexicaloumesmosintáticaserásuficienteparafazê-loouvir.Éprecisofazeromúltiplo,não
acrescentandosempreumadimensãosuperior,mas,aocontrário,damaneirasimples,comforçadesobriedade,no
níveldasdimensõesdequesedispõe,sempren-1(ésomenteassimqueounofazpartedomúltiplo,estandosempre
subtraído dele). Subtrair o único da multiplicidade a ser constituída; escrever a n-1.” (DELEUZE; GUATTARI,
1995,p.13).Talpassagemrevelaquen-1nãoéumasimplesoperaçãoaritmética,masumprincípiodeconstrução
dasmultiplicidades.ParaDeleuze,onrepresentaqualquermultiplicidadedada,eo-1indicaasubtraçãosistemática
da unidade que tenderia a totalizar ou unificar essa multiplicidade.
119
qualidades determinadas que o distinguem de outros atuais; individualidade, que forma
indivíduos e objetos determinados com identidades relativamente estáveis;presença,queofaz
existir no presente da experiência: é dado à percepção e à consciência.
A partir disso, o virtual eoatualcompreendidospornossoautorcomoosformadoresde
um objeto duplo é a noção de quetodoobjetopossuiduasmetadesheterogêneas,istoé,“todo
objeto é duplo, sem que suas duas metades se assemelhem, sendo uma a imagem virtual,e,a
outra, a imagem atual. Metades desiguais ímpares” (DELEUZE, 2018, p. 277-278). Ora, esta
dualidadenãoéumadivisãoexterna,masconstitutivadopróprioobjeto,comonosdizDeleuze:
“Há, pois, uma outra parte do objeto, que se encontra determinada pela atualização. [...] Ao
passoqueadiferençaçãodeterminaoconteúdovirtualdaIdeiacomoproblema,adiferenciação
exprime a atualização desse virtual e a constituição das soluções (por integrações locais)”
(DELEUZE, 2018, p. 277).
Nisso, o processo pelo qual o virtual se torna atual é chamado por Deleuze de
diferenciação. Tal processo envolve duas operações complementares que ele distingue da
seguinte maneira: por um lado, temos a diferençação (em francês différentiation), que é a
determinação das relações diferenciais virtuais e a distribuição das singularidades
correspondentes; por outro, temos a diferenciação (em francês différenciation), que é a
atualização destasrelaçõesemqualidadesepartesextensivasdistintas.Assim,nosentidodessa
distinção, Deleuze precisa: “A diferenciação é como a segunda parte da diferença,eépreciso
formar a noção complexa de diferenci/çação para designar a integridade ou aintegralidadedo
objeto”(DELEUZE,2018,p.277).Dissopodemosaomenosinferirquearelaçãoentrevirtuale
atual não segue o modelo tradicional da realização do possível, mas constitui um processo
criativodeatualização.Paratanto,Deleuzeestabeleceaindaque“opossíveleovirtualtambém
sedistinguemporqueumremeteàformadeidentidadenoconceito,aopassoqueooutrodesigna
uma multiplicidade pura na Ideia, que exclui radicalmente o idêntico como condição prévia”
(DELEUZE, 2018, p. 280).
Tal compreensão é desenvolvida por nosso autor em termos de regras operacionais, isto
quer dizer que
possível é o que se “realiza” (ou não se realiza); ora, o processo da
O
realização está submetido a duas regras essenciais: a dasemelhançaeada
limitação.Comefeito,estima-sequeorealsejaàimagemdopossívelqueele
realiza(demodoqueele,amais,sótemaexistênciaouarealidade,oquese
traduzdizendo-seque,dopontodevistadoconceito,nãohádiferençaentreo
possível e o real). Ecomonemtodosospossíveisserealizam,arealização
implica uma limitação, pela qual certos possíveis são considerados
rechaçadosouimpedidos,aopassoqueoutros“passam”aoreal.Ovirtual,ao
120
c ontrário, não tem que realizar-se, mas sim atualizar-se; as regras da
atualização já não são a semelhança e a limitação, mas a diferença ou a
divergência e a criação. (DELEUZE, 2008, p. 78).
É nesse sentido que, para Deleuze, a diferença tomada como princípio estabelece queoqueé
primeiro no processo de atualização não é a identidade, mas a diferença, ou seja, “o que é
primeironoprocessodeatualizaçãoéadiferença–adiferençaentreovirtualdequesepartee
os atuais aos quais se chega, e tambémadiferençaentreaslinhascomplementaressegundoas
quais a atualização se faz” (DELEUZE, 2008, p. 78).
Estaprimaziadadiferençasignificaqueaatualizaçãoésemprecriaçãogenuína,postoque
“aatualizaçãodovirtual[...]sempresefazpordiferença,divergênciaoudiferenciação”,ouseja,
“a atualização rompe tanto com a semelhança como processo quanto com a identidade como
princípio”. Assim, “atualização, a diferenciação,[...]ésempreumaverdadeiracriação.Elanão
se faz por limitação de uma possibilidade preexistente” (DELEUZE, 2018, p. 280).
Contudo,aindaháquesedizerque,paranossofilósofofrancês,ovirtualeoatualnãosão
sucessivos,mascoexistentes;talcoexistênciaéontológica,nãomeramentetemporal,eDeleuze
buscanosexplicarissocomaseguinteponderação:“[...]éprópriodavirtualidadeexistirdetal
modoqueelaseatualizeaodiferenciar-seequesejaforçadaaatualizar-se,[istoé],acriarlinhas
de diferenciação para atualizar-se” (DELEUZE, 2008, p. 78).Assim,estacoexistênciaimplica
um circuito perpétuo entre virtual e atual, em que cada termoremeteconstantementeaooutro
sem jamais se reduzir a ele.
Agora, abrindo um pequeno parênteses neste momento, um outro aspecto importante no
que estamos falando é compreender como, no contexto da filosofia bergsoniana, Deleuze nos
mostra o conceito deimpulso vitalpara exemplificar devidamente a relação virtual-atual, ou seja:
queBergsonquerdizerquandofalaemimpulsovital?Trata-sesemprede
O
uma virtualidade em vias de atualizar-se, de uma simplicidade em vias de
diferenciar-se, de umatotalidadeemviasdedividir-se:aessênciadavidaé
proceder “por dissociação e desdobramento”,por“dicotomia”.[...]Tudose
passa como se a Vida se confundisse com o próprio movimento da
diferenciaçãoemsériesramificadas.Semdúvida,essemovimentoseexplica
pela inserção da duração na matéria [...] (DELEUZE, 2008, p. 75-76).
E acrescenta que “a diferenciação é sempre a atualização de uma virtualidade que persiste
através de suas linhas divergentes atuais” (DELEUZE, 2008, p. 76).
Nessesentido,seguindoaindamaisdepertoDeleuze,podemosdizerqueaconjunção(por
vezes disjuntiva) virtual-atual corresponde a duas temporalidades distintas que Deleuze
desenvolve especialmente em Lógica do Sentido (1969). Uma delas é o tempoCronos,tempo
estequeéoatualdoscorposedasmisturas;tempodasucessãoedamedida,ouseja,otempoda
121
experiência empírica, em que os eventos se sucedem demaneiraumtantolinear.Jáoutro,éo
Aion, tempo este que é virtual dos acontecimentos incorporais250, tempo das singularidades
puras251, ou seja, é o tempo do sentido e dos problemas, anterior à sua atualização empírica.
Nisso, ainda em relação a obra citada, Deleuze mostra aspectos mais detalhados sobre o
acontecimento articular advindodarelaçãoentrevirtualeatualatravésdaexpressão.Quantoa
isso, cito o filósofo:
acontecimentonãoénadadisto:elenãofalamaisdoquedelesefalaoudo
O
que se o diz. E,noentanto,elepertencedetalformaàlinguagem,habita-a
tanto que não existe fora das proposições que oexprimem.Maselenãose
confunde com elas, o expresso não se confunde com a expressão.
(DELEUZE, 2015, p. 187).
Assim, o acontecimento não preexiste à sua expressão, mas pré-insiste, isto é, ele
pré-insiste na medida em que se dá fundamento e condição. Por isso, para Deleuze, a relação
virtual-atual permite pensar a univocidade do ser de uma maneira nova, posto que, para ele,
“nem ativo,nempassivo,oserunívocoéneutro”,oumelhor,“eleéelepróprio,extra-ser”,um
“mínimo de ser comum ao real, ao possível e ao impossível” (DELEUZE, 2015, p. 186). Tal
univocidade não é uniformidade para Deleuze, mas diferenciação interna de uma mesma
substância que se expressa tanto virtualmente quanto atualmente.
Outropontoimportanteemrelaçãoàdinâmicavirtual-atualéaevoluçãodetaldinâmicae
a criação. Poisbem,aevoluçãocomoatualizaçãoemBergsonismoévistaporDeleuzecomoo
que deve ser compreendidaemtermosdeatualizaçãodovirtual,nãoderealizaçãodopossível,
istoé,“[...]aevoluçãoacontecedovirtualaosatuais.Aevoluçãoéatualizaçãoeaatualizaçãoé
250
Semprenaintençãodesermosbrevesemnossasnotas,diremosaquiapenasqueosacontecimentosincorporais
c onstituemparaDeleuzeumadasnoçõesmaiscomplexaseoriginaisdesenvolvidasemsuaobraLógicadoSentido.
Para compreendermosadequadamenteesteconceito–aindaquedemaneirasucinta–,éimportantequeaomenos
citemos que os exemplos concretos que Deleuze nos oferece ao longo daobrailustramcomoosacontecimentos
diferem radicalmente tanto das coisas físicas quanto das representaçõesdamente.Aindaquenãonosremetamos
diretamenteaosváriosexemplosqueDeleuzeexpõeàobra,podemosdizerqueeles(osexemplosdeacontecimentos
incorporais) revelam-se através de casos concretos que entendemospor“crescer”,“morrer”,“amar”,“cortar”.As
batalhashistóricas,acriaçãoartísticaeatémesmoosencontrosamorosossão,paraDeleuze,aquiloquemostraa
existênciadeumadimensãoincorporaldarealidadequenãosereduznemaoscorposfísicosnemàsrepresentações
mentais;daí,paraele,taldimensãoincorporalnãoseriasenãocondiçãodepossibilidadetantodaexperiênciaquanto
dalinguagem,ouseja,elapermitepensaradiferençasemsubordiná-laàidentidade,odevirsemreduzi-loaoser,o
sentido sem separá-lo da materialidade. Em síntese, para nosso filósofo francês, os acontecimentos incorporais
mostram-se como figuras importantíssimas deumaontologiadaimanênciaquetransformanossacompreensãoda
relação entre linguagem e ser, tempo e eternidade, necessidade e contingência.
251
Grossomodo,nestabrevenota,podemosdizerqueanoçãodesingularidadespuraséencontradaedesenvolvida
especialmentenasobrasDiferençaeRepetição,LógicadoSentidoeDoisRegimesdeLoucos(texto“AImanência:
umavida”).Ora,talconceitoarticula-sediretamentecomadiferençadeleuziana,comsuateoriadasmultiplicidades
e sua crítica às filosofias da representação. Nesse sentido, ao pensarmos Deleuze, conseguimos pontuar que as
singularidadespurassãoelementosgenéticosquepresidemàconstituiçãodosindivíduosedaspessoas,semserem
elas mesmas individuais ou pessoais: mais que simples pontos matemáticos ou físicos, as singularidades puras
representam acontecimentos transcendentais que determinam a estruturadoscamposproblemáticoseorientamos
processos de atualização do virtual. Daí, de forma resumida, podemos dizer que tal conceito permite a Deleuze
pensar a gênese do individual a partir de um campopré-individual, escapando àsaporias das filosofias do sujeito.
122
criação” (DELEUZE, 2008, p. 79). Tal concepção permite escapar aos falsos problemas do
evolucionismotradicionalquepensaasvariaçõescomo“outrastantasdeterminaçõesatuais,que
deveriam,então,combinar-seemumasoma[estanque]”(DELEUZE,2008,p.80).Algocrucial
para esta criação evolutiva apresentada por Deleuze é a diferenciação: o processo de
diferenciação vital exemplifica muito adequadamente a relação virtual-atual. Quanto a isso,
Deleuze explica:
udo se passa comoseaVidaseconfundissecomoprópriomovimentoda
T
diferenciaçãoemsériesramificadas.Semdúvida,essemovimentoseexplica
pela inserção da duração na matéria: a duração se diferencia segundo os
obstáculos que ela encontra na matéria, segundo a materialidade que ela
atravessa,segundoogênerodeextensãoqueelacontrai.Masadiferenciação
não é somente uma causa externa. É em si mesma, por uma força interna
explosiva,queaduraçãosediferencia:elasóseafirmaesóseprolonga,ela
só avança em séries ramosas ou ramificadas. Precisamente, a Duração
chama-se vida quando aparece nessemovimento.Porqueadiferenciaçãoé
uma“atualização”?Équeelasupõeumaunidade,umatotalidadeprimordial
virtual, que se dissocia segundo linhas de diferenciação,masque,emcada
linha, dá ainda testemunho desuaunidadeetotalidadesubsistentes.Assim,
quando a vida divide-se em plantaeanimal,quandooanimaldivide-seem
instintoeinteligência,cadaladodadivisão,cadaramificação,trazconsigoo
todo sob um certo aspecto, como uma nebulosidade que acompanha cada
ramo, que dátestemunhodesuaorigemindivisa.Daíhaverumaauréolade
instintonainteligência,umanebulosadeinteligêncianoinstinto,umquêde
animado nas plantas, um quê de vegetativo nos animais.Adiferenciaçãoé
sempreaatualizaçãodeumavirtualidadequepersisteatravésdesuaslinhas
divergentes atuais. (DELEUZE, 2008, p. 76).
Todosesseselementosrumamparaoestabelecimentodopensamentodadiferença,ouseja,
a distinção virtual-atual funda uma ontologia da diferença, em que esta pode ser tida como
primeiraemrelaçãoàidentidade.Paratanto,emDiferençaeRepetição,Deleuzenosapontaque
“aos elementos e às relações que formam uma estrutura devemos evitar, ao mesmo tempo,
atribuirumaatualidadequeelesnãotêmeretirararealidadequeelestêm”(DELEUZE,2018,p.
276).Nessadireção,aoquenosparece,talontologiafoipensadaparaquesepudessetornarmais
quepermissívelpensarummundoemcriaçãoperpétuaondeanovidadeemergeconstantemente
sem recorrer àtranscendência.Porisso,Deleuzenosexprimesuasaídapertinente:aimanência
radical. Para ele, virtual e atual são imanentes um ao outro, posto que, para ele, não há
transcendênciadovirtualemrelaçãoaoatual,nemdoatualemrelaçãoaovirtual,ouseja,tudo
se produz no mesmo plano da natureza (imanência) através de relações diferenciais. Essa
imanênciaradical,paraele,eliminaqualquerdualismoentremundosensívelemundointeligível,
entre aparência e essência,permitindopensaraproduçãodarealidadecomoprocessoimanente
dediferenciação.Alémdisso,segundoseupensamento,elaéumacríticadarepresentação,visto
que a relaçãovirtual-atualpermite-nosanalisarcrítico-radicalmenteasfilosofiasquesefirmam
sobre uma inflexível ideia do mundo como representação.
123
Nessesentido,paraopensamentodeleuziano,ovirtualnãorepresentaoatual,nemoatual
representa o virtual. Há produção recíproca sem representação. Deleuze diz que esta
consideração abre caminho para pensar relações não-representativas entre pensamento e ser,
conceito e objeto, escapando às armadilhas de uma filosofia da consciência um tanto mais
restritiva. Nisso,paraquetalproduçãorecíprocasedêadequadamente,eleexpõequeépreciso
pensarumamelhornoçãodatemporalidadeedassíntesesquepodemosformarapartirdela,isto
é,emDiferençaeRepetição,Deleuzeanalisatrêssíntesestemporaisquearticulamvirtualeatual
demaneirasespecíficas,mostrandocomoaexperiênciadotemposeconstituiatravésdarelação
cambiante entre virtualidades e atualidades; através do trato destas duas noções, ele consegue
pensaracriaçãocomoprocessoimanente,adiferençacomoprimeiraemrelaçãoàidentidadeeo
tempocomocoexistênciaentrevirtualidadeseatualidades.Portanto,supomosaomenosquesua
ontologia da diferença oferece-nos alternativas à relação entre ser e devir, uno e múltiplo,
necessidadeecontingência,determinismoeliberdade:elapermitepensarummundoemcriação
perpétua em que a novidade emerge constantemente sem recorrer à transcendência.
A partir disso, ao nós voltarmos novamente para a subjetividade como criadora do eu,
podemos dizer que ele, enquanto ficção, não é uma mera ilusão, mas sim uma atualização de
virtualidades que operam no plano da imanência. Daí o virtual, para Deleuze, já mencionado,
não se opõe ao real, mas ao atual; ele é plenamente real, embora não atualizado. Ele é a
dimensãodaspotencialidades,dasmultiplicidadesquecoexistemequepodemserfabuladasem
diferentes formas de eu.Porisso,segundoDeleuze(demaneiraindireta),ovirtualnãoéoreal
quefalta,masorealqueestáporvir,istoé,elenãoéopossível,masorealemsuapotência,em
sua capacidade de se atualizar.
Sendo assim, a relação não apenas distintiva entre virtual-real é importante para se
entendercomoasubjetividadeéatravessadaporfabulações.Paranossoautor,afabulaçãonãoé
a criação de algo do nada, mas o ato dedarformaeconsistênciaàsvirtualidades.Oeu,nesse
sentido, é uma ficção que se atualiza a partir de um campo de possibilidades virtuais, um
processo contínuo de diferenciação e repetição – e repetição aqui, porassimdizer,nãoseriaa
mera reprodução do mesmo, mas a força que produz o novo, que diferencia e que permite a
emergência de um eu sempre em devir. Assim, se levarmos em consideração a obra A Ilha
Deserta,nela,Deleuzereiteraaideiadequeoempirismo,emseutalheveemente,leva-nosaum
universo de ficção científica, em queomundofaz-se“estranho,[ummundo]estrangeiro,visto
por outras criaturas”, mas que, paradoxalmente, “já é o nosso e que somos nósprópriosessas
outrascriaturas”(DELEUZE,2005,p.107).Ora,talperspectivaporpartedeDeleuzereforçaa
124
noção de que a subjetividade é construída em ummundodeexterioridade,emqueasrelações
são exteriores aos seus termos e onde o pensamento está em uma relação fundamental como
Fora.Aficçãodoeu,nessecontexto,éamaneirapelaqualosujeitoseorientaeseconstituiem
um mundo de fragmentos não totalizáveis, em que a conjunção e destrona a interioridade do
verboé.
Asfabulaçõesdoeu,portanto,paraDeleuze,nãosãoapenasnarrativasquecontamosanós
mesmos, mas atos de criação que atualizam virtualidades e produzem novas formas de
subjetividade. Elas são o que permite ao eu se manter consistente em um mundo de fluxos e
devires,sem,contudo,fixar-seemumaidentidadeestática.Porisso,Deleuzenosfazconsiderar
que a subjetividade é uma obra em andamento, uma ficção que se reescreve continuamente,
atravessada por virtualidades que a impulsionamparaofuturoeporfabulaçõesqueaancoram
no presente, em que a imaginação, emsuacapacidadedereflexãoeextensão,desempenhaum
papelindispensávelnaconstruçãodasubjetividadeenquantofluxoemergentequesedáemcada
um,oumelhor,nacriaçãodeficçõesqueculminamnoeu;emEmpirismoeSubjetividade,para
exemplificar, Deleuze demonstra que aimaginaçãonãoéapenasumcampopassivoemqueos
princípiosoperam,masumaforçaativacapazderefletireestenderasafecçõesqueaconstituem,
isto é, a capacidade de reflexão e extensão é o quepermiteàimaginaçãocriarregrasgeraise,
consequentemente, fabular o eu como uma entidade consistente e até mesmo duradoura. Cito
Deleuze:
[ ...] a regra geral é essencialmente a unidade de uma reflexão e de uma
extensão. Com efeito, ambas são idênticas: a paixão se estende porque se
reflete, sendo este o princípio de estabelecimento da regra. Outras vezes,
porém, ele [Hume]nosdizqueéprecisodistinguirdoistiposderegrasnão
idênticas, sendo umas determinantes e, as outras, corretivas. As
determinantes são maisextensivasquereflexivas[...].(DELEUZE,2012,p.
55).
Assim, ao nos falar mais acuradamente sobre as regras, Deleuze nos expõe melhor sua
concepção acerca das mais ou menos determinantes. Continuemos com a citação:
própriodetaisregrasestenderem-separaalémdascircunstânciasdasquais
É
nasceram. Elas não compreendem aexceção,desconhecemoacidental,que
confundemcomogeralouoessencial:éoinconvenientedacultura.Quanto
às regras do segundo tipo, as regras corretivas, elas são maisreflexivasdo
que extensivas. O que elas corrigem é precisamente a extensão das
precedentes.Emvezdeconfundiroacidentalcomogeral,elasseapresentam
comoregrasgeraisconcernentesaopróprioacidentalouàexceção.“Regras
gerais se estendem comumente para além dos princípios que asfundam.É
rarofazermosexceçãoaesserespeito,anãoserqueelatenhaasqualidades
deumaregrageralesefundeemcasosmuitonumerososemuitocomuns”.
Essassegundasregrasenunciamumestatutodaexperiênciaquedáarazãode
todososcasospossíveis;emúltimainstância,aexceçãoéumobjetonatural
e,porefeitodocostumeedaimaginação,devémoobjetodeumaexperiência
e de um saber, de uma casuística. (DELEUZE, 2012, p. 55-56).
125
Nisso, dessas duas ideias a serem conciliadas (a extensão e a reflexão de até onde uma
regra pode atingir), Deleuze ainda nos coloca o seguinte:
[ ...]aextensãoeareflexãosãoidênticas,massãodiferentes.Ouentão:dois
tipos de regras se distinguem, se combatem; todavia, [...] têm a mesma
origem, o mesmo princípio de constituição. Eis-nosremetidosaoproblema
principal:comoépossívelaregra?Partimosdaunidade:aregraé,aomesmo
tempo, extensão e reflexão da paixão. A paixão se reflete. Mas onde? Em
quê? Naimaginação.Aregrageraléapaixãorefletidanaimaginação.Sem
dúvida,oqueéprópriodasqualidadesdapaixãocomoprincípiosdanatureza
éafetar,qualificaroespírito.Mas,inversamente,oespíritorefletesuapaixão,
suas afecções: “Tudo o queéagradávelaossentidostambémé,emalguma
medida,agradávelàimaginaçãoeapresentaaopensamentoumaimagemda
satisfação que advém de sua aplicação real aos órgãos do corpo”.
