O Programa Estudante Convênio de Graduação (PECG) atua no intercâmbio de estudantes de países da África, Ásia e América Latina para o Brasil desde a década de 1980 e já promoveu a conclusão do ensino superior de centenas de alunos de Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Guiné-Bissau, por exemplo. Para 2008, a previsão é de que aproximadamente dez estudantes ingressarão na Universidade Federal de Alagoas.
Depois de uma rígida e burocrática seleção dos estudantes – que dura quase um ano –, os pais ou responsável se comprometem a bancar todos os custos com a vinda e com a permanência do estudante em solo brasileiro. Entre os critérios de seleção está a renda, que deve ser maior que 800 dólares per capita, ou seja, uma receita alta o suficiente para custear a vida de um universitário no Brasil.
Contudo, de acordo com levantamentos feitos pela própria Ufal, a maioria dos estudantes oriundos de países africanos que vêm para o Brasil tem dificuldades financeiras. A partir de tais dados o Governo brasileiro criou uma espécie de bolsa, uma ajuda de custo para os estudantes que comprovarem sua situação econômica. O valor da ajuda é de um salário mínimo (R$ 380) pago durante doze meses. O benefício pode ser prorrogado perante nova comprovação de situação econômica.
A forma de ingresso destes estudantes não é por meio de vestibular, mas sim devido a um acordo entre o Brasil e os países signatários do PECG, que, através de suas embaixadas, realizam a distribuição de vagas e o processo seletivo. Em tal processo, o estudante tem direito a escolher o curso que deseja fazer e até mesmo o lugar onde quer morar, mas este último depende da disponibilidade de vagas.
Ismael Tcham, estudante de Comunicação Social, é um destes estudantes africanos que se submeteram aos rigorosos programas de seleção do PECG em busca da conclusão do ensino superior no Brasil. Originário da Guiné-Bissau, ele diz que enfrentou muitas dificuldades ao chegar ao País – desde a moradia até as questões do idioma – porque foi um dos primeiros a vir estudar em Alagoas. Mas agora, “para qualquer pessoa que vem já é procurado um apartamento pra morar”, ressalta Tcham, referindo-se aos recém-chegados.
COLONIALISMO CULTURAL – Tcham também fala das dificuldades em relação à língua portuguesa: “Todo o ensino na Guiné é completamente atrelado ao ensino colonial, no caso, o português de Portugal”, asseverando que a influência da educação lusitana no português falado na África se reflete nos primeiros momentos de comunicação no Brasil.
O estudante de Ciências da Computação, Dílson Lacerda, diz que o primeiro ano aqui foi o mais difícil no que tange ao idioma: “Eu não entendia praticamente nada do que os professores falavam no primeiro ano e eles também não me entendiam, mas com o tempo eu comecei a pegar um pouco do sotaque e os colegas também pegaram algumas expressões minhas”.
Segundo Tcham, o Nordeste do Brasil se assemelha bastante à África Ocidental pelo clima e pelas manifestações culturais. Ele diz que não sentiu nenhum preconceito no Brasil e que o problema maior é a ignorância em relação à África. “Os grandes meios de comunicação só mostram a fome, a miséria, a Aids. A África é muito mais que isso”, assegura.
É por isso que além de estudarem, Tcham e Lacerda também trabalham pelo reconhecimento da cultura africana no Brasil. A inclusão da Semana da Cultura Africana no Congresso Acadêmico é uma das conquistas da dedicação destes estudantes, que também organizam algumas das festas africanas que têm acontecido na Ufal.
Indagado se gostaria de continuar a viver no Brasil – depois da colação de grau os estudantes têm três meses para voltar ao seu país de origem –, Tcham responde que gosta de viver aqui, mas que a demanda de mão-de-obra qualificada é muito grande na África e que precisa voltar para dar sua contribuição à terra natal.