Refletindo-se,apaixãoseencontradiantedeumareproduçãoampliadadesi
mesma,sevêliberadadoslimitesedascondiçõesdesuaprópriaatualidadee,
assim,vêabrir-setodoumdomínioartificial,mundodacultura,noqualela
pode se projetar em imagem e se desenrolar sem limites. Refletido, o
interesse ultrapassa sua parcialidade. Isso quer dizer que a imaginação,
povoando-secomaimagemdaspaixõesedeseusobjetos,adquire“todoum
jogo de paixões que lhe pertencem”. Na reflexão, a paixão se imagina ea
imaginaçãoseapaixona:aregraépossível.Adefiniçãorealdaregrageralé
esta: uma paixão da imaginação. “A imaginação seprendeàsvisõesgerais
das coisas”. (DELEUZE, 2012, p. 55-56,grifo nosso).
Assim,conformeacitação,Deleuzedeixaclaroqueaimaginaçãooperanaconstituiçãoda
subjetividade; a paixão, ao se refletir na imaginação, se estende para além de seus limites
imediatos,criandoregrasgeraisqueorganizamaexperiênciaedãocontexturaaoeu.Nisso,para
nosso autor, tal extensão não é um mero acidente,masoprópriomecanismoatravésdoquala
subjetividade se constrói como uma ficção útil e produtiva; o eu, nesse sentido, é o resultado
dessacapacidadedaimaginaçãoderefletireestenderaspaixões,criandoumaidentidadequese
colocaalémdosmomentosparticularesdeumaoumaisexperiências.Porconseguinte,comonão
poderia deixar de ser, Deleuze também aponta para a ambiguidade dessa operação: ou seja, a
imaginação, em sua tendência à extensão, pode criar regras que vão “‘além dasrazõesqueos
levaram a estabelecê-las inicialmente’” (HUME, 2009, p. 590, apud DELEUZE, 2012, p.55).
Ora,seguindobemdepertoopensamentodeleuziano,issosignificaqueaficçãodoeupodeaté
mesmo se tornar excessiva, criando identidades rígidas que não correspondem à fluidez da
experiência;énessepontoqueentraanecessidadederegrascorretivas,quesão“maisreflexivas
doqueextensivas”(DELEUZE,2012,p.55)equecorrigemosexcessosdaextensão.Porisso,
paraDeleuze,adinâmicaentreextensãoecorreçãonãoésenãocrucialparaentendermoscomoa
subjetividade se mantém em equilíbrio entre a consistência eaflexibilidade,entreaficçãoea
não-ficção.
À vista disso,calcadosnoquehádemaisprofundonopensamentodeDeleuze,podemos
afirmarcomcertaobviedadequeafabulaçãodoeunãoéumprocessolinear,masumadinâmica
126
complexa de criação e refinamento, de extensão e reflexão, emqueoeunãovaialémdaquilo
que é, isto é, uma ficção que, como colocado, constrói-se através da imaginação e que deve
constantemente se ajustar esecorrigirpara–epornecessidadedesi–permaneceradequadaà
experiência. Nesse sentido, a adequação não é uma conformidade passiva, mas um processo
ativo de criação e recriação,emqueoeusefábulacontinuamenteemrespostaàsvirtualidades
que o constroem e o atravessam. Daí, em Diferença e Repetição, Deleuze aprofunda tal
compreensãoaomostrarcomoarepetiçãonãoéamerareproduçãodomesmo,masaforçaque
produz adiferença.Afabulaçãodoeué,noâmagodaconcepçãopresenteàobra,umprocesso
de repetição diferencial, em que cada atualização do eu é uma nova diferenciação, uma nova
forma de se relacionar com as virtualidades: ou seja, o eu não é uma identidade sólida e
inamovível; ele é, para Deleuze, um processo contínuo de diferenciação, uma ficção que se
reescreveacadamomento.Assim,segundoDeleuze,“arepetiçãonãoéageneralidade”,istoé,
“arepetiçãodeveserdistinguidadageneralidadedeváriasmaneiras”(DELEUZE,2018,p.17).
Assim, “toda fórmula que implique suaconfusãoédeplorável”,pois“ageneralidadeapresenta
duas grandes ordens: a ordem qualitativa das semelhanças e a ordem quantitativa das
equivalências” (DELEUZE, 2018, p. 17).
Portanto,taldistinçãoéimportanteparaentendermosanaturezadafabulaçãodoeu,posto
que ele não é uma generalidade, uma identidade que se repete de forma idêntica a um si
inalterável e consolidado, mas uma singularidade que se repete diferindo de si mesma em
conjuntos de elementos fabulosos. Nisso, cada fabulação do eu é uma nova atualização de
virtualidades,umanovaformadeserelacionarcomomundoqueéalçadoemumem-sinãofixo.
É daí que podemos considerar que a subjetividade não é senão um processo de repetição
criativa,emqueoeufábulaasicontinuamentesemjamaissefixaremumaidentidadedefinitiva
ou mesmo absolutamente definidora doem-si.
Portanto,compreendemosqueaperspectivasobreoeuapresentadaporDeleuzetemfortes
eprofundasimplicaçõesparaacompreensãodasubjetividadeemnossosdias.Pensemosemum
mundodefluxosedevires,emqueasidentidadestradicionaissedissolvem,afabulaçãodoeuse
torna uma estratégia de sobrevivência e de criação; é nesse sentido que ele não é mais uma
essênciaaserdescobertaoumesmodada,masumaficçãoaserinventada,umavirtualidadeaser
atualizada: a subjetividade é, para nosso autor, um campo de experimentação, em que novas
formas deeupodem emergir e se desenvolver de maneira mil.
127
3.3. A continuidade da experiência na parte IV do livro I do Tratado
Em nossas considerações da seção anterior, em que tratamos da subjetividade (em seu
cerne),tivemosqueoeunãoéumasubstânciapreexistente,masumaficçãoútil,umafabulação
contínua que emerge como um efeito complexo no plano da imanência. Daí, ao seguirmos
vivamente Deleuze,podemosdizerque,atravessadapordeviresevirtualidades,asubjetividade
se constitui como uma estabilização provisória de um fluxo incessante, um domínio artificial
criado pela imaginação para permitir a ação, a crença e a constituição de um mundo comum.
Dentro disso, o eu não é algo que se descobre, masalgoqueseinventa,umprodutodopoder
criativo da imaginação que reflete e estende os princípios que a afetam.
Sendoassim,talcompreensãodoeucomoficçãoqueexploramos,longedeserumamera
especulação,reconduz-nosdiretamenteaocoraçãodafilosofiahumeanaeàssuasconsequências
maisdrásticas,exploradasnaParteIVdoTratado.Nisso,faz-nospertinentecolocarqueseoeu
é uma fabulação, é porque a própria continuidade da experiência – tantodosobjetosexternos
quanto da identidade pessoal – nãoéumdadodapercepção,masumaconstruçãodamente.A
ficçãodoeucomoalgosólidoeacrençanaexistênciacontínuadosobjetossãoduascoisasaté
um tanto semelhantes, forjadas pela mesma mecânica da imaginação que preenche as lacunas
entre percepções descontínuas.
Nesse sentido, é precisamente tal construção da noção de continuidade que nossas
considerações a seguir ponderarão dentro de outra fatia importante do texto de Hume. Ao
adentrar a Parte IV do Tratado, veremoscomoHumeaplicaseuceticismonãoapenasàrazão,
mastambémaossentidos,mostrandoqueacrençanapermanênciaeindependênciadosobjetosé
um produto do costume, não propriamente da evidência. A análise humeana da identidade
pessoal, que dissolve o sujeito em um feixe de percepções, aparecerá não como uma simples
negação extrema das tentativas racionalistas da cimentação do si mesmo, mas como a
confirmaçãodequeaunidadedoeuéumaficçãogeradapelamemóriaepelaimaginação.Nisso,
apassagemdafabulaçãodoeuparaaanálisedacontinuidadedaexperiênciamostraaprofunda
coerência do projeto empirista, ou seja:amesmaimaginaçãoquefabulaosujeitoéaquelaque
constróiaestabilidadedomundoemqueelehabita,umaestabilidadefuncionaleatéumtantoou
mais necessária, ainda que filosoficamente injustificável.
À vista disso, neste momento de nossa seção, na Parte IV do Livro I do Tratado,
conseguimoscolocardesdejáque Humereuniueintensificouosefeitosmaisprofundosdesua
investigação filosófica ao confrontar as consequências céticas de sua epistemologia empirista.
Na parte final de seu Livro I, nosso filósofo operou sua argumentação como uma espécie de
128
desdobramento crítico dos princípios estabelecidos anteriormente e levouafilosofiaàbeirade
suaprópriadissolução.Nisso,aotratardafragilidadedarazão,dainstabilidadedossentidos,da
insuficiência das tradições filosóficasedaficcionalidadedoeu,Humeexecutouumaadequada
espécie de anatomia da mente humana por meio de sua exposição mais radical.
Nisso, já na Seção I desta última parte do primeiro livro, Hume procurou aplicar com
afincoseumétodocéticoàprópriarazão,demonstrandocomo,aovoltar-sesobresimesma,ela
mina sua própria credibilidade. Ora, para nosso autor, seu exame da racionalidade empírica
expôs um círculo vicioso que podemos explicitar da seguinte maneira: confiamos na razão
porqueelafuncionounopassado,masessaconfiançaéumainferênciabaseadanohábito,enão
emcertezalógica.Pormeiodessadisposição,deu-seumcolapsodarazãoqueconduziuaoque
Hume reconheceu como umacrisedopensamento,istoé,umimpasseque,emboraameaçador,
tambémrevelouaforçavitaldanaturezahumanaemrestauraracrençaprática.QuantoàSeção
II, o alvo de nosso filósofo é a confiança nos sentidos como fonte de conhecimento seguro.
Hume nos mostra que a crença na continuidade e independência dos objetos sensíveis é
construída pela imaginação, e não pela percepção direta; coisa que, segundo o pensamento
humeano,seriacapazdedesestabilizarqualquerfundamentoimediatodaexperiência,colocando
emdúvidaatémesmoaexistênciadomundoexternotalcomooacreditamosperceber,aindaque
ingenuamente.
De outro modo,asSeçõesIIIeIValargamoescopodascríticasdeHumeaoabordarem,
respectivamente,aFilosofiaAntigaeaFilosofiaModerna.Nasseções,Humebuscouanalisaro
fracasso das escolas dogmáticas da Antiguidade e mostrar como os modernos, apesar da
linguagem racionalista, repetem os mesmos erros ao tentarem fundar o conhecimento em
princípios abstratos. Nisso, para nosso filósofo, tanto o dogmatismo antigo quanto o
racionalismo moderno caem no espectro do ceticismo quando são levados às suas últimas
consequências,oqueconfirma,aonossoveretambémnavisãodeHume,anecessidadedeuma
filosofia modesta e ancorada na experiência. Por conseguinte, nas Seções V e VI, Hume
voltou-separadoistemascentraisdametafísicaespiritual,quaissejam,aimaterialidadedaalma
e aidentidadepessoal.Eleprocuroudemonstrarquenãotemosnenhumaimpressãosensívelda
alma como substância, e que a noçãodeumeucontínuoeindivisívelnãopassadeumaficção
gerada pela memória e pela imaginação. Logo, segundo Hume, o sujeito, tal como concebido
129
pela tradição filosófica, dissolve-se em um feixe de percepções252 descontínuas, sem unidade
substancial.
Porfim,naSeçãoVII,Humenosofereceumaconclusãoumtantopessoaledramática,na
qual confessa o impactoexistencialdeseupróprioceticismo.Ora,aoreconhecerquearazãoo
levaaodesesperoeàsuspensãodetodacerteza,eletambémmostracomoanaturezahumana–
comseusafetos,hábitoseinstintos–temforçasuficientepararestauraraação,acrençaeavida
comum.ÉnessepontoqueHumefazapontamentosparaumaredefiniçãodopapeldafilosofia,
qual seja, para nosso filósofo empirista, ela não deve fundar certezas inabaláveis, mas
compreender os limites do pensamento humano e descrever os modos pelos quais, mesmo
imersos na dúvida, continuamos a crer, a agir e a existir. Assim, a Parte IV do Tratado não
apenasconcluiacríticahumeanaaoconhecimento,masaelevaaoseupontomaisagudo,istoé:
umceticismoreflexivoehumanizado,quenãoparalisa,masqueconvidaàhumildadeintelectual
e à reinvenção do projeto filosófico a partir das condições reais da vida mental.
Inicialmente, falaremos com mais detalhes da Seção I – Do ceticismo quanto à razão.
Quantoàseção,podemosdizerqueHumerealizouumadasinvestidasmaisousadasdafilosofia
moderna de seu tempo ao voltar seu ceticismo contra a própria razão. Se em suas seções
anteriores ele havia demonstrado que nossas crenças não se fundamentam em deduções
racionais,masnohábitoenaexperiência,napresenteseçãoeledáumpassoaindamaisradical,
a saber, ele questiona se a própria razão – este instrumentoqueutilizamosparavalidarnossas
crenças–édignadeconfiança.Ora,essaautocríticadarazão,propostaporHume,inaugurouum
momento singular no pensamento da Filosofia Moderna, pois expôs as limitações da
racionalidade humana ao submeter a razão ao seu próprio crivo.
À luz disso, Hume começa sua primeira seção da Parte IV distinguindo dois tipos de
operações da razão, quais sejam, as demonstrações, que envolvem verdades abstratas e
necessárias, como as da matemática (cujas negações implicam em contradições lógicas), e os
juízosdeprobabilidade,quesereferemaomundoempíricoesãobaseadosnaexperiência253.São
252
Aqui, Hume, antecipandoDeleuze,pensaasubjetividadenãocomosubstância(oumelhor,subjetividadecomo
e feito e não como algo substancial no sentido durodapalavra),mascomoumfeixedepercepções(umefeitode
hábitos e de associações mentais). Nesse sentido, Kemp Smith também nos confirma tal coisa ao observar que,
quantoaofilósofomoderno,“nãoháimpressãoconstanteeinvariável.Oeu[...]nãopodeserumaúnicaimpressão.
Deve ser aquilo a que nossas diversas impressões e ideias supostamente se referem.” (SMITH, 2005, p. 470,
tradução nossa). E ainda: “O que chamamos de eu não é nada além de um feixe ou coleção de diferentes
percepções.” (SMITH, 2005, p. 472, tradução nossa, grifo nosso). Assim, KempSmith,quantoaestepontoque
estamos ressaltando através desta breve nota, está bastante alinhado com o ápice da crítica à ideia de um eu
substancialfeita por Hume e, de certo modo, continuada por Deleuze.
253
Aqui, temos que Hume distingue dois tipos de operações da razão, estabelecendo que “em todas as ciências
demonstrativas,asregrassãocertaseinfalíveis;masquandoasaplicamos,nossasfaculdades,falíveiseincertas,têm
umagrandetendênciaadelasseafastareacairemerro”(HUME,2009,p.213).Sendoassim,nossofilósofotem
130
estes últimos – os juízos sobre fatos – que Hume coloca em dúvida. Afinal, segundo nosso
filósofo, nossas inferências empíricas, como a suposição de que o sol nascerá amanhã, são
sempre baseadas na repetição de eventos semelhantes. Mas por que confiar nessa repetição?
Poisbem,énessepontoqueHumeidentificaocírculovicioso(quemencionamosnabreve
introdução que fizemos para esta parte de nosso intento) em nossa facultação da experiência,
pois, segundo seu pensamento, confiamos na razão indutiva porque ela funcionounopassado,
masessaconfiançaé,elamesma,umainferênciabaseadanaexperiência254.Emoutraspalavras,
paraHume,usamosarazãoparavalidararazão;noentanto,seadmitirmosdemaneiraplausível
quearazãoéfalível,comopodemosconfiarnelaparajulgarsuaprópriavalidade?Talraciocínio
leva a um impasse, qual seja, que admissivelmente não há base racional última para confiar
mesmo na razão empírica (pois toda tentativa de justificá-la recorre até à própria estrutura
descritaporHume).Nessesentido,nossoautorestendeumtantomaisseuargumentoaomostrar
que, quantomaiscomplexasasinferênciasracionais,maisdependemdamemória,daatençãoe
daconfiançaemelosanterioresàprópriacapacidadederaciocínioconsistente–todossujeitosao
erro255.Ora,paranossofilósofo,aprópriarazão,quandoanalisadacomomesmorigorcomque
julgamos outras possíveis fontes de conhecimento, revela-se vulnerável a exageros, ilusões e
falhas de toda espécie, pois, segundo Hume, ao invés de ser um tribunal neutro, a razão
(compreendidaemestadopuro)seexprimecomouminstrumentolimitado,parcialeatémesmo
sujeito às mesmas condições humanas que todas as outras faculdades256. Complementarmente,
conforme pensado por nosso autor empirista, tal reflexão poderia vir a nos conduzir a um
paradoxo cético queHumeexpôsmaisclaramentedaseguintemaneira:sedevemosduvidarda
razão, também devemos duvidar da dúvida, poiselanascedarazãooudafaltaqueaelaestá
relacionada257. Tal consideração feita por Hume buscou comunicar-nos que o ceticismo em
sentido elevado se autodestrói, uma vez que não pode sustentar sua crítica sem recorrer aos
fundamentos queprocuradeslegitimar258.Nisso,elereconheceuacontradiçãoevocadaporsuas
ponderações, mas não as tratou como um problema lógicoaserresolvido,postoque,paraseu
pensamento,tratavam-sedeverdadessobreacondiçãohumana,sobreofatodesermoscriaturas
finitas, cujas faculdades não possuem fundamentos inabaláveis.
por cabível que “todo conhecimento degenera em probabilidade” (HUME, 2009, p. 213), questionando a
c onfiabilidade mesmo das demonstrações matemáticas quando executadas por mentes falíveis.
254
Ora, sobre o círculo vicioso na validação da experiência,Ibidem, p. 217.
255
Neste ponto, sobre a falibilidade da razão e suas consequências,Ibidem, p. 213.
256
Sobre a razão como instrumento limitado e parcial,Ibidem, p. 217.
257
Quanto a este ponto, sobre o paradoxo cético (duvidar da dúvida),Ibidem,p. 219.
258
Aqui, sobre a autodestruição do ceticismo radical,Ibidem, p. 220.
131
Não obstante,mesmodiantedocolapsodarazãosobseuprópriopeso,avidacontinua,e
Humeobservaque,quandodeixamosdefilosofar,voltamo-nosnaturalmenteàcrença,àação,ao
senso comum. Embora a razão possa nos levar à beira do abismo cético, nosso autortambém
destaca que são os sentimentos, os hábitos e os impulsos naturais que nos resgatam259. Para
Hume, a natureza humana tem força suficiente para restaurar a confiança prática no mundo,
mesmo que falte um alicerce lógico para tal crença. Pois bem, é esse retorno espontâneo à
normalidade que, para nosso filósofo, livra-nos do desespero filosófico260.
Nomais,podemosdizerqueaseçãoqueanalisamosagoraestabeleceque,seantesHume
haviaargumentadoqueacrençanãopoderiasebasearplenamentenarazão,massimnohábito,
ele nos mostra que a própria razão depende de crenças formadas porhábitosmentais,nãopor
garantiaslógicasapenasemnívelduramenteformal261.Paranossoautor,aconfiançanarazãoé,
emúltimainstância,umacrençacomoqualqueroutra:sustentadaporexperiênciapassadaepor
uma inclinação afetiva, e não por um princípio autojustificado. Nisso, em nossa análise dessa
primeiraseçãodaquartaparte,vimosqueHumesubmeteuarazãoaoseuprópriojulgamentoe
aludiusuafragilidadeestrutural,oumelhor,eleprocuroudemonstrarqueofundamentodarazão
mesmo em sentido empírico é circular,instáveleemocional,equesóanaturezahumana,com
seus hábitos e sentimentos, poderia impedir sua autodestruição262. Sendo assim, a razão, para
Hume, não dar-se-ia como soberana do espírito humano, mas sim uma serva do hábito, da
imaginação e das disposições naturais;paraseutãobemassentadoempirismo,oceticismonão
poderia ser tomado como um projeto destrutivo, mas um diagnóstico psicológico da nossa
condição humana263. Por fim, nessa primeira seção da quarta parte do Livro 1, conseguimos
ainda expor que, segundo nosso autor, a filosofia poderia desmontar tudo com seu ceticismo
rigoroso, mas é a própria vida – com sua força prática e afetiva – que nos reconstrói e nos
devolve ao mundo.
259
Em relação ao que Hume diz sobre oresgatepelanaturezahumana–sentimentosehábitos–,resgateestedo
colapso da razão sob seu próprio peso,Ibidem, p. 218.
260
Para Hume, a natureza humana tem força suficiente para restaurar a confiança prática no mundo, posto que,
segundosuaspalavras,“acrença,sendoumaconcepçãovívida,jamaispodesercompletasenãoestiverfundadaem
algonaturalefácil.[...]Felizmente,anaturezaquebraaforçadetodososargumentoscéticosatempo,impedindo-os
de exercer qualquer influência considerável sobre o entendimento” (HUME, 2009, p. 219-220).
261
Quantoaesteponto,sobreaconfiançanarazãoserumacrençasustentadapelohábito,Humenosfalaquenosso
raciocínioenossacrença“sãoapenasumasensaçãooumaneirapeculiardeconceber,quemerasideiasereflexões
são incapazes de destruir” (HUME, 2009, p. 217).
262
Aqui,podemosdizerqueHumesubmetearazãoaoseuprópriojulgamentoealudeàsuafragilidadeestrutural
Ibidem, p. 219.
263
Ora, sobre o ceticismo como diagnóstico psicológico, Hume põe: “Não é de admirar [...] que a convicção
decorrentedeumraciocíniosutildiminuaproporcionalmenteaoesforçorealizadopelaimaginaçãoparapenetraro
raciocínioeconcebê-loemtodasassuaspartes.Acrença,sendoumaconcepçãovívida,jamaispodesercompletase
não estiver fundada em algo natural e fácil.” (HUME, 2009, p. 219).
132
Agora,naSeçãoII–Doceticismoquantoaossentidos,Humealongasuacríticacéticaao
voltar-se, desta vez, contra a confiança que tradicionalmente depositamos nos sentidos como
fontesdeconhecimentosobrearealidadeexterna.Ora,apósdesestabilizararazãonaseçãoque
comentamosanteriormente,eledirecionaagoraseuexamefilosóficoaoutropilardopensamento
ocidental, a saber, a crença de que os sentidos nos fornecem acesso direto e confiável a um
mundodeobjetoscontínuoseindependentes.Aofazertalcoisa,Humeavançaemsuaproposta
de uma filosofia fundamentadanãonacerteza,masnaslimitaçõespsicológicasefuncionaisda
mente humana.
Nesse sentido, opontodepartidadeHumeéumaconstataçãoemsentidocotidiano,qual
seja, todos acreditamos que os objetos quevemos,tocamoseouvimosexistemcontinuamente,
mesmo quando nãoosestamospercebendo,e,alémdisso,queelesexistemindependentemente
da mente que dispomos264. Tal crença é tão comum que raramente é questionada. No entanto,
Hume demonstra que essa convicção não deriva da percepção sensorial, postoqueossentidos
nos oferecem apenas impressões momentâneas, fragmentadas e descontínuas. Para nosso
filósofo,elesjamaisnosmostramumobjetoquenãoestamospercebendo265 –porexemplo,não
há como os sentidos nos garantirem que uma cadeira permanece no quarto enquanto não a
vemos266. A continuidade e independência atribuídas aos objetos, portanto, são construçõesda
mente, formadas pela imaginação ou pelo entendimento, não pela sensação direta267.
À vista disso, para nosso autor, a crençanaexistênciacontínuadosobjetoséprodutodo
costume, pois a mente, acostumada a ver certas regularidades, preenche as lacunas entre
percepções e supõe apersistênciadosobjetosmesmonaausênciadeevidênciasensorial268.Tal
suposição não é racional nem propriamente empírica, mas um mecanismo psicológico
inconscientequenosajudaaorganizaromundodeformaestável269.Noentanto,Humetambém
nos alerta que tanto o senso comum quanto o pensamento de muitos filósofos tradicionais se
equivocam ao tratar essa crença como evidente, visto que, para ele,osensocomuminclina-se
aceitar de forma ingênua a existência contínua eindependentedosobjetos270;jáumaboaparte
dos filósofos tradicionais, por sua vez, tentam justificá-la com hipóteses como substância ou
264
uanto a este trecho, sobre a crença na existência contínua e independente dos objetos,Ibidem, p. 220.
Q
Aqui, sobre as duas questões fundamentais sobre a existência dos corpos,Ibidem,p. 220-221.
266
Sobre a opinião de uma existência contínua nunca provir necessariamente dos sentidos, Hume conclui
categoricamente que “podemos [...] concluir com segurança que a opinião de uma existência contínuaedeuma
existência distinta nunca provém dos sentidos” (HUME, 2009, p. 221).
267
Aqui, sobre a busca de Hume por demonstrar que os sentidos não podem dar origem à noção de existência
contínua,Ibidem.
268
Sobre a crença na existência contínua dos objetos é produto do costume,Ibidem,p. 227.
269
Sobre a coerência e a constância das impressões,Ibidem, p. 228.
270
Aqui, sobre o equívoco do senso comum e da filosofia tradicional,Ibidem,p. 226.
265
133
qualidades secundárias –conceitosque,segundonossofilósofoempirista,tambémcarecemde
fundamentoobservacional.Comisso,Humenosdestacaumatensãoestruturalentreimaginação
e razão. Para ele, de um lado, a imaginação nos leva a postularcontinuidadeeidentidadenos
objetos–porexemplo,consideramosumamaçãcomosendoamesmaaolongodotempo,apesar
de variações perceptíveis271; de outro, a razão, quando exercida com rigor cético, mostra que
nossas percepções são mutáveis, descontínuas, e não há base empírica para afirmar que se
referem a um único e mesmo objeto contínuo. Essa tensão descrita por nosso autor gera um
conflito interno entre o que sentimos naturalmente e o que podemos justificar racionalmente,
posto que, para Hume, acreditamos na permanência dos objetos, mas não temos como provar
isso logicamente.
Apartirdisso,nossofilósofodigeresuacríticaàpróprianoçãodeidentidadepessoal.Qual
maneira?Seossentidosnãogarantemacontinuidadedosobjetosexternos,muitomenospodem
garantiracontinuidadedoeu,então,segundoopensamentodeHume,nãoexisteumasubstância
interna permanente que nos constitua272. Para ele, na verdade, o que somos é um fluxo de
impressõeseideias,eacrençaemumeuestáveleidênticoasimesmoémaisumaficçãoútilda
imaginação do que qualquer outra coisa – tal como a crença na continuidade dos objetos273.
Agora, apesar dessas conclusões perturbadoras, Humenãoadvogaporumceticismodestrutivo
ou paralisante;pelocontrário,elepropõeoquechamadeceticismomitigado,asaber,devemos
reconhecer que a crença nos sentidos e na continuidadedomundoénaturalefuncional,ainda
que filosoficamente injustificável274. Tal disposição ou atitude argumentativa de nosso autor
implicaumaformadehumildadeintelectual,ouseja,podemosaceitaraslimitaçõesdarazãoeda
percepção, e não precisamos fingir queelasoferecemcertezasabsolutas275.Ofilósofohonesto,
paraHume,éaquelequecompreendequeaestabilidadedascrençashumanasnãorepousasobre
verdades lógicas, mas sobre a natureza psicológica do entendimento.
À luz do que foi discutido, se antes Hume havia mostrado que a crença não deriva da
razão,masdohábito,agoraelemostraquenemmesmoossentidos–frequentementetidoscomo
fontes de evidência imediata – podem justificar nossas crenças mais fundamentais, como a
existência contínua e independente dos objetos ou mesmo a permanência da identidade
271
este ponto, Hume destaca uma tensão estrutural entre imaginação e razão,Ibidem.
N
Quanto a este trecho, Hume estende sua crítica à noção de identidade pessoal,Ibidem, p. 227.
273
Sobre oeucomo fluxo de impressões e ideias,Ibidem.
274
Neste ponto, Hume propõe o que chama de ceticismo mitigado,Ibidem, p. 220.
275
Aqui,sobreahumildadeintelectual(reconheceraslimitaçõesdarazão),Humeafirmaque“nossarazãonãonos
fornece nenhuma certezasobreaexistênciadistintaecontínuadoscorpos,ejamaispoderiafazê-lo,sobnenhuma
hipótese. Tal opinião deve ser atribuída inteiramente à IMAGINAÇÃO” (HUME, 2009, p. 226).
272
134
pessoal276. Para nosso autor, o elo entre nossas crenças e a realidade externa, portanto, é a
imaginação, moldada pelo hábito, e não qualquer certeza racional ou sensorial. Nisso, ao
concluiraSeçãoIIdaParteIV,Humeaindaafirmaoquejáhaviatratadodurantetodaseção,isto
é, que os sentidos não são suficientes para justificar acrençanacontinuidadeeindependência
dos objetos, e que tal crença é construída pela mente a partir da repetição e da imaginação.
Todavia, segundo nosso filósofo empirista, embora inevitável na vida prática, tal crença
salientadanãoéfilosoficamentejustificável,postoqueoceticismoenfocadoporHumenãonega
a utilidade das crenças humanas, embora rejeite a pretensão de tratá-las como verdades
absolutas. Aliás,oqueelepropõeéumafilosofiapsicológicadacrença,quereconheceque,ao
invésdeconsiderarmoscomoinstrumentosinfalíveisdeacessoàrealidade,arazãoeossentidos
são expressões da nossa busca porestabilidadeemmeioaosfluxosdaexperiência277.Assim,o
ceticismo de Hume se trata de umceticismoradicalemtermoscríticos,masmoderadoemsua
conclusão, ou seja, para nosso autor,vivemos,acreditamoseagimosnãoporquetemoscerteza
do que quer que seja, mas porque nossa natureza assim nos conduz278.
Dandocontinuidade,naSeçãoIII–DaFilosofiaAntiga,Humerealizouumaanálisecrítica
dossistemasfilosóficosdaAntiguidade,comoobjetivodemarcarumazonadetransiçãoentrea
filosofia especulativa de tom mais tradicional e sua própria proposta de filosofia empírica e
cética calcada nanaturezahumana.Então,maisdoqueumcomentáriohistórico,Humebuscou
apresentar uma crítica de fundo metodológico, a saber, ele denunciou a busca por certezas
absolutas como uma das principais causas do fracasso filosófico ocorrido até seu momento
histórico, ao mostrar que tanto o dogmatismo metafísicoquantooceticismodesenfreadamente
radical surgiram de tentativas frustradas de fundar o conhecimento em princípios além da
experiência.
Segundo Hume, os filósofos antigos (especialmente os metafísicos) se empenharam em
oferecer explicações abrangentes sobre o mundo, a alma, a moralidade e o universo, e tais
sistemasambiciosos,emboraengenhosos,afastavam-sedasimpressõesreaisdavida,pois,para
nosso filósofo, eles buscavam resolver questões às quais não havia base empírica possível279.
Nisso, em vez de observarem o funcionamento da mente humana e suas limitações, tais
pensadores tentaram impor regras abstratas à razão. Para Hume, esse distanciamento da
experiência concreta foi o que comprometeu a validade desses sistemas filosóficos. Nesse
276
obre o elo entre nossas crenças e a realidade ser a imaginação,Ibidem.
S
Sobre uma filosofia psicológica da crença,Ibidem.
278
Aqui, sobre o ceticismo radical na crítica de nosso autor,Ibidem, p. 220.
279
Sobre a crítica às ficções metafísicas da filosofia antiga,Ibidem, p. 252.
277
135
sentido,umdosdetalhesprimordiaisdesuacríticadizrespeitoaocontrasteentrearetóricaea
verdade, posto que Hume observou que muitos dos discursos filosóficos da Antiguidadeeram
dotados de grande eloquência e harmonia formal, mas careciam de fundamentos empíricos
sólidos280.Ora,paranossoempirista,arazoávelclarezadecertasideiaseabelezaquepoderiavir
a trajar certos argumentos frequentemente ocultavam o fato de que os sistemas filosóficos
antigos não derivavam impreterivelmente de observações verificáveis, mas de especulações
intelectuais infactíveis281. Portanto, conforme pensado por Hume, a força retórica de obras
clássicas não deveria ser confundida com evidências propriamente ditas – e bons argumentos,
por si só, não garantiriam a verdade que se procura referenciar com devido rigor empírico282.
Com o tempo, porém, os próprios sistemas dogmáticos da Antiguidade – como o
estoicismo,oplatonismoouoaristotelismo–passaramaserconfrontadospordúvidasinternase
inconsistências,oque,paraHume,levouàascensãodoceticismoentreosacadêmicosdomundo
antigo, como os pirrônicos283. Esses céticos rejeitaram a possibilidade de um conhecimento
seguro, demonstrando que quanto mais se buscava certeza, mais se reconhecia a ignorância.
Segundo nosso filósofo, a crise quanto aos grandes sistemas citados nãofoifrutodeummero
acaso,masumaconsequênciadiretadaestruturadetaissistemasdogmáticos,ouseja,aprópria
ambição de explicar o absoluto os conduziu inevitavelmente ao colapso filosófico284. Todavia,
Humetambémidentificouumaspectoirônicoimportantenoceticismoantigo,asaber,apesarde
defenderem que nada poderia ser conhecido com certeza, os céticos continuavam aviversuas
vidas normalmente, seguindo costumes, leis e práticas cotidianas285; aliás, a observação que
realçamosfoidecisivaparanossoautor,postoqueelamostrou-lheque,decertomodo,adúvida
filosófica não teria força suficiente para paralisar a ação, e que a natureza humana poderiam
continuaroperandomesmoquandoarazãoespeculativaviesseaentraremcolapso.Afilosofia,
portanto, segundo Hume, deveria se ajustar a essa natureza – acompanhá-la,enãocombatê-la
com pretensões irrealizáveis286.
280
obre a distinção entre simplicidade e identidade,Ibidem.
S
Aqui, sobre a imaginação e a ficção da substância,Ibidem, p. 253.
282
Jáaqui,sobreaficçãofilosóficadasubstânciaedamatériaoriginal,Humedemonstraque“pararesolveressas
contradições,aimaginaçãotendeafantasiaralgodesconhecidoeinvisível,quesupõecontinuaromesmoaolongo
dessas variações. Aessealgoininteligíveleladáonomedesubstância,oumatériaprimeiraeoriginal”(HUME,
2009, p. 253).
283
Sobre a noção de acidente como consequência inevitável,Ibidem, p. 255.
284
Neste ponto, sobre a irracionalidade da ficção filosófica,Ibidem.
285
Aqui, sobre a crítica às qualidades ocultas,Ibidem.
286
Sobreafilosofiaterodeverdeseajustarànaturezahumana,Humeexplicaque“énaturalqueoshomens,emseu
modo comum e descuidado de pensar, imaginem perceber uma conexão entre os objetos que constataram estar
constantementeunidos;ecomoocostumetornoudifícilsepararasideias,elestendemaimaginarqueessaseparação
é em si mesma impossível e absurda” (HUME, 2009, p. 255-256).
281
136
Nessesentido,talconstataçãorealizadaporHumeoconduziuàliçãofinalapresentadana
seção,qualseja,umarecomendaçãodehumildadefilosófica:emvezdetentardominarocosmos
com conceitosabstratos,overdadeirofilósofodeveriareconheceroslimitesdarazãohumanae
aceitar a primazia da experiência na formação das crenças287. Assim, para nosso filósofo
empirista, a sabedoria não estaria em construir sistemas universais e inverificáveis, mas em
observarcomodefatopensamos,sentimoseagimos,paraque,comisso,viéssemosaproduzira
mais adequada ciência da mente humana288. Ademais, após ter demonstrado que nem a razão
(Seção I) nem os sentidos (Seção II) poderiam oferecer fundamentos absolutos para o
conhecimento,emnossaSeçãoIII,Humevoltou-secontraossistemasfilosóficosquetentaram,
justamente, apoiar-senessesfundamentosfrágeis289.Afilosofiaantiga,pormaisengenhosaque
fosse,segundonossoautor,revelou-seincompatívelcomoslimitesdaexperiênciaempírica,pois
ignorava a verdadeira base das crenças humanas, quais sejam, o hábito, a imaginação e a
repetição290.
Assim, na Seção III da Parte IV, Hume criticou a filosofia antiga por sua excessiva
confiança na razão e na especulação abstrata, e, aindaquebrevemente,mostrou-noscomotais
sistemas fracassaram por ignorar a experiência concreta. Nisso, ele propõe, em contrapartida,
umafilosofiacéticaeconstrutiva,baseadanaobservaçãodosaspectosmaispertinentesdamente
e do comportamento humano; ele promoveu uma virada antropológica na filosofia, ou seja,
abandonar a investigação sobre realidades metafísicas inalcançáveis e passar a estudar como
realmente pensamos, cremos e vivemos. Em suma, Hume nos indicou uma filosofia que visa
reconhecer suas limitações e, justamente por isso, aproxima-se da verdade da condição humana.
De forma continuada, na Seção IV – Da Filosofia Moderna,Humeprocurouaprofundar
seuexameemrelaçãoaoprojetofilosóficotradicional,estendendoseuceticismoàsambiçõesda
filosofia moderna. Após desnudar, na seção anterior, as limitaçõesdossistemasmetafísicosda
Antiguidade, Hume voltou-se para os pensadores modernos – que,emboraapresentassemuma
roupagem metodológica mais refinada, reproduziamosmesmosequívocosfundamentais,quais
sejam, o afastamento da experiência e a supervalorização da razão em nível puramente
abstrato291.Seuobjetivofoiclaro,asaber:demonstrarque,longederepresentaremumprogresso
287
obre a invenção filosófica de faculdade e qualidade oculta,Ibidem, p. 256-257.
S
Nesteponto,sobreassimpatias,antipatiaseohorroraovácuodosperipatéticos,nossofilósofoponderaque“[...]
dentre todos os casos que nos mostram que os peripatéticos se deixam guiar por qualquer vã propensão da
imaginação, nenhum é mais digno de nota que suassimpatias,antipatiasehorroraovácuo.Anaturezahumana
possui uma notável inclinação a atribuir aos objetosexternosasmesmasemoçõesqueobservaemsiprópria;ea
enxergar em todo lugar aquelas ideias que lhe estão mais presentes” (HUME, 2009, p. 257).
289
Sobre a virada antropológica: abandonar a metafísica inalcançável,Ibidem,p. 251.
290
Sobre a filosofia antiga ter se revelado incompatível com os limites da experiência,Ibidem.
291
Aqui, sobre a distinção entre princípios permanentes e princípios variáveis,Ibidem, p. 258.
288
137
real, muitos dos sistemas modernos apenas atualizavam o fracasso da filosofia especulativa
antiga, mantendo viva a busca por fundamentos metafísicos inalcançáveis292.
Poisbem,àvistadosdetalhesmencionados,Humeiniciousuaanáliseobservandoqueos
modernos continuaram, ainda que de forma maissofisticada,abuscarfundamentosracionaise
abstratosparaoconhecimento.Apelaramàintrospecção,àlógicaformal,àrazãoemestadopuro
e,cominstrumentosespecíficos,tentaramsustentarnoçõescomosubstância,causalidade,almae
Deus293; contudo, segundo Hume, assimcomoocorreuentreosantigos,astentativasrealizadas
pelosfilósofosmodernosfalharamaoignoraroslimitesdaexperiênciasensíveleosverdadeiros
mecanismos psicológicos que podem ser apontados como aquilo que molda o nosso
pensamento294.
Ora, Hume criticou especialmente a ideia de que a razão, por si só, poderia descobrir
verdades últimas sobre o mundo. Para ele, tal expectativa não seria menos que ilusória e
perigosamentedesligadadarealidadeconcreta295.Nessesentido,suacríticasetornouaindamais
contundente quando examinou o racionalismo moderno (especialmente em autores como
Descartes), visto que, para Hume, os esforços dos filósofos racionalistas para fundamentar o
conhecimentoemideiasclarasedistintas(quesupostamenteestariamalémdequalquerdúvida)
se revelaram profundamente frágeis296, dado que a noção da razão em estado puro, quando
levada ao extremo, não entraria senão em contradição, bem como perderia contato com a
experiênciaeacabariaporduvidardesimesma297.Daí,segundonossofilósofoempirista,emvez
deescaparemdoceticismo,osracionalistasacabaramporreforçá-lo,postoquenãoconseguiram
sustentar suas convicções sem recorrer a construçõesespeculativasquenãopoderiamresistira
uma análise empírica mais pungente298.
À vista disso, Hume não encarou o ceticismo como uma posição paralisante, mas como
uma consequência honesta e inevitável de qualquer filosofia que busque aplicar seus próprios
critérioscomrigor.Nisso,adúvida,emumcontextocomoeste,nãoéumafalha,masumaforma
de lucidez para o devido refino filosófico299. Apesar disso, segundo nosso empirista, ao
292
este ponto, sobre a filosofia moderna ter pretendido estar livre dos defeitos da antiga,Ibidem.
N
Quanto a este ponto, sobre o princípio fundamental da filosofia moderna(qualidadessecundárias),Ibidem,p.
259.
294
Sobre a conclusão dos filósofos modernos (impressões sem arquétipo externo),Ibidem.
295
Sobre a redução às qualidades primárias (extensão e solidez),Ibidem, p. 260.
296
Aqui, sobre a crítica ao racionalismo moderno (mas propriamente a Descartes),Ibidem.
297
Neste ponto, sobre a impossibilidade da ideia de extensão,Ibidem, p. 261.
298
Sobre a impossibilidade da ideia de solidez,Ibidem.
299
Aqui, sobre o ceticismo como consequência honesta e inevitável, Hume diz que não podemosesquecer“[...]
nossométodocostumeirodeexaminarasideias,ouseja,considerarasimpressõesdequeelasderivam”.Paranosso
filósofoescocês,“afilosofiamodernaafirmaqueasimpressõesquepenetrampelavisão,audição,olfatooupaladar
nãoseassemelhamanenhumobjeto[necessariamente];e,consequentemente,aideiadesolidez,quesesupõereal,
293
138
aplicarmos o mesmo exame crítico à razão, aos sentidos e às doutrinas metafísicas, não
encontramos verdades seguras, mas sim uma posição de incerteza consciente300.ParaHume,o
ceticismomoderadoqueelenossugere,quereconheceoslimitesdarazãosemcairnanegação
totaldapossibilidadedoconhecimento,desdobra-sesobreatradicionaldistinçãoentreaparência
erealidade,muitocaraàmetafísicamoderna301;issosedáporque,paraescapardeumceticismo
acachapante,diversosfilósofosafirmaramque,emboranossossentidossejamenganosos,haveria
uma realidade última por trás das aparências, ou melhor, algo fixo, verdadeiro, acessível pela
razão. Porém, Hume rejeita tal hipótese como uma ficção filosófica, posto que, se tudo oque
temos são impressões eideias,nãohácomojustificarracionalmenteaexistênciadeummundo
realoculto por trás das aparências.
Nessemesmocaminho,nossofilósofoasseveraquepostulartalmundoinvisívelseriatrair
o próprio método empírico que ele buscou cuidadosamente evidenciar, que exige que todo
conhecimento derive da experiência; em contraposição a esses esforços metafísicos feitos por
algunsfilósofosàépoca,Humepropôsumanovaorientaçãoparaafilosofia,emquesedeveria
usar o método empírico como método base de uma ciência experimental da mentehumana302.
Nisso,talciênciaexperimentalpropostapornossofilósofoescocêsnãodiriarespeitoarenunciar
à filosofia, mas redefinir sua missão, ou seja, em vez de tentar descobrir verdades eternas e
inacessíveis, o filósofo deveria se dedicar a estudar como, de fato, os seres humanos creem,
raciocinam, sentem e agem, posto que a nova filosofia apresentada por Hume necessitaria se
basear na observação da experiência, na análise dos hábitos mentais e no estudo empírico do
funcionamento da mente, para que, com isso, houvesse o estabelecimento de uma psicologia
filosófica que pudesse substituir a metafísica tradicional praticada à época de nosso filósofo303.
Assim, quanto à seção tratada, Hume teceu suas críticasàfilosofiaantigaapontandoseu
dogmatismo demasiadamente especulativo e procurou demonstrar que a filosofia moderna
cometeu erros semelhantes, ainda que revestidos de linguagem pseudocientífica ou
exageradamente racionalista304. Disso, nosso filósofo buscou deixar claro que o caminho de
superação para o dogmatismo especulativo não estaria em novas formas de expressão da
metafísica,masnaaceitaçãodoslimitesdoconhecimentohumanoenaconstruçãodeumsaber
jamaispoderiaserderivadadenenhumdessessentidos”.Ora,comtalvisão,eleafirmaque“restaotato[...]comoo
únicosentidocapazdetransmitiraimpressãoquedáorigemàideiadesolidez;e,defato,imaginamosnaturalmente
que sentimos a solidez dos corpos, e precisamos apenastocarumobjetoparaperceberessaqualidade.”(HUME,
2009, p. 262).
300
Sobre a sensação do tato não ser semelhante à solidez,Ibidem, p. 263.
301
Neste ponto, sobre as impressões do tato serem impressões simples,Ibidem.
302
Sobre a proposta de uma ciência experimental da mente humana,Ibidem,p. 263, 261.
303
Sobre uma psicologia filosófica que substitua a metafísica tradicional,Ibidem,p. 258.
304
Neste ponto, sobre a advertência aos filósofos modernos,Ibidem.
139
rigoroso, ancorado na experiência observável. Em suma, Hume advertiu com veemência os
filósofos modernos por buscarem perpetuar o projeto fracassado da metafísica antiga,
mostrando-lhes que a razão em estado puraabsolutizadasomenteconduziriaaoceticismoouà
incoerência, e por isso propôs uma nova aspiração filosófica, isto é, a constituição de uma
ciênciaempíricadanaturezahumana,que,comonovomodelo,seriaumareorientaçãoquefaria
comqueafilosofianãomaisbuscasseverdadesmetafísicasuniversaisepassasseainvestigaro
querealmentepodemosconhecer,ouseja,ofuncionamentoconcretodamentehumana.Nomais,
Hume ainda nos destacou que o verdadeiro avanço filosófico estaria não em transcender a
experiência, mas em compreendê-la por dentro, com humildade e rigor305.
Agora,partindoparaaSeçãoV–DaImaterialidadedaAlma,valendo-sedesuarefinada
veia cética, Hume se direcionou ao cerne da metafísica espiritual ao examinar criticamente a
tradicional crença na imortalidade e espiritualidade da alma. Ora, considerada um dos pilares
tanto da teologia quanto da filosofia clássica, a doutrina da alma foi submetida ao método
empíricoeanalíticoqueHumedesenvolveuaolongodesuaobra306.Apropostadenossoautor,
aqui, não foi elaborada apenas no sentido de refutar dogmas, mas demonstrar queacrençana
alma imaterial não possuía fundamento na experiência nem poderia ser justificada
racionalmente. Ou seja, segundo opensamentodenossofilósofo,tratou-sedeumaintervenção
filosófica que desafiava a própria legitimidade de se afirmar algo sobre a alma alémdoqueé
empiricamente observável.
Nessesentido,opontodepartidadacríticadeHumeforaanoçãodesubstânciaimaterial:
conceito dos mais importantesnoqueconcerneadoutrinadaalmacomoentidadeindivisívele
eterna.Poisbem,Humeapontouquetalideianãoderivariadequalquerimpressãosensível,visto
que, conforme seu princípio fundamental, só poderíamos formar ideias válidas a partir de
percepçõesreais307.Daí,comonãohaveriaqualquerpercepçãodiretadesubstâncias,masapenas
de pensamentos, sensaçõeseideias,aalma,talcomoconcebidapelastradiçõesmetafísicas,foi
considerada por nosso autor como uma construção imaginativa, criada para explicar a
continuidade ilusória da identidade pessoal ao longo do tempo308.
Por conseguinte, segundo Hume, entre os argumentos mais recorrentes em favor da
imortalidadedaalmaestáodaindivisibilidade,queexprimeoseguinte:aquiloquenãosedivide
305
Sobre o verdadeiro avanço filosófico (compreender a experiência por dentro), nosso autor coloca que “a
v erdadeira filosofia se aproxima mais dos sentimentos do vulgo que daqueles de umconhecimentoequivocado”
(HUME, 2009, p. 255).
306
Acerca da crítica à doutrina da imaterialidade da alma,Ibidem, p. 273.
307
Sobre a ausência de impressão sensível em relação a suposta substância imaterial,Ibidem, p. 273-274.
308
Aqui, sobre a alma como construção imaginativa,Ibidem, p. 274.
140
não pode se decompor, e, portanto, não pode morrer. Todavia, Hume buscou desconstruir tal
linhaderaciocínio,observandoqueaindivisibilidade,porsisó,nãoimplicaindestrutibilidade309.
Ou seja, para ele, não conhecemos a alma como uma entidade que pode ser dividida ou não,
apenas conhecemos estados mentais passageiros. Nisso, Hume notou ainda que mesmo coisas
compostas, como o corpo humano, podem durar muito tempo, o que esvazia o valor
argumentativodaanalogia.Comisso,eleprocuroumostrarqueasbasesdaimortalidadedaalma
são especulativas e analogicamente frágeis, não sustentadas por evidência empírica. Hume
tambémapontouumdescabidoequívococonceitualcometidopormuitosfilósofoseteólogosao
longo da história das ideias, qual seja,aplicarcategoriasfísicasaodomíniomental.Masoque
isso quer dizer especificamente? Termos como simples, composto,divisíveleindivisívelfazem
sentido quando nos referimos à matéria em seu estado autêntico, mas, segundo nosso autor
escocês, não se aplicam à mente, cujos conteúdos são percepções dinâmicas, descontínuas e
fluídas310;daíoespírito,paraHume,nãopoderiaserconsideradoumaentidadequeocupaespaço
ou que possui extensão, mas um conjunto de fenômenosmentaisquesurgemedesaparecem–
não uma substância unificadora (do que, livre, flui)311.
Continuandoaperspectivaapresentadaacima,Humeprocuroureavaliarapróprianoçãode
identidadepessoal,oumelhor,aquiloque,segundoele,chamamosdeeu.Paraseupensamento,o
queconsideramoscomoeuseriaapenasumasucessãodepercepçõesrelacionadaspelamemória
epelaimaginação312.Acrençaemumaalmaimaterialepermanentenadamaisé,aomenospara
Hume, do que uma extensão da ficção psicológica expressa como umesforçodeunificaruma
multiplicidade fragmentária de experiências sob o conceito de uma substância única313. No
entanto, do ponto de vista de seu empirismo, não temos acesso a essa unidade substancial,
apenasàsequênciavariáveldeimpressõesqueconstituemnossaconsciência314.Nisso,apesarde
sua crítica filosófica, Hume chegou a reconhecer que a crença naalmaimortaldesempenharia
funções importantes àquele que nela crer, vistoquetalcrençapoderiaviraconfortardianteda
morte, oferecer suporte à moral religiosa e sustentar estruturas teológicas pertinentes315. No
entanto, ele também insistiu que a utilidade deumacrençanãoseriaocritériodesuaverdade,
pois a filosofia, para ser honesta, deveria suspender o juízo onde viesse a faltar evidências,
309
este ponto, acerca da crítica ao argumento da indivisibilidade,Ibidem, p. 276.
N
Sobre o equívoco de aplicar categorias físicas ao domínio mental,Ibidem.
311
Neste ponto, sobre a crítica à noção de ação e modo abstrato,Ibidem, p. 276-277.
312
Sobre a impossibilidade de a matéria causar o pensamento,Ibidem, p. 279.
313
Sobre a experiência constante entre pensamento e movimento,Ibidem, p. 280.
314
Aqui,sobreaúnicaalternativaparaopensamentohumeano(materialismoouocasionalismodivino),Ibidem,p.
280-281.
315
Sobre a crítica ao ocasionalismo (Deus como causa de tudo),Ibidem, p. 281.
310
141
mesmo que isso implicasse abrir mãodeideiasreconfortantes:ora,averdade,paraHume,não
poderia ser sacrificada em nome da esperança316.
Diante disso, a posição finaldeHumenaSeçãoVfoideumceticismoprudente,emque
ele não procurou afirmar dogmaticamente que a alma não seria algo imortal ou que ela não
existiria necessariamente; em vez disso, ele defendeu que nada sabemos com segurança sobre
sua natureza, composição ou destino317, ou seja, tudo o que a filosofia pode fazer, segundo o
pensamentodoempirista,édescreverosfenômenosmentaisobserváveiseabster-sedeespecular
sobre entidades invisíveis e indemonstráveis318. TalatitudecéticadeHumenãobuscounegara
importânciadecrençasreligiosasoumoraisnavidacotidiana,massimdelimitarseualcanceno
campo doconhecimentofilosófico319.Oexamedenossofilósofoàimortalidadedaalmaesteve
conectado com os temas preponderantes do Tratado, como a causalidade, a identidade e os
sentidos;nisso,Humeaplicouomesmorigorempíricoaumacrençaprofundamentearraigadana
culturaocidental,e,atravésdeseumétodo,elereafirmouqueafilosofiadeveserestringiraoque
estáaoalcancedaexperiência,equetudooqueexcedeseulimitepertenceriaàimaginação,não
ao conhecimento. Além disso, a seção antecipou críticas ainda mais profundas à metafísica
espiritualeàreligiãorevelada,queforamdesenvolvidasemmomentosposterioresdesuaobrae
em períodos históricos futuros.
Em suma, Hume rejeitou a doutrina da imaterialidade e imortalidade da alma como
desprovidadebaseempíricaelógica.Enosmostrouqueosprincipaisargumentosquesustentam
tal crença (como a indivisibilidade e a continuidade da identidade) sãodecunhoespeculativo,
frágeiseanalogicamentefalhos;nossofilósofopropôs,emlugardisso,umaposturadeceticismo
filosóficoprudente,queserecusaaafirmaraquiloquenãopodeserpercebidooujustificadopela
experiência.Comisso,Humebuscoupromoverumarupturaradicalcomametafísicaespirituale
proporumapsicologiaempírica,ouseja,umafilosofiavoltadaaoestudodosfenômenosmentais
reais, reconhecendo a natureza mutável, fragmentária e fenomênica da mente humana.
Aseguir,comentaremoseanalisaremosaSeçãoVI–DaIdentidadePessoal;nela,Hume
nos propôs uma das teses mais radicais e influentes da filosofia de seu tempo, qual seja, a
negaçãodoeucomoumasubstânciaunitáriaepermanente.Ora,aoinvésdeaceitaraconcepção
tradicional da alma ou do si mesmo como um núcleo estável da identidade pessoal, Hume
316
obre a vantagem do materialismo sobre o ocasionalismo,Ibidem, p. 282.
S
Aqui, sobre a conclusão final (que diz respeito à questão da alma ser ininteligível),Ibidem.
318
Neste ponto, acerca da filosofia ter o dever de se justificar quando a religião é ofendida,Ibidem.
319
Sobre a filosofia não acrescentar nada aos argumentos favoráveis à religião,Ibidem, p. 283.
317
142
introduz uma nova perspectiva sobre a questão, que se baseou em seu rigoroso empirismo320.
Poisbem,elebuscousustentarqueaquiloquechamamosdeeunãoéumaentidadesubstancial,
mas um feixe de percepções, isto é, uma sucessão descontínuadeexperiênciasmentaisquese
associamporhábito,memóriaeimaginação321.Talconcepçãorepresentou umdivisordeáguas
na metafísica e na psicologia de então, visto que foi elaborada no sentido de redefinir o
entendimentodamenteedaidentidadepessoal322.Sobessaperspectiva,arupturadeHumecom
anoçãoclássicasobreaalmacomosubstratopermanentesebaseouemumprincípiocentralde
seu empirismo, a saber, só podemos conhecer aquilo que é dado por meio de impressões
sensíveis,pois,quandonosvoltamosparadentrodenósmesmos,jamaisencontramosumeufixo
oucontínuo323.
Comisso,segundoopensamentodeHume,quandofalamosdeumeu,podemosdizerque
ele não passa senãodeimpressõesmomentâneas,istoé,umador,umaalegria,umalembrança,
um desejo. Contudo, conforme nosso filósofo empirista, nunca temos acesso direto a uma
entidade subjacente que contenha essas percepções em si324. Para ele, não há justificativa
empíricaparaafirmaraexistênciadeumeusubstancial;aoinvésdisso,Humenospropõequeo
eu é apenas um feixe (ou coleção) de percepções, ligadasentresiporrelaçõesdesemelhança,
contiguidadeecausalidade:istoquerdizerquenãoháumsubstratoportrásdetaispercepções;o
que existe é apenas a sucessão dinâmicadeestadosmentais325.Avisãodenossoautorrompeu
com as tradições filosóficas que concebiam a identidade pessoal como algo eterno, fixo ou
essencial.Nisso,aobuscarmelhorelucidarsuasideias,Humecomparouamenteaumteatro,em
que percepções apareceriam e desapareceriam o tempo todo, mas, ao contrário do teatro real,
paraoteatropensadoporele,nãohaveriaumpalcofixoondeoseventosviessemadesenrolar-se
segundoinfinitosmodos326,oumelhor,paranossoempirista,amentenãoserianemmesmouma
substânciaespaço-matériaeterminantementefixadaemalgo,masumfluxoexistencialdepuras
experiências em constante profusão e minguar327.
320
Sobre a negação do eu como substância unitária, Hume afirmaque“háfilósofosqueimaginamestarmos,em
todos os momentos, intimamente conscientes daquilo que denominamosnossoEU[ourSELF];quesentimossua
existência eacontinuidadedesuaexistência;equeestamoscertosdesuaperfeitaidentidadeesimplicidade,com
uma evidência que ultrapassa a de uma demonstração” (HUME, 2009, p. 283).
321
Sobre a ausência de impressão doeu,Ibidem, p. 284.
322
Aqui, sobre nunca apreendermos a nós mesmos sem uma percepção,Ibidem.
323
Neste ponto, sobre sempre nos depararmos com percepções particulares,Ibidem.
324
Sobre oeucomo feixe de percepções ou sua desconstrução como substânciaunitária,Ibidem, p. 285.
325
Sobre a mente como teatro sem palco fixo,Ibidem.
326
Sobre a mente ser constituída apenas pelas percepções sucessivas, Hume expõe que “a mente é constituída
unicamentepelaspercepçõessucessivas;enãotemosamenornoçãodolugaremqueessascenassãorepresentadas
ou do material de que esse lugar é composto” (HUME, 2009, p. 285).
327
Aqui, sobre a identidade pessoal como distinção entre o pensamento e as paixões,Ibidem.
143
Apesardisso,Humereconheceuquetemosumafortecrençanacontinuidadedoeu,detal
forma que, para ele, a convicção de continuidade surgiria como resultado do mau uso da
memória e da imaginação, que não operariam senão de forma associativa328. Ora, para nosso
filósofo,amemórianospermitiriaconectardiferentespercepçõespassadase,aofazê-lo,também
poderíamos criar a ilusão de um sujeito constante que viveu todos os momentos dos quais
consegueserecordar329.Todavia,paranossoautor,talcontinuidadeseriaapenasumaconstrução
mental, não uma verdade em sentido metafísico330.
Para Hume, a identidade pessoal, tal como a concebemos, poderia (ou mesmo pode)
facilmente ser tida como uma ficçãoútil,nãoumarealidadeontológica331.Nisso,suacríticase
estendeu aos filósofos que tentaram sustentar a existência de um eu substancial por meio de
analogiascomsubstânciasmateriaisouargumentoslógicossobreidentidadenumérica,vistoque,
paraHume,taisjustificativasnãosebaseavamnaexperiência,masemespeculaçõesmetafísicas
queescapariamàverificaçãoempírica332,ouseja,aoinvésdenosajudaracompreenderamente,
as doutrinas criticadas por Hume buscavam nos afastar daquilo que pudéssemos efetivamente
observar e descrever333.Apartirdisso,nossofilósoforeconheceuquesuateoriaerapassívelde
levantar dificuldades filosóficas importantes, sobretudo quanto à coesão da experiência e da
moral,postoque:Comopoderíamospensaremresponsabilidade,emcontinuidadebiográficaou
em agência moral sem um eu estável?Poisbem,Humeadmitiuque,emsuavidacotidiana,às
vezesseviuinclinadoaaceitaratesetradicionaldaidentidadepessoal,porforçadohábitoouda
pressão do senso comum; contudo, sempre acabou retornando ao ceticismo filosófico, já que
compreendeu que, mesmo que não tenhamos justificativa racional para acreditar em um eu
328
Nesteponto,sobreaidentidadeeadiversidade,Humeexpõeque:“Possuímosumaideiadistintadeumobjeto
q ue permanece invariável eininterruptoaolongodeumasupostavariaçãodetempo;eaessaideiadenominamos
identidade ou mesmidade. Possuímos também uma ideia distinta de diversos objetos diferentes existindo em
sucessãoeconectadosentresiporumarelaçãoestreita;eessaideiaproporciona,paraumolharpreciso,umanoção
tão perfeita dediversidadecomo se não houvesse nenhuma relação entre osobjetos.” (HUME, 2009, p. 286).
329
Sobreaconfusãoentreidentidadeesucessãodeobjetosrelacionados,Humenosafirmaque:“Mas,emboraessas
ideias de identidade e de uma sucessão de objetos relacionados sejam em si mesmas totalmente distintas, e até
contrárias,écertoque,emnossomodocomumdepensar,geralmenteasconfundimos.Aaçãodaimaginaçãopela
qual consideramos o objeto ininterrupto e invariável e a ação pela qual refletimos sobre a sucessão de objetos
relacionadossãosentidasdemaneiraquaseigual[arealmostthesametothefeeling],nãosendoprecisoumesforço
de pensamento muito maior neste último caso que no primeiro.” (HUME, 2009, p. 286).
330
Sobre a ficção da existência contínua e o conflito com o senso comum e as exigências morais, Ibidem, p.
286-287.
331
Sobre a ficção de algo desconhecido e misterioso,Ibidem, p. 287.
332
Sobre a identidade atribuída a plantas e animais, Hume põe que: “A primeira é nosso tema presente;e,para
compreendê-la perfeitamente, teremos de nos aprofundar bastante,eexplicaraquelaidentidadequeatribuímosàs
plantaseanimais–poisháumagrandeanalogiaentreestaeaidentidadedeumeuoupessoa.”(HUME,2009,p.
286).
333
Sobre a identidade como sucessão de partes conectadas,Ibidem.
144
substancial, continuamos a agir como se tal entidade existisse, movidos por necessidades
práticas e psicologicamente convenientes.
Diantedoexposto,aindaquantoalgunsdetalhesemrelaçãoàconcepçãodenossofilósofo
sobreaidentidadepessoal,podemosdizerque,naSeçãoV,elejáhaviarejeitadoaideiadeuma
alma imaterial; agora, na Seção VI, ele deu um passo adiante ao negar qualquer substrato
permanente da mente, mesmo se pensado como algo não imaterial. Bom,apropostadeHume
tinha sido colocada de modo claro: a filosofia deve abandonar as entidades metafísicas e se
limitaràobservaçãodaexperiênciainterna,compreendendoosfenômenosmentaiscomodados
fenomênicos, transitórios e relacionais.
Emsuma,aSeçãoVIdaParteIVfoiempenhofeitoporHumeparadesconstruiraideiade
um eucomosubstânciaunitáriaecontínua,substituindo-aporumateoriasegundoaqualoself
(o si mesmo) é, na verdade, um conjunto de percepções ligadas por hábitos associativos, e
desprovido de unidade ontológica. Nisso,nossofilósofoescocêsreconhecequesuavisãoentra
emconflitocomosensocomumecomcertasexigênciasmoraisepsicológicas,masdefendeque
a filosofia deveria respeitar os limites da razão e da experiência, ainda que isso viesse a
contrariar nossas crenças mais intuitivas. Por isso, de posse de tal proposta, Hume inaugurou
uma abordagem moderna e psicológica da identidade pessoal, que influenciou profundamente
trabalhos filosóficos posteriores – da crítica kantiana à subjetividade oriunda de sistemas
contemporâneos,passandopelafenomenologiaeindoatéteoriasmaisrecentesacercadoself334.
Por último, podemos dizer ainda que Hume promoveu uma virada teórica que redefiniu não
apenasoquesepôdepensarsobreamenteemtermosmodernos,mastambémcomopensamosa
nós mesmos hoje.
Prosseguindo, em última análise, Seção VII–ConclusãodesteLivro,podemosdizerque
Humebuscouatingiropontomaisdramáticoepessoaldesuaobra,ouseja,elerefletiusobreos
efeitos existenciais deseupróprioceticismo.Nossofilósofofezdestaúltimaseçãodoprimeiro
livro do Tratado uma seção singular na história da filosofia, posto que, nela, nosso autor
abandona momentaneamente a análise conceitualealógicaquevinhatecendocuidadosamente
paraapontaroimpactosubjetivoepsicológicodesuasconclusõesfilosóficas335.Maisdoqueum
argumento apenas teórico, o que Hume nos ofereceu foi um testemunho honesto e profundo
sobre o abismo noqualarazão,levadaàssuasúltimasconsequências,poderiaconduzirnossas
mais íntimas concepções, esobrecomoapróprianaturezahumanaseriacapazderesgatarsuas
334
335
obre a influência profunda na filosofia posterior ao período em que Hume compôs a sua,Ibidem.
S
Aqui, sobre o momento dramático e existencial da filosofia,Ibidem, p. 296.
145
própriasfaculdadesdocolapsoedaescuridãodosequívocostomadoscomoverdadesecertezas
indubitáveis.
Ora, neste texto de conclusão, Hume relatou acuradamente as consequências de seu
empreendimento filosófico ao submeter todas as faculdades humanas – razão, sentidos,
identidade, causalidade e outras – a um exame céticorigoroso;aofazê-lo,eleseviudianteda
instabilidadedetudoaquiloquecostumamostomarcomocerto,querdizer,arazão,porexemplo,
quedeveriaseraguiaseguradainvestigaçãodenossoentendimento,revelou-seautocorrosiva336.
Comisso,nossoautorempiristanoslevouaseguintepergunta:Comoelafaztalcoisa?Ora,para
Hume, ela questiona a si mesma, destrói suas próprias bases, e não oferece nenhuma certeza
sólida. O resultado disso, segundo seu pensamento, é uma espécie de vertigem, ou seja, um
colapso da razão sobre si mesma, que pode gerar uma espécie de paralisia intelectual e
desesperança.Diantetalvazio,Humechegaaseperguntarseaúnicasaídanãoseriaabandonar
por completo o exercício filosófico.
Contudo,asugestãofeitapornossoautornãoéapenasdecunhofilosófico,postoque,para
ele,éprofundamentehumana.Nisso,Humenosdescreveoestadodealmadeumcéticohonesto,
quesevêconfrontadocomainsuficiênciadetodasassuascrençaseteorias,ouseja:umfilósofo
passando por tal confronto acabaria por não encontrar consolo nem nos sistemas metafísicos
tradicionais sobre os quais estava inclinado nem nas crenças do senso comum, pois todos
pareceriam carecer de fundamento racional adequado337; o ceticismo,emtalmomentodealma
vacilante, deixaria de ser uma posição teórica confortável e se tornaria uma experiência
emocionalmarcadaporisolamento,dúvidaeangústia.Ora,trata-semaisespecificamentedeum
momento de inflexãoemque,segundooreconhecimentodeHume,afilosofiaencontrariaseus
próprios limites, e o filósofo se descobriria diante de um buraco vazio que ele mesmo escavou.
Noentanto,apesardessavisãonegativaexpostapornossoautor,arespostaqueelebuscou
para tal problema não veio da filosofia, mas sim da natureza. De forma quase impulsiva, ele
relatou que, mesmo imerso na dúvida, a vida cotidiana do cético tomado como exemplo
continuava (como a vida de qualquer uma), ou melhor, ele ainda teria como conversar com
amigos, jogar gamão, caminhar, rir,mesmoimersoemangústia338;aospoucos,esemperceber,
demodoumtantoinvoluntário,eleteriacomoretomarascrençasquesuarazãohaviarejeitado,
e essa retomada não se daria apenas por meio de argumentos, mas pela força do hábito, das
paixõesedasensibilidade.DaíHumeconcluiuqueanaturezahumanaseriamaisfortedoquea
336
obre o isolamento e a melancolia do cético,Ibidem.
S
Sobre o confronto com a insuficiência das crenças,Ibidem, p. 297.
338
Sobre a experiência e o hábito como fundamentos da crença,Ibidem.
337
146
razão especulativa, posto que, mesmo que a filosofia venha a desfazer todas as certezas,
continuamosaviver,aagir,acrer.Nessesentido,Humecompreendequeavidanuncasecurva
diante do ceticismo extremo; ela o atravessa339.
ÉapartirdesseatravessamentopropiciadopelaexperiênciaqueHumefazmaisumacrítica
contundenteàvaidadedafilosofiaespeculativa(aquelaquepretendefundaroconhecimentoem
certezasabsolutasequedesprezaaexperiênciaordinária).Eleretomanovamentesuadefesade
umafilosofiamodesta,experimentaleprofundamenteenraizadanaobservaçãodamentehumana
contraaposturavaidosadaespeculaçãodesenfreada340.Nessesentido,paraHume,averdadeira
filosofia não deveria buscar verdades eternas e universais, mas sim investigar honestamente
como pensamos, sentimos e agimos em meio à fragilidade denossascrenças.Comisso,ainda
nos cabe dizer que nosso autor não renunciou totalmente à filosofia, dadoqueacrisequenos
apontou nunca teve força suficiente para fazê-loabandonaroprojetofilosóficoqueiniciouem
seu Tratado, mas o reconduziu a ele com uma nova perspectiva341, a saber: propor uma
renovação profunda do projeto filosófico, baseado no reconhecimento dos limites do
conhecimento humano e na aceitação da condição natural do pensamento.
Emcorrespondênciaaisso,afilosofia,paraHume,nãodeveriaserumaconstruçãoabstrata
e dogmática, mas uma investigação crítica e empírica sobreanaturezahumana,ouatémesmo
umareflexãocomfunduraimensacompatívelàvida,atentaaosafetos,àspráticaseàsestruturas
mentais reais342. Nisso, em sua última seçãodoLivroI,Humeprocuroudialogarcomtodosos
temasqueexpôsaolongolivroemquestão,asaber,acríticaàrazão,aossentidos,àcausalidade,
àidentidade,àimortalidadedaalmaeàmetafísicacomoumtodo.Todavia,aseçãomarcouum
ponto de virada importante, posto que nosso autor evidenciou que, por vezes, o impacto da
filosofia ultrapassa o campo apenas teorético e alcança o próprio modo de viver343. Ora, isso
aconteceucomaobradeHume,dadoque,emperíodosposterioresapublicaçãodeseuTratado,
aobradeHumeultrapassouomerocampodaargumentaçãoesetransformouemautorreflexãoe
experiência existencial; antecipando, inclusive, temas quemaistardeseriamdesenvolvidospor
correntes como o existencialismo e a fenomenologia344.
Nomais,concluindoestemomentolongodenossoempreendimentoemrelaçãoatodasas
seçõesdasquatropartesdoprimeirolivrodoTratadodaNaturezaHumana,podemosdizerque,
339
obre a qualidade da vivacidade das ideias,Ibidem, p. 298.
S
Neste ponto, sobre a contradição entre raciocínio causal e crença a respeito da matéria,Ibidem.
341
Sobre o ceticismo radical que conduz a opiniões ridículas,Ibidem, p. 299.
342
Neste ponto, sobre a conexão causal está apenas na mente,Ibidem.
343
Aqui, sobre a natureza curar a melancolia filosófica,Ibidem, p. 301.
344
Acerca da determinação de viver e agir como as outras pessoas,Ibidem, p. 301-302.
340
147
neste último momento de análise, Hume reconheceu que seu projeto filosófico conduz a um
ceticismoradical,capazdedesafiartodasascertezashumanas;comisso,eleatéconfessaoabalo
subjetivo que sua posição produz, mas também relata como a força da natureza humana nos
reconduzàvidacotidianaeàscrençaspráticas345.Assim,nossofilósofoprocuroureafirmaruma
visão de filosofia humilde e experimental, que respeita os limites da razão e se ancora na
experiência comum. Em última instância, Hume não buscou destruir a filosofia, muito pelo
contrário, ele a buscou reconstruirapartirdohumano,mostrandoquemesmoomaisprofundo
ceticismo não é capaz de anular a potência davida,dosafetosedacontinuidadedaexistência
prática346.
3.4. A construção do mundo vivido: a percepção e a imaginação como base do situado
subjetivante
A jornada cética da Parte IV do Tratado nos conduziu a uma conclusão vertiginosa, a
saber: a continuidade da experiência, tanto dos objetos externos quanto da identidadepessoal,
nãoéumdadodapercepção,masumaconstruçãoengenhosadaimaginação.Aonosexporquea
crençanapermanênciadomundoenaestabilidadedoeusefundanohábitoenocostume,Hume
trabalhounadissoluçãodosalicercesdametafísicatradicional,deixando-noscomumceticismo
mitigado. Nisso, para ele, vimos que a estabilidade do nosso mundo não repousa sobre uma
verdade racional ou mesmo meramente sensorial, mas sobre uma ficção funcional, um
mecanismo psicológico que, embora filosoficamente injustificável, é indispensável para a vida.
Daí essa descoberta de que a continuidade é uma construção não éumbasta,massimo
pontodepartidaparaumainvestigaçãoaindamaisprofundasobreanaturezadasubjetividadee
darealidade;ora,apoiadonisso,podemospensarqueseo“mundoestável”emquehabitamosé
umprodutodaimaginação,entãoatarefafilosóficasedeslocadabuscaporfundamentosparaa
análise desse próprio processo construtivo. Nisso, mais em Deleuze do que Hume, a questão
deixadeserOquepodemosconhecer?parasetornarComoconstruímosomundoquevivemos?
Por isso, a ficção útil de Hume não abriu senão o caminho para pensarmos a imaginaçãonão
apenascomoumeloquepreenchelacunas,mascomoocampodeforçasativoemqueaprópria
realidade toma forma.
Nessesentido,éatransiçãodacontinuidadeconstruídaparaaconstruçãodomundovivido
que esta seção tratará. Nela, aprofundaremos nossas ponderações acerca da percepção e da
imaginação, mostrando-as como a base do situado subjetivante. Partindo do fluxo caótico de
345
346
obre a filosofia precisar obter vitória pela disposição séria,Ibidem, p. 302.
S
Aqui, sobre a filosofia precisar preservar o ceticismo,Ibidem.
148
percepções, veremos como a imaginação, afetada pelos princípios da natureza humana e em
constante relação com o Fora, organiza ativamente o material bruto da experiência,
transformando-oemummundocoerenteehabitávelemnós(pornós).Asubjetividade,portanto,
ao menos ao nosso ver, emergiria não como uma entidadeisolada,mascomooefeitodeestar
situada nesse mundo que ela mesma ajuda a construir – isto sendo um processo dinâmico de
atualização de virtualidades que confere sentido e consistência ao fluxo incessante do fluir
imanente.
Nisso, ao nos encaminharmos para nossa seção propriamente dita, podemos dizer que a
constituição da subjetividade,emDeleuze,nãosedáemumvácuointerior,masemergedeum
dinamismo processual imanente, em que a percepção e a imaginação desempenham papéis
indispensáveis na construção de um mundo vivido e na situacionalidade do eu. Para nosso
filósofo,longedeseremmerasfaculdadesdeumapré-existentedasubjetividade,apercepçãoea
imaginação são os próprios campos de forças onde o mundo se organiza e a subjetividade se
estabelece como um efeito consistente, mas sempre emdevir.
Em Empirismo e Subjetividade, Deleuze, ao interpretar Hume, propõe-nos que o nó de
partida da experiência não é um sujeito fixamente constatável, mas um fluxo caótico de
percepções; isto quer dizer que, como já pontuado, o espírito, em seu estado bruto, não seria
senão uma coleção de ideias,quepodemoscompreendercomoalgoquenãoénemmesmoum
sistema. Nesse sentido, para o pensamento deleuziano, a coleção – essa imaginação em seu
sentidomaisprimevo–éodadoimediato,omaterialbrutoapartirdoqualomundoserásempre
construído. A percepção, daí, ao menos para nosso autor, não é um ato de apreensão de um
mundojádado,masoprópriofluxodeimpressõeseideiasquesesucedemsemordemaparente;
ouseja,omundo,emsuaorigem,éoqueDeleuzenosexpõecomosendoumamultiplicidadede
átomos sensíveis, sem conexões necessárias entre si. Por isso, para ele, podemos dizer que os
“‘objetos exteriores são vistosetocados,tornam-sepresentesaoespírito;istoé,nosítiodeum
[lugar] amontoadodepercepçõesconjuntas’”(HUME,2009,p.280,apudDELEUZE,2012,p.
79); lá, eles desenvolvem, adquirem, vínculos.
Ora, com a noção presente à passagem anterior, nosso autor sublinha a exterioridade do
dado,ouseja,aspercepçõesvêmdefora,eoespírito,inicialmente,éapenasoprópriocampoem
queessasimpressõessemanifestam.Contudo,aconstruçãodomundovividonãoselimitaaessa
recepçãopassiva,postoqueéaimaginaçãoque,sobaaçãodosprincípiosdanaturezahumana,
transforma essa coleção caótica em um sistema coerente, dando origem aosituado subjetivante.
149
Daí, ao nos voltarmos novamente para nossa indispensável obra de apoio, Empirismo e
Subjetividade, Deleuzedemonstraqueaimaginação,emborainicialmentefantasistaedelirante,
devém uma faculdade quando os princípios de associação (semelhança, contiguidade e
causalidade) impõemumaleidereproduçãoàsrepresentações;nessemomento,talorganização
não tornar-se-ia uma mera operação de um sujeito pré-existente, mas o próprio processo pelo
qual o espírito podeviraserafetadoeseconstituircomopossívelsujeito.Apercepção,então,
não é apenas o registro de dados – ao menos não para Deleuze –, mas o material que a
imaginaçãoorganizaparaformaromundo.Portanto,emsuafilosofia,elenosdeixapatenteque
o hábito, por exemplo, é uma síntese passivaque,aocontrairarepetiçãodeimpressões,criaa
expectativaeacrença,permitindoqueosujeitoseorientenomundoeopercebacomoestávele
previsível.
Assim, Deleuze nosdizque“aimaginaçãodevémumafaculdadequando,soboefeitode
princípios, se constitui uma lei de reprodução de representações, uma síntese da reprodução”
(DELEUZE, 2012, p. 133, grifo nosso).Talleidereproduçãoéoquepermiteaconstruçãode
um mundo vivido, em que os objetos e eventos não são apenas sucessões aleatórias, mas
entidades conectadas por relações de causa e efeito, de semelhança e contiguidade. A
subjetividade, nesse sentido, é intrinsecamente situada, pois sua constituição está ligada à
maneira comoaimaginaçãoorganizaaspercepçõeseestabeleceasconexõesmencionadas.Por
isso, para Deleuze, o mundonãoéumdadoexternoqueosujeitosimplesmenteapreende,mas
uma construção ativa da imaginação, que confere sentido e coerência ao incessante fluxo de
impressões em nós.
Alémdisso,naobraDiferençaeRepetição,Deleuzeaprofundaacompreensãomencionada
acima (da construção do mundo vivido), ao introduzirsuasponderaçõesacercadovirtualedo
atual.Ora,paraele,omundovividonãoéapenasoqueéatualizadonapercepção,mastambém
o campo de virtualidades que coexistem com o real e que podem ser atualizadas pela
imaginação. A percepção, nessecontexto,nãoé,aomenosparanossoautor,apenasacaptação
doatual,mastambémaaberturaparaovirtual,paraaspotencialidadesqueomundoofereceou
pode até mesmo viraindaanosoferecer.Nisso,segundoopensamentodeDeleuze,emvezde
ser uma falta do que é real, o virtual é a própria realidade em um estado latente, prestes a
emergir: ele transcende o meramente possível, representando o real com toda a sua força e
capacidade desetransformareexistirconcretamente.Ouainda:aopensarmosbempróximode
nossofilósofo,podemosdizerqueovirtualnãorepresentaaausênciadarealidade,massimuma
realidade futura em processo de manifestação, fazendo que, com isso, não seja apenas uma
150
possibilidade, mas o real em seu estado de potência, pronto paraseconcretizar(concretização
iminente).
Assim, a perspectiva acima enriquece a noção de situado subjetivante, posto que, no
sentido de Deleuze, o sujeito não está situado apenas no mundo atualizado pela percepção e
imaginação, mas também nocampodevirtualidadesqueoatravessam;aconstruçãodomundo
vivido é um processo contínuo de atualização de virtualidades, em que a imaginação
desempenha um papel indispensável com relação a fabulação de novas possibilidades e na
criação de novas formas de existência (ou de existir). Sendo assim, para nosso autor, a
subjetividadenãoésenãoumprocessodedevir,sempreabertoanovastransformaçõeseanovas
construções do mundo.
Nisso,notextoHume,emAIlhaDeserta,Deleuzenosreforçaaideiadequeoempirismo
noslevaaummundodeexterioridade,emqueopensamentoestáemuma“relaçãofundamental
comoFora”(DELEUZE,2005,p.107);poisbem,paranossofilósofofrancês,apercepçãoea
imaginação são os meios pelos quais o sujeito se relaciona com esse Fora, construindo um
mundo que é ao mesmo tempo objetivo e subjetivo. A partir disso, temos que o situado
subjetivanteé,paraopensamentodeleuziano,aquelequeseconstituinainterfaceentreointerior
e o exterior, entre o dado e a sua organização pela imaginação: o mundo vividoéoresultado
dessa interação sempre variável (dinâmica), em que a percepção fornece o material bruto e,
abertamente, a imaginação o organiza, conferindo-lhe ainda sentido e consistência.
Por isso, para Deleuze, a relação da subjetividade com o Fora (le Dehors), essa
exterioridaderadicalqueeleexploracomoalgodeextremaimportância,émediadaeconstruída
precisamentepelapercepçãoepelaimaginação,vistoque,paraseupensamento,omundovivido
não é um mero reflexo de uma realidade externa, mas uma construção ativa que se dá na
interfaceentreoquenosafetaeamaneiracomoorganizamosessasafecções(nossasafeições).A
percepção,nessesentido,nãoéumatodeapreensãopassiva,masumencontrocomoForaque
jáé,emsi,umaprodução.Adicionalmente,emConversações,Deleuzeabordaessaideiadeque
opensamentonãoéumaatividadeinternaeisolada,masumarelaçãocomoFora–umdevirque
se dá na exterioridade. Ele nos diz que
Fora,emFoucault,comoemBlanchot,aquemeletomaemprestadoesse
O
termo,éoqueémaislongínquoquequalquermundoexterior.Mastambémé
o que está mais próximo que qualquer mundo interior. Daí, a reversão
perpétuadopróximoedolongínquo.Opensamentonãovemdedentro,mas
tampoucoesperadomundoexterioraocasiãoparaacontecer.Elevemdesse
Fora,eaeleretorna;opensamentoconsisteemenfrentá-lo.Alinhadoforaé
nosso duplo, com toda a alteridade do duplo. (DELEUZE, 2008, p. 137).
151
Comisso,conseguimosdizerqueosujeitoéolimitedeummovimentocontínuoentreum
dentro e um fora, em queoForaé“arelação,queétambém‘não-relação’,comumForamais
longínquo que todo mundo exterior, eporissomesmomaispróximoquetodomundointerior”
(DELEUZE,2008,p.121-122).Nisso,paraDeleuze,oForanãoéumahabilidadepassiva(fruto
deumaconcepçãodeummeromovimentodaexterioridade),masumeventoativo;paraele,tal
evento não se confunde com um monólogointerior,umavezqueserealizacomoumencontro
comoexterior–comaquiloquenosforçaapensar.Ora,pensar,emsuaessência,aomenospara
o pensamento deleuziano, é ser afetado e responder emsentidodireto(sembarreiras)aoFora;
pensarnãoéalgoquesimplesmentetemos,postoque,aoconsiderarmosDeleuzebemdeperto,
podemos dizer que eleéalgoquefazemos,eessefazernãoéumaatividadepuramenteinterna
(comoconversarconsigomesmo):paranossoautor,todopensamentoéumpensamentosobreou
apartirdealgoexternoaumsi-mesmoqueequivocadamentepodeserconcebidocomofechado.
Nofundo,Deleuzenoslevaaconceberquepensarnãoéumafaculdade,massimumato;eoato
depensarnãoéumaatividadeinterna,éumarelaçãocomoFora:pensarésemprepensaroFora
e isso sempre se dá na relação.
Nesse sentido, precisamos pontuar ainda que sucintamente mais algumas coisas sobre o
conceitodeForaemDeleuze:talconceitoconstituiumdoseixosmaispotentesetransversaisdo
pensamentodoautor.Longedeserumanoçãoestanqueouapenasumlugargeocronológico(de
formaçãomaterial),oForarepresentaumadimensãofundamentalquesemanifestaemdiferentes
registros do pensamento de Deleuze: ontológico, temporal, político,éticoeestético(quiçánão
outras linhas filosóficas não mencionadas); para ele, o Fora não se trata de um exterior em
oposição a um interior, mas de uma força que pressiona, desestabiliza eforçaopensamentoa
ocorrer (a pensar). Quanto a isso, Deleuze afirma em sua obraFoucault(1988):
uer dizer que não há lado de dentro? Foucault não deixa de submeter a
Q
interioridade a uma crítica radical. Mas um lado de dentro que seria mais
profundo que todo mundo interior, assim como o lado de fora é mais
longínquoquetodomundoexterior?Oladodeforanãoéumlimitefixo,mas
uma matéria móvel, animada de movimentos peristálticos, de pregas e de
dobras que constituem um lado de dentro: nada além doladodefora,mas
exatamente o lado de dentrodolado de fora. (DELEUZE, 2013, p. 104).
Ora, para Deleuze, oForaémaislongequetodomundoexterior,porqueémaispróximo
quetodomundointerior:éumacoisadopensamentoemsentidopluridimensional.Édaíque,ao
partirmos por uma via um tanto mais ontológica da noção deForaparaafilosofiadeleuziana,
podemosdizerqueelaéaprimeiraemaisfundamentalabordagemqueDeleuzefazdoconceito,
vistoque,paraele,oForanãoéumoutromundo,masumadimensãoimanenteaopróprioser–
que o dobra, o desdobra e o força a se transformar.
152
Nisso, em conjunção com nosso autor, o que há de fortemente ontológico no Fora se
manifesta de maneiras distintas em suas obras, principalmente como Superfície – por vezes
também como Virtual ou mesmo como Linha de Fuga. Em Lógica do Sentido, por exemplo,
Deleuze elabora uma complexa topologia filosófica que distingue entre a profundidade dos
corpos (e suas misturas), a altura das Ideias (e sua transcendência) e a superfície em que se
desenrolamosacontecimentos.Ora,talsuperfícieéaprimeiragrandefiguradoForaparanosso
autor,umavezque,comomencionamosanteriormente,elanãoéumainterfaceentreodentroeo
fora, mas uma entidade autônoma, um plano puramente incorporal que se estende “fora” dos
estados de coisas ou dos corpos. O Fora deleuziano é o plano dos efeitos incorporais ou
acontecimentos.
TalafirmaçãosignificaqueumadasmaneirasmaisadequadasdeconceberoForaécomo
esteplanodeimanência,estasuperfícieontológicaemqueospurosdevires(osacontecimentos)
se desenrolam. Por isso, o Fora éoplanoemqueosentidoemergecomoumefeitoincorporal
das interações caóticas doscorpos:éapartedorealquenãoénemfísica(oscorposmateriais)
nempsicológica(aconsciência),maspuramentevirtualeexpressiva.Nessaacepção,oForaéo
plano deconsistênciadosacontecimentos,umdesertopovoadodedeviresquecorreaoladodo
mundoorganizadodoscorposedossujeitos;éoespaçodacriaçãofilosófica,artísticaepolítica,
poiséemtalplanoquenovasconexõespodemserfeitas,novossentidospodemserproduzidose
novas formas de vidapodemserinventadas,foradascoordenadasestabelecidasdosestadosde
coisas.
Assim,osacontecimentosparaDeleuze,como“sorrir”,“aprender”ou“esverdear”,nãose
confundemcomoscorposqueossofremouasqualidadesqueosexprimem.Elessãoverbosno
infinitivo, isto é, puros devires que insistem na superfície, indiferentes às particularidades dos
sujeitosedosobjetos.Porisso,oplanodesuperfícienãoésenãooForaquedobraoscorposea
linguagem, um extra-ser que, mais propriamente, não existe fora dosestadosdecoisas,jáque
tambémnãosereduzaeles;éoespaçoemqueosentidoemergecomoumefeitodesuperfície,
um vapor que se eleva das profundezas caóticas dos corpos em interação.
Além disso, ao pensarmos umtantomaisoForacomovirtual,oumelhor,comopotência
da diferença, conseguimos compreender que, nãoseopondoaoreal(massimaoatual),oFora
assume a figura do virtual; ora, para Deleuze, ao menos em Diferença e Repetição, podemos
considerar que o Fora é perfeitamente real, mas não está atualizado. Ele constitui um campo
problemático (de relações complexas), uma multiplicidade de relações diferenciais e pontos
singulares que preexistem à sua atualização em espécies epartesdiferenciadas;istoquerdizer
153
que,paranossoautor,ovirtualéoForaquepressionaoatual,forçando-oasediferenciar.Sendo
assim, Deleuze descreve o objeto virtual com uma fórmulaparadoxalqueevocadiretamentea
exterioridaderadical,ouseja,“[...]elenãoestáondeestáanãosercomacondiçãodenãoestar
onde deve estar” ou melhor, “ele não está onde é encontrado a nãosercomacondiçãodeser
procurado onde não está”; nesse sentido, “[...] Ele é sempre um ‘era’” (DELEUZE, 2018, p.
140).
Nisso,podemosdizerqueesteForavirtualéaprópriacondiçãodacriaçãoparaDeleuze.A
atualização não é arealizaçãodeumpossívelpreexistente,masadiferenciaçãocriadoradeum
campo virtual: é um movimento que vai do Fora (o virtual) para o dentro (o atual), mas um
dentro que é constantemente assombrado e trabalhado por este Fora que o constitui e o excede.
Agora,aofalarmosmaispropriamentedoForatomadoenquantoLinhadeFuga,Deleuze
nosdizqueeleéadesterritorializaçãoabsoluta347,istoé,emMilPlatôs,eleexpõequeoForaé
pensadoemtermospolíticosemaquínicoscomolinhadefuga,jáquetodoagenciamento348 (que
nos produz e que em nós se produz) é composto por linhas de segmentaridade dura (que
organizam eestratificam),linhasdesegmentaridadeflexível(quenegociamederivam)elinhas
de fuga, que apontam para uma desterritorialização absoluta (daquiloquenãonemmesmoum
347
ParaDeleuze,adesterritorializaçãoabsolutasetratadeumconceitoqueexigeumainversãodeperspectivaem
r elação ao modo habitual de pensar a relação entre território, movimento e criação. Um dos aspectos mais
contraintuitivos e fundamentais de tal conceito é que, para nosso autor, a desterritorialização absoluta não éum
estado que se alcança a partir de territórios concebidos como já constituídos em sentido físico, mas sim um
movimento primeiroemquenãopartimosdeterritóriospuramenteempíricoparadepoisnosdesterritorializarmos
(diáspora em sentido concreto); ao contrário, a desterritorialização é o processo queculminanoplanooriginário
sobreoqualosterritóriosdopensamentoseformamcomo“resíduos”ou“espessamentos”.Nessesentido,oestatuto
ontológicodadesterritorializaçãoabsolutaé,paraDeleuze(eGuattari),concernidacomumplanodeconsistênciae
conceitos que designam uma espécie de superfície ou campo imanente, não estratificado, em que circulam
intensidades, fluxos epartículasformadoraslivres.ATerra,nessesentidofilosófico,nãoéoplanetafísico,masa
“Terraabsolutamente-desterritorializada”,osolovirtualdetodacriação;noquedizrespeitoaessaterra,osestratos
– que incluem as organizações biológicas (organismos), as formações sociais, os regimes de signos, as
subjetividades – são secundários, posto que eles representam capturas, coagulações, recaídas sobre o plano
primordial(planodeimanência).Ademais,podemosdizeraindaque,conformepensouDeleuze,osprópriosestratos
do plano são animados e definidos por velocidades advindas dos movimentos gerados por desterritorializações
relativas; contudo, antes de qualquer movimento relativo de desterritorialização,adesterritorializaçãoabsolutajá
está/épostadesdeocomeço,emumaimplicaçãomútuaentreosdoismodos,ouseja,adesterritorializaçãorelativa
ocorria sobre os deslocamentos empíricos; já a desterritorialização absoluta não seria senão o movimento do
pensamento criativo.
348
A noção de agenciamento é uma peça-chave no edifício filosófico de Deleuze(eGuattari),fundamentalpara
compreendersuaabordagempragmático-materialistadarealidade.Poisbem,longedeserumaestruturaestáticaou
umasimplescoleçãodeelementos,oagenciamentoéumamontagemheterogêneaqueproduzrealidade,istoé,em
seuâmago,umagenciamentoéumamultiplicidade,nãosedefinidopelasomadesuaspartes,maspelasconexõese
relaçõesqueseestabelecementreelementosheterogêneosdeseucomposto.ÉnessesentidoqueDeleuzeeGuattari
rejeitam a primazia das substâncias ou das formas em favor deumafilosofiadasrelaçõesedasconexões,como
afirmamemMilPlatôs;naobra,elesestabelecemqueaquestãocentraldeumlivro(oudequalqueroutracoisa)não
é o que ele significa, mas “com o que ele funciona, em conexão com o queelefazounãopassarintensidades”
(DELEUZE;GUATTARI,1995,p.10).Portanto,umagenciamentoé,antesdetudo,aomenosnossosautores,uma
máquina funcional.
154
eu). Na concepção de Deleuze, a linha de fuga é o Fora em ação: omovimentopeloqualum
agenciamento escapa aos códigos que o sobrecodificam e aosterritóriosquebuscamdefini-lo;
daí, segundo Deleuze, “a linha defugaécomoumatangenteaoscírculosdesignificânciaeao
centrodosignificante”(DELEUZE;GUATTARI,1995,p.56),ouseja,elaencarnaoque“[...]o
regime significante não pode suportar [...] uma desterritorialização absoluta que esse regime
devebloquearouquesópodedeterminardeformanegativa,justamenteporqueexcedeograude
desterritorialização, por mais forte que este já seja, do signo significante” (DELEUZE;
GUATTARI, 1995, p. 55-56).
Nisso,osentidodeForatratadoacimaéoqueresisteàcapturapelosaparelhosdeEstado,
pelassemióticassignificantes,pelasaxiomáticasdocapital.Paraopensamentodeleuziano,eleé
o deserto para onde se foge, não para se isolar, mas para encontrar novas armas, novos
agenciamentos, novas conexões: em sentido figurado, é o Fora das estepes nômades contra o
interiordoEstadoimperial.Inclusive,cabe-noscomplementaraissoqueoForaemDeleuzenão
podesertidoapenascomoumacategoriaespacialouonto-política,mastambémprofundamente
temporal, isto é, ele se manifesta como umaconcepçãodotempoqueescapaàsucessãolinear
dos presentes e à cronologia do antes e do depois, já que é um tempo dodevir,umtempodo
acontecimento; tempo este que Deleuze, inspirando-se nos estóicos, chama de Aion – já
brevemente mencionado em nossa seção anterior.
Porconseguinte,éimportanteque,estandofortementeconectadosaopensamentodenosso
autor, coloquemos um tanto mais o que pensamos sobre odevircomooForadopresente.Em
Lógica do Sentido, Deleuze nos apresenta o devir como a própria matéria do tempo, um
movimento paradoxal que se furta ao presente; para ele, o devir não vaideumpontoaoutro,
mas passa entre os termos, num movimento que é semprenosdoissentidosaomesmotempo.
Ora, remetendo-nos às palavras de Deleuze, Alice, de Lewis Carroll, não cresce e depois
diminui;querdizer,paranossofilósofo,ela“setornamaiordoqueera”e,aomesmotempo,“se
fazmenordoquesetorna”.Deleuzeafirma:“Namedidaemquesefurtaaopresente,odevirnão
suporta a separação nem a distinção do antes e do depois, do passado e do futuro. Pertenceà
essência do devir avançar, puxar nos dois sentidos ao mesmo tempo” (DELEUZE, 2015, p. 1).
Porisso,estetempodopurodeviré,paranossofilósofofrancês,oForadarepresentação,
quenãoprecisadepresentesestáveisedesujeitosidênticosparaseexercer,ouseja,odeviréo
tempo das identidades que se perdem, das transformações incessantes:éumtempoquenãose
mede, mas que se experimenta em sua intensidade produtora.
155
À vista disso, ao falarmos do tempo do fora e do dentro, falamos também como eles
tornampossívelpensarmoscomoDeleuzesistematizousuaconcepçãotemporal,aodistinguiros
dois sentidos tempo já trazidos à baila: Cronos e Aion. Enquanto Cronos é o tempo da
representação, o tempo dos corpos e dos estados de coisas, otempoquemedeomovimentoe
quesedivideempassado,presenteefuturo,ouseja,tempododentro,tempodaorganizaçãoeda
medida; Aion, por outro lado, é o tempo do acontecimento, o tempo do Fora. Para Deleuze
(2015, p. 167), o Aion é a linha traçada pelo ponto expansivo que não cessa desedividirem
passado-futuro, é o tempo do acontecimento puro, do verbo no infinitivo, que subdivide cada
instante em umpassadoeumfuturojáaí,semjamaisconstituirumpresente;ora,emDeleuze,
ainda conseguimos pensar que o Aion é o tempo do Fora porque ele é a forma vazia e
desenroladadotempo,alinhainfinitaquedobraeredobraosacontecimentos:umtempoquenão
passa, mas no qual tudo acontece. Por isso, para o pensamento deleuziano, ele é o tempo da
revolução, da criação, do encontro, que irrompe na cronologia de Cronos para abrir novas
possibilidades de vida.
Para mais, a partir desse trecho, exporemos consequências que se deram e advieram do
pensar o Fora e que não foram senão indispensáveis para Deleuze; ora, para ele, o Fora não
poderia ser limitado a uma especulação ontológico-temporal, posto que, para seu pensamento,
podemos desdobrá-lo em consequências éticas, políticas e estéticas radicais.
Segundoopensamentodeleuziano,pensarapartirdoForaimplicariaumanovamaneirade
viver, de se relacionar com os outros e de criar. Nesse sentido,suaÉticadaexterioridade(em
comunhão com autores que vão de Lucrécio a Nietzsche, passando por Hume e Espinosa),
mostra-nos que, para Deleuze, o que os unia pode ser tratado como um pensamento de
consonâncias que não é senão uma recusa a interioridade e o negativo. Quanto a isso, em
Conversações, Deleuze (2008, p. 14) nos afirma que o que ele mais detestava em seus anos
iniciais de formação em filosofia era o hegelianismo e a dialética envolta em seu sistema; de
outromodo,oqueelemaisgostavanosautoresqueseopunhamàtradiçãoracionalista–ponto
pertinente não apenas aos hegelianos – era o “vínculo secreto constituído pela crítica do
negativo,pelaculturadaalegria,oódioàinterioridade[emsentidoextremo],aexterioridadedas
forças e das relações, a denúncia do poder” (DELEUZE, 2008, p. 14). Por isso, conforme o
pensamentodenossoautor,umaéticadoForaéumaéticadasforçasedosencontros,eatravessa
os deveres e as leis. Ela é umaéticadaimanência,queavaliaosmodosdeexistênciasegundo
suacapacidadedeaumentarapotênciadeagiredeseconectarcomoFora.ParaDeleuze,viver
156
eticamente éabrir-seaosencontros,aosdevires,àsmultiplicidadesquenosatravessam,emvez
de se fechar em uma identidade pessoal ou em uma moral transcendente.
Daí é que, politicamente, Deleuze nos expõe que o Fora se traduz na estratégia do
devir-minoritário, isto é, não se trata de imitar ou de representar as minorias existentes
(mulheres, negros, homossexuais, etc.), mas de entrar em um devir que desfaz a identidade
majoritária do homem, branco, adulto, heterossexual, habitante das cidades. Nesse sentido,
Deleuze diz queoproblemadeumdevir-minoritárioé:“nãofingir,nãofazercomoouimitara
criança, o louco, a mulher, o animal, o gago ou o estrangeiro, mas tornar-se tudo isso, para
inventar novas forças ou novas armas” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 13). Para ele, o
devir-minoritárioéapolíticadoForaporqueeletraçaumalinhadefugaemrelaçãoaopodere
àsformasdedominação,postoqueéumprocessodedespersonalizaçãoquenosabreaumpovo
que falta, a uma comunidade por vir. Em síntese, umapolíticadosdevires-minoritárioséuma
política da criação, que inventa novas formas de vida e de luta a partir do Fora.
Agora,emtermosdepensamentoestético,paraDeleuze,oForaéafontedetodacriação.
Nisso, podemos dizer que, para ele, a arte não pode ser tida como aquilo que representa o
mundo; na verdade, ela cria novos mundos a partir do Fora. Em Diálogos, Deleuze e Parnet
insistemqueacriaçãosedásempreentreostermos,emumespaçoquenãopertenceanenhum
deles, isto é, a criação provinda do Fora se pensada como “uma dupla-captura, o roubo, um
duplo-roubo,eéissoque[ela]faz,nãoalgodemútuo,masumblocoassimétrico,umaevolução
a-paralela,núpcias,sempre‘fora’e‘entre’”(DELEUZE;PARNET,1998,p.15).Nessesentido,
o estilo, paraDeleuze,éamaneiracomoumartistaconseguefazerpassarasforçasdoForana
suapróprialíngua,atéfazê-la“gaguejar”;ora,nossoautoracreditaque,emgraudeexcelência,a
literatura, a pintura, o cinema são aqueles que inventam uma “língua estrangeira” dentro da
língua majoritária, que deformam a sintaxe e o vocabulário para expressar os devires e as
intensidades que vêm do Fora.
Àvistadisso,podemosdizerqueoForaemDeleuzemanifestaserumanoçãopolimorfae
operatória,quedesignamenosumlugardoqueumafunçãocríticaeimpulsionadoradacriação.
Seja como a superfícieincorporaldosacontecimentos,ocampovirtualdadiferença,alinhade
fugaqueescapaaossistemasdepoder,otempododevirquesefurtaaopresente,aexterioridade
das forças ouoentredacriação,podemosdizerque,paraDeleuze,oForaésempreaquiloque
força o pensamento a sair de si mesmo, a romper com a interioridade da representaçãoease
abrir paraonovo.Nessesentido,éumaforçaquenãovemdeumoutromundo,masquesurge
das dobras imanentes deste mundo,comosuaprópriapotênciadevariaçãoedetransformação.
157
Pensar com Deleuze é, em última instância, aprender a se conectar com este Fora, a traçaras
próprias linhas de fuga e a experimentarosdeviresquenosconstituem,paraalémdequalquer
identidade fixa e de qualquer poder pensado como vindo de (mundo) irreal.
Énessesentido,portanto,queumatalcompreensãodopensamentocomoumarelaçãocom
oForaestende-seàpercepçãoeàimaginação.AopensarmosDeleuzeporessavia,temosquea
percepção, ao invés de ser umprocessodeinteriorizaçãodomundo,éummododeseabrirao
Fora,deseratravessadoporele;aimaginação,porsuavez,nãoseriaapenasumacapacidadede
criar imagens mentais a partir de um repertório interno, mas a força quepermiteaosujeitose
agenciar com o Fora, fabulando e construindo um mundo que é, ao mesmo tempo, singular e
compartilhado.Assim,aomencionarmosnovamenteosituadosubjetivanteabordadanoinícioda
seção,vemosqueeleseconstituinessarelaçãointrínsecacomaexterioridade,emqueomundo
vivido é o resultado de um agenciamento contínuo entre oeue o Fora.
Ocorpo,nessecontexto,desempenhaumafunçãoimportantecomoopontodearticulação
entre a percepção,aimaginaçãoeaconstruçãodomundovivido.Ora,conformeopensamento
deleuziano, o corpo não setratadeumcorpoorgâniconosentidobiológicoestrito,masdeum
Corpo sem Órgãos349 (CsO), um plano de consistência em que as intensidades circulam e as
conexõesseestabelecem.Assim,paraDeleuze(eGuattari),oCsOéoquepermiteaosujeitose
abriraoFora,experimentarnovassensaçõesefabularnovasrealidades,emqueapercepçãoea
imaginaçãonãofazemsenãooperaremtaldisposiçãooudispositivodoespírito,construindoum
mundovividoqueé,emúltimainstância,umcorpo-mundo,umagenciamentoentreosujeitoeo
Fora. É nesse sentidoqueosautores(1995,p.112-113)nosdizemqueocorposemórgãoséo
que resta quando já se retirou tudo o que o representa, tudo o que o interpreta, tudo o que o
significa; nisso, ele não é senão corpo puro, corpo intenso, corpo que sente verdadeiramente.
Ora,paraqueexpliquemosdemaneiraumtantomaisespecíficaotrechofinaldoparágrafo
anterior,DeleuzeeGuattari(1995,p.185)definemoCsOcomo“oquerestaquandoseretirou
tudo”, sendo esse tudo o conjunto de fantasmas350, significâncias e subjetivações que nos
349
Quanto a este ponto, precisamos deixar bemclaroque,dadaanaturezadenossotrabalho,nãofaremosenem
teríamos condições de analisar profundamente a noção de Corpo sem Órgãos criada por Deleuze e Guattari.
Portanto, falaremos de tal noção com demasiada economia emodéstia,poistemosemconsideraçãoqueoCorpo
sem Órgãoséumdosconceitosmaisemblemáticosedesafiadoresdafilosofiadosautores.Ora,longedeseruma
metáforaparaumcorpofísicodesprovidodesuaspartesanatômicas,oCsOsetratadeumasuperfíciedeimanência,
um campo de forças e intensidades que precede a organização e a estratificação do corpo em um organismo
funcional: ele é uma entidade processual, ou até mesmo um limite a ser constantemente alcançado.
350
EstetermoocupaumlugarmultifacetadoebastantecomplexonaobradeDeleuze,especialmenteemLógicado
Sentido e em sua colaboração com Félix Guattari, em O Anti-Édipo eMilPlatôs.Sendoassim,longedeserum
merosinônimodefantasiaouimaginação,ofantasmaéumconceitorigorosoqueexpressaumarealidadeespecífica,
situadanafronteiraentreopsíquicoeofísico,oindividualeocoletivo,oatualeovirtual.ParaDeleuze,ofantasma
comoacontecimentoincorpóreo.EmLógicadoSentido,Deleuzedesenvolvesuavisãomaisdetalhadadofantasma,
158
constituem. Para eles, trata-se de um corpo sem imagem, uma realidade não formada e não
estratificada que se opõe à tirania do organismo. Cito-os:
[ ...]oCsOnãoéocontráriodosórgãos.Seusinimigosnãosãoosórgãos.O
inimigo é oorganismo.Oorganismonãoéocorpo,oCsO,masumestrato
sobre o CsO, quer dizer, um fenômeno de acumulação, de coagulação, de
sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, organizações
dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair dele
um trabalho útil (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 188).
Por isso, para nossos autores, o CsO não éumanegaçãodamaterialidadedocorpo,mas
uma crítica à sua organização hierárquica e funcional – o organismo – que limita as
potencialidadesdocorpoeosubmeteaumafinalidadeprodutivaesocialmentecodificada.Para
Deleuze, o organismo é um estrato que aprisiona o corpo em umaidentidadefixa,enquantoo
CsO é a potência de desestratificação e de novas conexões.
Àvistadisso,podemospensarquetalnoçãodecorposemórgãosreforçaaideiadequea
construçãodomundovividoéumprocessodedesterritorializaçãoereterritorializaçãocontínuas.
Nisso, para o pensamento deleuziano, a percepção e a imaginação, ao operarem no CsO,
desfazemasorganizaçõespré-estabelecidasecriamnovasconexões,novasformasdesentirede
pensar.Porisso,podemosdizerqueosituadosubjetivanteéaquelequeseengajanesseprocesso
de experimentação, utilizando a percepção para se abrir ao Fora e a imaginação para fabular
novasrealidades.Omundovividoé,assim,umaobraemandamento,umacriaçãocontínuaque
se desdobra no plano da imanência, na intersecção entre oeue o mundo, entre o atual e o virtual.
No mais, a fim de concluirmos, necessitamos ainda dizer que, mais do que conceitos
teóricos, o virtual-atual em Deleuze são operadores práticos que permitem novas formas de
pensamento eação,ouseja,elessãoaquiloqueabrepossibilidadessingulares,inéditas,parase
pensarvárioscampos–educação,clínica,arteepolítica–comoprocessosdeatualizaçãocriativa
de virtualidades. Assim, a filosofia deleuziana do virtual-atual permanece como uma das
propostasmaisfecundasparasepensararealidadecomoprocessodecriaçãoimanente,paraque,
a partir dos processos de subjetivação, possamos vencer o lento cérebro.
ligando-o diretamente à noçãodeacontecimento.Paraele,ofantasmanãoéumestadodecoisas(umcorpo,uma
mistura de corpos), nemumarepresentaçãonamente,masumefeitodesuperfície,umatributoincorpóreoquese
expressa na linguagem; “nem ativos, nem passivos, nem internos nem externos, nem imaginários nem reais, os
fantasmastêmrealmenteaimpassibilidadeeaidealidadedoacontecimento”(DELEUZE,2015,p.218).Porisso,o
fantasma é oqueDeleuze(2015,p.218)chamadeexpressodaproposição,poisassimcomooacontecimentoser
ferido é distinto do estado de coisas (o ferimento no corpo)edarepresentaçãomentaldador,ofantasmaéuma
entidade ideada, impassível, que paira sobre os corpos e as mentes; nesse sentido, ele é submetidoaumadupla
causalidade, isto é, resultadecausascorporais(internas-externas),maséoperadoporumaquase-causaqueofaz
comunicar-se com todos os outros acontecimentos-fantasmas na superfície.
159
4. SUBJETIVIDADES DESCONTÍNUAS (A REINVENÇÃO DE SI)
Em nosso percurso anterior, no segundo capítulo, tivemos que o advento da natureza
humana éoprocessopeloqualofluxodaimanênciasedobrasobresimesmo,criando,através
da exterioridade operante, umasubjetividadeconsistenteeummundohabitável.Nessesentido,
com base em nossos dois principais autores, acreditamos que a natureza humana não é uma
essência oculta, mas sim diversos circuitos de uma engenharia da vida interior: o conjuntode
mecanismoseprincípiosimanentes(crença,hábito,ficção,síntesepassiva)que,operandosobre
o fluxo virtual da imanência, forjam uma subjetividade e um mundo para tal.
Assim,notrechoanteriordenossotexto,aconsistênciadoeuedomundoforamtratadas
através de suas relações ambivalentes com a exterioridade: no ato de crer, de fabular, de
construiracontinuidadeedesesituaremummundovivido.Daívimosqueanaturezahumanaé
menosumacondiçãoemaisumevento:oadventodeumaconsistênciaprecária,masfuncional,
conquistadaacadainstantenoâmagodofluxodaimanência;dadoisso,precisamosdizerainda
queasubjetividadeadvémnãodeumatodeintrospecção,masdeumvoltar-separafora,deum
embateconstantecomoFora(queatudorecobre)queconstituitantoosujeitoquantoomundo
que ele habita.
Sendoassim,napartequevirá(3.1.AfragilidadedesinaparteIVdolivroIdoTratado:
seção Da identidade pessoal), será um momento de revisita as ponderações de Hume sobre a
identidade pessoal. Daí a aplicação rigorosa do princípio empirista – de que toda ideia deve
derivardeumaimpressãosensível–levouHumeaumaconclusãodemolidora:anoçãodeumeu
comoentidadesubstancial,unaecontínuaéinfundada.ParaHume,oexercíciodeintrospecção
não evidenciaria um centro estável, mas sim um feixe de diferentes percepções em perpétuo
fluxoemovimento.Destemodo,otextodeHumenosmostrouqueaidentidadequeatribuímosa
nós mesmos é uma ficção produzida pela imaginação. A mente, para dar coesão a esse fluxo
incessante,confundeasucessãodepercepçõesrelacionadas(porsemelhançaecausalidade)com
a permanência de um objeto idêntico.
Por outro prisma, na segunda parte de nosso capítulo (3.2. Subjetividade larvar: a
precariedade como condição ontológica paraosprocessosdesubjetivação),temosqueDeleuze
operaumatransvaloraçãoconceitualapartirdaaporiahumeana.Ora,paraele,anoçãodefeixe
depercepçõeséressignificadacomoumcampodeintensidadespré-individuais.Énessecontexto
que exploramos uma noção sobre o estado larvar, pré-subjetivo, em que o eu ainda não se
constituiu. Tal estado, fruto de uma precariedade, não é considerado por Deleuze como uma
falha, mas como algo que afirma a própria potênciadodeviroumesmoacondiçãoapartirda
160
qual os processos desubjetivaçãosedão.Nessesentido,nestapartedenossotexto,temosque,
paraDeleuze,osujeitosurgenãocomomestreemsuamoradainterior,mascomoumhóspede,
uma dobra do Fora.
Por fim, nosso análise mostra a reinvenção de si não como um ato de uma vontade
autônoma, mas como um processo de despersonalização: uma abertura às multiplicidades que
nos atravessam, um retorno a estados larvares que possam nos servir para eduzir deles novas
formasdevida,porisso,aprecariedadeé,emúltimainstância,aprópriapotênciadavidaemsua
capacidade de variar e se metamorfosear.
4.1. A fragilidade de si na parte IV do livro I do Tratado: seçãoDa identidade pessoal
Neste momento de nosso texto, trataremos um tanto mais sobre a identidade pessoal na
Parte IV doTratado–jábrevementealudidanaspartesfinaisdocapítuloanterior.Aprincípio,
podemos dizer que, este ponto da obra de Hume, deixou-nos um desconcertante terreno
filosófico. A rigorosa aplicação do princípio empirista advindo de nosso autor moderno
desmantelou a noção de um eu substancial, ao mostrá-lo não como uma entidade sólida e
contínua, mas como um feixe ou coleção de diferentes percepções em perpétuo fluxo e
movimento, um algo instável.
Nisso, podemos dizer que a identidade, longe de ser um dado imediato da consciência,
mostrar-se-ácomoumaficçãoproduzidapelaimaginação,umaconstruçãofrágilparadarcoesão
aumfluxoque,emsi,nãoapossui.Humeexpor-nos-áametáforadamentecomoumteatrosem
palcofixo,constituídaunicamentepelasucessãodascenasqueemnóssecompõe;ora,talcoisa
também foi fortemente pensada por Deleuze que,juntoaHume,considerouumasubjetividade
semcentro,umprocessosemsuporte.Contudo,noquedizrespeitopropriamenteaoempirismo
humeano,suaconstataçãodafragilidadefundamentaldosinãofoiumpontofinalcético,maso
ponto de partida a uma questão ainda mais profunda, qual seja:Seoeuéumaconstruçãotão
frágil, uma ficção que encobre um caos de percepções, o que essa fragilidade expõe sobre a
própriacondiçãodasubjetividade?Seriaelaapenasumafalta,umaausênciadefundamentoa
ser lamentada, ou poderia ser, paradoxalmente, a própriacondiçãodepossibilidadeparaque
algo como um sujeito venha aser?Poisbem,éprecisamenteessainversãodeperspectivaque
nossa seção propõe ao pensarmos Hume já em uma perspectiva mais deleuziana.
Sendo assim, nossa investigação se deslocará da constatação da fragilidade para a
afirmaçãodaprecariedadecomofontedepotênciadecunhoontológico.OqueHumedescreveu
comoumproblemaepistemológico–aimpossibilidadedefundaroeuemumaimpressão–será
161
agora explorado como a condição imanente de todaagênese.Nossaseçãomergulharánaquilo
que foi pensado como seminal para a noção de campopré-individual,defluxodelirantequea
imaginaçãosefazemseuestadobruto.Nisso,ofeixedepercepçõeshumeanoserácompreendido
não como um amontoado passivo, mas como um campo de intensidades e singularidades
impessoais, um estado embrionário em que o sujeito ainda não é, mas está em constantedevir.
Paramais,podemosdizeraindaque,noqueestáporvir,aprecariedadedeixarádeservista
comoumafalhaparaserafirmadacomoacondiçãoapartirdaqualosprocessosdesubjetivação
setornampossíveis.Portanto,nossaquestãonãoserámaisOqueéoeu?,masComo,apartirde
umestadolarvareprecário,umsujeitopodeemergir?.Daínossasconsideraçõessemoverãoda
desconstrução da identidade para a cartografia de uma gênese sem sujeito, em que a
subjetividade pode ser compreendida como umadobraqueseconstituiapartirdeforçasquea
ultrapassam.
Assim, mais diretamente falando, investigaremos uma vez mais acerca da identidade
pessoal conduzida por Hume em sua SeçãoVIdaParteIVdoLivroIdoTratadodaNatureza
Humana.Faremosissoporpensarmosque,nãosóparafinsdenossosintentos,talparteéumdos
momentos mais vitais de sua filosofia – e nos serviremos pertinentemente disso. Assim, para
início de conversa, tal momento daobraécapazdenosoferecerumsolofértilàconcepçãode
subjetividade(s) em estado(s) larvar(es), ou seja, a(s) subjetividade(s) despida(s)deumcentro
unificador e substancial.
Disso, ao pensarmos em Hume na referida parte de sua obra, percebemos a implacável
aplicaçãodeseuprincípioempirista,asaber,“todaideiarealdevesempreseroriginadadeuma
impressão” (HUME, 2009, p. 283). É a partir de tal princípio que Hume visou desmantelar a
noçãotradicionaldeumeucomoumaentidadesimples,contínuaeidênticaasimesmaaolongo
do tempo. Ora, ao que parece o filósofo escocês confronta diretamente aqueles queimaginam
estar “intimamente conscientesdaquiloquedenominamosnossoEU”equeestariam“certosde
sua perfeita identidade e simplicidade” (HUME, 2009, p. 283). Ao realizar um exercício de
extrema introspecção reflexiva, Hume (2009, p. 284) constata que, ao penetrarmos mais
intimamente naquilo que denominamos nosso eu, sempre nos deparamos com uma ou outra
percepção particular, de calor ou frio, luz ou sombra, amor ou ódio, dor ou prazer, e nunca
apreendemosanósmesmossemumapercepçãodaqualnosvalhamosparatal.Poisbem,parao
autor empirista, a identidade do sujeito, longe de ser um dado imediato da consciência com
enorme força existencial, mostra-se como uma construção frágil, uma ficção produzida pela
imaginação para dar coesão a um fluxo incessante de percepções. Hume é, ao nosso ver,
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categórico ao afirmar que os seres humanos não são “senão um feixe ou uma coleção de
diferentespercepções,quesesucedemumasàsoutrascomumarapidezinconcebível,eestãoem
perpétuo fluxo e movimento” (HUME,2009,p.285).Nisso,podemosdizerque,paraHume,a
identidade não seria senão de uma operação da imaginaçãoquecriaaficçãodaexistênciaem
sentido contínuo através das percepções e conduz-nos à “noção de uma alma, um eu e uma
substância,paraencobriravariação”(HUME,2009,p.287)queocorreemnossointerioreque
tais noções não chegam a levar em forte consideração.
Ora,aonosvoltarmosparaoutrospontosdacríticatecidaporHume,vemosque,emseus
primeirospassos,eledesafiadiretamenteosfilósofosdesuaépocaquepostulamaexistênciade
umeusubstancial,doqualsupostamenteteríamosumaconsciênciaíntimaeinfalível.DaíHume
nos convida a um exercício de introspecção para buscar uma tal impressão que poderia ser
tomada como aquilo que não daria senão origem a ideia de identidade pessoal.Paratanto,ele
questionaoseguinte:“[...]dequeimpressãopoderiaserderivadaessaideia?”(HUME,2009,p.
283); pois bem, o resultado de tal busca foi invariavelmente negativo para ele, posto que,
segundo suas concepções, independentemente de como venhamos a procurar tal impressão de
base, não haveria qualquer uma que fosse constante e invariável (HUME, 2009,p.284)eque
pudéssemos chamar de eu. “Dor e prazer, tristeza e alegria, paixões e sensações sucedem-se
umasàsoutras,enuncaexistemtodasaomesmotempo”,demodoque,segundoHume(2009,p.
284), a ideia de eu não poderia ser derivada de nenhuma dessasimpressões,ouatémesmode
nenhuma outra; paranossofilósofoescocês,oexercíciointrospectivoconfirmatalconclusão,e
nisso ele diz: “[...] quando penetro mais intimamente naquilo que denomino meu eu, sempre
[me]deparocomumaououtrapercepçãoparticular”(HUME,2009,p.284),semquecomisso
jamais apreenda o si mesmo, isto é, “nunca apreendo amimmesmo,emmomentoalgum,sem
uma percepção [da qual eu determine como sendo a base para tal]” (HUME, 2009, p. 284).
Assim, para Hume, não encontraríamos nenhuma impressão constante/invariável que
pudéssemos ou possamos chamar de eu, fazendo com isso com que ele se posicionasse como
“certodequenãoexistetalprincípio”(HUME,2009,p.285)emsimesmo.Daípodemosinferir
de suas palavras que o eu que, com o árduotrabalhosupúnhamosencontrar,naverdade,éum
fluxo perpétuo de percepções particulares e distintas.
A partir disso, considerando fortemente outros matizes do pensamento humeano, ao
pensarmos que, se o eu não puder ser encontrado em nenhuma percepção isolada, talvez
possamos sustentar que ele também não pode ser derivado da totalidade delas, pois, segundo
Hume, estas são fugazes, sucessivas e distintas. Ora, tal colocação do autor empirista é no
163
mínimo demolidora, posto que, para ele, a ideia de um eu substancial não passaria de uma
ficção, desprovida de qualquer fundamento empírico. É seguindo por esse caminho de
pensamento que vemos nas palavras de Hume algo importante para discussões filosóficas
desdobradasposteriormente,asaber,oquechamamosdementeoueunãoseriaumasubstância
pensante, mas “nada mais que um feixe ou uma coleção de diferentes percepções, que se
sucedem umas às outras com uma rapidez inconcebível, [...] emperpétuofluxoemovimento”
(HUME, 2009, p. 285).
Para ilustrar essa concepção, Hume utiliza a célebre metáforadamentecomoumteatro.
Para ele, as percepções seriam como atores que entram e saem do palco, em uma sucessão
contínuadecenas.Contudo,aanalogiapossuiumaressalvasaliente:paranossoautorempirista,
não temos qualquer noção do lugar onde essas cenas são representadas,nemdosmateriaisde
que ele é composto. Em Hume, a concepção que manifesta tal noção de lugar não é uma
estrutura subjacente; na verdade, Hume o considera como algo que é a própria sucessão das
apresentações. Nesse sentido, tal imagem reforça a ideia de uma subjetividade sem centro
unificador,ouseja,paraele,elaseriaumprocessosemumsuportefixo,umapuramultiplicidade
emdevir–emtermosdeleuzianos.Paramais,cabe-seremeterdiretamenteàspalavrasdeHume
a fim de buscarmos corroborar o que colocamos neste parágrafo sobre a metáfora do teatro.
Citemo-lo:
mente é uma espécie de teatro, onde diversas percepções fazem
A
sucessivamente sua aparição; passam, repassam, esvaem-se, e se misturam
em uma infinita variedade de posições e situações. Nela não existe,
propriamentefalando,nemsimplicidadeemummomento,nemidentidadeao
longodemomentosdiferentes,emborapossamosterumapropensãonaturala
imaginaressasimplicidadeeidentidade.Masacomparaçãocomoteatronão
nos deve enganar. A mente é constituída unicamente pelas percepções
sucessivas; e não temos a menor noção do lugar em que essas cenas são
representadasoudomaterialdequeesselugarécomposto.(HUME,2009,p.
285-286).
Porconseguinte,seguindobemdepertonossoautor,podemosnosperguntaroseguinte:Se
nãoháumaimpressãodeidentidade,comosurgeemnósessafortepropensãoaatribuí-laanós
mesmos?Humeexplicaessefenômenonãocomoumadescobertadarazão,mascomoumefeito
da imaginação. A mente humana confunde a ideia de um objeto que permanece idêntico e
invariávelcomaideiadeumasucessãodeobjetosrelacionados.Atransiçãosuaveeininterrupta
do pensamento entre as partesdeumasucessãodepercepçõesrelacionadas(pelasemelhançae
pelacausalidade)produzumsentimentosimilaraoquesentimosaocontemplarumobjetoúnico
e imutável. Ora, parajustificaressatransiçãoeesconderadescontinuidade,Humeexpõequea
imaginação forja a ficção de uma identidade contínua, sendo ela um dos princípios (com
164
característica unificadora) que não serviria senão para ligar uma diversidade de percepções
diversas. Nessesentido,quantoaconfusãoquegeralmentefazemosentreidentidadeesucessão
relacionada, Hume afirma:
ossuímos uma ideia distinta de um objeto que permanece invariável e
P
ininterrupto ao longo de uma suposta variação de tempo; e a essa ideia
denominamos identidade ou mesmidade. Possuímos também uma ideia
distinta de diversos objetos diferentes existindo em sucessão e conectados
entre si por uma relação estreita; e essa ideia proporciona, para um olhar
preciso, uma noção tão perfeita de diversidade como se não houvesse
nenhuma relaçãoentreosobjetos.Mas,emboraessasideiasdeidentidadee
de uma sucessão de objetos relacionados sejam em si mesmas totalmente
distintas, e até contrárias, é certo que, em nosso modo comum de pensar,
geralmenteasconfundimos.Aaçãodaimaginaçãopelaqualconsideramoso
objetoininterruptoeinvariáveleaaçãopelaqualrefletimossobreasucessão
de objetos relacionadossãosentidasdemaneiraquaseigual[arealmostthe
same to the feeling], não sendo preciso um esforço de pensamento muito
maior neste último caso que no primeiro. A relação facilita a transição da
mente de um objeto ao outro, e torna essa passagem tão suave como se
contemplássemos um único objeto contínuo. Tal semelhança é a causa de
nossa confusão e erro, fazendo-nos trocar a noção de objetos relacionados
pela de identidade. (HUME, 2009, p. 286).
Paramais,podemosmencionartambémque,sobreaficçãoqueencobreavariação,Hume
expõeser“assimquecriamosaficçãodaexistênciacontínuadaspercepçõesdenossossentidos,
com o propósito de eliminar adescontinuidade”(HUME,2009,p.286-287);diantedisso,para
ele, é daí que “chegamos à noção de uma alma, um eu e uma substância, para encobrir a
variação”(HUME,2009,p.286-287).Adicionalmente,sobreapropensãoaconfundiridentidade
com relação, ele diz:
ossa propensão para esse erro é tão forte, em virtude da semelhança já
N
mencionada, que o cometemos antes de nosdarmoscontadisso.E,mesmo
que nos corrijamos incessantemente pela reflexão, retornando assim a um
modo mais exato de pensar, não conseguimos sustentar nossa filosofiapor
muito tempo, nem libertar a imaginação dessa inclinação. Nosso último
recurso é ceder a esta última, e afirmar ousadamente que esses diferentes
objetos relacionados são de fato a mesma coisa, não obstante sua
descontinuidade e variação. (HUME, 2009, p. 286-287).
Nesse sentido, a partir do que pensa nosso autor empirista, podemos dizer que há dois
princípios de associação de ideias que são fundamentaisparaaproduçãodaidentidadefictícia
quemencionamos;comojácolocadoemoutrosmomentosdenossotexto,estassão:semelhança
eacausalidade.Ora,amemória,faculdadeessencialparatornarpossíveloprocessoassociativo,
desempenha um duplo movimento: primeiramente, ela nos fornece a maior parte de nossas
percepções recordáveis, criando uma cadeia de ideias semelhantes; em segundo lugar, e mais
importante, a memória indicaria a relaçãodecausaeefeitoentrenossaspercepções(que,nela,
estariam/seriammaisquemeramenteindependentes).Nisso,conformepensouHume,amemória
nãotantoproduziriaoquechamamosdeidentidadepessoaloumesmidade,masasinalizariana
165
linguagem, aomostrar-nos–atémesmonasmaispurasformassimbólicasqueamenteécapaz
de produzir – as relações de causalidade que conectam as percepções passadas e presentes.
Assim, quanto ao papel da semelhança na memória, Hume afirma mais diretamente o seguinte:
omecemospelasemelhança.Suponhamosquepudéssemosverclaramenteo
C
íntimo de outrem, e assim observar aquela sucessão de percepções que
constitui sua mente ou princípio pensante; suponhamos também que essa
pessoapreservesempreamemóriadeumaparteconsideráveldaspercepções
passadas; é evidente que nada contribuiria mais para produzir umarelação
nessasucessão,emmeioatodasassuasvariações.Poisoqueéamemória,
senãoafaculdadepelaqualdespertamosasimagensdepercepçõespassadas?
Ecomoumaimagemnecessariamenteseassemelhaaseuobjeto,afreqüente
inserção dessas percepções semelhantes na cadeia depensamentonãodeve
conduziraimaginaçãomaisfacilmentedeumeloaoutro,fazendootodose
parecercomacontinuaçãodeumobjetoúnico?Poresseaspecto,portanto,a
memória não apenas revela a identidade, mas também contribui para sua
produção, ao produzir a relação de semelhança entre as percepções. Isso
ocorrequerconsideremosanósmesmos,queraosoutros.(HUME,2009,p.
293).
Já quanto ao papel da causalidade, ele diz:
uanto à causalidade, podemos observar que a verdadeira ideia de uma
Q
mente humana é a de um sistema de diferentes percepções ou diferentes
existências, encadeadas pela relação de causa e efeito, e que produzem,
destroem, influenciam e modificam-se umas às outras. Nossas impressões
originam suasideiascorrespondentes;eessasideias,porsuavez,produzem
outras impressões. Um pensamento expulsa outro pensamento, e arrasta
consigo um terceiro, que o exclui por sua vez. (HUME, 2009, p. 293).
Tendoissoemvista,amemóriarevelando(antesmesmodeentregaràmudançanecessária)
aquilo a que podemos vir a chamaridentidade, é tida por nosso autor escocês da seguinte forma:
omoapenasamemórianosfazconheceracontinuidadeeaextensãodessa
C
sucessão de percepções, devemos considerá-la, sobretudo por essa razão,
como a fonte da identidade pessoal. Se não tivéssemos memória, jamais
teríamos nenhuma noção de causalidade e tampouco, por conseguinte, da
cadeiadecausaseefeitosqueconstituinossoeuoupessoa.[...]Desseponto
de vista, portanto, a memória não tanto produz, mas revela a identidade
pessoal, ao nos mostrar a relação de causa e efeito existente entre nossas
diferentes percepções. (HUME, 2009, p. 294).
À vista disso, podemos dizer com mais que certa consistência que, para Hume, é a
causalidade que permite que a mente se estenda para além das percepções presentemente
lembradas,fazendocomque,desi,elapossageraratémesmoainferênciadeumacontinuidade
eumaexistênciaininterruptas.Aidentidadedoeu,portanto,segundonossoautorempirista,não
é uma propriedade intrínseca damente,masumaqualidadequeatribuímosaelaemvirtudeda
união de ideias na imaginação: o eu é uma república oucomunidade,cujosdiversosmembros
estãounidosporlaçosrecíprocosdegovernoesubordinação,mantendosuaidentidadenãopela
permanência de suas partes, mas pelarelaçãofuncionalentreelas.Nisso,quantoàextensãoda
identidadeparaalémdamemória,Humeafirmaque“cabeàquelesqueafirmamqueamemória
166
produz integralmente nossa identidade pessoal explicar por que podemosestenderdessemodo
nossa identidade para além de nossamemória”(HUME,2009,p.294).Porisso,elesevalede
uma importante metáfora, a saber, a metáfora da república, em que expõe o seguinte:
[ ...]amelhorcomparaçãoqueeupoderiafazerdaalmaécomumarepública
oucomunidade[arepublicorcommonwealth],cujosdiversosmembrosestão
unidos por laços recíprocos de governo e subordinação, gerando outras
pessoas, quepropagamamesmarepúblicapelatransformaçãoincessantede
suas partes. (HUME, 2009, p. 293).
E mais, ainda sobre a imagem de pensamento de uma república (de germes distintivos)
mantendo uma identidade apesar das mudanças, Hume diz:
, assim como a mesma república individual pode mudar não só seus
E
membros, mas também suas leis e constituições, assim também a mesma
pessoa pode variar seu caráter e disposição, bem como suas impressões e
ideias, sem perder sua identidade. Por mais mudanças que sofra, suas
diversas partes estarão sempre conectadas pela relação de causalidade.
(HUME, 2009, p. 293-294).
Assim, é através da causalidade que pensamos a identidade como qualidade atribuída,
postoque,paraHume,“aidentidadenãoéalgumacoisaquepertençarealmentea[...]diferentes
percepções e que as una umas às outras”; na verdade, ela “é apenas uma qualidade que lhes
atribuímosquandorefletimossobreelas[asdiferentespercepções],emvirtudedauniãodesuas
ideias na imaginação” (HUME, 2009, p. 292).
Agora, para que nos encaminhemos para o fim desse trecho de nosso trabalho, em sua
seçãoVIdaparteIV,conseguimosdizerqueaanálisedeHumenosapontaparaaideiadequea
identidade pessoal não seria senão uma crença (ou um conjunto delas, ou mesmoumoumais
regimes de crenças), um produto do hábito edaimaginação.Ora,paranossoautorescocês,“a
identidadedependedasrelaçõesentreasideias;eessasrelaçõesproduzemaidentidadepormeio
da transição fácil que ocasionam” (HUME, 2009, p. 295); nisso, cabe ainda colocarmos que
“todas as controvérsias acerca da identidade de objetos conectados são meramente verbais,
exceto enquanto a relação entreaspartesgeraalgumaficçãooualgumprincípioimagináriode
união[...]”(HUME,2009,p.295).Daíasimplicidadefictíciaatribuídaaoobjetocompostoéa
identidade que pode ser fruto de um erro que nem sempreéaberrante,vistoque,combasena
“similaridade de operação, atribuímos a ele uma simplicidade” e, com ela, “fantasiamos a
existência de um princípio de união como suporte [...] e centro de todasasdiferentespartese
qualidades do objeto” (HUME, 2009, p. 295). É por isso que, para Hume, há uma propensão
naturalaimaginar-seaidentidade(aindaquesemfundamentorealparatal),istoé,seseguirmos
opensamentodeHumeaténascurvasqueestetraça,nãodiremossenãoque“[...]nelanãoexiste
[...] nem simplicidade em um momento, nem identidade ao longo de momentos diferentes,
167
emborapossamosterumapropensãonaturalaimaginaressasimplicidadeeidentidade”(HUME,
2009, p. 285-286).
Por isso, para nosso autor, a identidade é uma qualidadeatribuídapelaimaginação,uma
vez que
[ ...] asúnicasqualidadesquepodemdaràsideiasumauniãonaimaginação
são as três relações antes mencionadas. Essas relaçõessãoosprincípiosde
uniãodomundoideal,esemelastodoobjetodistintoéseparávelpelamente,
pode ser considerado separadamente, e não parece ter mais conexão com
nenhum outro objeto do que se ambos estivessem separados pela maior
diferença e distância. Portanto, é deumaoumaisdentreessastrêsrelações
(de semelhança, contiguidade e causalidade) que a identidade depende. E,
comoaessênciamesmadessasrelaçõeséproduzirumatransiçãofácilentre
ideias, segue-se que nossas noções de identidade pessoal decorrem
integralmente do progressosuaveeininterruptodopensamentoaolongode
uma cadeia de ideias conectadas, de acordo com os princípios acima
explicados. (HUME, 2009, p. 292-293).
Assim, o sujeito não é, para Hume, uma fundação sólida, mas um efeito frágil, uma
subjetividade em sentido larvar constantemente se fazendo e se desfazendo no fluxo das
percepções que podem compô-la em um dado momento (espaço-temporal finito) determinado
por circunstâncias variáveis. É nesse sentido que podemos fazer uma apreciação de que a
unidade a que seacreditachegar(enquantoidentidade)nãoésubstancial,masrelacionale,em
última instância, fictícia (ficcional): é uma fragilidade constitutiva que mantém sempre uma
abertura para se pensar a(s)subjetividade(s)nãomaistotalizadanoMesmoenaIdentidadeem
sentido estritamente fixo, mas nadiferençae namultiplicidade.
4.2. Subjetividade larvar: a precariedade como condição ontológica para os processos de
subjetivação
A investigação humeana sobre a identidade pessoal, analisada naseçãoanterior,nãonos
conduziu a uma mera constatação da fragilidade do eu, mas a uma aporia filosófica de
consequências aterradoras. Nesse sentido, ao levarmos o princípio empirista às suas últimas
consequências,podemosdizerqueHumebuscoudemonstrarqueosujeito,sepensadoenquanto
substância una e contínua, é empiricamente infundado. Ora, o ensimesmamento sugerido pelo
empirismo humeano não nos apontou um centro estável, mas uma coleção de diferentes
percepçõesemperpétuofluxo,eaidentidadequecostumamosatribuiraessefluxonãofoisenão
umalgoproduzidoporumaficçãodaimaginação,umefeitodohábitoqueconfundiriasucessão
compermanência.Assim,aonossover,nãoéqueconsideramosapenasqueoeusejafrágil,mas
que,apartirdeDeleuze,eleéumfantasma,umailusãonecessáriaquenosdeixanavertigemde
um caos de percepções sem umsujeitopara unificá-las.
168
É precisamente a partir desta vertigem, destepontozerodasubjetividade,queestaseção
(ainda quedemaneirasuave)operaráumadecisivatransvaloraçãoconceitual.Oqueafilosofia
clássicaviacomoumimpasseouumescândalocético,opensamentodeDeleuzeenxergoucomo
algovitalparaumanovagênese.Nisso,aquestãodeixoudeseraderemontarumsujeitoapartir
dos cacos deixadosporHumeetomaraprópriadissoluçãocomoumprincípiopositivo.Parao
pensamento deleuziano, a ausência de um eu fundador não foi visto um problema de cunho
epistemológico,masumaafirmaçãoontológicaincontornável:ora,paraDeleuze,asubjetividade
nãoseriaalgoaserencontrado,masalgoqueéproduzido.Ofluxocaóticodepercepções,ofeixe
humeano, foi ressignificado pelo pensamento deleuziano: de coleção passiva, ele passou a ser
compreendidocomoumcampovibrantedeintensidadespré-individuais,umplanodeimanência
a partir do qual os processos de subjetivação podem emergir.
Assim, neste novo terreno, nossa seção introduz a noção de subjetividade larvarcomoa
condição ontológica fundamental que a análise de Hume nos permitiu vislumbrar através de
Deleuze.Disso,podemosdizerqueaprecariedadedeixadeserumafalhaparasetornaraprópria
potência do devir. E mais, sem perdermos Deleuze de vista, conseguimos afirmar que a
subjetividade, em seu estado nascente, é este estado larvar: um campo de singularidades
impessoais, umdelíriode percepções ainda não organizadas em umeuestável.
Dessemodo,nossainvestigaçãotocaráumtantomelhoremcomo,apartirdestacondição
de precariedade radical – de ser umefeito,umadobradeforçasqueultrapassamodado–,um
sujeito pode, ainda assim, advir. Analisaremos como os princípios de associação, vistos não
como faculdades do sujeito, mas como forças que agem sobre o fluxo, operam as primeiras
sínteses que coagulam o caos e dão origem a um eu como primeiro efeito. A passagem da
fragilidade humeana para a subjetividade larvar deleuziana é, em suma, a passagem da
desconstruçãodeumailusãoparaumprocessodecriaçãocontínua,emqueosujeitoemergenão
como um mestre em sua própria casa, mas como umhóspedeprecárionocoraçãodofluxoda
imanência.
Pois bem, trataremos agora do sujeito emseuestadodedevir.Nopanoramadetudoque
colocamosatéaquioumesmonopensamentocontemporâneo,nãoestamossendotãoousadosao
dizer que a filosofia de Deleuze emerge como uma potente ferramenta para desestabilizar as
concepções tradicionais de sujeito, entendido como uma entidade una, estável e preexistente.
Nisso, em contraposição a essa visão, Deleuze, particularmente em sua leitura de Hume,
principalmenteemEmpirismoeSubjetividade,propõeumagêneseradicaldasubjetividade,que
não parte de um eu constituinte ou já constituído,masdeumcampoimpessoaleprecário,um
169
fluxo de percepções que precede e condiciona qualquer forma de identidade. É neste terreno
movediço que se pode situar o conceito de subjetividade larvar, uma condição ontológica que
vemoscomofundamental,emqueaprecariedadenãofiguracomoumafalhaouumafalta,mas
como a própria potência a partir da qual os processos de subjetivação se tornam possíveis.
Assim, nesta seção, fomos no caminho de exploração dessa noção, argumentando que a
reinvenção de si, sugerida pela compreensão de subjetividades descontínuas, passa
necessariamente por um mergulho na dimensão pré-individual e delirante da qual nos busca
fortementeapontaropensamentodeleuziano:ondeosujeitoaindanãoé,masestáemconstante
devir.
Sendo assim, a questão que norteia a análise de Deleuze sobre o empirismo de Hume é
fundamentalmente uma questão de gênese; por isso, perguntemo-nos uma vez mais: como o
espírito devém uma natureza humana? A formulação daperguntafeitaporDeleuzejáindicaa
recusadeumpontodepartidatranscendental.Osujeitonãoéumdado,masumresultado;nãoé
umaorigem,masumefeito.Antesdosujeito,háodado,umfluxocaóticodeideiaseimpressões
que Deleuze, seguindo Hume, identifica com a própria imaginação em seu estado bruto. É a
partirdestacondiçãoinicialdeprecariedade,destefundodoespíritoqueédelírio,quealgocomo
um sujeito pode, eventualmente, emergir. Ora, para nós, levando Deleuze como nosso radical
argumentativo, a subjetividade larvar é precisamente este estado embrionário, este campo de
intensidadesesingularidadesimpessoaisquepulsasobasformasconstituídasemqueoeupode
se dispor. Assim, analisarmos a subjetividade a partir desta perspectiva larvar implica
deslocarmosofocodaidentidadeparaoprocesso,daformaparaasforças,doserparaodevir,
compreendendo a precariedade não como um estado a ser superado, mas como a condição
imanente de toda criação existencial.
Seguindo por esse caminho, também podemos dizer que a precariedade originária da
subjetividade está na condição do espírito enquanto coleção não só de ideias, mas tambémde
delírios. Nisso, para compreendermos a noção de subjetividade larvar, é imperativo partir do
ponto incipiente que Deleuze estabelece em sua leitura de Hume, qual seja: a negação de
qualquer substancialidade ou atividade previamente intrínseca ao espírito. Longe de ser uma
naturezaouumteatroemqueasrepresentaçõesocorrem,oespírito,emsuacondiçãoprimordial,
para nosso autor, não é nada mais que o próprio fluxo de percepções. Deleuze é enfático ao
afirmar a trama consistente entre o espírito, a imaginação e a ideia, isto é, “o espírito não é
natureza,nãotemnatureza”,umavezque“eleéidênticoàideianoespírito”,ouseja,“aideiaéo
170
dadotalcomoéeledado,éaexperiência”(DELEUZE,2012,p.10).Oespíritoédadonofluir
do imaginar, no fluxo imaginário da formação de ideias.
Daí temos que esta condição inicial é da mais absoluta precariedade, visto que, para o
pensamentodeleuziano,nãoháumsujeitoquepossuiasideias,nemumaformaqueasorganiza;
o que háéuma“coleçãodeideias,[quenãoé]nemmesmoumsistema”(DELEUZE,2012,p.
10):umamálgamadepercepçõesdiscretasedesconexas.Ora,paranossofilósofofrancês,éuma
coleção sem colecionador, um teatro sem palco. Disso, podemos dizer que talausênciadeum
lugar, de um continente para o conteúdo, é a marca da precariedade ontológica que somos
capazes de afirmar como desígnio da subjetividade em seu estado nascente. Ora, ao nós
voltarmos para Deleuze, nãopercebemossenãoqueoespíritoéaprópriadispersão,ocaosdas
impressões,enossoautorlevaessaideiaaoseuextremoaocaracterizarofundodoespíritocomo
delírio ou acaso. Para ele, a imaginação, em si mesma, não teria o caráter faculdade
organizadora, mas uma fantasia capaz das considerações mais lancinantes como “engendra
dragões de fogo, cavalos alados, gigantes monstruosos [em nossas operações simbólicas]”
(DELEUZE, 2012, p. 11); pois bem, ao seguirmos fortemente o pensamento de Deleuze, é a
partirdestecaos,destamatéria-primadeliranteeimpessoalquemencionamos,queosprocessos
de subjetivação terão que operar.
Assim,podemosdizerqueasubjetividadeemestadolarvaréesteestadopré-subjetivo,em
queoeuaindanãoseconstituiucomoumaunidadedistintadofluxodepercepçõesquepodevir
a compor. É uma existência puramente passiva e receptiva, um campo de afecções. Daí,
vinculados a Deleuze, podemos considerar que a questão crucial que percorre toda a obra
EmpirismoeSubjetividadeéprecisamenteadecomoseoperaapassagemdeumestadocaótico
para algo que se possa chamar de sujeito – coisa jáapontadanaslinhasiniciaisdenossoobra
central:“Comoaimaginaçãodevémumafaculdade?”(DELEUZE,2012,p.12).Ora,aresposta
de Deleuze, seguindo Hume, não estará em uma atividade intrínseca ao espírito, mas em
princípios externos que o afetam e o organizam: os princípios de associação (contiguidade,
semelhança e causalidade): é crucial notar que estes princípios não emanam do espírito; eles
agemsobreele.Porisso,paranossofilósofo,asubjetivaçãocomeçaquandoofluxodeliranteda
imaginação é coagulado e, certo modo,organizadoporestasforçasexternas;o sujeitonãoéa
origemdaassociação,masoseuprimeiroefeito,postoque“asideiassãoligadasnoespírito,não
porele”(DELEUZE,2012,p.13).Ora,talpassividadefundamentanteéocernedaprecariedade
ontológica, ou seja, o sujeito emerge não comoummestreemsuaprópriacasa,mascomoum
hóspede, um efeito de forças que o ultrapassam.
171
Porisso,paraDeleuze,asubjetividadelarvaréestacondiçãodeserativadosemserativo,
deseropalcodeumasíntesequenãoseoriginaemsimesma.Éaprecariedadedeserumefeito,
uma dobra do Fora, antes de poder se afirmar como uma causa ou uma origem.
Àvistadisso,sobreestagênesedosujeito,quevaidohábitoàcrença,precisamoscolocar
queseacondiçãoinicialdoespíritoéadeumacoleçãopassivaedelirante,entãocomoseopera
a transição para um sujeito quecrê,queesperaequeagenomundo?ArespostadeDeleuze,a
partir deHume,resideemalgojácolocado,ummecanismoimprescindível,qualseja:ohábito.
ParaDeleuze–comoponderadoaomenosnasentrelinhasdenossodiscursoatéaqui–,ohábito
não é senão o princípio que força a imaginação a sair de sua indiferença e a estabelecer
conexões: a criar expectativas. Nisso, é através da repetição de conjunções constantes na
experiência queoespíritoélevadoainferir,oumelhor,aacreditarqueofuturoseassemelhará
aopassado.Todavia,aindaquepontualmente,precisamosressaltarqueéimportantesublinhara
natureza paradoxal do hábito. Para nosso autor, ele não é umprodutodarazão,massimasua
raiz.Nessesentido,podemosdizerquenãoéosujeitoquedecidecontrairumhábito;éohábito
que, ao se formar, constitui o sujeito. Ora, ao seguirmos Deleuze, a repetição, por si só,nada
produznosobjetos;elaéestéril.Masnoespíritoqueacontempla,elaproduzalgoradicalmente
novo,istoé:umatendência,umaexpectativa,umacrença.Deleuzedescreveesteprocessocomo
uma verdadeira criação, citemo-lo:
repetiçãodevémumaprogressão,emesmoumaprodução,quandosedeixa
A
de considerá-la relativamente aosobjetosqueelarepete,nosquaiselanada
muda, nada descobre e nada produz, para, ao contrário, considerá-la no
espírito que a contempla e no qual ela produz uma nova impressão, “uma
determinaçãoalevarnossospensamentosdeumobjetoaoutro”,“atransferir
o passado ao porvir”, uma espera, uma tendência. (DELEUZE, 2012, p. 73).
Assim,conseguimosarrazoarqueosujeitoemergecomoumacriaturadohábito,emquea
subjetividade não seria uma essência, mas uma dobra da repetição,umaimpressãodeixadano
espírito pelofluxodaexperiência.Ora,aoconsiderarmosfortementeDeleuze,faz-seclaropara
nós que a crença, que é o primeiroatodosujeito,nãoéumaescolhaouumadecisãoracional,
mas umaafecção,umamaneiradesentiravivacidadedeumaideiaassociadaaumaimpressão
presente:ouseja,osujeitoé,antesdetudo,aquelequeéafetadopelacrença,queélevadoacrer.
Portanto,eisasuaprecariedadeconstitutiva:suaprimeiraafirmaçãonomundonãoéumatode
liberdade,masumapaixão,umefeitodacausalidadesentidacomouma“impressãodereflexão”
(DELEUZE, 2012, p. 136).
Nessadireção,arriscamo-nosdizerquealarvaridadedasubjetividadepersistemesmoapós
aformaçãodoshábitosedascrenças.Daíosujeitoqueemergedesseestadodeserlarvaréum
172
sujeito fendido, precário, constantemente ameaçado pela fantasia que continua a operar sob
impreteríveisregrasdaassociação.Aimaginação,mesmoregrada,nãodeixadeserdelirante.Ela
pode “fingir, invocar uma falsa experiência, epodeproduziracrença‘medianteumarepetição
que não procede da experiência’” (DELEUZE, 2012, p. 74). Por isso, podemos pensar que o
sujeitoéumcampodebatalhaentreasforçasdohábito,queofixameonaturalizam,easforças
da fantasia, que o dissolvem e o desterritorializam. A reinvenção de si, neste contexto, não
significaalcançarumaidentidadeestáveledefinitiva,masaprenderasingrarnestescaminhosde
forças variáveis,ajogarcomasregrasgerais,acriarnovascrençasenovoshábitos,apartirda
precariedadequeéasuacondiçãoontológica.Aliás,emDiferençaeRepetição,Deleuzeretoma
talideiadeumasubjetividadeembrionáriasobanoçãodesubjetividadeslavares.Aoanalisara
embriogênese, ele distingue o embrião comosuportedequalidadesepartesdo“embriãocomo
sujeito individual e pacientededinamismosespaço-temporais,[istoé,oembriãocomo]sujeito
larvar” (DELEUZE, 2018, p. 284).
Para nós, tal sujeito larvar mencionado por Deleuze é a própria intensidade do
desenvolvimento,ocampodeindividuaçãopré-pessoalqueprecedeaconstituiçãodoorganismo.
Eleépurapassividadeepaciência,olugarondeasforçasdoForaseencontramesecompõem.
Daí a subjetividade humana, para Deleuze, nunca abandona completamente este estadolarvar,
pois sob o Eu molar e organizado, pulsam fluidos larvares do subjetivo, as intensidades e os
deviresqueconstituemanossaverdadeiramatéria.Portanto,aprecariedadenãoé,aomenosao
nossover,umestágioasersuperado,masacondiçãoimanentedaprópriavida,apotênciadeser
afetado e de se transformar que determina a subjetividade como um processo aberto e
descontínuo.
Quanto ao mais, ainda nos cabe dizer que, sobre a reinvenção de si como devir-larvar,
talvezcompreenderasubjetividadecomooperaçõeslarvaresindomáveiseaprecariedadecomo
sua condição ontológica implica uma profunda reorientação ética e política. Ora, pensando
deleuzianamente, tal reinvenção de si não pode mais ser pensada como o projeto de um Eu
autônomo que se constrói a si mesmo a partir do nada, mas como um processo de
despersonalização, uma abertura às multiplicidades que nos atravessam.ComoDeleuzeafirma
em Conversações, “um indivíduoadquireumverdadeironomepróprioaocabodomaissevero
exercício dedespersonalização”,eisso“quandoseabreàsmultiplicidadesqueoatravessamde
ponta a ponta” (DELEUZE, 2008, p. 15), ou seja, reinventar-se é, ao menos no sentido da
passagem destacada, um devir-larvar: um retorno àquela dimensão pré-individual e impessoal
ondenovasconexõessãopossíveis,emquenovoshábitospodemsercontraídosenovascrenças
173
podem serforjadas.Éummergulhono“fundodoespírito”queédelírio,nãoparaseperderno
caosqueaelepodeserdesignado,masparaextrairdelenovasformasdevida.Assim,podemos
dizerquesetratadeumprocessoquesedásemprenoentre,comoDeleuzesublinhaaocolocar
que “alguma coisa que está entre os dois, fora dos dois, e que corre em outra direção”
(DELEUZE; PARNET, 1998, p. 15). Diante disso,asubjetividadedescontínuaéaquelaquese
constitui nestes entres, nestes espaços de devir onde as identidades se dissolvem e se
recompõem.
De mais a mais, ainda nos cabe dizer que a precariedade, longe de ser uma fraqueza,
faça-se assim como a própria potência da vida: a sua capacidade de variar e de se
metamorfosear. Para nós, a subjetividade larvar não é uma forma imperfeita ou inacabada de
sujeito, mas a condição imanente de uma existência que se define pela criação e pela
experimentação. Por isso,areinvençãodesiéumprocessointermináveldediferenciação,uma
navegação constante no oceano caótico daspercepções,guiadanãoporumavontadesoberana,
mas pela atenção às forças que nos afetam e nos transformam. É, portanto, a arte de fazerde
nossa precariedade uma potência, de nosso delíriosapiência,edenossapassividadeumafonte
inesgotável de criação.
CONCLUSÃO
Porfim,chegamosaofinaldenossoexamesegurosdanoçãodequeasubjetividadeéum
processo aberto e descontínuo. Nosso percurso até aqui nos conduziu das fundações do
empirismodeHumeàsfronteirasdafilosofiadaimanênciadeDeleuze,emqueconsideramoso
despontar de uma imagem nova da subjetividade. Daípartimosdeumaquestãoaparentemente
simples, isto é, Como se constitui a experiência subjetiva?, para descobrirque,emDeleuze,a
resposta nos exigiu o desmantelamento das noções mais arraigadas de eu e das noções de
identidadeeconsciência.
À vista disso, a trajetória de nosso trabalho demonstrou que a subjetividade não é uma
substância ou uma entidade pré-existente, mas um efeito precário e contínuo, um processo de
criação que sedesenrolanoplanodeimanência.Nisso,oprimeirograndemovimentodenossa
investigação,aoexplorarofluxodaimanência,mostrou-nosqueaexperiênciaseoriginanãoem
um sujeito constituído, mas em um fluxo caótico de percepções. Nossa análise de Hume nos
forneceu os átomos dessa experiência – as impressões e ideias – e as leis que governam suas
conexões iniciais, os princípios de associação. A leituradeleuziana,porsuavez,ajudou-nosa
operarumatorçãodecisiva,qualseja,deslocaraquestãodainterioridadehumanaparaumplano
deimanênciapré-individual,emqueoproblemafundamentalsetornouododevir-sujeito.Nossa
174
análise das condições da experiência, espaço e tempo, como os modos da imaginação,
consolidou a imagem de um universo psicológico imanente, culminando na compreensão do
ultrapassamento do dado como uma gênese sem sujeito.
À vista disso, tivemos como segundo movimento de nossas investigações o advento da
natureza humana, em que abordamos o problema da consistência: nele, perguntamo-nos se a
subjetividade emerge do fluxo, como ela adquire estabilidade? Pois bem, nossa resposta foi
encontrada na relação com a exterioridade, em que buscamos demonstrar que é através da
crença,fundadanohábitoenarepetição,queoespíritoorganizaocaosesetornacapazdeagir
sobre o que para ele se encontra passivo. O eu, assim como a noção de mundo exterior,
mostrou-seumaficçãoútil,umafabulaçãodaimaginaçãonecessáriaparaavidaprática;todavia,
aanálisedacontinuidadedaexperiêncianaParteIVdoTratadoconfirmou-nosqueaidentidade
pessoal não é senão entendível feixe de percepções, uma construção funcional, apesar de
filosoficamente injustificável. Portanto, chegamos à consideração de que a subjetividade se
constituinãopelaintrospecção,masaosevoltarparafora,emumembatecontínuocomumFora
que a atravessa e a molda constantemente.
Por último, em nosso terceiro movimento, junto a Deleuze, empreendemos uma
transvaloraçãoconceitual,istoé,buscamostratarafragilidadedaidentidade,expostapelacrítica
humeana, enquanto ressignificada como precariedade ontológica, como a própria condição de
possibilidadedosprocessosdesubjetivação.Nisso,emDeleuze,vimosqueaausênciadeumeu
fundador deixou de ser um problema intransponível para se tornar uma potência, ou seja,
tratamosdaconcepçãodesubjetividadelarvarenquantoalgoemergidocomodesignaçãoparaos
estados pré-subjetivos: os campo de intensidades e singularidadesimpessoaisemqueosujeito
podeadvir.Quantoaomais,apassagemquefizemosdeHumeaDeleuzenosmostrou,emúltima
análise, comoapassagemdadesconstruçãodeumailusãoparaatopografiadeumprocessode
criação contínua.
Daí, em resumo, podemos dizer de uma maneira mais objetiva que a investigação que
fizemosnoslevouasubjetividadenãoésenãoumefeitoquesurgedeumcampopré-individual;
o fluxo da imanência é o movimento contínuo que vai da percepção em estado elementar à
emergência dosujeito,semrecursoainstânciastranscendentesforadaimanente;aconsistência
do sujeito é forjada não na introspecção, mas narelaçãocomaexterioridade;afragilidadeea
precariedade não são falhas, mas a própria condiçãoontológicadosprocessosdesubjetivação;
porfim,asubjetividadelarvarfoipensadopornóscomooestadopré-subjetivodepotênciapura,
o campo de intensidades em que o sujeito vem a ser.
175
Em suma, nosso trabalho buscou argumentar que a subjetividade é um processo aberto,
descontínuo e imanente: ao nosso ver, ela não é uma essência a ser descoberta, mas um
acontecimento a ser constantemente produzido. A natureza humana não é uma condição fixa,
masoconjuntodemaquinismos(hábito,crença,imaginação)quedobramofluxodaimanência
sobre si mesmo para criar uma consistência precária, mas funcional. Disso, a implicação
filosóficadenossaconclusãoéprofunda:areinvençãodesinãopodemaisserpensadacomoo
projetodeumeu apenasautônomo,mascomoumdevir-larvar,umaaberturaàsmultiplicidades
que nos atravessam, um mergulho na precariedade para extrair dela novas formas de vida.
Trata-se, portanto, da arte de fazer de nossa fragilidade uma potência, de nosso delírio uma
sapiência, e de nossa passividade uma fonte inesgotável de criação.
176
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